Quero uma revista
Cesare Lombroso propagou a tese do "criminoso nato", defendendo que a inclinação para o delito estava inscrita nos traços biológicos do indivíduo. No Brasil, o médico e antropólogo baiano Raimundo Nina Rodrigues adaptou essa vertente para afirmar que o desenvolvimento mental e a responsabilidade jurídica eram ditados pela raça, associando diretamente o povo negro à instabilidade social.
Essa ideologia eugenista não morreu; ela se burocratizou e se sofisticou. As academias de formação policial e os critérios implícitos de seleção em concursos públicos da segurança pública perpetuam a lógica lombrosiana ao desenharem o chamado "tirocínio policial". Sob o verniz da experiência técnica, o sistema criminal continua elegendo o racismo estético como balizador operacional. O cabelo crespo armado, os lábios grossos e o nariz largo são convertidos em indicadores informais de periculosidade. O preconceito veste a farda institucional para transformar características físicas e ancestrais na justificativa imediata para a abordagem violenta e a filtragem racial nas ruas.
9.4 A Geometria do Abandono: Política Pública de Exclusão e o Território Oprimido
Para desatar o nó complexo que envolve os altos índices de violência nas favelas e comunidades pobres, o leitor precisa ser conduzido por uma análise honesta e despida de demagogia. É preciso deixar um marco analítico muito claro: apontar as engrenagens coloniais e a omissão estatal que operam na periferia não significa, em hipótese alguma, justificar o crime, relativizar a violência ou retirar a responsabilidade moral e penal do indivíduo que comete um delito. O crime é um fato social reprovável, e a sociedade tem o direito de se defender dele através de leis justas. O que se propõe a desmascarar não é a aplicação da lei penal em si, mas sim por que a balança da justiça foi intencionalmente calibrada para ter cor e endereço.
O pensamento conservador tenta emplacar a narrativa perversa de que a violência seria uma característica "natural" das periferias. Para romper com essa falácia, recorremos às lições do geógrafo Milton Santos sobre a "opacidade do espaço", que demonstra como o território habitado pela pobreza sofre de uma carência planejada de infraestrutura e recursos técnicos. Os índices elevados de criminalidade nessas regiões não surgem do vácuo, mas da atuação seletiva do Estado. O poder público é historicamente ausente em oferecer escolas públicas de tempo integral, saneamento básico, lazer e oportunidades reais de emprego; no entanto, faz-se violentamente presente por meio do braço armado da polícia. A única face do poder público que o jovem da periferia conhece com regularidade é o bocal de um fuzil.
Essa dinâmica de segurança baseada exclusivamente no confronto e no controle de corpos é o que o filósofo Achille Mbembe conceitua como Necropolítica: o poder soberano do Estado de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Nas favelas