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Pesquisadores de arte sacra e indumentária, como Raul Lody, destacam que as vestimentas tradicionais expressam hierarquia, proteção espiritual, realeza e status comunitário. A perseguição a esses trajes integrava o projeto de apagamento visual eurocêntrico, que buscava impor à população negra os padrões estéticos ocidentais como sinal de aculturação. A ostentação pública do torço e das guias representava a recusa em se submeter à estética colonizadora, razão pela qual a vestimenta sagrada ainda é alvo de intolerância nas cidades.
7.7 A Resistência Territorial: O Preconceito Contra os Quilombos Hoje
O conceito de quilombo estruturou-se no período colonial como território geográfico, social e político de liberdade, onde a população negra reconstruía formas autônomas e comunitárias de organização. Passados séculos da abolição, as comunidades remanescentes de quilombos ainda enfrentam isolamento, violência e negação de direitos.
A hostilidade contemporânea às comunidades quilombolas decorre precipuamente de disputas econômicas e do racismo fundiário. Grupos latifundiários e interesses imobiliários frequentemente opõem-se ao direito constitucional de titulação das terras ancestrais quilombolas (garantido pelo artigo 68 do ADCT da Constituição de 1988). Para justificar a usurpação territorial e a exploração dos recursos naturais, o racismo estrutural reproduz estereótipos que qualificam os quilombolas como "invasores" ou "atrasados".
Defender a regularização e a integridade dos territórios quilombolas hoje é manter ativa a resistência histórica de Zumbi dos Palmares e Tereza de Benguela contra o projeto de exclusão territorial e socioeconômica.
A análise da espiritualidade, da gastronomia, da música, da capoeira, da indumentária e do território evidencia que a cultura afro-brasileira nunca representou um conjunto passivo de tradições, mas sim uma tecnologia contínua de preservação da vida, afeto e emancipação econômica. A superação do racismo estrutural no Brasil exige o reconhecimento da contribuição africana não como apêndice do patrimônio nacional, mas como pilar fundador da identidade e da soberania do país.