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1.6 uma herança que não ficou no passado
Nada disso surgiu do vácuo. O Brasil sustentou por mais de três séculos o regime da escravidão, sequestrando, mercantilizando e desumanizando milhões de africanos e seus descendentes. A violência colonial tentou apagar nomes, línguas, laços familiares, crenças e identidades.
Quando a escravidão foi formalmente abolida em 1888, o Estado brasileiro não ofereceu nenhuma política de reparação ou suporte: não garantiu terras, moradia digna, inserção educacional ou oportunidades de trabalho formal às populações recém-libertas. Ao contrário, abriu espaço para a imigração europeia subsidiada enquanto empurrava a população negra para a margem da sociedade formal. Assim, as bases da desigualdade foram preservadas e transmitidas de geração em geração.
Por isso, certas falas, atitudes e posições sociais atuais não podem ser dissociadas dessa raiz histórica. Compreender esse passado não significa "ficar preso a ele"; significa entender por que o presente é do jeito que é e como podemos transformá-lo.
1.7 quando o racismo vestiu jaleco: a falsa ciência da criminalização
Para entender como essas assimetrias ganharam força institucional logo após a abolição, precisamos examinar o papel desempenhado por certas correntes científicas do final do século XIX.
Na Europa, o médico italiano Cesare Lombroso propagava a teoria do "criminoso nato", associando traços físicos e antropológicos à propensão ao crime. Embora hoje seja desprovida de qualquer validade científica, essa teoria foi avidamente importada e adaptada pelas elites intelectuais brasileiras para legitimar hierarquias raciais sob um verniz de modernidade.
No Brasil, o médico e antropólogo baiano Raimundo Nina Rodrigues tornou-se o principal expoente dessa vertente. Em seus estudos, ele argumentava que a raça determinava a responsabilidade moral e jurídica, atribuindo taras criminosas e instabilidade inerentes à população negra e mestiçada.
Esses discursos "científicos" cumpriam uma função social muito clara: em vez de o Estado assumir a responsabilidade pelas péssimas condições de vida impostas pelo pósabolição, a ciência da época criava justificativas teóricas para que a polícia e o judiciário tratassem a população negra como um perigo social permanente a ser vigiado e punido.
É dessa raiz histórica que brota o conceito contemporâneo do perfil suspeito Ele não surge do nada; apoia-se em mais de um século de associação forçada entre a negritude e a criminalidade.