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No Brasil, quem detém o poder histórico, econômico e institucional é a branquitude. As instâncias de decisão as grandes corporações, os tribunais de justiça, o parlamento, as universidades de elite e os comandos policiais foram moldadas para privilegiar a população branca.
Portanto, para que exista racismo, o ato discriminatório precisa vir acompanhado de poder estrutural para marginalizar, excluir e silenciar o grupo afetado. Uma pessoa branca pode, isoladamente, ser ofendida por um negro, mas ela jamais será vitimizada por um sistema estrutural que a impeça de conseguir um emprego, que a sujeite a abordagens policiais violentas pelo tom da pele ou que negue sua humanidade na história oficial.
8.2 A falácia do "racismo contra brancos" nas redes sociais
Com o advento da internet e das redes sociais fenômeno que debatemos no Capítulo 5 a retórica do "racismo reverso" ganhou escala industrial. Quando ativistas, intelectuais ou cidadãos negros utilizam as plataformas digitais para apontar privilégios brancos, cobrar reparação histórica ou criticar o racismo estrutural, a reação imediata de parte do público dominante é clamar por "racismo reverso".
Essa inversão é uma tentativa covarde de silenciamento. O sistema de justiça e a opinião pública tradicional muitas vezes tratam o incômodo do opressor com mais comiseração do que a dor real do oprimido. Quando a população negra nomeia o racismo, a branquitude se sente ofendida não pelo ato em si, mas pela perda do monopólio da narrativa. O incômodo de ver a estrutura de privilégio ser questionada é rotulado falsamente como "discriminação".
8.3 O ataque às cotas e às Ações Afirmativas: a distorção da igualdade
O terreno onde a falácia do "racismo reverso" opera com mais força institucional é o debate sobre as políticas de cotas (raciais e sociais) em universidades públicas e concursos públicos.
Argumenta-se de forma demagógica que reservar vagas para negros seria "discriminar os brancos", ignorando propositalmente o princípio mais elementar da justiça distributiva: tratar os desiguais de forma igual é a maneira mais perversa de perpetuar a desigualdade.
As cotas não surgiram como um "privilégio", mas como uma medida de reparação histórica e justiça corretiva. Depois de mais de 300 anos de escravidão oficial, seguidos por décadas de abolição incompleta onde o Estado brasileiro lavou as mãos e empurrou a população negra para a margem da sociedade, sem terra, sem escola e sem emprego a meritocracia alardeada pela elite tornou-se uma farsa. A linha de largada da sociedade nunca foi justa.