Quero uma revista
por possuir certos "privilégios" em relação ao retinto. A gente precisa olhar para isso com muita paciência pedagógica e desatar esse nó o sistema de fato dá uma colher de chá para quem tem a pele clara, mas isso não muda o sangue, a descendência e a ancestralidade dessa pessoa. Negar a identidade negra ao homem ou à mulher de pele clara é cair de cabeça na armadilha da elite branca e assinar embaixo do Projeto de Embranquecimento de João Batista de Lacerda! Quando expulsamos os mais claros da nossa identidade, estamos entregando-os de bandeja para a branquitude e dizendo que o plano do governo de nos apagar funcionou. O colorismo não serve para criar barreiras dentro do nosso próprio povo, mas para denunciar a malandragem do branco, que trata os irmãos de forma diferente para que eles passem o tempo brigando entre si em vez de se unirem para derrubar a estrutura que oprime a ambos.
4.5 O embranquecimento no cotidiano: do conselho de família ao balcão do cartório
O impacto desse projeto eugenista e segregador não ficou restrito às teses científicas do século passado nem aos relatórios governamentais. Ele penetrou profundamente no cotidiano, nos lares e nas instituições mais básicas da nossa sociedade. Nas famílias, a ideologia do branqueamento virou "conselho". Quem nunca presenciou falas orientando que a pessoa preta precisava "casar com alguém mais claro" para que os filhos não nascessem com a pele retinta ou com traços negros marcados usando até termos pejorativos para comparar a cor escura a madeiras pesadas ou coisas indesejadas? Esse tipo de conselho, reproduzido muitas vezes com intenção de proteção, revela a violência psicológica de um povo que foi ensinado a sentir medo e vergonha da própria cor para tentar poupar os descendentes do sofrimento da discriminação.
Essa mesma lógica operava e muitas vezes ainda opera de forma aberta nos balcões dos cartórios de registro civil. Ao longo de décadas, ao registrar um recém-nascido, era comum o próprio tabelião interferir na declaração dos pais. Se a família falava que a criança era preta ou negra, o funcionário dizia: "Faz isso não, ele é moreno", alterando o documento por conta própria. Esse ato no cartório não era gentileza; era racismo institucional na prática. O State usava o papel e a caneta para apagar a identidade negra da certidão de nascimento, manipulando as estatísticas oficiais do país e perpetuando a mentira de que o povo preto estava "desaparecendo" ou que no Brasil somos todos apenas "morenos".
4.6 A força política da soma: pretos e pardos unidos
Essa divisão planejada pelo Estado deu tão certo que, por gerações, muitas pessoas negras no Brasil cresceram tentando fugir da própria identidade, comemorando quando um filho nascia "um pouquinho mais claro" ou usando eufemismos para suavizar a sua cor. Criou-se a mentira de que o "pardo" era uma raça à parte, quando na verdade o pardo sempre foi o negro que a elite tentou embranquecer. É por isso que, quando os