Quero uma revista
negro foi apenas uma peça passiva no tabuleiro da história. Mas a verdade é que nós nunca fomos apenas sobreviventes; nós fomos, e continuamos sendo, os construtores da alma, da cultura, da inteligência e da riqueza deste país. Para que este livro cumpra o seu papel mais esclarecedor, a gente precisa dar nome e honrar os gigantes sobre cujos ombros nós estamos de pé hoje. Deixar claro quem a gente estudou e resgatou para escrever estas páginas é o nosso maior ato de justiça.
A Caneta e a Lei: Escritores e Abolicionistas A nossa caminhada em busca da justiça começa muito antes do que os livros escolares costumam registrar. Ela começa com a força de mulheres como Esperança Garcia. Em 1770, no Piauí essa mulher negra escravizada escreveu uma petição em uma folha de papel direcionada ao governador da província,axando com uma clareza e coragem absurdas os maus-tratos físicos e as injustiças que ela e seus filhos sofriam. Centenas de anos depois, a história reconheceu o óbvio: Esperança Garcia escreveu a primeira petição jurídica de que se tem notícia no país, sendo oficialmente reconhecida como a primeira advogada do Brasil.
E quando o assunto é o combate direto às correntes nos tribunais, a gente precisa falar de Luiz Gama. Nascido na Bahia, vendido ilegalmente como escravizado pelo próprio pai branco quando era criança, ele conquistou a própria liberdade, estudou sozinho e transformou-se no maior advogado abolicionista que este país já viu. Usando o seu conhecimento profundo das leis e a sua inteligência brilhante, Luiz Gama entrou nos tribunais e libertou, por vias judiciais, mais de 500 pessoas escravizadas. Ele usou o próprio Direito como arma de libertação, provando que a mente preta era infinitamente superior ao sistema que tentava escravizá-la. Ao lado dele, homens pretos livres e letrados usaram o jornalismo e a literatura como trincheiras de guerra, como José do Patrocínio, conhecido como o 'Tigre da Abolição', um dos jornalistas mais combativos do século XIX, e Cruz e Sousa, o maior poeta simbolista brasileiro, que traduziu em versos geniais a dor e a espiritualidade da condição humana.
Na literatura clássica, a nossa presença é soberana. O maior escritor da história da literatura brasileira chama-se Machado de Assis. Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, Machado era um homem negro, neto de escravizados, que usou a sua escrita genial e irônica para retratar e criticar a hipocrisia da elite branca do Rio de Janeiro do século XIX. Por muito tempo, as fotos e os livros tentaram embranquecer a imagem de Machado para torná-lo aceitável aos olhos dos racistas, mas a verdade histórica não se apaga: o topo da nossa literatura tem a cor da nossa pele. Dando um salto no tempo, a gente encontra a genialidade crua e necessária de Carolina Maria de Jesus. Mulher negra, catadora de papel, favelada, que escrevia o cotidiano da periferia em cadernos encontrados no lixo. O seu livro, 'Quarto de Despejo', tornou-se um dos maiores sucessos editoriais do país, traduzido para mais de treze idiomas. Carolina provou ao mundo que a periferia pensa e produz arte de altíssima qualidade.