Quero uma revista
Angola, que dizia que a capoeira é 'tudo o que a boca come', transformando a luta em uma filosofia de vida, arte e malícia ancestral. E Mestre Bimba, que criou a Capoeira Regional, tirando a nossa arte da clandestinidade e fazendo com que ela fosse reconhecida oficialmente como esporte nacional, levando o orgulho da cultura preta para os palcos do mundo inteiro.
A Força do Axé Líderes Religiosos A sobrevivência da nossa identidade no Brasil só foi possível porque a nossa espiritualidade foi guardada e defendida nos terreiros por líderes religiosos sagrados, que enfrentaram a perseguição violenta da polícia com a força do axé As grandes Mães e Pais de Santo foram os verdadeiros psicólogos, médicos, governantes e protetores das comunidades negras urbanas. A Bahia nos deu Mãe Aninha (Obá Biyi), fundadora do renomado Ilê Axé Opô Afonjá uma mulher de uma sabedoria política tão gigante que viajou até o Rio de Janeiro para conversar com o presidente Getúlio Vargas, conseguindo em 1935 a assinatura do decreto que revogou a exigência de licença policial para os cultos de matriz africana.
No mesmo caminho de realeza, reinou Mãe Menininha do Gantois, que comandou o seu terreiro por mais de 60 anos com doçura e diplomacia, tornando-se uma das figuras mais respeitadas e influentes da cultura brasileira, forçando intelectuais, políticos e artistas brancos a pedirem a sua bênção e a reverenciarem a dignidade das religiões de matriz africana. E no lado dos homens, liderou Joãozinho da Gomeia, o lendário Tata Londirá um homem negro e homossexual que desafiou o preconceito e a repressão policial nos anos 1940 e 1950, transformando o seu terreiro em Duque de Caxias em um polo cultural frequentado pela elite política e artística do país, mantendo viva a chama e a beleza do Candomblé de Angola.
As conquistas do povo negro não são concessões ou presentes do Estado; são territórios conquistados com muita luta, inteligência e suor. No entanto, é fundamental deixar claro que esses grandes nomes que a história registrou representam apenas uma pequena fração de uma multidão infinitamente maior. Foram muitos e muitos outros heróis e heroínas que, no anonimato das senzalas, das roças, das periferias e dos terreiros, mantiveram o orgulho e a resistência acesos ao longo dos séculos. Quando a juventude negra hoje ocupa as cadeiras das universidades de ponta, cria tecnologias inovadoras, brilha nos palcos artísticos e assume a liderança de movimentos sociais, ela está dando continuidade a esse mar de passos ancestrais. Este livro é o nosso manifesto de orgulho, a nossa ferramenta de conscientização e a prova definitiva de que a nossa arte, a nossa história e a nossa coroa jamais serão apagadas. Nós viemos do topo, e é para o topo que nós estamos voltando.