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CAPÍTULO 4
O PROJETO DE EMBRANQUECIMENTO E A ARMADILHA DA DIVISÃO
Depois que a Lei Áurea foi assinada em 1888, o Brasil se viu diante de um falso dilema criado pela sua própria elite branca. Com o fim oficial da escravidão, o país tinha uma maioria esmagadora de pessoas negras e mestiças livres. Em vez de o governo criar políticas para dar terras, education, emprego e dignidade para essa população que ergueu a nação com o seu sangue, a elite governante pós-abolição sentou-se à mesa para planejar o oposto. Eles olhavam para o futuro do Brasil e sentiam vergonha da cor do seu povo. Foi a partir desse preconceito institucionalizado que nasceu um dos planos mais cruéis e calculados da nossa história: o Projeto de Embranquecimento da População.
4.1 A ciência a serviço do apagamento: o relatório de 1911
Para entender quem idealizou e como esse plano absurdo funcionava, a gente precisa dar nome aos responsáveis. No início do século XX, intelectuais, médicos e políticos influentes abraçaram teorias racistas e eugenistas que vinham da Europa. O exemplo mais escancarado dessa mentalidade aconteceu in 1911, durante o Primeiro Congresso Racial Mundial, realizado em Londres. O médico João Batista de Lacerda, que na época era ninguém menos que o diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, apresentou um relatório oficial em nome do governo brasileiro. Nesse documento, ele defendia a tese de que, através da miscigenação planejada e da vinda em massa de imigrantes brancos europeus, a população negra do Brasil iria desaparecer completamente até o ano de 2012. A elite brasileira acreditava piamente que, em um século, o país seria totalmente branco e, na cabeça torta deles, finalmente "civilizado". Como denunciou mais tarde o professor e ativista Abdias do Nascimento em O Genocídio do Negro Brasileiro, essa política não foi um acidente, mas um projeto deliberado de apagamento físico, cultural e biológico do povo preto.
Esse projeto não ficou apenas no papel. O governo brasileiro gastou rios de dinheiro público para financiar e subsidiar a vinda de milhões de imigrantes europeus principalmente italianos, alemães, espanhóis e portugueses entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. A ordem do dia era clara: dar aos estrangeiros as terras e os incentivos que foram negadas aos ex-escravizados, garantir a eles os melhores empregos nas lavouras e nas indústrias que nasciam, e forçar uma mistura populacional para "limpar" a árvore genealógica do país. Como analisou o sociólogo Florestan Fernandes, o Estado brasileiro promoveu uma substituição de mão de obra