Quero uma revista
que marginalizou a população negra. Enquanto o imigrante europeu recebia incentivos e crédito do Estado para prosperar, o trabalhador negro era empurrado para a miséria, para a informalidade e para as margens das cidades, dando origem às periferias e favelas.
4.3 "Dividir para governar": a invenção burocrática do "pardo"
Só que a elite percebeu que apenas trazer europeus não seria suficiente para apagar a força do povo preto. Era preciso criar uma estratégia de divisão interna, uma armadilha burocrática para minar a identidade e a união da população negra. Foi exatamente aí que o governo e os institutos de estatística começaram a usar e a incentivar categorias como "pardo", "marrom", "mulato" ou "mestiço". Essa estratégia de pulverizar a cor do povo em dezenas de tons diferentes tinha um objetivo político muito perverso: desunir. Pense comigo: se você convence um homem de pele um pouco mais clara de que ele não é negro, mas sim "pardo" ou "marrom", e que por ser "pardo" ele está um degrau acima do preto retinto na consideração do branco, você destrói a solidariedade entre eles. O antropólogo Kabengele Munanga, uma das maiores autoridades nos estudos sobre a mestiçagem no Brasil, explica que o mito da democracia racial usou a categoria "pardo" como uma zona de amortecimento social. O termo servia para fazer a pessoa acreditar que, se ela se aliasse à estética e ao pensamento do branco, sofreria menos preconceito e teria mais chances na vida. Na prática, a elite criou uma ilusão de proximidade com a branquitude para evitar que o povo negro se reconhecesse como irmão, se organizasse e marchasse junto contra a opressão.
Essa invenção burocrática do pardo abre as portas para uma grande discussão que confunde a cabeça de muita gente até hoje, mas que a pesquisadora Alessandra Devulsky explica com muita propriedade em seu livro Colorismo. O colorismo é a engrenagem prática desse projeto de divisão; é o conceito que mostra que o racismo no Brasil usa a tonalidade da pele como uma régua para ditar o tamanho da opressão. Funciona como um jogo de aparências cruel: quanto mais clara for a pele de uma pessoa negra e menos traços marcantes ela tiver, mais o sistema eurocêntrico tolera a sua presença. O negro de pele marrom clara muitas vezes acessa espaços e recebe uma falsa sensação de aceitação, ouvindo eufemismos que tentam afastá-lo da sua raiz. Por outro lado, o negro retinto de pele escura e traços negroides marcantes recebe o impacto do preconceito em sua forma mais nítida e violenta, sendo o alvo principal da suspeita nas ruas e da exclusão imediata.
É justamente nessa diferença de tratamento que nasce um nó perigoso no debate atual, onde algumas correntes afirmam que o negro de pele clara não pode se declarar negro