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O som do rugido da onça (Micheliny Verunschk)

By BC Sao Pedro da Serra

Data da leitura: Abril de 2026

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Published
Mar 20, 2026
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  • LeonoraCarrington A CORNETA
  • LEONORA CARRINGTONA corneta TRADUÇÃO Fabiane Secches
  • Page 3Сара Folha de rosto
  • Page 4A corneta
  • Page 6Quando Carmella me deu de presente uma corneta auditiva, ela deve ter previsto algumas das consequências. Carmella não é o que eu chamaria de maliciosa, ela apenas tem um senso de humor peculiar. A corneta era um belo exemplar, mas não chegava a ser moderna. Era, porém, de uma beleza excepcional, revestida de adornos de prata e madrepérolas e com uma grande curvatura, como um chifre de búfalo. O valor estético do objeto não era sua única qualidade, a corneta auditiva amplificava o som de tal maneira que conversas comuns se tornavam bastante audíveis até mesmo para os meus ouvidos. Aqui devo dizer que meus sentidos não foram de forma alguma prejudicados pela idade. Minha visão continua excelente, ainda que eu use óculos para leitura, isso quando leio, que é praticamente nunca. Verdade seja dita, o reumatismo entortou um pouco o meu esqueleto. Isso não me impede de dar uma caminhada quando o tempo ajuda, nem de varrer o meu quarto uma vez por semana, às quintas-feiras, uma forma de exercício que é, ao mesmo tempo, útil e edificante. Aqui devo acrescentar que ainda me considero um membro útil da sociedade e, acredito, capaz de ser uma companhia agradável e divertida quando a ocasião pede. O fato de não ter dentes e de nunca ter conseguido usar dentadura não me deixa desconfortável de forma alguma, eu não tenho que morder ninguém e há todo tipo de comida macia fácil de obter e digerível para o estômago. Purê
  • Page 7de legumes, chocolate e pão molhado em água morna são a base da minha dieta simples. Eu nunca como carne, porque acho errado privar os animais de suas vidas quando, de todo modo, são tão difíceis de mastigar. Estou agora com noventa e dois anos e há uns quinze tenho vivido com o meu filho e a família dele. Nossa casa fica numa área residencial e seria descrita na Inglaterra como uma construção geminada com um jardinzinho. Não sei como chamam aqui, mas provavelmente algum equivalente em espanhol de “residência espaçosa com parque”. Isso não é verdade, a casa não é espaçosa, é apertada, e não há nada nem vagamente parecido com um parque. Há, porém, um bom quintal nos fundos, que compartilho com meus dois gatos, uma galinha, a empregada e os dois filhos dela, alguns mosquitos e um tipo de cacto chamado agave.
  • Page 8qualquer país porque muitas vezes é mais da metade da vida. Para mim, cinquenta anos nada mais é do que uma quantia de tempo presa num lugar onde eu não queria estar de jeito nenhum. Nos últimos quarenta e cinco anos, venho tentando escapar. Por algum motivo nunca consegui, deve haver um feitiço de amarração que me segura neste país. Em algum momento vou descobrir por que fiquei tanto tempo aqui, enquanto contemplo com alegria as renas e a neve, as cerejeiras, os prados, o canto dos tordos. A Inglaterra não é sempre o foco desses sonhos. Na verdade não quero me instalar especificamente na Inglaterra, embora precise visitar a minha mãe em Londres, ela está ficando velha agora, embora tenha uma saúde excelente. Cento e dez anos não é uma idade tão avançada, ao menos não do ponto de vista bíblico. Margrave, o empregado de minha mãe, que me envia cartões-postais com o Palácio de Buckingham estampado, diz que ela ainda é muito ágil na sua cadeira de rodas, embora eu não consiga compreender bem como alguém pode ser ágil numa cadeira de rodas. Ele diz que ela está bastante cega, mas que não tem barba, o que deve ser uma referência à fotografia que enviei de presente no último Natal.
  • Page 9aqueles que não são embaixadores (esses, eu soube, recebem um salário melhor). Galahad é casado com a filha do gerente de uma fábrica de cimento. O nome dela é Muriel e tanto o pai quanto a mãe são ingleses. Muriel tem cinco filhos e um deles, o caçula, ainda mora com a gente. Esse garoto, Robert, tem vinte e cinco anos e ainda não se casou. Robert não é uma pessoa agradável e mesmo quando criança era cruel com os gatos. Além disso, circula por aí numa motocicleta e trouxe uma televisão para dentro de casa. Desde então, minhas visitas à parte da frente da residència se tornaram cada vez mais raras. Quando apareço, é sempre na forma de um espectro, se posso dizer assim. Isso parece ter trazido certo alívio para a família, já que meus modos à mesa estavam se tornando pouco convencionais. Com a idade, a pessoa se torna menos sensível às peculiaridades dos outros; por exemplo, quando eu tinha quarenta, hesitaria em comer laranjas num trem ou ônibus lotado, mas hoje não apenas como laranjas impunemente como também faria refeições completas sem constrangimentos em qualquer veículo público e terminaria com uma taça de vinho do Porto, que me dou de presente vez ou outra como um agrado especial. Mesmo assim, me faço útil e ajudo na cozinha, que fica ao lado do meu quarto. Descasco legumes, alimento a galinha e, como mencionei antes, faço outras atividades vigorosas, como varrer o meu quarto às quintas. Não dou trabalho algum e me mantenho limpa sem a ajuda de ninguém.
  • Page 10livros com um elegante lornhão e quase nunca resmunga sozinha como eu. Também tricota blusas engenhosas, mas seu verdadeiro prazer na vida é escrever cartas. Carmella escreve cartas para o mundo inteiro, para pessoas que nunca conheceu, e assina com todo tipo de nomes românticos, nunca com o dela. Ela despreza cartas anónimas, e é claro que são impraticáveis, pois quem conseguiria responder uma carta sem assinatura no final? Essas cartas maravilhosas alçam voo, de forma celestial, por correio aéreo, na delicada caligrafia de Carmella. Ninguém nunca responde. Esse é o lado verdadeiramente incompreensível da humanidade, as pessoas não têm tempo para nada. Bem, numa linda manhã de segunda-feira, fui fazer minha visita habitual a Carmella, que estava me esperando na porta. Percebi logo que ela estava num estado de muita agitação, pois havia esquecido de colocar a peruca. Carmella é careca. Ela nunca sairia na rua sem a peruca numa situação comum, pois é muito vaidosa, sua peruca ruiva é como um aceno majestoso aos seus cabelos há muito perdidos, que eram quase tão ruivos quanto a peruca, se minha memória não falha. Nessa manhã de segunda- feira, Carmella estava descoroada, sem sua glória habitual, mas muito animada e resmungando consigo mesma, o que não é do seu feitio. Eu trouxe de presente um ovo que a galinha botou naquela mesma manhã, e o deixei cair quando ela agarrou o meu braço. Foi uma pena, pois o ovo já não tinha mais conserto.
  • Page 11deu vários presentes e eles algumas vezes eram tricotados, outras vezes comestíveis, mas nunca a vi tão agitada. Quando ela desembrulhou a corneta auditiva fiquei sem saber se poderia usar para comer ou beber ou apenas como enfeite. Depois de vários gestos complicados, ela finalmente a colocou na minha orelha e o que eu sempre havia ouvido como um grito agudo ressoou na minha cabeça como o berro de um búfalo furioso. "Você consegue me ouvir, Marian?" Eu conseguia, e era aterrorizante.
  • Page 12"Por que eles iriam querer esconder algo de mim?", perguntei, pensando na paixão incurável de Carmella pelo drama. “Eu não causo nenhum problema e eles raramente me veem." "Nunca se sabe", disse Carmella. "As pessoas acima dos sete e abaixo dos setenta não são nada confiáveis, a menos que sejam gatos. Todo cuidado é pouco. Além disso, pense no poder estimulante de escutar a conversa alheia quando pensam que você não está ouvindo nada."
  • Page 13não tem malas, imagine se é um jovem aspirante a uma vida no mar? Eu acho que você deveria tentar ser mais realista." "Você às vezes é muito negativa, Marian, embora eu saiba que tem um coração gentil, não há nenhuma razão para que o pobre monsieur Belvedere Oise Noisis faça uma coisa tão trivial quanto colecionar cestas de vime. Ele é frágil mas corajoso, pretendo enviar a ele alguns esporos de cogumelos para aprimorar a espécie que ele mandou vir do Himalaia."
  • Page 14caminhada habitual de segunda-feira. Minha dicção não é tão boa quanto costumava ser porque não tenho dentes. Meu monólogo não tinha ido longe quando Robert me pegou bruscamente pelo braço e me ejetou para a passagem que leva à cozinha. Era óbvio que estava zangado. Como Carmella diz, não se pode confiar nas pessoas acima de sete e abaixo de setenta. Como de costume, almocei na cozinha e fui para o meu quarto escovar Marmeen e Tchatcha, os gatos. Escovo os gatos todos os dias para manter seus longos pelos elegantes e brilhantes e para guardar os que saem para Carmella, que me prometeu tricotar um suéter quando tiver o bastante. Até agora, já enchi dois potes pequenos de geleia de pelo bonito e macio. Parece uma forma agradável e econômica de ter roupas quentes para o inverno. Carmella acha que um cardiga sem manga é uma peça prática para o frio. Faz quatro anos que estou enchendo os dois potes, então talvez eu leve algum tempo para juntar la o bastante para fazer uma peça inteira. Seria possível tecer com um pouco de lá de lhama, mas Carmella diz que seria trapacear. A prima de Rosina uma vez me trouxe de presente uma roca de fiar indígena. Venho experimentando com sobras de algodão e fiando cordas boas e úteis. Quando eu conseguir la de gato suficiente para tecer, já devo ter aprendido o bastante para tecer fios finos. Essa é uma ocupação empreendedora e ficaria muito feliz se não sentisse tanta nostalgia pelo norte. Dizem que dá para ver a Estrela Polar daqui e que ela nunca se movimenta. Jamais fui capaz de identificá-la. Carmella tem um planisfério, mas não conseguimos descobrir como usá-lo, e são tão raras as pessoas que se pode consultar em assuntos como esse.
  • Page 15A galinha vermelha parecia querer botar outro ovo na minha cama e Marmeen estava contrariado de ter o rabo escovado, como sempre. A aparição repentina de Galahad no meu quarto quase me fez cair da cadeira. A última vez que meu filho me visitou foi quando a caixa-d'água estourou e ele veio com o encanador. Ele ficou resmungando na porta. Suponho que estivesse dizendo alguma coisa. Então ele colocou uma garrafa de vinho do Porto na minha cômoda, murmurou algo mais e saiu. Esse comportamento espantoso de Galahad me deixou pensativa até o anoitecer. Não consegui chegar a nenhuma razão que explicasse sua visita. Não era meu aniversário, e ele nunca me deu um presente de aniversário; a julgar pelo clima, também não era Natal. Por que ele faria uma mudança tão extravagante em seus hábitos?
  • Page 16quarto e me escondi na passagem escura entre a sala e a cozinha. A porta ficava sempre aberta, por isso não tive dificuldade em conseguir uma boa imagem da vida familiar. Galahad estava sentado de frente para Muriel, perto da lareira elétrica. Ela estava desligada, já que não fazia muito frio. Robert estava no sofá estreito, rasgando o jornal da manhã em tiras. As novas capas protetoras pendiam diligentemente nas cadeiras e no sofá. Eram de um bege escuro com franjas, práticas, eu imagino, e fáceis de lavar. Os três membros da família estavam envolvidos numa discussão. "Mesmo que não volte a acontecer, o que se passou é intolerável", disse Robert, tão alto que minha corneta vibrou. "Nunca mais vou me atrever a convidar nenhum dos meus amigos para vir aqui."
  • Page 18"A vovó", falou Robert, "mal pode ser classificada como ser humano. Ela não passa de um pedaço de carne babenta em decomposição." "Robert", repreendeu Galahad sem convicção, “sério, Robert."
  • Page 19Por um momento, tirei a corneta do ouvido, em parte porque meu braço doía. Senil? Sim, ouso dizer que eles tinham razão, mas o que significa estar senil? Coloquei a corneta na outra orelha.
  • Page 20Tive que comprar na hora, tive uma premonição. São notícias terríveis, eu preciso bolar um plano." "O que você acha da Fraternidade Poço de Luz?", perguntei. "Isso me assusta."
  • Page 21límpido da própria Vênus. Isso vale para o quintal e o quartinho que eu ocupava naquela época, meu corpo, os gatos, a galinha vermelha, tudo meu corpo, tudo parte da minha lenta corrente sanguínea. A separação dessas coisas familiares e amadas sim, amadas era a "Morte e Morte enfim", segundo a velha rima de "Man of Double Deed". Não havia remédio para a agulha no meu coração, com seu longo fio de sangue velho. E quanto à Lapônia e ao bando de cachorros peludos? Também seriam uma grande violação desses hábitos estimados, é verdade, mas que diferença para uma instituição destinada a mulheres velhas e decrépitas. "No caso de te trancarem num quarto do décimo andar", disse Carmella, acendendo um cigarro, "você pode pegar um monte dessas cordas que você tece e fugir. Eu poderia te esperar lá embaixo com uma metralhadora e um automóvel, um automóvel alugado, sabe, acho que não deve ser tão caro assim por uma ou duas horas."
  • Page 22distância de uns três metros não seriam difíceis de acertar. Eu nunca te confundiria com um cão policial feroz." Não fiquei muito feliz com o argumento de Carmella: “Vamos imaginar que tenha apenas um cão policial me perseguindo e dando voltas e mais voltas em círculo. Seria fácil você me acertar no lugar dele".
  • Page 23agoniada: "O sistema nervoso deles não conseguiria lidar com uma situação como essa". Ela tinha razão, é claro, como sempre. Ainda me sentindo arrasada pelo desespero, voltei me arrastando para casa. Que falta eu sentiria de Carmella e de seus conselhos estimulantes, dos charutos escuros, das pastilhas de violeta. Eles provavelmente iriam me fazer tomar vitaminas numa instituição. Vitaminas e cães policiais, paredes cinzentas, metralhadoras. Não conseguia pensar com coerência, o horror da situação flutuava como uma massa emaranhada na minha cabeça, fazendo com que doesse como se estivesse recheada de algas espinhosas.
  • Page 24Agora me dou conta de que também recebi um problema de matemática que não consigo resolver, embora esteja tentando há muitos e muitos anos. Não estou realmente na Inglaterra, nesse jardim perfumado, embora ele não desapareça como quase sempre acontece, estou inventando tudo isso e está a ponto de desaparecer, mas não desaparece. Sentir-se tão forte e feliz é muito perigoso, alguma coisa horrível está para acontecer e preciso encontrar a solução depressa.
  • Page 25Porque você faz parte da memória delas e vai desaparecer, as anêmonas vão florescer eternamente, nós não. Querida, pare de filosofar, não combina com você, deixa o seu nariz vermelho.
  • Page 26Como você saberia uma coisa dessa? Não na parte da América em que estou pensando. Eles têm outros tipos de plantas, e poeira. Poeira, poeira. Provavelmente algumas palmeiras e caubóis galopando em vacas aqui e ali.
  • "Você vai sair de férias, mãe. Vai aproveitar muito.""Meu querido Galahad, não me diga mentiras tão tolas. Vocês estão me mandando embora para um asilo de mulheres senis porque me acham um saco velho repulsivo, e ouso dizer que têm razão, do ponto de vista de vocês." Ele começou a balbuciar, me olhando como se eu tivesse tirado uma cabra viva do chapéu.
  • Page 28"Bem, nós pensamos em levar você na terça-feira, só para dar uma olhada. Se não ficar satisfeita, pode voltar direto para casa." "Hoje é domingo."
  • Page 29nunca jogo nada fora. A parte interna do baú era feita de madeira maciça e revestida por um papel com um desenho de bom gosto meio manchado em algumas partes. O primeiro objeto que guardei junto com a poção sonífera foi, claro, a corneta auditiva fatal. Isso me fez pensar no Anjo Gabriel, embora, creio, ele deva soprar a dele e não escutar através dela, isto é, de acordo com a Bíblia, no último dia em que a humanidade chega à catástrofe final. Estranho como a Bíblia sempre parece terminar em sofrimento e catástrofe. Volta e meia me pergunto como esse Deus tão raivoso e vingativo acabou se tornando tão popular. A humanidade é muito estranha e não finjo entender as coisas, mas por que venerar algo que só manda pragas e massacres? E por que Eva é a culpada de tudo?
  • Page 30para que ela pensasse que eu tinha deixado para trás toda a minha coleção. Muriel chamaria aquilo de "lixo" e jogaria fora. Claro que eu sabia que não iria subornar os esquimós, mas guardei tudo lá dentro como se fosse. Instituições, assim como o Extremo Norte, também são isoladas da civilização e nunca se sabe o que as pessoas podem querer. Não fui educada num colégio de freiras a troco de nada.
  • Page 31será lido por alguém. Os valores são muito estranhos, mudam tão rápido que é difícil acompanhar. Digo tudo isso porque acho que talvez escreva alguma poesia, afinal. Penso que uma balada seria mais o meu estilo, com versos curtos e simples, como:
  • Page 32Santa Brigida é um subúrbio na extremidade sul da cidade. Na verdade, é uma antiga vila hispano-indígena ligada à metrópole por postos de gasolina e fábricas. As casas às vezes são de argila e outras vezes de pedra maciça, as ruas são estreitas e pavimentadas de forma grosseira, margeadas por árvores e muros altos que escondem mansões coloniais e parques. Teria certo charme se nos dias úmidos não viesse um cheiro tão forte da fábrica de papel, Gomez e Companhia. Uma gota de chuva e o tomado por um fedor terrível. lugar inteiro é
  • Page 34Primeiras impressões nunca são muito claras, só posso dizer que parecia haver vários pátios, claustros, chafarizes desligados, árvores, arbustos, gramados. O prédio principal era um castelo, rodeado por vários pavilhões de formatos incongruentes. Habitações em forma de cogumelos, chalés suíços, vagões ferroviários, um ou dois bangalôs comuns, algo com o formato de uma bota, outro que imaginei ser como uma múmia egípcia descomunal. Era tudo tão estranho que cheguei a duvidar da precisão da minha capacidade de observação. Nossa guia continuou falando animadamente e parecia estar me explicando algo, ignorava Muriel e Galahad. Eu vi o espanto estampado no rosto deles, mas o fato de terem se dado ao trabalho de trazer meu baú os impedia de mudar de ideia. Depois de andar por algum tempo, chegamos a uma torre isolada numa horta. Não era a torre do prédio principal. Era uma torre nova, caiada, e não tinha mais do que três andares. Guardava certa semelhança com um farol, dificilmente o que alguém esperaria encontrar num jardim. Nossa guia abriu a porta e, depois de falar mais quinze minutos, deixou que entrássemos. Estava claro que aquele lugar extraordinário era onde eu moraria. Os únicos móveis de verdade eram uma cadeira de vime e uma mesinha. Todo o resto era pintado. O que quero dizer é que as paredes eram pintadas com os móveis que não estavam lá. Era tudo tão bem-feito que a princípio quase me enganou. Tentei abrir o guarda-roupa pintado, uma estante com livros. Uma janela aberta com uma cortina esvoaçando com a brisa, ou que teria esvoaçado se fosse uma cortina de verdade. Uma porta e prateleiras com diversos tipos de enfeites. Toda essa mobília unidimensional tinha um efeito estranhamente deprimente, como bater o nariz contra uma porta de vidro.
  • Page 35Não demorou muito para que Galahad e Muriel fossem embora, mas nossa companheira continuou lá, falando como uma doida. Me perguntei se ela sabia que eu não conseguia ouvir sequer uma palavra do que dizia. De todo modo teria sido impossível comunicar qualquer coisa em meio à torrente de palavras, mesmo se minha enunciação fosse alta e forte. Enfim deixei-a tagarelando sozinha e subi a escada para examinar o restante da torre. Havia um quarto com uma janela de verdade, uma cama e um closet. As paredes não eram decoradas. No canto, uma escada levava a um alçapão que resolvi deixar para outra ocasião, pois me sentia um tanto fraca por todo o esforço. Consegui fazer vinte e cinco viagens escada acima e abaixo e desempacotar meu baú inteiro e ela continuava falando. Decidi me arriscar a usar minha corneta auditiva. O banheiro ficava no térreo e era um bom lugar para testar a acústica.
  • Page 36para me nossa própria reserva de fogo vital, isso é muito cansativo, sobretudo porque, como você sabe, eu tenho que trabalhar dia e noite mesmo que todos os meus ossos doam e minha cabeça esteja girando e eu esteja desmaiando de cansaço e ninguém entenda minha luta mortal manter de pé e não perder minha alegria inspirada de vida, mesmo que eu tenha palpitações no coração e elas me tanjam como um pobre animal de carga, muitas vezes me sinto como a Joana d'Arc, tão completamente incompreendida e com aqueles cardeais e bispos terríveis atazanando sua pobre mente agonizante com um monte de perguntas desnecessárias. Não tenho como não sentir uma afinidade profunda com a Joana d'Arc e volta e meia sinto que estou sendo queimada na fogueira só porque sou diferente de todos, porque sempre me recusei a abrir mão desse poder estranho maravilhoso que tenho dentro de mim e ele se manifesta quando estou em comunicação harmoniosa com algum outro ser inspirado como eu." Fiz algumas tentativas vás de dizer a ela que eu concordava de coração com a sua filosofia de vida. Também queria perguntar se poderia levar a minha corneta para o chá sem despertar muitos comentários mas era impossível, ela continuava falando, embora eu estivesse na frente dela abrindo e fechando a boca com alguma esperança. Também estava começando a me preocupar com o dr. Gambit, que não gostava que as pessoas chegassem atrasadas para o chá, mas minha companheira não deu sinais de que iria se mexer e bloqueava a única saída. Poderíamos ficar sem chá nenhum se não fossemos imediatamente. Supondo que eles só servissem o chá da tarde e nenhum jantar, eu passaria fome até o café da manhá.
  • Page 37fardo de trabalho que está acabando comigo como Joana d'Arc. No entanto, minha fonte de inspiração ainda está intocada por causa do poder de luta que há dentro de mim. Borbulhas de ideias criativas puras saindo de mim, eu dou, dou, dou, mas as outras pessoas não compartilham essa capacidade de compreensão. Cada vez mais jogam trabalho para cima de mim, quando eu me levanto de manhã sou tomada por uma náusea terrível porque estou sobrecarregada, o excesso de trabalho já é suficiente para sangrar alguém até secar. Sou de uma generosidade tão tola que as outras pessoas tiram proveito de mim o tempo inteiro e as tarefas intermináveis do dia (e da noite) se amontoam nos meus ombros." Isso era alarmante, que tipo de trabalho terrível perturbava a pobre mulher? Eu também teria que trabalhar dia e noite até não conseguir parar de falar? Talvez eles a tenham feito jogar carvão numa grande fornalha, provavelmente mantinham um crematório particular, as pessoas velhas nunca param de morrer. Talvez também houvesse uma prisão e nós tivéssemos que quebrar pedras e cantar canções de marinheiro (isso explicaria por que ela usava quepe). Todas aquelas cabanas excêntricas do lado de fora começaram a adquirir um significado sinistro. Bangalôs de cantigas infantis para enganar as famílias das velhinhas fazendo-as pensar que levávamos uma vida pueril e pacata e, nos bastidores, um imenso crematório e detentas escravizadas.
  • Page 38roda da fortuna, que tem certas variações mas sempre volta ao mesmo lugar. O entusiasmo nunca diminuía, nem seu simpático rosto enrugado abandonava a expressão de intensa sinceridade. Mais tarde, descobri que o nome da minha companheira era Anna Wertz. Não foi ela quem me contou, já que nunca teria tempo de dizer algo tão prático e banal.
  • Page 39ter sido um discurso. "Silêncio, Anna Wertz, fique quieta", disse o dr. Gambit tão de repente e com uma voz anasalada tão penetrante que até derrubei minha colher. Mesmo sem a corneta, pude ouvi-lo perfeitamente.
  • Page 40cega de um olho e o pintor havia retratado a deficiência de forma realista. No entanto, a ideia de que estava piscando persistia, ela piscava para mim com uma mistura desconcertante de zombaria e malevolência. "A Lembrança de Si não deve, no entanto", prosseguiu o doutor, "nos transformar em fanáticos enfadonhos. Podemos nos lembrar de Nós e ao mesmo tempo ser companheiros excelentes e alegres." A ideia do dr. Gambit sendo alegre era, ao contrário, assustadora, então dei uma olhada em Anna Wertz para fazer a imagem sumir. Ela olhava para o prato, parecendo furiosa.
  • Page 41"Bem, vou continuar tentando melhorar de todo o coração, embora eu saiba que tenho uma natureza terrivelmente fraca." No entanto, ela parecia muito satisfeita. Eu me perguntei se ela tinha feito a própria blusa, que era rosa com um laço azul no pescoço. Sempre admirei quem sabe costurar. Carmella era uma costureira admirável. Mas era melhor não pensar em Carmella ainda. Eles estavam se levantando da mesa e eu mal tive tempo de enfiar o último pedaço de pão na boca antes de ser abordada pela marquesa francesa. "Claude la Checherelle", disse ela, estendendo a mão de forma franca e amigável. Se eu soubesse na época que ela era marquesa, teria ficado constrangida de estar de boca cheia, mas eu não sabia, então engoli o pão sem me engasgar e falei "Boa tarde" educadamente.
  • Page 42Depois de Veronica, em ordem de idade, vinham Christabel Burns, Georgina Sykes, Natacha Gonzalez, Claude la Checherelle (a marquesa que já mencionei), Maude Wilkins, Vera van Tocht e Anna Wertz. Nossas atividades diárias eram supervisionadas pela sra. Gambit, que na maior parte do tempo estava deitada com dor de cabeça, então ficávamos por nossa própria conta. Quando ela aparecia, no entanto, era notável como a atmosfera ficava tensa. Todas tínhamos medo dela, apesar do seu sorriso constante.
  • Page 43com uma chama de cimento que a princípio achei difícil de entender o que era, porque a tinta amarela tinha ficado verde-escura. Às vezes, eu achava que a cabana de bolo de aniversário tinha melhorado com o tempo e esperava que nunca fosse repintada com as cores originais. Georgina Sykes ocupava uma tenda de circo, ou melhor, uma representação de cimento de uma tenda com listras vermelhas e brancas. Haviam pintado as palavras "tre e proveite o ow" em cima da porta e por muito tempo eu pensei nessas palavras misteriosas. Na verdade, dizia "Entre e aproveite o show", mas o tempo e as heras haviam se sobreposto às palavras.
  • Page 44Na tarde do segundo dia, depois da qual perdi a noção de tempo, recebi a visita de Georgina Sykes. Na época, não sabia o nome dela e a identificava pela altura. Era muito mais alta do que qualquer outra pessoa e usava roupas sofisticadas com uma desenvoltura que eu admirava. Naquele dia, me lembro, ela vestia um longo quimono preto e calças vermelhas, estilo chinês. Me pareceu muito elegante. Seu cabelo era cortado na altura dos ombros e, embora não fosse mais abundante, estava habilmente arrumado sobre uma pequena área calva para dar a impressão de um penteado casual. Seus olhos deviam ter sido grandes e bonitos antes que a pele lilás flácida se acumulasse embaixo deles. No entanto, ainda guardavam uma expressão um tanto ousada, acentuada pelo rímel aplicado com certa imprecisão ao redor das pálpebras. "Em certos momentos este lugar me dá nos nervos", ouvi Georgina dizer depois que coloquei a corneta auditiva. "Aquela Gambit bestial quer que eu descasque batatas e eu não posso ficar na cozinha assim que acabo de fazer as unhas." Para a minha surpresa, ela usava um esmalte vermelho que cobria a maior parte de seus grandes dedos ossudos.
  • Page 45me devore durante as refeições?" Georgina acendeu outro cigarro com uma gargalhada de alegria: “E ele está sempre dando desculpas para me levar ao seu boudoir para conversas aconchegantes". Tudo aquilo me parecia muito estranho. O dr. Gambit era um homem de meia-idade e era no mínimo quarenta anos mais novo que Georgina. No entanto, em relação à natureza humana nunca se sabe o que esperar, e tive tantas surpresas na minha época que já as espero na ordem geral da vida.
  • Page 46Com um sorriso aflito, ela voltou para a cozinha. Georgina mostrou a língua para as costas da mulher que se afastava. Mesmo assim, nos levantamos e a seguimos, falando baixinho sobre o tempo. por "Haverá Movimentos às cinco da tarde no ateliê", disse a sra. Gambit cima do ombro. "Como é de costume, quem chegar atrasada vai perder o direito de jantar."
  • Page 47uma vida muito emocionante e sofisticada. Esperava que ela me contasse sobre isso um dia, o que ela fez depois, várias vezes. Na cozinha, todas nos sentamos ao redor de uma grande mesa limpa para descascar legumes. As que não estavam presentes deviam estar ocupadas com outro trabalho ao ar livre. Contando com a sra. Gambit, éramos cinco. Georgina, Vera van Tocht, Natacha Gonzalez e eu. A sra. Van Tocht, a quem nunca consegui chamar pelo primeiro nome, era muito imponente. Gorda, tão gorda que seu rosto e ombros eram quase da mesma largura. No meio de todo esse rosto, havia pequenos traços enrugados, olhos astutos e uma boca franzida.
  • Page 48para passar panos de cozinha molhados na cabeça de Natacha. A sra. Gambit disse algo que eu não ouvi, mas parecia desinteressada. Passado um tempo, o descascar dos legumes foi retomado. Quando o relógio marcou meio-dia, saímos para dar uma volta no jardim antes do almoço. Tive que trocar de vestido porque estava encharcada depois de ter levado a panelona cheia de água no colo. Esperava não pegar um resfriado. Anna Wertz estava esticada na espreguiçadeira e parecia estar falando sozinha.
  • Page 50A sra. Gambit girou em seu assento e se dirigiu a mim antes que eu colocasse a corneta no meu ouvido. "Ha? Ha? Há?", eu disse enquanto ela repetia: "Marian Leatherby, os primeiros movimentos não são no sentido anti-horário. Por favor, observe Maude Wilkins com atenção, ela conhece bem a maioria dos exercícios". Repetimos a mesma coisa quatro vezes e o harmônio ficava cada vez mais alto. "Agora todas se levantem e passaremos pelos números quatro e cinco bis. Marian Leatherby, por favor, fique do meu lado e observe as outras, você participará da próxima vez."
  • Page 51nervoso ou se a poesia me pareceu realmente cômica. Marlborough parecia estar sempre presente quando eu era surpreendida por meus ataques, que ele tinha o prazer de chamar de risada maníaca da Marian. Ele sempre gostou de me ver dar espetáculos. Isso me fez pensar no que Marlborough estava achando de Veneza. Ele devia viver navegando de gôndola, possivelmente acompanhado de sua irmá com deficiência. Mais uma vez me perguntei o que poderia haver de diferente com essa irmá da qual eu nunca tinha visto nem sequer uma fotografia durante trinta anos de amizade com Marlborough. Deve ser algo espetacular, como ter duas cabeças. Nesse caso, ele dificilmente a levaria para passear de gôndola, a menos que, talvez, ela ficasse protegida sob uma cortina de linho. Linho grosso, ou mesmo algodão. Marlborough vem de uma família bastante aristocrática, então é de esperar algum tipo de peculiaridade. Embora eu tivesse uma avó louca e minha família não fosse nada aristocrática. Mas vacas podem ser aristocratas? Bezerros de duas cabeças são bastante comuns em feiras.
  • caminho, até encontrarmos a luz.""Tive minhas dificuldades”, respondi com a intenção de reclamar de Muriel e Robert. Teria sido muito agradável, mas quando eu estava começando a falar do aparelho de televisão ela me interrompeu com um gesto impaciente: "Sim, eu entendo tudo. Há poucos recantos escuros do coração humano que não examinei com a minha visão especial. Não sou uma visionária como a sra. Gonzalez, Natacha. Querida Natacha. Mas tenho uma visão astral que me permite ajudar e confortar meus semelhantes. À minha maneira modesta, encaminhei muitas almas errantes para a luz, mas meus pobres dons não são nada se comparados aos poderes maravilhosos de Natacha. Ela é controlada, você entende, o controle espiritual é uma dádiva rara e linda. Natacha é o Receptáculo Puro através do qual os poderes invisíveis se manifestam para nós. 'NÃO EU, MAS AQUILO QUE FUNCIONA EM MIM.' Essas são as palavras constantes de Natacha, ela tem uma grande modéstia límpida como a do Mestre de quais milagres foram operados com as palavras 'Não eu, mas meu pai que está no céu"". Durante a pausa, apressei-me em voltar para Robert e o aparelho de televisão. “Meu neto Robert", eu disse, “tem um vício desagradável de assistir TV. Antes de instalar esse aparelho horrível em casa, eu me sentava na sala depois do jantar e entretinha toda a família com contos de fadas e anedotas da minha vida. Eu me orgulho de ser capaz de contar histórias muito divertidas quando quero. Nada vulgar, é claro, mas espirituoso e até picante quando não estou sofrendo com meu reumatismo. O reumatismo, claro, é um grande empecilho para histórias engraçadas. Bom, a minha nora, Muriel, não é muito empática com o reumatismo. Ela também é bastante gulosa com chocolates, que sempre esconde, um hábito bem desagradável. Muitas vezes me pergunto como Galahad conseguiu se casar com uma pessoa como Muriel..."
  • Page 53Estava começando a me divertir, mas a sra. Van Tocht logo me impediu de falar com um gesto imperioso: "Você nunca deve se orgulhar de nada. Mesmo algo tão trivial quanto uma anedota cômica é uma praga espiritual se usada como fonte de amor-próprio. A modéstia é fonte de luz. O orgulho é uma doença da alma. Muitas pessoas vêm a mim em busca de conselhos e conforto espiritual. Quando ponho minhas mãos sobre elas para acalmar suas ansiedades e enchê-las de Amor e Luz, sempre digo: 'Primeiro seja modesto. Um copo cheio não pode receber"". Ela estava quase sentada em cima de mim, eu mal conseguia respirar, mas estava determinada a contar mais sobre Muriel: "Minha nora começou a dar festas com partidas de bridge depois que o Robert trouxe o aparelho de televisão para casa. Quer dizer, teria sido bridge, na minha época. Agora eles chamam de Festa da Canastra. Eles literalmente me expulsaram da sala quando as pessoas chegaram para jogar esse jogo ridículo. Na primeira noite, me recusei a sair e contei catorze histórias de papagaios, sem esquecer o final de mais de seis".
  • Page 54ela tem grande orgulho espiritual e sente inveja dos poderes maravilhosos de Natacha. Além disso, mantemos o Círculo em segredo para concentrar a energia astral". Com essas palavras misteriosas, ela se afastou, e fiquei tentando lembrar como a história do Papagaio de Yorkshire terminava. Anna Wertz apareceu no caminho de repente, e eu me levantei e me virei em direção a meu bangalô, fingindo que não a tinha visto. Mas ela andou mais rápido do que eu e logo me alcançou. Anna não me impediu de aproveitar o ar da noite e, estando eu sem a corneta, sua voz era um murmúrio distante, como o de uma multidão num campo de futebol longinquo. Sem fazer nenhuma tentativa de ouvi-la, reparei com alegria que Vênus estava visível e brilhava sobre as copas das árvores. Desejava dizer a Anna como eu amava esse planeta brilhante, mas sabia que isso estava fora de questão. Ela parecia irritada, é provável que estivesse trabalhando muito duro outra vez, ainda que eu não fosse capaz de imaginar o que ela fazia de tão exaustivo.
  • Page 55Todos nós apreciamos ser populares, mas que preço a pagar, sempre falando a respeito da outra pessoa e nunca de si própria. E duvido que alguém tenha algum prazer com isso, a menos, é claro, que volta e meia seja convidado para tomar chá com doces franceses. Vinho do Porto poderia ser servido em vez de chá, se uma pessoa muito interessante assim preferisse. Especialmente se eu fosse essa pessoa interessante e só falasse de outras pessoas. Nesse caso, talvez eles cogitassem trocar a bebida. Me vi sentada numa sala quente com cortinas escarlate cercada por rostos felizes, reservados, mas vagos. Bebi taças e mais taças do saboroso vinho português acompanhadas vez ou outra de um pequeno éclair francés. Todas ficavam cada vez mais felizes, quando cheguei ao farol explodiram em aplausos, Anna Wertz havia desaparecido. Ela deve ter notado que eu não estava prestando atenção no que ela dizia. Pobre Anna, que terrível que ninguém gostasse de ouvi-la.
  • Page 56Resolvi discutir tudo isso com Georgina, que em geral parecia bem informada. Havia outra questão importante que decidi debater com Georgina, que dizia respeito ao retrato da freira pendurado em frente ao meu lugar no refeitório. Durante as refeições, o dr. Gambit costumava fazer longos discursos sobre assuntos teóricos que eu não entendia. Enquanto o médico falava, eu tinha tempo de sobra para examinar a freira que piscava. Meu interesse aumentou com o passar do tempo. Georgina era culta e volta e meia mencionava artistas famosos que tinham sido loucamente apaixonados por ela. Então, fingindo que meu interesse era apenas artístico, perguntei a ela sobre a pintura.
  • Page 58"Pode ser a escola Zurbarán", ela disse, pensativa. "Provavelmente pintado no final do século XVIII. Espanhol, é claro, um italiano nunca faria algo tão encantadoramente sinistro. Uma freira com um olhar de soslaio. Mestre desconhecido." "Você acha que ela está piscando mesmo ou é cega de um olho?", perguntei, ansiosa pela opinião de Georgina a respeito de um aspecto mais pessoal da mulher.
  • Page 59"É", disse Georgina, “como aqueles espanhóis entendiam de pintura de tecido preto. Era muito mais soberbamente deprimente do que o preto dos outros. O hábito da velha tem a textura de pétalas de orquídea e a cor do Limbo. É mesmo uma pintura maravilhosa. O rosto cercado por aquele babado branco e engomado é luminoso como a lua cheia, e tão fascinante quanto." De alguma forma, senti que Georgina entendia a pintura da maliciosa madre superiora melhor do que eu jamais entenderia. Três dias depois de chegar ao Salão Luminoso, tive minha primeira consulta particular com o dr. Gambit. Fui convocada a seu consultório por um pequeno pedaço de papel de carta rosa com a seguinte mensagem: "Marian Leatherby, por favor, apresente-se em meu consultório às seis da tarde, L. Gambit, Psi".
  • Page 60já estão tão decepcionadas com a existência que os laços afetivos seriam enfraquecidos com o tempo e a frustração. Essa condição é capaz de abrir as portas psíquicas para a Nova Verdade."
  • Page 61I Porno Fe Holy
  • Page 62Ele me olhava com severidade, mas eu apenas assentia com a cabeça, como faço quando estou nervosa. Então ele anotou algo num caderno e continuou: "Cada integrante desta comunidade é Observada com atenção e Avaliada para que possa receber Ajuda. Nenhuma Ajuda será útil se não houver colaboração e Esforço da parte da pessoa. Relatórios no seu caso específico mostram a seguinte lista de impurezas interiores: Ganância, Desonestidade, Egoísmo, Preguiça e Vaidade. No topo da lista está a Ganância, demonstrando uma paixão dominante. É impossível superar tantas deformidades psíquicas num curto espaço de tempo. Você não é a única vítima de seus hábitos degenerados, todos têm falhas, e aqui buscamos observar essas falhas e eliminá-las sob a luz da Observação Objetiva, da Consciência. "O fato de Você Ter Sido Escolhida para se juntar a essa comunidade deve oferecer estímulo o bastante para enfrentar seus próprios vícios com coragem e lutar para diminuir o domínio deles sobre você."
  • Page 63diárias com atenção e Esforço. Não tente interpretar os Planos Superiores e seus mistérios antes de poder se livrar do Hábito Automático. Vício e Hábito significam a mesma coisa. Enquanto formos vítimas do Hábito, seremos escravos do Vício. Aconselho você a começar abrindo mão da couve-flor. Percebo que você tem um apetite exagerado por esse legume, sua paixão reinante, na verdade, a Ganância." A sra. Gambit devia ter me visto roubar um pequeno ramo de couve-flor cozida durante as tarefas matinais na cozinha. Preciso ser mais cuidadosa, pensei, balançando a cabeça.
  • Page 64De qualquer forma, toda essa conversa sobre a ganância viciosa sem dúvida contribuía para a economia ao alimentar velhas senis. As gavetas daquela escrivaninha colossal com certeza estavam cheias de frutas em conserva, biscoitos, jujubas e caramelos. A gaveta de cima era reservada, imagino, para alimentos perecíveis, como sanduíches de queijo e frango assado frio, para que não fossem esquecidos sob algum livro de contabilidade numa gaveta de baixo. "Glandular mesmo!", eu disse em voz alta. "Nunca ouvi tamanha baboseira."
  • Page 65acendendo um cigarro e pondo na boca dela. Observei tudo isso com um olho. Devo dizer, o dr. Gambit teve uma atitude inesperada com Natacha Gonzalez. "Querida Senhora, Serenidade é o Tributo que você deve prestar às maravilhosas Dádivas que fluem através de você. Serenidade, Natacha", ele repetiu, olhando fixo para ela através das duas lentes grossas de seus óculos. "Serenidade, Natacha, você está serena, perfeitamente calma e serena."
  • Page 66'Diga a Georgina Sykes que se ela continuar espalhando fofocas maldosas sobre o dr. Gambit e ela, suas chances cada vez menores de Salvação serão petrificadas para sempre"." Eu vi o médico se contorcer, nervoso. "Que tipo de fofoca?", ele perguntou bruscamente, em seguida modificando o tom para o de uma fala arrastada hipnótica: "Que tipo de fofoca, Natacha? Você está calma e Serena. Que tipo de fofoca?".
  • Page 67Então ela me empurrou para fora e bateu a porta. Ainda brilhando com paz secreta, passei dia trabalhando com alegria até ter a infelicidade de encontrar Georgina meia hora atrás, no passeio do fim da tarde. Ela me deteve e sibilou como uma serpente furiosa: 'Natacha Gonzalez, você é uma hipócrita lamentável, e se algum dia tentar me trazer mais alguma de suas mensagens bestiais vou cuspir na sua cara'. Esse é o relato completo de todo o caso. É meu dever abrir sua consciência para o perigo e a perfídia dessa mulher horrível. Vou sair da Instituição se ela permanecer." O dr. Gambit parecia ter esquecido a serenidade afortunada. Ele agora andava de um lado para outro balançando as mãos e dizendo: “É uma ocorrência terrível. Georgina Sykes é mantida aqui por seu sobrinho, que paga o dobro do que qualquer outra pessoa porque ela demanda extras. Extrato de Bovril, lençóis limpos duas vezes por semana, massagem e Ovomaltine na hora de dormir. É tudo muito angustiante, a sra. Gambit deve ser poupada disso, a enxaqueca dela me impediria de dormir por semanas".
  • Page 68A tarde de domingo era o período habitual para receber visitas. Parentes mais afetuosos chegavam com piqueniques para o almoço, que eram comidos em diferentes cantos do jardim ou no gramado. O restante de nós, que não recebia essa atenção especial, sentava-se perto dos que comiam e os observava com atenção para poder criticá-los depois; assuntos para conversa eram sempre bem-vindos. Além disso, as pessoas que recebiam presentes suntuosos, como frango assado e bolo de chocolate, mereciam uma observação mais detida. Diversos domingos se passaram até que Galahad e Muriel viessem me ver. Chegaram por volta das cinco da tarde, trazendo uma caixa de jujubas multicoloridas e uma carta de Carmella. Eu estava muito animada por enfim ter notícias de Carmella, mas controlei minha impaciência e guardei o envelope gordo no bolso, para depois apreciá-lo sozinha e sem distrações. Muriel parecia mais gorda do que nunca, e Galahad bastante cansado. "Sei que você ficará muito feliz de saber que Robert está noivo", disse Muriel, com a voz sempre tão desagradavelmente alta que era obrigada a ouvi-la. "Estamos muito contentes, porque ele escolheu uma boa garota inglesa de uma família muito bem de vida. Eles são uma família antiga de Devonshire. O coronel Blake esteve aqui com Flavia e os dois se apaixonaram no torneio anual de tênis organizado pelo Clube Britânico. Nós achamos que é uma combinação muito adequada, não é, Galahad?"
  • Page 69insensível. Além disso, sentir pena de Georgina era algo inusitado, todas nós admirávamos suas roupas elegantes e um tanto extravagantes. "Então, meu bebê, o Robert, agora é um homem adulto e está se casando", Muriel continuou com a mesma voz estridente. "Vai ser em junho. Não é uma novidade emocionante?"
  • Page 70A ideia de Robert atuar numa peça me deu náuseas, então não disse nada. "A sra. Birch", continuou Muriel, "ficou tão chateada quando Flavia conseguiu o papel que fez uma cena. Essa mulher não tem mesmo vergonha, na idade dela. Atuando! Ela deve ter no mínimo sessenta anos."
  • Page 71uma região muito perigosa e complicada da cidade. Claro, eu faria qualquer coisa para diminuir seu sofrimento, mas seria muito difícil conseguir qualquer quantidade de maconha, então, por favor, seja específica na sua carta se você realmente precisa. Planejar minhas visitas tem me ocupado muito, pois arranjei disfarces diferentes para cada uma delas, para que não suspeitem caso eu precise ajudá-la a escapar. Elisa, a nova funcionária, me contou que o avô tem uma fantasia antiga de charro que o falecido patrão deixou para ele, e estaria disposto a alugá-la por uma pequena quantia. Esperava chegar vestida como um general húngaro, mas é um uniforme raro por aqui. Um traje de toureiro também seria ótimo, mas acho que pode sair muito caro. De qualquer forma, melhor não dar muita bandeira, pois poderia levantar suspeitas. Um bigodão falso e óculos escuros costumam bastar para mudar consideravelmente a aparência de alguém.
  • Page 72Depois de ler a carta de Carmella muitas vezes, fiquei mergulhada em meus pensamentos. A freira piscando não poderia ser outra senão Doña Rosalinda Alvarez Cruz della Cueva. Que misterioso que Carmella a tenha visto telepaticamente. Como ela ficaria animada quando lhe contasse da pintura e de como a madre superiora ocupava meus pensamentos. Os planos de Carmella para a passagem subterrânea entre a Instituição e sua casa pareciam muito difíceis de realizar. Quem faria a escavação? Onde encontraríamos dinamite para abrir nosso caminho através das rochas subterrâneas? Com picaretas, levaríamos uma eternidade para cavar ao menos dez quilômetros no subsolo.
  • Page 73travado e vencido por toda a Europa e pela África. Maude, que era tímida, quase nunca ousava interromper essas histórias repetitivas da guerra. "A lama estava até o pescoço", dizia a marquesa, jogando os dados no tabuleiro. "Acima dos nossos quepes, eu e o capitão sentíamos as balas que passavam zunindo enquanto espiávamos por cima das trincheiras. Os alemães avançavam impiedosos com sua artilharia pesada. Os tanques chacoalhavam com suas metralhadoras feito robôs vingadores. A situação era desesperadora. Estávamos mortos de cansaço, mas o dever nos mantinha cambaleantes em nossos postos. A única esperança é um ataque direto, mon capitaine, estamos sob fogo em ambos os flancos.' A mandíbula forte do capitão se contraiu a olhos vistos: 'Seria um assassinato a sangue- frio para as tropas', ele respondeu com seu rosto enlameado, os olhos azuis afiados. Agarrei seu braço e apontei para o mar atrás de nós, 'Para onde devemos recuar?', eu disse, minha voz rouca de emoção. Não preferimos morrer lutando a ser esmagados na lama pelos tanques?' 'Como sempre, devo me curvar ao seu conselho', disse o capitão, ‘en avant!
  • Page 74desértica. Eu era a segunda no comando do nosso batalhão. Estávamos escoltando duas ambulâncias da Cruz Vermelha até o deserto..." "Receio ter vencido", disse Maude, tímida. "Pura sorte, é claro. Este jogo não requer nenhuma habilidade verdadeira como o xadrez."
  • Page 75de bicicleta. Tenho certeza de que ele tem razão, embora eu não seja inteligente o bastante para entender tudo o que nos diz. Ainda assim, na nossa idade é difícil não ceder um pouco aos pequenos prazeres. Embora eu saiba que você vai me achar boba, às vezes me pego imaginando que estou passeando por uma floresta sussurrante de bétulas em algum lugar ao norte. É início da primavera e as últimas geadas fazem a grama estalar sob os meus pés." "É, eu entendo", eu disse fervorosamente. "Bétulas, bétulas prateadas que parecem muito mais vivas do que essas palmeiras desagradáveis."
  • Page 76estátua. É um cálice de prata transbordando de mel dourado. Bebo o mel e devolvo a taça a Diana com uma oração de agradecimento, ou melhor, não é bem assim. Eu tento sorver o mel, mas é muito grosso e preciso arranjar uma colher. Não há colheres, então, depois de lamber a borda do cálice, devolvo-o ainda quase cheio para a Deusa, e faço minha oração de agradecimento. "A estátua de Diana não está muito atrás e encontro uma pequena chave de ferro meio escondida sob uma pedra. Sei que vou precisar dela, então guardo no meu bolso. E como esperado, de repente me vejo na frente de uma porta de madeira embutida numa parede coberta de musgo. Logo quando estou me perguntando se devo ou não abri-la e enfio a chave de ferro na fechadura, alguém se aproxima de mim e me empurra pela porta com violência. A porta se abre por conta própria e eu caio num estranho quarto luxuoso, mobiliado num estilo que parece renascentista. Mas sou tão ignorante sobre arte que poderia muito bem ser gótico ou mesmo barroco. A cama de dossel está ocupada por uma mulher que usa uma touca de dormir branca com babados. Ela pisca para mim e eu a reconheço como a freira da pintura da sala de jantar."
  • Page 77"Bem, acho melhor me apressar, é hora de ir para a cama", falou Maude. "Divido um bangalô com a sra. Van Tocht. Você sabe, a Vera. Ela não gosta que eu vá para a cama tarde, pois diz que consegue me ouvir tirando os sapatos através das paredes. Ela tem um sono muito leve. Gosto muito da Vera. Ela é tão espiritual. Acho que eu nunca poderia alcançar seu plano superior." "É, ela me disse que vocês fazem sessões espirituais nas noites de quarta- feira."
  • Page 78perguntava, eu havia deixado minha caneta e o tinteiro? O papel, eu sabia, estava no armário lá em cima. Quando escrevi para Carmella todas as notícias que pude lembrar, fui para a cama, deixando o restante para o dia seguinte. A lua brilhava pela minha janela e eu não conseguia dormir, mas fiquei meio sonhando e meio acordada, um estado bastante familiar para mim a essa altura. Memórias de um passado distante surgiram como bolhas na minha mente e coisas que eu pensava ter esquecido havia muito tempo voltaram tão claras como se tivessem acabado de acontecer.
  • Page 79necessidades frugais. Pierre, Rue des Beaux-Arts. O brilhante Pierre com todas as suas teorias maravilhosas encontrando um fim tão triste. Ele morreu afogado na banheira, assassinado, dizem, por um pintor de naturezas-mortas. Pierre havia ficado furioso porque reconheceu uma cenoura numa das pinturas do assassino, Jean Prissard. O artista indignado entrou no apartamento de Pierre e, encontrando-o na banheira, segurou-o embaixo d'água até que ele se fosse. Pobre Pierre, não lembro se o assassino foi condenado à guilhotina. Pierre, que era tão maravilhosamente inteligente e sensível a respeito de pintura que, se uma tela tivesse qualquer coisa além de uma cor pintada na mesma cor, ele quase desmaiaria de horror. A forma, dizia ele, era ultrapassada e vulgar. Portanto, a cenoura, que pode não ter sido uma cenoura coisa alguma, foi o que o enviou rumo a uma morte prematura. Na segunda ou na terça, não me lembro qual, eu estava sentada perto do laguinho das abelhas tentando aprender sozinha a fazer crochê. A sra. Gambit disse que o ócio era a verdadeira causa da minha ganância terrível, então pensei em fazer um cachecol. Maude me deu um pouco de la verde e uma aula de crochê. Não era tão simples quanto ela queria que eu acreditasse. Eu tinha parado para admirar as abelhas e invejá-las com um trabalho tão eficiente quando Natacha Gonzalez apareceu de repente. A cabeça dela estava enrolada em um lenço cor de malva como se estivesse com dor de dente.
  • Page 80"Talvez a sra. Gambit poderia dar um pouco de Sedebrol se você pedisse. Acho muito eficaz", respondi com gentileza. Natacha apertou a cabeça e gemeu. "Sedebrol! mas é claro que você não entende. Estou tonta de sono, só não ouso fechar os olhos por causa dos ratos."
  • Page 82Isso me deu um choque, sempre tive pavor de ratos e camundongos. "Que horror", eu disse, “há ratos no seu bangalô?" "Ratos ENORMES", respondeu Natacha. "Eu diria que esses ratos são quase tão grandes quanto cães spaniels. Então é claro que não ouso dormir. Eles podem roer meu nariz."
  • Page 83"Víbora!", exclamou Natacha. "Aconselho você a não falar com Georgina Sykes. Ela é uma mulher perigosa, imoral e maligna!” Enquanto enrolava seu lenço malva firme em torno da mandíbula, ela apontou um dedo curto para o arbusto de jasmim. "Víbora!", ela xingou através do lenço. "Réptil venenosa!" E foi embora ainda blasfemando. Georgina se aproximou e se sentou. "Sendo bem direta", disse, "Natacha Gonzalez é um porre. Eu tenho um apelido para ela. Eu a chamo de Santa Rasputina. Toda aquela história dos ratos era pura bobagem, ela estava mentindo. Rasputina venderia sua mãe para os comerciantes de escravos brancos para conseguir um pouco de atenção. Ela tem um complexo de poder, como Hitler. Inventa ratos do tamanho de spaniels assim como inventa conversas íntimas com santos da altura de postes de telégrafo. Tudo tem o mesmo propósito, poder e mais poder. É muito bom para a humanidade que ela esteja trancada em um lar para mulheres senis."
  • Page 84"Espero que você não pretenda usar isso um dia", continuou Georgina, ignorando minha reprovação. "Você ficaria como Noé depois que se afogou no dilúvio. Verde não é a sua cor, você já é verde demais do jeito que é." "Certamente você não espera que eu me pareça com uma debutante", falei. "Além disso, Noé não se afogou. Ele tinha uma Arca, sabe, cheia de animais." "Todo mundo sabe que a Bíblia toda é imprecisa. É verdade que Noé saiu numa Arca, mas ficou bêbado e caiu no mar. A sra. Noé foi para a popa e ficou assistindo enquanto ele se afogava, não fez nada quanto a isso porque herdou todo aquele gado. As pessoas na Bíblia eram muito sórdidas e ter muito gado naqueles tempos era como ter uma boa conta bancária." Georgina se levantou e jogou a ponta do cigarro no lago das abelhas, onde ele chiou de forma desagradável.
  • Page 85mamãe levou uma vida de prazeres vertiginosos e constantes. Jogos de críquete, festas de tiro, bazares, compras na Regent Street, festas de bridge e massagem facial no Madame Pomeroy's, um salão de beleza fora de moda perto da Piccadilly Circus. O fato de mamãe nunca estar a par da moda fazia parte de seu charme. Sempre chegávamos cedo ou tarde demais para tudo. Chegamos em Biarritz, eu me lembro, numa tempestade de neve no mês de fevereiro. Mamãe tomou o clima como um insulto pessoal, ela acreditava que a Riviera estava no equador, a neve em Biarritz a convenceu de que os polos estavam mudando de lugar e a Terra estava saindo de órbita. Éramos as únicas hóspedes num hotel tão grande quanto a Estação Victoria. "Não me admira que as pessoas nunca venham a Biarritz", disse minha mãe. "Está vazio. Vamos a Torquay no ano que vem, é muito mais barato e o clima é bem mais ameno." Seguimos para Monte Carlo, onde mamãe encontrou seu lar espiritual no cassino. Ela se esqueceu do clima. Tive um flerte com o balconista de uma agência de viagens. Ele nos vendeu passagens para Taormina e lá fomos nós para a Sicília. Mais romance em Taormina, dessa vez com um maître chamado Dante. Ele nos vendeu um quadro muito barato de Fra Angelico que acabou por não ser autêntico e, portanto, não tão barato quanto pensávamos. Mas o tempo agora estava lindo e as buganvílias em plena floração.
  • Page 86comprar calcinhas de cetim marrom, mas não encontramos em lugar nenhum. "Era melhor ter ficado em Londres", disse mamác, que comprou um quepe de marinheiro que não combinava muito com ela. "Eu encontraria todas as mesmas coisas na Regent Street pela metade do preço." Fomos ao Folies Bergère porque mamãe achava que eu já tinha idade o bastante para ver Mistinguett. "Todas essas mulheres nuas me entendiam, os gregos já fizeram isso tanto tempo atrás”, disse mamãe, que ainda estava irritada com a calcinha de cetim marrom. Na noite seguinte, fomos ao Bal Tabarin, do qual ambas gostamos. Dancei com um armėnio muito simpático que me telefonou no dia seguinte no hotel. Mamãe comprou passagens de volta e partimos de Paris antes que o armênio tivesse a chance de nos vender qualquer coisa.
  • Page 87pena nunca ter ido ao Egito, mas graças à minha mãe conheci a maior parte da Europa durante a minha juventude. A arte em Londres não me parecia moderna o bastante e comecei a flertar com a ideia de estudar em Paris, onde os surrealistas estavam no auge. Hoje em dia, o surrealismo não é mais considerado moderno e em quase todas as casas paroquiais e escolas para meninas se veem quadros surrealistas pendurados nas paredes. Até o Palácio de Buckingham tem uma grande reprodução da famosa fatia de presunto de Magritte com um olho à espreita. Está, creio, na sala do trono. Os tempos mudam mesmo. Recentemente, a Academia Real Inglesa fez uma exposição retrospectiva do dadaísmo e eles decoraram a galeria como um banheiro público. Quando eu era jovem, as pessoas em Londres teriam ficado chocadas. Hoje em dia, o Lorde-Mayor inaugura a exposição com um longo discurso sobre os mestres do século xx e a Rainha pendura uma coroa de palma-de-santa-rita numa peça de escultura chamada Umbigo, de Hans Arp.
  • Page 88em seu colo, muito menos os trataria com carinho. Tudo que Natacha tinha falado a respeito de ratos e da sra. Gambit me veio à mente. Muito curiosa, entrei e me ofereci para ajudar a descascar as ervilhas. "Sente-se", disse a sra. Gambit. "Fico contente de ver que você está lutando contra a ociosidade."
  • Page 89"Orgulho na cozinha não é melhor do que orgulho na sala de estar", repreendeu a sra. Gambit. "Além disso, sua família não demonstrou nenhum desejo de pagar extras. Nosso orçamento já é muito alto para permitir comidas caras apenas para exibir suas habilidades." Aqui a sra. Gambit me lançou seu sorriso agonizante e percebi que fui dispensada.
  • Page 90razões para se esconder ali eram as mesmas que as minhas. Deixei Maude e Natacha seguirem seus caminhos e então peguei um atalho que me levou para trás do iglu de Natacha, onde uma grade baixa oferecia uma boa visão do interior. Natacha entrou no iglu, pôs o doce na gaveta de cima de uma cômoda e a cobriu com o que parecia ser uma roupa íntima. Ela estava de costas para a porta e assim não pôde ver Maude, que enfiou a cabeça para dentro e assistiu a todo o procedimento, então desapareceu antes que Natacha tivesse tempo de se virar. Consegui seguir Natacha de volta à cozinha sem ser vista passando pelo caminho do laguinho das abelhas. Como estava munida da corneta auditiva, pude ouvir a seguinte conversa perto do arbusto de fúcsia: "Bem! Olá, Georgina, estou tão feliz de ter a chance de trocar uma palavra com você a sós", veio a voz de Natacha. "Não devemos continuar esnobando uma à outra como duas garotas bobas." Georgina grunhiu e murmurou algo que eu não consegui escutar. Natacha respondeu com uma espécie de risadinha: "Consegui escapar e escondi alguns doces no meu bangalo", disse ela a Georgina. "Pensei em convidá-la para um pequeno banquete para que possamos nos abraçar e esquecer as nossas diferenças." "Tudo bem", falou Georgina. "Contanto que não tenhamos que nos abraçar. O que você tem pode ser contagioso."
  • Page 91"Bem, eu preciso mesmo voltar antes que a sra. Gambit note minha ausência", falou Natacha. "Hoje à noite vou entrar em seu bangalô alegre e levar algo bom para comer. A toute à l'heure, Georgina!" Elas se separaram. Ouvi Natacha dar uma risada feliz enquanto Georgina, andando na outra direção, parecia estar proferindo algum tipo de palavrão. Voltei para o Farol muito pensativa, desejando que Carmella estivesse lá para que pudéssemos falar de todos esses acontecimentos estranhos. Passei perto do iglu de Natacha bem a tempo de ver uma figura escapar pela porta e desaparecer no jardim. A delicada blusa de musselina azul de Maude era inconfundível. Ela obviamente tinha ido até o doce escondido.
  • Page 92"Boa noite, sra. Leatherby", ela disse com seu elegante sotaque de Oxford. Ela era da Jamaica e seu pai tinha sido um químico eminente, eu soube mais tarde. "Boa noite, sra. Burns. Que bom ver você descansar um pouco para variar."
  • Page 93e como as porções de comida permitidas pela sra. Gambit são tão pequenas que logo acabo de comer, tenho bastante tempo para contemplá-la”. "Isso não explica nada", disse Christabel, “porque sentada bem na sua frente e muito mais próxima e maior do que a pintura está a sra. Van Tocht. Por que você não contempla ela?"
  • Page 94fazer aqui é trazer um livrinho. Sei que você não gosta de ler. Isso vai ser diferente." O livro estava encadernado em couro preto. Na página de rosto, li: "Doña Rosalinda della Cueva, Abadessa do Convento de Santa Barbara de Tartarus. Canonizada em Roma, 1756. Uma verdadeira e fiel representação da vida de Rosalinda Alvarez”.
  • Page 95provável, então não me preocupei em alarmar as pessoas. A vida amorosa das funcionárias não era da minha conta. Se fosse um ladrão, nenhuma de nós teria muito a perder. Entrei no Farol, sentei-me à mesa e abri o livro. Uma representação verdadeira e fiel da vida de Rosalinda Alvarez della Cueva, Abadessa do Convento de Santa Barbara de Tartarus. Traduzido do original em latim pelo Frei Jeremias Nacob da Ordem do Santo Caixão.
  • Page 96o resultado do meu zelo em cumprir a vontade de Deus, abrindo meu coração e, assim, liberando o pesado fardo interior. O selo sagrado do confessionário, portanto, não impede mais a impressão deste documento; deixei de ser padre. Como 0 confessor privado da Abadessa, acredito deter um conhecimento incomparável dos caminhos de sua alma sombria.
  • Page 97que, sem dúvida, se tornará mais compreensível depois do meu relato de certos acontecimentos posteriores. O trecho da missiva de Doña Rosalinda ao Bispo diz o seguinte:
  • Page 98certamente o matará antes do tempo. Aconselho também a seduzir menos adolescentes, pois você pode esgotar sua seiva e se tornar um caduco antes de ser um mago. Agora, com a permissão de Vossa Graça, farei um breve relato das pequenas falhas de nossa senhora Abadessa para que você possa liberar o veneno de seu corpo com alguma alegria calorosa...
  • Page 99Após a morte da velha Abadessa, a rotina do convento sofreu muitas mudanças imperceptíveis para o mundo fora dos seus muros. A supervisão espiritual das freiras estava a cargo do Bispo de Trève les Frêles. Ninguém ousaria criticar algo aprovado por um dignitário tão alto da Igreja. Nas horas mais escuras da noite, a capela do convento tornava-se palco de danças orgiásticas e cânticos estranhos em línguas desconhecidas. Trajes esdrúxulos, pompas e banquetes tornaram-se a ordem do dia no Convento de Santa Barbara.
  • Page 100Uma estante chinesa decorada com colunas de lótus de marfim e cavalos ajoelhados feitos do melhor jade e roliços como porcos guardavam a biblioteca pessoal de Doña Rosalinda. Seus livros eram encadernados com couro de vários animais, de acordo com seu conteúdo específico. Manuscritos especiais seriam encadernados com pele de avestruz ou de lobo. Um breviário de natureza mais frívola podia ser revestido com pele de arminho ou de toupeira. Um documento Cabalístico por Agrippa von Nettesheim estava encadernado em chifre de rinoceronte, delicadamente gravado com o horóscopo da Rainha Hatshepsut. O Liber Spirituum e o Grimorium Verum foram cobertos com peles de pássaro e cravejados com pequenos rubis e pérolas.
  • Page 101unguento que dizem ter sido escavado em Nínive e encontrado ao lado da múmia da própria Maria Madalena. Esse poderoso afrodisíaco foi sem dúvida o responsável pelos supostos milagres atribuídos à Abadessa depois de sua morte. Um relato de Madre Maria Guillerma me informou do seguinte acontecimento extravagante, do qual ela foi testemunha ocular pelo amplo buraco da fechadura dos aposentos de Doña Rosalinda. Os buracos das fechaduras mais tarde tornaram-se obscurum per obscurius depois que duas freiras ficaram cegas de um olho por uma agulha de prata enfiada na abertura pela Abadessa sempre perspicaz. Elas viram Rosalinda e o Bispo inalando Musc de Madelaine e por algum processo de enfleurage ficaram tão saturados com o vapor do unguento que foram cercados por uma nuvem ou aura azul-pálida que aparentemente agia como um elemento volátil em corpos sólidos. Assim, o Bispo e a Abadessa foram lançados no ar e ficaram suspensos, levitando sobre o caixote aberto de manjares turcos com o qual ambos se empanturraram. O decoro proíbe um relato completo das acrobacias repugnantes que foram realizadas no ar.
  • Page 103Por volta da festa de Corpus Christi, a Abadessa recebeu uma mensagem que a deixou em estado de grande agitação. Esse documento, que ainda está em minha posse, diz o seguinte: Sua Alteza Real, o Príncipe Theutus Zosimos, que acaba de desembarcar em território espanhol, envia sua mais atenta homenagem à Senhora Abadessa, Dofia Rosalinda Alvarez Cruz della Cueva do Convento de Santa Barbara de Tartarus, e pede para informá-la que veio à Espanha com a determinação de recuperar vinte e um frascos de unguento Musc de Madelaine, os quais são sua propriedade legítima e comprados pelo preço de quinze camelos, cem pesos de grãos de trigo e seis cabras angorás. A Caravana de Sua Alteza foi selvagemente atacada perto de Nínive pelo que Sua Alteza pensou ser um bando de facínoras locais. Sua dolorosa surpresa foi, portanto, ilimitada quando soube por um espião enviado atrás dos bandidos que o corpulento líder dos Assassinos não era outro senão o Bispo de Trève les Frêles. Com alguma despesa e diligência, Sua Alteza foi informada de que o destino final do referido unguento era o Convento de Santa Barbara de Tartarus, Castela, Espanha.
  • Page 104discretos de cor violeta da meia-noite enfeitados com zibelina e babados no pescoço com renda irlandesa cor de leão, muito rara na Espanha naquela época. A carruagem fora construída especialmente para missões secretas. Nunca saiu do convento durante a luz do dia, por isso era pouco conhecida na redondeza. O interior foi feito seguindo os gostos luxuosos habituais da Abadessa, sândalo perfumado acolchoado com pele de antílope cravejada de joias, almofadas e cortinas de seda cor de limão bordadas com Espadas e Romás em fios de prata e ouro, pérolas, opalas e rubis. O exterior da carruagem apresentava um aspecto que aparentava simplicidade. Era revestido de folha de prata e não tinha nenhum ornamento além de uma coroa de sereias e abacaxis em volta da parte superior. A carruagem era puxada por duas éguas árabes magníficas, brancas como leite e incomparavelmente rápidas.
  • Page 105Zosimos não ter concordado de forma alguma com essa honra não afetou a decisão da Abadessa. Ela ficou sentada sorrindo para si mesma enquanto o Príncipe chutava e xingava em sua própria língua, preso nas garras fortes de Don Venancio, o Espadachim. A jornada de volta a Santa Barbara de Tartarus deve ter sido um espetáculo e tanto. O relato da Abadessa, no entanto, foi contido e ela se recusou a ser interrogada quando chegou. Deduções da situação se tornaram possíveis, no entanto, graças a certas observações cáusticas feitas pelo Bispo, e a atitude do Príncipe Theutus Zosimos não deixou absolutamente nenhuma dúvida quanto ao aspecto geral da situação.
  • Page 106escura ficou amarelo-cádmio e seus olhos brilhantes afundaram em seu rosto como dois poços estagnados. A Abadessa, cuja paixão dominante sempre foi a curiosidade profana, decidiu dar ao Príncipe doente uma pequena quantidade de Musc de Madelaine em uma tisana. Até então, ninguém havia sorvido o poderoso unguento pela boca; Doña Rose e o Bispo sempre obtiveram os resultados desejados apenas inalando o vapor. Depois de alguns cálculos no observatório do andar de cima, a Abadessa preparou uma bebida com folhas de verbena, mel, algumas gotas de água de rosas e uma colher de sopa cheia de Musc de Madelaine. O Bispo, que já tinha afeição paterna pelo Príncipe e sem dúvida teria levantado objeções a essa experiência, estava por acaso em uma curta viagem a Madri. Certas questões eclesiásticas relativas à diocese de Santa Barbara de Tartarus agora exigiam atenção; a pequena nobreza, cujos impostos haviam aumentado devido às exigências da vida luxuosa no convento, enviara queixas ao Arcebispo, que por sua vez enviara uma mensagem ao Bispo solicitando sua presença em Madri. Tudo isso era apenas uma questão de formalidade, pois o próprio Arcebispo tinha gosto pelo conforto e de modo algum esperava qualquer redução dos impostos. A pequena nobreza ficava com a impressão de que tudo estava bem, pois altos dignitários da Igreja estavam conduzindo conferências tão importantes em seu nome na capital.
  • Page 107Cristã, mas dificilmente ousaria desobedecer à Abadessa, pois sua personalidade imponente sempre petrificou minha força de vontade. Uma vez que Theutus Zosimos engoliu à força a última gota da Poção, ele passou a ter uma série de convulsões assustadoras. A expressão de leve divertimento no rosto de Doña Rosalinda era mais uma prova de uma alma insensível.
  • Page 108ela mesma o persuadira a retornar pacificamente para seu país. Além disso, assegurou ao Bispo que o Príncipe lhe impôs de repente certos galanteios que ela achou por bem corresponder, em troca dos vinte e um frascos de Musc de Madelaine. É improvável que o Bispo acreditasse mesmo em toda essa história, embora a aceitasse sem fazer comentários e seguisse definhando. Devido, portanto, ao estado de saúde debilitado, o Bispo decidiu passar um tempo em Provença, onde o ar revigorante, disse ele, logo restauraria sua exuberância habitual. No entanto, acredito que a notícia de um novo trunfo para a música eclesiástica de Avignon foi o que estimulou sua partida. Fomos informados por um menestrel, que havia passado pela cidade em questão, que um bando de meninos louros encantadores do coro havia chegado das Ilhas Britânicas, e que suas vozes delicadas só podiam ser comparadas a uma hoste angelical. O menestrel nos contou ainda que os meninos estavam sob o amparo de um pequeno grupo de Cavaleiros Templários que escaparam do expurgo e estavam escondidos na Irlanda. Os perseguidos Cavaleiros Templários, disse o menestrel, continuaram a iniciar devotos à ordem que floresceu sob o amparo de certa nobreza irlandesa.
  • Page 109Até sugeri à própria Abadessa uma leve penitência, que consistia em três rosários por semana e acender algumas velas para a Virgem Santíssima. No entanto, ela riu tanto quando fiz essa sugestão que fui obrigado a me retirar aflito e um pouco envergonhado. Durante sua vida, essa mulher sempre conseguiu se impor tanto aos outros mortais comuns que eles aceitavam sua superioridade sem questionar. Por mais que minha consciência me assegurasse que ela era uma profanação manifesta para os dogmas da santa fé Católica, ainda assim me achava fraco e flexível sob sua presença férrea.
  • Page 110O verão e o inverno passaram antes de recebermos notícias do Bispo. Foi durante os idos de março que chegou a primeira mensagem de Avignon. Doña Rosalinda andava inquieta de uma forma incomum desde o início de janeiro e fazia inúmeras cavalgadas noturnas nas montanhas sob seu disfarce habitual, um cavalheiro nobre de barba curta e ruiva. Tentei desencorajar essas excursões com o argumento de que algum camponês errante poderia um dia vê-la entrar pelos portais do convento. No entanto, minhas advertências foram inúteis. Ela disparava noite adentro montada em seu garanhão preto, Homunculus. O corcel de fogo regressava ao estábulo cambaleando de fadiga e ensebado da cabeça à garupa depois desses passeios extravagantes. Algum tormento secreto parecia levar a Abadessa noite adentro, onde ela buscava em vão acalmar sua turbulência interior cavalgando Homunculus impiedosamente o bastante para partir o coração robusto do animal. Se ela atingiu esse grau de agitação interior por causa da falta de progresso em seus estudos esotéricos ou apenas por tédio, era impossível saber. Um pequeno incidente naquela época causou rumores entre OS camponeses. Alguns cachorros de rua desenterraram o cadáver do Príncipe Zosimos e correram para a aldeia carregando diferentes partes de seu corpo já decomposto. Os pedaços de osso e carne, no entanto, ainda eram reconhecidamente humanos, e o magistrado local mostrou algum interesse na identidade original do cadáver. É possível que a Abadessa tenha usado esse escândalo embrionário como desculpa para a viagem que se seguiu, embora eu pense que o verdadeiro motivo tenha sido sua própria inquietação interior e, claro, a missiva do Bispo que dizia o seguinte:
  • Page 111mesmo noites foram gastos em uma atividade tão contínua e extenuante que devo rezar para que você encontre perdão em seu coração por ter me omitido de enviar notícias. Ao partir, não pretendia uma estada tão longa em Avignon. Como você sabe, eu apenas pretendia recuperar minha saúde e meu ânimo nos ares revigorantes de Provença e estimular a alma com música angelical de gargantas jovens. Minha proposta imediata foi, portanto, um rápido retorno a Santa Barbara de Tartarus, a fim de continuar a lutar por nosso objetivo mútuo. O fato de ter permanecido por tanto tempo se deve inteiramente a acontecimentos que tomaram um rumo tão extraordinário. Nosso triunfo na Arte pode realmente depender de nosso sucesso aqui em Avignon.
  • Page 112recitais de canto gótico para edificação dos demais convidados, gente de qualidade das propriedades locais. Claro que fui obrigado a lhes oferecer alguma remuneração, e isso me custou um bocado do ouro que obtive no Oriente. A despesa, porém, não tardou a oferecer recompensa, na forma do que posso descrever sem exageros como uma amizade celestial. Um dos meninos mais velhos descobriu nas cordas vocais o habitual problema da adolescència e, por isso, não pôde participar. Portanto, me incumbi de sua educação espiritual e lhe concedi um aposento permanente no palácio. Esse menino, posso dizer, não é apenas excepcionalmente bonito, com as formas de um jovem Adonis, mas também é um poeta talentoso. O povo irlandès, me disseram, costuma ter dom para o verso. O rapaz, Angus, vem de uma linhagem simples e é de uma natureza tão naturalmente boa que seria de esperar que tivesse saído de um templo grego e não das florestas da Irlanda. Passei muitas noites de encanto perfumado na companhia do jovem vivaz. Discutíamos todos os assuntos, da magia egípcia à música chinesa, determinadas frivolidades entre os antigos gregos, a caça com cães irlandeses e o efeito de determinadas ervas. Muitas vezes, Angus me surpreendia com sua aguda análise e conhecimento de variados assuntos obscuros. Em uma dessas pessoas simples, isso era tão delicioso quanto misterioso.
  • Page 113Eles estavam, portanto, inclinados a relações amistosas com os Cavaleiros Templários quando eles deixaram de ser favorecidos pela Igreja. Em segredo, a Ordem floresceu e se expandiu na Irlanda. Iniciados eram aceitos de famílias nobres e, ocasionalmente, de famílias comuns que demonstravam uma disposição favorável em relação às necessidades dos Templários. Por algumas gerações, o solo irlandès provou ser frutífero para suas atividades. Com o tempo, no entanto, a necessidade de criar novos centros em outros países se tornou latente e agora, há cerca de cinquenta anos, eles organizavam grupos em todo o continente.
  • Page 114na Irlanda, então traga amplas provisões para a viagem. Embora o Graal já possa estar na França, duvido que seja removido antes que eles se acomodem de maneira mais estabelecida. Certifique-se de trazer muitas almofadas para a viagem, a menos que queira dormir de bruços por uma semana depois de chegar. As estradas são verdadeiramente execráveis.
  • Page 115A curiosidade vulgar de modo algum me estimulava, estava apenas cumprindo meu dever como Diretor Espiritual da Comunidade. O mistério envolve a jornada da Abadessa, que esteve ausente por quase dois anos. Ela deve ter passado mais da metade desse tempo no oeste da Irlanda, perto da fortaleza dos Cavaleiros Templários, se não dentro da própria fortaleza. Conhecendo a astúcia diabólica de Doña Rosalinda, estou inclinado a acreditar que ela de fato conseguiu passar um tempo considerável dentro da fortaleza, embora saber como essa difícil façanha foi executada seja impossível. Provavelmente ninguém, a não ser o Bispo de Trève les Frêles, suspeitasse que o cavalier barbudo fosse a Abadessa, ao menos não por um tempo; e quem acabou descobrindo sua identidade guardou o segredo, caso contrário Doña Rosalinda nunca teria deixado a Irlanda viva.
  • Page 116Que todas as Suas [de Sem] iniquidades serão expiadas pela submissão de sua alma à Estrangeira Estranha [também traduzida como Bar-bar-a]. Que mais uma vez reabastecerá o Cálice com o Santo Pneuma por [um] ritual de união ao Deus Chifrudo amarelo [ou dourado], Guardião do Santíssimo Receptáculo. No início, os dois espíritos, que são conhecidos como Gêmeos, são um Feminino e o Outro Masculino. Eles estabeleceram no início da Vida, o Pneuma e o Cálice Sagrado para reter o Pneuma.
  • Page 117Satisfação foi concedida ao nobre espanhol, Don Rosalendo de Tartaro. Ele deve começar a iniciação sob Sir Aillen. O caso do Bispo está aguardando inspeção mais aprofundada. A Casa de Conor foi abalada por um terremoto e a comunidade está começando a recuperar uma rotina ordenada, que foi lançada ao caos pelo choque. Um murmúrio subterrâneo ainda é audível das entranhas da terra.
  • Page 118Taliesin canta que só uma dama pode permear a presença do Deus Chifrudo e não sofrer nenhum dano. Um estranho desconhecido do mundo inferior virá reabastecer a taça. Tudo isso soa como conversa dos Sidhe, de quem Taliesin pode ser secretamente aliado. Para nossa consternação geral, Don Rosalendo de Tartaro se ofereceu para entrar na cripta do Arcano. Isso seria excessivamente heterodoxo, pois ele ainda não foi ordenado.
  • Page 119Esses documentos relativos à estada da Abadessa no exterior são tão incompletos que muitos mistérios permanecem inexplicáveis. Tendo encontrado os dois pergaminhos entre seus pertences pessoais depois de sua morte, suponho que ela os tenha roubado da fortaleza da Casa de Conor. Como conseguiu, apenas Doña Rosalinda poderia dizer. Como já disse, dois anos se passaram antes que a Abadessa voltasse à Espanha. Um mensageiro precedeu sua chegada por cerca de sete dias, trazendo um comunicado de que todos deveriam estar preparados para sua vinda iminente a Santa Barbara de Tartarus. Alguma apreensão e muita excitação prevaleceram em toda a comunidade.
  • Page 121Quando ela enfim chegou, contudo, poucas freiras testemunharam sua entrada no convento, pois era antes do amanhecer, a hora zero, como dizem. Calhou de meu aposento ser situado sobre o Zaguan principal, fui acordado pelo som do cavalo e da carruagem. Vestindo-me apressado, desci para dar as boas-vindas a Doña Rosalinda de volta ao convento. Embora a Abadessa estivesse envolta em um longo manto escuro, era impossível não perceber que ela carregava uma barriga enorme, pelo menos duas vezes o tamanho de uma gravidez normal no nono mês antes do parto.
  • Page 122Barbara de Tartarus era um pedaço de pele escura e úmida do tamanho de um lenço repousando sobre a cama. Uma fumaça pungente tão pesada que parecia uma nuvem de trovoada, e com um fedor terrível, encheu a câmara mortuária. Cambaleando com o choque desse espetáculo tão impressionante, não percebi de imediato um pequeno objeto ou corpo luminoso, suspenso e esvoaçante na densidade dos gases. Um curto período de tempo se passou antes que eu reconhecesse um menino, não maior do que uma coruja, luminosamente branco e alado, esvoaçando perto do teto. Ele portava um arco e flechas, mas a luz ofuscante que emanava de seu corpo me impedia de um exame mais detalhado. O fedor dos gases liberados pela Abadessa morta agora se transformava em um perfume pesado e requintado, como Musc e jasmim.
  • Page 123pudesse oferecer nunca teria mudado suas convicções de que os milagres eram realmente do Céu e não das profundezas do Inferno, como eu sem sombra de dúvida sei. Esse documento foi escrito por Dominico Eucaristo De Seos, antigo confessor do Convento de Santa Barbara de Tartarus, queimado na fogueira aos noventa e sete anos por Ordem do Papa......... [Nome ilegível].
  • Page 124distorceu a pureza de sua imagem original. Ela deve ter sido uma mulher memorável. Eu estava ansiosa por fazer mais perguntas a Christabel Burns. Como, por exemplo, o retrato da abadessa chegou no continente americano e por que estava pendurado aqui na Instituição? Queria perguntar a Christabel depois do nascer do sol, assim que pudesse encontrá-la. No entanto, os acontecimentos se desenrolaram de tal maneira que eu não pude falar com Christabel por dias; durante esse período, poucas de nós teriam considerado qualquer outro assunto além das dramáticas circunstâncias que vou relatar agora.
  • Page 125Batendo na mesa com a corneta auditiva, eu gritei: "Pelo amor da paz, Anna, vá direto ao ponto, o que você quer me dizer?". A experiência me ensinou que qualquer atitude diferente ao lidar com os monólogos de Anna estava fadada ao fracasso de antemão. "Bem, você não precisa gritar, eu estava prestes a explicar como ela saiu correndo como um rolo compressor fugitivo e me agarrou, balbuciando, literalmente balbuciando, e antes que eu tivesse tempo de resistir, você sabe como ela é forte, ela me puxou para dentro do bangalô e, claro, a pobrezinha estava dura e morta, eu estava tão chocada..."
  • Page 126Era fácil imaginar a pobre Maude sentada sob um pergolado de rosas em algum jardim do velho mundo cheio de malvas e lavandas, costurando combinações delicadas por toda a eternidade. Fiquei profundamente chocada com a terrível notícia. Em especial porque eu poderia ter salvado sua vida se ao menos eu a tivesse avisado quando a vi saindo do iglu de Natacha e ido procurar atendimento médico na mesma hora.
  • Page 127escada ainda está lá. Gostaria de dar uma olhada na pobre Maude, porque nunca mais a veremos de novo. Uma mulherzinha tão frágil". Anna estava sugerindo que subíssemos no telhado e espiássemos o cadáver de Maude. Horrível e desonesto, do ponto de vista de qualquer outra pessoa, mas quem poderia imaginar duas velhas empoleiradas num telhado?
  • Page 128distantes. De forma metódica, ela tirou os lençóis, revelando o cadáver, que estava quase todo vestido. Os efeitos do doce envenenado devem ter começado antes que ela conseguisse vestir a camisola, coitadinha. Mais tarde, soube que ela não tinha ido jantar, informando à sra. Van Tocht que estava indisposta e sentia uma forte enxaqueca. Ela deve ter morrido enquanto todas estavam jantando. Isso explicaria por que ninguém a ouviu chamar nos últimos momentos de agonia.
  • Page 129aconselharam sobre como usar a morte para uma renovada Observação Autoconsciente. Ela não era uma menina, mas nunca pensamos que pode acontecer tão de repente." Resolvi contar a Georgina todo o caso lamentável, pois comecei a suspeitar que a vida dela poderia estar em perigo. Comecei com cautela: "Maude não pode ter morrido de um problema no fígado, seu rosto estava com um aspecto saudável demais. As pessoas que morrem de cirrose têm a pele amarela como a da Natacha".
  • Page 131“Não há pena de morte aqui", eu disse a Georgina. “Mas eles podem fazê-las trabalhar como prisioneiras, quebrando pedras com picaretas e sendo chicoteadas por núbios colossais vestindo tangas vermelhas." Georgina fez uma careta irônica. "Tudo o que vai acontecer é que elas vão receber uma boa sala de estar no xilindró para mulheres e vão dar festas com chocolate duas vezes por semana e sessões espíritas aos domingos."
  • Page 132"Quem teria sonhado que Maude era, na verdade, um homem disfarçado?", perguntei a Georgina. "Todas aquelas combinações e blusas delicadas. Você não está chocada?" "Não estou nem um pouco surpresa", disse Georgina. "Eu sabia que Maude era na verdade um homem desde que ela chegou."
  • Page 133habilidoso com costura. Ele tinha um pequeno negócio muito acolhedor. As pessoas gostam de fumar maconha, faz bem a elas. "Um belo dia, ele alugou um dos três quartos em cima da loja para uma paisagista chamada Veronica Adams, sim, a mesma Veronica Adams que agora vive na bota de cimento perto do cogumelo em que mora a Marquesa. Ela continua pintando todos aqueles metros de papel higiênico. Bem, naquela época, ela era uma mulher linda e Arthur se apaixonou loucamente por ela. Nem cobrava o aluguel. A relação romântica deve ter feito Arthur se descuidar, porque ele começou a vender alfineteiras cor-de- rosa para a polícia de Nova York por engano. As coisas começaram a ficar difíceis e Arthur sem dúvida teria ido parar em Sing Sing ou algo parecido se não fosse avisado a tempo por Olho-Doido Johnson, que administrava um bar clandestino em Greenwich Village. Então Arthur e Veronica cruzaram a fronteira e abriram uma boate em Laredo. Verônica pintava suas paisagens sempre que tinha tempo livre. Ela também fazia striptease nos sábados à noite quando havia clientes o bastante. Eu nunca a vi se apresentar, mas é uma ideia e tanto olhando para ela agora. Devia usar penas de avestruz e miçangas. Acho que foi o Arthur quem fez as fantasias.
  • Page 134para senhorinhas, embora pudesse muito bem ter sido assassinado em quase qualquer outro lugar." Georgina parecia triste ao pensar no passado, e fiz um esforço para mudar de assunto. "Fico pensando, como é o gosto de maconha?", perguntei, mas ela não ouviu. Talvez estivesse pensando em Arthur e Veronica Adams. Talvez estivesse pensando no abissínio.
  • Page 135"A imaginação doentia que se dane!", disse Georgina. "Apenas ouça a história da sra. Leatherby do que ela viu pela janela da cozinha." Então contei a minha história.
  • Page 136Durante todo o almoço, continuei lançando olhares furtivos à sra. Van Tocht e a Natacha; Georgina e eu não comemos quase nada. Não parecia seguro. À tarde, me disseram que eu tinha uma visita e corri para a sala reservada a encontros durante a semana. Minha surpresa e alegria foram infinitas quando vi Carmella, muito elegante em um longo vestido de tweed.
  • Page 137meio que não faria diferença. Claro que você precisa avisar todas as possíveis vítimas no local. E então, já que o dr. Gambit se recusa a agir, todas vocês devem fazer uma greve de fome." Era uma ideia realmente maravilhosa, embora não fosse inconcebível que o dr. e a sra. Gambit pudessem se sentar e assistir tranquilamente enquanto todas nós morríamos de fome. Compartilhei meus receios.
  • Farol onde você mora, com os móveis falsos.'Durante a caminhada até o Farol, Carmella examinou com curiosidade as outras casas. "Apesar de sua carta", ela observou, "a realidade quase supera a descrição artística. Por que são feitas em formas tão horríveis? Estragam o jardim, que ficaria muito bonito e relaxante sem nada disso." "O dr. Gambit escolhe cada bangalô de acordo com o que ele chama de vibrações de azimute da natureza inferior; fiquei com o Farol porque era o único que restava. A sra. Gambit diz que mereço viver numa couve-flor cozida, mas eles não mandaram fazer uma."
  • Page 139isolado no jardim. O laguinho das abelhas estaria bem escondido da casa e dos olhares das assassinas. "É claro que isso é uma espécie de motim, e se forem descobertas pelas autoridades podem usar metralhadoras contra vocês. Um carro blindado seria o mais adequado, ou mesmo um tanque pequeno, embora possa ser difícil consegui-los. Você seria obrigada a pedir a colaboração do exército. Não tenho certeza se eles emprestam tanques, embora possam ter um antigo. De todo modo, a reunião deve acontecer com o maior sigilo. Se você conseguir que as pessoas venham encapuzadas seria melhor, porque assim elas não seriam reconhecidas, a menos que fossem capturadas e torturadas."
  • Page 140"É melhor informarmos Veronica Adams, a Marquesa, Christabel e Anna Wertz para que saibam mais ou menos por que estamos nos reunindo e não contarem nada a Natacha e à sra. Van Tocht”, falei. "Vamos dizer que estamos com dor de estômago e não conseguimos jantar. Pode até ser uma boa maneira de iniciar a greve de fome." Assim acordado, partimos para contar às outras senhoras os nossos planos.
  • Page 141Não havia lua naquela noite, mas felizmente tínhamos velas deixadas em cada bangalo para as ocasiões em que a eletricidade falhava, como quase sempre acontecia. Quando estávamos reunidas no laguinho das abelhas, devia ser por volta das onze e meia. As circunstâncias eram tão inusitadas que mal notei o fato curioso de que algumas abelhas ainda zumbiam sobre a água parada turva da fonte. Eu as escutei em alguma parte adormecida de minha consciência, embora desde então tenha me perguntado se não seria alguma peculiaridade acústica produzida por minha corneta auditiva.
  • Page 142Christabel entregou a cada uma de nós um biscoito, cuidadosamente embrulhado em um papel macio. Eram tão pequenos que cada um mal renderia uma mordida. "Vocês encontrarão um pedaço de papel em cada biscoito com sua sorte escrita nele", disse Christabel. "Sugiro que cada uma de nós leia a própria sorte."
  • Page 143agitando nossos braços e nos comportando de uma maneira muito estranha. Na época, nenhuma de nós parecia ver nada de incomum em nossa dança esquisita. Nenhuma de nós se sentia cansada. Até Veronica Adams, que tinha quase cem anos, brincava com tanta alegria quanto o restante de nós. Eu nunca havia experimentado a alegria da dança rítmica, mesmo nos tempos do foxtrote nos braços de algum jovem pretendente. Parecíamos inspiradas por algum poder maravilhoso, que derramava energia em nossas carcaças decrépitas. Christabel começou a cantar no ritmo de seus tambores:
  • Page 144cristalinas tão depressa que emitiam uma luz pálida. Quando ela me encarou, fiquei emocionada ao notar uma súbita e estranha semelhança com a Abadessa. Nesse momento, ela fechou um olho, do tamanho de uma xícara de chá, em uma piscadela prodigiosa. Então ela lentamente desapareceu, começando por seu ferrão farpado e terminando pelas pontas de suas antenas encaracoladas. Um cheiro delicioso de mel silvestre permaneceu no ar.
  • Page 145Outra questão tornou a greve de fome cada vez mais difícil. O tempo de repente ficou tão frio que a geada brilhava sobre o jardim todas as manhãs. Era um acontecimento estranho num país abaixo do trópico de Câncer. Perto do meio-dia, a geada derretia ao sol, mas os dias continuaram a ficar mais frios e em nossa condição de subnutrição sofremos demais. Nenhuma de nós tinha casaco de pele, então andávamos por ali tremendo embaixo de cobertores. Apesar das dificuldades, a geada branca e cintilante trouxe uma estranha alegria ao meu coração, e pensei na Lapônia. Havíamos desistido de nossas tarefas matinais na cozinha, apesar dos esforços feitos pela sra. Gambit de mobilizar assistência. Como não comíamos nada, também não podíamos ser forçadas a trabalhar. Tivemos muito tempo para passear conversando, sonhando ou, às vezes, pensando. Volta e meia eu me perguntava sobre a mensagem que havia recebido no biscoito. Quanto mais eu pensava nisso, mais urgentes pareciam aquelas palavras enigmáticas: "Socorro! Sou prisioneiro na torre".
  • Page 146"Os Gambits alugam a casa de Alberto de la Selva, filho do proprietário original, que agora administra uma mercearia na cidade." "Eles também alugam a torre?", perguntei de repente, e notei que Christabel fez uma breve pausa antes de responder: "A torre nunca é usada pelos Gambits. Na verdade, metade dela é inacessível, porque a escada que leva à sala da torre foi emparedada, deixando apenas uma pequena janela gradeada na parede para permitir a ventilação”.
  • Page 147"Se você encontrar a resposta para o primeiro enigma, deve encontrar a solução para o segundo. O terceiro, porém, não é tão fácil, embora ainda diga respeito ao primeiro e ao segundo. Veja: "Uma delas gira enquanto a outra assiste
  • Page 148nos manter aquecidas. O chá adoçado era o elixir mais delicioso que eu já tinha provado. À tarde, houve uma leve nevasca e nos encolhemos sob quaisquer cobertas que pudéssemos encontrar. A sra. Gambit foi a cada bangalô nos dizendo que o dr. Gambit queria ver todas reunidas na sala, ele tinha algo especial a dizer. Ela estava tão extraordinariamente educada que nos sentimos alarmadas.
  • Page 149Georgina, muito corajosamente, se levantou e fez o seguinte discurso como nossa porta-voz: "Dr. Gambit, minhas companheiras e eu não temos nenhum remorso de que as duas mulheres que consideramos uma ameaça pública estejam sendo retiradas de nosso meio. Nos reuniremos na hora das refeições quando tivermos certeza absoluta de que a comida que estamos comendo não foi adulterada. Isso se dará vinte e quatro horas depois que elas forem embora e depois que passarmos a supervisionar a preparação de nossas próprias refeições. Como essas refeições serão organizadas no futuro será decidido por votação, já que a maioria de nós não quer mais ouvir seus sermões aborrecidos enquanto comemos”. Os óculos do dr. Gambit reluziram. A sra. Gambit se levantou, arrastando a cadeira. "Georgina Sykes", ela disse asperamente, esquecendo de sorrir, "ainda não chegou o dia de você dirigir esta Instituição. Nossa rotina seguirá seu curso normal a partir de amanhã."
  • Page 150apressado da sala, seguido de perto pela sra. Gambit, por Natacha e pela sra. Van Tocht. Estávamos prestes a sair para nossos bangalôs e uma porção noturna de chá açucarado que iríamos desfrutar na bota de Veronica Adams quando uma funcionária me disse que a sra. Velazquez estava esperando por mim na sala. Carmella, claro. E esse foi o motivo de o dr. Gambit mudar de posição. De alguma forma, nunca acreditei que ele cederia por bondade. A sra. Gambit, imaginei, deve ter achado o espetáculo de nossa greve de fome uma maneira agradável e econômica de manter as despesas baixas na cozinha.
  • Page 151"Tesouro enterrado", disse Carmella misteriosamente. "Encontrei um tesouro debaixo das tábuas do piso do banheiro dos funcionários no quintal." Era quase impossível dizer se ela estava falando sério ou brincando. Tesouros enterrados no banheiro dos funcionários não eram impossíveis, mas raros, muito raros mesmo.
  • Page 152um caixote do porta-malas, que começou a tocar catatonias sardanas, o tipo de música favorita de Carmella, ao ser aberto. Enquanto Carmella e eu andávamos à frente, Majong, o chofer, carregava o caixote luxuoso, recheado com cem latas de sardinhas portuguesas autênticas, para o meu bangalô.
  • Page 153"Não importa", respondeu Carmella. "Tenho milhões. Eu não poderia gastar tudo mesmo se eu quisesse. Imagine, comprei o maior e mais elegante salão de chá de toda a cidade apenas como um presente para minha sobrinha." "Mas por que você não compra um palácio luxuoso na cidade em vez de vir aqui, onde não há luxo algum?"
  • Page 154"Eu acredito mesmo que as calotas polares estão mudando de lugar”, disse Carmella. "Tenho quase certeza de que haverá fome, então vou fazer compras amanhã de manhã e trazer suprimentos. Sem dúvida, em breve estaremos lutando contra matilhas de lobos famintos." Ela pareceu satisfeita com aquele pensamento e elaborou mais: "É claro, os elefantes que vivem na África e na Índia teriam que voltar a ter pelos compridos e se tornarem mamutes novamente para sobreviver ao frio. A flora e a fauna de tipo tropical seriam incapazes de se adaptar e pereceriam. Fico mais triste pelos animais. Por sorte, a maioria tem pelos que crescem rápido, e os animais carnívoros teriam muitos humanos para comer, todas aquelas pessoas que não viram o que estava por vir e morreram diante da exposição ao frio. É tudo culpa daquela terrível bomba atômica da qual estavam tão orgulhosos". quer dizer
  • Page 155revoluções, o que às vezes aconteceu, fizeram outros governos, às vezes mais cruéis e estúpidos do que os anteriores." "Os homens são muito difíceis de entender", disse Carmella. "Vamos torcer para que todos congelem até a morte. Tenho certeza de que seria muito agradável e saudável para os seres humanos não se submeterem a qualquer autoridade. Eles teriam que pensar por si mesmos em vez de serem sempre informados quanto ao que devem fazer e pensar por anúncios, cinemas, policiais e parlamentos."
  • Page 156cada uma, regadas com um ótimo vinho do Porto. Um verdadeiro banquete. No entanto, depois de tantos dias de jejum, talvez ainda tivessem muito apetite. Eu me vesti devagar pensando nos dois enigmas que ainda não tinha resolvido. Eu nunca me mexo enquanto você rodopia
  • Page 157Não conseguia encontrar a resposta e, na verdade, me sentia velha demais para encher minha cabeça com enigmas. Irritada, enrolei-me no grande manto de pele de carneiro e saí para a neve. O sol ainda não havia nascido, o amanhecer parecia extraordinariamente longo, mas o céu estava nublado e isso teria obscurecido o sol de todo modo. A neve estava quase na altura dos meus joelhos, mas estava pulverulenta e seca devido ao frio intenso. Me senti um pouco culpada por usar um manto tão bonito e quente quando as outras estavam embrulhadas em todo tipo de cobertores velhos. Se Carmella não trouxesse mais mantos, pensei que poderíamos fazer coletes com esse manto grande. Isso manteria os brônquios de todo mundo aquecidos. Distúrbios torácicos em nossa idade não devem ser encarados com leviandade.
  • "Não é instável", disse a Marquesa, "eu disse inexplicável!""Sim, é mesmo inexplicável, embora espere que os geólogos façam relatórios satisfatórios e incompreensíveis", respondi. "Tanta neve abaixo do trópico de Câncer deve ser muito incomum." "Não só a neve”, respondeu a Marquesa, “mas também o fato de que agora são onze horas da manhã e o sol ainda não nasceu!"
  • Page 159Um ou dois ursos-polares do tamanho de cavalos comuns podem gerar muito calor." "Falando em calor", disse Georgina, "sugiro que mudemos nossas camas para cá durante a noite e mantenhamos of fogo aceso, caso contrário nenhuma de nós viverá para contar a história. Podemos ser os últimos seres humanos sobreviventes na Terra."
  • Page 160surpreendemos ao ver um tucano e alguns papagaios chegarem, e também aves marinhas como gaivotas, pelicanos e pequenos grous brancos que viviam na costa nos trópicos. Logo estávamos de pé na janela observando a cena. Na penumbra pálida nem sempre era possível distinguir as aves, mas as que se aproximavam o bastante eram visíveis em contraste com a neve.
  • Page 161de flores com plantas e doze gatos agitados entre os quais reconheci os meus com alegria. Quando Carmella abriu a porta, todos os gatos saltaram do carro e correram silvando raivosamente em todas as direções. "Eles logo vão se acostumar e vir para a casa", disse Carmella. "Tomei o cuidado de deixar um pouco de bacalhau seco dentro do meu manto para que possam me encontrar pelo cheiro. Eles não vão se perder."
  • Page 162armário não era grande, e dificilmente duraria mais um dia ou uma noite. Não havia carvão, porque antes o fogo à noite bastava para manter o calor. Carmella deu a todas mantos de pele de carneiro, botas de cano alto, meias de lã e gorros. Parecíamos uma gangue de exploradores do polo Norte que ficou presa por meio século no círculo Ártico.
  • Page 163Uma voz na minha cabeça que não parecia me pertencer cantou: Eu nunca me mexo enquanto você rodopia
  • Page 164emergiu. Parou por um instante na borda da torre despedaçada e testemunhamos, por um segundo, uma criatura extraordinária. Ela brilhava com uma luz intensa que emanava de seu próprio corpo, o corpo de um ser humano todo coberto de penas reluzentes e sem braços. Seis grandes asas brotaram e tremularam, prontas para voar. Então, com uma gargalhada estridente, a criatura saltou no ar e voou para o norte, até que se perdeu de vista. Uma vez na vida de uma montanha ou uma rocha
  • Page 166Deixamos o grupo olhando para o céu e seguimos para a torre. Tudo ficou muito quieto, e o céu estava nublado, preparando-se para mais neve. Focos de fumaça saíam da grande rachadura quando nos aproximamos, e pensei que devia estar pegando fogo. Entramos pela porta que fora arrancada das dobradiças pela força do terremoto. Um forte cheiro de enxofre e ácido sulfúrico pairava no ar. "Para Cima ou para Baixo?", perguntou Christabel quando entramos. Uma escada em caracol levava ao topo da torre. Parte dos degraus desmoronou, e pela grande rachadura na parede o céu noturno agora era visível, movendo-se com as nuvens que se acumulavam. Aos nossos pés, escancarava-se uma abertura por onde os degraus desapareciam na escuridão abaixo. Um vento quente que soprava do subsolo bafejou em nossos rostos.
  • Page 167Os degraus eram bastante largos. Mas eu tinha medo de cair, porque estava tudo tão escuro. Eu não podia nem sequer enxergar a minha própria mão. No entanto, tateando na escuridão, encontrei a parede e me apoiei nela enquanto descia. Por um tempo, os degraus levaram direto para baixo. Então cheguei a uma curva fechada onde a parede era arredondada e lisa, como se muitas mãos a tivessem esfregado, assim como a minha. Quando virei a curva com cautela, a escuridão foi substituída por um brilho bruxuleante como a luz do fogo. Quando desci mais uns vinte degraus, o chão se nivelou em uma longa galeria que dava para uma câmara grande e redonda escavada na rocha. Pilares esculpidos sustentavam um teto arqueado que era levemente iluminado pelo fogo no centro da câmara. O fogo parecia queimar sem combustível, saltando direto de uma cavidade no chão de pedra.
  • Page 168sua expressão era muito mais alegre e inteligente. Seus olhos não eram turvos nem injetados, e ela agia com desembaraço.
  • Page 170"Você demorou muito para chegar. Estava com medo de que nunca viesse", disse ela. Eu só podia murmurar e assentir com a cabeça, sentindo minha idade me esmagando como um monte de pedras. "O que é este lugar?", enfim perguntei, tremendo toda, meus joelhos dobrando e desmoronando sob meu peso.
  • Page 171uma bota e não faz mais sentido que um pino de boliche. No entanto, a carne é escassa, então pule dentro”. "O quê?", eu disse, esperando ter entendido errado. Ela assentiu muito séria e apontou para a sopa com a longa colher de pau. "Pule no caldo, a carne é escassa nessa época."
  • Page 172De um ponto de vista especulativo, eu me perguntava qual de nós era eu. Sabendo que havia um pedaço de obsidiana polida em algum lugar da caverna, olhei em volta, com a intenção de usá-lo como espelho. Sim, lá estava ela, pendurada no seu canto habitual, perto do ninho de morcego. Olhei para o meu reflexo. Primeiro, vi o rosto da Abadessa de Santa Barbara de Tartarus sorrindo para mim com sarcasmo. Ela desapareceu e então vi os olhos enormes e as antenas da Rainha Abelha, que piscou e se transformou em meu próprio rosto, que parecia um pouco menos devastado, devido à superfície escura da obsidiana. Afastando o espelho, vi uma mulher de três faces cujos olhos piscavam alternadamente. Um dos rostos era preto, um vermelho, um branco, e pertenciam à Abadessa, à Rainha Abelha e a mim mesma. Claro, isso pode ter sido uma ilusão de ótica.
  • Page 173caído depois do segundo terremoto, que logo sucedeu o primeiro. Contemplei as ruínas pacificamente. Minhas companheiras tinham feito uma grande fogueira no gramado coberto de neve, e estavam dançando ao redor dela ao som do tambor de Christabel. Era uma forma prática de se manterem aquecidas.
  • Page 174Então também me juntei ao riso estridente, e voltamos a dançar ao som do tambor. Ninguém sabia quanto tempo se passara antes que o sol nascesse outra vez, mas ele nasceu, uma luz branca pálida perto do horizonte brilhando num mundo transformado pela neve e gelo.
  • Page 175trigo, esporos de cogumelos e marshmallows esmagados eram mais ou menos a extensão dos nossos recursos. A limusine violeta não tinha mais conserto e não teria sido muito útil naqueles vários metros de neve. Muitas vezes saíamos da caverna mas não víamos seres humanos, embora houvesse muitos pássaros e animais. Veados, pumas e até macacos vieram das montanhas e vagavam pela região em busca de comida. Não pensamos em caçá-los. A Nova Era Glacial não deveria ter início com a matança de nossos semelhantes.
  • Page 176Caminhando pela trilha tênue que antes fora uma estrada, vinha o carteiro. Ele usava um uniforme comum e carregava uma bolsa de cartas. O objeto mais notável era o violão pendurado no ombro. "Bom dia”, disse ele, "tenho correspondência para esse endereço”, e me entregou um cartão- postal do Marble Arch com alguns guardas reais. Esse documento impressionante dizia:
  • Page 177"Meu nome é Taliesin", disse o carteiro. "Venho levando mensagens por toda a minha vida, que tem sido longa." Anna Wertz lhe deu uma xícara de cogumelos com leite. Ele se acomodou junto ao fogo e começou a falar: "Todas as nações e mares foram sacudidos por terremotos, que foram tão violentos que nenhuma casa, castelo, casebre ou igreja ficou de pé. Tudo isso aconteceu depois de dias de neve e escuridão. Em algumas regiões, houve trovões violentos e chuva que congelava quando caía do céu. Lanças de chuva tão altas quanto arranha-céus ficaram rígidas sobre a neve. Era uma visão rara. Rebanhos de animais selvagens e domésticos galopavam pelas cidades, soltando seus diferentes gritos ao mesmo tempo e buscando abrigo da terra ondulante. Em alguns lugares, o fogo saltou da terra e visões estranhas surgiram no céu. Os humanos sobreviventes foram tomados pelo pânico e pelo choque, embora alguns fossem valentes e buscassem salvar os muitos milhões de vítimas ainda vivas sob as cidades desmoronadas. Cenas assustadoras prevaleceram nas áreas com muitos habitantes."
  • Page 178que estava entre os sobreviventes do cataclismo. O padre, um tal O'Grady, pensou que a Taça Sagrada era um cálice do tipo usado na igreja, mas com uma forma um tanto excêntrica, e a levou para Dublin, onde vários bispos e alguns jesuítas se refugiaram em uma adega. A explosão que destruiu a Casa de Conor dispersou os poderes que sempre se reuniam em torno da Taça em áreas fechadas. Essa é uma lei mágica e verdadeira para quase todos os objetos energizados. Em consequência, o Graal foi profanado impunemente nas mãos do clero, trancado num caixote com palha e tratado como qualquer antiguidade comum. No entanto, entre os jesuítas havia um certo homem erudito chamado Rupert Traffix, que reconheceu a peculiar forma do Graal. Sua suspeita se transformou em convicção quando soube por O'Grady que a Taça havia sido encontrada nos arredores da Casa de Conor. A torre era conhecida entre alguns estudiosos por ter sido a antiga residência dos Cavaleiros Templários. "A escuridão se dispersou no sol do meio-dia que queimou as Ilhas Britânicas por vinte e nove horas, e o jesuíta fugiu com o Graal para a Inglaterra. Isso foi fácil, pois os bispos e os outros jesuítas haviam bebido tanto vinho sem se alimentar que se encontravam todos em um estupor ébrio. Eu estava na região da Casa de Conor durante a explosão e segui o Graal até Dublin e depois para a Inglaterra.
  • Page 179"Agora, nos arredores de Hampstead Heath, há uma certa caverna usada por um clá de bruxas que realizam suas cerimônias em segredo a fim de não serem molestadas pela lei. Desde os tempos antigos, as bruxas dançavam na caverna atravessando guerras e perseguições; muitas vezes, quando era perseguido, me escondia junto a elas, e sempre fui recebido com cortesia e gentileza. Como vocês devem saber, minha missão ao longo dos tempos tem sido levar notícias ao povo, sem consideração de posição ou status. Isso me tornou impopular entre as autoridades de todo o planeta. Meu objetivo é ajudar os seres humanos a perceberem seu estado de escravização e exploração por seres que cobiçam o poder. "Então, quando cheguei a Londres, logo me refugiei na caverna em Hampstead Heath com as bruxas. Foi quando fiquei sabendo da existência de uma passagem que se comunicava com a cidade subterrânea sob o Banco da Inglaterra.
  • Page 180que seu poder hipnótico sobre a humanidade não duraria se a Grande Mãe mais uma vez tivesse posse dele. Rupert Traffix estava entre aqueles plenamente informados sobre a história da Taça. "Tudo isso vai explicar por que estou aqui e ainda em busca do Santo Graal."
  • protegido, não?""Faremos infusões e abluções para evocar o conselho da Santa Hécate", falou Christabel. "Devemos encontrar estramônio, almíscar e verbena e preparar uma sopa poderosa, depois de fazer as abluções necessárias. Em algum lugar da cidade deve haver uma loja de boticário acessível. Taliesin e Majong devem partir depois de escurecer para trazer os ingredientes." Todos concordamos com este plano; uma invocação à Deusa era a única chance de ter uma indicação clara de como conseguiríamos ter o Graal em nossa posse.
  • Page 182escándalo a forma como as pessoas negligenciam seus animais. Lá estão todos pensando em salvar seus próprios pescoços e deixam os pobres cães fiéis correrem em bandos, morrendo de fome." Nesse momento, todas olhávamos para o pé da escada. Anna fora seguida por um dos cães, um enorme macho alsaciano de cor acinzentada com olhos nervosos e inconstantes. Levantei-me e, quando me aproximei, a grande fera recuou assustada para o lado. Um lamento aterrorizado subiu das cabras amontoadas. Não era um cachorro, mas um enorme lobo cinza.
  • Page 183"Não é Natal, certo?", perguntou Carmella. Então eu soube que o que se juntou ao coro dos lobos foi o tilintar de muitos sininhos, agora claramente audíveis na caverna. O lobo ficou com as orelhas em alerta, esperando. "Querido! Que apropriado para o clima", comentou Georgina. "O querido e velho Papai Noel virá visitar a qualquer minuto, espalhando brinquedos e alegria por todo lugar.”
  • Page 184"Anubeth veio comigo, é claro”, disse Marlborough. "Ela está lá em cima na Arca. Pensei em te preparar um pouco antes de apresentá-la. Pode ser uma surpresa, embora eu saiba que você não espera ninguém muito normal. Por favor, tome cuidado para não ferir os sentimentos dela. Afinal, você também não parece tão comum assim." Apresentei Marlborough às minhas seis companheiras, e ele andou pela caverna fazendo exclamações apreciativas como: “É mesmo a proporção mais requintada. É possível se sentir em um zigurate. Querida, se você pendurar gobelins bem compridos e estreitos com unicórnios ali no canto, daria um trompe l'oeil fascinante, mas talvez as cabras comessem."
  • Page 185"Marlborough", falei, "você acha que deveria deixar sua irmá lá fora tanto tempo? Ela deve estar congelando." "Anubeth é muito paciente", disse Marlborough. "Além disso, a Arca tem aquecimento central e moramos nela há meses. Viemos por terra via Canadá por causa dos lobos. Anubeth gosta muito de lobos. Você vai entender. Ela se tornou muito solitária em Veneza, e quando a neve começou uma coisa puxou a outra." Tudo isso era muito misterioso. Eu tinha começado a pensar no encontro com a irmã de Marlborough com um misto de curiosidade e pavor.
  • Page 186Os lobos se sentaram ao redor da Arca num semicírculo, como se estivessem em guarda. Eles me deixavam nervosa, ainda que Marlborough me assegurasse que eram perfeitamente dóceis. Também estava preocupada com os gatos, que haviam desaparecido à primeira aparição de Pontefact. "Com licença, vou chamar a minha irma", anunciou Marlborough, e levando as mãos em concha à boca soltou uma série de ganidos de congelar o sangue. Os sons foram respondidos do interior da Arca com mais ganidos e com o chacoalhar da porta de entrada, que fora esculpida com o desenho de Cupido e Psique abraçados em meio a veados e cisnes.
  • Page 187"Anubeth pergunta se você gostaria de conhecer o interior da Arca", disse Marlborough. "Ela tem muito orgulho do espaço e devo dizer que organizou tudo com muito bom gosto." "Adoraria", respondi com uma mesura. Achei melhor me dirigir a Anubeth com certa cerimônia, ela era muito imponente.
  • Page 188serviu chá de jasmim e pequenas taças de um licor francês cujo nome era bom champanhe, embora não tivesse gosto de champanhe. "É", concordou Marlborough, que estava acomodado em algumas almofadas de veludo em forma de nectarina. "Nossa família sempre foi viciada em viagens. No passado, você até me comparou a uma andorinha por conta de minhas idas e vindas. Acredito que também herdei características do tio-avô Imrés, um nobre húngaro, filho de uma conhecida Vampira da Transilvânia. Por várias razões, nunca te contei toda a história da minha família, já que jurei guardar segredo durante a perseguição comunista na Hungria. Agora, infelizmente, os únicos integrantes que restaram são Anubeth e eu. Como mencionei antes, tive uma relação bastante tensa com minhas outras irmãs, Audrey, Anastasia e Annabelle. Todas elas sofriam de uma mania em comum: quando eu cruzava meio mundo para visitá-las em seus respectivos castelos, diziam que eu só ia vê-las para roubar um aspirador de pó antigo que elas costumavam alugar umas às outras a preços exorbitantes. Todas morreram durante o cataclismo. Audrey foi encontrada congelada de cabeça para baixo num pequeno iceberg que invadiu seu quarto. Ainda levava uma garrafa vazia de champanhe aos lábios. Muito trágico, mas não de todo sem justiça poética. Fisicamente falando, Anubeth foi a única de nós a herdar características físicas do tio-avô Imrés. Ele era um lobisomem."
  • Page 189devastador no orgulho de nossa família. Publiquei uma elegia curta e um tanto amarga em memória do tio-avô Imrés. Você entende que o sangue de lobo na nossa família era uma espécie de segredo, embora eu mesmo considere isso uma distinção." "Seria uma pena se todos os lobisomens morressem", falei. "Depois de todas as Deusas e Deuses com cabeça de animal que nos inspiraram ao longo da história."
  • Page 191"Sim, isso mesmo", continuou Marlborough. "Anubeth agora está casada e feliz com o Rei Pontefact, que você já conheceu. Eles estão esperando uma ninhada para logo. Todos esses lobos são súditos de Pontefact, então é claro que nos acompanham a todos os lugares." Fiquei em silêncio por um tempo para digerir aquela notícia. Devíamos nos referir à ninhada como bebês? Lobisomens? Ou filhotes? Decidi não mencionar nada até que Marlborough me desse uma pista. Em algumas coisas, ele era extremamente convencional.
  • Page 192No sentido da lua, a dança começou, e fomos logo levadas ao frenesi pelo ritmo do tambor de Christabel e o poderoso vapor do estramônio, da verbena e do almíscar fervendo no caldeirão. As cabras saltitavam ao nosso redor em um círculo externo, balindo. Taliesin e Majong se retiraram para o mundo de cima, pois os homens não tinham permissão para ver essa cerimônia mágica. Belzi Ra Ha-Ha Hécate a Chegar!
  • Page 193Chifrudo Sephira, a estrela Polar, meu marido e meu filho. Siga o enxame.” O círculo de cabras se dispersou em alarme quando Anubeth se juntou ao nosso círculo, caminhando majestosamente e carregando um incenso aceso.
  • Page 194por uma inteligência sobrenatural, o enxame entrou na casa e voltou pouco depois carregando o Santo Graal, que levou para alguma parte secreta da nossa caverna, deixando um rastro de mel, que brilhava como ouro na neve. Em questão de segundos, o Arcebispo alertou a casa toda, e logo um fluxo de eclesiásticos enfurecidos e da polícia secreta saiu correndo para o jardim. Eles foram atacados pelos lobos e conseguimos escapar, com a matilha na retaguarda.
  • PosfácioOlga Tokarczuk A primeira vez que li A corneta não sabia nada sobre sua autora, então tive a experiência incrível de chegar a esse pequeno romance num estado de inocência. Eu não sabia, por exemplo, que Leonora Carrington tinha sido uma pintora, que passou a maior parte de sua vida como expatriada no México e teve um relacionamento com Max Ernst, um dos maiores surrea- listas, na sua juventude. Mas o tom anárquico e a natureza surpreendente desse pequeno livro deixaram em mim uma forte impressão que nunca foi embora.
  • Page 197Na minha opinião, a segunda qualidade, metafísica selvagem, toca em uma questão muito séria: primeiro, por que lemos histórias? Inevitavelmente, entre as muitas respostas verdadeiras, encontraremos a seguinte: lemos histórias para ter uma visão mais ampla a respeito de tudo o que acontece com as pessoas na Terra. Nossa própria experiência é muito pequena, nossos seres, muito indefesos para entender a complexidade e a enormidade do universo; queremos ver a vida de perto, vislumbrar a existência dos outros. Temos algo em comum com eles? Eles são como nós? Estamos buscando um arranjo comunitário compartilhado, cada um de nós um ponto da trama urdida. Em resumo, esperamos que os romances apresentem certas hipóteses que podem nos explicar o que é o quê. E por mais banal que possa parecer, essa é uma questão metafísica: a partir de quais princípios o mundo opera? tão
  • Page 198Na ordem patriarcal, ao chegar à velhice a mulher se torna um incômodo ainda maior do que já era quando jovem. Assim como as sociedades patriarcais pensam e organizam milhares de normas, regras, códigos e formas de opressão para manter as mulheres jovens na linha, elas tratam as mulheres idosas (que perderam seu poder erótico atraente) com um grau semelhante de suspeita e aversão. Enquanto fingem uma aparência de simpatia, os integrantes de tais sociedades insistem na antiga beleza das mulheres mais velhas com uma certa satisfação disfarçada, ponderando os efeitos da passagem do tempo. Uma marginalização ainda maior é atingida ao empurrá-las rumo à inexistência social; muitas vezes, essas senhoras se tornam empobrecidas financeiramente e desprovidas de qualquer influência. Elas se transformam, em vez disso, em criaturas inferiores que não merecem qualquer preocupação alheia; a sociedade faz pouco mais do que tolerá-las e oferecer-lhes (com bastante relutância) algum tipo de cuidado. Esse é o status de Marian Leatherby, a narradora idosa de A corneta, quando começamos a ler o romance. Ela está cheia de vida, mas com dificuldade de audição. E ela é duplamente excluída primeiro, como mulher; depois, na condição de mulher velha. É essencial à personagem uma qualidade que ela compartilha com o romance como um todo: a excentricidade (a excentricidade é um dos modos permitidos a uma mulher idosa quando ela não está desempenhando o papel de avó bondosa). De fato, colocar uma velha surda no papel de narradora, de heroína e de espírito reinante, e preencher o livro com um grupo de senhoras estranhas, indica desde o início que esta história será um caso de excentricidade radical.
  • Page 199consideradas autoevidentes no caminho conhecido. Ser uma pessoa excêntrica é ver o mundo de uma perspectiva completamente diferente, que é tanto provinciana quanto marginal -posta de lado, aos cantos - e, ao mesmo tempo, reveladora e revolucionária. A Instituição, ou asilo, para a qual Marian é enviada por sua família é dirigida pelo dr. e pela sra. Gambit. É também excêntrica, compreendendo uma série de habitações bizarras em forma de cogumelo, um chalé suíço, uma múmia egípcia, uma bota, um farol -> impossível e absurda, como se saísse direto de uma pintura de Bosch ou algum parque de diversões onírico. Mas aqui a excentricidade pode ser vista como emblemática da atitude opressiva, paternalista e infantilizante que tomamos em relação aos idosos. A palavra “gambit” é derivada da palavra italiana "gambetto", literalmente "pequena perna", que também aparece na frase "dare il gambetto" - passar a perna ou conspirar contra. Os Gambit são os representantes hipócritas e pretensiosos de uma sociedade igualmente hipócrita, e seus métodos são resumidos pela expressão "para o seu próprio bem". Os Gambit sempre sabem o que é adequado e saudável para as mulheres que lá estão, submetendo-as a uma doutrina psicopedagógica mal definida, não muito diferente da adotada pelos seguidores de Rudolf Steiner. O exemplo mais cômico dessa ideologia são os "Movimentos", talvez uma referência aos movimentos de Gurdjieff, que as velhas são obrigadas a fazer todos os dias.
  • Page 200tempo. Você não é a única vítima de seus hábitos degenerados, todos têm falhas, e aqui buscamos observar essas falhas e eliminá-las sob a luz da Observação Objetiva, da Consciência. O fato de Você Ter Sido Escolhida para se juntar a essa comunidade deve oferecer estímulo o bastante para enfrentar seus próprios vícios com coragem e lutar para diminuir o domínio deles sobre você.
  • Page 201originais já escritos. O livro contém a quintessência do feminismo em uma narrativa subversiva e surrealista ao invocar uma ordem metafísica não convencional. A corneta introduz abertamente a excentricidade no debate feminista como uma alternativa legítima à perspectiva patriarcal: tudo o que é excêntrico é como uma Deusa em espírito. Em nossa época, a Deusa foi expulsa do centro há muito tempo por seus "Irmãos Estéreis" (como Carrington os chama); seu reino agora reside nas províncias da percepção. No entanto, a Deusa sempre estará presente onde quer que os binários - isso/aquilo, nativo/estrangeiro, preto/branco amados pelos Irmãos Estéreis são expostos como limitados. A maneira deles é a mais simples e grosseira de organizar um mundo complicado, de garantir poder sobre ele. Por essa lógica, para acomodar alguém muito alto numa cama muito curta, devemos cortar os pés, não procurar uma cama maior.
  • Page 202incapazes (ou não querem) usar a dicção patriarcal desajeitada e refinada, voos ensaísticos, frases virtuosas e reflexões indiferentes sobre a arte tão valorizada pelos árbitros da cultura, muito acima do calabouço da Deusa desalentada. Sua linguagem é grosseira e irreverente, nada adaptada às percepções típicas das pessoas, mas selvagem, risível, excêntrica, indomável. Muitas vezes é percebida como incompreensível e, como resultado, às vezes é julgada como kitsch. Bastante kitsch e sem gosto apurado acusação que volta e meia é feita contra as mulheres. Parece que Joseph Conrad disse que o melhor critério para aferir a qualidade de um livro é que as mulheres não gostem dele porque elas só podem gostar de literatura ruim. Bem, preciso admitir que gosto muito do que Conrad escreveu. Com sinceridade. uma Tudo bem. Então que seja. Kitsch é o nosso oceano. Todos aqueles processos cíclicos, menstruações e enxaquecas recorrentes. Baboseiras, ervas curativas e confiança infantil no poder da natureza. Um amor doentio por animais, sentimentalismos, a alimentação de gatos de rua. Ser superprotetora, meter o nariz em tudo. Todas aquelas flores em vasinhos, aqueles jardinzinhos, as malvas, os trapos, as rendas, as costuras, os tricôs, os romances, as novelas, a "literatura feminina", a "emoção", a acusação de fragilidade mental que tem sido atribuída a nós por séculos. O reservatório de histórias misóginas é imenso e aparentemente sem fundo. Nos tempos modernos, num mundo patriarcal, só podemos falar da Deusa com ironia, piscando como a abadessa na pintura no refeitório dos Gambit, e com um sorriso disfarçado, meio sério, meio zombeteiro. Tendo sido marginalizada e ridicularizada por milhares de anos, ela só pode se expressar dessa maneira disfarçada. Vale a pena ponderar quantos assuntos relacionados à experiência feminina foram marginalizados, ridicularizados, ironizados ou negligenciados. Por centenas de anos, as mulheres foram criadas dentro de
  • Page 203religiões misóginas e patriarcais que as discriminam abertamente de alguma forma. Elas participam de culturas que nunca são suas de fato, ou que até mesmo se opõem a elas. Desde cedo, as mulheres são alimentadas por doutrinas que as posicionam como inferiores, mais fracas, menos capazes ou de alguma outra forma deficientes. Elas crescem em uma névoa de misoginia onipresente, muitas vezes velada e não de todo autoconsciente, que é intrínseca à cultura, à linguagem, às imagens, às relações interpessoais, à história e à economia. Foi apenas nas últimas décadas que a verdadeira história das mulheres, escanteadas à quase inexistência, tentou pacientemente se libertar. E quando emerge no mundo apropriado, pode ficar sem palavras. Leonora Carrington reconhece essa posição subversiva e excêntrica do feminino. Tanto na pintura quanto na escrita, ela tem uma forma maravilhosa de aderir à crença de André Breton na necessidade de alinhar a arte com a alquimia ou com o ocultismo. Ela faz uso abundante do nosso imaginário esotérico europeu, evitando a solenidade pomposa que costuma acompanhá-lo.
  • Page 204uma corneta auditiva que, de forma milagrosa, permite que ela seja seletiva sobre o que ouve. O olho piscando está nos dizendo para enquadrar tudo entre aspas e confiar no "e se" em que o mito e a literatura se baseiam. Daqui em diante, devemos seguir Leonora assim com um olho piscando, maliciosamente, kitsch, aceitando o que ela oferece a nós sem questionar. E ela nos oferece muito o livro é um verdadeiro carnaval. No momento em que a Abadessa Piscando é identificada como Doña Rosalinda Alvarez Cruz della Cueva de El Convento de Santa Barbara de Tartaro, no palco da A corneta entra a Deusa. A partir daí, as fronteiras entre a realidade e a fantasia, o solene e o absurdo, o sublime e o ridículo se dissolvem no tecido surrealista do romance. A história se ilumina com o pastiche e o livro serpenteia por diversos caminhos de referências a textos esotéricos da cultura popular, histórias do Santo Graal, os Cavaleiros Templários e Maria Madalena, e por toda uma série de histórias alternativas da humanidade com que o pessoal das religiões vem brincando há muito tempo.
  • Page 205A história da missão de Doña Rosalinda para resgatar a Taça revela uma série de aventuras fantásticas e inesperadas. É ao mesmo tempo uma história de reintegração de posse, de uma anti-Cruzada que restaura a ordem correta num mundo apropriado de forma fraudulenta. Nessa história dentro da história, Carrington cria uma paródia maravilhosamente cômica que imita aqueles textos misteriosos encontrados em jarros no deserto, como a descoberta em Nag Hammadi em 1945, que, sem dúvida, revigorou a imaginação religiosa das pessoas do século xx. Ela faz referências abundantes a figuras e nomes dos tratados gnósticos, incluindo a Pistis Sophia. As pessoas que lerem com curiosidade e paciência encontrarão algumas referências surpreendentemente eruditas não apenas ao gnosticismo, mas ao sincretismo religioso esotérico de todos os tipos, antigos e contemporâneos. Esses leitores tomarão nota do nome de nossa abadessa: Doña Rosalinda della Cueva (da caverna), Abadessa do Convento de Santa Barbara de Tartarus, está associada (apropriadamente, à luz de suas aventuras posteriores) à misteriosa e poderosa figura de Barbarus ou Barbelo, que reside claro! "nas profundezas do Pleroma" (para usar o termo gnóstico mencionado no Apócrifo de João). Barbelo é a primeira força criativa, dela é o ventre do mundo, ela é o protótipo de Shekhinah e Sophia em uma. Ela aparece como uma figura feminina barbuda, a Mãe-Pai, e como Anthropos, a primeira hermafrodita. Como que em resposta, Carrington semeia A corneta com personagens de gênero fluido mulher barbuda, uma travesti, uma transexual. Em meio às várias figuras grotescas de procedência terrena do livro, também encontramos Taliesin, figura retirada da mitologia galesa. Ele é o mensageiro da Deusa e o primeiro homem a ser dotado do dom da profecia; aqui o encontramos como um carteiro imortal.
  • Page 206A corneta é uma obra totalmente surreal, escrita de forma onírica - em outras palavras, desprovida de consistência ou fortes conexões entre causa e efeito. Com certeza não há uma arma pendurada na parede aqui, então não há por que esperar que ela dispare na cena final. As coisas acontecem mais ou menos como num sonho, com sequências de eventos surgindo de maneira sutil, a partir de associações remotas. Quando é mencionada pela primeira vez, a irmã do amigo de Marian, Marlborough, é deficiente; mais tarde, sugere-se que ela tenha duas cabeças e, quando enfim aparece, ela não é deficiente nem tem duas cabeças, ela simplesmente tem uma cabeça de lobo! Esse tipo de causalidade alternativa não atrapalha em nada nossa experiência com o livro, mas ilustra o processo pelo qual Carrington escreveu, sobrepondo ideias sucessivas, uma em cima da outra. À medida que a narrativa se autocorrige, é um prazer absoluto seguir o fluxo misterioso da história que se desenrola. Na velhice, a pessoa se torna excêntrica. Essa parece ser uma lei natural do desenvolvimento, uma vez que a adaptação à sociedade deixa de ser essencial e os caminhos singulares e coletivos começam a divergir. Talvez a velhice seja mesmo o único momento da vida em que enfim podemos ser quem somos, sem nos preocupar com as exigências dos outros ou nos conformar às normas sociais que sempre nos ensinaram a seguir. A obrigação adolescente de pertencer a um ou outro grupo já não vale mais.
  • Page 207ruidosamente, que continuemos na periferia não nos deixemos arrastar para o centro, devemos ignorá-lo e ultrapassá-lo. Assim, a excentricidade se coloca como uma rebelião espontânea e alegre contra tudo o que é estabelecido e considerado normal e autoevidente. É um desafio lançado diante do conformismo e da hipocrisia.
  • EMERICO WEISZLEONORA CARRINGTON nasceu em 1917 em Lancashire, na Inglaterra. Filha de mãe irlandesa, cresceu rodeada pelos contos folclóricos e fantásticos que ouvia da babá, em Crookhey Hall, casa em que morou durante a infància. Após ser expulsa de dois colegios religiosos, Carrington foi para uma escola de artes em Florença. Em 1937, um ano depois de ganhar da mãe um livro sobre arte surrealista que mostrava a obra de Max Ernst, ela conheceu o artista em uma festa. Mais tarde, Carrington e Ernst, então casados, se estabeleceram no sul da França, onde ela finalizou sua primeira grande pintura, o autorretrato The Inn of the Dawn Horse, em 1939. Após a prisão de Ernst pelos nazistas, Carrington fugiu para a Espanha. Lá, sofreu um colapso nervoso e foi internada em um hospital psiquiátrico em Madri. Buscando auxílio na embaixada mexicana em Lisboa, ela conseguiu se estabelecer em Nova York e, posteriormente, no México, onde se casou e teve dois filhos com o fotógrafo Imre Weisz.
  • Copyright © 1976 by Leonora CarringtonCopyright do posfácio 2020 by Olga Tokarczuk
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Estava começando a me divertir, mas a sra. Van Tocht logo me impediu de falar com um gesto imperioso: "Você nunca deve se orgulhar de nada. Mesmo algo tão trivial quanto uma anedota cômica é uma praga espiritual se usada como fonte de amor-próprio. A modéstia é fonte de luz. O orgulho é uma doença da alma. Muitas pessoas vêm a mim em busca de conselhos e conforto espiritual. Quando ponho minhas mãos sobre elas para acalmar suas ansiedades e enchê-las de Amor e Luz, sempre digo: 'Primeiro seja modesto. Um copo cheio não pode receber"".

Ela estava quase sentada em cima de mim, eu mal conseguia respirar, mas estava determinada a contar mais sobre Muriel: "Minha nora começou a dar festas com partidas de bridge depois que o Robert trouxe o aparelho de televisão para casa. Quer dizer, teria sido bridge, na minha época. Agora eles chamam de Festa da Canastra. Eles literalmente me expulsaram da sala quando as pessoas chegaram para jogar esse jogo ridículo. Na primeira noite, me recusei a sair e contei catorze histórias de papagaios, sem esquecer o final de mais de seis".

Esperava que ela me pedisse para contar uma dessas histórias, e eu tinha acabado de decidir contar a história do Papagaio de Yorkshire, quando ela recomeçou: "Nas quartas à noite, Natacha reúne grupinhos em nosso bangalô. Tenho certeza de que você terá um grande proveito espiritual se vier também. Ficaríamos só Natacha, Maude, você e eu, tudo muito aconchegante e intimista. Natacha nos passa as Mensagens, enviadas a cada uma de nós individualmente a partir do grande invisível, e então damos as mãos em volta de uma mesinha e trocamos vibrações. Às vezes somos favorecidas com materializações do plano astral".

Eu tinha acabado de chegar à metade da história do Papagaio quando ela se levantou e disse: "Então esperamos você às oito e meia da noite de quarta-feira no meu bangalô. Não mencione isso para a sra. Gambit, pois