Data da leitura: Abril de 2026
agoniada: "O sistema nervoso deles não conseguiria lidar com uma situação como essa". Ela tinha razão, é claro, como sempre.
Ainda me sentindo arrasada pelo desespero, voltei me arrastando para casa. Que falta eu sentiria de Carmella e de seus conselhos estimulantes, dos charutos escuros, das pastilhas de violeta. Eles provavelmente iriam me fazer tomar vitaminas numa instituição. Vitaminas e cães policiais, paredes cinzentas, metralhadoras. Não conseguia pensar com coerência, o horror da situação flutuava como uma massa emaranhada na minha cabeça, fazendo com que doesse como se estivesse recheada de algas espinhosas.
A força do hábito, mais do que a minha própria capacidade, me levou de volta para casa e me sentou no quintal dos fundos. Por mais estranho que possa parecer, eu estava na Inglaterra e era domingo à tarde. Estava sentada com um livro num banco de pedra debaixo de um arbusto de lilases. Perto dali, uma moita de alecrim tomava o ar com seu perfume. Estavam jogando tênis por ali, dava para ouvir o clap clap das raquetes e das bolas. Era o jardim submerso holandês; por que holandês, eu me pergunto? As rosas? os canteiros de flores geométricos? Ou talvez porque seja submerso? O sino da igreja soa, é a igreja protestante, nós já tomamos chá (sanduíches de pepino, bolo e pãezinhos)? É, o chá já deve ter terminado.
Meu longo cabelo preto é macio como pelo de gato, eu sou bonita. Isso é um choque e tanto, porque acabei de me dar conta de que sou bonita e tem algo que preciso fazer quanto a isso, mas o quê? A beleza é uma responsabilidade como qualquer coisa, mulheres bonitas têm vidas especiais como primeiros-ministros, mas não é o que eu quero de verdade, deve ter algo além... O livro. Agora eu o vejo, Contos de fadas de Hans Christian Andersen, a Rainha da Neve.
A Rainha da Neve, Lapônia. O pequeno Kai resolvendo problemas de multiplicação no castelo de gelo.