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Revista Divulgação - 2º Edição_Out2026

By revista divulgação

Uma edição, muitas vozes, diferentes olhares e um tema que atravessa a sociedade de muitas formas: PRECONCEITO. A segunda edição da Revista Divulgação reúne diferentes autores, experiências, opiniões e perspectivas para provocar reflexões sobre um assunto que precisa ser discutido, questionado e enfrentado. Em cada texto, um olhar. Em cada autor, uma forma de contribuir para uma conversa que não pode ficar restrita às páginas de uma revista. Falamos de sociedade, comportamento, respeito, diversidade e das muitas faces do preconceito que ainda insistem em fazer parte do nosso cotidiano. Porque quando diferentes vozes se encontram, novas perspectivas surgem. E é assim que o conhecimento também transforma! 📖 A segunda edição já está no ar! Venha conhecer, ler, refletir e compartilhar. Revista Divulgação. Conteúdo de verdade, para pessoas de verdade. #RevistaDivulgação #Preconceito #Diversidade #PluralidadeDeVozes #ConteúdoDeVerdade

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Oct 30, 2026
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  • PreconceitoENTRE JULGAMENTOS E DESIGUALDADES, O DESAFIO DE ENXERGAR O OUTRO O PROBLEMA NUNCA FOI SER DIFERENTE, MAS NÃO SABER RESPEITAR AS DIFERENÇAS www.revistadivulgacao.com.br
  • Diretora Criativa e Comercial Sharllany Soares SouzaEditora Chefe Luiza Ferreira Ferraz Autores Ingrid Achiver Luiza Ferraz Maria Eduarda Gama Nayara Pereira Roberta Ferraz Sharllany Soares Sandra de Sousa Lima Tayná Celen Thiago Hot Vinicius Souza
  • QUANDOUMAMULHERDECIDE,OPRECONCEITOSEREVELAPor Sharllany Soares Souza OFUTUROPAÍSDOFUTEBOL
  • EDITORIALVivemos cercados por informação. Notícias, imagens e vídeos chegam a todo momento, disputando nossa atenção. Em meio a tanto conteúdo, nem sempre conseguimos parar para compreender o que vemos ou permanecer um pouco mais diante de uma ideia. A Revista Divulgação quer propor outro ritmo.
  • Page 66 30 de outubro de 2026 - Brasil
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilE precisamos falar sobre isso porque o preconceito nem sempre se apresenta como uma proibição explícita. Muitas vezes, ele está na cultura, nos hábitos e nas expectativas que parecem naturais justamente porque foram repetidas por tanto tempo.
  • 30 de outubro de 2026 - Brasil8 Carolina Maria de Jesus, por O preconceito não se manifesta apenas diante das que sua vez, transformou a própria ocupam posições de grande visibilidade. Ele também realidade em literatura e deu aparece nas relações cotidianas, nas pequenas decisões visibilidade a experiências que e nas expectativas que tentam definir até onde uma tantas vezes foram silenciadas.
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilTalvez o maior desafio não seja ensinar mulheres a serem fortes. Muitas já aprenderam a ser fortes porque a vida exigiu isso delas. O desafio está em construir uma sociedade na qual a força feminina não seja uma condição obrigatória para conquistar o respeito que deveria existir desde o início. E fica uma reflexão: se ainda precisamos celebrar mulheres por terem vencido barreiras que nunca deveriam ter existido, o avançamos?
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilImagem: Google - Observatório TV 11
  • Page 1230 de outubro de 2026 - Brasil abril de 1941, durante a Era Vargas, o Conselho Nacional de Desportos, publicou o decreto-lei 3.199 que contava com o seguinte artigo: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. É impossível medir o impacto dessa proibição na evolução do futebol feminino, já que esse decreto ficou vigente por quase 40 anos, sendo revogado somente em 1979.
  • 30 de outubro de 2026 - Brasil“Nadaépermanente, excetoamudança.” 13
  • Page 1414 30 de outubro de 2026 - Brasil
  • 30 de outubro de 2026 - Brasil15 Mas quando os profissionais da escola falam sobre isso, o que mais se ouve da comunidade externa é um sonoro "na minha época, todo mundo botava apelido em todo mundo e a gente não achava que isso era bullying”.
  • Page 1630 de outubro de 2026 - Brasil e começamos a entender como queremos ser tratados. É dentro da escola que aprendemos a conviver com as diferenças e a enxergar nelas um enorme potencial de aprendizado. É dentro da escola que começamos a gerir nossos primeiros problemas da vida social e, com eles, a travar uma infinita batalha entre a gentileza e a crueldade. Toda vez que eu vejo um aluno cabisbaixo, sentado no degrau de uma escada qualquer da escola, a primeira coisa que me vem à mente é a possibilidade de ele ter sido alvo de algum preconceito, de o caminho dele ter, naquele dia, se cruzado com o de alguém que optou pela crueldade.
  • 30 de outubro de 2026 - Brasil17 um pedido de desculpas, por mais sincero que ele seja. Ainda assim, é plenamente possível construir um futuro mais gentil, no qual possamos realmente acolher a dor do outro e aprender a não banalizá-la.
  • Page 1818 30 de outubro de 2026 - Brasil
  • Page 1919 30 de outubro de 2026 - Brasil
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  • 30 de outubro de 2026 - Brasil21 Muitoalémdo 'PerfilDesejado':O queopreconceito veladoesconde noRH
  • Page 2222 30 de outubro de 2026 - Brasil do RH das empresas em que trabalhei eram dignas de um desfile de moda: esbeltas, maquiadas, bem vestidas, um padrão que intimidava qualquer candidato. Mas o que me levou a escolher o RH nem foi o status, era o que eu tinha visto acontecer com pessoas próximas. Pelo fato de eu não concordar com aquele padrão e enxergar que por trás de cada pessoa havia uma história, uma família e uma busca por melhoria, fui estudar e correr atrás de fazer a diferença.
  • Page 2323 30 de outubro de 2026 - Brasil ainda falta um caminho extenso. Eu já vi mulheres que haviam acabado de se tornar mães serem descartadas em processos seletivos. Já ouvi de gestores de RH expressões que velavam o sexismo e a discriminação: “De filho pequeno já basta o meu! Preciso dela aqui… E se o filho dela passar mal?”.
  • Page 2424 30 de outubro de 2026 - Brasil
  • Page 2626 30 de outubro de 2026 - Brasil
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilFoi ali, na demorada fila do caixa, enquanto meu fragmentado pelo pensamento era bipe frenético e intermitente do leitor de código de barras, que me recordei de algumas aulas de ética em especial, das ideias de Emmanuel Lévinas. O filósofo lituano radicado na França defendia que a filosofia e a ética não começam no pensamento abstrato, mas no mundo real, no encontro incontornável com o Outro. Para Lévinas, o verdadeiro nascimento da ética acontece quando somos confrontados por um Rosto que não é o nosso. E esse Rosto, no pensamento levinasiano, não se limita aos aspectos físicos não é mero arranjo de olhos, nariz, boca, bochechas mas uma presença irredutível que nos intima, nos lança para fora da zona de conforto e nos retira da indiferença. O Rosto do Outro nos atravessa e nos diz, sem precisar emitir um único som: “você tem responsabilidade sobre mim”.
  • Page 2828 30 de outubro de 2026 - Brasil
  • 30 de outubro de 2026 - Brasil29 Imagem: Google - Amazonas Atual
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilEnquanto ajeitava as sacolas no portamalas, confesso que xinguei mentalmente aquele senhor. Porque aquele passado não era melhor; era apenas mais silencioso. E o silêncio dos oprimidos nunca deve ser confundido com a paz. Se um mundo onde o Outro exige ser visto, respeitado e nomeado “chato”, é considerado um que continuemos, mundo então, assumindo e exaltando a nossa chatice. 30
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilOCorpoqueJulga,o CorpoqueCura:Teatro ePráticasIntegrativas contraoPreconceito Por Sandra Lima
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilSob a ótica das terapias integrativas — como as práticas de meditação, a bioenergética e as abordagens somáticas o trabalho começa na autorregulação e na relação do indivíduo consigo mesmo. Ao focar na liberação de tensões internas por meio da respiração, do toque e do movimento, essas práticas atuam diretamente no afrouxamento da armadura muscular causada pelo medo. Elas promovem a regulação do sistema nervoso e expandem a percepção de si, criando caminhos para reduzir a necessidade de criar categorias rígidas, baseadas na lógica divisiva do "nós" contra "eles". Um corpo que aprende a respirar sem medo e a habitar o momento presente torna-se naturalmente menos defensivo, desenvolvendo um estado de acolhimento e abertura ao desconhecido. Quando o tônus muscular relaxa e o estado de alerta constante diminui, a mente ganha espaço para a curiosidade. Na prática terapêutica, processos como o Psicodrama e as Constelações Familiares servem como pontes diretas para essa transformação. Em uma sessão de Psicodrama focada na erradicação do preconceito racial ou de gênero, por exemplo, utiliza-se a técnica da "inversão de papéis". Um indivíduo inserido em uma posição de privilégio é convidado a corporificar fisicamente a postura, os gestos e a carga emocional de alguém que vivencia a marginalização diária. Ao ancorar essa experiência no corpo sentindo o aperto no peito e a restrição
  • Page 3333 30 de outubro de 2026 - Brasil respiratória causados pela opressão simulada o participante processa o preconceito não mais como um conceito abstrato, mas como uma dor física real partilhada pelo outro. Da mesma forma, vivências de respiração circular e Bioenergética liberam a raiva crônica e o medo do desconhecido estocados na musculatura cervical e pélvica, desarmando os gatilhos somáticos que disparam o preconceito automático e a aversão ao diferente.
  • Page 3434 30 de outubro de 2026 - Brasil
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilLICENÇA PARA SENTAR Por Roberta Ferraz
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilPara as mulheres negras, o trabalho nunca foi conquista, foi condição de existência, herdada antes de qualquer escolha. Para as mulheres brancas, foi uma porta arrombada até ceder. Caminhos distintos, mas uma sensação permanece, a de precisar pedir licença para se sentar na própria cadeira. Para ocupar o espaço que já é nosso. Nem sempre o alívio vem ao encontrar outras mulheres na caminhada. Às vezes, sua cadeira é puxada pelas mesmas mãos que você imaginou que a ajudariam a se levantar. Mas, olhando de perto, percebe-se que essa disputa nasce de nos ensinarem que há somente uma cadeira à mesa, reservada à mais bela, à mais brilhante, à mais capaz entre todas nós.
  • Page 3939 30 de outubro de 2026 - Brasil
  • Page 4040 são referências nesse e em outros temas, de forma a extinguir a premissa incorreta da incapacidade associada ao gênero. Superar o preconceito de raça exige entendimento e busca de referências que explicam e demonstram com base em evidências todas as mazelas sociais, assim como a riqueza cultural, que permeiam nossa sociedade.
  • 30 de outubro de 2026 - BrasilMURALHA Por Luiza Ferraz
  • Page 4242 Observar a sociedade brasileira é perceber que ela é multifacetada. Suas diferentes camadas, no entanto, são atravessadas colonização, pela violência da que, em uma ordem escravocrata e patriarcal, distribuiu poder e privilégios de maneira desigual. Durante esse processo, referências europeias foram elevadas à condição de medida universal de civilização, enquanto outros modos de viver, pensar e produzir cultura eram desvalorizados.
  • 30 de outubro de 2026 - Brasil43 Essa autonomia também se expressa fora da mídia hegemônica, quando diferentes grupos criam seus próprios meios de comunicação.
  • Page 46acesse nossas redes sociais
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Preconceito

ENTRE JULGAMENTOS E DESIGUALDADES, O DESAFIO DE ENXERGAR O OUTRO O PROBLEMA NUNCA FOI SER DIFERENTE, MAS NÃO SABER RESPEITAR AS DIFERENÇAS www.revistadivulgacao.com.br

ENTRE JULGAMENTOS E DESIGUALDADES, O DESAFIO DE ENXERGAR O OUTRO

O PROBLEMA NUNCA FOI SER DIFERENTE, MAS NÃO SABER RESPEITAR AS DIFERENÇAS www.revistadivulgacao.com.br

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Diretora Criativa e Comercial Sharllany Soares Souza

Editora Chefe Luiza Ferreira Ferraz Autores Ingrid Achiver Luiza Ferraz Maria Eduarda Gama Nayara Pereira Roberta Ferraz Sharllany Soares Sandra de Sousa Lima Tayná Celen Thiago Hot Vinicius Souza

Editora Chefe Luiza Ferreira Ferraz

Autores Ingrid Achiver Luiza Ferraz Maria Eduarda Gama Nayara Pereira Roberta Ferraz Sharllany Soares Sandra de Sousa Lima Tayná Celen Thiago Hot Vinicius Souza

SHAY! Publicidade e Marketing - CNPJ: 30783.735/0001-08 revistadivulgacao.com.br

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QUANDOUMAMULHERDECIDE,OPRECONCEITOSEREVELA

Por Sharllany Soares Souza OFUTUROPAÍSDOFUTEBOL
  • Por Sharllany Soares Souza
  • OFUTUROPAÍSDOFUTEBOL
  • Por Ingrid Achiver

GORDA, TESTUDO, PIXAIM, NEGUINHO, VIADO E AS MARCAS QUEAESCOLADEIXANAVIDADAGENTE

  • Por Maria Eduarda Gama
  • UMDIA
  • Por Tayná Celen
  • MUITOALÉMDOPERFIL
  • Por Nayara Pereira
  • QUANTOCUSTAANOSTALGIA?
  • Por Thiago Hot

O CORPO QUE JULGA, OCORPO QUE CURA: TEATRO E PRÁTICASINTEGRATIVASCONTRAOPRECONCEITO

  • Por Sandra Lima
  • LICENÇAPARASENTAR
  • Por Roberta Ferraz
  • MODELANDOOMUNDO
  • Por Vinicius Souza
  • MURALHA
  • Por Luiza Ferraz
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EDITORIAL

Vivemos cercados por informação. Notícias, imagens e vídeos chegam a todo momento, disputando nossa atenção. Em meio a tanto conteúdo, nem sempre conseguimos parar para compreender o que vemos ou permanecer um pouco mais diante de uma ideia. A Revista Divulgação quer propor outro ritmo.

Vivemos cercados por informação. Notícias, imagens e vídeos chegam a todo momento, disputando nossa atenção. Em meio a tanto conteúdo, nem sempre conseguimos parar para compreender o que vemos ou permanecer um pouco mais diante de uma ideia.

A Revista Divulgação quer propor outro ritmo.

O objetivo é deslocar o olhar para boas histórias e discussões, sem a pretensão de ter todas as respostas. Para isso, reunimos autores com diferentes áreas de atuação. Cada um com seus próprios repertórios e seu jeito de construir uma narrativa, elaborando assuntos como cultura, questões socioambientais, cotidiano e tantos outros.

Ao final de todo mês, um tema desafia cada um deles, com a certeza que nenhuma abordagem será igual. Uma mesma questão pode aparecer em formato s diversos, como em crônicas, em um ensaio ou em outros vários caminhos da escrita.

Convidamos você, leitor, a se aventurar por nossos textos e a cultivar a inquietação de continuar fazendo perguntas. O conteúdo que preenche as páginas vive na expectativa de permanecer após a leitura, provocando questionamentos, iniciando conversas e gerando reflexões.

É também nesse sentido que Divulgação é movimento. Divulgar é colocar algo em circulação uma ideia, uma história, uma experiência, uma pergunta. É fazer com que aquilo que nasceu em um lugar possa encontrar outros viajantes e continuar seu caminho.

Conteúdo de verdade. Para pessoas de verdade.

Da Redação - Revista Divulgação

30 de Outubro de 2026 - Brasil revistadivulgacao.com.br

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6 30 de outubro de 2026 - Brasil

30 de outubro de 2026 - Brasil

Quando uma mulher decide, o No mundo corporativo, mulheres que lideram equipes, administram negócios e tomam decisões importantes frequentemente precisam demonstrar mais para receber o mesmo reconhecimento.

preconceito se autoridade é testada e sua presença, em Suas escolhas são questionadas, sua determinados ambientes, ainda parece revela precisar de justificativa.

Mas o preconceito não termina quando a Por Sharllany Soares Souza mulher fecha escritório.

o notebook e sai do Por que a competência de uma mulher ainda precisa ser provada tantas vezes para ser reconhecida?

Existe um preconceito que nem sempre grita. Às vezes, ele se esconde em uma reunião, em uma interrupção, em um comentário disfarçado de brincadeira ou naquela pergunta que parece inofensiva “Será que você dá conta?”

Quando uma mulher ocupa uma posição de decisão, parece que sua competência precisa passar por um julgamento permanente. Se é firme, é autoritária. Se é estratégica, é fria. Se estabelece limites, é difícil de lidar. Se demonstra sensibilidade, é considerada fraca. E, se conquista resultados, ainda há quem procure explicações que não envolvam sua capacidade.

Ele também atravessa a porta de casa.

Está presente quando uma mulher precisa justificar suas ambições profissionais, quando sua dedicação ao trabalho é confundida com ausência na família ou quando se espera que ela seja responsável por tudo pela carreira, pelos filhos, pela casa, pelos relacionamentos e pelo bemestar de todos. Como se ocupar espaços de poder fosse um privilégio que ela só pudesse exercer depois de cumprir todas as expectativas impostas a ela.

No mercado de trabalho, a desigualdade pode aparecer na diferença de oportunidades, na desconfiança em relação à capacidade de liderança e na resistência em reconhecer mulheres em cargos estratégicos.

Na sociedade, manifesta-se na tentativa constante de definir como uma mulher deve falar, agir, vestir-se, liderar e até mesmo demonstrar suas emoções.

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30 de outubro de 2026 - Brasil

E precisamos falar sobre isso porque o preconceito nem sempre se apresenta como uma proibição explícita. Muitas vezes, ele está na cultura, nos hábitos e nas expectativas que parecem naturais justamente porque foram repetidas por tanto tempo.

E precisamos falar sobre isso porque o preconceito nem sempre se apresenta como uma proibição explícita.

Muitas vezes, ele está na cultura, nos hábitos e nas expectativas que parecem naturais justamente porque foram repetidas por tanto tempo.

Questionar essa realidade não significa afirmar que toda mulher enfrenta barreiras ou as mesmas que toda experiência é igual. Significa reconhecer que ainda existem estruturas e comportamentos que tornam o caminho de algumas mulheres mais difícil — especialmente quando gênero, raça, classe social e outras desigualdades se cruzam.

Também significa entender que igualdade não é apenas permitir que uma mulher ocupe uma cadeira de liderança.

É reconhecer sua autoridade quando ela chega, respeitar suas decisões quando ela fala e avaliar seu trabalho pelos mesmos critérios aplicados aos demais.

Uma mulher não precisa abandonar sua feminilidade para ser respeitada, endurecer sua personalidade para ouvida ou escolher entre ser construir uma carreira e ter uma vida pessoal. Ela não precisa se tornar menos mulher para ser considerada mais competente.

Precisamos deixar de perguntar se uma mulher está preparada para decidir e começar a observar por que sua capacidade ainda é colocada em dúvida com tanta frequência.

Porque o verdadeiro avanço não acontece apenas quando ela chega ao poder. Acontece quando sua presença deixa de ser tratada como exceção, sua voz deixa de ser vista como ameaça e suas decisões passam a ser respeitadas sem que ela precise provar, todos os dias, que merece estar ali. A história, entretanto, está repleta de mulheres que desafiaram as regras de seu tempo e mostraram que o lugar dela nunca deveria ser determinado pelas expectativas dos outros.

Dandara dos Palmares representa a resistência à opressão e a luta pela liberdade. Maria da Penha transformou uma história de violência em símbolo de mobilização por direitos e justiça. Ruth Bader Ginsburg enfrentou barreiras de gênero no Direito e tornou-se uma referência na luta pela igualdade. Nise da Silveira rompeu paradigmas na psiquiatria brasileira ao defender uma abordagem mais humana no cuidado com pessoas em sofrimento psíquico.

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8 Carolina Maria de Jesus, por O preconceito não se manifesta apenas diante das que sua vez, transformou a própria ocupam posições de grande visibilidade. Ele também realidade em literatura e deu aparece nas relações cotidianas, nas pequenas decisões visibilidade a experiências que e nas expectativas que tentam definir até onde uma tantas vezes foram silenciadas.

Carolina Maria de Jesus, por O preconceito não se manifesta apenas diante das que sua vez, transformou a própria ocupam posições de grande visibilidade. Ele também realidade em literatura e deu aparece nas relações cotidianas, nas pequenas decisões visibilidade a experiências que e nas expectativas que tentam definir até onde uma tantas vezes foram silenciadas.

mulher pode chegar.

São trajetórias diferentes, em épocas e contextos distintos, O problema nunca foi uma mulher decidir. O problema é mas que nos convidam a uma sociedade que ainda se incomoda quando ela pensar comum:

sobre uma quantas questão decide sem pedir permissão. barreiras precisaram ser enfrentadas “Quando uma mulher decide, por que tanta gente se para que essas mulheres incomoda?” fossem ouvidas, reconhecidas e respeitadas?

E é importante compreender que nem toda mulher precisa realizar um feito extraordinário para merecer respeito.

A mulher que administra uma empresa, a que lidera uma equipe, a que sustenta sua família, a que participa das decisões de casa e a que luta diariamente para conquistar autonomia também merece ter sua voz considerada.

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30 de outubro de 2026 - Brasil

Talvez o maior desafio não seja ensinar mulheres a serem fortes. Muitas já aprenderam a ser fortes porque a vida exigiu isso delas. O desafio está em construir uma sociedade na qual a força feminina não seja uma condição obrigatória para conquistar o respeito que deveria existir desde o início. E fica uma reflexão: se ainda precisamos celebrar mulheres por terem vencido barreiras que nunca deveriam ter existido, o avançamos?

Talvez o maior desafio não seja ensinar mulheres a serem fortes. Muitas já aprenderam a ser fortes porque a vida exigiu isso delas. O desafio está em construir uma sociedade na qual a força feminina não seja uma condição obrigatória para conquistar o respeito que deveria existir desde o início.

E fica uma reflexão: se ainda precisamos celebrar mulheres por terem vencido barreiras que nunca deveriam ter existido, o avançamos?

quanto realmente

Quando uma mulher toma uma decisão, o que está sendo colocado à prova: a capacidade dela ou as convicções de uma sociedade que ainda não aprendeu a dividir o poder?

Talvez a mudança comece quando deixarmos de ensinar meninas a provar seu valor o tempo inteiro e começarmos a questionar por que tantas pessoas ainda se sentem autorizadas a duvidar dele.

  • Formada em Comunicação
  • Social
  • Publicidade e Propaganda pela Faculdade
  • Pitágoras, desde
  • 2009, Sharllany construiu
  • Soares
  • Souza sua trajetória ao longo de

anos entre projetos, experiências, desafios e aprendizados, até criar a SHAY Publicidade e Marketing, onde atua como CEO.

Especialista em planejamento e estratégia, tem na criatividade, nas pessoas e nas novas ideias a força que move seu trabalho.

Candomblecista, acredita na ancestralidade, nos encontros e nos caminhos que cada pessoa constrói.

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Imagem: Google - Observatório TV 11

Imagem: Google - Observatório TV

“O futebol feminino, como esporte, é desaconselhável”.

Ofuturo é para meninas". Pode até

“Futebol é para homens, não paísdo não parecer, pelas ideias muito similares, mas essas duas frases foram ditas em futebol momentos bem diferentes da nossa história.

Por Ingrid Achiver

A primeira foi publicada como manchete no jornal O Diário de Notícias, em 1941. Já a segunda foi falada em uma entrevista coletiva, em 2025, pelo então técnico do Internacional, Ramón Díaz.

Ou seja, após mais de 80 anos, as mulheres do futebol ainda lutam para serem reconhecidas como parte do suposto “país do futebol”.

Ao longo do tempo, a campanha contra o futebol feminino foi fortíssima, amparada pela mídia tradicional, pelos conservadores, políticos e por aqueles que reduziam a existência das mulheres ao ambiente doméstico. Mesmo assim, elas deram um jeito e se mobilizaram, jogando nos circos, em festividades, jogos beneficentes e nos subúrbios.

Porém, essa ruptura com um sistema machista profundamente e patriarcal incomodou.

Incomodou tanto que a modalidade foi proibida legalmente. Em Imagem: Google - Decreto Lei 3.199 www.revistadivulgacao.com.br

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30 de outubro de 2026 - Brasil abril de 1941, durante a Era Vargas, o Conselho Nacional de Desportos, publicou o decreto-lei 3.199 que contava com o seguinte artigo: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. É impossível medir o impacto dessa proibição na evolução do futebol feminino, já que esse decreto ficou vigente por quase 40 anos, sendo revogado somente em 1979.

30 de outubro de 2026 - Brasil abril de 1941, durante a Era Vargas, o Conselho

Nacional de Desportos, publicou o decreto-lei 3.199 que contava com o seguinte artigo: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. É impossível medir o impacto dessa proibição na evolução do futebol feminino, já que esse decreto ficou vigente por quase 40 anos, sendo revogado somente em 1979.

Os reflexos desse passado, ainda tão presente, são perceptíveis em comentários preconceituosos nas redes sociais, escancarando o ódio pelo rompimento de um padrão esperado das mulheres. Em transmissões esportivas ou em notícias relacionadas ao futebol feminino já me deparei, por exemplo, com os dizeres “futebol feminino era bom na década de 60 quando não existia”, “falta de lavar louça” e “ninguém assiste e se interessa”. Isso, sem mencionar, a frequente descredibilização de profissionais envolvidas com o mundo esportivo, as jornalistas, comentaristas, narradoras, árbitras e dirigentes.

Para tornar a situação ainda mais revoltante mas não surpreendente esse discurso é endossado por muitas comissões técnicas e dirigentes de grandes clubes. Em uma entrevista ao jornal O Globo, em novembro de 2024, Rodolfo Landim, na época presidente do Flamengo e contando com a artilheira Cristiane no elenco do time feminino,

declarou que “a FIFA está crescendo o futebol feminino, criando uma data FIFA. E vai querer empurrar esse troço.” O futebol de mulheres provoca a ira gratuita daqueles que se acham os detentores supremos das regras do jogo e ainda tentam ter controle sobre os corpos e as decisões alheias.

Mas o jogo virou, os contra-ataques vieram, as jogadoras driblaram os adversários, saíram atrás da linha de impedimento, mas dispararam para chegar na frente. Jogada legal. Com a bola no pé, dominaram o lance, seguiram de cabeça erguida, com os olhos fixos no grande objetivo. Na frente do gol, elas não perderam a oportunidade. A bola alcançou as redes e a explosão tomou conta. Não há mais volta. A tendência é que, com o tempo, esse jogo vire uma goleada. Com os estádios cheios. Contra um adversário que as subestimou.

Em 2027, temos a chance de mostrar para o mundo que o futebol de mulheres veio para ficar, apesar de todas as contrariedades e tentativas de prejudicá-las.

Foram décadas de proibição.

Anos de falta de investimentos, incentivos e formação de base praticamente inexistente.

Essa pode ser a nossa grande oportunidade. Oportunidade para reafirmar o potencial em desenvolvimento da modalidade. Oportunidade para que meninas tenham a chance de também crescer jogando bola, se assim desejarem.

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“Nadaépermanente, excetoamudança.” 13

“Nadaépermanente, excetoamudança.”

Pelas mulheres que ousaram jogar futebol quando era esperado que brincassem de bonecas. Pelas pioneiras da modalidade que não podem ser esquecidas. Pelas jogadoras, treinadoras que precisam ser reconhecidas e incentivadas.

Pelas jornalistas e pesquisadoras que não deixam histórias serem apagadas. Pelas meninas que ainda sonham em fazer parte do país do futebol. Não estamos sozinhas!

Ingrid Achiver é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Entusiasta do mundo esportivo, é autora do livro-reportagem "Memória, Futebol e Pioneirismo:

as primeiras gerações da Seleção Brasileira Feminina". Tem interesse pelas histórias que fogem da oficialidade e pelas narrativas das mulheres. É apaixonada pelos mais variados esportes, pela literatura, arte, cultura e pelo (bom) jornalismo!

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30 de outubro de 2026 - Brasil

Gorda, testudo, pixaim, neguinho, viado e as marcas que a escola deixa na vida da gente

Por Maria Eduarda Gama

Eu tinha 14 anos e estava na praia numa época na qual eu detestava ir à praia. Eu já tinha lido todos os livros que havia levado para a viagem e entrar no mar certamente não era uma opção. Naquele tempo, o Instagram tinha acabado de se popularizar e muita gente ainda não tinha migrado do Facebook para lá. Como a minha única escolha parecia ser explorar a mais nova rede social, postei uma foto na areia, com short e camiseta, em um daqueles filtros meio sépia, um dos poucos disponíveis no Instagram até então. Em poucos minutos, apitava o comentário de um colega da escola: GORDA. Eu queria muito dizer que aquilo não me atingiu, que não apaguei a foto imediatamente, que essa é a bela história de como eu resolvi aceitar que o meu biotipo simplesmente não é magro, mas a verdade é que, depois desse episódio, eu passei muitos anos sem postar uma foto sequer na praia. Mais do que isso: quando as férias acabaram e eu voltei para a escola, estava morrendo de medo de alguém ter visto o comentário e vir conversar sobre isso comigo.

Eu nunca saí da escola, porque, quando deixei de ser aluna, passei a ser professora. No entanto, é curioso observar que esse medo nunca desapareceu totalmente: ele sempre reaparece nas histórias que os meus alunos me contam. Nessas horas, parece que a Duda de 14 anos volta com toda força para dar um abraço em cada um e dizer que ninguém deveria precisar enfrentar aquilo sozinho. Porque essa, meus caros, é a vida de grande parte dos adolescentes dentro de uma escola. Não importa quão popular, inteligente ou bonito um aluno pareça: o receio de ser discriminado ainda pode estar ali.

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30 de outubro de 2026 - Brasil

15 Mas quando os profissionais da escola falam sobre isso, o que mais se ouve da comunidade externa é um sonoro "na minha época, todo mundo botava apelido em todo mundo e a gente não achava que isso era bullying”.

Mas quando os profissionais da escola falam sobre isso, o que mais se ouve da comunidade externa é um sonoro "na minha época, todo mundo botava apelido em todo mundo e a gente não achava que isso era bullying”.

Quando eu, enquanto educadora, ouço esse tipo de fala, me vem um incômodo muito profundo, porque parece que nomear um comportamento nocivo para, enfim, tentar combatê-lo é visto com péssimos olhos pela sociedade.

É certo que a palavra bullying não fazia parte do cotidiano escolar de muitos desses adultos. Mas isso não quer dizer que os apelidos fossem inofensivos. Aqui, não quero chamar a atenção apenas para o nome, mas sobretudo para os efeitos dessa prática para quem hoje parece se entender como imune às consequências das discriminações que viveu na infância e na adolescência.

Será que essas pessoas que bradam aos quatro cantos que esse tipo de comportamento não era problemático não sofreram (e sofrem) com isso? Será que não escondem a testa atrás de uma franja porque eram chamadas de "testudo" na escola? Será que não alisam o cabelo porque ele era chamado de “pixaim” na escola? Será que sentem que não podem ocupar todos os espaços que querem porque eram chamadas de "neguinho” na escola? Será que não têm medo de viver plenamente seus afetos porque eram chamadas de “viado” na escola?

Talvez, a escola tenha virado apenas um borrão na memória de muita gente. Mas há coisas que continuam nítidas muito depois de esquecermos os nomes dos nossos colegas. Porque é dentro da escola que estabelecemos nossos primeiros vínculos fora do núcleo familiar www.revistadivulgacao.com.br

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30 de outubro de 2026 - Brasil e começamos a entender como queremos ser tratados. É dentro da escola que aprendemos a conviver com as diferenças e a enxergar nelas um enorme potencial de aprendizado. É dentro da escola que começamos a gerir nossos primeiros problemas da vida social e, com eles, a travar uma infinita batalha entre a gentileza e a crueldade. Toda vez que eu vejo um aluno cabisbaixo, sentado no degrau de uma escada qualquer da escola, a primeira coisa que me vem à mente é a possibilidade de ele ter sido alvo de algum preconceito, de o caminho dele ter, naquele dia, se cruzado com o de alguém que optou pela crueldade.

30 de outubro de 2026 - Brasil e começamos a entender como queremos ser tratados. É dentro da escola que aprendemos a conviver com as diferenças e a enxergar nelas um enorme potencial de aprendizado. É dentro da escola que começamos a gerir nossos primeiros problemas da vida social e, com eles, a travar uma infinita batalha entre a gentileza e a crueldade.

Toda vez que eu vejo um aluno cabisbaixo, sentado no degrau de uma escada qualquer da escola, a primeira coisa que me vem à mente é a possibilidade de ele ter sido alvo de algum preconceito, de o caminho dele ter, naquele dia, se cruzado com o de alguém que optou pela crueldade.

É claro que pode estar enfrentando problemas familiares, de saúde ou acadêmicos, mas essas possibilidades não são as primeiras que me ocorrem. Porque até hoje várias das conversas que eu tenho com a minha psicóloga voltam para as marcas que eu trago do meu período de escola, por mais que eu tenha aprendido a ressignificá-las.

Em “Caderno de um Ausente”, João Anzanello Carrascoza diz que o nome é a primeira marca gerada na vida de alguém. As demais vêm ao longo dos anos, nas relações familiares, escolares, afetivas, profissionais. Se você pudesse enxergar as marcas que gerou na vida de alguém do seu tempo de escola, você se orgulharia ou se envergonharia delas? A verdade é que você não pode mudar o passado, porque um insulto ou uma agressão não podem ser simplesmente apagados com

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17 um pedido de desculpas, por mais sincero que ele seja. Ainda assim, é plenamente possível construir um futuro mais gentil, no qual possamos realmente acolher a dor do outro e aprender a não banalizá-la.

um pedido de desculpas, por mais sincero que ele seja. Ainda assim, é plenamente possível construir um futuro mais gentil, no qual possamos realmente acolher a dor do outro e aprender a não banalizá-la.

Aos 14 anos, eu consegui apagar uma foto em poucos segundos, mas a memória daquele comentário permanece como uma das inúmeras marcas que para sempre irão compor o meu corpo.

Maria Eduarda Gama é graduada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Produção de Materiais Didáticos pela Universidade de Uberaba (Uniube). Professora de Linguagens há dez anos, é também autora de materiais didáticos de Redação destinados ao Ensino Médio. Filha única até os 15 anos e criada majoritariamente pelos avós, encontrou nos livros, ainda na infância, uma forma de companhia. Aos dez anos, venceu um concurso de poesia e descobriu na escrita não apenas uma paixão, mas também uma possibilidade de expressão. Anos mais tarde, durante a graduação, passou a transformar em crônicas os acontecimentos cotidianos que observava em sala de aula, fazendo da experiência docente também matéria literária. Entre a literatura e a educação, segue encontrando nas palavras uma maneira de observar, compreender e narrar o mundo.

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Umdia

Por Tayná Celen

Desde os dezoito anos já fazia as suas sessões de análise naquele bairro de Belo Horizonte. Próximo ao Centro, porém mais para o sul da cidade, há alguns minutos da Savassi, bairro que tem um dos metros quadrados mais caros da capital mineira. Manu descia do ônibus na avenida Álvares Cabral e subia, em direção ao bairro Funcionários, que de certo não homenageia os seus trabalhadores. Eles saem de outras partes da cidade pra lá e trabalham nas casas nobres como empregadas domésticas, na portaria dos prédios residenciais e comerciais, são vendedores, trabalham limpando a rua e os imóveis, entregando gente de carro e de moto, ou entregando coisas, no geral.

Manu é negra, neta de lavadeira, filha de motorista e de empregada doméstica, e aprendeu na escola sobre o descobrimento do seu país. Porém, na faculdade onde entrou como cotista no curso de História, que acessou pelo FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), entendeu que o que estava nos seus livros da infância e adolescência era uma mentira. Antes mesmo do português dizer que tinha descoberto a terra fértil que tudo que plantava nascia, aqui já viviam indígenas que conheciam muito bem a terra que pisavam, sendo eles os verdadeiros dela.

descobridores

Pensara sobre como se formou o pensamento europeu de descobrir algo que já havia sido descoberto. E, então, em um passo menor do que no necessário para o desnível do chão, tropeça no meio-fio e se lembra dos degraus aos quais há pessoas que estão em cima, mais embaixo e muito mais embaixo, quase que ao ponto de não contarem, como soubera ser o seu caso e dos seus.

Naquele dia, Manu subira a Álvares Cabral pensando sobre o nome da avenida. Pedro Álvares Cabral, o condecorado aventureiro navegador português a quem se credita ter descoberto o Brasil em 1500.

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No caminho até o consultório de seu analista se percebia observada por quem circulava na rua. Era olhada de cima à baixo por quem cruzava na calçada, quase que como se fosse ali um corpo estranho, ou até pudesse ser um corpo conhecido, caso estivesse com uma vassoura nas mãos ou atrás de um balcão vestindo uniforme. À paisana, no meio da tarde, causava desconfiança, então a sua estratégia passou a ser a de olhar para os seus pés, contando os passos. Os olhares que fitava na sua altura eram escolhidos em um ponto fixo ao longe, creditando à lonjura do alcance de seus olhos a capacidade de ignorar as distrações e seguir em frente.

No prédio onde ficava o consultório, sempre lhe era pedido o documento de identificação, mesmo que ali já frequentasse há quatro anos, todas as semanas. E ao adentrar a sala de seu analista, deita-se no divã e começa a falar da morte da vereadora carioca Marielle Franco.

Falou sobre o medo da morte e de que ali poderia ser ela, uma prima, uma amiga, alguma de suas tias, a mãe. Disse ao analista que o que a matou foi quem ela era e pelo o que lutava como vereadora eleita no município do Rio de Janeiro. Naquele 14 de março, falou chorando sobre como a morte de alguém que nem conhecia, lhe tocava profundamente. Trouxe à lembrança as imagens da campanha de Marielle caminhando pela favela da Maré no Rio, onde cresceu. Manu é mineira, mas nunca morou no Centro da cidade e nem em nenhuma região do sul de Belo Horizonte. Soubera dos bairros nobres por fotos e vídeos, e começou a frequentar um pouco mais esses espaços depois de começar a fazer faculdade porque pegava o seu segundo ônibus para chegar ao campus na Avenida Afonso Pena.

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O analista encerra a sessão ressaltando a função da figura da vereadora na vida de Manu e de outras pessoas negras e pobres, que alcançaram outros espaços. Marielle foi inspiração e ensinamento de que outras formas de esperançar a política eram possíveis. O praticante da psicanálise negritou que o que se escreve pode até ser rasurado, mas permanece como escrito, destacando que uma função não morre. O que a acalenta, em certa medida.

A cena não provocou mais do que alguns olhares dos que passavam, alguns sequer olharam. Manu, parou. Encostou em qualquer muro e olhou fixamente para a cena.

Os policiais não pareciam ter encontrado algo após a revista, mas a busca não se cansa de não cessar. Como diante da abordagem de alguém suspeito nada encontrariam? Olharam o celular do rapaz, o celular deles próprios, os três policiais pediram os documentos dele, aos quais ele entregou.

E Manu, ali permanece, sem dar um passo. Talvez tenha ficado como uma recusa de tomar aquela cena como cotidiana; ou para testemunhar o que ninguém que passava tivesse se interessado em entender; pode ser para que o rapaz a visse e se sentisse um pouco menos só.

O rapaz olha para Manu, ela também o olha, e ela resiste ali.

Se levanta do divã e sai do prédio em direção à Praça da Liberdade - queria ver a exposição nova do CCBB. Vira a rua seguinte e caminha até a segunda esquina, uma subida. Quando em sua frente, um rapaz de aproximadamente 20 anos, bermuda, óculos Juliet na nuca, cabelo platinado, camisa de time, negro, é abordado pela polícia, que passava num carro. “Para-para-para-para-para”, gritaram os policiais e depois ordenaram que o rapaz erguesse os braços, se virasse para a parede e começaram a revistá-lo.

Tayná Celen nasceu em Belo Horizonte, mas cresceu em Pedro Leopoldo. É filha de um pintor e de uma cozinheira e, desde a adolescência apostou na escrita como maneira de inventar lugares. Dentre as suas referências está a música negra brasileira, a escrevivência, a memória, a arte, a psicanálise e a sua vivência como mulher negra no mundo. Iniciou seus passos na literatura com o seu primeiro livro “Um poema sempre chega ao seu destino”, escrito em 2022, com poemas-cartas endereçados. Formada em Psicologia, é mestra em psicanálise, e segue percorrendo na pesquisa, na poética e na clínica as infinitas possibilidades da invenção www.revistadivulgacao.com.br

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21 Muitoalémdo 'PerfilDesejado':O queopreconceito veladoesconde noRH

Muitoalémdo 'PerfilDesejado':O queopreconceito veladoesconde noRH

Por Nayara Pereira

Cor, raça, crença, peso, altura, idade… O preconceito se manifesta de diversas formas no nosso dia a dia. E quando essa realidade acontece conosco ou com alguém próximo? O mal-estar toma conta, e mil e um pensamentos vêm à nossa mente.

Minha mãe era preta. Dela, ouvi em determinada ocasião a seguinte frase: “Ainda bem que você nasceu branca e não vai precisar passar pelo que eu passei”. Confesso que eu, com apenas 10 anos de idade, só iria entender anos depois o peso e a dor desta frase. Quando decidi que o Recursos Humanos era o caminho que eu queria seguir, já tinha visto histórias e fatos que realmente me marcaram. Afinal de contas, as moças www.revistadivulgacao.com.br

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22 30 de outubro de 2026 - Brasil do RH das empresas em que trabalhei eram dignas de um desfile de moda: esbeltas, maquiadas, bem vestidas, um padrão que intimidava qualquer candidato. Mas o que me levou a escolher o RH nem foi o status, era o que eu tinha visto acontecer com pessoas próximas. Pelo fato de eu não concordar com aquele padrão e enxergar que por trás de cada pessoa havia uma história, uma família e uma busca por melhoria, fui estudar e correr atrás de fazer a diferença.

30 de outubro de 2026 - Brasil do RH das empresas em que trabalhei eram dignas de um desfile de moda: esbeltas, maquiadas, bem vestidas, um padrão que intimidava qualquer candidato. Mas o que me levou a escolher o RH nem foi o status, era o que eu tinha visto acontecer com pessoas próximas. Pelo fato de eu não concordar com aquele padrão e enxergar que por trás de cada pessoa havia uma história, uma família e uma busca por melhoria, fui estudar e correr atrás de fazer a diferença.

Hoje, compartilho com vocês uma história de uma pessoa muito especial, que teve grande peso na minha escolha de carreira. Por aqui, vou trocar o nome dela para preservá-la: “Nay, tenho três candidatos e insisti com o RH para entrevistar sua amiga, mas eles estão resistentes. Ela é obesa e, apesar de ser um serviço tranquilo, precisa subir e descer escadas. Mas vou entrevistála, o currículo dela é ótimo e ela tem graduação.”

Poucas horas depois, recebi o retorno: “Vamos ficar com a Manoela. Ela tem o perfil e uma história de vida que vale a pena dar uma oportunidade. Sabemos que ela pode ter dificuldades para desenvolver algumas atividades por conta do peso, mas o melhor perfil é o dela. ”

Olhando o fenômeno através da ciência, temos a visão de Crochik (1998): o preconceito diz muito mais respeito às necessidades e limitações de quem julga do que às características reais de quem é alvo dele. Reduziram a competência e a graduação de uma profissional à sua condição física e a um lance de escadas.

Os bastidores do mundo corporativo me envergonham bastante.

Nós, enquanto profissionais com foco em pessoas, precisamos ajudar a mudar esse viés de preconceito que é latente nas empresas. Por mais que aqui eu exponha o lado obscuro do RH de anos atrás, confesso que hoje as coisas já mudaram bastante, mas www.revistadivulgacao.com.br

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23 30 de outubro de 2026 - Brasil ainda falta um caminho extenso. Eu já vi mulheres que haviam acabado de se tornar mães serem descartadas em processos seletivos. Já ouvi de gestores de RH expressões que velavam o sexismo e a discriminação: “De filho pequeno já basta o meu! Preciso dela aqui… E se o filho dela passar mal?”.

30 de outubro de 2026 - Brasil ainda falta um caminho extenso. Eu já vi mulheres que haviam acabado de se tornar mães serem descartadas em processos seletivos. Já ouvi de gestores de RH expressões que velavam o sexismo e a discriminação: “De filho pequeno já basta o meu! Preciso dela aqui… E se o filho dela passar mal?”.

Por outro lado, já passei por empresa em que a preferência da contratar exclusivamente diretoria mulheres.

era Na visão deles, a mulher tinha uma resiliência e uma vontade de fazer o negócio acontecer e, a partir deste princípio, colocaram esse fato agregado aos valores da empresa.

À primeira vista, pode parecer um avanço ou uma busca por igualdade. No entanto, quando analisamos sob a ótica da psicologia, muitas vezes essa "preferência" esconde o que a literatura chama de sexismo benevolente. Contrata-se sob a premissa estereotipada de que a mulher é mais "dócil", "organizada" ou "barata", mantendo a lógica de rotular pessoas em vez de avaliar competências individuais e técnicas.

Pesquisas recentes sobre sexismo no ambiente corporativo reforçam como os estereótipos penalizam as mulheres, operando de forma sutil ou institucional, inclusive reforçando papéis tradicionais de gênero (Andrade & Fernandes, 2024). Não à toa, quando olhamos para os dados atuais, a desigualdade salarial ainda salta aos olhos: em pesquisas de mercado, é gritante ver que o menor salário para uma mesma função continua sendo o da mulher.

A discriminação também veste a máscara da idade.

Antigamente, quando nos aproximávamos dos 40 anos, a barreira para recolocação parecia intransponível. Embora hoje essa realidade comece a ser amenizada, ainda há um longo caminho a percorrer.

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É preciso entender, de uma vez por todas, que competência não tem nada a ver com idade, e sim com vivências. Cada dia mais, as empresas estão buscando profissionais nesta faixa etária para ocupar vagas importantes, já que esses profissionais trazem experiências práticas e não apenas teóricas.

E como o RH vai transformar esse cenário que ainda está por aí? Dentre algumas metodologias de intervenção organizacional fundamentadas em Carl Rogers e na pedagogia problematizadora (Madi et al., 2008), precisamos ensinar as lideranças a exercer a escuta qualificada, o "ouvir realmente”, despojando-se de julgamentos sujeito e prévios para enxergar suas reais entregas.

o O preconceito no trabalho não se combate apenas com regras revisando crenças, no papel, resgatando mas a humanidade nas relações e mudando a cultura corporativa.

Se você fosse do RH hoje, qual seria sua estratégia para transformar este cenário?

Nayara Pereira, a Nay, é psicóloga, escritora, palestrante e apaixonada por transformar o mundo corporativo através do afeto e da prática diária do RH. Com mais de uma década de vivência na área, une o rigor técnico das rotinas operacionais à escuta atenta, mostrando que processos eficientes e humanização caminham sempre juntos.

Referências: ANDRADE, Renata de Oliveira; FERNANDES, Sheyla Christine Santos. Expressões do Sexismo no Ambiente de Trabalho: Revisão de escopo. Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, v. 26, n. 2, e15648, 2024. Disponível em: https://pepsic.scielo.org/scielo.php? script=sci_arttext&pid=S1516-36872024000201500

MADI, E. D. T. et al. Reflexão sobre discriminação e preconceito no ambiente de trabalho. Simpósio dos Profissionais da UNICAMP (SimTec), Campinas, SP, v. 2, p. 316, 2008.

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QUANTO CUSTA A NOSTALGIA?

Por Thiago Hot

Diante da prateleira do supermercado, eu me peguei mergulhado naquela dúvida quase metódica do consumidor moderno: como comparar as mais diversas variações de preços na casa dos centavos, nas mais tantas versões de um mesmo produto e suas embalagens em mililitros, para decidir qual valia mais a pena colocar no carrinho.

Foi no meio desses cálculos mentais confusos, tentando usar os dedos como ferramenta, e, com muita dificuldade, confesso, pois sou um típico ser de humanas, que ouvi uma voz vinda do corredor vizinho. Pelo tom, me pareceu ser um senhor de mais idade fazendo um desabafo. Não sei a quem ele se dirigia, se a um funcionário da reposição ou a outro cliente qualquer, mas a frase atravessou as gôndolas com clareza: “Ah, mas antigamente era muito melhor…”.

A frase veio acompanhada de um suspiro nostálgico, como se aquele senhor — se é que de fato possuía a bagagem acumulada pelo tempo — carregasse uma grande e legítima saudade dos tempos idos. Por estarmos em um supermercado, pensei imediatamente que ele se referia à inflação, ao poder de compra do passado ou a uma vida que parecia correr em um ritmo mais lento e brando.

Mas, enquanto deitava os produtos no carrinho, já tendo desistido dos cálculos, fui tomado por aquela fala. A ideia do “antigamente era melhor”

ficou martelando na minha cabeça.

Não consegui enxergar aquele desabafo relacionado apenas aos valores econômicos; percebi que quem faz esse tipo de desabafo deixa essa ideia transbordar para quase todos os campos da vida humana: a política, a religião, a arte e as relações cotidianas. Foi esse raciocínio que me puxou para outra frase que escuto com frequência em sala de aula — e, infelizmente, também na sala dos professores: a de que o mundo, hoje, “ficou chato”, que não se pode mais falar nada e que tudo virou “mimimi”.

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Foi ali, na demorada fila do caixa, enquanto meu fragmentado pelo pensamento era bipe frenético e intermitente do leitor de código de barras, que me recordei de algumas aulas de ética em especial, das ideias de Emmanuel Lévinas. O filósofo lituano radicado na França defendia que a filosofia e a ética não começam no pensamento abstrato, mas no mundo real, no encontro incontornável com o Outro. Para Lévinas, o verdadeiro nascimento da ética acontece quando somos confrontados por um Rosto que não é o nosso. E esse Rosto, no pensamento levinasiano, não se limita aos aspectos físicos não é mero arranjo de olhos, nariz, boca, bochechas mas uma presença irredutível que nos intima, nos lança para fora da zona de conforto e nos retira da indiferença. O Rosto do Outro nos atravessa e nos diz, sem precisar emitir um único som: “você tem responsabilidade sobre mim”.

Foi ali, na demorada fila do caixa, enquanto meu fragmentado pelo pensamento era bipe frenético e intermitente do leitor de código de barras, que me recordei de algumas aulas de ética em especial, das ideias de Emmanuel Lévinas. O filósofo lituano radicado na França defendia que a filosofia e a ética não começam no pensamento abstrato, mas no mundo real, no encontro incontornável com o Outro.

Para Lévinas, o verdadeiro nascimento da ética acontece quando somos confrontados por um Rosto que não é o nosso. E esse Rosto, no pensamento levinasiano, não se limita aos aspectos físicos não é mero arranjo de olhos, nariz, boca, bochechas mas uma presença irredutível que nos intima, nos lança para fora da zona de conforto e nos retira da indiferença. O Rosto do Outro nos atravessa e nos diz, sem precisar emitir um único som: “você tem responsabilidade sobre mim”.

Quando alguém saudosista lamenta que “antigamente era melhor”, o que está sendo saudado, quase sem perceber, é um tempo em que o Outro não tinha Rosto. Ou melhor, em que o Outro era mantido invisível, sem direito à resposta. A pretensa paz do passado não era harmonia; era silenciamento, uma produção sistemática e estrutural de invisibilidades onde aqueles que detinham o poder ou os privilégios se sentiam no direito de marginalizar os demais.

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Foi nesse “antigamente melhor” que a piada racista, machista, gordofóbica ou capacitista era dita no almoço de domingo sem nenhum tipo de constrangimento ou responsabilidade. Foi nesse

“antigamente melhor”

que o preconceito virava entretenimento com altos índices de audiência em programas de auditório. Foi nesse “antigamente melhor” que a violência velada se apresentava nas filas dos bancos, nos supermercados, nos bancos da igreja ou no ato de mudar de calçada a depender da cor ou das vestimentas de quem vinha na direção oposta. Tudo isso acontecia sem ruído porque as vítimas não tinham o espaço material ou social para erguer a cabeça e dizer “isso dói”, “eu estou aqui” ou “sou como você”. Aqueles que sofriam simplesmente não tinham Rosto para quem hoje clama pelo tempo em que se podia ferir com indiferença.

É por essa e outras razões que o nosso tempo não é o tempo do “mimimi”, mas o tempo de reconhecer que existem tantos outros para além de mim. Tantos outros que são tão importantes quanto eu; de compreender que sou apenas mais um em meio a um universo de seres, de formas de existir, de se expressar, de viver, amar, e de cultuar ou não um Deus ou deuses. Para combater quem enxerga

“mimimi” onde o outro tenta apenas ser quem é, faz-se necessário beber na ética de Levinas. É ela que nos traz um conceito tão caro: o da alteridade a capacidade de reconhecer, respeitar e acolher a existência do outro como um ser único, com ideias, valores e vivências distintas das nossas.

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29 Imagem: Google - Amazonas Atual

Imagem: Google - Amazonas Atual

Conviver com a alteridade dá trabalho. A ética de Levinas nos lembra de que o Outro destrói nossa ilusão de soberania individual e nos arranca da lógica egocêntrica. Quando a mulher, o negro, o pobre, o periférico ou a pessoa LGBTQ+ deixam de aceitar o papel de figurantes e exigem o status de sujeitos, a bolha de conforto de quem sempre ditou as regras estoura. O que muitos chamam de “patrulha”, “militância”, “mimimi” ou “mundo chato” é, em termos éticos, o barulho inevitável de uma estrutura de privilégios que rangia há séculos e que finalmente começa a ser questionada — e que precisa, urgentemente, ser demolida.

O filósofo alemão Walter Benjamin, nos alertava que todo documento de civilização é também um documento de barbárie. O passado só era “mais leve” e “mais simples” para quem ocupava a posição de opressor ou de espectador imune. A nostalgia, nesse sentido, é uma das formas mais refinadas do privilégio de classe e de raça, pois ignora que a leveza de uns sempre foi financiada pelo esmagamento de outros.

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Enquanto ajeitava as sacolas no portamalas, confesso que xinguei mentalmente aquele senhor. Porque aquele passado não era melhor; era apenas mais silencioso. E o silêncio dos oprimidos nunca deve ser confundido com a paz. Se um mundo onde o Outro exige ser visto, respeitado e nomeado “chato”, é considerado um que continuemos, mundo então, assumindo e exaltando a nossa chatice. 30

Enquanto ajeitava as sacolas no portamalas, confesso que xinguei mentalmente aquele senhor. Porque aquele passado não era melhor; era apenas mais silencioso. E o silêncio dos oprimidos nunca deve ser confundido com a paz. Se um mundo onde o Outro exige ser visto, respeitado e nomeado “chato”, é considerado um que continuemos, mundo então, assumindo e exaltando a nossa chatice.

Thiago Hot é filósofo, professor, pesquisador e produtor de conteúdo educacional. É especialista em Ensino de Filosofia e em Psicologia da Educação, mestre em Ciências da Religião, doutor em Educação e atualmente mestrando em Filosofia. Professor de Filosofia e Sociologia no IFMG – Campus Bambuí, atua no ensino médio, superior e na pós-graduação em Educação para as Relações Étnico-Raciais, além de ser Coordenador Adjunto do NEABI. Nas redes sociais, é o criador do Minutos de Filosofia, projeto dedicado a aproximar a filosofia do cotidiano, traduzindo conceitos complexos para uma linguagem acessível, sem abrir mão do rigor acadêmico. Tenta responder, com filosofia, algumas das perguntas que a vida insiste em nos fazer e outras que a gente nem sabia que precisava fazer. Interessado também por literatura, cinema, política, inteligência artificial, educação e pelas questões que atravessam a vida em sociedade, é também um apaixonado por livros, cerveja gelada, mandioca com torresmo e boas conversas — especialmente aquelas que começam com uma questão e terminam em outras.

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OCorpoqueJulga,o CorpoqueCura:Teatro ePráticasIntegrativas contraoPreconceito Por Sandra Lima

OCorpoqueJulga,o CorpoqueCura:Teatro ePráticasIntegrativas contraoPreconceito

Por Sandra Lima

O preconceito, antes de se consolidar como um julgamento verbal ou uma ideologia excludente, manifesta-se como uma reação física. Ele opera como uma verdadeira armadura psicossomática — um conceito profundamente explorado pelas abordagens corporais da psicologia e pelas terapias integrativas. Diante do desconhecido ou da alteridade, o corpo que abriga o preconceito se encolhe, enrijece e adota uma postura de constante defesa.

Essa rigidez muscular e respiratória bloqueia o fluxo da empatia, transformando o medo irracional em uma barreira invisível, mas palpável, entre o "eu" e o "outro".

Para romper esse ciclo de isolamento e hostilidade, a resposta frequentemente não está em debates puramente intelectuais, mas sim no retorno ao corpo. É nessa intersecção que o teatro e as terapias integrativas se revelam potentes ferramentas de cura social e desarmamento físico, atuando como mediadores complementares que unem a expressão coletiva e a ágil elaboração interna. Enquanto o palco projeta o indivíduo para fora através da vivência de realidades alheias, as práticas terapêuticas o guiam para dentro, desarmando as defesas biológicas que alimentam a intolerância.

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Sob a ótica das terapias integrativas — como as práticas de meditação, a bioenergética e as abordagens somáticas o trabalho começa na autorregulação e na relação do indivíduo consigo mesmo. Ao focar na liberação de tensões internas por meio da respiração, do toque e do movimento, essas práticas atuam diretamente no afrouxamento da armadura muscular causada pelo medo. Elas promovem a regulação do sistema nervoso e expandem a percepção de si, criando caminhos para reduzir a necessidade de criar categorias rígidas, baseadas na lógica divisiva do "nós" contra "eles". Um corpo que aprende a respirar sem medo e a habitar o momento presente torna-se naturalmente menos defensivo, desenvolvendo um estado de acolhimento e abertura ao desconhecido. Quando o tônus muscular relaxa e o estado de alerta constante diminui, a mente ganha espaço para a curiosidade. Na prática terapêutica, processos como o Psicodrama e as Constelações Familiares servem como pontes diretas para essa transformação. Em uma sessão de Psicodrama focada na erradicação do preconceito racial ou de gênero, por exemplo, utiliza-se a técnica da "inversão de papéis". Um indivíduo inserido em uma posição de privilégio é convidado a corporificar fisicamente a postura, os gestos e a carga emocional de alguém que vivencia a marginalização diária. Ao ancorar essa experiência no corpo sentindo o aperto no peito e a restrição

Sob a ótica das terapias integrativas — como as práticas de meditação, a bioenergética e as abordagens somáticas o trabalho começa na autorregulação e na relação do indivíduo consigo mesmo. Ao focar na liberação de tensões internas por meio da respiração, do toque e do movimento, essas práticas atuam diretamente no afrouxamento da armadura muscular causada pelo medo. Elas promovem a regulação do sistema nervoso e expandem a percepção de si, criando caminhos para reduzir a necessidade de criar categorias rígidas, baseadas na lógica divisiva do "nós" contra "eles". Um corpo que aprende a respirar sem medo e a habitar o momento presente torna-se naturalmente menos defensivo, desenvolvendo um estado de acolhimento e abertura ao desconhecido. Quando o tônus muscular relaxa e o estado de alerta constante diminui, a mente ganha espaço para a curiosidade.

Na prática terapêutica, processos como o Psicodrama e as Constelações Familiares servem como pontes diretas para essa transformação. Em uma sessão de Psicodrama focada na erradicação do preconceito racial ou de gênero, por exemplo, utiliza-se a técnica da "inversão de papéis". Um indivíduo inserido em uma posição de privilégio é convidado a corporificar fisicamente a postura, os gestos e a carga emocional de alguém que vivencia a marginalização diária. Ao ancorar essa experiência no corpo sentindo o aperto no peito e a restrição

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33 30 de outubro de 2026 - Brasil respiratória causados pela opressão simulada o participante processa o preconceito não mais como um conceito abstrato, mas como uma dor física real partilhada pelo outro. Da mesma forma, vivências de respiração circular e Bioenergética liberam a raiva crônica e o medo do desconhecido estocados na musculatura cervical e pélvica, desarmando os gatilhos somáticos que disparam o preconceito automático e a aversão ao diferente.

30 de outubro de 2026 - Brasil respiratória causados pela opressão simulada o participante processa o preconceito não mais como um conceito abstrato, mas como uma dor física real partilhada pelo outro. Da mesma forma, vivências de respiração circular e Bioenergética liberam a raiva crônica e o medo do desconhecido estocados na musculatura cervical e pélvica, desarmando os gatilhos somáticos que disparam o preconceito automático e a aversão ao diferente.

É com esse corpo mais permeável que o palco se transforma no laboratório definitivo da alteridade. Se as terapias integrativas funcionam como um casulo individual para acolher as próprias sombras e traumas herdados, o teatro atua no plano coletivo, criando um espaço público e seguro para o jogo cênico. O fazer teatral exige o que podemos chamar de "anatomia do olhar": a capacidade de enxergar o outro despido de projeções. Por meio da ação e da simulação, o ator é desafiado a esvasiar-se de suas próprias certezas para vestir a pele, a voz e a história de outra pessoa — muitas vezes alguém que, na vida cotidiana, ele julgaria ou ignoraria.

Cenas extraídas do Teatro do Oprimido, metodologia criada por Augusto Boal, ilustram com precisão esse impacto mediador. No formato do "Teatro-Fórum", uma cena retratando uma opressão cotidiana — como um ato de homofobia no ambiente de trabalho ou o preconceito etário contra um idoso — é encenada para ro público. A ação é interrompida e os espectadores são convidados a entrar no palco, substituindo o ator oprimido para testar soluções físicas e dialógicas em tempo real. Ao pisar no palco e confrontar diretamente o ator que interpreta o opressor, o espectador-ator quebra a paralisia física do preconceito estrutural. O treino de cena força o corpo a adotar uma postura de firmeza assertiva, modificando o tom de voz e o contato visual para desconstruir a dinâmica de poder estabelecida.

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Esse exercício não é mera simulação estética; é uma vivência visceral que gera empatia ativa. Ao experimentar fisicamente o ponto de vista alheio e entender que a identidade é fluida, o praticante de teatro descobre que somos perfeitamente capazes de compreender qualquer narrativa humana. O palco quebra a rigidez das identidades fixas e mostra que as fronteiras que nos separam são construções moldáveis.

Juntos, o palco e as terapias integrativas oferecem muito mais do que uma reflexão teórica sobre a tolerância: eles propõem uma reeducação sensóriomotora completa. Enquanto um relaxa os nós biológicos do medo, o outro ensina o passo seguinte do convívio social. Mostram, fundamentalmente, que curar o preconceito é um ato de desarmar o próprio corpo para que o encontro genuíno com o outro possa, finalmente, acontecer.

Sandra de Sousa Lima, massoterapeuta, terapeuta Integrativa com formação em leitura corporal Be a Leader, Arteterapia e Desenho Sistêmico e Atriz pela Escola de Teatro da PUC MG. Atualmente está em formação na área de Constelação Familiar. Atua na área da saúde integral e bem estar, além de trabalhar para a saúde emocional através das terapias integrativas. Amante das artes cênicas onde, nas oficinas de teatro, exercita a criação de personagens e experimenta a comunicação não verbal através do corpo e de seus movimentos e agora, colaboradora na Revista Divulgação.

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LICENÇA PARA SENTAR Por Roberta Ferraz

LICENÇA PARA SENTAR

Por Roberta Ferraz

Você já sentiu que carrega o peso do mundo enquanto, ao redor, dizem não ser nada? Que está em tudo e, ainda assim, não é vista em lugar nenhum? Que precisa caminhar muito mais do que quem está ao seu lado para ter o mesmo reconhecimento na linha de chegada?

Já presenciou suas ideias só se tornando relevantes ao serem reforçadas por outro colega? Ou ainda, viu sua voz somente sendo ouvida depois de outros pedirem silêncio?

Se você respondeu que sim, isso tem nome. E tem gênero.

Não que só nós carreguemos pesos. Homens também sofrem, sobretudo os negros, os pobres, os que não cabem no que se espera de um homem. Mas existe um peso que tem endereço. Dizem que, se todas as mulheres do mundo baixassem os braços, o céu cairia sobre todos. Nós, a quem nunca foi permitido esse descanso, sabemos quanto ele pesa.

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Para as mulheres negras, o trabalho nunca foi conquista, foi condição de existência, herdada antes de qualquer escolha. Para as mulheres brancas, foi uma porta arrombada até ceder. Caminhos distintos, mas uma sensação permanece, a de precisar pedir licença para se sentar na própria cadeira. Para ocupar o espaço que já é nosso. Nem sempre o alívio vem ao encontrar outras mulheres na caminhada. Às vezes, sua cadeira é puxada pelas mesmas mãos que você imaginou que a ajudariam a se levantar. Mas, olhando de perto, percebe-se que essa disputa nasce de nos ensinarem que há somente uma cadeira à mesa, reservada à mais bela, à mais brilhante, à mais capaz entre todas nós.

Para as mulheres negras, o trabalho nunca foi conquista, foi condição de existência, herdada antes de qualquer escolha. Para as mulheres brancas, foi uma porta arrombada até ceder. Caminhos distintos, mas uma sensação permanece, a de precisar pedir licença para se sentar na própria cadeira. Para ocupar o espaço que já é nosso.

Nem sempre o alívio vem ao encontrar outras mulheres na caminhada. Às vezes, sua cadeira é puxada pelas mesmas mãos que você imaginou que a ajudariam a se levantar. Mas, olhando de perto, percebe-se que essa disputa nasce de nos ensinarem que há somente uma cadeira à mesa, reservada à mais bela, à mais brilhante, à mais capaz entre todas nós.

No final, talvez a pergunta necessária não seja como conquistar a cadeira, mas questionar quem desenhou a mesa e decidiu que só cabia uma de nós nela. Enquanto a luta continua, que possamos abrir espaço e estender a mão para quem vem logo atrás.

Oi, eu sou a Roberta. Sou psicóloga e atualmente estou atuando no campo da educação. Sou mineira com orgulho, mas também adoro uma praia e, por isso, me mudei para o Espírito Santo. Eu poderia citar uma lista de interesses, mas percebo que, no final, eu amo arte enquanto forma de se expressar. E, se você me encontrar tomando um café, estudando ou na mesa de um bar, provavelmente eu estarei falando sobre como tornar esse mundo menos injusto para todos que estão aqui. Estou muito feliz em fazer parte da equipe de escritores da Revista Divulgação.

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MODELANDOO MUNDO

Por Vínicius Souza

Entender o funcionamento do mundo à nossa volta, considerando todos os contextos, percepções e fenômenos, está muito longe de ser uma tarefa fácil. O tempo inteiro um acontecimento influencia outro, e assim se forma uma cadeia de ocorrências tão longa e conectada que perdemos até o senso de quão extensa é essa conexão. Exatamente para mitigar os efeitos dessa complexidade, no campo da engenharia, existe a definição de modelo: a representação simplificada de um sistema, processo, objeto ou fenômeno real. A partir dessa definição é possível entender o preconceito como uma modelagem ruim do mundo.

A intenção do modelo é acelerar a compreensão de algo que seria extremamente difícil de entender na sua completude. A partir desse entendimento, é possível estudar uma situação complexa sem intervir no sistema real, de forma a viabilizar o aprendizado ou o projeto a ser implementado.

Por exemplo, uma maquete é um modelo físico que permite o entendimento do design de uma edificação. Já um modelo computacional permite a análise estrutural de um componente muito antes da sua confecção no mundo real.

O mais importante é que, mesmo com diferentes abordagens, todos os modelos têm o mesmo objetivo.

É essencial levar em consideração que todo modelo possui limitações. Para que um sistema complexo seja compreendido é necessária a simplificação desse sistema a partir de pressupostos, e é a escolha desses pressupostos que dita o quão bom é o modelo. O ponto crucial da modelagem é a definição de premissas, também chamadas de condições de contorno, que sejam adequadas ao objetivo da análise e às condições que serão representadas. Por exemplo, se para confeccionar uma roupa de uma criança for utilizado um manequim de um corpo adulto, então este manequim representa um modelo inadequado.

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Considerando que o mundo à nossa volta é complexo, todos nós, a todo momento, estamos modelando o mundo. Ao não conseguir entender completamente os processos e contextos à nossa volta, nós partimos para generalizações e estereótipos que simplificam esses contextos. É muito menos dispendioso em energia e tempo classificar as pessoas por grupos do que buscar entendê-las individualmente, tal qual na engenharia é mais simples modelar um material como padrão do que testar peça e peça. Considerando que a maior parte de nós hoje vive em sociedades com grande número de indivíduos, é quase imperativo construir essas generalizações simplificadas — os modelos.

O preconceito é a construção desses modelos com pressuposições baseadas em aspectos como raça, gênero, classe social, religião ou origem. Essas premissas são formadas sem conhecimento adequado ou sem o mínimo de análise crítica, levando a construção de estereótipos, modelos completamente inadequados. A construção da premissa sem o devido conhecimento leva a atitudes negativas e sem sentido, não adequadas à realidade e não lastreadas em senso de justiça e verdade. Assim se forma o preconceito, um conjunto de atitudes baseadas em uma modelagem completamente inadequada e incoerente, com falta de base de conhecimento e análise crítica.

Essa modelagem do mundo leva à julgamentos baseados em simplificações: Modela-se um grupo, é definida as suas características, e então há o julgamento de todos os seus indivíduos de acordo com as características definidas. Esse julgamento influencia diretamente a forma como nos relacionamos com outras pessoas, pois é a partir dele que sustentamos atitudes e comportamentos.

Assim como na modelagem em engenharia, as premissas sobre as quais construímos esses modelos ou estereótipos é que vão definir se a modelagem é adequada, ou, para a analogia proposta, se é um julgamento danoso e injusto.

No mundo prático, essa construção de estereótipos leva as pessoas a tomarem atitudes como: julgar a índole de alguém pela cor da sua pele, pré-definir a capacidade profissional pelo seu gênero, ou até mesmo criticar uma determinada prática religiosa sem nunca ter pesquisado de verdade sobre ela. Discursos de ódio e generalizações simplistas facilitam a construção de estereótipos preconceituosos. Depois, esses estereótipos negativos se sustentam através da falta de conhecimento, compreensão e análise, assim como acontece quando o trabalho de engenharia tem baixa qualidade.

Assim, tal qual na engenharia, há um caminho para solução desse problema: A escolha genuína pela capacitação.

A melhor forma de construir um bom modelo é, e sempre será, adquirir o máximo possível de conhecimento sobre o fenômeno a ser analisado. E na nossa modelagem do mundo não é diferente. Vencer o preconceito de gênero passa por leituras de mulheres que www.revistadivulgacao.com.br

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40 são referências nesse e em outros temas, de forma a extinguir a premissa incorreta da incapacidade associada ao gênero. Superar o preconceito de raça exige entendimento e busca de referências que explicam e demonstram com base em evidências todas as mazelas sociais, assim como a riqueza cultural, que permeiam nossa sociedade.

são referências nesse e em outros temas, de forma a extinguir a premissa incorreta da incapacidade associada ao gênero. Superar o preconceito de raça exige entendimento e busca de referências que explicam e demonstram com base em evidências todas as mazelas sociais, assim como a riqueza cultural, que permeiam nossa sociedade.

O caminho da modelagem correta do mundo não é simples, principalmente por termos uma construção social que já nos leva a modelos incorretos, mas o caminho existe e isso que importa. Só a partir desse caminho vamos conseguir modelar um mundo justo, pacífico e permeado pelo respeito fraternal e genuíno.

Vinicius é engenheiro mecânico, especialista em Logística Multimodal e em Indústria 4.0 e Novos Negócios. Natural de Montes Claros, no Norte de Minas, atua na área de manutenção e confiabilidade, trabalhando com monitoramento de ativos, manutenção preditiva, tecnologias digitais e melhoria de processos. Fora da indústria, é facilitador do grupo reflexivo sobre masculinidades MEMOHx Uai MEM? E aí?! e um dos responsáveis pelo Instituto

MAPA

Masculinidade em Pauta, dedicado à reflexão, ao diálogo e à responsabilização na construção de relações mais justas, respeitosas e livres de violência. Como colunista, pretende aproximar engenharia e questões sociais, usando conceitos técnicos para provocar reflexões sobre masculinidades, comportamento e vida em sociedade. Artista na alma, gosta de dançar, pedalar, assistir a videoclipes, desenhar de vez em quando e se arriscar no batuque. Mineiro de coração, gosta de boas conversas de boteco, de entender como as coisas funcionam e de acordos claros.

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MURALHA Por Luiza Ferraz

MURALHA

Por Luiza Ferraz

Imagine uma muralha, bem alta. Sem janelas e muito menos portas. Uma estrutura que mantém você distante das ameaças reais e irreais. Daquilo que entende e daquilo que não entende. Protegido — e preso.

O dilema em si é evidente como a luz do sol, mas, nesse mundo, todos os dias parecem noites. O medo cego e a defensiva constante tornam praticamente impossível perceber que há espaço para questionamento.

Quando rachaduras desenhadas pelo tempo começam a surgir na enorme estrutura, reticentes fios de luz avançam pela penumbra. Os raios incomodam os olhos — e as mentes — há tanto tempo acostumados com o escuro.

Não sou a primeira e não serei a última a me arriscar a fazer metáforas sobre fontes de luz e esclarecimento. Milênios se passaram, revoluções tecnológicas transformam o que chamamos de realidade, e a alegoria da caverna permanece atual. Hoje, carregamos lanternas nos bolsos, capturamos imagens em um instante e passamos horas diante de telas que nunca se apagam. Nunca tivemos tantas formas de iluminar o mundo e acessar informações. Ainda assim, a luz que alcança nossos olhos nem sempre parece suficiente para dissipar as sombras.

Nenhum aspecto da nossa vivência escapa desse jogo de luzes. Ele molda até mesmo o nosso olhar sobre o espelho. Pelo reflexo, vemos muito mais do que uma simples duplicata: há histórias, valores e aprendizados que nos antecedem. O mesmo ocorre com a forma como vemos as outras pessoas. Nem tudo, porém, se revela à primeira vista.

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42 Observar a sociedade brasileira é perceber que ela é multifacetada. Suas diferentes camadas, no entanto, são atravessadas colonização, pela violência da que, em uma ordem escravocrata e patriarcal, distribuiu poder e privilégios de maneira desigual. Durante esse processo, referências europeias foram elevadas à condição de medida universal de civilização, enquanto outros modos de viver, pensar e produzir cultura eram desvalorizados.

Observar a sociedade brasileira é perceber que ela é multifacetada. Suas diferentes camadas, no entanto, são atravessadas colonização, pela violência da que, em uma ordem escravocrata e patriarcal, distribuiu poder e privilégios de maneira desigual. Durante esse processo, referências europeias foram elevadas à condição de medida universal de civilização, enquanto outros modos de viver, pensar e produzir cultura eram desvalorizados.

A permanência dessas hierarquias afeta a maneira como enxergamos e interpretamos o mundo. Os meios de comunicação também participam dessa construção, ao selecionar as histórias que contam, as perspectivas que apresentam e as imagens que associam a diferentes grupos. A força dessas representações torna esse papel especialmente relevante: ao reproduzir determinadas visões e silenciar outras, a mídia pode contribuir para perpetuar preconceitos e reforçar as desigualdades que atravessam o cotidiano.

Mas essa mesma ferramenta que ajuda a manter a muralha de pé pode contribuir para derrubá-la. Embora a comunicação, por si só, não vá solucionar o preconceito, ela pode ajudar a questionar as referências que sustentam pontos de vista excludentes e a construir outras formas de olhar para a sociedade.

Para isso, é preciso começar pela escuta. Reconhecer diferentes vozes significa considerar suas experiências e seus saberes na construção da informação, compreendendo que eles também fazem parte daquilo que a sociedade tem a conhecer sobre si mesma.

Significa, ainda, reconhecer esses grupos como sujeitos capazes de de suas próprias narrativas, contar suas histórias e atribuir sentidos às próprias vivências, em vez de dependerem exclusivamente de interpretações construídas por terceiros.

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43 Essa autonomia também se expressa fora da mídia hegemônica, quando diferentes grupos criam seus próprios meios de comunicação.

Essa autonomia também se expressa fora da mídia hegemônica, quando diferentes grupos criam seus próprios meios de comunicação.

Em iniciativas independentes e comunitárias, eles podem não apenas narrar as próprias experiências, mas também participar das decisões sobre quais histórias contar e como fazê-lo. Com isso, a produção de informação passa a contar com outros agentes, perspectivas interpretar a realidade.

e formas de E, mesmo depois de diferentes análises sociais, práticas de escuta plural e do esforço por uma comunicação decolonial, o combate ao preconceito não encontra uma solução definitiva. Ainda assim, há caminhos possíveis. Eles passam, sobretudo, pela disposição de questionar aquilo que aprendemos a considerar natural e pelo reconhecimento de que a compreensão do mundo permanece determinadas limitada vivências sistematicamente ignoradas.

enquanto são

As muralhas não protegem. Só acobertam.

Luiza Ferraz é jornalista formada pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

e editora-chefe da Revista Divulgação. Atua na produção de conteúdo e no desenvolvimento de projetos editoriais, transitando por diferentes temas, formatos e plataformas de comunicação. Se interessa por cultura, questões socioambientais e esporte, sem perder de vista as histórias que atravessam o cotidiano.

Acredita na comunicação como espaço para transformar informação em reflexão.

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