indispensável de romper com a ficção de superioridade herdada do racismo estrutural. Ao aprender que a história do Brasil foi erguida pela pluralidade e pela maestria técnica de múltiplos povos, e que nenhuma cor de pele detém o monopólio da coragem, da inteligência ou da dignidade, essa criança é libertada do papel de futura perpetuadora da opressão. Abre-se espaço para a construção de relações sociais baseadas no respeito real e na equidade prática, desarmando o privilégio na sua raiz mais primitiva.
10.5 Cursinhos Populares e Espaços Comunitários: Desarmando o Tirocínio Lombrosiano
É na articulação entre a escola formal, os cursinhos populares e as iniciativas comunitárias nas periferias que o enfrentamento ao projeto de encarceramento ganha sua força tática mais imediata. Esses espaços de educação popular funcionam como as verdadeiras trincheiras pedagógicas da contemporaneidade. É no chão dessas salas de aula improvisadas, nos saraus de poesia das bibliotecas comunitárias e na valorização do cabelo crespo e das vestimentas tradicionais que se opera o desarmamento do "tirocínio" e do "perfil suspeito" lombrosiano antes mesmo que eles ganhem as ruas na forma de uma abordagem policial violenta.
Ao municiar o jovem negro da periferia com o conhecimento de seus direitos, com o orgulho de sua ancestralidade e com o domínio dos códigos do conhecimento técnico e jurídico, a educação popular devolve a ele a sua couraça de cidadania. A caneta da educação antirracista é o instrumento definitivo para interromper o fluxo histórico que empurra sistematicamente a juventude preta para as linhas da informalidade, da marginalidade e do sistema prisional. Quando ocupamos as cadeiras das universidades de ponta e as tribunas do Poder Judiciário levando na bagagem a memória dos quilombos, provamos que a educação é o nosso maior ato de rebeldia continuada. O livro é a nossa ferramenta de disputa de futuro e a prova incontestável de que viemos do topo, e é para o topo que nós estamos voltando.