cativeiro. Fora de Alagoas, no Mato Grosso, brilha o nome de Tereza de Benguela, a 'Rainha Tereza', que liderou o Quilombo do Quariterê no século XVIII. Tereza criou um sistema político e econômico parlamentar, com assembleias e conselhos, governando com punho de ferro e inteligência militar e defendendo o seu povo contra as tropas da coroa.
Essa força de combate corporal se refinou nas ruas através da capoeira, que por muitos anos foi criminalizada pelo Código Penal da elite branca. Grandes mestres capoeiristas usaram os pés e as mãos para defender a dignidade do povo preto nas ruas de Salvador e do Rio de Janeiro. Homens como Mestre Pastinha, o grande guardião da Capoeira Angola, que dizia que a capoeira é 'tudo o que a boca come', transformando a luta em uma filosofia de vida, arte e malícia ancestral. E Mestre Bimba, que criou a Capoeira Regional, tirando a nossa arte da clandestinidade e fazendo com que ela fosse reconhecida oficialmente como esporte nacional, levando o orgulho da cultura preta para os palcos do mundo inteiro.
A Força do Axé Líderes Religiosos A sobrevivência da nossa identidade no Brasil só foi possível porque a nossa espiritualidade foi guardada e defendida nos terreiros por líderes religiosos sagrados, que enfrentaram a perseguição violenta da polícia com a força do axé As grandes Mães e Pais de Santo foram os verdadeiros psicólogos, médicos, governantes e protetores das comunidades negras urbanas. A Bahia nos deu Mãe Aninha (Obá Biyi), fundadora do renomado Ilê Axé Opô Afonjá uma mulher de uma sabedoria política tão gigante que viajou até o Rio de Janeiro para conversar com o presidente Getúlio Vargas, conseguindo em 1935 a assinatura do decreto que revogou a exigência de licença policial para os cultos de matriz africana.
No mesmo caminho de realeza, reinou Mãe Menininha do Gantois, que comandou o seu terreiro por mais de 60 anos com doçura e diplomacia, tornando-se uma das figuras mais respeitadas e influentes da cultura brasileira, forçando intelectuais, políticos e artistas brancos a pedirem a sua bênção e a reverenciarem a dignidade das religiões de matriz africana. E no lado dos homens, liderou Joãozinho da Gomeia, o lendário Tata Londirá um homem negro e homossexual que desafiou o preconceito e a repressão policial nos anos 1940 e 1950, transformando o seu terreiro em Duque de Caxias em um polo cultural frequentado pela elite política e artística do país, mantendo viva a chama e a beleza do Candomblé de Angola.
As conquistas do povo negro não são concessões ou presentes do Estado; são territórios conquistados com muita luta, inteligência e suor. No entanto, é fundamental deixar claro que esses grandes nomes que a história registrou representam apenas uma pequena fração de uma multidão infinitamente maior. Foram muitos e muitos outros heróis e heroínas que, no anonimato das senzalas, das roças, das periferias e dos