historicamente desigual e, por isso, os algoritmos acabam reproduzindo e multiplicando a discriminação de forma invisível, seja silenciando perfis negros ou associando nossa imagem a termos negativos.
Essa tentativa de apagar a nossa inteligência e a nossa presença no espaço público é o que a filósofa Sueli Carneiro conceitua como "epistemicídio": o projeto de destruir e invisibilizar o conhecimento e a dignidade do povo preto, algo que a internet agora faz em grande escala através de redes de desinformação direcionada.
5.3 Estudo de caso: o racismo recreativo e a violência em tempo real nas redes
A teoria do racismo algorítmico e do epistemicídio digital não é uma abstração acadêmica; ela tem rosto, voz e endereço certo nas telas dos nossos celulares. Um exemplo claro e revoltante dessa dinâmica pode ser observado em conteúdos que circulam livremente em plataformas como o Instagram e o YouTube Shorts (como o registro catalogado sob o título "O nego apresentado"). Nele, a engrenagem do que chamamos de racismo recreativo opera de forma escancarada.
Nesse registro, um homem negro aparece em uma situação cotidiana e informal de descontração sobre uma motocicleta. O que deveria ser um momento comum de lazer é imediatamente capturado por uma lógica de degradação. A narração do vídeo destila o racismo em estado puro, proferindo textualmente as seguintes palavras:
blockquote> Ô nega apresentado, ó o bicho nojento, amigo... é por isso que eu não gosto de negro. Eu não dou um galego ladrão em dez dias que formado, não dou. Pode chegar com galego algemado de dez dias de paletó galego algemado, isso é melhor de se lutar."
A análise detalhada dessa fala expõe a perversidade da estrutura racista. Primeiro, há a associação imediata da pessoa negra à figura desumanizada de um "bicho nojento", seguida da declaração explícita de ódio: é por isso que eu não gosto de negro". Em seguida, o narrador estabelece uma hierarquia de valor grotesca, afirmando preferir a companhia de um homem branco ("galego") mesmo que este seja um criminoso ("ladrão" ou "algemado") a um homem negro instruído ("de dez dias formado" ou "de paletó
Esse tipo de publicação expõe a engrenagem cruel da internet moderna: utiliza-se a imagem de um corpo negro para o escárnio público, disfarçando o crime de ódio sob a máscara da "piada" ou do "entretenimento". O resultado imediato é a abertura de porteira para centenas de comentários anônimos e criminosos na aba de respostas, onde o linchamento virtual é normalizado. É a tecnologia a serviço da covardia,