Data da leitura: Agosto de 2024
- Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo...
Nunca mais a Onça voltou. O Bode ficou, então, sozinho na sua casa, vivendo de papo para o ar, bem descansado.
J. da Silva Campos, "Contos e Fábulas Populares da Bahia", p. 166, in "O Folk-Lore no Brasil", Basilio Magalhães. Rio de Janeiro, 1928.
Nota - Uma variante dessa história foi coligida pelo general Couto de Magalhães entre indígenas tupis, "O Veado e a Onça" ("O Selvagem", Coleção Reconquista do Brasil, 1ª Série, vol. 16). Fazem uma casa em horários diversos, identificando-se vão morar juntos. A onça caçou veado, assustando o colega de casa. O veado disse ao tamanduá que a onça andava falando mal dele. O tamanduá surpreendeu uma onça e matou-a com um abraço. O veado carregou-a, assombrando a companheira que não pôde dormir. Numa noite, ambos tomados de medo súbito, fugiram, um para cada lado, com medo um do outro. Gustavo Barroso registrou a versão do Ceará, popularíssima em todo Nordeste, "A Onça e o Bode", diferindo apenas no final, quanto à variante indígena de Couto Magalhães. A Onça avisa ao Bode que a deve temer quando a vir com o couro da testa todo franzido. O Bode, por sua vez, informa que estaria perigoso quando espirrasse pela manhã e abalasse a cabeça. Uma manhã, ambos fizeram os sinais ameaçadores e fugiram, abandonando a casa que haviam construído juntos, Ao som da viola, p. 648, Rio de Janeiro, 1921. Corresponde à versão registrada por Sílvio Romero, "A Onça e o Coelho", Contos Populares do Brasil, p. 170 (vol. 87 da Coleção Reconquista do Brasil). Preferi resumir a variante baiana de Silva Campos por haver a curiosa ameaça de o Bode matar a Onça apontando-a com o dedo. É uma reminiscência africana, resquício religioso dos negros do Congo-Zambese, na IV área cultural de Herskovit, região Bantu. Leo Frobenius resume um conto em que o negro Mutembo era Muloschi (feiticeiro) e iniciou seu filho Tembotembo entre os Muloschis, fazendo cair frutas pela voz e, caracteristicamente, podendo matar pela simples indicação com o dedo. Quando Tembotembo acabou sua iniciação, os Muloschis disseram: Tu es Muloschi à présent. A l'avenir, quand tu montreras un homme du doigt, il mourra. Dias depois Tembotembo matou um menino apontando-lhe o dedo, apenas, in Histoire de la Civilisation Africaine, tradução de Back e Ermont, 6ª ed., Paris, 1936, p. 253. René Basset, Contes Populares d'Afrique, 210, Paris, divulga um conto dos negros de Togo, na Guiné. Ver minhas notas ao conto "A Onça e o Bode" de Sílvio Romero, Contos Populares do Brasil, p. 149. É africano e não indígena. William R. Bascom, The Relationship of Yoruba Folklore to Divining, Jafl, vol. 59, n° 220, 128, transcreve uma versão de Ifa na Nigéria, idêntica à brasileira. Ocorre ainda no Paraguai e no Haiti, Venezuela, Cabo Verde e também entre os árabes, registrado por Richard F. Burton no Supplemental Nights.