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Contos Tradicionais do Brasil (Luís da Câmara Cascudo)

By BC Sao Pedro da Serra

Data da leitura: Agosto de 2024

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Published
Mar 21, 2026
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  • CONTOS TRADICIONAIS DO BRASILLuís da Câmara Cascudo 1ª edição digital
  • SOBRE A REEDIÇÃO DE CONTOSTRADICIONAIS DO BRASIL A reedição da obra de Câmara Cascudo tem sido um privilégio e um grande desafio para a equipe da Global Editora. A começar pelo nome do autor. Com a concordância da família, foram acrescidos os acentos em Luís e em Câmara, por razões de normatização bibliográfica, permanecendo sem acento no corpo do texto quando o autor cita publicações de sua obra. Foi feita também a atualização ortográfica, conforme o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa; no entanto, existem muitos termos utilizados no nosso idioma que ainda não foram incorporados pelos grandes dicionários de língua portuguesa, como o Volp – nestes casos, mantivemos a grafia utilizada por Câmara Cascudo.
  • PREFÁCIONenhuma ciência como o Folclore possui maior espaço de pesquisa e de aproximação humana. Ciência da psicologia coletiva, cultura do geral no Homem, da tradição e do milênio na Atualidade, do heroico no quotidiano, é uma verdadeira História Normal do Povo. De todos os materiais de estudo, o conto popular é justamente o mais amplo e mais expressivo. É, também, o menos examinado, reunido e divulgado. Para centenas de volumes de versos populares, possuímos três ou quatro coleções de contos tradicionais.
  • Page 5literatura, do pensamento intelectual letrado, correm as águas paralelas, solitárias e poderosas, da memória e da imaginação popular. O conto é um vértice de ângulo dessa memória e dessa imaginação. A memória conserva os traços gerais, esquematizadores, o arcabouço do edificio. A imaginação modifica, ampliando pela assimilação, enxertias ou abandonos de pormenores, certos aspectos da narrativa. O princípio e o fim das histórias são as partes mais deformadas na literatura oral.
  • Page 6n. 74 das FF. Communications, Helsinki, Academia Scientiarum Fennica, 1928. Esse processo classifica os motivos, os elementos típicos dos contos, indicando por letras e algarismos que correspondem às constantes de cada folk-tale. Adotei, no possível, essa classificação no presente volume. As características do conto popular são, para mim:
  • Page 7Envolver numa capa era uma das fórmulas expressas da adoção... "basta cobrir o filho adotivo com as dobras da capa, per stolae fluentis sinus, ou sous le drap, ou pardessous de le mantiel, como diz Beaumanoir"³. O rei triste vestia branco, porque o branco era o luto até fins do século XVI. Ainda na morte do rei D. João I de Portugal, o cronista Rui de Pina informa que "el-rei tomou doo de preto e os ifantes tomaram burel, segundo sempre até aqui se costumou "4. O doo era de preto e o burel era branco. Nas exéquias do rei D. Fernando, em Toledo, a rainha ia "vestida dalmafega preta... Os portugueses que co ella ãdauam leuauão burel branco vestido", Fernão Lopes, Crônica de D. João I³.
  • Page 8posible las ideas, costumbres primitivas y cultura de los pueblos primitivos y modernos de donde los cuentos proceden. Un tema tradicional se estudia a través de la literatura escrita y oral, se tiene siempre en cuenta la historia verdadera de los pueblos y el contacto de unos con otros, se estudian todas las versiones que se pueden reunir en un cuento o de una tradición, se examina su parentesco, se estudia en fin a base del estado de cultura del pueblo de su procedencia y se determina su origen, su historia y su difusión. Los últimos resultados de estos estudios pueden servir no sólo para completar las investigaciones de los cuentos populares como cuentos propriamente dichos sino que também para buscar materiales útiles para las ciencias afines, en particular para la antropologia, la psicologia, la religión y la historia", vol. 1, pág. 11-12. Esses estudos, entre nós, dispersam-se entre o "amadorismo" e a industrialização literária dos temas folclóricos. João Ribeiro, em 1919, escrevia, serenamente: "Investigar as origens e a formação das histórias populares, acompanhá-las em suas migrações aonde elas vão como domésticos na companhia das gentes e dos povos, não é ainda uma preocupação que mereça estímulos. Tudo, entre nós, que não é dinheiro, é tolice e inutilidade. Bem o sei". O Folk-lore XXXVI, pág. 254, Rio de Janeiro, 1919.
  • Page 9igual ao velho Heli Chatelain: "African folk-lore is not a tree by itself, but a branch of one universal tree", no "Folk-Tales of Angola", pág. 20. Dar o título de "tradicionais" pareceu lógico, porque esses cem contos estão vivos, trazidos, de geração em geração, na oralidade popular. Alguns, retirados de coleções impressas, com as precisas indicações bibliográficas, pertencem fielmente à mesma estirpe. Na colheita das histórias, fixei, não o local do nascimento do narrador, mas a cidade em que maior número de anos residiu, onde passou sua infância, onde ouviu e registrou na memória os contos que transmitiu. A linguagem dos narradores foi respeitada noventa por cento. Nenhum vocábulo foi substituído. Apenas não julguei indispensável grafar muié, prinspo, prinspa, timive, terrive. Conservei a coloração do vocabulário individual, as imagens, perifrases, intercorrências. Impossível será a ideia do movimento, o timbre, a representação personalizadora das figuras evocadas, instintivamente feita pelo narrador. Os colaboradores tinham os níveis culturais mais diversos. Foram desde a senhora ao ginasiano, da cozinheira à ama analfabeta, da velha mãe de criação ao jardineiro efêmero, com as idades de doze a setenta e cinco anos, Fernando Luís e Manuel Galdino Pessoa.
  • Page 10histórias do sertão e nelas passam os peixes encantados e a serpente que dorme num palácio no fundo do mar. A proporção entre os elementos indígenas, africanos e brancos no Folclore brasileiro é 1.3.5. Contos indígenas e africanos justapõem-se de maneira indecifrável. Ciclo do Jabuti, Ciclo da Micura ou da Raposa, nos indígenas brasileiros e nos negros Bantus e do Sudão, idênticas. Vezes dispensamos argumentar que o português está na África, residindo, casando, brigando, morrendo, nascendo, comendo, contando histórias, desde quinhentos anos. A irradiação é contínua, infiltrando-se no Folclore negro. Tanto o Curupira amerindio fareja o sangue real, mira piché, pichê como o Ma-kishi rosnava, sentindo o estrangeiro: - M'o'nzo inii ualengemu.
  • Page 11Jabuti representa o Sol, a força criadora da Vontade, um urmythus ou simplesmente um Jabuti. O mais antigo conto que se conhece é a história "Dois Irmãos”. Encontrou-a na Itália Mrs. D'Orbiney, em 1852, escrita num papiro que o visconde de Rougé examinou e proclamou sua antiguidade veneranda. Todos os egiptólogos estão de acordo. É uma história escrita pelo escriba Anana para o príncipe Seti Memeftá, filho do faraó Ramsés Miamum, há três mil e duzentos anos! É uma história para criança, um conto popular, reunindo os elementos sugestivos dos enredos miraculosos, acreditados na época. Brugsch julga o escriba Anana contemporâneo de Moisés. Anepu e Batau, irmãos, moram juntos. Anepu é casado e sua mulher tenta Batau que The resiste. A mulher de Anepu acusa o cunhado de violência. Anepu prepara-se para matar o irmão. Este, avisado pelas bezerras do curral, foge. Anepu persegue-o, mas o Deus Armachis, invocado por Batau, fez aparecer um rio entre os dois irmãos. Quando amanheceu o dia, Batau, o mais novo, disse ao mais velho que ia para a floresta dos cedros e deixaria sua alma numa flor, lá em cima da árvore. Se o cedro fosse derrubado e a flor caisse, ele morreria. Ensinou o processo de ressuscitá-lo. E separaram- se. Anepu matou a mulher e ficou vivendo sozinho, com seus bois e seu campo. O deus solar Armachis falou ao deus Chnum e este deu uma linda mulher a Batau, para que não continuasse solitário na floresta dos cedros. Um cacho do cabelo da mulher de Batau caiu no mar e foi perfumando as águas até o rio onde lavavam as roupas do faraó. O faraó, informado do estranho perfume, descobriu o cacho de cabelo e mandou procurar a dona. Depois de muita luta, veio a mulher de Batau para o faraó e contou como seu marido morreria. Cortaram o cedro, a flor caiu e Batau morreu. O irmão, sabendo, veio e procurou a flor da alma de Batau até que a encontrou. Colocou o corpo de Batau numa esteira e a flor num vaso com água de cevada. Depois deu essa água para boca do irmão que se ergueu,
  • Page 12vivo. Batau transformou-se no novilho-sagrado, propriedade de Anepu. O faraó comprou o novilho-sagrado por muito ouro e o colocou num santuário. Quando a nova mulher do faraó foi visitar o novilho, este falou, exprobrando-lhe o procedimento. A mulher pediu ao faraó para comer o figado do novilho-sagrado e o faraó matou o touro e a mulher comeu o figado. No momento do sacrificio, duas gotas de sangue do novilho- sagrado caíram e duas árvores nasceram. Quando a mulher veio repousar na sombra dessas árvores, elas falaram, censurando sua conduta. A mulher pediu que o faraó cortasse as árvores para fazer tábuas. Uma lasca feriu a mulher na boca. Ela ficou grávida e nasceu um príncipe. O faraó morreu e o príncipe subiu ao trono. Era Batau. Mandou julgar a mulher e puniu-a. O irmão, Anepu, foi feito Vice-Rei e substituiu-o no governo do Egito. E o papiro assim finda: "Foi composto pelo escriba Anana, possuidor deste rolo. Que o Deus Tót livre da destruição todas as obras contidas neste rolo". Anterior à literatura clássica, ao documento de história, às atividades metafisicas, existe nessa história para crianças a metempsicose, a onipotência do Rei, imaginação comentando tradições locais, registro real do espírito egípcio, na plenitude de sua verdade psicológica.
  • Page 13não doença da pele. Fígado novo é sangue novo e sangue novo acaba a doença velha. Assim nasceu a tradição do "Papa-Figo", o apavorador velho que carrega os meninos num saco para vender o fígado aos ricos morféticos. Paul Sébillot mostra que a mulher é melhor contadeira de histórias que o homem. Guarda em maior quantidade porque lhe cumpre o agasalho dos filhos e a tarefa de adormecê-los, entretendo-os com o maravilhoso. Os irmãos Grimm fizeram sua coleção admirável ouvindo as velhas, as "tias” da tradição oral portuguesa, as bás, e mães-pretas do Brasil. Tive mulheres e homens como narradores excelentes. Dom Apolinar Barber foi o colaborador máximo de Juan Alfonso Carrizo, o mestre do "Cancioneiro Popular de Tucuman" (Buenos Aires, 1937, dois tomos), como o inesquecido J. Leite de Vasconcelos honrou a Tia Miquelina de Golães, auxiliar preciosa para sua "Etnografia Portuguesa" (Lisboa, 1937, dois tomos). Miss Mary Frère ouviu vinte e quatro histórias da mesma velha hindu, e o seu "Old Deccan Days" é um dos melhores livros da literatura oral da India.
  • Page 14e João da Silva Campos, "Contos e Fábulas Populares da Bahia". Na Espanha, as grandes coleções de Fernan Caballero, Rodriguez Marín, Aurélio M. Espinosa têm o nome de "Cuentos, etc.". Assim os franceses, italianos, belgas, russos, etc. Dividi os cem contos em doze seções. Se o problema da classificação foi resolvido pelo método Aarne-Thompson, tanto mais lógico quanto for abrangendo, pelo conhecimento bibliográfico, o Folclore centro, sul- americano e insular, o mesmo não ocorre com a divisão. Antti Aarne escreveu: - "For each editor has arranged his collection to his own judgment, which in only a few instance has been guided by a deeper knowledge of the subject.” Minha divisão atende aos "motivos", no critério de uma tentativa de sistematização.
  • Page 15aspecto, propriedade, caráter de qualquer ente natural. Assim há contos para explicar o pescoço longo da girafa, o porquê da cauda dos macacos etc." É, na espécie, clássico o livro de O. Dahnhardt, Contos Populares da História Natural (Naturgeschichtliche Volksmarchen). Um livro póstumo do Prof. Robert Lehmann Nitsche estudou os motivos etiológicos da mitologia sul-americana, Studien zur Sudamerikanischen Mythologie die Atiologischen Motive, Hamburgo, 1939.
  • Page 16Foot. Ketten-Marchen. Incluo nesta secção os Contos sem-Fim e os Trava- Línguas; Endless Tales Unfinished Tales, Cuentos-de-nunca-acabar. CICLO DA MORTE - Nos contos em que aparece o diabo este perde infalivelmente. A Morte, ao contrário, vence. Debalde o homem procura enganar, utilizando todos os recursos da inteligência, o pagamento fatal de dívida. Como esses contos têm assunto típico, inconfundível, seria lógico o Ciclo.
  • Page 17Povo como os melhores padrões nos testes. São assuntos que aguardam os beneficios de um estudo tranquilo e fiel. Heli Chatelain informa que os negros em Luanda terminavam os contos com fórmulas especiais ou rituais, como, talqualmente fazemos. Minhas Senhoras e meus Senhores, bem ou mal, terminei minha pequena história.
  • Page 181 - CONTOS DE ENCANTAMENTO
  • O Fiel Dom José tãoEra uma vez um príncipe que encontrou numa sapataria um rapaz t vivo e simpático que desejou tê-lo como amigo e companheiro. O rei foi pedir ao sapateiro que desse seu filho para viver com o príncipe e o sapateiro cedeu. O rapaz se chamava José e o Rei deu o dom. Todo o mundo no reinado só o conhecia, daí em diante, por Dom José. O príncipe e Dom José eram inseparáveis nas festas, passeios e caçadas. O rei tinha uma filha muito bonita mas invejosa e de mau gênio. Vendo aquela amizade do irmão com Dom José, enciumou-se e planejou desfazer o afeto que ligava os dois moços.
  • Page 20buscar Dom José. Com a notícia da vinda do amigo, o príncipe foi melhorando, melhorando, e saiu uma bela manhã para caçar. Andou, andou pelos campos, quando viu, distante, numa relva muito verde e brilhante, uma abóbora enorme, coberta de uma névoa faiscante que quase não deixava ver. O príncipe baixou a aba do chapéu, aproximou-se da abóbora e viu que estava fechada e tinha um letreiro: Para Dom José será quem daqui tirará.
  • Page 21príncipe e a princesa adormeceram logo. Dom José ficou acordado, vigiando. Lá para as tantas, três rolinhas passaram voando, fizeram umas voltas em três raminhos, bem em cima da cabeça de Dom José. Começaram as três rolinhas a falar, entretidas.
  • Page 22Os dois continuaram a jornada e Dom José quando os alcançou, algum tempo depois, foi explicando que caíra e perdera toda água mas estavam perto do palácio e lá havia tudo do bom e do melhor. Chegando foram logo festejados e o rei e a rainha abençoaram a princesa, cobrindo-a de carinhos e anunciando logo o casamento. Dom José foi o padrinho e a princesa solteira a madrinha. De noite houve o banquete, com todos os homens ricos do lugar, e Dom José pediu para não tomar parte na mesa e sim servir como criado.
  • Page 23Um jorro de sangue esguichou e três pingos salpicaram a face da princesa que estava dormindo. Dom José limpou tudo, atirando o corpão da serpente para fora. Esta, assim, que bateu na terra, sumiu-se. Dom José viu as três gotas de sangue na bochecha da princesa e foi tirá-las com todo cuidado. Quando estava passando, muito de leve, a ponta dos dedos, a princesa acordou e gritou que Dom José estava querendo faltar-lhe com o respeito. O príncipe ficou furioso mas Dom José não se defendeu.
  • Page 24estátua nesse sangue inocente, Dom José voltará a viver como dantes... O príncipe ouviu essas palavras e ia se levantando quando duas amas vieram correndo do palácio, avisando que a princesa tivera um menino tão bonito como o dia. O príncipe não perdeu tempo. Correu até o quarto, beijou a mulher, segurou o filhinho nos braços e voltou para junto da estátua. Puxou a espada, cortou o pescoço da criança, molhando o mármore no sangue inocente. Assim que acabou, a estátua estremeceu e Dom José pulou do pedestal para baixo, como era dantes.
  • Os Compadres CorcundasDisse que era uma vez dois corcundas, compadres, um rico e outro pobre. O povo do lugar vivia mangando do corcunda pobre e não reparava no rico. O pobre andava triste e de mais a mais o tempo estava cruel e ele era caçador. Numa feita, esperando uns veados, já tardinha, adormeceu no girau e acordou noite alta. Ficou sem querer voltar para casa. Ia se acomodando para pegar no sono de novo quando ouviu uma cantiga ao longe, como se muita gente cantasse ao mesmo tempo.
  • Page 26Segunda, terça-feira, Vai, vem! E quarta e quinta-feira, Meu bem!
  • Page 27do compadre, e ao saber que ele tinha casa e cavalo gordo e se considerava rico. O pobre contou tudo; e, como a medida do ter nunca se enche, o rico resolveu arranjar ainda mais dinheiro e livrar-se da corcunda nas costas. Esperou uns dias pensando no que ia fazer e largou-se para o mato no dia azado. Tanto fez que ouviu a cantiga e botou-se na direção da toada. Achou o povo esquisito dançando de roda e cantando:
  • Page 28João Monteiro, Natal, Rio G. do Norte. Nota - Teófilo Braga traz Os Concundas colhido no Porto (Contos Tradicionais do Povo Português, I, 177, 82). O povo esquisito da variante brasileira está mencionado como sendo umas bruxas. O canto primitivo era Entre quintas e sextas e sábados! O homem não ajuntou verso algum. Apenas cantou com as bruxas. O outro inventou: - E os domingos, se for necessário, ganhando a giba que o primeiro deixara, levando dinheiro. Carmem Lyra registra uma versão de Costa Rica: Salir con un Domingo Siete no seu Los cuentos de mi tia Panchita (1936. Imprenta Española, Soley & Valverde, p. 22). Os dois compadres guechos tiveram aventura idêntica. O pobre ouviu as brujas cantando: - Lunes y martes y miércoles, tres, e completou: - Jueves y viernes y sábado, seis! Recebeu sacos de ouro e tiraram-lhe a corcunda. O compadre rico, imitando-o, cantou: - Domingo, siete! As bruxas deram-lhe uma sova e pespegaram-lhe o outro guecho na nuca. P. Sébillot no Contes des Provinces de France (Paris, 1920, p. XLVIII) registra Les Deux Bossus et Les Nains, conto da Baixa Bretanha, recolhido por F. M. Luzel. Os dois bossus, Nonnic e Gabic, receberam prêmio e castigo no encontro com os Danseurs de nuit, na lande de Penn-an-Rochou, non loin du bourg de Plouaret. Os danseurs de nuit eram anões e cantavam: - Lundi, mardi et mercredi. Nonnic improvisou: Et jeudi e puis vendredi! Livraram-no da bosse e encheram-no de riqueza. Gabic, de invejoso, lá se foi e cantou, na melhor intenção possível: Et samedi et dimanche! Ganhou outra corcunda. O conto é corrente na Europa, sucedido com Kurilos, Gnomos, Pulpicans, etc. Emanuel Cosquin encontrou-o na Lorena, Les Fées et les deux Bossus. Stanislas Prato estudou-o, comentários e bibliografia, Bibliographie des variantes de trois contes, Les deux Bossus et les Nains, separata do "Bulletin de Folclore", tomos 1 e 2, 1893. É o Mt. 503 de Aarne-Thompson, The Gifts of the Little People. Emile Souvertre. "De Foyer Breton", registra "Des Korils, de Plaudren", p. 235 da ed. Nelson. É o 182 dos irmãos Grimm. Os "Mt" (Marchentypen) de Aarne-Thompson tem bibliografia. Variante no "Pentamerone", terceira distração do quarto dia, The Three Animal Kings.
  • A Princesa de BambuluáHavia na estrada que ligava duas cidades importantes uma grande pedra com uma gruta espaçosa, onde costumavam os viajantes pernoitar quando surpreendidos pela noite naquele deserto. Era muito frequentada a paragem mas começou a aparecer uma visagem e os viajantes preferiam fazer uma curva a ter de passar pela pedra da margem do caminho. Contavam que os homens eram acordados por uma voz celestial dizendo: Quem quer desencantar a princesa de Bambuluá? - Viam apenas o rosto de uma moça bonita como um anjo. Só o rosto. E era esse rosto que pedia
  • Page 30apenas poderás rolar até aqui onde ficarás a salvamento. João cumpriu à risca. Perto da meia-noite foi até a árvore que ficava bem longe da gruta e deitou-se. Logo depois viu três vultos mascarados, cobertos com umas capas escuras, conversando.
  • Page 31merecia. A princesa disse a João: - Vou embarcar amanhã para o reinado de Bambuluá e voltarei uma vez por ano para ver você. É preciso que o meu noivo estude a língua dos pássaros e tudo quanto seja necessário para um homem importante. No fim de cinco anos creio que já estará você preparado para acompanhar-me ao reinado do meu Pai e casar comigo. Não se esqueça de mim e lembre-se que minha visita anual durará apenas algumas horas. Estude muito.
  • Page 32com uma de suas filhas, moças prendadas e bonitas. João recusou, arrumou o que possuía e partiu. Caminhou pela praia do mar muitos dias. Numa tarde deparou uma casa solitária e bateu palmas, chamando o dono. Depois de muito bater, ouviu uma voz macia, muito baixa, mandando que ele entrasse. João penetrou até a cozinha e viu um velhinho encarquilhado junto do fogo. Parecia ter mais de cem anos. Tratou João muito bem e o moço contou sua história. O velhinho disse:
  • Page 33-Durma hoje aqui e amanhã procure meu Pai, o Imperador dos Pássaros. Esse deve saber... João agradeceu muito, dormiu e continuou sua peregrinação na manhã seguinte. Andou, andou, andou. No quarto dia de viagem viu uma casinha no alto de uma serra, lá em cima, muito alvinha. Subiu com dificuldade e bateu palmas um tempo sem fim. Finalmente entrou e deparou um velho, velho, velho, tão velho que vivia dentro de uma cabaça, enrolado em pasta de algodão e suspenso em cima do fogo. Recebeu João muito bem, deu-lhe que comer e beber, mostrou uma rede armada, ouviu sua história e prometeu auxiliá-lo. Tirou da cabaça uma gaita de perna de ema e soprou um som fininho, fininho, por alguns minutos.
  • Page 34comer sem parar, dia e noite. Ia comendo, comendo, e os canhões se abriam em penas e o urubu ia ficando empenado novamente. Dois dias depois já estava pronto e deu uns voos, experimentando as asas e as forças. O Imperador dos Pássaros explicou a João que montasse o urubu, segurando dois cotos de penas como se fossem fueiros, e cruzasse os pés por debaixo da asa. Fechasse os olhos, só abrindo quando o urubu parasse. Havia de sentir um vento muito quente e o urubu faria muitas voltas. Era na ocasião em que passariam por cima das bocas do Inferno. João seguiu tudo direitinho e o urubu voou alto, alto, alto, empinando acima das nuvens. Depois de horas, desceu como um raio e começou a fazer curvas, como que recuando e o rapaz sentia um calor tão forte que lhe dava a impressão de estar pisando em brasas assopradas.
  • Page 35requebrada, que a velha se peneirou toda e saiu dançando pelo meio da sala. Os homens que iam passando na rua paravam para ouvir e entravam forte no bailado, balançando o corpo e sapateando como uns danados. Tanta gente passasse e ouvisse como entrava para a casa e ficava perdida no meio da dança. Ao meio-dia chegou a empregada do palácio e do meio da rua se vinha desmanchando no compasso, equilibrando o tabuleiro. Arriou-o na mesa e pulou como uma maluca. No palácio notaram a demora da criada e mandaram outra buscá-la. Esta o que fez foi aderir ao baile com todas as forças do corpo. Mandaram uma segunda, terceira, quarta e quinta e todas se misturaram com os dançarinos, saracoteando. Finalmente a rainha, com algumas damas, veio pessoalmente verificar em que tanta criada estava entretida. Nem andou meio caminho e já ficou bulindo com os pés e, rainha e damas, largaram-se no folguedo como umas desesperadas. O Rei, vendo que o palácio estava deserto e a fome o apertava sem que o almoço aparecesse, saiu com os fidalgos à procura daquele mistério. Não escapou. Voou para o brinquedo como gato aos bofes. Dançaram, dançaram, dançaram. Até que o João parou o violino e todo mundo ficou mais morto do que vivo. O Rei então disse:
  • Page 36No dia da festa, quando o salão real ficou que não cabia uma cabeça de alfinete, a princesa saiu, bonita como uma estrela do céu, e disse, em alto e bom som: - Rei meu Pai, Rainha minha mãe, meus senhores e senhoras! Se eu perdesse a chave da minha mala e mandasse comprar outra para abrir, e antes de servir-me da nova encontrasse a velha, que deveria fazer? Todos responderam:
  • Page 37Cachorro e o Camponês Branco, O Bicho Norka e Os Três Reinos, XIX, XX e XXI de uma coleção, estuda esse pormenor, existente nesses contos, através das narrativas francesas, gregas, alemãs, italianas, portuguesas, norueguesas, sírias, lituanas, calmucas, etc.
  • A Princesa do Sono Sem FimHavia um reinado em que a rainha velha tinha a sina de correr de lobisomem, matando gente para beber o sangue. O príncipe seu filho era um moço sem tacha, bom e valente, e vivia triste com o destino da mãe. Sua distração era ir conversar com um velho, muito velhinho, que morava fora da cidade, perto de uma floresta sombria, na qual ninguém ia caçar nem passear. O velhinho armava uma rede no alpendre para o príncipe descansar e este passava horas e horas ouvindo as histórias do tempo antigo, esquecendo-se da rainha velha e da sua doença de beber sangue de gente.
  • Page 39escapuliu-se da mesa e se escondeu sem que ninguém notasse sua falta. Depois do banquete as fadas foram fadar, dando as sinas e os dons. Cada uma dizia a cousa mais bonita.
  • Page 40de condão na cumeeira do palácio. Todo mundo que estava dentro, tirando o rei e a rainha, pegou no sono profundo. Os músicos ficaram com os instrumentos na boca e a mesma cozinheira agarrou a dormir com a mão segurando uma galinha que estava assando no fogo. O rei e a rainha, como aquilo era sina permitida por Deus, beijaram a filha, abençoaram e foram embora, com a fada, para o reinado. Por lá morreram e o reinado deles acabou-se. Só ficou o palácio dentro do arvoredo, com a princesa dormindo o sono sem fim. Era o que meu avô contava a meu pai e este me contou quando eu era menino.
  • Page 41que tinha, ia ao palácio dar ordens e voltava, dizendo que estava caçando. Não queria que ninguém o acompanhasse. No fim de um ano a princesa teve um filho lindo que se chamou Belo-Dia; e no outro ano nasceu uma menina, batizada por Bela-Aurora. Apareceram umas guerras e o príncipe não podia deixar de ir com as tropas. Como não queria deixar a mulher e os filhos naquele ermo, resolveu levar todos para casa. Foi na frente e contou o que se passara a sua mãe. A rainha velha só fazia pigarrear, com a cara fechada como o rei Herodes, imaginando cousas ruins.
  • Page 42veadinha, refogando-a e preparou o jantar, com molho de tomates e cebolas. A rainha velha comeu, saboreando. Os dias iam passando e a velha tornou a ter a cisma da carne humana de cristão e saiu de noite, como uma desesperada, farejando quem mandar matar para saciar sua sina. Ia passando por uma rua longe do palácio, tarde da noite, quando ouviu a voz da princesa sua nora e a dos netos, conversando dentro de uma casa. Subiu na calçada, encostou o ouvido e soube que era ali a casa do mordomo e que a princesa estava fazendo Belo- Dia dormir, porque este perdera o sono e acordara Bela-Aurora, todos com saudades do pai.
  • Page 43Nota - É a história da Bela Adormecida no Bosque, a universal La Belle au Bois Dormant, divulgada por Perrault, comentada minuciosamente por Saintyves: Les Contes de Perrault et Les Récits Parallèles, Paris, 1923, p. 61 a 101. O tema era conhecido no Anciennes Croniques D'Angleterre, Faits et Gestes du Roy Perceforest et Des Chevaliers du Franc Palais, cujo original latino provém do século XIII. Há um episódio semelhante entre o cavaleiro Troylus e a bela Zellendine, adormecida (idem, p. 99). Teófilo Braga incluiu uma variante do Algarve: A Saia de Esquilhas, nº 4, p. 1ª. É o Mt. 410 de Aarne-Thompson, Sleeping Beauty, com os elementos F 316, D 1186. 9, F 316. M 370, D 945, D 735 não está completo porque o príncipe desencanta a princesa adormecida segurando-lhe a mão e não a beijando, e T 101, and holds a happy mariage. O final de minha versão, fiel a Perrault, não foi classificado no Types of Folk-tale, p. 66, 67, FFC. 74. A citação de "elementos", letras seguidas de algarismos, refere-se à sistemática do prof. Stith Thompson, Motif-Index of Folk-Literature, cinco volumes, Indiana University Library, Bloomington, 1932-1935, U.S.A. Versões seiscentistas no "Pentamerone", segunda da oitava e quinta da quinta. Confrontar com o "Rei Caçador", de Sílvio Romero, em que os três filhos são "Sol, Lua e Luar”.
  • Bicho de PalhaContam que um homem muito rico enviuvou e casou novamente, tendo uma filha que se punha mocinha e que era linda. A madrasta antipatizou logo com a enteada e se tomou de ódio quando teve uma filha e esta era relativamente feia, comparada com Maria. O homem possuía propriedades espalhadas e vivia viajando, dirigindo seus negócios. Durava pouco tempo em casa e nesses momentos Maria passava melhor. Na ausência do pai, a madrasta obrigava-a aos serviços mais rudes e pesados, alimentando-a do que havia de pior e em quantidades insignificantes.
  • Page 45Depois de muito andar, chegou a uma cidade importante. Pediu emprego num palácio e lhe disseram não haver mais lugar. Ia saindo triste e com fome, quando um empregado lembrou que precisavam de alguém para lavar as salas, corredores e escadas, e limpar os aposentos da criadagem. Maria aceitou o encargo e, graças ao seu vestido singular, só a chamavam "Bicho de Palha". Suja, silenciosa, retirada pelos cantos, trabalhando sempre, Bicho de Palha não incomodava ninguém e todos a toleravam.
  • Page 46ela, não permitindo que os outros moços se aproximassem. Confessou que estava impressionado e perguntou onde ela residia. Bicho de Palha ensinou... -Moro na Rua das Bacias...
  • Page 47Entrando no salão do baile, Bicho de Palha recebeu as saudações como se fora uma rainha. Ninguém jamais vira moça tão atraente e um vestido tão raro. O príncipe andava atrás dela como uma sombra, servindo-a e perguntando tudo, doido de amor. Bicho de Palha disse que se havia mudado para a Rua dos Pentes, definitivamente. E dançaram muito. Perto da meia-noite, sabendo que era a hora em que a moça desaparecia como se fosse encantada, o príncipe chamou seus criados e mandou abrir uma escavação junto do portão do palácio, esperando que a carruagem parasse. Tal, porém, não se deu. Bicho de Palha saltou para a carruagem e esta disparou como um raio, pulando no fosso, mas o solavanco fora tão brusco que um sapatinho de Bicho de Palha, atirado fora da portinhola, perdeu-se. Um criado achou-o e levou-o ao príncipe que ficou satisfeitíssimo. Debalde procuraram na cidade a Rua dos Pentes. O príncipe deliberou encontrar a moça por outra maneira. Mandou levar o sapatinho a todas as casas, calçando-o em todos os pés. Quem o usasse, perfeito, nem largo nem apertado, seria a encantadora menina dos bailes.
  • Page 48outro pé e todos viram que calçava sapatinho igual ao primeiro. Mal podiam crer no que viam, quando caiu a palha, e apareceu a moça formosa dos três bailes, com o vestido cor do céu com todas as estrelas, o diadema com a lua de brilhantes, tudo rebrilhando como as próprias estrelas do firmamento. O principe precipitou-se abraçando-a e chamando por sua mãe para que conhecesse a futura nora. Casaram logo. Bicho de Palha contou sua história, e a varinha de condão, cumprida a vontade da velhinha, que era Nossa Senhora, desapareceu, deixando-os muito felizes na terra.
  • Page 49invisível dona, com quem casou. Perring descobriu-lhe o túmulo, todo de basalto azul. Sílvio Romero divulgou a versão brasileira de "Maria Borralheira", Folclore Brasileiro, III, nº 15, com as minhas notas, Editora Itatiaia-Edusp - Belo Horizonte, 1985. Sobre a cerimônia de calçar o sapato como ato matrimonial ver ainda Funck Bretano, Lutero, 172, 292, Rio de Janeiro, 1943; Marion Roalfe Cox, Cinderella, 500, Londres, 1893; P. Saintyves, Les Contes de Perrault, 156, Paris, 1932; Ana Brigitta Rooth, The Cinderella Cycle, Lund, Suécia, 1951. A versão portuguesa mais recente é a de Fernando de Castro Pires de Lima, Contos para Crianças, "A Gata Borralheira", 10-12, Porto, 1948. 9 Edição atual - São Paulo: Global, 2005. (N.E.)
  • O Veado de PlumasEra uma vez uma rainha que seria completamente feliz se tivesse filhos. Estava, numa ocasião, tão excitada que, não reparando que era justamente o pino do meio-dia, hora em que os anjos do Céu estão cantando, gritou: - Meu Deus! Pelas horas que são! Dai-me um filho nem que seja com cara de bicho...
  • Page 51tivesse o que fazer. Da janela mais alta do palácio a princesa acompanhava os passos do Cara de Veado. Ao anoitecer, o príncipe andou para lá e para cá, como se estivesse rezando. Parou, abriu os braços e apareceu uma nuvem de trabalhadores, em ambos os lados da barranca, iniciando imediatamente o serviço. Toda a noite houve o rumor de um formigueiro e ao romper do dia uma ponte de pedra ligava as duas margens do abismo, ponte larga, sólida, assombrando a todos.
  • Page 52Na manhã do dia das cavalhadas, Cara de Veado chamou a mulher e lhe disse: - Aqui está o vestido que você deve ir à festa. Dê-me um banho, cate meus piolhos, perfume meu corpo e ficarei fechado num quarto até sua volta. Não quero que notem sua falta.
  • Page 53A mulher voltou e contou o acontecido. Cara de Veado perguntou se ela não seria mais feliz com o desconhecido do que com ele. -Eu não troco meu marido por todos os cavaleiros do mundo - foi a resposta.
  • Page 54A princesinha começou a chorar. Cara de Veado abriu uma janela enorme que havia e pediu que a mulher olhasse para o nascente e fosse dizendo o que avistasse. A mulher obedeceu. - Estou vendo uma nuvem escura!
  • Page 55-Não é nada, minha filha. Jante e vamos conversar. A Lua jantou e sossegou. A mãe perguntou:
  • Page 56Todos os animais vinham beber, aos grupos. Ao crepúsculo, ouviu-se um barulho de paus quebrados e galhos partidos e os bichos todos correram com medo. Apareceu então um Veado de Plumas enorme, majestoso como um monarca, e veio vindo, veio vindo, devagar, o focinho para o ar, desconfiado. Ia chegando para perto e, de repente, dava um trote e ficava longe. Depois voltava, aspirando forte, inquieto. Tanto se chegou, tanto se chegou que deu as costas para o lado da moça e pôs o focinho n'água da lagoa. A moça, mais que depressa, saltou-lhe em cima, grudando-se no seu pescoço como se fosse um cadeado. O Veado de Plumas deu mais de mil saltos, pulos, reviravoltas, bramando, atirando coices que escureciam, esfregando-se pelas árvores, correndo, mas a princesinha não o largou e mais e mais se segurava naquele turbilhão de pinotes e piruetas. Tanto o Veado saltou e se encostou nos espinhos que as plumas foram voando, uma a uma, e o couro se transformando em pele humana. Quando o veado cansou extenuado, e parou, estava mudado num príncipe bonito e forte, com a princesinha pendurada ao pescoço.
  • Page 57Nota - Meu filho ouviu esse conto várias vezes, pelas criadas, vindas do interior do Estado. Não li, nas séries que possuo e pude consultar, nenhum outro semelhante, em seu contexto. Dividindo-o, é possível reconhecer as procedências, nos fabulários europeus, especialmente da península ibérica. Poder-se-ia chamar a história Cara de Veado, mas as narradoras teimavam em dizê-la Veado de Plumas. Os príncipes encantados que nasceram com focinho de cão, de macaco, de burro foram muitos. A atuação do Cara de Veado nas corridas de argolinhas já o filia a outro ciclo, assim como a presença no baile, tentando seduzir a própria esposa. No conto Bicão, que Silva Campos recolheu na Bahia (n° LXVIII), há o mesmo diálogo entre a moça e o príncipe encantado, mandando este que ela diga se vê as nuvens. A moça anuncia as nuvens escura, cinzenta e branca, que o leva. A viagem da esposa, peregrinando pela casa da Lua, da Noite, do Sol e dos Ventos, procurando saber onde ficava o reinado do Veado de Plumas, é um dos pormenores mais tradicionais na Europa. Ocorre, entre alguns contos, no Le Pays des Margriettes (Jean Fleurys, Littérature Orale de la Basse-Normandie, Paris, 1883), no A Paraboinha de Ouro (Teófilo Braga, n° 31), El Castillo de Oropé (Aurélio M. Espinosa, n° 128, Soria, Espanha), etc. O final exótico, da luta com o Veado de Plumas, não recordo haver encontrado símile. A viagem da esposa é um dos motivos mais conhecidos dos contos europeus, ao redor do tema da "Terra a leste do Sol e a oeste da Lua", os ventos (o vento Sul ou o Norte) levam a moça para o esposo, seguindo-se pormenores sempre diversos. Os contos dos irmãos Grimm, de George Webbe Dasent, a coleção escocesa de Campbell registram variantes.
  • O Príncipe LagartãoUma rainha desesperava-se por não ter filhos. Uma vez, perdendo a paciência, pediu que Deus lhe desse um herdeiro mesmo que fosse com a forma de lagarto. Meses depois, deu à luz um lagartão. Mesmo lagarto era filho do rei e tratado como príncipe, no berço macio e com o conforto do palácio. Sucedeu, porém, um fato: a primeira ama que entregou o seio para o lagarto mamar ficou sem o bico do peito porque o bicho torou, rente, com um apertão das gengivas. E assim a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, a sexta, etc.
  • Page 59Mandou-se fazer o seio de folha de ferro, cheio de leite, e Maria, amarrando-o ao busto, deu de mamar ao príncipe Lagartão, que ficou com as gengivas machucadas de tentar fazer o que fizera com as outras. Mamou, mamou, ficou satisfeito e adormeceu. O palácio sossegou e os anos foram passando sem alteração. O príncipe Lagartão estava enorme, comendo tudo. Tinha os olhos e a voz humana. No mais, era um bichão de meter medo ao mais valente.
  • Page 60por uma as sete capas, deitando-as ao chão. Quando arrancou a derradeira, estava um homem perfeito. Foi para o leito e Maria fingiu que nada vira. Pela manhã, quando Maria acordou, já o esposo estava feito o grande lagartão esverdeado e feio. Foram para o café e os dias não trouxeram novidades. A rainha, com a curiosidade de mãe, tanto perguntou, tanto perguntou, que a moça contou o que vira. A rainha lhe disse:
  • Page 61Imediatamente o quarto ficou claro como o dia e no meio estava um rapaz bonito, forte e benfeito, todo contente pelo fim do encanto. As sete capas ficaram transformadas em mantos lindos e as sete camisas em flores de laranjeira. Maria e o marido acordaram o rei e a rainha, contando o caso e todo o reinado festejou muitos dias o fim da penitência, sendo o casal muito feliz.
  • A Princesa JiaUm casal tinha três filhos já em idade de trabalhar, mas, sendo muito unidos, não se separavam. Um dia o velho chamou os três filhos e disse que eles precisavam procurar a vida pelo mundo de meu Deus. No fim de um ano todos deviam voltar para a casa dos velhos. Partiram os rapazes e logo adiante viram que a estrada se abria em três veredas. Cada um tomou a sua. José pela esquerda, Pedro pela do meio e João pela direita.
  • Page 63Na hora da ceia, tempos passados, ouviu os baques pesados no corredor e apareceu uma Jia que não tinha fim, grandona, gorda, repelente. Veio pulando, toda mole, escorrendo baba, até perto de João e sentou-se juntinho. O moço ia se esgueirando. - Está com nojo de mim, João?
  • Page 64Os irmãos ficaram zangados. Quando anoiteceu despediram-se e João montou o cavalão que corria como o vento. Num ruflo estava diante do palácio velho e escuro. João apeou-se e entrou. Encontrou o banho pronto e depois a janta. Jantou e dormiu e continuou a mesma vida, conversando com a Jia, cada vez mais nojenta e amorosa. Um ano se passou e a Jia lembrou que no dia seguinte devia estar o moço na casa dos pais, levando uma lembrança feita pela noiva.
  • Page 65Um ano depois, a Jia avisou que na manhã seguinte seria o dia de João se apresentar com a noiva. -Eu não tenho noiva!
  • Page 66bonita como uma estrela, sentada numa carruagem dourada, com seis cavalos brancos e um mundo de gente vestida de seda, bordada de ouro e tremendo de brilhantes, esperando. Era um cortejo tão faiscante que João não podia acreditar que fosse verdadeiro. A princesa sorrindo disse:
  • Almofadinha de OuroEra uma vez uma menina muito bonita e graciosa, filha única, e que teve a infelicidade de ficar órfã de mãe. Seu pai ficou ainda moço e casou novamente, com uma viúva que tinha uma filha, pondo-se mocinha e muito feia e orgulhosa. A madrasta, na presença do marido, tratava a enteada bem, mas, como esse vivia viajando, vingava-se, obrigando-a a trabalhos pesados, como lavar roupa, limpar a estrebaria, o galinheiro, a casa inteira, etc. A mocinha começou a viver amargurada e sofrendo toda a espécie de privações e insultos. De tanto padecer, perdeu a paciência e achou que o remédio era fugir daquele purgatório. Antes de tomar essa decisão, a moça rezava todas as noites à Nossa Senhora, que era sua madrinha, pedindo que lhe ensinasse os caminhos do bom proceder. Nossa Senhora virou-se numa velhinha e falou com ela no caminho do rio, explicando tudo. Abençoou-a e lhe deu uma almofadinha de ouro que era encantada. Quando precisasse de alguma cousa, pedisse à almofadinha de ouro, que fora dotada por Deus com poderes.
  • Page 68moças da cidade desejavam que ele se engraçasse de uma delas e casasse, por ocasião das festas. Chegando o primeiro dia, o príncipe foi para o baile e os empregados do palácio fugiram para ver as luzes e a entrada das pessoas que iam dançar. A princesa velha, mãe do príncipe, foi também.
  • Page 69Um dia a moça disse à princesa velha que queria fazer um bolo para o príncipe doente. A princesa achou graça no atrevimento, mas tanto a moça pediu e rogou que obteve o consentimento. Preparou-se, foi para a cozinha e fez um bolo dourado, colocando dentro da massa o anel que o principe lhe dera na primeira noite do baile. O príncipe nem queria ver a comida, mas sua mãe tanto pediu que ele cortou um pedaço do bolo e, ao levar à boca, reparou num objeto que aparecia na parte restante no prato. Puxou com o bico da faca e reconheceu o anel. Comeu todo o bolo, melhorando, e declarou que queria outro bolo feito pela mesma pessoa. A moça fez o outro bolo e neste mandou o brinco, que o príncipe achou e ficou certo de que a moça estava por perto. Pediu outro bolo e neste veio o colar. Então, sem ter mais dúvida, disse à princesa velha que mandasse ao seu quarto quem fizera os três bolos. A princesa obrigou a moça a mudar de roupa, perfumar-se para tirar o mau cheiro do galinheiro, e disse que se apresentasse ao seu filho.
  • Page 70O ciclo temático é universal. Os vestidos maravilhosos são "constantes" na espécie. Sílvio Romero encontrou-os em três contos, VIII, Pássaro Preto, XI, Dona Labismina, e XV, Maria Borralheira. Alfredo Apell, "Contos Populares Russos", divulgou três versões, VII, VIII e IX, estudando, com amplo confronto na literatura oral europeia, o assunto. O encontro de joias no bolo ocorre na versão IX, assim como as respostas da princesa sobre sua residência: - sou da terra da 10
  • Maria GomesUm homem viúvo tinha tantos filhos que não os podia alimentar nem vestir convenientemente. Quase sempre, na hora das refeições, uma das crianças ficava com fome. O Pai lastimava-se de sua miséria e, na falta de outro auxílio, deliberou abandonar um dos filhos na floresta. Tirou a sorte e recaiu na filhinha Maria que era muito inteligente, bonita e trabalhadeira. O homem levou a mocinha para a floresta e a deixou debaixo de uns pés de araçá, recomendando que se orientasse pelas pancadas do machado com que ele ia derrubar uma árvore para tirar uns favos de mel de abelhas.
  • Page 72Passaram-se muitas semanas. A moça tocava música; durante o dia, arranjava a casa, limpando-a. Não via pessoa alguma. Apenas a voz misteriosa dirigia o serviço. - Quero!
  • Page 73O cavalo partiu e Maria Gomes continuou correndo atrás do cavalo, gritando, chamando e chorando. Já estava exausta quando o animal voltou, coberto de espuma e se deteve esperando que ela o montasse. - Se você não corresse atrás de mim eu voltaria para matá-la à força de coices, disse o cavalo encantado.
  • Page 74- Leve Gomes para uma caçada. Na hora de dormir arme as redes debaixo do jasmineiro grande que é encantado. As flores caem em cima das mulheres e as folhas em cima dos homens. Pela manhã, bote reparo onde ficaram as flores... O príncipe foi com Gomes caçar. Armaram as redes, pela tardinha, debaixo do jasmineiro. O príncipe adormeceu logo e Gomes depois. As flores caíam na rede de Maria e as folhas em cima do príncipe. O cavalo branco que estava perto aproximou-se, relinchou e as flores caíram no príncipe e as folhas em Gomes.
  • Page 75O cavalo, que adivinhava, avisou a Gomes. Sacudiram a laranja e Gomes apertou as pernas. A rainha velha falou ainda:
  • Page 76No segundo dia, o cavaleiro voltou, vestindo roupa de ouro, e venceu a todos, entregando as argolinhas à rainha velha. No último dia o cavaleiro, vestindo diamantes, derrotou todos os adversários e pôs as argolinhas no colo do príncipe, que virou o rosto para não fazer a vénia de agradecimento.
  • Page 77Era uma O Marido da Mãe-D'Água uma vez um moço pescador muito destemido e bom que lutava com as maiores dificuldades para viver. Ultimamente o vento mudara e quase não havia peixe. Passava horas e horas na praia, com a pindaíba na mão e os peixes fugiam dele como o Diabo da cruz. O rapaz estava mesmo desanimado e dormia com fome mais das vezes. Numa noite de luar estava ele querendo pescar e o peixe escapulindo depois de comer a isca. A noite foi avançando, avançando, o luar ficando alvo como a prata e caindo mesmo a friagem. O rapaz não queria voltar para sua casinha sem levar nem que fosse um peixinho para matar a fome. Já ia ficando desanimado quando começou a ouvir umas vozes cantando tão bonito que era de encantar. As vozes foram chegando para mais perto, mais perto, e o rapaz principiou a olhar em redor para ver quem estava cantando daquele jeito. Numa ponta de pedra apareceu uma moça bonita como um anjo do céu, cabelo louro, olhos azuis e branca como uma estrangeira. Ficou com o corpo meio fora d'água cantando, cantando, os cabelos espalhados, brilhando como ouro.
  • Page 78- Pois sacode o anzol onde eu estou. Deves vir todas as noites até o quarto minguante e só pescar de meia-noite até o quebrar da barra. Abanou a mão e mergulhou, sumindo-se.
  • Page 79faltava. O rapaz ficou rico da noite para o dia. O povo vivia assombrado com aquela felicidade que parecia milagre. Passou-se um ano, dois anos, três anos. O rapaz gostava muito da Mãe- d'Água, mas de umas cousas ia se aborrecendo. A moça não tinha falta, mas, na noite da quinta para a sexta-feira, sendo luar, ficava até o quebrar da barra na janela, olhando o mar. Às vezes cantava baixinho que fazia saudade até às pedras e aos bichos do mato. Às vezes chorava devagarinho. O rapaz tratava de consolar a mulher, mas, com o correr dos tempos, acabou ficando enjoado daquela penitência e principiou a discutir com ela.
  • Page 80Logo que disse essas palavras, a Mãe-d'Água deu um gemido comprido e ficou da cor da cal da parede. Levantou as duas mãos e as águas do mar avançaram como um castigo, numa onda grande, coberta de espuma, roncando como um bicho feroz. O rapaz, morrendo de medo, deu uma carreira de veado; subindo um monte perto da casa. Lá de cima se virou para ver. Casa, varanda, cercado, animais, tudo desaparecera. No lugar estava uma lagoa muito calma, pegada a um braço de mar. Ao longe ouviu uma cantiga triste, triste como quem está se despedindo do mundo. Nunca mais viu a Mãe-d'Água. Nota - O velho Antônio Alves, um dos mais antigos pescadores de Natal, contou esse conto, dizendo-o conhecido em todo litoral. J. da Silva Campos ("O Folk-Lore no Brasil", edição comentada por Basílio de Magalhães, Rio de Janeiro, 1938) recolheu dois episódios na Bahia, p. 244 e p. 256. Ao contrário de minha versão, a Mãe-d'Água provoca a cólera do marido, fazendo-o quebrar o juramento de não arrenegar os habitantes das águas. Conseguem livrar-se e retomam a vida anterior nos rios e lagoas. Nos contos registrados por Silva Campos há visível coloração negra. Os maridos ficam ricos e se tornam pobres depois de divorciados das encantadas mulheres. No conto n° XLVI, a Mãe-d'Água entra na correnteza cantando: - "Zão, zão, zão, zão - Calunga - Olha o munguelendô - Calunga - Minha gente toda - Calunga - Vamos embora - Calunga - Para minha casa - Calunga - de baixo d'água - Calunga - Eu bem te dizia - Calunga - Que não arrenegasses - Calunga - De gente de debaixo d'água - Calunga". E todas as cousas a seguiam e com ela se sumiram no rio. No conto n° XLVII abre-se um buraco no meio da sala e a Mãe-d'Água canta: – "Minha gente - É de xambariri - Cai, cai, cai - No mundé", e sucessivamente vai convidando a casa, filhos, escravos, dinheiro, gado, e tudo desaparece na escavação. A tradição brasileira da Mãe- d'Água é diversa. É a sedução pela beleza e pela irresistível atração do canto. A convencional Iara não abandona o rio para casar e viver em terra. O comum é a morte do namorado, querendo reunir-se ao seu amor impossível. Assim tem sido o tema tratado pelos poetas e romancistas. O cônego Francisco Bernardino de Souza, "Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas", Pará, 1873, p. 50, registra uma versão literatizada, como passada em Manaus. O indígena segue a Iara e, em certas horas da noite, os pescadores, daí em diante, veem de longe um vulto de mulher cantando e ao lado dela um homem, no igarapé do Taruman. As versões recolhidas pelo barão de Santana Néri no "Folk- Lore Brésilien", Paris, 1889, são facilmente reconhecíveis como de influência cultural europeia, como o é, aliás, o mito inteiro da Iara que canta, encarnação amerindia de Loreley renana. Blaise Cendrars ("Anthologie Nègre", Paris, 1927, n° 60) narra um conto dos Bassutos, da África meridional, onde Séètetelané encontra um ovo de avestruz e dentro dele depara uma formosa mulher com quem se casa e enriquece, sob a condição única de não a chamar filha-do-ovo-de-avestruz. A moça desapareceu e Séètetelané acordou tão miserável como dantes. Em Madagascar existe a família Zafirmarano, quer dizer "filhos d'água", provinda de uma Ondina com um Betsmisaraka de Tamatave. A Ondina exigiria segredo quanto à sua origem mas o esposo, bêbado, descobriu tudo e a Ondina regressou ao rio, levando as filhas e deixando os filhos. Gabriel Ferrand, "Contos Populaires Malgaches", Paris, 1893, p. 91. Um dos romances popularíssimos na Europa central era "Undine"
  • Page 81(1811), do barão Frederico de La Motte Fouqué (1777-1843), onde a Ondina do Reno, sobrinha de Kulhleborn, rei do rio, apaixona-se e casa com o fidalgo Huldebrand de Ringstolten. Este jamais deverá insultar as criaturas que vivem nas águas. O cavaleiro, irritado pelas intromissões de Kulhleborn, fala asperamente e a Ondina desaparece. Os Morgans de Ouessant casam com as meninas bonitas que vão residir nos palácios submarinos. No "Livro de Linhagens" vê-se que o fundador da família Marinho, em Portugal, casou com uma Ondina, encontrada adormecida à beira- mar e batizada com o nome de Marinha. A aparição dos lagos como castigo é outra tradição em todos os folclores.
  • O Papagaio RealDuas uas moças moravam juntas e eram irmãs, uma muito boa e outra maldizente e preguiçosa. Cada uma tinha seu quarto. A mais velha começou a notar um barulho de asa e depois fala de homem no quarto da irmã. Ficou desconfiada e foi olhar pelo buraco da fechadura. Viu uma bacia cheia d'água no meio do quarto. Quando deu meia-noite chegou na janela um papagaio enorme, muito bonito e voou para dentro, metendo-se na bacia, sacudindo-se todo, espalhando água para todos os lados. Cada gota d'água virava ouro, e o papagaio, quando saiu do banho, foi um príncipe mais formoso do mundo. Sentou-se ao lado da irmã e pegaram a conversar animados como noivos. A irmã ficou roxa de inveja. No outro dia, de tarde, encheu o peitoril da janela de cacos de vidro, assim como a bacia. Nas horas da noite o papagaio chegou e, batendo no peitoril, cortou-se todo. Voou para a bacia e cortou-se ainda mais. Arrastando-se, o papagaio não virou príncipe, mas chegou até a janela e disse para a moça, que estava assombrada com o que sucedera: - Ai, ingrata! Dobraste-me os encantos! Se me quiseres ver, só no reino de Acelóis.
  • Page 83- De onde chegou você? - Do reino da Lua!
  • Page 84o assunto da terra era a doença do principe. A moça, no outro dia, mudou os trajes, foi ao palácio e pediu para falar com o rei. -Rei Senhor! Atrevo-me a dizer que ponho o príncipe bonzinho se Rei Senhor me der, de tinta e papel, a metade do reinado e de tudo quanto lhe pertencer.
  • Page 85toda primeira parte; Adolfo Coelho traz uma variante de Ourilhe, Celorico de Basto, "O príncipe das palmas verdes", uma versão do Chile, chamo-o "El Príncipe Jalma". A versão brasileira de Sílvio Romero é "O papagaio de limo verde". Versão no "Pentamerone", II, 2. (1634).
  • O Filho da BurraUm casal unido teve um filho tão grande e forte que era uma cousa por demais. Meses depois o homem e a mulher morriam e a criança foi criada por uma burra. O menino formou, botou corpo, e só o chamavam Filho da Burra. Já grande, Filho da Burra foi ganhar a vida e empregou-se num reinado onde mandou fazer uma bengala de ferro. O ferreiro fez uma bengala da grossura de um braço, e Filho da Burra, quando experimentou, dobrou o ferro como se fosse um fio de arame. Mandou fazer outra, mais grossa, que ficou do seu gosto.
  • Page 87fazer a comida num tacho bem grande. Ficou Rola-Pau e os companheiros foram para os matos. Quando o almoço ia ficando pronto apareceu um bicho enorme roncando e pedindo todo de comer.
  • Page 88A moça prometeu. A serpente foi chegando, quebrando árvores e fazendo um barulho de ventania. O rapaz escondeu-se detrás da porta. A serpente foi entrando e fungando: - Aqui me cheira a sangue real! Aqui me cheira a sangue real!
  • Page 89Burra agarrou a orelha e meteu-a no bolso porque o macacão sumiu-se, correndo como um condenado. O rapaz juntou as três moças e os tesouros que elas tinham e foi para onde estava o tacho. Balançou na corda e o tacho foi puxado por Rola-Pau e Rola-Pedra, cheio de dinheiro. Depois subiram as três moças e o tacho desceu. Imaginando que os dois camaradas tivessem maldando a morte dele para ficar com as moças e o tesouro, Filho da Burra botou uma pedra bem grande no tacho e balançou a corda. Subiram o tacho até quase em cima e depois cortaram as cordas, despencando tudo para baixo.
  • Page 90Chamou o rei e contou toda a sua história. O rei não queria acreditar na malvadeza dos futuros genros. O rapaz tirou do bolso um lenço e mostrou a ponta da lingua da serpente que vivia com a princesa mais velha, a orelha da fera que estava com a do meio e a orelha do macacão que prendera a caçula. O rei chamou a princesa e esta confirmou tudo. Mandaram buscar Rola- Pau e Rola-Pedra, que voltaram com os convidados. Quando viram Filho da Burra no salão, correram para a janela e saltaram do sobrado abaixo, quebrando a cabeça nas pedras do calçamento, morrendo imediatamente. Filho da Burra casou com a princesa mais moça e viveu muito feliz. E a orelha do macacão? O Diabo recebeu e voltou para os infernos.
  • Page 91coleções sicilianas de Giuseppe Pitré e italianas de Domenico Comparetti. Infelizmente não o concluiu.
  • O Espelho MágicoO rapaz, órfão de pai e mãe, saiu pelo mundo para ganhar a vida. Ia por um caminho quando viu uma pedra tapando a boca de um formigueiro e as formigas lutando para arredá-la. O moço, que tinha bom coração, abaixou- se e tirou a pedra com cuidado para não matar as formigas. Quando acabou, uma formiguinha falou: -Se você se encontrar em dificuldades, diga: Valha-me o Rei das Formigas.
  • Page 93Na primeira noite, procurou um canto fora do reinado e disse: Valha-me o Rei dos Carneiros! O carneiro apareceu e o rapaz disse o que queria. - Monte nas minhas costas! - O rapaz montou e o carneiro largou-se correndo, de mato a dentro, para umas brenhas fechadas onde havia uma gruta. Deitou o rapaz na gruta e encheu os arredores de carneiros, uns por cima dos outros, que ninguém via outra cousa afora carneiro.
  • Page 94- Onde dormi a noite passada? -Em cima de um gavião, coberto por outro, em cima das nuvens! - Era isso mesmo!
  • Os Três CompanheirosUm bombeiro, um soldador e um ladrão eram muito amigos e resolveram viajar por este mundo para melhorar a vida. Tinham eles um cavalo encantado que respondia todas as perguntas. Chegaram a um reinado onde toda a gente estava triste porque a princesa fora furtada por uma serpente que morava no fundo do mar. Os três companheiros acharam que podiam fazer essa façanha e consultaram o cavalo. Este mandou o soldador fazer um bote de folha de flandres. Meteram-se nele e fizeram-se de vela.
  • Page 96Quando a serpente chegou mais para perto, o bombeiro tirou uma bomba e jogou em cima da serpente. A bomba estourou e a serpente virou bagaço. Na luta, o bote furou-se e a água estava entrando de mais a mais, ameaçando ir tudo para o fundo do mar. Que se faz? Morte certa! -Deixe comigo - disse o soldador. Tirou seus ferros e soldou todos os buracos e o bote navegou a salvamento até a praia.
  • A Banda da CoroaNum reinado muito rico e bonito viviam o rei e a rainha que gostavam um do outro mas teimavam por tudo. Tanto teimaram que o rei um dia apostou que se aquela nuvem que parecia fosse papagaios a rainha seria colocada numa caixa de vidro e jogada no mar. A rainha apostava que eram maracanãs. Eram papagaios e a rainha foi colocada numa grande caixa de vidro, com comida, água e roupa e as águas do mar a levaram para longe. Dias andou a caixa em cima do mar até que encalhou numa ilha onde moravam dois velhos. A rainha foi recolhida como filha e, no tempo, deu à luz um menino que estava esperando quando apostou com o rei seu marido. Criou-se o menino na ilha, aprendendo a ler, escrever e contar com sua mãe, que ensinava riscando na areia da praia. De quando em quando, o velho subia uma bandeirinha e um navio que passava mandava um bote a terra, comprar frutas. Os velhos morreram e o menino, agora rapaz forte e instruído, achou que devia seguir carreira no mundo. Subiu a bandeirinha e, quando um navio mandou o bote, embarcou-se com sua mãe e com o que pôde levar. O capitão do navio simpatizou muito com ele e aceitou ser seu padrinho. Quando chegaram a uma cidade, a rainha ficou numa casa e o rapaz continuou viagem, aprendendo vida de marujo.
  • Page 98O rei ficou assombrado com tanta riqueza, mas disse que não podia comprar a coroa pela metade. Daria uma fortuna pela coroa inteira. O capitão do navio voltou para bordo muito triste e contou o caso ao afilhado. Este deu parecer: - Vamos voltar para o ponto onde o peixe me deu a rabanada. O senhor manda fazer uma caixa, amarrada a uma corda forte e eu desço para procurar a outra metade no fundo do mar. Quando balançar a corda o senhor puxa.
  • Page 99árvore despencou e caiu por terra. O dragão também deu um berro que estremeceu tudo e caiu de uma banda, morto. O moço entrou na casa, comeu e, ajudado pela moça, fez uma porção de trouxas com a banda da coroa e joias. Depois foram até o lugar onde estava a corda com a caixa. O rapaz encheu-a de riquezas e balançou. A caixa subiu e desceu vazia. Outra vez as riquezas subiram. Depois o rapaz botou a moça dentro da caixa, mas esta não queria ir.
  • Page 100está a princesa, muda e sem achar graça em cousa alguma. Fique esperando por mim até amanhã pela madrugada mas não tire nem uma fruta dessas que estão nas árvores, senão haverá uma desgraça. O rapaz ficou sozinho, mas como era filho da rainha teimosa, achou ser uma tolice viajar sem levar uma daquelas frutas tão grandes e bonitas como não havia na terra. Tirou uma laranja de ouro e meteu no bolso.
  • Page 101derrubar a árvore que tinha a vida do dragão. Aí a moça, que estava prestando toda atenção, deu uma gargalhada e começou a chorar, recordando seus sofrimentos.
  • A Princesa SerpenteEra uma princesa bonita e boa que trouxera a sina de transformar-se em serpente um ano inteiro, desde o momento em que casasse. A princesa vivia triste porque o remédio seria descobrir uma amiga que a substituísse durante o ano do casamento e não a traísse. Como arranjar essa amiga fiel? Nos fundos do palácio morava uma viúva arremediada, que tinha três filhas bem formosas e parecidas. A princesa mandou convidar a mais velha para passar o dia com ela. A moça veio e a princesa encheu-a de agrados, mostrando os vestidos e as joias, passeando todo palácio. Quando chegou a hora do almoço, a princesa mandou que ela esperasse no quarto.
  • Page 103quando chegou não disse cousa nenhuma de mal, elogiando tudo quanto vira, especialmente a bondade da princesa. A princesa mandou buscar a mais nova e cobriu-a de presentes, vestidos e preparos ricos, dando-lhe um quarto pegado ao seu. Contou que tivera necessidade de arranjar uma amiga fiel e que soubesse guardar segredo e não mexericar, e a única maneira fora aquela de dar pedaços de fígado de galinha. Contou ainda que tivera a sina de virar serpente e que gostava muito de um rapaz, não casando porque não tinha quem a substituísse na alcova e lhe merecesse confiança.
  • Page 104água da fonte e depois tomou um banho de perfume. Vestiu as roupas que a amiga levara e veio para seu quarto, deitando-se na sua cama. O marido, nas horas de dormir, veio e, passando a mão pelo rosto dela notou que a pele estava áspera, vermelha e pegando fogo de quente. A princesa levantou-se, chamou os pais e a amiga, contou toda a história, louvando a fidelidade e a prudência da moça. Finalmente, como toda mulher é maliciosa, perguntou à amiga referindo-se ao marido:
  • O Peixinho EncantadoEra uma velha que tinha um filho tão preguiçoso que passava o dia deitado. Não sabia fazer cousa alguma e se a mãe não arranjasse o que comer morria de fome. A velha, perdendo a paciência, pegou dum pau e deu umas pancadas no preguiçoso, obrigando-o a sair de casa e ganhar fosse quanto fosse. - Vá buscar nem que seja lenha para o fogo!
  • Page 106Quando viram aquela marmota, deram uma risada que não acabava mais. O preguiçoso, vendo as risadas da princesa, disse: - Querendo Deus e meu peixinho, a princesa terá um filho meu! Chegando em casa o preguiçoso entregou o feixe de lenha, deitou-se e daí em diante viveu muito bem com a velha, pedindo tudo ao peixinho. A princesa adoeceu e os médicos, depois de muito exame e remédio, descobriram que ela estava esperando criança. O rei quase fica doido. Veio um menino muito bonito e ninguém sabia quem era o pai. O rei botou aviso para que todos os homens se reunissem numa praça. Foram todos, até o preguiçoso. A princesa veio com o filhinho, com o rei e a corte. Iam todos passando pelo meio do povo. Quando o menino viu o preguiçoso, estirou as mãozinhas e agarrou-se nele, gritando:
  • Page 107mandou saber o que era. Disseram que era um palácio mais bonito que o palácio real, todo iluminado. O rei, pela manhã, saiu para ver. Encontrou o palácio e não se cansava de admirar. Foi se chegando para perto e avistou um moço bem-parecido e delicado que o convidou para entrar e almoçar. Vai, o rei aceita, não reconhecendo o preguiçoso. No fim do almoço, o preguiçoso, com as artes do peixinho, fez aparecer no bolso do rei uma colher de ouro da mesa. Acabando de comer, o moço deu pela falta de uma colher de ouro e desconfiou do rei. Este se defendeu, já alterado. O moço mandou revistar e foi achada a colher no bolso do rei que ficou acabrunhado pela vergonha.
  • Page 108Straparola (Piacevoli Notti, edição de 1584) registra uma versão popular quinhentista. Pietropazzo pescou um peixe milagroso, Tonno, seguindo-se o enredo inteiramente igual à variante brasileira desta coleção, Notte terza, favola-I. Em vez de colher é uma maçã de ouro que se oculta no bolso do rei. A filha explica: - Et fi come voi dell'involato pomo d'oro innocente, cosiparimente della gravidanza, io ne fui innocentissima.
  • Os Sete Sapatos da PrincesaEra uma uma vez um reino em que havia uma princesa que gastava sete pares de sapatos por noite. Ninguém podia explicar esse mistério. Vai então Joãozinho, um rapazote que andava correndo mundo e que saíra de casa com a bênção do pai, tinha chegado a essa terra e ouviu falar desse misterioso caso. O rei daria a mão da princesa em casamento a quem descobrisse tudo como era. Mas quem o tentasse e não descobrisse - era ali na certa - daria a cabeça a degolar.
  • Page 110Começou o baile e a princesa dançava rasgando um par de sapato em cada contradança, trocando-o pelos novos. Calicote lançava os sapatos velhos para um canto e Joãozinho ia se apoderando de um pé de cada par de botinas estragado. Perto das duas horas, a princesa disse: -Calicote. É hora! -Sim, princesa, vamos!
  • Page 111elementos D 1950 e D 2131 não se completaram na versão mineira porque Joãozinho não se torna invisível nem o palácio encantado é subterrâneo. Consiglieri Pedroso, "Portuguese Folk-Tales", The Seven Iron Slippers. O soldado descobre o segredo da princesa ajudado pelo chapéu que o torna invisível e a bota mágica.
  • A Rainha e as IrmãsEra uma vez três moças muito bonitas e trabalhadoras, órfãs de pai e mãe e que moravam juntas, vivendo de costurar. Numa noite estavam trabalhando muito entretidas e, para passar o tempo, conversavam sobre casamentos. Vai a mais velha e diz assim: - Se eu casasse com o rei fazia para ele uma camisa que cabia na palma da mão e vestindo o cobria todo.
  • Page 113abandonou o menino junto de uma árvore, perto da casa de um caçador. Este, logo depois, passou e, vendo aquela trouxa chorando, abaixou-se e viu que era uma criança. Levou-a para sua casa e como não tinha filhos ficou criando o enjeitado. Quando o rei voltou ficou muito triste, mas perdoou a rainha. As guerras continuavam e ele foi guerrear, deixando a mulher grávida. As duas irmãs malvadas tornaram a fazer a mesma perversidade, mudando o outro menino, com a estrela de ouro na testa, por um sapo horroroso e mandando avisar ao rei que a rainha tivera um bicho em vez de um filho.
  • Page 114E disse para o irmão que, se no fim de sete dias não voltasse nem desse sinal de vida, fosse procurá-lo. E tocou-se para o monte. Andou, andou, andou. Quando ia chegando no topo do monte atravessou um pomar com frutas tão bonitas que encantavam. Havia um rio de água muito fresca. O rapazinho estava com fome e com sede. Tirou uma fruta, comeu-a e bebeu água. Imediatamente se tornou uma estátua de pedra.
  • Page 115O caçador contou a história. A velha empurrou o prato e começou a chorar como uma condenada. - Esses meninos são filhos do rei e quando nasceram eu fui matá-los, jogando-os no mar. Como não tive coragem deixei, um de cada vez, debaixo do pé de pau onde o caçador os achou! Por minha culpa a santa mãe deles foi botada para fora do reinado e vive num convento de freiras como empregada, lavando o chão e comendo de esmola. Eu perdi tudo quanto me deram por esse serviço e estou arrependida dos meus pecados e quero ajudar a fazer a vontade de Deus!
  • Page 116e a velha, dando muito dinheiro aos dois e foi, com os filhos e toda a corte, onde estava a mulher, pedindo perdão pelo mal que lhe fizera enganado. A mulher perdoou tudo e ficou sendo outra vez rainha. O rei deu festas tão bonitas que as festas de hoje são feias comparadas àquelas. E todos foram muito felizes.
  • Page 117A variante Straparola registrou, Le Piacevoli Notti, noite-3, fabula-4. Giam Francesco Straparola, de Caravaggio, faleceu em 1557. A edição princeps é de 1560. Li a edição de 1584, Venetia, appareffo Domenico Farri, pertencente ao bibliografo Batista Pereira, le XIII Piacevoli Notti. Esta variante é conhecida no Brasil e a ouvi em 1941. Ocorrem os três objetos mágicos, Água da Vida, Pássaro Encantado e a Fruta que Canta. Neste conto cita-se o Rei vestindo sempre branco, por viver triste. É o luto branco ainda oficial nas primeiras décadas do século XVI e que Garcia de Resende comentou a proibição "Miscellanea”,... vimos burel defendido. O burel era branco. Ordenara-se o luto pano de dó, negro. No El Libro de las Mil Noches e Una Noche, trad. de Mardrus, XVI, 107-154, há uma versão, Farizada la de sonriza de rosa, correndo o Bulbul-el-Haar, o Pássaro que fala, Árvore que canta e Água cor de ouro.
  • A Princesa SisudaDiz que era uma vez um rei muito bondoso e feliz mas se tornou triste porque sua filha única deixou de rir. Ficou sisuda e não havia quem a fizesse mostrar os dentes, fosse a que pretexto fosse. Com aquela penitência dentro do palácio o rei foi ficando diferente, e até cheio de raivas e de violência se tornou. Nem parecia o rei de outrora. Aconselhado pelos doutores, o rei anunciou que dava a mão da princesa a quem a fizesse soltar uma boa gargalhada. O palácio ficou formigando de gente que ia tentar fazer a moça dar uma risada. Faziam todos caretas, davam saltos, contavam cousas engraçadas. Nada. Vieram até palhaços mas a princesa nem mostrou a cor dos dentes.
  • Page 119estavam esperneando por cima dos tapetes, derrubando as cadeiras. A princesa disparou numa gargalhada gostosa, que ecoou por todo palácio. O rei ficou satisfeito mas, lembrando que prometera casar a filha com quem a fizesse rir, ficou muito sério e pensativo, imaginando como resolveria aquele caso. Mandou chamar o rapaz e perguntou se ele não queria dinheiro em vez de se casar com a princesa:
  • Page 120cerimônia. Na primeira noite assim que o príncipe se deitou, o rapaz deu o remédio à lagartixa e esta subiu pela parede, passou as telhas e desceu pelo lado de dentro. A formiga recebeu e foi levando para a boca do príncipe. Este, no sono, lambia o beiço e o remédio ficava na garganta. E de gota em gota a mezinha ia fazendo efeito. O príncipe, mesmo sem acordar, sujou a cama toda com excrementos. A princesa acordou furiosa e botou o noivo para fora do quarto. De manhã disse ao rei que não queria um sujão daqueles para seu marido. O príncipe tanto pediu e tanto suplicou que a princesa deixou-o dormir mais uma vez no mesmo quarto. Novamente o moço entregou o remédio à lagartixa e a formiga encarregou-se de levar à boca do príncipe. Com pouco mais, sem querer, o noivo fez outra desgraça na cama e foi expulso pela princesa, que ficou encarnada de raiva.
  • A Princesa e o GiganteDiz que era uma vez um casal que tinha três filhas muito bonitas e um filho. De uma feita a mais velha estava passeando pelo bosque quando um leão apareceu e a carregou. Os pais ficaram muito tristes. Tempos depois a segunda filha era levada por uma águia, e a terceira, tomando banho, foi arrastada para o fundo do mar por um peixe. Os velhos só faltaram morrer de dor. Um ano passado, o rapaz que era forte e valente disse aos pais que queria correr mundo, procurando notícias de suas irmãs que ele sabia não estarem mortas. Os pais abençoaram o rapaz e este saiu. Ia atravessando um descampado quando avistou um grupo de bichos discutindo. Aproximou-se e viu que era um leão, uma águia e um peixe dourado. Perguntou a razão da discussão e soube que era a divisão de um boi que morrera. O rapaz ofereceu-se para partidor. Os três aceitaram. O rapaz esquartejou o boi e deu a carne do lombo e das pernas ao leão. Deu as costelas, ossos etc., à águia e as tripas, bofes e mais miúdos ao peixe. Todos ficaram satisfeitos. O leão falou agradecendo e deu um fio de sua cabeleira. A águia deu uma pena e o peixe uma escama. O rapaz seguiu jornada.
  • Page 122O rapaz ficou dentro do armário. Ouviu um barulho e uns roncos furiosos. Depois o leão entrou para o banho e saiu um príncipe bonito e delicado. Foi jantar com a mulher e, no meio da refeição, ela disse: - Marido, se aparecesse aqui o meu irmão, seu cunhado, que farias? -Dava um abraço e convidava para comer comigo.
  • Page 123Só no segundo dia de viagem é que o rapaz pôde chegar à margem do mar. Apertou a escama e saiu das ondas o peixe dourado. Que queres?
  • Page 124A moça, logo que pôde, contou ao rapaz e este correu para a montanha onde chamou a águia. A águia levou-o até a praia e aí o rapaz chamou o rei dos peixes e pediu a caixa. Todos os peixes ajudaram e a caixa veio até a praia. Ninguém podia abrir. O rapaz chamou o leão e este os bichos mais fortes que rebentaram as caixas, mas a pombinha voou. Logo o rapaz socorreu-se do rei das aves e este mandou um gavião atrás da pomba que acabou voltando para a praia. O rapaz agarrou-a e ficou com um ovo na mão. O moço segurou o ovo e foi para a casa do gigante. Lá chegando encontrou o gigante estirado, arquejando. O rapaz entrou e quebrou o ovo na testa dele. Ouviu-se um estrondo horroroso que fez estremecer tudo. As grutas viraram palácio lindo e os bichos todos desencantaram.
  • Couro de PiolhoEra uma vez uma princesa que estava sendo penteada pela ama quando esta encontrou um piolho no pente. A princesa ficou tão admirada com aquele achado que resolveu criar o piolho numa caixinha. O piolho cresceu tanto que, mudando de caixas, estava enorme. A princesa mostrou-o ao rei seu pai que mandou matar o bicho e tirar-lhe o couro para fazer o assento de uma cadeira para seu salão. Ordenou que a rainha e a princesa guardassem todo segredo e disse que dava a mão da filha em casamento a quem adivinhasse de que era feito o forro da cadeira real. Como a princesa era muito bonita e rica, correram moços de todas as partes para a prova. Nenhum acertou. Os meses passavam e a princesa estava zangada com tanta demora no casamento. Primeiro vieram rapazes das primeiras famílias e depois os de menor fortuna, seguidos pelos pobres. Centenas e centenas de homens olhavam e tornavam a olhar a cadeira e não havia jeito em descobrir a que animal pertencera aquele couro esquisito.
  • Page 126- Não quero. Deus lhe pague por tudo. Quero dar uma lembrança. Leve estes três fios da minha roupa. Quando se vir agoniado queime um deles e será valido. Disse essas palavras e meteu-se pelo mato. João dormiu a noite inteira e pela manhã desarranchou-se e botou o pé na estrada com vontade.
  • Page 127Houve um jantar com todas as variedades de comidas. Depois, o rei chamou João e lhe disse: - Está tudo muito bem mas para você casar com a princesa deve cumprir outro preceito. Amanhã, pela manhã, receberá cem coelhos e deve levá-los para o campo e voltar pela tardinha, sem faltar um só.
  • Page 128A moça chegou triste e contou à princesa que não pudera trazer o coelho. A princesa disse que ela não tinha sabedoria e mandou outra. Aconteceu o mesmo, sendo que o preço subiu para dois beijos. A segunda moça voltou sem o coelho e a princesa veio, ela mesma, decidir a questão. Encontrou João na sombra e puxou conversa, com muito rodeio e acabou falando na compra de um coelho.
  • Page 129- O saco está enchendo! João fez que metia uma cousa dentro do saco e declarou:
  • O Chapelinho VermelhoUma senhora viúva tinha uma filha de dez anos, que era o seu enlevo. Sempre que se aproximava o dia do aniversário de Laura, a mãe a levava à cidade e escolhia um presente ao gosto da pequena. No seu décimo aniversário, ela desejou possuir uma sombrinha cor vermelha, que a mamãe comprou. Desde então não saía a passeio sem a sombrinha, as meninas vizinhas puseram-lhe a alcunha de "Chapelinho Vermelho". Certa vez a mãe de Laura preparou um bolo para a filha levar à casa de sua avó, à beira de uma floresta. Recomendou-lhe que fosse pelo caminho sem dele se desviar, porque no mato havia bichos maus.
  • Page 131Informado o lobo, concluiu a ingênua criança: - Agora, peço que o senhor me indique a direção que devo seguir para achar com presteza o caminho e me perdoe ter entrado em seus domínios sem lhe pedir licença. Não foi por mal e só por causa da borboleta.
  • Page 132Intrigou-o a circunstância de se achar aberta a porta da rua. Caminhou para o lugar indicado e entrou na sala; silêncio absoluto! Pé ante pé foi até o quarto e, desde logo vendo o lobo, imaginou o que teria sucedido.
  • A Bela e a FeraEra uma vez um rico mercador que tinha três filhas, cada qual a mais bela. Depois empobreceu e foi morar longe da cidade, onde pudesse esconder a vergonha de sua pobreza. As filhas mais velhas ficaram muito tristes com isso, por não poderem mais sustentar o luxo de que tanto gostavam. A mais nova, que se chamava Bela, acomodou-se à sorte e tudo fazia por consolar o velho pai. Vai senão quando o mercador teve notícia de um bom negócio numas terras muito distantes e, para tentar ainda o fado, partiu para lá. Ao despedir-se perguntou às filhas o que queriam que lhes trouxesse, caso fosse feliz nos negócios.
  • Page 134horas de dormir, mostrando-lhe em seguida o mais belo quarto que se podia imaginar. Estava muito admirado de tudo quanto via e achava tudo aquilo muito misterioso; mas, enfim, estava fatigado e com sono. Adormeceu sonhando com a sua filha Bela.
  • Page 135Quando, pela manhã, a moça colheu a rosa, a Fera apareceu, mas a rapariga se pôs a achá-la muito bonita e acariciá-la. O monstro apaziguou- se e o mercador, chegando a hora de partir, despediu-se, chorando, da filha que ali ficou vivendo. Algum tempo depois Bela mostrou desejo de tornar a ver o pai, mas a Fera não quis que ela se afastasse dali. Mandou chamar o velho, que veio logo num átimo. Lá passou uns dias e quando foi para voltar disse à Fera que lhe entregasse a menina. A Fera respondeu-lhe que nem por tudo deste mundo lhe tornava a dar, que podia vir vê-la quando entendesse. E lá por dinheiro não, que fosse ao seu tesouro e levasse as riquezas que quisesse. O mercador voltou rico para casa.
  • Page 136O pobre animal, ao tempo que Bela ia-se esquecendo, ia também amofinando. A irmã casada contou ao marido o que havia feito com a outra e ele que era um homem sério obrigou-a a entregar o anel à irmã. Dito e feito. Logo que teve o anel no dedo, Bela de tudo se lembrou novamente. Partiu sem demora e chegou ao castelo quando se completavam três dias e meio que dali havia se ausentado. Procurou o bicho por todos os aposentos, chamou-o muitas vezes, mas não tornou a vê-lo, até que por fim foi dar com ele quase moribundo, estendido entre as gramas do jardim.
  • Page 13711 Estudei este elemento, muito comum e clássico na literatura oral e lendária, no "Voto de Idomeneu", Anubis e Outros Ensaios in Superstição no Brasil, Belo Horizonte, 1985. A redação de "La Belle et la Bête” é de Jeanne Marie Le Prince de Beaumont, 1711-1780, aproveitando conto oral que, por este intermédio, obteve divulgação imediata nos livros infantis da época.
  • A Moura TortaEra uma vez um Rei que tinha um filho único, e este, chegando a ser rapaz, pediu para correr mundo. Não houve outro remédio senão deixar o Príncipe seguir viagem como desejava. Nos primeiros tempos nada aconteceu de novidades. O Príncipe andou, andou, dormindo aqui e acolá, passando fome e frio. Numa tarde ia ele chegando a uma cidade quando uma velhinha muito corcunda, carregando um feixe de gravetos, pediu uma esmola. O Príncipe, com pena da velhinha, deu dinheiro bastante e colocou nos ombros o feixe de gravetos, levando a carga até pertinho das ruas. A velha agradeceu muito, abençoou e disse:
  • Page 139até um rio corrente. Parou e descascou a última laranja que a velha lhe dera. A terceira era bonita de fazer raiva. Muito e muito mais bonita que as duas outras. Foi logo pedindo água e o Príncipe mais que depressa lhe deu. A moça bebeu e desencantou, começando a conversar com o rapaz e contando sua história. Ficaram namorados um do outro. A moça estava quase nua e o Príncipe viajava a pé, não podendo levar sua noiva naqueles trajes. Mandou subir em uma árvore, na beira do rio, despediu-se dela e correu para casa. Nesse momento chegou uma escrava negra, cega de um olho, a quem chamavam a Moura Torta. A negra baixou-se para encher o pote com água do rio mas avistou o rosto da moça que se retratava nas águas e pensou que fosse o dela. Ficou assombrada de tanta formosura. - Meu Deus! Eu tão bonita e carregando água? Não é possível... - Atirou o pote nas pedras, quebrando-o e voltou para o palácio, cantando de alegria. Quando a viram voltar sem água e toda importante, deram muita vaia na Moura Torta, brigaram com ela e mandaram que fosse buscar água, com outro pote.
  • Page 140deixou. A Moura Torta deitou a cabeça no seu colo e começou a catar, dando cafuné e desembaraçando as tranças. Assim que a viu muito entretida, fechando os olhos, tirou um alfinete encantado e fincou-o na cabeça da moça. Esta deu um grito e virou-se numa rolinha, saindo a voar. A negra trepou-se na mesma árvore e ficou esperando o Príncipe, como a moça lhe tinha dito, de boba. Finalmente o Príncipe chegou, numa carruagem dourada, com os criados e criadas trazendo roupa para vestir a noiva. Encontrou a Moura Torta, feia como a miséria. O Príncipe, assim que a viu, ficou admirado e perguntou a razão de tanta mudança. A Moura Torta disse:
  • Page 141Fizeram uma fogueira bem grande e sacudiram a Moura Torta dentro, até que ficou reduzida a poeira. A moça casou com o Príncipe e viveram como Deus com seus anjos, querida por todos. Entrou por uma perna de pinto e saiu por uma de pato, mandou dizer El-Rei Meu Senhor que me contassem quatro...
  • Pedro, José e JoãoEra uma vez um velho muito rico e viúvo que tinha três filhos bonitos e fortes. Quando nascia um deles, o pai plantava uma árvore. Os três se fizeram homens e cada um possuía um cavalo, um cachorro, uma espada e o pé de pau. Duma feita, chegando na idade de sair pelo mundo, o mais velho, Pedro, procurou o velho e pediu para deixar a casa.
  • Page 143- Ora, minha avó, que ideia! Assim que a velha o segurou, Pedro sentiu que ela podia com dez homens. Lutou, lutou e vendo que era subjugado, gritou:
  • Page 144agarrou-o com mão de ferro. Principiou a briga feia. Lá para as tantas a velha foi derrubando José e este valeu-se da garganta, gritando pelo cavalo, pelo cachorro e pela espada, e não foi valido porque o cabelo da velha se transformara em correntes e fios de ferro puro. José caiu e a velha jogou-o no subterrâneo, como os outros. Na manhã, João, o mais moço, viu a árvore de José toda murcha, com as folhas amarelas. Procurou o Pai.
  • Page 145para cima da velha, aos coices, seguido pelo cachorro e pela espada que acabaram com a velha em dois tempos, às dentadas e furadas. Assim que a velha caiu e morreu, João ouviu um vento passar pela casa. Abriram-se todas as portas e saíram os prisioneiros, muito contentes agradecendo o favor que o rapaz lhes fizera. Os quartos estavam cheios até a cumeeira de ouro e todos disseram que João era dono de tudo. Apareceram cavalos e os homens foram-se embora. Os três irmãos ficaram juntos, abraçados. Pedro então perguntou o que se devia fazer com o corpo da velha.
  • Page 146Sol. Bebeu água e ficou conversando com as irmãs e os três irmãos, todos muito alegres. Resolveram casar logo que chegassem na cidade onde o pai das moças era Rei. Montaram a cavalo e as moças numa liteira e seguiram jornada, deixando a casa amaldiçoada pegando fogo.
  • Page 1472- CONTOS DE EXEMPLO
  • Maria de OliveiraEra uma vez um príncipe, filho único, cheio de mimos e de agrados. Seus pais o amavam demasiado e por isso ele ficou orgulhoso e habituado a satisfazer todas as vontades sem encontrar oposição. Quando se fez rapaz, no ponto de casar, namorou uma princesa e estava animado para o sacramento. Tinha ele um criado de sua confiança que era mestre em magia, sabendo muitos segredos do futuro. O príncipe participou o casamento. O criado disse:
  • Page 149que o príncipe o desculpasse porque sua mulher estava para dar à luz uma criança e ele a ajudava. O príncipe agradeceu e ficou descansando. Para matar o tempo, o príncipe lembrou-se de perguntar ao criado: - Amigo, diga-me, que destino terá a criança que nascer agora? O criado fez os cálculos e disse:
  • Page 150deitou a menina e, matando a um guabiru, cortou a ponta da língua e foi mostrá-la ao príncipe que acreditou estar a criança bem morta. Nesse mesmo dia uma antiga criada do palácio, que morava com seu marido numa casinha nos arredores, veio cumprir uma promessa de rezar um rosário e acender três velas bentas nos pés de uma santa cruz que havia ali. Entrando, a mulher ouviu choro de recém-nascido e tanto procurou que avistou a criancinha, já roxa de frio e de fome. Agarrou-a mais do que depressa, agasalhando-a e foi mostrá-la ao marido. Como não tinham filhos e suspeitaram de um mistério com gente poderosa, conduziram a menina para casa e a mulher se fez de mãe legítima, espalhando a notícia de ter dado à luz uma filhinha.
  • Page 151- Então Maria de Oliveira é aquela menina? - O que tem de ser tem muita força, meu senhor!
  • Page 152O Rei, a rainha velha e Maria de Oliveira foram receber a princesa. Maria de Oliveira estava que era um espelho, de bonita, faiscando de joias e todo o mundo a gabava. A princesa, ao contrário, estava pálida, sem animação e tão murcha para quem vinha se casar, que Maria de Oliveira, quando a viu, disse: - Pássaros que cantam, Uvas que dançam...
  • Page 153estava surrando Maria de Oliveira. Durante o dia a surpresa do Rei foi enorme. Maria de Oliveira viva como um azougue. A princesa molenga, arrastando os pés, amarela como flor de algodão.
  • A Menina dos Brincos de OuroU'a mãe, que era muito severa para os filhos, fez presente a sua filhinha de uns brincos de ouro. Quando a menina ia à fonte buscar água e tomar banho, costumava tirar os brincos e botá-los em cima de uma pedra. Um dia ela foi à fonte, tomou banho, encheu a cabaça e voltou para casa, esquecendo-se dos brincos. Chegando em casa, deu por falta deles e, com medo de a mãe ralhar com ela e castigá-la, correu à fonte a buscar os brincos. Chegando lá, encontrou um velho muito feio que a agarrou, botou nas costas e levou consigo. O velho pegou a menina, meteu dentro de um surrão, coseu o surrão e disse à menina que ia sair com ela de porta em porta para ganhar a vida e que, quando ele ordenasse, ela cantasse dentro do surrão senão ele bateria com o bordão. Em todo o lugar que chegava, botava o surrão no chão e dizia:
  • Page 155tiraram a menina que já estava fraquinha, quase para morrer. Em lugar da menina, encheram o surrão de excrementos. No dia seguinte, o velho acordou, pegou no surrão, botou às costas e foi- se embora. Adiante em uma casa, perguntou se queriam ouvir um surrão cantar. Botou o surrão no chão e disse:
  • Page 156tartaruga, Fada-Calva que o fez seu escravo. Colocou Sigô dentro de um tambor e o tocava nas festas e praças, sendo muito aplaudida. Percutido por uma vaqueta, o tambor cantava: "Sigô é filho de Olú -Oh! dai-me a liberdade - Sua mãe deu-lhe um carneiro e mandou caçar - Oh! dai-me a liberdade - Seu pai deu-lhe um cavalo e mandou caçar - Ah! dai-me a liberdade! - Ouvi o que digo. Ele foi esconderijo do elefante - Ah! dai-me a liberdade! A enxurrada da chuva atirou-o num fosso - Ah! dai-me a liberdade! - E assim ele ficou escravo da Tartaruga - Ah! dai-me a liberdade!". A tartaruga terminou indo a uma festa oferecida pela família de Sigô e esta a embriagou, adormecendo-a. Abriram o tambor e retiraram Sigô, pondo dentro um corvo. No outro dia o tambor grasnava horrivelmente e a tartaruga ficou decepcionada quando verificou o logro que lhe sucedera. Blaise Cendrars, na "Anthologie Nègre" (Paris, nº 59, 1927), divulga um episódio tradicional dos negros Sossas, da Guiné, "Histoire de l'oiseau merveilleux du cannibale", que é, em tudo, semelhante. A filha de um chefe vai banhar-se e deixa um objeto que a obriga a voltar para apanhá-lo. Encontra então um gigantesco canibal, com uma só perna, que a agarra e a mete dentro de um saco. Segue-se a história do surrão que canta. O canibal leva o surrão para casa dos pais da prisioneira e estes tiram a menina e enchem o saco com sapos e cobras. O canibal regressa para sua morada onde é esperado por outros canibais que foram convidados para devorar a moça. Abrem o surrão e, vendo serpentes e sapos, matam o canibal, julgando que quisesse zombar dos amigos. René Basset, Contes Populares D'Afrique, divulga a Histoire de l'oiseau merveilleux du cannibale, n° 128, de Mac Call Theal, Kaffir-Folk-Lore, Londres, 1897, variante legítima. De origem oriental, o conto nos foi trazido possivelmente pelos escravos africanos pois coincide com suas áreas de influência embora existindo em Portugal e Espanha, levado pelos árabes.
  • Quirino, Vaqueiro do ReiEra uma vez um Rei que possuía muitas fazendas de gado entregues a vaqueiros de confiança. Uma das melhores propriedades era confiada ao negro Quirino, que tinha fama de não mentir. O Rei vivia gabando o vaqueiro, apontando-o como modelo de veracidade. Essa opinião despertava inveja entre os fidalgos e um deles, rico e poderoso, resolveu acabar com a celebridade moral de Quirino, vaqueiro do Rei. Na fazenda de que Quirino se encarregava, o orgulho do Rei era um boi barroso, bonito como não havia outro. Cada ano o vaqueiro ia até a casa do Rei prestar contas.
  • Page 158O fidalgo tinha uma filha muito bonita, chamada Rosa. Chamou a moça e contou a aposta. Por dinheiro Quirino não peca. Com ameaça, Quirino não peca. Abaixo de Deus, a mulher pode com tudo que tem fôlego. Rosa se vestiu como uma mulher do povo e foi até a fazenda onde estava o boi barroso. Encontrou Quirino e conversou com ele, fazendo tanto trejeito, dando tanta volta no corpo que o vaqueiro ficou alvoroçado e se apaixonou por ela.
  • Page 159barroso?" - Eu faço que estou triste e digo - "Saiba el-rei meu senhor que o boi barroso saltou um serrote e quebrou o pescoço..." Interrompendo-se, falava, alto, indignado:
  • Page 160Natal, Rio G. do Norte. Nota - É a variante norte-rio-grandense do Boi Leição alagoana, Boi Cardil e Rabil em Portugal, Boi Barroso em Espanha. As notas estão no conto de Alagoas. No último diálogo do Rei com Quirino, o primeiro pergunta pela obrigação, sinônimo sertanejo, no Nordeste brasileiro pelo menos, de família.
  • O Bem se Paga com o BemA onça caiu numa armadilha preparada pelos caçadores e, por mais que tentasse escapar, ficou prisioneira. Resignara-se a morrer, quando viu passar um homem. Chamou-o e lhe pediu que a libertasse. - Deus me livre - disse o transeunte. - Se você ficar solta, devorar-me-á.
  • Page 162-Não é fazendo pouco - explicou o macaco -, é que eu não acredito que o homem caisse na armadilha que ele mesmo preparou. - Ele não caiu. Quem caiu fui eu - contava a onça.
  • Page 163fato primitivo e a cobra retomou seu lugar no alforje do homem, onde este a matou. Conto n° 264. Está espalhadíssimo pelas Américas. Maria de Nogueira registrou a versão de Costa Rica, entre um tigre que é salvo pelo boi, entendendo comê-lo. O conejo (coelho), Juiz de Paz, exige a repetição do episódio e o tigre fica preso para sempre, El fallo de Tio Conejo, Cuentos Viejos, p. 145, San José da Costa Rica, 1938. Uma outra versão, sul-americana, está no Del Tiempo de Naupa (Folclore Norteño, Buenos Aires, 1930, p. 213) onde o sr. Rafael Cano registra o conto com maior desdobramento moral. O tigre, libertado pelo homem, quer sacrificá-lo e vão à consulta. O cavalo, o boi, o bode apoiam o tigre. O zorro manda repetir a cena e o tigre fica amarrado. Ante os reiterados oferecimentos do homem, desejoso de ser grato, o zorro pede apenas que seja enterrado com o focinho de fora qualquer membro de sua família que for encontrado. Ele mesmo se finge morto e o Homem sepulta-o, com a ponta do focinho para fora. Foge o zorro e volta a fazer-se de morto. Novo sepultamento na forma prometida, mas de mau humor. Na terceira vez, o homem abre um buraco e sacode o zorro lá dentro, cobrindo-o inteiramente de areia e pedras. Arnon de Melo (África, p. 240, Rio de Janeiro, 1941) transcreve uma versão d'África Oriental Portuguesa, ouvida em Moçambique e traduzida pelo padre Francisco Manuel de Castro. O Peru Bravo, preso numa ratoeira, é libertado por Narrapurrapu e Nantetete, duas crianças, filhas de Moxia, dono da armadilha. O Peru Bravo ia matar os dois meninos mas o Coelho conseguiu que ele se metesse dentro da ratoeira, dizendo não crer que um bicho tão grande coubesse numa armadilha pequena. O Peru Bravo ficou preso e o Coelho acompanhou os dois meninos para casa. O episódio, narrado pelos negros Macuas, deve ter vindo através dos árabes muçulmanos, outrora onipotentes e ainda influentes em Moçambique. Em Antti Aarne e Stith Thompson, The types of the folk-tale (Folklore Fellows Communications, vol. XXV, n° 74, Helsink, 1928) é o Mt. 155, The Ungrateful Serpent Returned to Captivity, corrente nos folclores da Alemanha, Itália, Estônia, Finlândia, Lapônia, Dinamarca, Flandres, Sicília e entre os africanos e bantus, p. 35-36.
  • Os quatro LadrõesDiz que era uma vez quatro ladrões muito sabidos e finos. Num domingo de manhã estavam deitados, gozando a sombra de uma árvore, quando viram passar na estrada um homem levando um carneiro grande e gordo. Palpitaram furtar o carneiro e comê-lo assado. Acertaram um plano e se espalharam por dentro do mato. O primeiro ladrão foi para o caminho, encontrando o homem do carneiro e salvou-o:
  • Page 165O homem seguiu sozinho, mas não tirava os olhos do carneiro quase convencido que comprara o bicho errado. O outro ladrão apareceu e fez a mesma conversa, misturando os dois animais, e ficando espantado quando o dono dizia que era um carneiro. Discutiram um bom pedaço e o terceiro ladrão espirou para dentro do marmeleiro. O quarto camarada veio e puxou conversa, oferecendo preço para o cachorro que dizia ser bom caçador de preás. Deu os sinais de cachorro de faro e todos encontravam no bicho que o homem ia levando.
  • Page 166Histopadezxa (tradução de Mons. Sebastião Rodolfo Delgado. Lisboa, 1897, p. 245, fábula IX, "O Brâmane, o Carneiro e os Gatunos"). Assim traduz do sânscrito Mons. Delgado: - "Era uma vez um brâmane do bosque de Guatama, que tinha começado um sacrificio. E como ele fosse comprar um carneiro para o sacrificio a uma aldeia vizinha, enquanto voltava transportando-o sobre os ombros, viram-no três gatunos. "Se conseguíssemos, discorreram então os gatunos entre si, apoderarmo-nos daquele carneiro por alguma manha, seria grande sutileza de engenho" e foram postar-se na estrada ao pé de três árvores, à distância de uma kroxa, aguardando a passagem do brâmane. Quando este passava, perguntou-lhe um dos gatunos: - "O brâmane, como é que levas um cão aos ombros?" "Este não é cão, respondeu o brâmane, mas é um carneiro para sacrificio”. Logo depois disse-lhe também o mesmo outro gatuno que estava mais adiante. Assim que o brâmane ouviu as suas palavras, pôs o carneiro na terra, examinou-o repetidas vezes e prosseguiu o caminho com o espírito vacilante. Depois que brâmane ouviu o que dizia o terceiro gatuno, convencido de que estava em erro, largou o carneiro, fez as abluções e voltou para sua casa. E os gatunos levaram o carneiro e o comeram" (p. 245-246 e 250). A viagem dessa história foi feita, incidentemente, por Max Müller, quando estudou as transformações do episódio La Laitière et le Pot au Lait, de Fontaine, antes já popularizado em Portugal no Auto da Mofina Mendez, de Gil Vicente. Contos do Pantchatantra (ou Panka-tantra) tiveram versões, adaptações e cópias inúmeras, espalhando-se pela Europa. Frei Hermenegildo de Tancos escrevia no século XIV e não podia ter conhecido a história indiana através do Directorium Humanae Vitae, tradução latina por João de Capua, impresso antes de 1483. Creio mais que o frade de Alcobaça o recebeu do Califa e Dymna, traduzido em espanhol por ordem do Infante D. Afonso, em 1261. Parece-me Orto do Sposo anterior ao Directorium Vitae.
  • O Chapim do ReiEra uma vez um Rei viúvo que morava diante da casa de outro Rei, casado este com uma moça bonita e séria. O rei viúvo tomou-se de amores, mas a moça não correspondeu. O rei viúvo procurou falar com uma negra escrava do rei moço e lhe deu algumas moedas de ouro para que lhe fosse permitido ver a moça dormindo. A escrava prometeu e, aproveitando uma viagem do rei moço, levou o rei viúvo até o quarto da moça que dormia. O rei viúvo ficou encantado com tanta beleza. Chegou para perto da cama, abriu as cortinas e olhou muito tempo a moça dormindo. Estava nesse jeito quando o rei moço voltou e a escrava deu o sinal. O rei viúvo partiu a correr, mas, no arranco da carreira, perdeu um chapim, que o rei moço achou e maldou da mulher, pensando que ela fosse infiel. Não lhe disse uma nem duas, mas não a procurou mais. A moça, depois de muito cismar e rezar, desconfiou de alguma cousa e resolveu certificar-se de tudo, pelo miúdo. Mandou preparar um jantar com todo gosto e pediu ao marido que convidasse o rei viúvo para tomar parte na festa. O rei moço convidou o rei viúvo e a festa começou muito bem. No fim do jantar, quando chegou a hora da saudação, a moça pediu licença e retirou-se. Foi mudar o trajo. Voltou rindo com o tempo, de bonita. Chegando à mesa, pegou num copo cheio de vinho e disse, levantando uma saudação:
  • Page 168Rasto de ladrão achei! Se comeu ou não comeu
  • Page 169Basílio de Magalhães, O Príncipe e o Amigo, O Folk-Lore no Brasil, 252, ed. Quaresma, Rio de 13
  • A História do PapagaioUm moço inteligente e rico queria casar, mas não se agradava das moças do lugar onde morava. - Não acho moça do meu interesse - respondia ele aos pais que desejavam muito vê-lo casado.
  • Page 171muito bem. Os pais pediram que ela explicasse. A moça falou por aqui assim: - Ele tirou os sapatos na rua porque ali não há pedras nem espinhos. Calçou-se para atravessar o riacho porque pedra, espinho, estrepe só existem dentro d'água. Abriu o guarda-sol na sombra porque podia cair garrancho, pedaço de pau, frutas ou sujo das árvores. Disse que a baixa do arroz dava mais cuias do que estamos pensando porque ninguém pode calcular a safra daquele partido. As quintas são superiores à casa por isso ele disse que a casa era baixa para as quintas. Deu a cabeça da galinha a meu pai porque este é cabeça do casal, os pés à minha mãe porque dona de casa é os pés de uma casa, e as asas para mim porque moça solteira pode casar e voa para fora de casa.
  • Page 172- Não vê! - Vejo! Olá, se vejo!
  • Page 173A velha foi, conversou e fez muito agrado com a moça. Depois, fazendo cara de choro, disse que passara a noite sem dormir, pensando na desgraça que sucedera ao marido dela, preso na cidade fulana. A moça, de boba, acreditou, e pegou a ficar agoniada, sem achar canto. A velha aconselhou que ela pagasse na Igreja a promessa que o marido tinha ido fazer na outra cidade. A moça mandou comprar uma vela, vestiu-se e ia saindo, acompanhada pela velha, quando, atravessando a sala de fora, o papagaio perguntou para onde ela se destinava.
  • Page 174mandou a velha embora, dizendo que voltasse no outro dia, e foi tratar da ceia e de dormir. A velha correu para o negociante e encontrou-o zangado por demais. A velha prometeu que no dia seguinte tudo sairia a contento. Contou que o papagaio atrapalhara a combinação.
  • Page 175acordado. O rei aceitou e foi com a moça ensinar onde era o quarto do príncipe seu filho..." Neste, como da vez passada, o sino da Igreja bateu as três badaladas da "Ave-Maria". O papagaio calou-se. A moça mandou a velha embora e disse que voltasse na tarde do outro dia. O papagaio fazia a história tão comprida, com vozes e ditos, que atrapalhara a maldade da velha.
  • Page 176da médica, e houve um casamento de estrondo. Uma festa tão bonita, com as músicas tão alegres que até eu dancei também... Sabe como foi que eu dancei?" A moça respondia:
  • Page 177perde a luva indispensável para que possa tomar a bênção ao pai. Sai para procurá-la, dizendo-se fada-santa. Num reino cura uma princesa muda, ameaçando-a de contar que esta escondia o namorado num armário. Noutro, encontrou o príncipe desaparecido. Era o moço que se escondia no quarto da princesa. No terceiro, um príncipe estava para morrer de amor. Furtara a luva de uma princesa. A fada-santa, depois de várias cerimônias, dá-se a conhecer e tudo finda em casamento e festa. A história da boneca, contada pelo papagaio do velho Manuel Galdino Pessoa, difere. Alberto Faria (Aérides, Rio de Janeiro, 1918, p. 156) e Gustavo Barroso (Através dos Folk-lores, S. Paulo, 1927, p. 7) estudaram esse motivo. Gédeon Huet indicou o Çuka-saptati, "Os setenta contos dum Papagaio", como a origem do tema. São as setenta histórias que o papagaio contou para impedir que a mulher traísse o marido ausente. Divulgou-se através do Touti-Nameh, de Ziayed-Din Nakhcabi que traduziu para o persa a coleção indiana Souka-Saptati, os setenta contos do papagaio. Traduziu reduzindo para 52 histórias. A edição mais completa é a versão alemã de Georg Rosen, feita de um texto turco, Tuti-Nameh, das Papageinbuch (Haldimann verlag, Basel). Outra seleção persa é a de Mohammed Qaderi, traduzida por Emile Muler que tornou os 52 contos de Nackchabi em 35 (Paris, 1934) e possuo ambas. Há várias traduções inglesas, francesas e alemãs da versão Qaderi. O tema geral é o seguinte: Meimoun, filho do rei Ahmad Soltan, casa com a princesa Khodjesté e presenteia- a com um papagaio falador. Viajando, a mulher é tentada por um estrangeiro e o papagaio entretém a impaciência amorosa da princesa com uma série de contos. No último momento regressa Meimoun e sabendo da verdade mata a esposa. Em Portugal só conheço a variante "Um papagaio", de Ataíde, no Contos Tradicionais do Algarve, vol. I, 251, Tavira, 1900. Há outras versões castelhanas.
  • O Velho AmbiciosoUm velho tinha um filho muito trabalhador. Não podendo ganhar a vida como desejava em sua terra, despediu-se do pai e seguiu viagem para longe a fim de trabalhar. A princípio mandava notícias e dinheiro mas depois deixou de escrever e o velho o julgava morto. Anos depois, numa tarde, chegou à casa do velho um homem e pediu agasalho por uma noite. Durante a ceia conversou pouco e deitou-se logo para dormir. O velho, reparando que o desconhecido trazia muito dinheiro, resolveu matá-lo. Relutou muito mas acabou cedendo à tentação e assassinou o hóspede, enterrando-o no quintal do sitio. Voltou para a sala e abriu a mala do morto. Encontrou as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa. Cheio de horror, o pai e matador foi entregar-se à justiça e morreu na prisão, carregado de remorsos. Mons. Alfredo Pegado, Natal, Rio G. do Norte.
  • Page 179Antti Aarne, nos resumos dos contos não incluídos na sua classificação menciona, sob o nº 939, a narrativa de O. Loorits, tirado do seu livro de contos da Livônia: "The son return home from military service, brings a large sum of money with him, and is unwinttingly killed by his parents (N. 321), The Types of the Folk-Tale, a Classification and Bibliography, FF Commucations n° 74, Helsinki, 1928, p. 237. Tradução do prof. Stith Thompson, da Universidade de Indiana, Estados Unidos. Humberto de Campos narra no conto O Seringueiro (O Monstro e Outros Contos, Liv. Editora Marisa - 1932, p. 101) um caso idêntico passado com um seringueiro, Joaquim Lucrécio, que, voltando com um dinheirinho do Amazonas, é morto pela irmã e pelo cunhado, para o furtarem, e que descobrem o parentesco, pela assinatura de uma conta achada na bagagem da vítima.
  • O Mendigo RicoUm rapaz rico, filho único, dono de fazendas e sítios, foi uma vez procurado por um aleijado maltrapilho, montando um velho cavalo. O rapaz deu-lhe de comer, abrigo e uma esmola quando o pobre partiu. Meses depois o aleijado voltou e foi recebido pela mesma forma. Ao despedir-se pediu que o moço o visitasse. "Ora, que casa terá esse miserável! Vive embaixo duma árvore. Não me incomodo", pensou o rapaz. Quando o aleijado apareceu, para nova esmola e hospedagem, repetindo o convite, o rapaz prometeu e, tempos passados, viajou com um criado, indo visitar o aleijado. Na cidade ninguém conhecia o tal pobre, mas o rapaz tanto virou e perguntou que ensinaram a residência de um capitão, homem rico, que era aleijado. O rapaz foi a essa casa e reconheceu no rico proprietário o aleijado que por três vezes lhe pedira esmola. O aleijado tratou-o como a um príncipe, mostrando sua riqueza, engenhos de cana, lojas de ferragens e fazendas, padarias, gado, mil cousas. Tinha uma filha bonita e o moço começou gostando dela. No fim de três dias despediu-se e viajou. No meio do caminho, na hora do descanso, o rapaz disse ao arreeiro que se não casasse com a moça ficaria doido. O criado aconselhou que ele voltasse. O moço voltou, sendo hospedado com toda alegria e trato. Na ceia, entregou ao capitão uma carta pedindo a mão de sua filha e este leu e passou para a moça, que aceitou, se o pai fosse do mesmo parecer. O capitão disse que tinha prazer em fazer o casamento, mas punha apenas uma condição: era o rapaz pedir esmolas durante seis meses. O rapaz ficou assombrado com aquela obrigação e não quis dar sua palavra. Voltou para casa, mas no meio do caminho estava arrependido. Ouvindo os conselhos do companheiro,
  • Page 181tornou a voltar para a casa do capitão e aceitou a ideia de pedir esmolas seis meses. Chegando em sua casa, o rapaz contou tudo a sua mãe, que ficou espantada com aquela conversa. Acabou concordando. O arreeiro foi comprar todos os preparos, chapéu de palha, alpercatas, mochila, muleta. A mãe escolheu roupa mais velha e saíram os dois, o moço e o criado por esse mundo, implorando a caridade. No fim dos seis meses voltaram os dois e contaram o dinheiro que ia a cinquenta contos. A velha mãe disse que o filho podia adiar o casamento e tornar a pedir outros seis meses. Ela ficou dizendo a quem perguntava pelo filho que ele se achava na fazenda, ferrando o gado. O capitão aceitou o adiamento e o rapaz tirou outros cinquenta contos de esmolas. Depois, fizeram o casamento com tanta festa que até eu dancei.
  • Mata-SeteEra uma vez um alfaiate muito pobre e muito medroso. Um dia estava ele costurando e sendo importunado pelas moscas. Deu uma pancada com a mão em cima da mesa e reparou que havia matado sete moscas de uma vez. Ficou radiante e escreveu numa tábua: "Mata sete de uma vez" - e pregou esse letreiro na porta.
  • Page 183e acabou de matar os dois grandões, levando as orelhas para mostrar ao rei que o festejou muito. Não satisfeito, o rei mandou que Mata-Sete trouxesse o touro bravio que não deixava pessoa alguma passar por perto da cidade. Mata-Sete foi morrendo de medo, mas não tinha outro jeito. Chegou numa campina e avistou o touro, um bicho enorme e feroz que correu imediatamente para cima do rapaz. Mais que depressa Mata-Sete se colocou diante de uma árvore e esperou o touro, fazendo toda a sorte de gestos. Quando o touro estava pega não pega, Mata-Sete rodou para trás da árvore e o touro deu tamanha cabeçada que ficou desacordado no chão. Mata-Sete amarrou-o bem amarrado e correu para avisar o rei do que tinha feito.
  • Page 184A princesa já queria mesmo casar com o rapaz, mas o rei não se resolvia e mandou dez soldados prenderem Mata-Sete e sacudirem ele fora do reino. Mata-Sete vivia esperando uma maldade, por isso viu os dez soldados subindo a escada para o quarto onde ele estava. Fez que estava dormindo e falou alto. -Vida triste! Inferno! Acabo aleijado por não brigar! Não aparece quem queira lutar comigo! Diabo! Se aparecesse agora um grupo de soldados era uma beleza! Uns dez soldados que eu matasse de um golpe acalmavam meu gênio!
  • As Três VelhasUma viúva tinha uma filha muito bonita e religiosa que agradava a toda a gente. A viúva queria casar a filha com homem rico e para isso fazia o possível. Na esquina da rua onde moravam as duas havia uma casa de comércio afreguesada, cujo dono era solteiro e de posses. A viúva fazia as compras nessa casa e vivia estudando um meio de conseguir fazer com que o homem conhecesse e simpatizasse com sua filha. Um dia ouviu-o dizer que só se casaria com uma moça trabalhadeira e que fiasse muito mais do que todas na cidade. A viúva comprou logo uma porção de linho, dizendo que era para a filha fiar, e que esta era a melhor fiandeira do mundo.
  • Page 186habilidades da filha e pediu uma porção ainda maior de linho. O negociante espantado pelo trabalho da moça não quis receber dinheiro pela compra. Vendo que as cousas se encaminhavam como ela desejava, a viúva voltou a dar o linho para a filha fiar até a manhã seguinte. Novamente a moça se agoniou muito e foi chorar na cozinha. Novamente apareceu uma velha, a segunda das três, que lhe propôs ajudá-la se ela a convidasse para o seu casamento e a chamasse tia por três vezes. A moça aceitou e o linho ficou pronto num minuto. A viúva voltou correndo à loja do homem rico, mostrando o linho fiado e gabando a filha. O negociante estava simpatizando muito com a moça que fiava tão depressa e tamanhas qualidades. A viúva voltou com uma carga de linho enorme, entregando aquela penitência à sua filha.
  • Page 187-Dê cá um abraço, minha tia! Vamos sentar, minha tia! Quero apresentá- la ao meu marido, minha tia! Foram para o jantar e o marido e convidados não tiravam os olhos de cima das três velhas que eram feias como o pecado mortal.
  • Page 188muito devota das almas. Disse um dia às amigas que se casasse com o rei havia de fiar, bordar e engomar uma camisa como ele nunca tinha vestido. O rei mandou-a buscar e exigiu a satisfação da promessa, sob pena de morte. Casou com o rei e no outro dia apareceram três velhas, altas, magras, esquisitas, dizendo-se tias da rainha. Uma tinha corcovas, uma giba enorme, a segunda olhos esbugalhados e vermelhos e a última braços tão longos que quase arrastavam no chão. Quando o rei perguntou a razão explicaram que a corcunda provinha de tanto engomar, a segunda de tanto bordar e a terceira de tanto fiar. O rei, com medo que a mulher ficasse feia como as velhas, deu ordem para que jamais ela pegasse num fuso para fiar, num ferro para engomar ou numa agulha para bordar. "Contos e Fábulas da Bahia", p. 322.
  • O Conde-PastorNão havia ninguém mais orgulhoso que a princesa Sidônia. Era muito bonita e ainda se julgava mais. Todo mundo era indigno de olhar para ela e nem respondia aos cumprimentos. O rei seu pai vivia desgostoso do gênio insuportável de sua filha. Quando chegou na idade do matrimônio, o rei mandou convidar os príncipes e as pessoas importantes para que a princesa escolhesse um noivo. Vieram todos e o rei deu festas deslumbrantes. Apesar de tudo, a princesa não se engraçou de nenhum moço e andava de cara fechada e andando duro sem prestar atenção aos convidados. No fim das festas o rei perguntou quem ela havia preferido e Sidônia disse que nenhum agradara.
  • Page 190Sidônia não queria obedecer mas o pastor obrigou-a. Partiu para o campo e a princesa fez todo o serviço de casa, indo buscar água no rio e lenha no monte. Assim correram os dias, sempre a moça trabalhando de criada para lavar as panelas.
  • Page 191pastor bruto e feio mas é o marido que Deus me deu e que eu gosto. Não o troco pelas riquezas nem pelo melhor palácio desse mundo... Assim que Sidônia disse essas palavras, o barbudão começou a rire, arrancando as barbas fingidas, mostrou o rosto, e a moça, assombrada, reconheceu o pastor seu marido. -Eu sou o conde Lourenço, meu bem. Disfarcei-me de pastor combinando tudo com o rei seu pai. Queria também ver se você gostava mesmo de mim e não do que eu possuía. Agora em vez de uma princesa vaidosa tenho uma mulher cheia de virtudes e de bondade. Esses senhores são todos da minha família e aqui vieram conhecer você.
  • Joãozinho e MariaDiz que era uma vez um lenhador muito pobre e carregado de família, vivendo numa casinha no meio das matas. Apesar de muito trabalhador passava fome. Numa noite, depois da ceia, a mulher disse que não havia cousa alguma que comer na manhã do outro dia. O homem começou a imaginar e acabou dizendo: - Não vale a pena eu estar com meus filhos juntos comigo para que morram de fome. É melhor deixar uns dois na mata. Pode ser que encontrem uma alma caridosa e Deus tenha pena deles, que são inocentes. A mulher não dizia sim nem não e rezava.
  • Page 193e havia dinheiro para vários dias. Fizeram muita festa e foram dormir. Quando o dinheiro acabou e a fome apareceu, o lenhador começou remoendo a ideia de deixar os dois filhos no meio da mata. Joãozinho não pôde ir apanhar as pedrinhas brancas porque a porta estava fechada e a chave tirada. Guardou o pão que recebera para a marcha e, quando amanheceu, os três seguiram viagem. Joãozinho ia ficando atrás e espalhava pedacinhos de pão. Os passarinhos comiam.
  • Page 194para manjá-los. Caçou uma lagartixa, cortou-lhe o rabo e toda vez que a velha trazia a comida e perguntava como eles estavam, respondia: - Vamos bem.
  • Page 195compasso e pulou no coivarão, batendo as brasas e labaredas, queimando-se toda. E começou a gritar como uma desesperada: -Água, meus netinhos!
  • O Pequeno PolegarHavia um casal que tinha doze filhos. Um deles era do tamanho de um dedo polegar e por isso o chamavam Pequeno Polegar. Essa família, que era muito pobre, e às vezes não tinha o que comer, resolveu abandonar seus filhos na floresta. O Pequeno Polegar, ouvindo a conversa, foi buscar umas pedrinhas nas areias das margens do rio. Pela manhã, o pai levou-os para a floresta e disse: - Fiquem aqui que eu vou cortar lenha.
  • Page 197A Papona deitou-os todos numa cama, perto de outra em que estavam dormindo as filhas do Papão, cada uma com uma coroa de ouro na cabeça. Quando o Papão, a Papona e todos adormeceram, o Pequeno Polegar tirou os gorrinhos da cabeça dos irmãos e da sua e trocou-os pelas coroas das filhas do Papão. Este, acordando alta noite, teve vontade de matar as crianças e, pegando na espada, dirigiu-se para o quarto. Lá chegando, no escuro da noite, foi apalpando as cabeças e, encontrando as coroas nas cabeças dos meninos, disse, baixinho: - Arre! que eu ia matando minhas filhinhas!...
  • Page 198Bout d'Homme, Jean Bout d'Homme, Daumerdick, dos irmãos Grimm, Daumerleng, dos austríacos, Swend-tomling e Thaumelin da região escandinava, Maltchick dos eslavos, Tom Thumb dos ingleses, corre toda Europa, estudado, examinado, discutido como um problema. Paul Saintyves dedicou páginas densas de erudição no "Les Contes de Perrault et les Récits Parallèles", 245-318. Gastão Paris escreveu um ensaio, "Le Petit Poucet et la Grande Ourse", 1875, ligando o herói minúsculo à Ursa Maior, como Robert Lehmann-Nitsche faria posteriormente como Saci Pererê. Teófilo Braga recolheu uma variante portuguesa em Porto e Açores onde o chamam "Manuel Feijão". Meu filho informou-me que existia outra versão, onde o Pequeno Polegar era denominado "Miudinho". Uma variante russa chama-o "Dedo Mindinho”. Há, entretanto, dois temas inteiramente diversos com o mesmo título de "Pequeno Polegar", etc. No primeiro mantém-se a tradição de Perrault, como a que transcrevo. A outra, um ser minúsculo, nascido milagrosa ou estranhamente, ajuda os pais viverem, escondendo-se na orelha do cavalo que puxa a charrua, roubando bois, sendo engolido por um lobo, etc. Nessa versão não aparecem os motivos de Perrault, a floresta, o abandono das crianças, o papão, ogre, gigante, a troca das coroas, as botas da sete léguas, etc. A maior divulgação é da segunda fonte. Assim é o "Manuel Feijão", de Teófilo Braga e o "Grão de Milho", de Adolfo Coelho de Afanasiev, etc., etc. O "Periquillo", que o prof. Aurélio M. Espinosa registrou em Córdoba, na Espanha, 158°, II°, dos "Cuentos Populaires Españoles", pertence ao mesmo tipo. É neste sentido, o Mt. 700, de Aarne-Thompson, Tom Thumb.
  • Seis Aventuras de Pedro MalazarteI Um casal de velhos possuía dois filhos homens, João e Pedro, este tão astucioso e vadio que o chamavam Pedro Malazarte. Como era gente pobre, o filho mais velho saiu para ganhar a vida e empregou-se numa fazenda onde o proprietário era rico e cheio de velhacarias, não pagando aos empregados porque fazia contratos impossíveis de cumprimento. João trabalhou quase um ano e voltou quase morto. O patrão tirara-lhe uma tira de couro desde o pescoço até o fim das costas e nada mais lhe dera. Pedro ficou furioso e saiu para vingar o irmão.
  • Page 200No outro dia disse que Pedro trouxesse o carro de bois carregado de pau sem nós. Malazarte cortou quase todo o bananal, explicando que bananeira é pau que não tem nó. O patrão ficou frio. - Zangou-se, meu amo?
  • Page 201o galo cantou, Malazarte acordou a velha e disse que o marido a esperava no curral, e que levasse a outra espingarda, porque ele, Pedro, ia fazer o cerco pelo outro lado. A velha apanhou a carabina e foi, sendo morta pelo fazendeiro com um tiro, certo de que abatia, pelo vulto, o atrevido criado. Assim que a velha caiu, Pedro apareceu chorando e acusando o amo. Este, assombrado, pagou muito dinheiro para não haver conhecimento da justiça e ofereceu ainda mais dinheiro se o Malazarte se fosse embora, sem mais outra proeza. O rapaz aceitou e voltou rico para casa dos pais. II
  • Page 202- Com esse urubu. Urubu falando?
  • Page 203Apeou-se, Malazarte meteu o dinheiro no bolso, cavalgou o animal, picou-o nas esporas e desapareceu para sempre. O dono do passarinho esperou, esperou e, perdendo a paciência ou cutucado pela curiosidade, passou a mão para segurar a mais linda ave do mundo, ficando com ela suja e nauseante, furioso pelo logro e sem poder castigar o astucioso larápio.
  • Page 204brasas e tições, cobrindo de areia, e pôs a panela por cima, fervendo. Os comboieiros que iam passando ficaram admirados de ver uma panela ferver sem haver fogo. Pararam, discutiram e perguntaram se Malazarte a queria vender por bom dinheiro. O sabidão fez-se muito rogado, dizendo ter adquirido aquele objeto em terras distantes, mas terminou vendendo a panelinha. Os comboieiros seguiram jornada, muito satisfeitos da compra que no outro dia verificaram ser mais um logro do endiabrado rapaz. VI
  • Page 205chegando à conclusão de que só iam comer pão e bolachas, o que davam a Pedro quando ele se empregou. Mandou o dono que Malazarte levasse o carro de bois e o metesse numa sala sem passar pelas portas. Malazarte despedaçou o carro, partiu os bois em quatro e jogou tudo pela janela.
  • Page 20616 Edição atual - São Paulo: Global, 2005. (N.E.)
  • O Boi LeiçãoHavia um homem muito rico, dono de uma fazenda muito grande. Entre o "gadame” de sua propriedade, possuía ele, nesta fazenda, um boi que era a "fulô" do curral. Chamava-se o boi, boi Leição. E possuía também um vaqueiro que nunca havia faltado com a verdade. Um dia esse fazendeiro foi visitar um seu compadre, também muito rico, que morava noutra fazenda encostada; e, no meio da conversa, teve ocasião de lhe dizer que tinha um vaqueiro que nunca havia mentido.
  • Page 208companhia faça tudo para lhe agradar e iludir, e quando fizer três semanas deseje comer o “figo” do boi Leição!... Peleje com ele e só me saia de lá depois que ele tiver matado o boi, que o amor de uma mulher bonita consegue tudo no mundo, quanto mais fazer um vaqueiro mentir!... Direitinho como o pai lhe havia ordenado, procedeu a filha. Quando chegou na casa do vaqueiro não tinha ninguém. Sentou-se no batente da porta e ficou esperando. Às 4 horas da tarde, quando o vaqueiro apareceu tangendo uma boiada, avistou, assentada na porta dele, aquela moça, como ele nunca tinha visto tão bonita.
  • Page 209limpa!... A moça tinha fugido. E ao chegar em casa, antes de dar a bênção ao pai, foi logo dando conta do seu desempenho:
  • Page 210"Mas isso não é conversa de homem, não é história que eu conte ao meu patrão, que eu nunca menti...” – disse o vaqueiro consigo mesmo. "Estou perdido!..." Então "vastou" outra vez o cavalo, passou-lhe as esporas novamente, riscou confronte o toco e bradou:
  • Page 211somente para ver o vaqueiro mentir. E ao chegar mais perto, aprumou-se no animal, juntou-o nas esporas com toda força que tinha nas pernas, fez carreira e riscou no terreiro que o "poeirame" subiu; e tirando o chapéu de couro, levantou a cabeça e salvou o patrão:
  • Page 212E no dia do casamento houve uma festa tão grande que abalou todo o pessoal da redondeza. Dançou-se sete dias com sete noites "encastoados". Naquele tempo eu ainda era solteiro, e meti-me no meio e dancei tanto que quase me acabo!... A festa só se acabou no fim do sétimo dia; assim mesmo porque os dedos do tocador do harmônico, de tão inchados que estavam de tocar, não podiam mais arrastar o fole. José Maria de Melo, Colhido da tradição oral, em Viçosa, Alagoas.
  • Page 2133- CONTOS DE ANIMAIS
  • O Sapo e o CoelhoO Coelho vivia zombando do Sapo. Achava-o preguiçoso e lerdo, incapaz de qualquer agilidade. O sapo ficou zangado: - Quer apostar carreira comigo?
  • Page 21517 84, da Coleção Reconquista do Brasil (Nova Série)", as notas ao "Veado e o Sapo", de Sílvio Romero, Folclore Brasileiro-Contos Populares do Brasil, Belo Horizonte, 1985, p. 166-167, vol. 87, da Coleção Reconquista do Brasil (Nova Série). Esta versão paraibana de Souza corresponde ao primeiro tipo, Relay Race, registrado no Brasil pelo general Couto de Magalhães, Edição fac-similar da obra O Selvagem, vol. 16 da 1ª série da Coleção Reconquista do Brasil, Belo Horizonte, 1975. Hartt, Os Mitos Amazônicos da Tartaruga, minhas notas às p. 39-44 (ed. Arquivo Público Estadual, Recife, 1952); Herbert H. Smith, The Amazon, etc., 543-546, citando C. F. Hartt e afirmando: The story is very comm all over the Amazons; barão de Santana Neri, Folk-Lore Brésilien, 191; Sílvio Romero, citado; Tastevin, A Lenda do Jabuti, revista do Museu Paulista, XV, 402; Koch-Gruberg, Von Roraima Zum Orenoco, II°, 139, as fontes clássicas. O prof. Aurélio M. Espinosa reuniu 375 versões destes contos de aposta em corrida (Cuentos Populares Españoles, III°, 333-349, Madrid, 1947). Parson regista cinco versões nas Antilhas e Chandler Harris dá uma variante norte-americana da Geórgia entre Brer Rabbit, o coelho, e Brer Tarrypin, a tartaruga. Outra versão do Uncle Remus o veado, Brer Deer é derrotado por Brer Cooter, o mesmo Tarrypin, a tartaruga invencível. Ocorre nas Filipinas, Dean S. Fansler, Filipino Popular Tales, 428; na Argentina, El Folklore de Santiago del Estero, 260, Orestes di Lullo; em Borneo, Ivor R. N. Evans, Folk-Stories of the Tampassur and Tuaran Districts, British North Borneo, Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, n° 43, 475, Londres, 1913. René Basset, Nouveaux Contes Berbéres, 195-197, Paris, 1897, resume várias notas excelentes no assunto. Os cinco tipos apresentados por este motivo são: a) o animal vagaroso escalona os irmãos ao longo da pista e eles respondem aos gritos do adversário veloz, é precisamente o nosso citado; b) o antagonista mais fraco pendura-se no adversário que o carrega sem saber; c) os dois irmãos colocam-se nas extremidades da pista e o adversário veloz encontra um deles como vencedor embora não tivesse saído do lugar; d) tipo de convergência entre o A (Relay Race) e o B; (Riding on the back), os irmãos incontáveis são dispostos ao correr da pista e o astuto ainda se pendura à cauda do adversário; e) corrida de Atalanta. O animal matreiro distrai o inimigo espalhando pelo caminho objetos sedutores.
  • A Raposa e o CancãoPassara assara a manhã chovendo, e o cancão todo molhado, sem poder voar, estava tristemente pousado à beira de uma estrada. Veio a raposa e levou-o na boca para os filhinhos. Mas o caminho era longo e o sol ardente. Mestre cancão enxugou e começou a cuidar do meio de escapar à raposa. Passam perto de um povoado. Uns meninos que brincavam começam a dirigir desaforos à astuciosa caçadora. Vai o cancão e fala: -Comadre raposa, isto é um desaforo! Eu se fosse você não aguentava! Passava uma descompostura!...
  • Page 217raposa, na boca do lobo, pergunta-lhe onde sopra o vento. O lobo responde e a raposa escapa. O mesmo do galo com a raposa, do rato com o gato. Conf. Mt. 122, The Wolf Loses his Prey. O rato persuade o gato de olhar-lhe o focinho antes de devorá-lo. E foge. A ovelha convence o lobo que deve cantar, K 562, K 561.1. Comum em toda a Europa. Miss Beckwith encontrou o motivo entre os negros da Jamaica. É um episódio clássico do Roman du Renard. Chanteclair é apanhado pela Raposa (Renard) que o leva para a floresta. A galinha Pinta cacareja protestando. Renard, atendendo a uma sugestão do galo, abre a boca para responder aos insultos de Pinta. Chanteclair escapa, voando para um galho de árvore; Leopold Sudre, Les Sources du Roman de Renard, p. 277 e seguintes, Paris, 1893.
  • O Touro e o HomemUm touro, que vivia nas montanhas, nunca tinha visto o homem. Mas sempre ouvia dizer por todos os animais que era ele o animal mais valente do mundo. Tanto ouviu dizer isto que, um dia, se resolveu a ir procurar o homem para saber se tal dito era verdadeiro. Saiu das brenhas, e, ganhando uma estrada, seguiu por ela. Adiante encontrou um velho que caminhava apoiado a um bastão. Dirigindo-se a ele perguntou-lhe:
  • Page 219- Então, camarada touro, encontrou o bicho-homem? – Ah! meu amigo, só com um espirro que ele me deu na cara, olhe em que estado fiquei!
  • Decreto LibertadorHavia um descontentamento muito grande. Inimizades degeneravam em consequências prejudiciais. No reino animal entendia o leão que poderia acabar com esse estado de coisas baixando um decreto. Um decreto que viesse regular a vida - e que acabasse com as competições. Não era possível aguentar mais as reclamações que chegavam de todos os lados. Adotando a medida certamente seria da maior conveniência. E o boato espalhou-se entre os animais que nesse tempo falavam. Lá um dia estava o galo cuidando de descer do poleiro, onde passara a noite toda dormindo e onde de vez em vez soltava o seu canto de vigilância - e de virilidade. A madrugada acabara-se, o dia vinha com o alegre despertar da vida. Nisto quando cogitava de descer para o terreiro, pois era o primeiro que pisava, vindo depois o bando galináceo, foi surpreendido com o tropel de um animal espantado. Olhou e viu a raposa. Pensou que ela iria esconder-se à espera que a noite novamente chegasse. A carreira talvez fosse com esse fim. Mas desde que a raposa avistou o galo subitamente parou e entrou na conversa manhosa.
  • Page 221passado é geral. Muitas festas públicas. E quer saber? É muito justo isso, pois agora podemos viver com segurança. Que história é essa, comadre raposa? Onde foi que a senhora colheu essa novidade? Com franqueza, não estou acreditando nisso não. É uma notícia quase impossível.
  • Page 222grita-lhe: Mostre-lhe a ordem! Mostre-lhe a ordem! É a conhecida Le Coq et le Renard, XV das "Fables" (Livre Deuxième), de La Fontaine. No livro The Types of the Folk-Tale, p. 29, Antti Aarne e Stith Thompson registram, sob nº 62, Peace among the Animals, the Fox and the Cock. O conto n° 225 da coleção do prof. Espinosa, El gallo y la zorra, colhido em Santiponce Sevilha, Espanha, termina a raposa fugindo ao galo, e dizendo: Ya me voy, que pué que a qué no entienda bien la orden. El libro de las Mil Noches y una Noche - trad. de Dr. G. C. Mardrus - Versão de Viscente Blasco Chañes - XVII, 61-68 - invitación á la paz universal (Prometeu Soc. Editorial Germanias. F. S. Valencia, s.d.) 795-796 noites.
  • O Cágado e o TeiúFoi uma vez uma onça que tinha uma filha. O teiú queria casar com ela e o amigo cágado também. O cágado, sabendo da pretensão do outro, disse em casa da onça que o teiú para nada valia e que até era o seu cavalo. O teiú, logo que soube disto, foi à casa da comadre onça e asseverou que ia buscar o cágado para ali e dar-lhe muita pancada à vista de todos e partiu. O cágado, que estava em casa, quando o avistou de longe, correu para dentro e amarrou um lenço na cabeça, fingindo que estava doente. O teiú chegou na porta e o convidou para darem um passeio em casa da amiga onça; o cágado deu muitas desculpas dizendo que estava doente e não podia sair de pé naquele dia. O teiú teimou muito: “Então, disse o cágado, você me leva montado nas suas costas”. “Pois sim, respondeu o teiú, mas há de ser até longe da porta da amiga onça." ." "Pois bem, mas você há de deixar eu botar o meu canquinho de sela, porque assim em osso é muito feio.” O teiú se maçou muito e disse: “Não, que eu não sou seu cavalo!” “Não é por ser meu cavalo, mas é muito feio." Afinal o teiú consentiu. "Agora, disse o cágado, deixe botar minha brida.” Novo barulho do teiú e novos pedidos e desculpas do cágado, até que conseguiu pôr a brida no teiú e munir-se do mangoal, esporas etc. Partiram; quando chegaram em um lugar muito longe da casa da onça, o teiú pediu ao cágado que descesse e tirasse os arreios, senão era muito feio para ele ser visto servindo de cavalo. O cágado respondeu que tivesse paciência e caminhasse mais um bocadinho, pois estava muito incomodado e não podia chegar a pé. Assim foi ganhando o teiú até a porta da casa da onça, onde ele meteu-lhe o mangoal e as esporas a valer. Então gritou para dentro de casa: "Olha, eu não disse que o teiú era meu cavalo? Venham ver!" Houve muita risada e o cágado, vitorioso, disse à filha da onça:
  • Page 224"Ande, moça, monte-se na minha garupa e vamos casar.” Assim aconteceu com grande vergonha para o teiú. Belo Horizonte, 1985.
  • O Sapo com Medo d'ÁguaO sapo é esperto. Uma feita o homem agarrou o sapo e levou-o para os filhos brincarem. Os meninos judiaram dele muito tempo e, quando se fartaram, resolveram matar o sapo. Como haviam de fazer? - Vamos jogar o sapo nos espinhos!
  • Page 226processo do nosso Sapo. Os Xoxa Kafir africanos possuem história igual, sendo que a Tartaruga foge dos macacos empregando as falas enganosas. Heli Chatelain recolheu em Mbaka uma outra versão, possível origem do episódio brasileiro, Mutu Mbaxi, o Homem e a Tartaruga, "Folk-Tales of Angola", XVII, p. 153 (Boston and New York, 1894). A tartaruga de Koka apanhada pelo Homem no mato pergunta como vai morrer. E vai respondendo que a machadinha, as pedras, o fogo, a faca não matarão a tartaruga de Koka. Quando o Homem diz que a jogará n'água, a tartaruga deplora sua morte fatal. Atirada no poço, mergulha e vem cantando: "Mu menia, mu embu dietu! Mu menia, mu embu dietu!" Traduz Chatelain: "In water, in my home! In water, in my home!" Desde 1880 Joel Chandler Harris recolhera uma versão entre os negros norte-americanos dos Estados do Sul, “Uncle Remus, His Songs and His Savings", New York, 1924, p. 7-11, 16-19, onde a raposa prende o coelho por meio de um boneco de breu (tarbaby). O coelho suplica que a raposa o enforque, o afogue, o esfole, mas não atire para o mato (brierpatch) porque morrerá. A raposa cumpre justamente quanto o coelho queria. Atira-o para o mato onde o animalzinho desaparece, gritando: - aqui no sarçal é onde nasci e me criei!
  • O Gato e a RaposaOgato e a raposa iam por um caminho conversando. Contaram muita prosa, muita proeza e afinal de contas falaram no cachorro que era inimigo de ambos. Ai disse a raposa: - Qual o quê! Eu lá tenho medo do cachorro, nada? Para me livrar dele eu tenho mil expedientes.
  • A Raposa e o TimbuA raposa convidou o timbu para visitarem um galinheiro bem provido. A raposa iria às galinhas e o timbu aos ovos e pintos. Entraram por um buraco que mal permitia passagem. Comeram a fartar. A raposa, prudente, apenas satisfez o apetite. O timbu, voraz, empanturrou-se, ficando com a barriga inchada. De súbito ouviram os passos do dono da casa. A raposa passou como um raio pelo buraco e sumiu-se no mato. O timbu meteu-se a tentar, mas ficou engalhado pelo meio do corpo, ganindo como um desesperado. O homem chegou, viu o estrago e disparou a espingarda no timbu, que morreu por ser guloso. João Monteiro, Natal, Rio G. do Norte.
  • A Raposa Furta e a Onça PagaA raposa viu que vinha vindo um cavalo carregado com cabaças cheias de mel de abelhas. Mais que depressa deitou-se no meio da estrada, fingindo-se de morta. O tangerino parou e achou o bicho muito bonito. Não tendo tempo de esfolar, para aproveitar o pelo, sacudiu a raposa no meio da carga e seguiu viagem. Vai a raposa e se farta de mel, pulando depois para o chão e ganhando o mato. O homem ficou furioso, mas não viu mais nem a sombra da raposa. Dias depois a raposa encontrou a onça que a achou gorda e lustrosa. Perguntou se ela descobrira algum galinheiro.
  • Page 230Nota - A raposa fingindo-se de morta para comer peras ou sardinhas é tradicional nos contos europeus. O prof. Espinosa recolheu os dos números 202 e 203, em Valladolid e Sevilha, Cuentos Populares Españoles, III, 435, 437. É o Mt. 1 de Aarne-Thompson, the Thief of Fish. O resumo de Antti Aarne alude à raposa que se finge de morta e é jogada para o carro que leva peixes. Come a fartar e persuade o lobo de imitá-la. O lobo perde a vida na experiência. A história é popular na Europa do norte, incluindo Rússia, entre os indígenas norte-americanos. W. H. I. Beleeck estudou o ciclo de Reynard the Fox in South Africa or Hottentot Fables and Tales, Londres, 1864, incluiu variante, segundo a citação no "The Types of Folk-Tales". É conhecida no continente americano.
  • A PreguiçaEstando a filha com dor de parir, saiu a preguiça em busca da parteira. Sete anos depois ainda se achava em viagem, quando deu uma topada. Gritou muito zangada:
  • A Rolinha e a RaposaLinda rolinha estava no seu ninho, no alto de uma árvore, com seus dois filhinhos. Chegou ao pé da árvore uma raposa e lhe disse: - Bote um dos seus filhos, para eu comer!
  • Page 233Ai, foi que a rolinha chorou de pena e de arrependida! Chorou, chorou, chorou! No outro dia, voltou a raposa e tornou a dizer: - Bote o outro filho, para eu comer!
  • Page 234Uma águia aconselhou a galinha que desafiasse o chacal a cumprir a promessa. No outro dia houve a mesma cena e o chacal ficou desmoralizado, p. 83. Nos contos das cabilas o agressor foi castigado. A águia levou-o no dorso para o país da abundância em pintos, e atirou-o de uma altura imensa. The jackal prayed to God: - Let me fall in water or on a pile of straw. But the jackal fell on a rock and died.
  • A Onça e o BodeO Bode foi ao mato procurar lugar para fazer uma casa. Achou um sítio bom. Roçou-o e foi-se embora. A Onça, que tivera a mesma ideia, chegando ao mato e encontrando o lugar já limpo, ficou radiante. Cortou as madeiras e deixou-as no ponto. O Bode, deparando a madeira já pronta, aproveitou-se, erguendo a casinha. A Onça voltou e tapou-a de taipa. Foi buscar seus móveis e quando regressou encontrou o Bode instalado. Verificando que o trabalho tinha sido de ambos, decidiram morar juntos. Viviam desconfiados um do outro. Cada um teria sua semana para caçar. Foi a Onça e trouxe um cabrito, enchendo o Bode de pavor. Quando chegou a vez deste, viu uma Onça abatida por uns caçadores e a carregou até a casa, deixando-a no terreiro. A Onça, vendo a companheira morta, ficou espantada: - Amigo Bode, como foi que você matou essa Onça?
  • Page 236- Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo... Nunca mais a Onça voltou. O Bode ficou, então, sozinho na sua casa, vivendo de papo para o ar, bem descansado.
  • O Bicho FolharalCansada de ser enganada pela raposa e de não poder segurá-la, a onça resolveu atraí-la à sua furna. Fez para esse efeito correr a notícia de que tinha morrido e deitou-se no meio da sua caverna, fingindo-se de cadáver. Todos os bichos vieram olhar o seu corpo, contentíssimos. A raposa também veio, mas prudentemente de longe. E, por trás de outros animais gritou: - Minha avó, quando morreu, espirrou três vezes. Espirrar é o sinal verdadeiro da morte.
  • Page 238sede de vários dias, murmurava: -Quanto bebes, Folharal!
  • O Macaco e a Negrinha de CeraO macaco saía todos os dias vendendo mingau para ter o seu vintém para comprar o seu confeito. Então, tinha uma moça que era sua freguesa. Um belo dia, o macaco o que fez? Preparou uma panela, botou porcaria dentro, cobriu a panela com uma toalha bem alva e saiu por ali a fora, com a panela na cabeça. Foi direitinho à casa da moça. Quando chegou lá, que a moça foi se aproximando com a tigela para botar o mingau, ele derramou a porcaria em cima dela, deu um pinote e desembandeirou pela rua, nas carreiras - qui-qui-qui, qui-qui-qui... A moça ficou toda suja, toda lambuzada e, muito furiosa, disse:
  • Page 240cabeça também segura. Então a moça mandou agarrá-lo e matá-lo, para comer. Quando o estavam matando, ele pegou a cantar:
  • Page 241união de dois motivos. Muitas vezes também ouvi contar, separadamente os dois contos: a prisão do macaco pelo boneco de cera e a morte de quem comeu uma carne (peixe, coelho, veado) encantada. A outra versão é a de Sílvio Romero. O boneco de cera é o tarbaby, de universal presença nos folclores. O prof. Aurélio M. Espinosa, da Universidade de Stanford, U. S. A., reuniu 311 versões de tarbaby, da Índia, Lituânia, Espanha, América Espanhola (35), Cabo Verde, Brasil, Pequenas Antilhas, Guiana Holandesa, indígenas do Rio Orenoco, América do Norte, Filipinas, África (26), Ilha Maurício, anglo-africanas, dos negros americanos, Antilhas Inglesas. O prof. Espinosa recusa a fonte africana e é partidário da origem oriental. O boneco de cera provirá da Jataka 55, velha de quase dois mil anos, publicada por E. B. Cowell, "The Jataka or Stories of the Budha's Births". O Bodhisatta foi vencido por um gigante que tinha o pelo pegajoso. O herói bateu-lhe com as mãos, os pés, a cabeça, ficando preso inteiramente. O ogre perdoou-lhe a vida. O prof. Espinosa lembra que a lebre, o coelho, são personalizações do Bodhisatta. Setenta e cinco por cento das histórias do tarbaby trazem o coelho (Rabbit) como o personagem. Assim constitui o Mt. 175 de Aarne-Thompson, The Tarbaby and the Rabbit. A história ainda corre entre os africanos Kaffir, Rodésia, Hotentotes, etc. Sobre o assunto, prof. Espinosa: "Notes on the Origin and History of the Tar-Baby Story", Journal of American Folk-Lore, tomo XLIII, 168 (1930), "European Version of the Tar-Baby Story", Folk-Lore (Londres, vol. XL, nº III, setembro de 1929), "Sobre los orígenes del Cuento del Muñeco de Brea", separata do Boletim de la Biblioteca Menéndez y Pelayo, Santander, 1931, "More Notes on the Origin and History of the Tar-Baby Story", Folk-Lore (Londres), vol. XLIX, junho de 1938, etc. A primeira versão no idioma inglês é a de Joel Chandler Harris, em 1880, "Uncle Remus, His Song and His Savings", no conto "Wonderful tar-baby story", entre a raposa e o coelho, onde há também o episódio do Sapo com medo d'água, da literatura oral brasileira. Vinte e três anos antes, em 1857, August Schleider publicava em Weimar uma coleção de contos da Lituânia ("Litauische Marchen") onde aparece um cavalo coberto de breu para prender, como realmente prende, a uma feiticeira. No "More Notes" (Londres, Folk-Lore, Volume XLIX, junho de 1938) o prof. Espinosa publicou um esquema gráfico do percurso do tema, irradiando-se na Índia (p. 180). O dr. W. Norman Brown tem publicado ensaios sobre o Tarbaby, dizendo-o africano. Ver "The Tar-Baby Story at Home", Scientific Monthly", XV, 227-33, 1922, e "The Stickfast Motif in the Tar-Baby Story", Twenty-Fifth Anniversary Studies, Philadelphia Anthropological Society, 1937. A versão brasileira do Tarbaby que Sílvio Romero registrou no seu "Contos Populares do Brasil" tem o nome de "O Macaco e o Moleque de cera", ouvida no Estado de Sergipe. O animal (ave ou peixe) que fica falando ou cantando quando é apanhado, cozido, devorado e ainda fala no ventre da mulher, rebentando-a e voltando, intacto, a viver, é outro tema igualmente popular. Silva Campos (p. 209-110, conto XXVIII). "O Rei dos Pássaros" narra o episódio de um caçador que encontrou um pássaro muito bonito que cantou, pedindo que não o matassem. O caçador matou-o. Foi depená-lo o pássaro cantou que não o depenassem. Cortou-o em pedaços e o pássaro cantou pedindo que não o cortassem. Colocaram-no na panela, puseram-no no prato, comeram-no e sempre o pássaro cantando e pedindo. Finalmente estourou e o homem caiu morto. Arthur Ramos ("O Folk-lore Negro do Brasil", p. 185, Rio, 1935) recolheu uma variante das Alagoas. Depois de ingerido, o pássaro sai durante a defecação, acompanhado por uma porção de diabinhos pretos, pulando e cantando. Heli Chatelain ("Folk-Tales of Angola", conto IV, p. 82) registra a história Muhatu, Uasema Mbiji. A mulher que desejava peixe, de Luanda, o peixe apanhado, canta em todas as ocasiões e, devorado, pergunta por onde deverá sair. Saia por onde quiser, disse por fim a mulher. O peixe saiu, rebentando a mulher pelo meio. O Padre dr. Constantino Tastevin, em carta de 12-XI-1935, em Paris, informava-me haver publicado na revista "Les Recherches Congolaises" um conto que ouvira entre os negros Ba Kamba, da margem
  • Page 242esquerda do Nyari, altura de Mandiga, Congo-Oceano, entre Point-Noire e Brazavile. É o mesmo tema sendo o macaco, o coelho, o peixe substituídos por um antilope. O animal cantou todo o tempo, durante todas as operações e quem o comeu morreu. Jogaram o resto no mato e o antílope reconstituiu-se e desapareceu. Dizia-me o Pe. Tastevin, professor de Etnologia do Instituto Católico de Paris: "Essa fábula é encontrada - equivalente - em toda esta região. Os negros creem que os maus viram antilope, elefante, etc., depois da morte, mas são animais encantados". As duas versões brasileiras, a de Sílvio Romero e a de Silva Campos, idênticas, mostram a interessante fusão de dois temas, a do tarbaby com o animal sacrificado e vingativo, distintos noutros continentes. Incluo uma outra versão brasileira, de Minas Gerais, que o prof. Lindolfo Gomes publicou no seu "Contos Populares", 1, p. 82, "O Macaco e a Velha", onde há convergência do boneco de cera e do animal vingador. Em Portugal, o episódio é denominado "Homem de Visgo" e pertence ao ciclo de Pedro Malazartes, segundo J. Leite de Vasconcelos, "Tradições de Portugal", p. 294-295, "Pedro Malazarte e o homem de visgo", Porto, 182. Há uma curiosa modificação numa variante brasileira do Amazonas, que o barão de Sant'Ana Neri registrou no seu "Folk-Lore Brésilien" (Paris, 189, p. 208). O macaco, grande ladrão de banana, é preso pela mulher porque esta cobriu as frutas com resina. Não há o boneco. Sant'Ana Neri registrou o "Tarbaby" clássico, n° 8. O prof. Espinosa recolheu uma versão em San Esteban de Muñama, Avila, "Sansón", 35°, tomo-I, p. 80. Sansão, gigantesco, comilão e bruto, foi preso por um hombre de pez (Cuentos Populares Españoles). O prof. Aurélio M. Espinosa, da Stanford University, reuniu 318 versões deste conto. Ver minhas notas ao conto de Sílvio Romero, "O macaco e o moleque de cera", Contos Populares do Brasil, 175-176, Belo Horizonte, 1985. Coleção Reconquista do Brasil, vol. 87.
  • A Aranha-Caranguejeira e o QuibungoHouve uma seca muito grande e não tinha nada para os bichos comerem. Então, apareceu uma árvore cobertinha de frutas maduras, muito doces, e todos eles foram comer. Só a aranha-caranguejeira não pôde ir, porque tinha de atravessar um rio muito largo para chegar ao pé da árvore. Passou o urubu e a aranha disse: - Oi! Urubu, me leva, que eu também quero ir comer uma fruta.
  • Page 244fizeram a cama dentro do ninho do jacaré, em cima dos ovos. Assim que a aranha se agasalhou, foi recomendando: - Compadre, mande me passar bem cedo.
  • Page 245come crianças. Recôncavo da Bahia) pescando e atirando os peixes para trás das costas. Foi chegando-se devagar, e começou a comer os peixes, que, quando o quibungo acabou de pescar e foi apanhá-los, não encontrou um só. Disse o quibungo: - Ah! Foi você, aranha, que comeu os meus peixes? Eu quero já eles pra aqui.
  • Page 246Qual nada. O quibungo inchou nas coronhas, mas foi debalde. Estava arrochado que não podia nem dizer piu. A aranha, aí, deu uma risadinha gostosa, puxou por uma quicezinha bem amolada começando a cortar os pedacinhos de carne do quibungo e a comê-los. O pobre gritava pelo rei de França. Porém a aranha bem de seu. Quando encheu o bucho, foi-se embora. No dia seguinte, voltou e tornou a comer um bocado do quibungo. Assim fez todos os dias, até que o deixou nos ossos. A todo bicho que passava, o quibungo pedia para lhe cortar os cipós que o prendiam ao toco. Mas nenhum quis fazer-lhe o favor, dizendo:
  • Page 247Respondeu a aranha, de dentro do couro, dando um suspiro muito comprido: -Ai! Amigo quibungo... hum! Quem me pôs assim neste estado que você está vendo foi aquela malvada da aranha-caranguejeira, aquela excomungada!
  • Page 248séculos no continente negro onde nasceu e emigrou. Uma aranha agindo na Bahia sem influência cristã moralizadora. Naturalmente os motivos não são privados da África no plano da ferocidade natural. A Onça amerindia nos contos de Couto de Magalhães é igual à aranha africana. Sobre o 18
  • Page 2494- FACÉCIAS
  • O Caboclo, o Padre e o EstudanteUm estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhes numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividi-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios. Todos aceitaram e foram dormir. À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o. Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O frade disse ter sonhado com a escada de Jacob e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara já dentro do céu à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou:
  • Page 251XII, reunião de contos e apólogos morais, coordenados pelo judeu converso Pedro Afonso, com dois burgueses e um camponês. No século XVI, Giraldi Cintio incluiu o episódio no seu Eccatomiti, dizendo-o ocorrido em Roma, no ano de 1527, sendo os personagens um filósofo, um astrólogo e um soldado. A tradição popular encarna infalivelmente os vitoriosos do amor e da fortuna nos pobres, nos humildes, nos desprotegidos. Está nisto a suprema ironia e a suprema bondade do Folclore. É o Mt. 1926 de Aarne-Thompson, Dream Bread. O resumo de Antti Aarne diz que três peregrinos combinaram que o último pão fosse comido por quem tivesse o mais lindo sonho. Um dos peregrinos comeu o pão e disse ter sonhado com a morte dos dois companheiros, FFC. 74, p. 189. No recente A Treasury of American Folklore, de B. A. Botking, New York, 1944, 452, The Three Dreams se passa entre dois irlandeses e um judeu. Cf. D. P. Rotunda, Motif-Index of the Italian Novelia in Prosa, Bloomington, 1942, K 444, Dream sausage (bread): the most wonderful dream.
  • A Velha AmorosaApesar de bem idosa, passada nos anos e em tempo de desiludir-se, uma velha apaixonou-se por um rapaz que tinha direito de parecer-lhe neto. Começou a velha a importunar o moço, acompanhando-o para toda a parte, espalhando a notícia de seu namoro e fitando-o escandalosamente no templo sagrado. O rapaz ia ficando aborrecido com a insistência, embora houvesse rido ao principiar, mas os seus amigos faziam toda sorte de troças, chamando-o avozinho, dindinho e mais nomes que usamos para os anciãos. Como a velha não esmorecesse na perseguição amorosa e o rapaz não pudesse conter sua cólera, resolveu livrar-se da falsa noiva. Encontrando-se com ela, entabulou conversa, entrou no assunto, perguntando se era verdade sua inclinação por ele. A velha, inebriada, tudo confirmou com abundância de palavras e gestos. O moço exigiu uma prova de constância. A velha prontificou-se para cumprir quantas fossem solicitadas.
  • Page 253Amanhã casada. Foi indo, batida pela intempérie, até pela madrugada, quando, caida no chão, queimando de febre, foi levada para a casa e visitada pelo médico que a desenganou. Morreu dias depois, livrando o moço da sua teimosa paixão serôdia. Em vez de pedir perdão a Deus pelos muitos pecados, a velha ainda murmurou, pensando no que o Mundo lhe negara.
  • A Gulosa DisfarçadaUm homem casara com excelente mulher, dona de casa arranjadeira e honrada mas muito gulosa. Para disfarçar seu apetite fingia-se sem vontade de alimentar-se sempre que o marido a convidava nas refeições. Apesar desse regime, engordava cada vez mais e o esposo admirava alguém poder viver com tão pouca comida. Uma manhã resolveu certificar-se se a mulher comia em sua ausência. Disse que ia para o trabalho e escondeu-se num lugar onde podia acompanhar os passos da esposa. No almoço, viu-a fazer umas tapiocas de goma, bem grossas, molhadas no leite de coco, e comê-las todas, deliciada. Na merenda, mastigou um sem- número de alfenins finos, branquinhos e gostosos. Na hora do jantar matou um capão, ensopou-o em molho espesso, saboreando-o. À ceia, devorou um prato de macaxeiras, enxutinhas, acompanhando-as com manteiga.
  • Page 255Nota - Sílvio Romero coligiu essa facécia em Pernambuco, A Mulher Dengosa. Teófilo Braga incluiu a versão de Portugal, provinda da Cidade do Porto no Contos Tradicionais do Povo Português, onde é o 83°. A resposta do marido é então: – “Chovia miudinho – Como os formigos que almoçaste - Se chovesse graudinho - Como as migas que jantaste - Eu viria ensopadinho - Como os frangos que ceaste". Aurélio M. Espinosa incluiu no Cuentos Populares Españoles duas variantes, uma de Jaén, 44°, La Mujer que no comia con su marido, e outra de Fresno, Santander, 45°, El Ama del Cura. O final da primeira, mais típica, é assim: - "Mia, Maria, caía una agua tan menuíta como er pan e miga que te almorzaste, y si no me meto debajo der vuelo e la tortilla que te merendaste me pongo má negro que er gallo que te cenaste". Um dos indícios de antiguidade desse episódio é a hora da ceia, antes do crepúsculo. O processo de adaptação dos versos à culinária brasileira diz igualmente da dispersão da historieta por todo o Brasil.
  • A Roupa do ReiEra uma vez um rei tão vaidoso de sua pessoa que só faltava pisar por cima do povo. De uma feita procuraram-no uns homens que eram tecelões maravilhosos e que fariam uma roupa encantada, a mais bonita e rara deste mundo, tendo o condão de só poder ser enxergada por quem fosse filho legítimo. O rei achou muita graça na proposta e encomendou o traje, dando muito dinheiro para sua fatura. Os homens trabalhavam dia e noite num tear vazio, cosendo com linha invisível, um pano que ninguém via. O rei mandava sempre ministros visitarem a oficina e eles voltavam deslumbrados, elogiando a roupa e a perícia dos alfaiates. Finalmente, depois de muito dinheiro gasto, o rei recebeu a tal roupa e marcou uma festa pública para ter o gosto de mostrá-la ao povo.
  • Page 257Nota - Na coleção de contos orientais, "Libro de Patronio ou do Conde Lucanor", de dom Juan Manuel (século XV) encontra-se esse episódio, divulgado durante a Idade Média. Andersen transformou-o literalmente, incluindo-o num dos seus "Contos", variante dinamarquesa que Teófilo Braga traduziu e há versão de Guerra Junqueiro e de Ramalho Ortigão ("As Farpas", tomo IV, p. 5. Lisboa, 1888). É o Mt. 1620 de Aarne-Thompson, The King's New Clothen, (K 445). "An impostor feigns to make clothes for the king and says that they are visible only to those of legitimate birth. King and courtiers are all afraid to admit that they cannot see them". Types of the "Folk-Tales", p. 189. Contos para a Infância, Lisboa, 1913, p. 109, "O Fato novo do Sultão" - Guerra Junqueiro. Contes d'Anderson, versão francesa de D. Soldi, Paris, 1920, Les habits neufs du Grand Duc, 21. No Livro de Los Ejemplos del Conde Lucanor y de Patronio, Juan Manuel, ed. Losada Buenos Aires, 1942, o conto é o XXXII, De lo que contesció a un rey con los burladores que fizieron el pano. O livro de dom Juan Manuel é de 1335, 51 exemplares de origem oriental em sua maioria.
  • Page 258Adivinha, Adivinhão! Era uma vez um homem muito sabido mas infeliz nos negócios. Já estava ficando velho e continuava pobre como Job. Pensou muito em melhorar sua vida e resolveu sair pelo mundo dizendo-se adivinhão. Dito e feito. Arranjou uma trouxa com a roupa e largou-se. Depois de muito andar chegou ao palácio de um rei e pediu licença para dormir. Quando estava ceando o rei lhe disse que o palácio estava cheio de ladrões astuciosos. Vai o homem e se oferece para descobrir tudo ficando um mês naquela beleza. O rei aceitou. No outro dia o homem passou do bom e do melhor e não descobriu cousa nenhuma. Na hora de cear, quando o criado trazia o café, o adivinho exclamou, referindo-se ao dia que passara:
  • Page 259Todos acabaram de fazer o serviço e o adivinho mandou que mostrassem a palma da mão. Dois homens estavam com as mãos limpas e os demais sujos de fuligem. -Prendam estes dois que são os ladrões da coroa!
  • Page 260O Homem que Pôs um Ovo! Um marido tinha uma mulher muito gabola de saber guardar segredo. Vivia dizendo que as outras eram saco rasgado e ninguém podia confiar senão no juízo dela. Tanto se gabou e se gabou que o marido pensou em fazer uma experiência para ver se a mulher era mesmo segura de língua.
  • Page 261surra de preceito, que a deixou de cama, toda doida e com panos de água e sal. Depois o homem saiu contando como o caso começara e a mulher ficou desmoralizada. Por isso é que os antigos diziam que:
  • Page 262amiga disse que quatro, e espalhandose o segredo de orelha em orelha com toda a precaução necessaria, foi-se augmentando-se de boca em boca o numero dos ovos. Fnalmente antes da noyte era publico em toda a Cidade, que o homem tinha posto hum cento delles. Não tenho prova nem história que mostre melhor o muito que pesa o segredo às molheres para o levarem muito longe. Como V. M. não quer discurso sobre a prova, acabo a carta disendo a V. M. que conheço muitos homens que são molheres. Declaro que nesta mesma materia, e em todas as de servir a V. M. declaro que me achará sempre prompto. Guarde Deus a V. M. muitos anos. Amigo, e Criado de V. M. Viena de Áustria 12 de Dezembro de 1736. F. X. D. O."
  • As Irmãs TatasEram quatro irmãs tatibitates e a mãe delas tinha muito desgosto com esse defeito. Como as queria casar, aconselhava que não falassem diante de gente estranha, dando uma impressão má. Quem falar, não casará - ameaçava a velha.
  • Mostrando as PrendasTrês moças vaidosas receberam presentes muito bonitos, um anel, um par de brincos e uns sapatinhos de baile, todos obra de luxo e vistosos. Um dia receberam elas uma visita e, para mostrar os presentes, chamando atenção sobre eles, imaginaram uma cena que foi assim:
  • As Três Favas MágicasEra uma mulher que comia escondida do marido. Na hora do almoço ou jantar sempre dizia não ter fome ou comia tão pouquinho que assombrava. O marido acabou ficando desconfiado porque uma criatura humana não podia viver com tão pouco alimento. Queria acabar com aquele fingimento da mulher e procurou um amigo muito entendido e este lhe deu três favas dizendo que as botasse uma debaixo de cada pedra da trempe. O marido assim fez sem que a mulher visse. E foi para o trabalho. Quando o almoço se aprontou, a mulher preparou o prato para comer e, assim que sua mão tocou na tampa da panela, uma voz disse alto:
  • Page 266.. Se é seu costume!... Não pôde comer escondida e acabou o fingimento. O prof. Aurélio M. Espinosa registra a versão de Vilafranca de La Sierra, Avila, "La mujer golosa”, nº 46 dos Cuentos Populares Españoles, 1, p. 99. A bruxa dá três favas e estas dizem sempre que a mulher tenta alimentar-se na ausência do esposo: Y que se lo come todo y sin su marido?
  • O Menino Sabido e o PadreUm padre, que andava de viagem, chegou, um dia, a uma casa, à beira da estrada e próxima de um rio, onde encontrou um menino de cócoras, junto a uma panela que fervia o fogo. - Que estás fazendo? - perguntou ao menino.
  • Page 268- Não é padre? - Padre, não! Papa-hóstia! – disse o mestre, e... bolo!
  • Page 269p. 80, Belém do Pará. 1930. Nota - Gustavo Barroso registrou uma outra versão dessa história no seu "Ao Som da Viola", p. 620, "A vingança do menino" (Rio de Janeiro, 1921). O prof. Espinosa registra páginas semelhantes, recolhidas em Burgos, Zamora e León, nº 57, "El Agnus Dei”, nº 58 “Ladóisima próisima” e 59 “La Chipiritaina". O final desta última dá ideia de identidade do processo: - Señor Cura, usté que está en los Altos de San Sebastián, deje la Prójima Nostra, calce los Calzavitatis, que aquél Cazalosrates sube y baja por las Estinencias, lleva la Grande Alegria en el rabo, y si no baja usté a encharle da Grande Abundancia puede ser que nos queme la Chipiritaina! Altos-se-San-Sebastián são leitos, Prójima Nostra é a criada ou ama, Calzavitatis são sapatos, Calzalosrates é o gato, Estinencias são as escadas, Grande-Alegria é fogo, lume, Grande-Abundância é água e Chipiritaina é casa. Na versão do "Ao Som da Viola" o menino, repetindo a lição ensinada à custa de palmatória, pergunta-lhe o patrão quem fizera toda aquela tremenda alteração, respondeu, como Ulisses a Polifemo, ninguém!
  • O Caboclo e o SolUm fazendeiro apostou com um caboclo tantos para quem em primeiro lugar visse, de manhã, o primeiro raio do sol nascente. Ambos foram de madrugada para o terreiro da fazenda. Estava escuro. O branco ficou de pé, olhando o nascente, à espera. O caboclo sentou-se numa pedra de costas para ele, olhando o poente. Intimamente, o fazendeiro ria da asneira do outro. De repente, o caboclo grita: - Meu amo, o sol! O sol!
  • O Conselho do Doutor DoidoUm rapaz rico e solteiro desejava casar-se e começou a procurar noiva. Um dia mandou preparar sua carruagem e passou por uma rua da cidade. Mandou parar, desceu e entrou numa casa. Saiu uma mulher bonita e agradável. - Senhora dona, me alcance um copo d'água!
  • Page 272Quem sempre foi, sempre é! Besta velha não se acostuma em pasto novo! Quem nunca foi, vai-se fazer! O rapaz tomou a carruagem, voltou e casou com a moça.
  • O Menino e o BurrinhoUm roceiro dos nossos vinha do roçado ali pelos cafus. Suado, enxada ao ombro, sonhando com a lavoura. Atrás a mulher, que o acompanhava, feliz, silenciosa, carregada de milho-verde; mais atrás vinha o pirralho do filho, também suarento, de calcinhas de algodão e chapéu de palha de carnaúba. Empunhava um bodoque e trazia um embornal cheio de balas de barro para a sua arma. O campônio, no devaneio constante do pequeno agricultor, disse: este ano, se Deus quiser, faço umas cinco sacas de lã, tenho muito milho, tenho muito feijão, Deus louvado! e vou comprá un animá. (Um animal quer dizer um cavalo ou égua.)
  • Page 274dezembro de 1954, que Max Müller não parece ter conhecido quando estudou as raízes temáticas da La Laittère et le pot au lait de La Fontaine (1678), assunto do "Menino e o Burrinho" é variante perfeita da história de Noureddin Ali e Bedredin Hassan, no Mil e Uma Noites (vol. 3, 205, da coleção Eduardo Dias; em Mardrus, vol. 1°, n° 249, em Lane, I°, n° 230; em Chauvin, "Bibliographie des Ouvrages Arabes", VI°, n° 270, e na edição de João Romano Torres, Lisboa, 1909, 1°, 292) onde os dois irmãos, ainda solteiros, brigam por causa do casamento dos filhos que ainda não tinham nascido. O tema é considerado, pela existência nas mais antigas coleções, como já conhecido no século X. Gonçalo Fernandes Trancoso, Histórias de Proveito e Exemplo, impressa na segunda metade do século XVI, traz o caso das crianças seminuas que saltam alegremente quando o pai lhes promete caçotes (calções) de um linho que ia ser semeado. "Eu dou o demo à canalha, que, como se sentem vestidos, não há quem possa com eles!" É o tema do entremez La Azitunas, de Lope de Rueda, 1560, em que Torvio e Agueda disputam sobre o preço das azeitonas da colheita do futuro olival nos próximos seis anos. Os irmãos Grimm, conto nº 164, fazem o caçador perder as lebres gritando o nome do filho Diogo que nasceria muito remotamente. O des. Felipe Guerra, Secas Contra a Seca, 182, Rio de Janeiro, 1909, registrou uma versão idêntica à paraibana de Rodrigues de Carvalho. Estas informações denunciam antiguidade e vulgarização do assunto.
  • A Mulher do PiolhoUma mulher, por qualquer motivo insignificante, travou-se de razões com o marido; entre outras palavras injuriosas, chamou-lhe de piolhento. - Mentes! -retruca o marido. - Não tenho piolhos. -Tens, sim, tens piolhos.
  • Page 276officium digitis ostentans. Alfredo Appell ("Contos Populares Russos", Lisboa, s. d.) registra uma versão, "A Mulher Teimosa", XXIII, 339, além das variantes norueguesas de Asbjornsen, outra russa de Afanasiev e uma da Sérvia. Gustavo Barroso compendiou muita informação preciosa no "O ciclo da mulher teimosa", O Sertão e o Mundo, p. 143, Rio de Janeiro, 1923, acompanhando a literatura tradicional europeia. Pereira da Costa, Vocabulário Pernambucano, colheu o verbete da Mulher do mata piolho, teimosa, intransigente, cabeçuda, tenaz, opinosa. Dessa variante, Mt. 1365, C. The Wife Insults the Husband as Lousy-head, a fonte mais antiga é realmente o cardeal Jacques de Vitry, n° 221, p. 222, Sermones Vulgares. Poggio, Facecies, XIX, cita de muliere obstinata quae virum pediculosum vocabit, evidenciando a popularidade da facécia no séc. XV. Cláudio Basto, A Teimosia das Mulheres nos contos Populares, recolheu sete variantes portuguesas, in Brasilia, vol. II, Coimbra, 1943. Joseph Bédier, Les Fabliaux, 45-48, Paris, 1895, divulga uma síntese brilhante do tema, Femme au pouilleux, versão do nosso conto, da citação de Frederico Mistral a uma fábula de Maria de France em 1180.
  • Page 2775- CONTOS RELIGIOSOS
  • Quem Tudo Quer, Tudo PerdeQuando Nosso Senhor andava no mundo chegou a uma casinha de gente muito pobre e pediu de comer e de beber. Os velhos que moravam aí deram o que possuíam e agradaram muito a Nosso Senhor. Quando este ia embora, abençoou-os e disse: - Pelo que fizeram por mim, e, como são pobres e tementes a Deus, podem pedir três coisas que serão realizadas imediatamente.
  • Page 279Nota - Meu pai repetia esse conto aplicando-o aos casos vividos pelas sociedades e nunca o esqueci por tantas vezes ouvi-lo contar. É o Les souhaits ridicules, de Charles Perrault que Paul Saintyves estudou demoradamente no Les Contes de Perrault et les Récits Parallèles, 569-608, Paris, 1923. O tema está no Panchatantra, 333, da edição de Lancereau e se espalhou pela China, Pérsia, todo mundo árabe, Europa, desde o Mil e Uma Noites (vol. XII, 40-43, da ed. Mardrus) ao Book of Sindibad, XIX, até La Fontaine que escreveu uma fábula deliciosa, Les Souhaits. É o Mt. 750-A de Aarne-Thompson, The Wishes. Nos "Contos Pátrios" Coelho Neto e Olavo Bilac aproveitam este mote "Quem tudo quer, tudo perde", para criarem um apólogo, porém com versão completamente diversa desta. "Contos Pátrios", Ed. Francisco Alves, Rio, 1912.
  • A Moça e a Vela- Minha filha - dizia sempre a mãe de uma moça que tinha por costume ficar à janela até as tantas da noite -, quem se deixa ficar à janela até alta hora vê coisas que não deve ver. Isto é exemplo dos antigos que sabiam mais do que nós. - Qual o quê! - dizia a moça -, nunca vi nada de espantar. Não tenho sono, não hei de dormir com as galinhas.
  • Page 281se e foi, diante de seus olhos, saindo pela janela, como se fosse uma pluma. Desde esse dia a moça ficou pateta, rindo e chorando à toa, e foi exemplo a todas as filhas desobedientes, no lugar onde esse caso se deu. (S. João del-Rei). Lindolfo Gomes, "Contos Populares", etc. vol. II, p. 13, São Paulo, sem data.
  • Page 282Viva Deus e Ninguém Mais! Era uma vez um casal de velhos muito unidos e religiosos. O velho, que era pescador, só falava dizendo um versinho assim:
  • Page 283ficou assombrado e disse: - O senhor tem toda razão. Viva Deus e ninguém mais, quando Deus não quer, no mundo nada se faz.
  • Os Rins da OvelhaQuando Nosso Senhor andava no mundo ia, de uma feita, com São Pedro e São João comer uma ovelha que recebera de presente. S. Pedro encarregou-se de assar, mas, ao tratar, provou os rins e achou-os tão gostosos que os comeu. Na hora do almoço, Nosso Senhor pediu os rins e S. Pedro procurou, procurou, e acabou dizendo: - Esta ovelha não tem rins!
  • Page 285- Quem comeu os rins da ovelha? - Sei lá? A ovelha não os tinha!
  • Como a Aranha Salvou o Menino JesusFugindo para o Egito, Nossa Senhora, seu Bento Filho e São José eram perseguidos pelos soldados do rei Herodes. Como os inimigos iam avançando sempre, a Sagrada Família estava cada vez mais arriscada a cair nas mãos dos carrascos. Numa tarde, São José avistou uma gruta e entrou com Nossa Senhora e Nosso Senhor para descansar. Uma aranha que estava na abertura teceu uma longa teia tomando toda a entrada da gruta. Logo depois chegaram os soldados no rasto do jumentinho que carregava Nossa Senhora e seu Divino Filho. Vieram até a caverna e pretendiam entrar quando o comandante, reparando na teia de aranha, exclamou:
  • Page 287e se foi. Bingo concedeu ao camaleão o poder de mudar de cores para livrar-se dos inimigos e a Ndanabo, a aranha, disse: ta présence donnera le bonheur. A aranha, como se sabe, é mascote. Dá felicidade. F. Xavier d'Ataíde, Contos Tradicionais do Algarve, I°, 282, Tavira, 1900, divulga uma versão idêntica à brasileira, ligada ao ciclo popular da Fugida para o Egito. É conhecida na literatura tradicional de Flandres, Maurits de Meyer, Contes de la Flandre, Le moucheron et l'araignée sauvent la vie à l'homme poursuivi, FFC 37, 39, Helsinki, 1921. Ester Penetta, L'Arabo Parlato a Bengasi, I°, XXI, 177, Roma, 1943, registra uma versão árabe, referindo-se à fuga de Maomé, La Lucertola, "Du Brês", fixando a origem oriental do conto.
  • Felicidade e SorteEra um dia um sapateiro muito pobre e carregado de filhos e, apesar de trabalhar como um condenado, vivia na miséria. De uma feita estava ele batendo sola quando passaram dois amigos, muito ricos, que vinham discutindo sobre a fortuna. Um dizia que a fortuna era dada pela felicidade e o outro pelos auxílios. Viram o sapateiro e tiveram piedade dele ao mesmo tempo que resolveram experimentar a opinião de cada um. O que sustentava a fortuna pelos auxílios foi ao sapateiro e lhe deu cinquenta moedas de ouro. O sapateiro quase morre de alegria. Acabou depressa o serviço e voltou para sua choupana. Aí chegando, não querendo dizer a sua mulher o que sucedera, enterrou o dinheiro num vaso que tinha um pé de manjericão, deixando para depois estudar como empregava aquele ouro. No outro dia acordou mais tarde e foi ver o pé de manjericão. Não o encontrou. Perguntou, já assustado, à mulher, onde pusera o vaso e soube que ela vendera a um homem que passava, apurando com que almoçar. O sapateiro botou as mãos na cabeça e contou sua desgraça, chorando os dois a falta de sorte que os perseguia. Tempos depois estava o sapateiro na sua ocupação quando os dois amigos ricos cruzaram a rua e vieram saber notícias das cinquenta moedas de ouro. O sapateiro narrou sua desventura.
  • Page 289tarrafa do marido que ia pescar. O sapateiro entregou o que recebera e a mulher do pescador agradeceu muito, retirando-se. Ao anoitecer, o sapateiro estava em casa, quando veio a mulher do pescador com um grande peixe na mão. Era um presente pelo chumbo. O sapateiro agradeceu e mandou sua mulher preparar o peixe para a ceia. Quando a mulher abriu a barriga do peixe encontrou um enorme diamante. Como não conhecia diamantes, julgou-o um pedaço de vidro. Depois da ceia, como a mulher levasse a lamparina de uma sala para a cozinha, o tal vidro ficou iluminando todo o aposento, divertindo os meninos e assombrando o sapateiro.
  • Page 290o Mt. 736 de Aarne-Thompson, Luck and Wealth. O resumo de Antti Aarne: - A poor man gets a piece of tin. He gives it to a fisherman under the agreement that the first catcoh fish shall be given to tin. The net is a fish with a precious stone in his body (N 421). Teófilo Braga dá uma versão portuguesa do Porto, "Nascer para ser rico", 78, p. 169. Alfredo Apell ("Contos Populares Russos", XIV, 213) registra a variante eslava, "Felicidade e Infelicidade", não havendo a pedra preciosa, mas o peixe fazia rir quem olhasse para ele e o fidalgo comprou-o por muito dinheiro.
  • A Mãe de São PedroA mãe de São Pedro era uma velhinha muito má, rezinguenta, somítica, com cara de poucos amigos. Não tinha amizades, todos lhe fugiam. Aconteceu que um dia estava a lavar num córrego um molhe de folhinha de cebolas, quando uma delas se desprendeu, ganhou a correnteza e lá se foi pela água abaixo.
  • Page 292-Lança uma das pontas da folhinha em direção ao inferno. Tua mãe que se agarre a ela. Tu puxarás. Se conseguir subir até cá, estará salva. Pedro fez tudo o que o Senhor lhe ordenara.
  • Page 293más interessantes versiones son las italianas. Ver ainda Ralph S. Boggs, Index of Spanish Folktales, Mt. 804, FFC 90.
  • Uma Lição do Rei SalomãoUm pai educou muito bem o filho, dando-lhe a letra, mas não lhe dando a ciência do mundo. O filho pediu para sair, percorrendo as terras, e o pai lhe entregou dinheiro. O filho ganhou o mundo e gastou tudo quanto tinha. Não querendo voltar para casa pobre como Jó, soube que o remédio era procurar o rei Salomão e pedir um diretório (conselho). Foi o rapaz ao palácio, bateu palmas, o rei Salomão mandou que ele subisse e sentasse. O moço sentou-se e contou seu caso. O rei Salomão disse: - Todos aparecem aqui chorando miséria e eu arranjo tudo, mas esquecem o bem.
  • Page 295desceu para ver quem era. Voltou e disse ao rei que era o padre velho da outra vez. - Qual é a conversa? - perguntou o rei. O criado contou o pedido do padre velho. O rei, lá dentro, gritou:
  • Page 2966- CONTOS ETIOLÓGICOS
  • Por que o Negro é PretoPor or que o negro tem a sola dos pés e a palma das mãos inteiramente brancas? É uma pergunta para iniciar uma história de quando Cristo andou na Paraíba. Mestre Alípio, vaqueiro conceituado, administrador do Engenho Itaipu, foi logo dizendo o que sabia a respeito. Não se fez de rogado. E contou que era voz corrente, disso sabendo desde menino, que Jesus, "ao aparecer por aqui", costumava passear por todos os recantos numa como visita da inspeção. Avistando-o a distância a mulher de um camponês ficou envergonhada de ser muito moça e já possuir 16 filhos e, então, meteu alguns deles escondidos num quarto. Esperou que chegasse a vez de ser interrogada, o que não tardou. Jesus, aproximando-se, perguntou-lhe se aqueles meninos que estavam no terreiro eram seus filhos, obtendo resposta afirmativa; e indagou ainda se estava satisfeita com a instalação, passadio e condições de vida. A casa lhe parecia bem grande, até confortável. E de repente se mostrou com a curiosidade de saber o que havia no tal quarto onde as crianças se achavam ocultas. Respondeu a jovem mãe, um tanto embaraçada:
  • Page 298-Leve os meninos ao Jordão e faça-os banhar nas suas águas que eles ficarão brancos. Porém quando a camponesa chegou com a metade de seus filhos às margens do rio sagrado, inexplicavelmente este se achava quase seco, com um fiozinho de nada correndo, mal chegando para que as crianças pudessem molhar a sola dos pés e a palma das mãos. E como estivessem com sede, beberam gotas apenas para enganar o desejo, resultando de tudo isso ficarem brancas aquelas partes do corpo, inclusive a boca.
  • Page 299do preto. Joel Chandler Harris (Uncle Remus, his Songs and his Sayings), recolheu entre os negros norte-americanos dos Estados do Sul nas Legendas of the old plantations, uma variante possivelmente africana de história (p. 166-168), Why the Negro is black. Nela ocorrem detalhes das versões brasileiras exceto a relativa brancura-arroxeada dos lábios dos pretos. O rio Jordão da história paraibana, substituído pelo lago do conto de Medeiros e Albuquerque, este mais fiel ao original pond, registrado por Chandler Harris. No lingo das plantações, a história é esta: - "... In dem times we uz all un us black; we' all noggers tergedder, en cordin' ter all de'counts w'at 1 years fokes 'uz gittin' long' bout ez well in dem days ez dey is now. But atter 'w'ile de new come dat dere muz a pon' er Water some'rs in de naberhood, w'ich ef dey'd he wash off nice eu w'ite, en den one un um, he fnne de place em make er splunge inter de pon”, en come our w'ite ez a town gal. En den, bless grashus! w'en de fokes seed it, dey make a break fer de pon', en dem w'at wuz de nox' soopless, dey got in fus' en dea comme out w'ite; en dem w'at wuz de soopless, dey got in jus' on dey come out merlatters; en dey wuz sech a crowd un um deat dey might nigh use de water up, w'ic w'en dem yuthers come long de mrest dey could do wuz ter paddle about wid der foots en dable in wid der han's. Dem wuz de niggers, en down ter dis day ain't no w'te' bout a nigger ceppin' de pa'ms er der han's en de soles er der foot”. É, essencialmente, a mesma história; todos os homens eram negros e o lago daria brancura mediante imersão. Os primeiros que mergulharam obtêm alvura e beleza, os outros ficam mulatos e os derradeiros tendo apenas lama para chapinhar os pés e borrifar as mãos, lugares que branquejaram, palma da mão e sola dos pés, são os negros. C. Tastevin, Les idées de africains ("La Géographie", tomo LXII, nº 5-6, Novembre-Décembre de 1934, Paris), registra alguns elementos desse conto, a unidade da cor primitiva, Nz'ambi atirando a pele negra ao lago e os homens brancos ficando vermelhos, etc. Na versão paraibana de Ademar Vidal a mãe, escondendo os filhos porque são pretos, mente a Jesus Cristo, dizendo-os carvão. Numa lenda da Gasconha, "Le voyage de Notre-Seigneur”, um rendeiro, que hospedava Nosso Senhor e S. Pedro, escondeu os filhos e disse que havia na outra sala três porquinhos. E as crianças ficaram porquinhos. O caseiro contou a verdade e os meninos voltaram à forma humana. A lenda, recolhida por Jean François Bladé, "Contes populaires recueillis en Agenais", é o XXXIII do "Contes des Provinces de France", de Paul Sébillot, Paris, 1920, p. 195.
  • A Causa das Secas no CearáEm priscas eras, os cearenses malquistaram-se com o Bom Jesus. Resolveram então expulsá-lo do Ceará. Para esse fim, prepararam uma jangada e nela puseram o Santo com os mantimentos que julgaram necessários para a longa travessia que, a seu juízo, ia o mesmo empreender. Desfraldaram a vela da embarcação e impeliram o Santo de mar afora, rumo a Portugal, donde procedera. O Bom Jesus, na agoniada viagem, já muito distante das praias cearenses, "entre o mar e o céu”, sentiu sede. Por esquecimento, ou mui propositadamente, os seus perseguidores não haviam acondicionado água na jangada. Nem uma gota sequer existia do precioso líquido...
  • Cantador de ModinhasHouve um tempo em que os bichos falavam. Mantinham entre si uma sociedade em que discutiam os assuntos mais palpitantes e que se relacionavam com os seus interesses. Nada ficava por apreciar. Conversava- se à vontade numa tagarelice abundante e desprevenida. Nessa sociedade se encontrava de tudo desde o orador até o funileiro. Alfaiates e marceneiros, vaqueiros e ferreiros, viviam todos trabalhando em cooperação, daí resultando uma vida regradamente feliz. Os acontecimentos se sucediam com certa normalidade. Os crimes não eram frequentes, lá, um ou outro só para se dizer que havia transgressores da lei, alguns espíritos mais rebeldes que não se sujeitavam facilmente ao estabelecido. Também se ia verificar o que fora e a conclusão era que o ocorrido quase sempre não passava de fruto de impetos não contidos. Entre os bichos mais educados não se via essa novidade de lutas pessoais. Somente no meio mais baixo é que se notava um certo desalinho nas atitudes. As ordens eram terminantes: nenhuma tolerância quanto aos transgressores. Aquele que cometesse uma falta podia ficar certo de que a punição não se faria tardar. Teria de vir e de ser aplicada para exemplo a outros indivíduos menos avisados. Havia, pois, ordem estabelecida. A sociedade dos bichos podia servir de modelo a outras sociedades mal organizadas. Quando eles falavam muito é que a coisa se transtornava um pouco. Um começo de confusão não se fazia esperar. De modo que as discussões eram terminantemente proibidas e parecia bem acertada a medida, porque sempre elas originavam conflitos lamentáveis, fazendo lembrar as competições políticas nas suas arengas na praça pública, correrias, tiros e o governo de seu, palitando os dentes. E por falar em políticos, havia entre os bichos, bichos poetas, bichos homens de letras,
  • Page 302médicos, advogados, engenheiros, havia de tudo, até cantadores de serenatas e tocadores de violão. Num meio tão ilustre se destacavam o cachorro e o gato - aquele um famigerado cantador de modinhas e este gostando das ressonâncias do pinho, deitando-o no peito e de suas cordas tirando sons melancólicos. Nas noites de lua clara se acendia no coração dos dois um desejo louco de sair pelas ruas da cidade a tocar e a cantar. As namoradas não podiam dormir mais, perdiam o sossego com uma serenata assim, quebrando o silêncio da madrugada e, sobretudo, trazendo-lhes recordações agradáveis ao sentimentalismo lacrimoso. E o cachorro e o gato ali no duro: derramados no afeto, empenhados na obra de conquistar corações femininos. O cachorro tinha uma voz sonora e melodiosa, era um perigo que o gato precisava evitar quanto antes, acabar com aquilo que já estava lhe prejudicando; embora tocasse violão como ninguém e nele pusesse todos os dengues de sua alma de felino. Ouviam mais a voz do que a música. Esta ficava num plano secundário, num acompanhamento escravizado, ignóbil e que, por isso mesmo, precisava ser posto em situação mais destacada. A astúcia entrou em maquinações demoradas, cuja execução dependia apenas de um momento favorável. Havia de chegar a hora. E essa hora desde muito que inquietava o gato na sua macieza, na sua aparente impassibilidade. A inveja não fora feita para sua raça. O predicado maior era mesmo o de sibaritismo. A voluptuosidade surgia sempre como o prazer máximo e adorado pela sua gente que tudo conseguia da vida com o algodão dos pés e a agilidade dos movimentos oportunos. Mas uma noite ambos os amigos andavam em serenata. O gato aproveitou o ensejo para ir incutindo solertemente no espírito do cachorro que a sua voz poderia ser muito melhor do que era. Estava no seu querer torná-la mais cheia e vigorosa nos acentos, muito mais ressonante nos agudos, macia e adocicada nos seus contornos líricos – era só ele mesmo querer e pronto, fazia-se a modificação com a maior rapidez possível. Insistiu na obra catequizadora. E
  • Page 303foi com tanto jeito que o fez a ponto de o cachorro começar a impacientar- se: perguntando com insistência se a operação transformadora requeria sacrificio extraordinário. A resposta não variava: “qual nada, coisa nenhuma, vagabunda mesmo, qualquer um suportará bem". E rematava: "a questão é você querer". O convencimento fez-se afinal. Decidiu-se o cachorro a empreender a modificação orientada pelo gato. Este convenceu ao amigo sentimental que a sua voz ficaria muito melhor se a boca fosse rasgada nos cantos até perto das orelhas. Ficaria com bastante espaço para tornar a voz mais melodiosa e mais cheia de liberdade. Aceita a proposta, começou a rasgá-la a faca. Cortou-a ele mesmo um pedaço. Experimentou como ficava e começou então a uivar, coisa que nunca havia feito. Porém nem desconfiou e perguntou: “que tal?". Teve como resposta do gato: “está chegando no ponto". Animado com isso, mordido de ambição por possuir uma voz mais rica do que a que tinha, tratou de rasgar mais a boca até, como propunha o gato, à "vizinhança das orelhas". A ferida sangrava demais e precisava de ser curada quanto antes. Foi o que se fez. Depois de vários dias de tratamento ficou finalmente bom e em condições de prosseguir na realização de suas serenatas ao luar. Marcou o dia para ensaiar e ouvir o regalo da voz nova que obtivera.
  • Page 304Afirmam que nasceu desse dia a rivalidade entre cão e gato. Pelo menos é o que se diz nos engenhos da várzea. Ademar Vidal, João Pessoa, Paraíba.
  • A MaraçapebaA Maraçapeba deste conto é o peixe conhecido pelo nome de linguado e que tem a configuração de uma folha de árvore semelhante à pariparoba ou malvaísco e a boca torta. O conto encerra a explicação de ambas as particularidades e é assim concebido.
  • Page 306enche ou vaza? A solha pôs a boca à banda, e repetiu com escárnio: - Oh, solha, a maré enche ou vaza? - Nossa Senhora disse: - "Assim fiques sempre com a boca à banda". Em Portugal, segundo Braga e Consiglieri Pedroso, sempre é a Solha o peixe atrevido. No Brasil é a Maraçapeba, a Solha ou o Aramaçá, Solea reticulata, Pleuronectes aramaçá, Cuv & Val. Agenor Couto de Magalhães, na sua "Monographia Brasileira de Peixes Fluviais" (S. Paulo, 1931, p. 84), recolheu uma versão sobre o Aramaçá. Contam que, no tempo em que todos os animais falavam, Nossa Senhora, chegando à praia e vendo o aramaçá, perguntou-lhe: - "Aramaçá, a maré enche ou vaza? - Ao que o atrevido peixinho The respondeu, imitando-lhe a voz: - Aramaçá, a maré enche ou vaza? - Nesse momento a boca do peixe ficou torta para sempre por castigo da Nossa Senhora". No Estado do Espírito Santo o Linguado ou Solha é denominado Maraçapeba e com ele se deu o motivo do conto etiológico. A versão do sr. Agenor Couto de Magalhães é corrente no Estado do Pará. Na maioria dos casos a Solha é a mais citada. A lenda é espalhada. Dähnhardt registrou-a no seu clássico "Natursagen", II, 253, assim como Santana Neri no "Folklore Brésilien", 224, Paris, sendo corrente na Europa do Norte, o Peixe Castigado, bestrafte Fisch, por uma sentença divina. O prof. Robert Lehmann-Nitsche, que tão bem conhecia o Folclore norte, centro e sul-americano, estudou os motivos da História Natural constituindo temas etnográficos continentais e insulares. Resumiu, com informações sobre a persistência do mito na Europa, a lenda etiológica da Solha, no verbete Aramaça, Maul seitlich, 129 e nota-1 do "Studien zur Sudamerikanischen die Atiologischen Motive", Hamburg, 1939, publicação póstuma.
  • A Festa no CéuEntre todas as aves espalhou-se a notícia de uma festa no Céu. Todas as aves compareceriam e começaram a fazer inveja aos animais e a outros bichos da terra incapazes de voo. Imaginem quem foi dizer que ia também à festa... O sapo! Logo ele, pesadão e nem sabendo dar uma carreira, seria capaz de aparecer naquelas alturas. Pois o sapo disse que tinha sido convidado e que ia sem dúvida nenhuma. Os bichos só faltaram morrer de rir. Os pássaros, então, nem se fala.
  • Page 308e correu para onde o urubu havia se hospedado. Procurou a viola e acomodou-se como da outra feita. O sol saindo, acabou-se a festa e os convidados foram voando, cada um no seu destino. O urubu agarrou a viola e tocou-se para a terra, mu-ru-ru...
  • Page 309ed. José Alemany Bolufer, 13, Hitopadexa, ed. Dalgado, 221, Calila y Dimna, 136, ed. Bolufer, onde a tartaruga Kambugriva ou Fulatpala é carregada por galápagos, gansos ou ánades, agarrada pela boca a um bastão. Divulgou-a Esopo e os Isopetes e fabulistas, Babrio, Fedro, Aviano, até La Fontaine, vulgarizavam a triste aventura. Para o quadro geral das variantes sul-americanas ver Lehmann-Nitsche, Studien Sur Sudamerikanischen Mythologie die Atiologischen Motive, Hamburgo, 1939, verbete krote, 117. Ver minhas notas ao conto de Sílvio Romero, opus cit. 280-283. As variantes sul-americanas se afastam do modelo típico. O jabuti ou o sapo viajam clandestinamente ocultos num paneiro, cesto ou bojo de viola do urubu, garça, águia, etc. e, de regresso, são atirados à terra em castigo do atrevimento. Participa do conto etiológico porque Nossa Senhora lhe restitui a vida e conserta a carapaça ou couro que ficam remendados e ásperos nos pontos da divina costura. Não há a forma intencional da fábula clássica. O animal escondido é um elemento sul-americano.
  • A Goela e o Rabo da BaleiaA Baleia era o bicho do mar mais veloz e mais comilão. Nadava mais do que todos os outros peixes e comia por peste. Nosso Senhor torceu o rabo da Baleia. Por isso ela nada mais devagar e é o único peixe que tem a barbatana do rabo virada para baixo, batendo água de baixo para cima, em vez de ser da direita para a esquerda como todos os viventes d'água. Também a Baleia comia tudo. Uma feita uma moça devota de Santo Antonio ia rezando com uma imagem desse Santo, pedindo que o navio entrasse logo na barra, quando o Sant'Antonio escapuliu e t'xim bum! caiu no mar. A Baleia, vendo o clarear, veio em cima e, sem reconhecer, engoliu a imagem. Sant'Antonio, para castigar a gulodice, fez a Baleia ficar engasgada e tanto se engasgava mais a goela ia ficando estreita. Sant'Antonio desapareceu e a Baleia ficou, até hoje, só engolindo peixe pichititinho. A Baleia é peixe nobre, Não come senão sardinha! Abre a boca, pega miles, Engole a mais miudinha!...
  • Page 311Por que o Cachorro é Inimigo de Gato... e Gato de Rato Antigamente todos os bichos eram amigos e o leão governava todos. Cachorro, gato, rato, ovelha, onça, raposa, timbu, pinto, tudo vivia junto e sem briga.
  • Page 312João Monteiro. Natal, Rio G. do Norte.
  • Page 3137 – DEMÔNIO LOGRADO
  • Toca por PautaTodo mundo conhece o mestre Narciso com os seus oitenta e muitos anos de idade quase inteiramente dedicados à pescaria. Longa luta com o rio e com o oceano. É senhor dos segredos existentes nas rotas de sua predileção diuturna. Envelheceu nesse vai e vem da pesca. Acha que durante o dia é melhor entregar-se ao trabalho e deixar a noite para o repouso. Mas nem sempre foi assim. Exatamente à noite é quando deve empregar maiores esforços e colher resultados positivos. Colher também ensinamentos para os quais se faz indispensável um bocado de sangue-frio. Os fantasmas povoam o mar numa liberdade que chega a tomar o caminho dos pescadores. Torna- se preciso grande cuidado. Ter muita atenção, pois que, do contrário, consequências desagradáveis têm de ser mencionadas, ou mesmo inesquecíveis pela violência e pelo medo que despertam. No meio desses imprevistos, o mestre Narciso se acostumou a ceder passagem, no seu pequeno barco de pesca, a um moço alourado e de olho azul - e que permanecia sempre à sua espera. Sabia da hora em que passava. E podia escrever-se que ele lá estaria na tocaia. Era uma coisa mesmo impossível. Mas não havia outro jeito senão atender à exigência de condução. Quanta vez o encontrara no porto do Moinho, nas Barreiras, já cansado da espera, porém com uma cara boa, sempre aberta para a alegria. Gostava de ver aquela paciência infatigável. E o que mais admirava era o violão que o rapaz conduzia consigo. Um violão apenas com quatro cordas, faltando o ré e o dó. Ainda assim executava música com uma harmonia tocante que a todos deixava enlevados. Era um prazer ouvir-se a extraordinária habilidade do moço na execução de trechos conhecidos, que tomavam, ao contato de seus dedos mágicos, uma tonalidade suave, dulcissima e que abrandava o gênio de quem estivesse por perto.
  • Page 315Jamais o velho pescador havia tido coragem de dirigir a palavra ao estranho personagem. Mesmo não queria entrar em negócio com duendes. Bastava-lhe a distância. Até se sentia bem com isso. E no caso apreciava a conduta do moço que só demonstrava duas preocupações: tomar passagem na sua embarcação e extrair notas dolentes do seu custoso instrumento de corda. Era coisa de luxo, muito bem tratada e rica, parecia ser, e o era, sem dúvida, um objeto da maior estimação. E a verdade é que Narciso gostava daquela companhia que não lhe fazia mal, até o distraía, tornando o trabalho menos pesado, mais atraente e mesmo convidativo. A separação entre ambos não podia durar mais muito tempo. Por que não entrar em relações amistosas com o companheiro? Não seria mau que lhe dirigisse a palavra. E foi o que fez depois de matutar bem. Para começar entendeu de perguntar- lhe o motivo porque o violão contava com a ausência de duas cordas, o ré e o dó não tendo sido pequena a surpresa em constatar que havia ocasionado um sério transtorno, fazendo com que o moço ficasse subitamente colérico e de seus olhos azuis saíssem lâminas de fogo. - Se quer ser meu amigo não fale nisso - foi a resposta.
  • Page 316amigo que era também professor e que havia se aposentado há muito das refregas que tivera com o rio Paraíba e o mar Atlântico. Bem possível que ele soubesse dar uma explicação cabal daquela história enigmática. O professor e ex-pescador era um homem religioso, muito conhecedor dos segredos, loquaz e afável. Depois de ouvir as informações de mestre Narciso, logo falou: - És o único que não sabe da verdade. Me admiro que tendo vivido tanto não tenhas achado ninguém para te dar notícia sobre esse rapaz que toma lugar na sua canoa.
  • Page 317até o fim. Era homem de bem, não sabia mentir. Teria de aclarar tudo. Com a noite seguiu para a pescaria. Mal entrou no barco, também viu tomar lugar o rapaz louro, de olho azul, com o seu violão debaixo do braço, satisfeito alegre de seu. - Moço, se me desse licença eu botava uma letra antes das duas cordas que faltam...
  • Page 318saudades. E a sua presença nas horas mansas ou tormentosas, com aquela alegria, com aquela confiança ante o perigo, tudo isso me fazia muito bem ao ânimo e ao coração. Vou sentir a ausência dessa companhia que não amava Nossa Senhora mas que tocava por pauta - tocava esplendidamente. Ademar Vidal, João Pessoa, Paraíba.
  • O Afilhado do DiaboUm velho tinha tantos filhos e era tão pobre que já não sabia mais a quem convidar para ser padrinho de seus rebentos. Quando nasceu o mais novo, ficou atrapalhado. Estava pensando no caso, quando viu um homem muito bem-vestido, montado num cavalo bonito, que parou e o salvou. O velho perguntou se ele queria ser padrinho do seu filhinho mais novo. O homem aceitou e deu uma bolsa cheia de ouro, indo embora logo. Todos os anos o desconhecido voltava para ver o afilhado e o compadre recebia uma bolsa de ouro. Estava rico e vivia muito tranquilamente quando o padrinho apareceu e disse que vinha buscar o menino para educá-lo. O velho não queria, mas o homem tanto insistiu, tanto insistiu que ele acabou cedendo e o menino lá se foi, na lua da sela do padrinho. O padrinho morava numas serras altas e sem gente, num casarão enorme, cheio de quartos e salas. O menino tinha do bom e do melhor, muitos livros e aprendia depressa tudo, ficando instruído por demais. O padrinho tratava- o bem, mas era carrancudo e de poucas falas, viajando sempre. Raramente estava em casa.
  • Page 320freio, senão não se desencantava mais. O velho prometeu tudo mas não resistiu aos oferecimentos de tanto dinheiro e vendeu o cavalo, esquecendo- se de tirar o freio. O Diabo, que era o comprador, passou três dias com três noites correndo em cima do afilhado, virado em cavalo, cortando-o de chibata e esporas. Chegou finalmente a uma casa e desceu para servir-se do jantar que lhe era insistentemente oferecido. Recomendou que dessem água ao animal, mas sem retirar-lhe o freio. O criado, vendo que o cavalo não queria e não podia beber água do rio com o freio no focinho, tirou-o. Logo o cavalo voltou a ser gente e o rapaz disse: ai de mim, uma piaba! E tornou-se uma piaba, mergulhando no rio e desaparecendo.
  • Page 321palma do pé, tirou-o de cima e o grão de milho disse: ai de mim, uma raposa! apareceu uma raposa que imediatamente comeu o galo num bocado. A raposa desencantou-se no rapaz que casou com a princesa e nunca mais quis saber das sabedorias e mágicas que aprendera com o livro do Diabo. Clotilde Caridade Gomes, Natal, Rio G. do Norte.
  • As Perguntas de Dom LoboUm moço trabalhador e direito morava com sua mãe, labutando pela vida com muita dificuldade. Uma feita disse: - Minha mãe! Não podemos passar o resto da vida nesta miséria, quase sem ter o que comer. Fique minha mãe com o roçado, as cabeças de ovelhas, e bote sua bênção que vou pelo mundo ver o que posso fazer. A mãe abençoou-o e o rapaz foi-se embora pelo mundo. Onde chegava, trabalhava uma semana e ia para diante. Tempos depois chegou a um reinado bonito mas sem gente. As ruas limpas de povo, as casas fechadas, tudo calado, sem um choro de menino ou voz de homem, parecia um descampado. O rapaz procurou a casinha de um velho e pediu agasalho. O velho recebeu-o muito bem e deu de cear. Quando estavam comendo o rapaz perguntou por que o reinado era assim triste. O velho explicou que, por mal dos pecados do povo, aparecera ali um homem encantado, de nome Dom Lobo, dono de um palácio, que botara para obrigação comer o coração de uma pessoa todo dia. Pega a criatura e faz três perguntas. Se a criatura responder, pode fazer outras três a Dom Lobo, mas não nasceu ainda esse cristão para adivinhar as perguntas de Dom Lobo. Não responde e Dom Lobo mata e come o coração dos pobres. Por isso é que toda a gente vive escondida e tremendo de medo.
  • Page 323um homem alto, forte como um touro, todo cabeludo, com olhos de gato e uns dentes de onça-tigre. Quando viu o rapaz deu uma gargalhada de estrondar o mundo. Falou, com voz grossa de bicho encantado, mandando o rapaz sentar. Depois perguntou: -Que é que tanto mais velho mais forte fica?
  • AUDIÊNCIA DO CAPETA(resumo) Vô-le contá un causo sucedido.
  • Page 325Ora, se bem disse, mió saiu. Gatim caiu no mato, virou tiririca, logo que o home saiu. A muié, coitadinha, virou, remexeu, fez premessa a conto santo houve, escogitou po conto boraco das redondezas e vizim, responso Sant' Antonho, percurou, indagou, revirou... e nada. Chega o marido e lá de longe foi logo, antes de sodá a muié, proguntano por aqui.
  • Page 326começou um desaprecate entre los dois, o marido sempre jurano a muié. A principe eu era gordo, mais todas las véis que ele chegava eu me achava tocano nas espinha. Na derradeira viage eu fiquei tão magro, qu'assim qu'ele foi me vendo-me, rompeu logo c'oela, deu-lhe muitos tabefe e chicotada e cum pau socou-lhe muitas porretada, quebrou-lhe um braço, rachou-le a cabeça, arrumou a troxa e ganhou os pau na mudança, largou-le pr'uma veis. - Que debedabo! Berado! Muito bens! brabo! brabo. Ora viva! Ist'é qu'é diligença e sabê fazê as coisa. Terá um grande plemo conde acabá có serviço.
  • Manuel Ambrosio, "Brasil Interior"p. 61, São Paulo, 1934, Nota - O prof. Manuel Ambrosio, grande estudioso do Folclore da Bahia e Minas Gerais, na zona do Rio São Francisco, reuniu material precioso, em sua maioria inédito, sobre tradições e costumes. Fiz um resumo do conto que, no original impresso, está às páginas 61-69 do volume. É história conhecida nos sertões de todo Nordeste do Brasil, tendo ouvido contá-la em Natal e Recife. A reunião dos demônios, feiticeiras, bruxas sob as árvores é clássica em todos os folclores do mundo.
  • Page 3288 – CONTOS DE ADIVINHAÇÃO
  • O Filho Feito sem PecadoUma moça deu à luz uma criança e a mandou educar longe da cidade em que morava, para que ninguém soubesse jamais de sua culpa. O menino cresceu, fez-se homem e veio visitar a cidade, justamente onde sua mãe vivia. O rapaz viu-a, enamorou-se dela e se casou. Meses depois, descansando o marido no colo da mulher, reparou esta numa medalha de ouro, com a efigie de Nossa Senhora da Conceição, lembrança que pusera ao pescoço do filhinho ao separar-se dele. Sentindo-se criminosa e não querendo prolongar aquela união sacrílega, contou sua história ao esposo que era, sem saber, seu filho. Este partiu imediatamente para longe e não mais enviou notícias. Depois nascia um filho, batizado com o nome de Tomé e a mãe anunciou dar um grande prêmio a quem decifrasse o enigma que apresentaria. Não acertando, pagariam uma multa. A mulher educou seu filho como um príncipe, foi muito feliz e morreu rica porque ninguém conseguiu decifrar o enigma que era assim:
  • Page 330Aurélio M. Espinosa encontrou uma versão espanhola em Llanuces, Astúrias, e J. Alden Mason uma outra na ilha de Porto Rico, Porto-Rican Folk-Lore, Jafl, vol. XXXIX, n° CXIV, 499, 1916. Estudei demoradamente este conto no meu Trinta Estórias Brasileiras, Porto, com o texto integral das versões.
  • Frei João sem CuidadosFrei João era um frade muito caridoso e simples e que não se envolvia com os negócios dos outros nem se preocupava com assuntos alheios à sua pessoa. Como dava muitas esmolas era estimado por toda a gente que o chamava "Frei João sem Cuidados". Ora, uma vez o Rei passou pela terra em que morava Frei João e, sabendo da tranquilidade em que vivia o frade, mandou um criado dizer a ele que no outro dia viesse procurá-lo para responder a três perguntas:
  • Page 332Nota - Esse conto foi-me várias vezes contado por meu Pai que o ouvira, ainda menino, ao redor de 1870, no alto sertão do Rio Grande do Norte e da Paraíba. O dominicano Etienne de Bourbon, que viveu no século XIII (sob Luís IX de França), narra o episódio do rei que desejava despojar de suas riquezas a um sábio, fazendo-lhe três perguntas: - Onde fica o centro da terra, quanta água contém o mar e até onde pode ir a misericórdia divina. O sábio respondeu pela mesma forma que o pastor na primeira pergunta, pediu que impedissem os rios de encher o mar para poder medir as águas e, para a terceira resposta, vestiu a roupa do rei e rendeu glórias por Deus lhe ter elevado às honras reais. No "Patrañuelo" de Timoneda, n° XV (século XVI), um abade é substituído por seu cozinheiro para responder às questões apresentadas pelo rei. Somente a segunda é nova: - quanto vale o rei, que se respondeu 29 dinheiros porque Jesus valera 30 apenas. Pitré ("Fiabe, Novelle", etc.) dá outras variantes do conto italiano L'abbati senza pinzeri. Entre as versões de Pitré está uma com o rei Noberto de Nápoles e Dante como personagens. O conde de Puymaigre resumiu muitas variantes no seu "Folk-lore", sur quelques historiettes d'Etienne de Bourbon, p. 239, Paris, 1885. A mais antiga fonte portuguesa é o livro de Gonçalo Fernandes Trancoso (XII da edição resumida e anotada pelo prof. Agostinho de Campos, p. 77, Lisboa, 1921). O comendador Simão é representado ante o rei pelo seu hortelão. Onde está o meio do mundo, quanto é daqui da terra ao céu (é uma vista de olhos), que coisa está imaginando o meu coração (que sou o comendador e realmente sou o hortelão). Teófilo Braga publica outra variante de Portugal, “Frei João sem Cuidados”, colhida em Coimbra: – quanto pesa a lua, quanta água tem o mar, o que é que eu penso. O frade foi substituído pelo moleiro, "Contos Tradicionais do Povo Português", 1, 71, p. 157, Porto, 1883. Na coleção do prof. Aurélio M. Espinosa há a versão de Utrera, Sevilha, "Las tres preguntas", o coronel é valido pelo seu assistente que responde ao rei: - Quanto vale o rei, em quanto tempo se pode dar a volta do mundo, uma verdade-mentira. À segunda pergunta responde-se: - em um cavalo na carreira, em vinte e quatro horas, "Cuentos Populares Españoles", conto 13, 1, 59, Stanford University, Califórnia, U. S. A., 1923. É o Mt. 922 de Aarne-Thompson, The Shepherd Substituting for the Priest's Answers the King's Questions. É um conto espalhado pelo mundo inteiro. Alfredo Apell registra uma variante da Rússia, "O soldado que adivinha", XXIV, 343, Contos Populares Russos, Lisboa, s. d., em que o Rei pergunta ao soldado que se vestiu de frade: - quantas gotas há no mar? (mande tapar todos os rios preliminarmente); quantas estrelas há no céu? (um número alto e se o Rei acredita que mande contar); em que estou a pensar? (vem a resposta clássica). Na versão brasileira de Sergipe, Sílvio Romero informa que o criado diz ao Rei: - O monte tem um cesto se este for do tamanho dele; dá um número alto para as estrelas e responde não ser o Padre Sem Cuidados e sim seu servo. Apell registra muitas variantes. Em Portugal ainda Guerra Jungueiro divulgou o "Carlos Magno e o abade de S. Gall", Contos para a Infância, 158, Lisboa, 1913; F. X. Ataíde Oliveira, Contos Tradicionais do Algarve, I°, 41-43 e Bernardino Barbosa, Contos Populares de Évora, Revista Lusitana, XXII, 33, registram versões. Elsie Clews Parson, Folk-Lore From Cape Verde Islands, II°, 63, tirou uma da ilha de São Nicolau. Se a mais antiga versão em Portugal é a de Gonçalo Fernandes Trancoso, 1575, na Espanha é a patraña XIV de Juan de Timoneda, Patrañuelo, 1566. Na portuguesa: - onde está o meio do mundo?; Que há daqui da terra ao céu?; que está imaginando o meu coração?. Na castelhana: - Yo cuánto valgo? Adonde está el medio del mundo? Que és lo que yo pienso? O prof. Walter Anderson, Kaiser Und Abt, Die Geschichte Eines Schwanks, FFC 42, vol. IX, Helsinki, 1923, estudou definitivamente o assunto, examinando 560 versões. O conto é de origem oriental e a versão mais antiga é do século IX, um conto de Ibn-Abdulhakam, historiador árabe, no seu Futuhu Misra Walmagrib. As perguntas iniciais foram: - "Quantas estrelas há no céu? Quanto se deve pagar numa diária de trabalho a um filho de Adão? Que faz Deus?" Quatrocentos anos depois estava figurando
  • Page 333em sermonários e corria oralmente na Europa. No século XIV a pergunta "Que faz Deus" foi substituída pela "Em que estou pensando?" que se tornou típica. Ver minhas notas ao conto O Padre sem Cuidados, de Sílvio Romero, Folclore Brasileiro-Contos Populares do Brasil, 131-132, Belo Horizonte, 1985. As notas do prof. Espinosa são excelentes, Cuentos Populares Españoles, II°, 101- 111, Madrid, 1947.
  • A Princesa AdivinhonaEra uma vez um rei que tinha uma filha muito inteligente e perspicaz. Quando se pôs moça não havia problema que ela não decifrasse nem pergunta que ficasse sem resposta. O rei ficou tão orgulhoso da prenda da princesa que disse dar a mão em casamento a quem desse uma adivinhação e ela não destrinchasse em três dias. Muita gente correu para ganhar a mão da princesa, mas ela explicou todas as charadas, e os candidatos apanhavam uma surra, voltando envergonhados. Os tempos foram se passando e ninguém aparecia para vencer a princesa. Muito longe da cidade vivia uma velha com um filho muito amarelo, mas sabido como ele só. O rapaz entendeu de tentar a sorte e não houve conselho que o arredasse desse desejo. Agarrou uma espingarda e tocou-se para a cidade.
  • Page 335Fui matar o que não vi. Foi com madeira santa Que cozinhei e comi. Bebi água não do céu... Um morto-vivo levava.
  • Page 336Natal, Rio G. do Norte. Nota - Era minha ama das grandes sabedoras de histórias e gostando de contar. A "Princesa Adivinhona" é o Mt. 851 de Aarne-Thompson, The Princess who Cannot Slove the Riddle. Os elementos da versão acima estão registrados nos itens H 341.1, H 126. É episódio popular na Europa do Norte, Rússia, Costa do Ouro, Jamaica, etc. Na coleção do Prof. Espinosa há quatro variantes, 5, 6, 7 e 8, "El acertijo" ou "El acertajo", colhidas em Córdoba, Toledo e Granada, "Cuentos Populares Españoles", 1, 41-48, no capítulo "La adivinanza del Pastor", Teófilo Braga traz o conto 56, "A Princesa que adivinha", versão de São João de Airão, Minho, "Contos Tradicionais do Povo Português", 1, 134. Emanuel Cosquim dá uma variante francesa da Lorena onde os três irmãos competem junto à princesa que adivinha. Sílvio Romero recolheu a versão brasileira, O matuto João. Na "Princesa Adivinhona" há a adaptação, figurando água existente entre as palmas duras da macambira, uma bromeliácea comum no Nordeste do Brasil, Agallosítachys lacinosa. Carmen Lyra registra uma variante de Costa Rica, "El tonto de las adivinanzas", "Cuentos de mi tia Panchita", p. 5, S. José de Costa Rica, 1936.
  • Page 3379 NATUREZA DENUNCIANTE
  • As testemunhas de ValdivinoDizem que um homem chamado Valdivino atravessava uma mata quando foi assaltado por dois ladrões que lhe tomaram todo dinheiro que conduzia. Depois, resolveram matá-lo para que o roubo ficasse impune. Debalde rogou o assaltado que poupassem sua vida, mas os ladrões riam. Valdivino, erguendo o olhar, viu duas garças que passavam voando. Disse, então: Garças, sede as testemunhas de Valdivino! Os bandidos assassinaram Valdivino e o enterraram.
  • Page 339Vamos. Que o encarcerem já, e que ninguém lhe dê de comer, se acaso ele teimar em não dizer o motivo por que recusou provar as perdizes que lhe mandei servir. Apesar dos seus protestos, o enviado de Dahomey foi encarcerado imediatamente, e alguns soldados foram colocados de sentinela no lugar onde ele estava encerrado, para que ninguém pudesse transgredir as ordens do sova. Logo no segundo dia a resistência do mensageiro foi vencida. Pediu de comer e declarou que, apenas tivesse aplacado a fome, contaria ao rei a sua história. - Seja - respondeu Oba-Ochoué. - Mas previno-te de que, se hesitares em falar quando estiveres farto de comer, mandar-te-ei cortar a cabeça. O dahomeano comeu e bebeu à sua vontade, e contou o seguinte: - Outrora eu era ladrão de estrada. Um dia que estava à espera dos viandantes numa passagem muito frequentada, vi passar um mercador montado numa mula, levando um saco com dinheiro. Obriguei-o a parar, e dispunha-me a matá-lo, quando ele me disse: - Não é o teu fim roubares-me este dinheiro? - Certamente - respondi eu. - Nesse caso, guarda a mula e o saco que ela traz, e deixa-me partir. - Impossível, meu caro. Tu irias denunciar-me à aldeia vizinha e voltarias com todos os habitantes para me prenderem. - E agarrei-o por um braço para o matar. - Juro-te por meu pai que não te denunciarei. - É inútil. Preciso que morras. - Insistes então nessa ideia? - Sim; e vais morrer já. - Deixa-me ao menos dirigir uma oração aos deuses. - Dirige tua oração, mas despacha-te. - O mercador começou a rezar. Porém, como prolongasse a tal oração a fim de ganhar tempo, resolvi agarrá-lo pelo pescoço. - Eu te suplico por tua mãe, que me deixes em paz. - Não te canses. Morres imediatamente. - Em seguida olhou em derredor de si; e vendo duas perdizes, gritou de repente dirigindo-se a estas aves: - Tiroubas: sede testemunhas de que morro sem motivos, e sede minhas vingadoras. - Pus-me a rir desta singular exclamação, matei o homem, e levei comigo a mula e o dinheiro. Ora, estas duas perdizes recordam- me essa triste aventura. Agora que já te contei tudo, e que a minha missão está acabada, deixa-me voltar para junto do rei meu amo. - Estas perdizes acabam de pronunciar a tua sentença de morte - gritou o sova com voz trêmula de cólera. Não se dirá que o pobre mercador invocou em vão o testemunho das tiroubas. E depois dum sinal feito ao executor, que acompanha o rei para toda a parte, um alfange se levantou e rapidamente caiu sobre a cabeça do dahomeano, a qual rolou no pó. O rei Yébou encerrou-a depois num odre e enviou-a ao rei Dahomey, mandando-lhe dizer que, quando tornasse a enviar-lhe assassinos e ladrões como mensageiros, lhes faria ter a mesma sorte..." (115- 117), Lisboa, 1912. Constitui o tema N 271.3, no Motif Index of Folk-Literature, de Stith Thompson, Indiana University Studies, Bloomington, Indiana, vol. 22, Studies n° 108, 109, 110, p. 70. Ocorre ainda no Scala Celi, fins do século XIII onde as perdizes aparecem como na variante africana, Chauvin, VII, 146, indica várias coleções do Mil e Uma Noites (Habicht, Burton, Payne) que incluíram o episódio, Le temoignage des perdix. Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português, II°, 31-32, da 2ª ed. Lisboa, 1915, divulga o Judeu, o Escureiro e as Perdizes, do Fabulário Português, século XV, ms. da Biblioteca de Viena (Revista Lusitana, vol. 8, 136). René Basset, Mille et un Contes, Récits & Légendes Arabes, II° 381, fixa a bibliografia oriental e divulga uma versão de Ahmed el Qalyoubi. As fontes são inumeráveis. O assunto foi mais analisado no meu Anúbis e Outros Ensaios, in Superstição no Brasil, Os grous de Ibicus voam em português, 167, Belo Horizonte, 1985, Coleção Reconquista do Brasil, vol. 91, com as versões brasileiras.
  • A Menina Enterrada VivaEra um dia um viúvo que tinha uma filha muito boa e bonita. Vizinha ao viúvo residia uma viúva, com outra filha, feia e má. A viúva vivia agradando a menina, dando presentes e bolos de mel. A menina ia simpatizando com a viúva, embora não se esquecesse de sua defunta mãe que a acariciava e penteava carinhosamente. A viúva tanto adulou, tanto adulou a menina que esta acabou pedindo que seu pai casasse com ela. - Case com ela, papai. Ela é muito boa e me dá mel! - Agora ela lhe dá mel, minha filha, amanhã lhe dará fel – respondeu o viúvo.
  • Page 341Em cima da sepultura da órfã nasceu um capinzal bonito. O dono da casa mandou que o empregado fosse cortar o capim. O capineiro foi pela manhã e, quando começou a cortar o capim, saiu uma voz do chão, cantando: Capineiro de meu pai!
  • Page 342Españoles, II, 152°, p. 320, "Las tres bolitas de oro", dá uma variante de Torrijo de Cañada, Aragão, com enredo mais desdobrado, assim findando - "Y la madrasta de rabia que tenia con ella le dijo que pa qué le habia dao los higos a la Virgem, y la llevó y enterró vivia en trigal con sus tres bolitas de oro. Y ya se fué la madrasta creyendo que ya estaba muerta. Pero la ñina seguía viva enterrada en el trigal. Y el pelo de la niña creció por la tierra con el trigo. Y logo fueron los segadores a segar el trigo. Y cuando llegaron onde estaba enterrada la ñina y segaban el trigo junto con su pelo que cantava: Segadores, que vais a segar, no seguéis mi lindo pelo, que la tuna de mi madre me enterró por higo y medio.
  • Page 34310 – CONTOS ACUMULATIVOS
  • O Menino e a Avó GulosaO menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu para adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e a avó lhe deu um machadinho. Saiu o menino pela estrada e encontrou o Pica-Pau furando uma árvore com o bico.
  • Page 345- Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui! -Oh! menino! Empresta-me sua pena...
  • Page 346Nota - Minha mulher ouviu esse conto em Macaíba, de pessoas da família. É um dos contos acumulativos, Cumulative Tales. A forma final, que dei completa, é repetida progressivamente, de figura a figura, declamada num tom de parlenda monótona e extremamente simples. O barão de Sant'Ana Neri ("Folk-Lore Brésilien", Paris, 1889, p. 206) registra um outro conto acumulativo, o "Macaco e a viola" (Le Singe et la Mandoline). O macaco teve a ponta do rabo cortada pelo barbeiro não a podendo restituir, perdeu a navalha. Uma mulher que escamava peixe aceitou a navalha e não pôde entregar. O macaco levou uma sardinha que deu a um padeiro. Este, comeu-a, e ficou sem uma barrica de farinha. O macaco ofereceu a farinha a uma professora para ela e as alunas e depois cobrou. Não recebendo a farinha, levou uma menina que deu a uma lavadeira. A lavadeira não deu a menina ao macaco e este furtou uma camisa. Deu a camisa a um homem que vendia instrumentos de música e quando a cobrou, não a recebendo, ficou com uma viola. Trepou para o alto da casa e de lá cantou: ELUCIDÁRIO:
  • Page 347da região do Languedoc, "Turlendu", colhido por Montel e Lambert em La Lozère, tem a seguinte fórmula terminal: - "D'un petit pou à une petite poule - d'une petite poule à un petit porc - d'un petit porc à une petite mule - d'une petite mule à une jeune fille - d'un jeune fille à un gros chien - qui m'a emporté le nez". Contes des Provinces de France, XLIV, p. 319. Os waissou-kouma, Wa-Sukuma, são negros bantus. O original do acumulativo que Santana Néri traduziu para o francês é de Portugal, divulgado por Adolfo Coelho ("Contos da Carochinha", O rabo do gato, X, Lisboa, 1927) onde o gato substitui o macaco, herói natural de contos africanos e brasileiros. O final é: - Da farinha fiz menina; - Da menina fiz camisa; - Da camisa fiz viola; - Frum, fum, fum... ai! - Vou deportado p'ra Angola, p. 40.
  • O macacoO Macaco Perdeu a Banana macaco estava comendo uma banana num galho de pau quando a fruta lhe escorregou da mão e caiu num oco da árvore. O macaco desceu e pediu que o pau lhe desse a banana: - Pau, me dá minha banana!
  • Page 349reuniu dez contos dessa espécie, número 271 a 280, de seus "Cuentos Populares Españoles", III, 503-516. Num desses, o 275, "Las bodas del tio Perico", o final é assim: - "Y entonces Dios envió la muerte a que se llevara al herrero. Y entonces la muerte queria llevarse al herrero y el herrero queria romper el cuchilo y el cuchilo queria matar la vaca y la vaca queria beber el agua y el agua queria apagar la lumbre y la lumbre queria quemar el palo y el palo queria pegar al perro y el perro queria comer al lobo y el lobo queria comer a la oveja y la oveja queria comer la malva. Y entonces la malva le limpió el pico al gallo y el gallo entonces se puso muy contento y fué a las bodas de tio Perico". É um gênero muito espalhado na América. É o Mt. 2021 de Aarne-Thompson, que dá o exemplo do The Frost-bitten Foot, de origem europeia, traduzido e conhecido no Brasil. O resumo de Antti Aarne diz: -"God how strong you are - God who sends kills steer, steer that drinks water, water that quenches fire, fire that bourns stick, stick that kills cat, cat that eats mouse, mouse that perforates wall, wall that resists wind, wind that dissolves cloud, cloud that covers sun, sun that thaws frost, frost that broke my foot (Z 43). É a história da neve que pegou a pata da formiguinha e esta recorreu ao sol, nuvens, vento, muro, rato, gato, vara, fogo, água, ovelha, faca, ferreiro, morte e Deus. Cf. "El marranito gloton y la gallinita", na revista infantil da Venezuela, "Onza, Tigre y Leon", n° 24, Janeiro, 1941, p. 5, comunicação da menina Etelvina Gouverneur, da Escola Federal 357, S. José da Tiznados.
  • Page 35011 - CICLO DA MORTE
  • O Compadre da MorteDiz que era uma vez um homem que tinha tantos filhos que não achava mais quem fosse seu compadre. Nascendo mais um filhinho, saiu para procurar quem o apadrinhasse e, depois de muito andar encontrou a Morte, a quem convidou. A Morte aceitou e foi a madrinha da criança. Quando acabou o batizado voltaram para casa e a madrinha disse ao compadre: - Compadre! Quero fazer um presente ao meu afilhado e penso que é melhor enriquecer o pai. Você vai ser médico de hoje em diante e nunca errará no que disser. Quando for visitar um doente me verá sempre. Se eu estiver na cabeceira do enfermo, receite até água pura que ele ficará bom. Se eu estiver nos pés, não faça nada porque é um caso perdido. O homem assim fez. Botou aviso que era médico e ficou rico do dia para a noite porque não errava. Olhava o doente e ia logo dizendo:
  • Page 352Levou o homem num relâmpago até sua casa. Tratou-o muito bem e mostrou a casa toda. O médico viu um salão cheio, cheio de velas acesas, de todos os tamanhos, uma já se apagando, outras vivas, outras esmorecendo. Perguntou o que era:
  • Page 353- Só queria morrer para não ver uma miséria destas!... Não fechou a boca e a Morte bateu em cima, carregando-o. A gente pode enganar a Morte duas vezes mas na terceira é enganado por ela.
  • Page 35412 - TRADIÇÃO
  • A Música dos Chifres Ocos e PerfuradosNa capoeira de Mamanguape pasta uma notável população de veados. Vivem soltos e perseguidos pelos caçadores impenitentes. Muitos vão dar na praia enlouquecidos pela perseguição. Ficam bêbedos de cansaço e desespero. Nestas circunstâncias não é difícil ser abatido pelos pescadores que gostam muito de carne. O peixe é prato de todos os dias. Vez por outra não faz mal uma variação de alimento. E assim a espécie dos "galhudos” vai rareando. Entretanto a maioria dos caçadores não lhes come a carne e até a abandona em pleno mato. Tirado o couro, gostam é de chegar com o troféu, exibindo-o, só pelo prazer de ostentá-lo - e mais nada. A caça verifica-se em certos dias. Não se faz assim de repente apenas pela alegria da aventura. Veado nem sempre pode ser pegado pelos cachorros e pelas balas da espingarda. O motivo da escolha cuidadosa da ocasião de persegui-lo vem de um fato bem notório que toda gente entendida no negócio proclama como absolutamente verdadeiro. Existem nas capoeiras alguns veados chefes de bando que costumam reunir o seu “povo” para um remoer mais demorado na tranquilidade. A convocação é feita por intermédio de uma harmonia de música que toca a todos os corações. Ninguém poderá ouvi-la sem ficar inteiramente dominado e vencido nos seus propósitos inferiores. A beleza tem disso: amolece as energias empregadas no sentido do mal. E como caçar não deixa de ser uma impiedade, fica adiada a perseguição, fica para outro dia, pois o caçador foi posto à margem, é supersticioso e não ama contrariar as forças da natureza quando elas se manifestam tão maravilhosamente.
  • Page 356de balas a tiracolo) vem como sinal de advertência generosa. Quem transgredir a norma histórica terá de arcar com as consequências nem sempre agradáveis. As surpresas então se tornarão constantes e prejudiciais. E não há necessidade de enfrentá-las assim de caso pensado. O melhor é aguardar outra vez. Fica para amanhã. Fica para depois. Em qualquer tempo é tempo para o "prazer da perseguição". Aquela música divina não é ouvida com frequência, é mesmo coisa um tanto rara nas sextas-feiras, nos sábados e nos domingos. Nos outros dias da semana a caça não se faz de preferência por causa do trabalho de campo e outras obrigações de ganha-pão a que o homem ordinariamente se acha sujeito. Portanto não convém ir de encontro às determinações dos deuses ocultos que dirigem os movimentos na floresta ou nos tabuleiros. Rebanhos enormes se reúnem em torno dos chamados “galhudos”. Estes no meio como que dirigindo a sessão. Em torno se encontra a veadaria deitada em remansoso descanso. Os mateiros mais afoitos se arrastam cautelosamente até lá com o fim de apreciar o concerto incomparável. Impõe-se muito cuidado para evitar o menor barulho. Qualquer atrito de folha seca é razão para que os ouvidos fiquem atentos. Ficam à escuta para uma arrancada louca de precipitação. Mas quando acontece tal curiosidade é porque prevaleceu o enfeitiçamento do caçador arrastado pelos encantos de uma música que tem qualquer coisa de sortilégio. Não tem preocupações de fazer mal. Chega mesmo a abandonar as armas para melhor facilitar a aproximação sutil nos seus movimentos de caçador.
  • Page 357tabuleiros as melodias mais belas que o vento arranca dos vinte e três chifres ocos e perfurados como flauta. Depois vem a dispersão. Cada qual para o seu canto. E que trate de livrar-se da sanha criminosa dos seus perseguidores. O fim da semana é para se viver debaixo de toda cautela. Muito cuidado. Ainda assim é quando o caçador consegue livremente exercer a sua diversão extravagante e injusta. Sai para matar sem levar na alma a menor sombra de preocupação com os imprevistos maus que lhe possam acontecer. Ademar Vidal, João Pessoa, Paraíba.
  • Page 359Governo do Rio Grande do Norte. (Cronologia dos capitães-mores, presidentes provinciais, governadores republicanos e interventores federais, de 1897 a 1939). Natal: Livraria Cosmopolita, 1939. 234p. Edição atual - Mossoró: ESAM, 1989. Coleção Mossoroense, série C, v. DXXVI. Vaqueiros e cantadores. (Folclore poético do sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará). Porto Alegre: Globo, 1939. Biblioteca de Investigação e Cultura. 274p. Edição atual - 3.ed. - São Paulo: Global, 2005. 357p. Década de 1940
  • Page 360Os holandeses no Rio Grande do Norte. Natal: Editora do Departamento de Educação, 1949. 72p. Década de 1950
  • Page 361Notas e documentos para a História de Mossoró. Natal: Departamento de Imprensa, 1955. Coleção Mossoroense, série C, 2.254p. Edição atual – 5. ed. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 2010. 300p. Coleção Mossoroense, série C, v. 1.571. Notícia histórica do município de Santana do Matos. Natal: Departamento de Imprensa, 1955. 139p.
  • Page 362Coleção Câmara Cascudo: memória e biografias. Grande fabulário de Portugal e do Brasil. [Autores: Câmara Cascudo e Vieira de Almeida]. Lisboa: Fólio Edições Artísticas, 1961. 2v.
  • Page 363Coisas que o povo diz. Rio de Janeiro: Edições Bloch, 1968. 206p. Edição atual 2. ed. São Paulo: Global, 2009. 155p. Nomes da Terra: história, geografia e toponímia do Rio Grande do Norte. Natal: Fundação José Augusto, 1968. 321p. Edição atual - Natal: Sebo Vermelho Edições, 2002. 321p.
  • Page 364Global, 2013. 168p. Ontem: maginações e notas de um professor de província. Natal: Editora Universitária, 1972. 257p. Edição atual - 3. ed. Natal: EDUFRN, 2010. 254p. Coleção Câmara Cascudo: memória.
  • Page 365Contes traditionnels du Brésil. Alléguéde, Bernard [Tradução]. Paris: G. P. Maisonneuve et Larose, 1978. 255p. Década de 1980
  • Page 366Contos tradicionais do Brasil para jovens. 2. ed. São Paulo: Global, 2006. 125p. No caminho do avião... Notas de reportagem aérea (1922-1933). Natal: EDUFRN - Editora da UFRN, 2007. 84p.
  • Page 367Exército, 1961. 56p. Os ciganos e cancioneiros dos ciganos, de Mello Moraes. [Revisão e notas]. Belo Horizonte: [s.ed.], 1981.
  • dez. 1998.)Conferência (Tricentenário dos Guararapes). [separata] Revista do Arquivo Público, n. VI. Recife: Imprensa Oficial, 1949. 15p. Consultando São João: pesquisa sobre a origem de algumas adivinhações. Natal: Departamento de Imprensa, 1949. Sociedade Brasileira de Folclore, 1.22p.
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  • Page 376© Anna Maria Cascudo Barreto e Fernando Luís da Câmara Cascudo, 1999 1ª Edição Digital, Global Editora, 2014
  • e-mail: [email protected] www.globaleditora.com.brColabore com a produção científica e cultural. Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a autorização do editor. N° de Catálogo: 2140.eb
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quando chegou não disse cousa nenhuma de mal, elogiando tudo quanto vira, especialmente a bondade da princesa.

A princesa mandou buscar a mais nova e cobriu-a de presentes, vestidos e preparos ricos, dando-lhe um quarto pegado ao seu. Contou que tivera necessidade de arranjar uma amiga fiel e que soubesse guardar segredo e não mexericar, e a única maneira fora aquela de dar pedaços de fígado de galinha. Contou ainda que tivera a sina de virar serpente e que gostava muito de um rapaz, não casando porque não tinha quem a substituísse na alcova e lhe merecesse confiança.

Ficou tudo combinado. A princesa ia casar e deixaria a moça no seu quarto. A moça era parecidíssima com ela. Assim que acabasse a cerimônia a princesa corria para o quarto e a moça vestiria o vestido de noiva e a outra, já virada em serpente, ia cumprir sua sina durante um ano. O resto confiava no coração da amiga.

Assim sucedeu direitinho. O noivo, quando a moça lhe apareceu já vestida com os trajes próprios, ficou convencido de que se tratava realmente da princesa, quando esta, coitada, corria os campos, virada numa serpente preta.

Houve festa e quando se agasalharam, a moça pegou na mão do noivo e disse que fizera uma promessa ao Jesus Crucificado para não ter vida comum com o marido durante um ano, dormindo no mesmo quarto mas em camas separadas. Abriu um gavetão da cômoda e mostrou um vulto do Crucifixo, que assistiria o cumprimento da promessa. O noivo conformou- se com a situação por tratar-se de promessa.

Passaram-se todos os meses até o dia em que a princesa devia desencantar.

Nessa tarde, num local bem escondido, a moça levou três bacias, uma com leite, uma com água da fonte e outra com perfume. A serpente chegou, comprida, e foi se metendo na bacia de leite e se enrolando, se enrolando. Saltou de dentro a princesa tal qual era antes de cumprir a sina. Lavou-se na