Back
Flip
Vertical
Horizontal
All Pages
1 / 134
Mailing List
Rip
Share
Fullscreen
Sa
Arts

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - Uma Antologia Poética

By Sammis Reachers

Finalmente a SGM ganha uma antologia em língua portuguesa reunindo seus maiores poetas/poemas. Busquei coligir para esta seleta apenas poemas de autores contemporâneos ao conflito, e de países diretam

Go to stand
Share link
https://covver.com/magazine/sammisreachers/segunda-guerra-mundial-uma-antologia-poetica-soa5WH3wkv7ki3GzSGhy
Published
Oct 12, 2025
Pages
134
Language
English

More in this magazine

  • Segunda GuerraMUNDIAL Uma Antologia Poética
  • SEGUNDA GUERRAMUNDIAL Uma Antologia Poética
  • Page 3Bellum dulce inexpertis. *A guerra é doce para quem não a experimentou.
  • ÍndicePrefácio Bertolt Brecht (ALE)
  • Stanley Kunitz (EUA)Considerações Junto a Uma Caixa de Correio... T. S. Eliot (EUA/ING) Little Gidding......…………………
  • Dylan Thomas (ING)Cerimônia Após um Bombardei Entre os mortos num bombardeio ao amanhecer havia um homem de cem anos
  • Marina Tzvietáieva (URSS)Tomaram......... Mikhail Dúdine (URSS)
  • PrefácioSofro da estranha mania de organizar antologias. Já são mais de dez. A maioria é de temática religiosa, duas delas, creio, de interesse geral: a Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa (2008), bem intencionada mas com lacunas e alguma injustiça, e a Breve Antologia da Poesia Cristã Universal, publicada em 2012. Um de meus propósitos e humilde prazer é tentar fechar ou suprir determinadas lacunas bibliográficas lacunas que sempre me parecem 'imperdoáveis'. No caso da poesia cristã, simplesmente não havia algo no gênero (reunindo uma coleção de textos quantitativa e qualitativamente significativos) nas bibliografias de Brasil e Portugal. Some-se aqui a esse furor antologista meu fascínio pela Segunda Guerra Mundial, fixação de infância, sendo mesmo anterior ao meu interesse pela literatura, e que ao longo dos anos nunca arrefeceu (sintomático é que em meu livro Poemas da Guerra de Inverno (2012/1014), mais da metade dos poemas versa sobre a SGM).
  • Page 9não produziu war poets da qualidade de um Siegfried Sassoon ou Rupert Brooke, como a Primeira Guerra). Busquei coligir para esta seleta apenas poemas de autores contemporâneos ao conflito, e de países diretamente envolvidos nat guerra. Sejam war poets "clássicos" (soldados-poetas que participaram em algum momento da guerra, engajados em exércitos regulares), sejam vítimas (população de países subjugados, judeus e minorias étnicas, críticos e inimigos ideológicos do regime), sejam partisans e combatentes das resistências que pululavam nas mais diversas frentes do conflito. E também o que se poderia chamar de poetas expectadores, que, embora nativos de países envolvidos na guerra, apenas at acompanharam pelos canais noticiosos, caso de alguns poetas dos EUA e de outros países americanos, como o chileno Pablo Neruda e brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e outros.
  • Page 10- é mais que simplesmente ignorar a História, na figura e na pena de tão especializadas testemunhas: é ignorar a própria Poesia no que ela tem de mais verdadeiro e humano. SOBRE A EDIÇÃO DESTE LIVRO
  • Bertolt Brecht (Alemanha 1898-1956)Militante de esquerda e opositor do regime nazista desde seu início, o dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht foi perseguido, tendo a partir de 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, se refugiado em diversos países europeus e posteriormente nos EUA. Homem de seu tempo como poucos lograram ser, a poesia de Brecht é riquíssima em textos sobre o conflito. Optamos por publicar aqui três poemas singulares, os já clássicos Manual de Guerra Alemã 1 e 2, onde o poeta, nos anos imediatamente anteriores à Guerra, desvela irônica e mesmo profeticamente todo o esforço de guerra alemão, com sua hipocrisia e seus nefastos resultados; e o poema Regresso, sobre seu retorno à pátria (para onde voltou em 1947), agora derrotada e destruída - como ele mesmo previra, em tantos e tantos de seus textos. Traduções de Paulo César de Souza
  • Page 12OS DE CIMA DIZEM: GUERRA E PAZ São de substância diferente Mas a sua guerra e a sua paz São como tempestade e vento.
  • Page 13Nos corações deve haver O mesmo ânimo. Mas nos pratos
  • Cartilha de Guerra Alemã IIO PINTOR DIZ: Quanto mais canhões forem fabricados
  • Os governantes rugemO povo sussurra. PARA QUE CONQUISTAR MERCADOS PARA OS PRODUTOS
  • RegressoA cidade natal, como a encontrarei ainda? Seguindo os enxames de bombardeiros Volto para casa.
  • Abgar Renault (Brasil 1901-1995)O poeta e educador Abgar Renault, em seus poemas, deixa claro seu fascínio pela Inglaterra, predileção que levou-o a traduzir, durante a Segunda Guerra, poemas dos war poets ingleses da Primeira Guerra Mundial. Esses poemas foram publicados em jornais do Brasil e do exterior, de 1941 a 1945, vindo também a ser enfeixados em livro (primeira edição já em 1942). Renault era alto funcionário do governo Getúlio Vargas, e a própria publicação desses textos traduzidos já deixa entrever um consciente esforço de mobilização da opinião pública nacional para a guerra que estava prestes, e acabou por efetivamente arrolar também o Brasil em seu turbilhão. Transporte de Guerra
  • UBI TROJA ESTAqui é Londres London Londinium, a velha, a cinzenta, a misteriosa. Aqui é Londres, que Adolf Hitler ia reduzir. Onde está Adolf Hitler? - Aqui é Londres.
  • Carlos Drummond de Andrade (Brasil 1902-1987)Maior poeta brasileiro e um dos maiores de nossa língua ao lado de Camões e Pessoa, a II Guerra Mundial exerceu forte impacto sobre o ainda militante comunista CDA, notadamente nos versos de seu livro A Rosa do Povo. O livro é uma obra prima que conta com vários poemas inspirados pela guerra, tendo especial destaque o tema da resistência soviética, que começava a vencer as forças invasoras do Reich, prenunciando a derrota de Hitler. Carta a Stalingrado
  • Page 20Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama! Que felicidade brota de tuas casas! De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
  • Visão 1944Meus olhos são pequenos para ver a massa de silêncio concentrada por sobre a onda severa, piso oceânico esperando a passagem dos soldados. Meus olhos são pequenos para ver luzir na sombra a foice da invasão e os olhos no relógio, fascinados, ou as unhas brotando em dedos frios.
  • Page 22levadas para longe, num tapete, funcionando com fúria e com carinho. Meus olhos são pequenos para ver na blusa do aviador esse botão que balança no corpo, fita o espelho e se desfolhará no céu de outono.
  • Page 23toda essa força aguda e martelante, a rebentar do chão e das vidraças, ou do ar, das ruas cheias e dos becos. Meus olhos são pequenos para ver tudo que uma hora tem, quando madura, tudo que cabe em ti, na tua palma, ó povo! que no mundo te dispersas.
  • Cecília Meireles (1901-1964)Uma das principais poetas da língua portuguesa, a carioca da Tijuca Cecília Meireles era filha de açorianos. Também professora, pintora e jornalista, os eventos da Segunda Guerra não passaram despercebidos diante de Cecília. O poema Guerra (1945) e o livro Pistóia - Cemitério Militar Brasileiro, embora tardio (1955) são provas cabais disto. Guerra
  • Pistoia - Cemitério Militar BrasileiroEles vieram felizes, como para grandes jogos atléticos, com um largo sorriso no rosto, com forte esperança no peito, - porque eram jovens e eram belos. Marte, porém soprava fogo por estes campos e estes ares. E agora estão na calma terra, sob estas cruzes e estas flores, cercados por montanhas suaves.
  • Murilo Mendes (Brasil 1901-1975)O mineiro Murilo Mendes é um dos ilustres cavalheiros da segunda geração do Modernismo brasileiro, geração de ouro que legou à poesia brasileira nomes do naipe de Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt e outros. Seu livro Poesia Liberdade (1947) reúne trabalhos escritos durante o período da Segunda Guerra, onde o autor dá azo a seu lirismo que, mesmo tendo bebido da fonte surrealista, desdobra-se em sua preocupação social diante das mazelas e incertezas do período. Poema Presente
  • Tempos DurosA aurora desce a viseira: O monumento ao deserdado desconhecido Acorda coberto de sangue.
  • Vinícius de Moraes (Brasil 1913-1980)O carioca Vinícius de Moraes, arquétipo do boêmio, construiu sua carreira literária através da poesia, teatro e prosa, destacando-se como um de nossos maiores sonetistas. O poema A Rosa de Hiroshima, que virou canção musicada por Gerson Conrad em 1974, foi publicado em 1954 no livro Antologia Poética, livro que também trazia os poemas Balada dos mortos dos campos de concentração e A bomba atômica, de temáticas relacionadas à Guerra. A Rosa de Hiroshima
  • Balada dos mortos dos campos de concentraçãoCadáveres de Nordhausen Erla, Belsen e Buchenwald! Ocos, flácidos cadáveres Como espantalhos, largados Na sementeira espectral Dos ermos campos estéreis De Buchenwald e Dachau. Cadáveres necrosados Amontoados no chão Esquálidos enlaçados Em beijos estupefatos Como ascetas siderados Em presença da visão. Cadáveres putrefatos Os magros braços em cruz Em vossas faces hediondas Há sorrisos de giocondas E em vossos corpos, a luz Que da treva cria a aurora. Cadáveres fluorescentes Desenraizados do pó Que emoção não dá-me o ver-vos Em vosso êxtase sem nervos Em vossa prece tão-só Grandes, góticos cadáveres! Ah, doces mortos atônitos Quebrados a torniquete Vossas louras manicuras Arrancaram-vos as unhas No requinte de tortura
  • Page 30E de onde os frutos da paz Tombarão no chão da guerra! 30
  • Pablo Neruda (Chile 1904-1973)O chileno e Nobel de Literatura (1971) Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, conhecido universalmente como Pablo Neruda, é um daqueles poetas que dispensam apresentações. Homem de esquerda e eterno engajado, Neruda somou forças na Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, sendo por isso destituído de seu cargo de cônsul chileno em Madrid. Em 1943 Neruda retorna ao Chile. O livro Terceira Residência (1947) reúne algumas de suas impressões poéticas acerca da Segunda Guerra Mundial, como este Novo Canto de Amor a Stalingrado. Novo Canto de Amor a Stalingrado
  • Page 32com pavilhão de fúria hasteado sobre as lágrimas recém derramadas. Já não estás a sós, Stalingrado. E os grandes leões da Inglaterra voando sobre o mar de furacões cravam as garras na parda terra. Já não estás a sós, Stalingrado.
  • Page 33Os ossos dos assassinos feridos, os invasores de pálpebras fechadas e os conquistadores fugitivos atrás de sua centelha, Stalingrado. Os que humilharam a curva do Arco e as águas do Sena transpuseram com o consentimento do escravo, se detiveram em Stalingrado. Os que a bela Praga sobre lágrimas, sobre o emudecido e o traído, passaram pisoteando suas feridas, morreram em Stalingrado.
  • Page 34que morri amando-te e que me tens amado, e se não estive combatendo em tua cintura deixo em tua honra esta granada escura, este canto de amor a Stalingrado. 34
  • Ivan Goran Kovacic (Croácia 1913 - 1943)O poeta e escritor croata Ivan Goran Kovacic foi morto durante a Segunda Guerra, quando da ocupação nazista de seu país (então parte da lugoslávia), ocupação esta que estabeleceu o estado-títere da Croácia Independente (1941-1944). Deixou um testamento: o poema épico Fosso (Jama, publicado em 1944), em dez cantos, onde o poeta narra o extermínio sistemático de judeus, sérvios e outras minorias durante o período de ocupação. Fosso
  • Canto X (fragmento)O cheiro de incêndio trouxe até mim o vento Assim de um só golpe de minha aldeia em chamas Cheiro de que brotam todos os meus mementos Bodas e colheitas festanças e carroças Os sepultamentos lamentos e bebedeiras O que planta a vida o que a morte ceifa Onde está a sorte o brilho das vidraças Ninhos de andorinhas o hálito do pomar Onde está o bater do berço que balança Da casa a dourada soleira à luz do sol
  • Vladimir Nazor (Croácia 1876-1949)Escritor e poeta, Nazor foi figura relevante do Modernismo iugoslavo. Mesmo com 67 anos durante a Segunda Guerra, o escritor engajou-se na resistência contra a ocupação nazista e o estado-títere da Croácia Independente. Em 1944 publicou o livro Canções dos Partizani. Mãe Ortodoxa
  • Page 38Agora coberta de auréola de martírio, mãe ortodoxa. (Numa aldeia sérvia incendiada junto a Vrginmost, janeiro de 1943)
  • Archibald MacLeish (EUA 1892-1982)Durante a Primeira Guerra Mundial foi motorista de ambulância, como seu amigo Hemingway e outros escritores norte-americanos, passando depois para a artilharia, aonde chegou a capitão. Durante a II Guerra trabalhava como diretor da Biblioteca do Congresso Americano, e ocupou cargos também no Departamento de Guerra. Ajudou a formar a célula de pesquisa e informação do que viria a ser a CIA (Central Inteligence Service). Macleish ganhou três prêmios Pulitzer por sua obra. O poema aqui publicado saiu em livro em 1943. Colóquio Entre os Estados
  • Page 40Acho que não gostam de nós diz Maine. Vamos conta diz Connecticut.
  • Page 41Latagões vigilantes no comando; comandados audazes; Bom fôlego na reta de chegada. Já os derrotaram? Ouço que não diz Maine. Dizem que somos Mestiços; eles não vão conosco.
  • Page 42Há falatório diz Iowa. Falatório diz Illinois.
  • Dudley Randall (EUA 1914 - 2000)O afro-americano Dudley Randall foi poeta e importante editor, pautando sua obra poética pela causa negra e publicando diversos grandes autores afro-americanos. Durante a Segunda Guerra, serviu no Exército, experiência que o inspirou a escrever poemas tais como esses Epitáfios do Pacífico. Epitafios do Pacífico
  • Page 44IWO JIMA. Como óleo texano, Ó meu sangue jorrando.
  • John Ciardi (EUA 1916 - 1986)Natural de Boston, o descendente de italianos John Ciardi foi poeta, escritor, crítico, editor e tradutor. Durante a guerra serviu na força aérea, tornando-se artilheiro em um avião B-29. Suas experiências no conflito geraram o livro de poemas de guerra Other Skies (1947). O tema da guerra continuou a repercutir em toda a sua obra, como se vê neste poema aqui publicado. Em 1988 publicou-se postumamente seu diário de guerra, Saipan. O Dom
  • Karl Shapiro (EUA 1913 - 2000)Karl Shapiro teve seu livro V-Letter e outros poemas publicado nos EUA enquanto ainda servia como soldado no teatro do Pacífico. O livro ganhou o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1945. Ao retornar da Guerra, foi eleito Poeta Laureado pela Biblioteca do Congresso em 46 e 47. Desenvolveu sólida carreira como poeta, professor e editor de poesia. Trem de Tropas
  • Page 47Os trens levam aos barcos e os barcos à morte ou aos trens, e os trens à morte ou aos caminhões, e os caminhões à morte, ou os caminhões conduzem à marcha, a marcha à morte ou a sobrevivência que é nossa única esperança; e a morte nos devolve aos caminhões e aos trens e aos barcos, porém a vida leva à marcha, oh bandeira!, finalmente o lugar da vida encontrado depois dos trens e da morte - Brilhante anoitecer das nações depois da guerra.
  • Randall Jarell (EUA 1914-1965)O poeta, escritor e crítico literário Randall Jarell nasceu em Nashville, Tennessee. Em 1942 deixou a faculdade para juntar-se à Força Aérea. Jarell tornou-se operador de torres de artilharia em aviões como o B-17 e o B-24, função que ele considerava profundamente "poética”. O pequeno poema abaixo faz referência a esse fato, e é possivelmente o mais famoso poema de guerra americano do período da SGM. Suas experiências de guerra redundaram em dois livros: Little Friend, Little Friend (1945) e Losses (1948). A Morte do Artilheiro da Torre Giratória
  • Stanley Kunitz (EUA 1905 - 2006)Stanley Kunitz nasceu em Worcester, Massachussetts, descendente de judeus lituanos. Em 1943 foi convocado pelo Exército Americano. Objetor de consciência, serviu como não-combatente em Washington. Em 1944 publica seu livro Passaporte para a Guerra. Vencedor do Pulitzer em 1959, o poeta foi duas vezes eleito Poeta Laureado pela Biblioteca do Congresso Americano. Considerações Junto a Uma Caixa de Correio
  • Page 50Como iremos nós não criar esta energia ilegítima? Agora espero sob a cicuta à beira da estrada
  • T. S. Eliot (EUA/Ingaterra 1888-1965)Um dos maiores e mais influentes poetas do século XX, o modernista norte- americano (naturalizado inglês) Thomas Stearns Eliot recebeu o Prêmio Nobel em 1948. O trecho aqui publicado é pertencente a quarta e última parte (Little Gidding) do poema Quatro Quartetos (que o próprio Eliot considerava sua obra- prima), e foi escrito em 1942. Nele, o poeta imagina um encontro com Dante nas ruas e ruínas de uma cidade bombardeada. Eliot serviu como voluntário civil numa brigada de antiataque aéreo, durante a Guerra. Little Gidding é o nome de uma igreja anglicana localizada no distrito de Huntingdonshire, na Inglaterra. Quatro Quartetos
  • Page 52Vizinha ao término da noite interminável No recorrente fim do que jamais se finda Após o negro pombo de flamante língua Perder-se no horizonte de sua fuga Enquanto as folhas mortas se moviam Vibrando ainda como lâminas de zinco
  • Page 53Mas, assim como agora a estrada se abre limpa Ao intranquilo e peregrino espírito Entre dois mundos que chegaram a parecer Demasiado iguais, assim descubro agora Palavras que jamais pensei dizer
  • Louis Aragon (França 1897-1982)Poeta e romancista, Aragon destacou-se como membro do movimento surrealista, ao lado de Breton e Éluard. Durante a Guerra foi um ativo poeta da resistência francesa, sendo membro do Partido Comunista. O poema aqui transcrito foi publicado originalmente em 1941, ano da invasão (e derrota) da França pelas tropas de Hitler. Os lilases e as rosas
  • Page 55Buquês do primeiro dia lilás lilases de Flandres Brandura da sombra cuja morte os rostos disfarça E vossos buquês da retirada suaves rosas Cores de incêndio distantes rosas de Anjou 55
  • Paul Éluard (França 1895-1952)Grande nome da poesia francesa do século XX, Éluard foi inicialmente dadaísta, e posteriormente o poeta maior do surrealismo. Engajado na Resistência Francesa durante a Guerra, foi dos seus mais destacados poetas, ao lado de Louis Aragón, tendo escrito poemas como 'Liberdade' aqui publicado, poema que circulava clandestinamente entre os insurgentes e teve até mesmo cópias lançadas de aviões ingleses, por toda a França. Liberdade
  • Em cada sopro de auroraNa água do mar nos navios Na serrania demente Escrevo teu nome
  • Escrevo teu nomeEm meus refúgios destruídos Em meus faróis desabados Nas paredes do meu tédio Escrevo teu nome Na ausência sem mais desejos
  • CoragemTradução de António Ramos Rosa Paris tem frio Paris tem fome
  • A Aurora Dissolve os MonstrosTradução de António Ramos Rosa Ignoravam que a beleza do homem é maior do que o homem
  • Pierre Emmanuel (França 1916-1984)Noël Mathieu, poeta e jornalista francês de inclinação cristã, fez-se mais conhecido pelo seu pseudônimo, Pierre Emmanuel. Membro da Resistência Francesa, durante todo o período de Guerra publicou diversos trabalhos, sendo, ao lado de Char, Aragon e Éluard, uma das principais vozes poéticas da Resistência. No pós-guerra ocupou diversos cargos de importância, e veio a ocupar a cadeira número 4 da Academia Francesa. Dia de Cólera
  • René Char (França 1907-1988)O jovem René Char inicialmente foi um filiado ao surrealismo, ao lado de Breton e Éluard, tendo logo se afastado do movimento. Durante a Guerra, o poeta engaja-se na Resistência, onde foi figura de destaque, adotando o codinome de Capitão Alexandre. Sua obra então sofre um hiato, pois o autor recusa-se a publicar durante a Ocupação alemã. Publicação que é retomada ao fim do conflito, já então tendo sua obra profundamente marcada pelo mesmo. Carta do 8 de Novembro*
  • Pobreza e PrivilégioTradução de Y. K. Centeno II
  • O VerdelhãoTradução de Y. K. Centeno O Verdelhão entrou na capital da aurora.
  • Giorgos Seferis (Grécia 1900-1971)Poeta grego vencedor do Prêmio Nobel de 1963. O poema aqui publicado (datado de 1939) é um prenuncio do que estava por vir, sobre a sua pátria e sobre toda a Europa, nos anos imediatamente seguintes. Com a deflagração da Segunda Guerra, ele acompanhou o governo grego no exílio por diversos países, num tour que começou na ilha de Creta e terminou na Itália. Ao fim da guerra tornou-se diplomata. O ÚLTIMO DIA
  • Odisséas Elýtis (Grécia 1911-1996)Um dos maiores nomes da grande poesia grega moderna, Elýtis, Prêmio Nobel de 1979, foi desde jovem impactado pela corrente surrealista, notadamente através de Paul Éluard. Durante a guerra, serviu na resistência albanesa, experiência que o levou a escrever o livro Canto Heroico e Funeral para o Segundo-Tenente Desaparecido na Campanha da Albânia, do qual publicamos aqui alguns trechos. Do Canto Heroico e Funeral para o Segundo-Tenente Desaparecido na Campanha da Albânia
  • Page 67IV XI
  • Tasos Leivaditis (Grécia 1922-1988)O ateniense Tasos Leivaditis foi um integrante da Resistência grega, durante a ocupação de seu país pelas tropas nazistas. Após a guerra foi deportado, em virtude de suas atividades esquerdistas. De volta à Grécia, em 1951, foi preso pelo regime direitista, tendo seu livro 'Sopra o Vento nas Esquinas do Mundo' censurado. O poeta foi absolvido em 1955. O poema aqui publicado saiu em livro em 1952. Esta estrela é para todos nós (excerto)
  • Page 69foi fuzilado. Minha amada não poderia
  • Page 70Depois ficamos nós. Onde ficamos? Porque ficamos? Como hei-de abrir uma porta se não for para ir ter contigo? Como hei-de atravessar uma soleira se não for para te encontrar? Não, não podia viver longe de ti, amada minha.
  • Gerrit Kouwenaar (Holanda 1923-2014)Durante a Segunda Guerra Mundial, publicou livros de forma clandestina, além de editar jornais subversivos. Foi preso, sendo liberado seis meses depois, vindo então a entrar na clandestinidade. Após a guerra dedicou-se a seu trabalho de escritor e tradutor. Terceiro Canto Heroico
  • Page 72em voz baixa acerca de um futuro melhor, fumávamos juntos um cigarro belga, juntos não suspeitávamos nenhum perigo / ele era soldado corajoso, obediente com dignidade, amava mozart, wagner a pátria, prestava atenção ao sussurro das suas árvores / escondi pouco da sua verdade, só omiti o indizível putas e pulgas e de que modo estraçalhávamos como carniceiros pois é, era primavera no jardim onde o enterramos sussurrava o plátano, árvore fazedora de mãos, no ar havia algo perfeito, acabado, perfeito finalmente, até a lua parecia novinha, sua irmã carnal estava suspensa dos meus lábios, lá pelo fim de Abril num corpo apertado, a groselheira perfumava a terra, a minha mão tocou-lhe os seios, a minha mão tocou-lhe os seios e era a mesma tépida massa mole, a mesma tépida massa mole, o mesmo material simplesmente o mesmo, e era esta mesma mão, esta 72
  • Jan Campert (Holanda 1902 - 1943)Poeta, jornalista, crítico e escritor, durante a guerra Jan Remco Theodoor Campert foi preso em um campo de concentração, por ajudar judeus. Acabou falecendo ali, em 1943. Seu poema mais conhecido é De Achttien Dooden (Os Dezoito Mortos). O poema foi escrito em 1941 e publicado clandestinamente em 1943, em forma de cartão, para arrecadar dinheiro para ajudar crianças judias. Ele fala sobre a execução de dezoito holandeses (15 combatentes da resistência e 3 comunistas) pelas mãos dos ocupantes alemães. Os Dezoito Mortos
  • Ter subjugado o nosso povoE ter pilhado como um ladrão. Agora o Caçador de Ratos de Berlim Flauteia a sua melodia;
  • Gyula Illyés (Hungria 1902-1983)Poeta, escritor e tradutor, Illyés desde jovem foi um engajado nos movimentos de esquerda na Hungria. Durante um período em Paris, trava amizade com os surrealistas franceses. A Segunda Guerra encontra-o como editor de uma das mais ilustres revistas literárias do país, a Nyugat ("Ocidente"). Em 1944 as forças de Hitler invadem a Hungria, e o poeta é obrigado a fugir. Já em 1945 retorna e torna- se membro do Parlamento húngaro. Dois anos após afasta-se da política, dedicando-se somente à produção intelectual. O Vizinho
  • István Vas (Hungria 1910-1991)Poeta, tradutor e ensaísta de origem judia, Vas foi aprisionado durante a Guerra no campo de concentração de Geza Ottlik, onde, em virtude das agruras terríveis do trabalho forçado, o autor tentou por diversas vezes o suicídio. Sobrevivente, Vas nos legou uma produção de dezenas de títulos, da poesia ao romance, passando por novelas, contos e ensaios. Mais do que a morte
  • János Pilinszky (Hungria - 1921-1981)Convocado para o exército húngaro em 1944, Pilinsky viu-se obrigado a seguir com o exército alemão, em sua retirada para a Alemanha. Durante sua estada no país, totalmente deslocado e perplexo em meio ao caos dominante, o poeta pôde presenciar a realidade de diversos campos de concentração, ainda em plena atividade, chegando a servir como guarda do campo de Ravensbrück. O poema abaixo reflete um pouco dessas experiências. Ganhador de vários prêmios, homossexual renitente, cristão, Pilinsky foi mais uma das almas marcadas para sempre pela Guerra. Paixão de Ravensbrück
  • Miklós Radnóti (Hungria 1909-1944)O poeta e tradutor de ascendência judia Miklós Radnóti nasceu em Budapeste. Durante a guerra passou por diversas dificuldades, vindo a ser preso e enviado ao campo de concentração de Bor. Durante uma das chamadas Marchas da Morte, onde prisioneiros eram obrigados a deslocarem-se a pé por centenas e até milhares de quilômetros, Radnóti, já debilitado, foi por fim executado e sepultado em vala comum. Após a exumação de seu cadáver, em 1946, foi encontrado no bolso de seu casado um caderno com seus últimos poemas, publicados sob o título de Tajtékos ég (Céu Espumante). Abaixo, o poema que dá título ao livro. Céu espumante
  • Razglednice*Tradução de Teresa Balté 1
  • Dylan Thomas (Inglaterra 1914-1953)O boêmio bardo galês Dylan Thomas, um dos maiores poetas de seu tempo, trocou a paz do País de Gales pela alvoroçada Londres durante a guerra, onde trabalhou escrevendo mensagens para a BBC. Seus problemas de saúde o haviam impossibilitado de engajar-se no serviço militar. Nos poemas aqui publicados, fica patente a forte impressão causada no poeta pelos bombardeios quase diários de que Londres era vítima. Traduções de Ivan Junqueira
  • Cantamos o mar flutuanteNo corpo saqueado. O amor é a última luz falada. Oh
  • Page 82Dentro do pão num trigal em chamas, Dentro do vinho que queima como aguardente, As missas do mar As missas do mar sob as missas
  • Page 83Entre os mortos num bombardeio ao amanhecer havia um homem de cem anos Quando a manhã despertava sobre a guerra, Ele vestiu as calças e caminhou para a morte, Suas madeixas bocejaram soltas e uma rajada de vento as dispersou, Tombou onde amava, sobre as pedras arrancadas à calçada
  • Edith Sitwell (Inglaterra 1887-1964)Filha da aristocracia inglesa, a mais velha dentre três irmãos (seus dois irmãos, Osbert e Sacheverell, também se notabilizaram como escritores), Edith Sitwell foi poeta e crítica literária. Com a eclosão da guerra, Sitwell, que então residia na França, retornou para a Inglaterra. A guerra acabou servindo de inspiração para muitos de seus poemas, inclusive aquele que talvez seja seu texto mais conhecido, o belíssimo Still Falls the Rain (Ainda Cai a Chuva), aqui publicado. AINDA CAI A CHUVA
  • Ainda cai a chuvaPor isto saltarei para Deus que me abate - Olha, olha como o Sangue de Cristo jorra no firmamento:
  • Keith Douglas (Inglaterra 1920-1944)Morto com apenas 24 anos, Keith Douglas já despertara atenção na Inglaterra com seus poemas, antes da Guerra. Alistado no Exército inglês, serviu como comandante de tanques no Norte da África, experiência que o levou a escrever o singular livro de memórias Alamein to Zem Zem (publicado em 1946), cujos poemas vieram a sagrá-lo como um dos maiores war poets da Segunda Guerra Mundial. Foi morto em combate durante o desembarque na Normandia. Traduções de Matheus "Mavericco"
  • VERGISSMEINNICHTDias idos, idos os soldados, voltando num solo fantasmático voltamos pro lugar e o espasmo de novo encontramos do soldado. O cano da arma, escurecido. E enquanto seguíamos em frente ele me pegou de repente como demônio introduzido.
  • W.H. Auden (Inglaterra/EUA 1907-1973)Nascido em 1907, em York, W.H. Auden foi um dos maiores poetas de sua rica geração. Em 1939, data do poema aqui publicado, Auden muda-se para os EUA, vindo anos depois a naturalizar-se cidadão americano. Em seus poemas anteriores à Guerra, já denunciava, com sua característica voz profética, a ascensão dos totalitarismos na Europa. 1.º de setembro de 1939
  • Page 89Quem entretanto pode viver indefinidamente num sonho eufórico? O espelho nos devolve a face do imperialismo, do erro universal.
  • Page 90Só de amor e poeira como eles feito, eu possa a eles juntar-me e sitiado por iguais negação e desespero, só de amor e poeira compor um raio de luz. 90
  • Giuseppe Ungaretti (Itália 1888-1970)Grande nome do hermetismo italiano, durante a juventude Ungaretti lutou como soldado na Primeira Guerra Mundial, fato que marcou sua literatura. Quando da eclosão da Segunda Guerra, o poeta estava no Brasil, onde lecionava Literatura na USP. Em 1942 retorna à Itália. Os versos aqui publicados são de "Roma Ocupada", parte do livro Il Dolore (A Dor 1942-1945, publicado em 1947), e retratam o sofrimento e sentimento de vazio do poeta em face à cidade de Roma ocupada pelas tropas nazistas. Traduções de Aurora F. Bernardini
  • Ora que um povo provaDepois dos raptos das emigrações, A estultice iníqua Das deportações; Agora que nos fossos
  • Nas VeiasNas veias quase túmulos vazios O desejo ainda galopante, Em meus ossos o congelado cerne, Na alma a saudade surda, A indomável nequícia, dissolve; Do remorso, latido interminável, No escuro indescritível Terrível clausura, Resgata-me, e teus cílios piedosos
  • Primo Levi (Itália 1919-1987)Judeu de origem italiana, Primo Levi participou da resistência anti-fascista na Itália. Capturado pela milícia fascista, acabou prisioneiro em Fossoli, sendo depois transferido para Auschwitz, de onde foi libertado pelo Exército Vermelho. Dedicou- se à memorialística, mas também à prosa de ficção e poesia. O poema aqui publicado está incluído no livro Se Isto É um Homem, que o autor terminou de escrever em 1946, sendo este seu principal livro de memórias. Vós que viveis tranquilos
  • Salvatore Quasimodo (Itália 1901-1968)Laureado com o Nobel em 1959, Quasimodo desde muito jovem foi impressionado pelo espetáculo do sofrimento humano, que vivenciou na cidade de Messina, onde foi morar com sua família um dia após um terremoto que arrasou a cidade, em 1908. Foi engenheiro, profissão que abandonou para tornar-se professor e dedicar-se à literatura. Também tradutor, verteu diversos clássicos para o italiano. Durante a guerra, o poeta preferiu apegar-se aos sofrimentos do povo. Após o conflito a sua poesia voltou-se para expressar os horrores da guerra e do regime fascista. Traduções de Sílvio Castro
  • CÂNTICOSFILHO MÃE
  • AUSCHWITZLá longe, em Auschwitz, distante do Vístula, querida, pela planície nórdica, em um campo de morte: fria, fúnebre, a chuva sobre a ferrugem dos postes e sobre os nós de ferro dos recintos: e nem uma árvore ou pássaros no ar gris ou em nossos pensamentos, apenas inércia e dor, que a memória deixa ao seu silêncio sem ironia ou ira.
  • Page 98e piedade apodreceram, lá longe sob a chuva, pulsava um não dentro de nós; um não à morte, morta em Auschwitz, para não repetir, daquele ninho de cinzas, a morte. 98
  • Sadako Kurihara (Japão 1913-2005)Sobrevivente da explosão atômica em Hiroshima, a poeta Sadako Kurihara dedicou sua poesia a denunciar as mazelas da guerra e do uso de armas de destruição em massa. Chegou a ser censurada durante o período de ocupação americana no pós- guerra. Dizendo "Hiroshima"
  • Deixemos vir a nova vidaFoi uma noite inteira em um porão de um prédio incendiado Pessoas feridas pela bomba atômica encontraram abrigo lá, enchendo-o. Passaram a noite na escuridão, nem mesmo uma única vela havia. O cheiro de sangue, ainda fresco. Cheiro forte de morte.
  • Tamiki Hara (Japão 1905-1951)Nascido em Hiroshima, Tamiki Hara foi escritor, poeta e professor de inglês. Perdeu a esposa em 1944, vítima de tuberculose. Em 1945 resolve retornar à casa dos pais em Hiroshima (cidade que havia deixado para dar aulas) e acaba presenciando a explosão atômica. Sobrevivente, doravante os temas da bomba e da morte da esposa serão dominantes em sua literatura. Flores de Verão (Natsu no Hana), escrito em 1946, é seu livro mais conhecido. O poeta suicidou-se em 1951. Isto É um Ser Humano
  • Hirsh Glick (Lituânia 1920-1944)Judeu lituano, Glick fez parte da resistência instalada no Gueto de Vilna, onde escreveu o famoso hino Não Digas Nunca (Zog Nit Keinmol), e de cujas ruínas foi resgatado o texto aqui publicado. Capturado, foi morto pelos nazistas ao tentar escapar de um campo de concentração, em 1944. A Balada do teatro pardo: Espetáculo no cárcere de Lubick
  • Page 103Todos buscam suas pupilas. E ela balouça a corda, esperando. Quem for atingido pelo seu olhar agudo nunca mais retornará... Balouça-se esperando a corda...
  • Czeslaw Milosz (Polônia 1911 - 2004)Filho de poloneses, Milosz nasceu na Lituânia, onde passou parte da juventude. Retornou à Polônia para os estudos, depois indo para Paris. Durante a Segunda Guerra entrou na clandestinidade, juntando-se à resistência polonesa e escrevendo poemas contra a ocupação nazista. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1980. Campo di Fiori
  • Talvez haja outra moralQue são fugazes as coisas humanas Que o esquecimento surge, Mesmo antes do fogo se apagar. Mas eu pensava então
  • Zbigniew Herbert (Polônia 1924 - 1998)Poeta, ensaísta e dramaturgo polonês ligado às vanguardas, Herbert começou a escrever aos 17 anos, em plena Segunda Guerra. Logo se integrou à resistência polonesa. Após a Guerra, seguiu escrevendo e crescendo em importância, sendo considerado um dos grandes autores poloneses do século XX, ao lado de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska. Traduções de Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczynska da Nóbrega
  • ABANDONADO1 Cheguei tarde demais para a última condução fiquei na cidade que não é uma cidade sem matutinos sem vespertinos não há prisão relógio nem água aproveito um tempo fora do tempo faço longas caminhadas por avenidas de prédios queimados avenidas de açúcar de vidros quebrados de arroz poderia escrever um tratado sobre a transformação abrupta da vida em arqueologia
  • Page 108um avião absurdo surge no céu joga folhetos demandando rendição eu adoraria me render mas não tenho a quem 3
  • Page 109me livrei das idéias macabras até o pressentimento da morte me abandonou 109
  • CINCO HOMENS1 Eles os levam para fora de manhã para o pátio de pedra e os botam contra a parede cinco homens dois muito jovens os outros de meia-idade nada mais pode se dizer sobre eles
  • Page 111já sabia faz tempo então por que tenho escrito poemas sem importância sobre flores o quê os cinco conversavam na noite antes da execução sobre sonhos proféticos sobre a ida a um bordel sobre peças de carro sobre uma viagem no mar sobre quando ele tinha copas e apostou errado sobre como vodka é melhor vinho dá dor de cabeça sobre garotas sobre frutas sobre a vida assim pode se usar na poesia nomes de pastores gregos pode-se tentar a cor do céu da manhã escrever sobre amor e também uma vez mais com toda sinceridade oferecer ao mundo traído uma rosa 111
  • Paul Celan (Romênia 1920-1970)Um dos maiores poetas do pós-guerra, Paul Celan teve toda a sua vida e obra marcadas pelo tição do horror nazista. Romeno de língua alemã e ascendência judia, durante a guerra, com a aliança entre Romênia e Alemanha, seus pais foram enviados a um campo de concentração, onde morreram. Também enviado a um campo, Celan conseguiu fugir em 1944, com o avanço das tropas russas. Data deste ano a circulação de primeira versão do poema Todesfuge (Fuga da Morte). O poeta suicidou-se em 1970. Fuga da Morte
  • Jaroslav Seifert (Thecoslováquia 1901 - 1986)O poeta, escritor e jornalista Jaroslav Seifert foi um dos mais destacados autores tchecos do Séc. XX, tendo recebido o Prêmio Nobel em 1984. Em 1938 prenunciou a guerra que estava por vir em seu livro Zhasnete Svetla (Apaguem as Luzes). Seguiu publicando durante 0 conflito, e em 1945 escreve Prilba Hlíny (O Capacete de Barro), obra que buscava inspirar os tchecos à sublevação contra os nazistas que se retiravam, e que lhe deu grande fama, alçando-o ao título de Poeta Nacional. O poema aqui publicado faz referência ao chamado Massacre de Lídice, quando toda uma vila tcheca foi exterminada, como vingança pelo assassinato do sanguinário Reinhard Heydrich, segundo em comando das SS, e que fora morto por membros da resistência checa. Os homens da vila foram fuzilados e mulheres e crianças enviadas para campos de concentração, e a cidade foi dinamitada e depois aplanada com tratores, para cumprir o designio de Hitler de "varrê-la do mapa". Os mortos de Lídice
  • Margarita Aliguer (URSS 1915-1992)Poeta, tradutora, bibliotecária e jornalista, Margarita Aliguer escreveu em diversos jornais durante a Segunda Guerra. Vencedora do Prêmio Stálin em 1943. De Primavera em Leningrado
  • Marina Tzvietáieva (URSS 1892-1941)A poeta e tradutora Marina Tzvietáieva teve sua vida e poesia marcadas pelo trágico. Em 1922 exilou-se com a família em Praga, fugindo da Revolução Russa. Em 1939 tomam a decisão que custaria a vida de quase toda a família: o retorno à URSS. Aprisionado junto com a filha Ariadna ainda em 1939, em 1941 seu marido é fuzilado. Marina, mal vista pelo Regime, não consegue emprego nem moradia. Sua outra filha, Irina, é enviada para um orfanato, onde morre de fome. Com o início da Guerra, Marina foi evacuada para a cidade de Ielabya, aonde veio a suicidar-se. Tomaram...
  • Mikhail Dúdine (URSS 1916-)Dúdine foi um dos importantes poetas de Leningrado, cujo cerco ele suportou durante a Guerra. Rouxinóis
  • Page 119O mundo abriu-se. Inchou de orvalho. Como se ainda mal compreendesse, aqui ao nosso lado ergueu-se outra de certo modo nova combinação de qualidade. Com o tempo, pelas trincheiras corria areia. Para a água se arrastavam as raízes no precipício, e o lírio no vale, erguendo-se em bicos de pés, olhou para a cratera da explosão.
  • Page 120Absurda morte. Torpe. Tanto mais que, os braços agitando, disse: "Rapazes, escrevam à Pólia, que hoje aqui cantam rouxinóis." E logo caiu no silêncio total, no trigésimo quinquagésimo dia de guerra.
  • Olga Fiódorovna Bierggólts (URSS 1910-1975)Vítima do Grande Terror de Stálin, Olga Bierggólts chegou a ser presa e torturada em 1938, (pouco depois que o Terror executara seu ex-esposo). Poeta e jornalista, ela permaneceu durante a Segunda Guerra na sitiada Leningrado (ao contrário de outros artistas e intelectuais, que eram sistematicamente evacuados para áreas seguras do país). Atuando como radialista, Olga encorajava a população com seus poemas e discursos, vindo a tornar-se um símbolo da resistência conhecida em toda a URSS. Deixou diversos livros sobre o período da Guerra, sendo após a morte de Stálin reconhecida pelo regime com prêmios e medalhas. Traduções de Lauro Machado Coelho
  • Page 122que vivi toda minha vida para chegar estes dias de impiedosa expansão. E não escondo o meu orgulho em ter, como mero soldado, entrado em teu destino, minha cidade, e no rol de teus poetas.
  • Conversa com uma vizinhaDaríya Vlasiévna, minha vizinha de andar, Vamos nos sentar, as duas, E falar dos dias de paz, A paz que tanto queremos de volta. Há quase seis meses estamos lutando, Seis meses do choro e ranger de dentes da batalha. Cruéis são os sofrimentos da nação, Teus sofrimentos, Dariya, e os meus.
  • Page 124De firme aço feita, imperecível, Ela terá tuas formas familiares. Assim como estás - desnutrida, indomável, Arrumada às pressas e de qualquer jeito; Assim como eras sob o bombardeio, Levando a vida sem desanimar.
  • Pável Antokólski (URSS 1896-1978)O poeta e tradutor Pável Grigórievitch Antokólski foi ator e produtor de teatro durante a Primeira Guerra, trabalho que o levou a excursionar pela frente de batalha, e posteriormente por diversos países. O poema aqui publicado data de 1943, e foi escrito em memória de seu primeiro filho, morto na Segunda Guerra. Com este texto o poeta foi agraciado com o Prêmio Stálin de 1946. Filho (fragmento)
  • Page 126A vida ia embora. I-a em-bo-ra. Como se tivesse estado por pouco tempo de visita e se desse conta de que a vela se apagara, que a casa estava vazia, as janelas, sem vidros, que a esperava um longo caminho de volta, à noite, sozinha, passando por choças carbonizadas e chaminés apagadas. Serenamente, a vida abandonou, deixou em paz, na relva do barranco, o cadáver com os braços em cruz. Não minta, imaginação!
  • Page 127Lembrou, lembrou, lembrou tudo o que desde o princípio esquecera. Compreendeu como haveria de ser difícil para mim. Sentiu pena de mim e me esqueceu. Ainda estava vivo. Um minuto. Meio minuto. Implorando uma graça impossível.
  • Siemión Gudzenko (URSS 1922-1953)Nascido em Kiev, Gudzenko fez parte da boa geração de poetas russos da Segunda Guerra Mundial. Serviu como voluntário na Infantaria. Em 1942, durante a chamada Batalha de Moscou, foi ferido e sofreu uma concussão. Acabou morrendo anos depois em virtude desses ferimentos, fato que havia 'previsto' em um de seus poemas. Antes do ataque
  • A minha geraçãoTradução de Manuel Seabra Não tenham pena de nós, nós não temos piedade de ninguém. Perante o nosso comandante, como perante Deus, somos puros. Os abrigos dos vivos enferrujaram de lama e sangue, nas campas dos mortos nasceram flores azuis.
  • BIBLIOGRAFIAALIGUER, Margarita. Poesia Russa Moderna. Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. São Paulo: Brasiliense, 1985 ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: Editora Record, 1987
  • Page 131GLICK, Hirsh. Quatro Mil Anos de Poesia. Org. de J. Guinsburg e Zulmira Ribeiro Tavares. São Paulo: Editora Perspectiva, 1969. GUDZENKO, Siemión. Poesia russa moderna - Nova antologia. Traduções de Augusto e Haroldo de Campos com a revisão ou colaboração de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985
  • Page 132PILINSZKY, János. Revista Dicta & Contradicta n.3. Disponível em: http://www.dicta.com.br/?s=mikl%C3%B3s+radn%C3%B3ti QUASIMODO, Salvatore. Poesias Escolhidas. Tradução de Sílvio Castro. Rio de Janeiro: Editora Opera Mundi, 1971
  • Sobre o organizadorSammis Reachers nasceu em 09/05/1978 em Niterói - RJ. É poeta, antologista, editor e blogueiro. Tem se destacado como promotor e divulgador da poesia cristã/evangélica, através das antologias que organiza e dos blogs como o Poesia Evangélica, onde já publicou mais de trezentos autores. POESIA
  • O Poema Sem Fim (pessoal) - http://opoemasemfim.blogspot.comPoesia Evangélica (desde 2006) - http://poesiaevanglica.blogspot.com Mar Ocidental- http://marocidental.blogspot.com Liricoletivo - http://liricoletivo.blogspot.com 134
Text of this page

Pistoia - Cemitério Militar Brasileiro

Eles vieram felizes, como para grandes jogos atléticos, com um largo sorriso no rosto, com forte esperança no peito, - porque eram jovens e eram belos.

Marte, porém soprava fogo por estes campos e estes ares. E agora estão na calma terra, sob estas cruzes e estas flores, cercados por montanhas suaves.

São como um grupo de meninos num dormitório sossegado, com lençóis de nuvens imensas, e um longo sono sem suspiros, de profundíssimo cansaço.

Suas armas foram partidas ao mesmo tempo que seu corpo.

E, se acaso sua alma existe, com melancolia recorda o entusiasmo de cada morto.

Este cemitério tão puro é um dormitório de meninos: e as mães de muito longe chamam, entre as mil cortinas do tempo cheias de lágrimas, seus filhos.

Chamam por seus nomes, escritos nas placas destas cruzes brancas. Mas, com seus ouvidos quebrados, com seus lábios gastos de morte, que hão de responder estas crianças?

E as mães esperam que ainda acordem, como foram, fortes e belos, depois deste rude exercício, desta metralha e deste sangue, destes falsos jogos atléticos.

Entretanto, céu, terra, flores, é tudo horizontal silêncio.

O que foi chaga, é seiva e aroma, - do que foi sonho não se sabe e a dor vai longe, no vento...