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A Vida Invisivel de Euridice Gusmao (Martha Batalha)

By BC Sao Pedro da Serra

Leitura para o Encontro II Literatura em Tela do mês de junho.

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https://covver.com/magazine/bcsaopedrodaserra/a-vida-invisivel-de-euridice-gusmao-martha-batalha-yBZEGbHc5WYjLYBGrnDR
Published
May 19, 2026
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202

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  • A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃOMARTHA BATALHA COMPANHIA DAS LETRAS
  • Page 230 ANOS
  • MARTHA BATALHAA vida invisível de Eurídice Gusmão COMPANHIA DAS LETRAS
  • Page 4Para Juan, que acreditou desde o primeiro dos quatro livros sacrificados em nome de Eurídice. Para meus pais, cuja presença em tudo o que faço vai muito além do sobrenome.
  • Page 5Cara leitora, prezado leitor, Muitas das histórias descritas neste livro de fato aconteceram. Já houve no Rio de Janeiro corpos empilhados nas ruas, por causa da gripe espanhola. Os versos que saíam da boca de Maria Rita foram adaptados de Olavo Bilac, e o anúncio publicado depois que ela se trancou no quarto apareceu no Jornal do Commercio. O Rio teve um livreiro muito francês e muito avaro, que deixou seu negócio para o irmão, em vez da mulher. Um moço muito pobre ficou muito rico produzindo cerveja, como aconteceu com o criador da cerveja Tupã (esse moço foi meu tataravô). E alguém teve o peculiar destino ao qual submeti este moço, como contou Luiz Edmundo em seus livros de recordações.
  • Page 6guardanapinho nas mãos. São as primeiras a chegar e as primeiras a ir embora. Comentam sobre os temperos do bolinho de bacalhau, sobre os calores ou chuvas do dia, sobre o vinho que algumas tomam, mas não muito, não muito. Perguntam se o marido vai bem, se a sobrinha- neta já tem namorado, se 0 sobrinho-neto está encaminhado. Algumas precisam de ajuda para sair do sofá e se sentar na mesa de jantar. Muitas já perderam o apetite, e encaram com desinteresse as fatias de peru. Outras se animam na hora da sobremesa, porque rabanadas são sempre bem-vindas. Voltam quietinhas para o sofá e olham os jovens abrindo os presentes, com um jeito de quem só consegue ver o passado. Eurídice e Guida foram baseadas na vida das minhas, e das suas avós.
  • Page 71. Quando Eurídice Gusmão se casou com Antenor Campelo as saudades que sentia da irmã já tinham se dissipado. Ela já era capaz de manter o sorriso quando ouvia algo engraçado, e podia ler duas páginas de um livro sem levantar a cabeça para pensar onde Guida estaria naquele momento. É verdade que continuava a busca, conferindo nas ruas os rostos femininos, e uma vez teve a certeza de ter visto Guida num bonde rumo a Vila Isabel. Depois essa certeza passou, como todas as outras que teve até então.
  • Page 8champanhe para o brinde na hora do bolo. Um vizinho professor de violino se ofereceu para tocar na festa. Cadeiras foram empurradas contra a parede, para os casais dançarem uma valsa. Não havia muitas moças na festa, porque Eurídice não tinha amigas. Havia duas tias não muito velhas, uma vizinha não muito vistosa, uma outra não muito simpática. A jovem mais bonita estava na imagem do único porta-retratos da sala.
  • Page 9passava muito bem, falava pouco e tinha um traseiro bonito. Além do mais, o incidente da noite de núpcias serviu para deixá-lo mais alto, fazendo com que precisasse baixar a cabeça ao se dirigir à esposa. Lá de baixo Eurídice aceitava. Ela sempre achou que não valia muito. Ninguém vale muito quando diz ao moço do censo que no campo profissão ele deve escrever as palavras "Do lar". Cecília veio ao mundo nove meses e dois dias depois das bodas. Era uma bebê risonha e gordinha, recebida com festa pela família, que repetia: É linda!
  • Page 10aproximar, adotou formas saudáveis de alimentação. Fazia dieta nas manhãs de segunda-feira e no intervalo entre as refeições. O peso de Eurídice se estabilizou, bem como a rotinal da família Gusmão Campelo. Antenor saía para o trabalho, os filhos saíam para a escola e Eurídice ficava em casa, moendo carne e remoendo os pensamentos estéreis que faziam da sua uma vida infeliz. Ela não tinha emprego, ela já tinha ido para a escola, e como preencher as horas do dia depois de arrumar as camas, regar as plantas, varrer a sala, lavar a roupa, temperar o feijão, refogar o arroz, preparar o suflê e fritar os bifes?
  • Page 11porque o pato deveria passar a noite imerso em vinho e especiarias, fazendo com que o jantar de hoje continuasse a ser um desafio e, nossa, ela precisava de desafios. O pato tinha que ser novo e gordo, o frango devia ter crista vermelha e peito carnudo. Na feira Eurídice levaria as laranjas para o dia seguinte, o coco para o bolo de fubá, as ameixas para o recheio do rosbife. e a dúzia de bananas que alimentaria Afonso e Cecília, depois de revirarem o prato e dizerem "não gosto disto". De volta à casa ela prenderia o frango e o pato pelas pernas, cortaria os pescoços e se envolveria em outras tarefas enquanto o sangue dos animais escorresse na bacia. Pato e frango eram escaldados por dois minutos, as penas retiradas com o corpo ainda morno, um fogo de papel passado na superfície para queimar as penugens. Tripas e moela, fígado e coração eram extraídos por um pequeno corte na barriga, para assar a ave sem cortes, ou através de um grande corte no meio do corpo, se o prato fosse servido em pedaços.
  • Page 12dizia Antenor, e Eurídice voltava para a cozinha para esquentar a água do macarrão, e prometia a Antenor um filé-mignon sem cogumelos. Depois de uma ou duas noites de comida simples ela voltava para as receitas do livro, e todo mundo tinha que fingir que comia sarapatel, camarão na moranga, arroz de mariscos. Quando já tinha testado todas as receitas Eurídice achou que era hora de criar seus próprios pratos. Aquela Tia Palmira sabia das coisas mas não sabia de tudo, e Eurídice desconfiava que o aipim com leite poderia cobrir a carne-seca, que a goiabada ficaria bem no frango à milanesa, que as farofas poderiam ter um quê desse tal de curry que ninguém conhecia. Numa quinta-feira pela manhã ela colocou seu vestido de sair e foi até a papelaria da esquina.
  • Page 13mulato que trabalhava desde sempre na papelaria, quando seu Antônio se adiantou para cuidar da cliente. Conversaram sobre o tempo enquanto Eurídice esperava pelo troco. Ela foi embora sem imaginar que seus comentários sobre a chuva seriam o ponto alto da semana para aquele homem. No caminho de volta Eurídice cantarolava, feliz. Parou de cantarolar e ficou menos feliz quando ouviu um "bom dia, comadre!".
  • Page 14Cheiros exóticos, que não faziam parte do feijão com arroz das outras casas. Aquela farra tinha que acabar. Incapaz de ser o Espírito Santo Zélia contentou-se com uma função menor, e autoproclamou-se profeta. Suas observações empíricas geravam prognósticos precisos, que tinham como característica comum o fato de serem sombrios, porque Zélia conseguia ser pior do que Deus no Antigo Testamento. "Aquela ali vai levar o marido à bancarrota", decretou, de queixo comprido.
  • Page 15encontrar pedrinhas entre os grãos de feijão, dobrar roupas secas do varal, descobrir teias de aranha no teto e varrer os cantinhos da sala. As vizinhas condenavam os rompantes da menina: "Isto é falta de sova". Mas a mãe dispensava conselhos. "Um dia ela vai descobrir que a vida não é tão feliz, mas esse dia não tem que ser hoje", ela dizia, saudosa por ver nos trotes da filha aqueles que tinha dado, tantos anos atrás.
  • Page 16criar. Um disparate aquela prisão, que demonstrava apenas a crueldade dos nossos policiais! Era a única hora da semana em que havia tranquilidade na casa do Rio Comprido. Além da voz rouca de Álvaro, o único ruído era o da panela de pressão.
  • Page 17nu, por estar pesado demais para caminhar sobre as costas do senhor de casaca. E que regalias, essas de agora, pois dispunha de mesa exclusiva, e quando não havia serviços ele podia passar a tarde inteira sentado, na companhia de um livro! A boa vida terminou no inverno de 1918, quando a cidade registrou os primeiros casos de gripe espanhola. No começo era um aqui e outro acolá. Uma semanal depois eram muitos aqui, e muitos mais acolá.
  • Page 18das máquinas de escrever. Com a exceção dos fins de semana e do dia de Natal o rapaz seria visto no mesmo lugar e por muitas horas, até o dia de sua morte. escrever, E por que Álvaro morreu? São duas as versões. A primeira é que ele começou a ter muita sede, o que fez com que reavaliasse as prioridades. Para o Álvaro Staffa de antes o casamento, o corte de cabelo, as festas de aniversário, o que ele tinha comido pela manhã, todos esses eram detalhes irrelevantes, que aconteciam no intervalo daquilo que realmente importava falar sobre o que foi escrito, beber para falar melhor sobre o que foi escrito e sobre o que se poderia escrever. Para o Álvaro Staffa de depois aquele de muita sede as prioridades eram beber para suportar o casamento, beber antes e depois do corte de cabelo, ir às festas de aniversário para beber e falar embriagado sobre aquilo que tinha escrito. Agora as histórias que contava aos filhos ficavam pela metade. As quatro vítimas do terrível acidente de ônibus na rua Dias da Cruz tinham seus destinos suspensos pelos cochilos de Álvaro Staffa. Não adiantava ser chamado pelo primogênito, não adiantava ser chacoalhado por Zélia. Álvaro começava uma história, cabeceava um pouco, tentava abrir os olhos mas desistia, e não havia meios de descobrir quem mais tinha morrido, além de um professor de latim.
  • Page 19um pouquinho de feijão, uma cebola solitária. Umal banana que não se sabe como conseguiu sobreviver à fome daquelas crianças, e que escurecia, enquanto os integrantes da família pensavam se a miséria era assim tão grande para comerem a fruta meio podre. Álvaro Staffa morreu de cirrose, aos trinta e cinco anos. Os amigos que acreditaram nessa versão da morte lamentaram durante o velório os vícios devastadores que ceifam os talentos deste Brasil.
  • Page 20formas de se aliviar. Despediu-se de Rosa como quem se despede de um tio-avô, sabendo que nunca mais a veria, e sem se importar com isso. Rosa não aguentou o abandono. Quebrou vasos, rasgou roupas e cogitou estricnina. Emagreceu tanto que além de Álvaro perdeu também os quadris. Ganhou olheiras, cabelos revoltos e a demissão do trabalho de meseira em uma das tascas da rua Direita.
  • Page 21chorou por três dias, até ser consumido pelas próprias tristezas. Francisca adoeceu duas semanas depois. O médico disse ser pólio, e que não voltaria a andar. Viúva e filhos não gostam de lembrar dos meses de penúria. Sabe-se que Carlos, de treze anos, passou a ser o homem da casa. E que o sumiço dos bichos-preguiça do Campo de Santana aconteceu na mesma época em que a família experimentava o gosto de carnes exóticas.
  • Page 22Até que Zélia resistiu bastante. Resistiu às roupas remendadas e às calcinhas de segunda mão. Resistiu ao mesmo sapato usado tantos anos, largo nos primeiros tempos, e apertado depois. Resistiu às risadas dos primos e à falta de carinhos da mãe, sempre cansada depois de lavar a roupa e de cozinhar para as quinze pessoas da nova casa. Resistiu à sopa rala e ao choro dos irmãos mais novos. Quando
  • Page 23de adolescência, quando Zélia ainda se dizia isso é besteira, não pense assim e arrancava os matinhos amargos, eles voltavam, constantes, e cresciam. Até que Zélia deixou de arrancar o mato, olhou de novo para o espelho e concluiu que a feiura do rosto e a tristeza da vida combinavam com a amargura do peito. Nascia ali a Zélia de olhos duros. A única herança da antiga Zélia era o interesse pela vida, que agora aparecia distorcido. Só existia para classificar as pessoas no cruel sistema de comparações criado para entender o mundo. Zélia não queria ser, e não seria, a única pessoa infeliz. A partir daquele momento se tornou capaz de encontrar a infelicidade em todos os lados, por meio de fatos ou de boatos, distribuídos por sua imensa boca.
  • Page 24A essa altura Zélia já tinha consciência das dimensões de sua boca e de todas as razões de desgosto que havia em torno da boca. Mas tinha esperanças na troca de cartas com Nicolas, por dois motivos: o primeiro é que já haviam se conhecido, dando ao rapaz o livre-arbítrio de continuar a se corresponder com Zélia mesmo depois de inteirar-se sobre os excessos de seu rosto. O segundo é que quando Zélia escrevia se transformava em uma das mulheres mais interessantes de seu tempo. pensava
  • Page 25acreditava ser na frente de Nicolas, deu lugar a uma moça triste e insegura. A cada passo em direção ao banheiro a insegurança aumentava. Quando, no meio do caminho, conferiu sua aparência na parede espelhada, só conseguiu ver a saia um pouco torta, as mangas bufantes demais e uma horrível boca de gaveta. A falta de palavras de Nicolas modificou as impressões sobre si mesma. Concluiu que ninguém naquele baile gostaria de estar a seu lado. Ela não sabia se vestir. O cabelo estava menos enrolado do que deveria. O rouge que dava alguma graça a seu rosto já tinha se esvaído. E aquele batom vermelho, por que ela foi usar um batom vermelho? Aquilo era tão chamativo quanto um sinal de trânsito. Zélia procurou uma cadeira num cantinho do salão e permaneceu ali pelo resto da noite. Ela queria sumir, o que seria impossível. Sua boca não ia desaparecer.
  • Page 26de envelhecer, que implica se afastar um pouquinho da companheira, todos os dias. Zélia viu no casamento a solução para seus dias. infelizes em Bangu. Depois viu o casamento como um erro. Um erro que ressonava a seu lado, todas as noites. Vendo Plínio dormir de boca aberta Zélia pensava na mediocridade de sua vida. Pensava em Nicolas, pensava que deveria ter insistido um pouco mais naquela noite. Pensava que poderia ter sido a rainha dos cassinos de Lambari, em vez da mulher de um zé-ninguém na Tijuca. O que Zélia não sabe é que a distância de Nicolas durante baile não foi causada por seu pobre desempenho intelectual ou pela aparência imperfeita. O que aconteceu naquela noite é que o rapaz, acostumado à dúzia e meia de mineiras casadoiras de Lambari, teve uma overdose de sensações ao encontrar tantas e tão interessantes cariocas no baile dos Democráticos. Esta cidade é o paraíso, pensou. Não foi difícil reavaliar prioridades, colocando o casamento no fim da fila e trazendo para adiante alguns anos de experimentos.
  • Page 27remediada. Estava cercada por erros. A menina que um dia teve um caderno azul continuava a explorar o mundo, para encontrar no entorno os defeitos que só ela via. Se a vizinha não deu bom-dia não foi porque não a viu, mas porque a ignorou. Se a goiaba veio com bicho foil porque o feirante sabia, e quis lhe engabelar. Se d. Irene engordou é porque estava infeliz, se emagreceu é porque ficou deprimida. Se a filha do padeiro ajudava no caixa é porque queria encontrar marido, se não ajudava é porque era folgada. Se a afilhada tirava boas notas queria se mostrar, e se escondia o boletim, era uma parva.
  • Page 28Depois de um tempo Zélia se olhava no espelho e virava o rosto, contrariada. Difícil dizer se ela era amarga por ser feia, ou se era feia por ser amarga. Era a janela a sua salvação. Ali ela podia ver tudo o que não era Zélia. E era ali que ela via Eurídice, essa moça que não parecia estar de todo confortável no lar, e que merecia os julgamentos que Zélia gostava tanto de fazer. "Bancarrota. Escrevam o que eu digo. Eurídice só sabe fazer banquetes, mas daqui a alguns anos terá que viver de farinhas."
  • Page 292. Como as dificuldades financeiras não estavam em seu orçamento, mas na cabeça dos outros, Eurídice continuou com seu projeto. Inventava bolos, testava sopas e criava molhos, escrevendo os passos de cada receita nas folhas de seu caderno. Era seu diário, aquele. O relato do que fez para suportar os anos de exílio doméstico, para tornar menos opressoras as paredes daquela casa.
  • Page 30Sim, só precisava falar com o marido. Os olhos diminuíram. Bebeu dois goles da cachaça antes de servir a cuia ao peru. Na Noite do Grande Banquete Antenor chegou em casa às cinco e meia, como sempre. Beijou a mulher na testa e foi até o quarto trocar de roupa. Colocou seus chinelos e voltou para a sala e para o jantar, que era servido às seis. Cheiros ainda mais extraordinários do que os extraordinários cheiros da cozinha de Eurídice invadiam a sala, os quartos e a casa ao lado, fazendo o marido de Zélia reclamar - "Sopa de entulho outra vez?".
  • Page 31Disse que cozinhava há anos, e que os pratos pareciam bons. Mas Antenor não estava ali para conversa mole. Ele só dizia o que considerava importante. "Passe-me os palitos."
  • Page 32Duas horas depois Antenor ressonava por causa do vinho e Eurídice se revirava nos lençóis bordados. Aquele, ela sabia, era um bom marido. Antenor não sumia na rua em orgias e em casa não levantava a mão. Ganhava bem, reclamava pouco e conversava com as crianças. Ele só não gostava de ser incomodado quando ouvia seu rádio ou quando lia seu jornal, quando dormia até tarde e quando descansava depois do almoço, e desde que seus chinelos permanecessem em paralelo ao pé da cama, que seu café fosse servido quase fervendo, que não houvesse natas no leite, que as crianças não corressem pela casa, que as almofadas permanecessem na diagonal, que as janelas fossem fechadas nunca depois das quatro, que nenhum barulho fosse feito antes das sete, que o rádio nunca estivesse muito alto ou muito baixo, que nunca, de forma alguma, ele tivesse que repetir o mesmo prato em duas refeições, e que os banheiros cheirassem eucalipto, ele não exigia demais.
  • Page 33toma seu uísque, Antenor replicava com olhos de Eu sei o que estou fazendo quando tomo meu uísque. A verdade é que nas Noites de Choro e Uísque a única coisa que Antenor sabia que estava fazendo era beber uísque. Depois dos primeiros goles acontecimentos estranhos se passavam, e Antenor não via outra alternativa além de posicionar-se contra eles.
  • Page 34copo da mão inerte do marido, dizendo baixinho: "Antenor, quem tirou a virgindade da sua mulher foi este uísque. É este uísque que quando tomado me faz impura". Sim, aquele era um bom marido. Era isso o que Eurídice pensava depois da Noite do Grande Banquete, que infelizmente se tornou a Noite do Caderno Imerso em Pavê. Geralmente Eurídice se acalmava depois de se convencer sobre as qualidades do marido, mas não naquela noite. A gargalhada de Antenor não a deixava dormir.
  • Page 35E a vida que segue seguiu. Para os filhos, bananas e espaguete. Para o marido, comida sem cebola, para evitar indigestão. Para Eurídice, um dia que terminava antes do que deveria, deixando-a livre para se sentar no sofá, olhando o esmalte das unhas. E Eurídice olhava triste para as unhas, porque estava de luto. Foram difíceis os meses que se seguiram ao enterro do caderno por trás dos tomos da enciclopédia. Tentou se dedicar mais aos filhos, mas essa era uma dedicação, digamos, estrábica. Com um olho ela vestia Afonso e Cecília para a escola, e com o outro se perguntava: Será que a vida é só isso? Com um olho ela ajudava as crianças com o dever, e com o outro se perguntava: E quando eles não precisarem mais de mim? Com um olho contava histórias, e com o outro se perguntava: Existe vida além dos uniformes escolares, da memorização da tabuada e de todas as histórias da carochinha?
  • Page 36caixinha marrom, e coisas jamais aconteciam na vida de Eurídice Gusmão. A vida inclusive ficou ainda mais tranquila depois que os Gusmão Campelo adquiriram uma das maravilhas daquela e de tantas outras épocas: uma empregada doméstica. Maria das Dores chegava a tempo de servir of café dos patrões e ia embora depois do último prato do jantar lavado, deixando um rastro de camas feitas, pisos encerados e banheiros limpos. Eurídice continuaval responsável pela feira e pela mercearia e pelo açougue e pelo aviário e por qualquer outro motivo que a fizesse sair de casa, desde que estivesse de volta às três da tarde para ligar o rádio, torcer as mãos e encarar a estante de livros.
  • Page 37alimentavam dos pratos que ela guardava no forno e se vestiam das roupas que ela deixava na cômoda, e que agora já tinham idade para andar soltos na casa, não sendo mais necessário acorrentá-los no quarto para se manterem longe das facas e fogos da cozinha. Mas esta não é a história de Maria das Dores. Maria das Dores inclusive só aparece por aqui de vez em quando, na hora de lavar uma louça ou fazer uma cama. Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido.
  • Page 383. Eurídice precisava de um novo projeto. Precisava de algo que preenchesse as manhãs de ócio e as horas angustiadas de fim de tarde, quando os filhos ainda não tinham chegado da escola e quando tudo não parecia levemente enlouquecedor, tudo era irremediavelmente enlouquecedor. Nessas horas perdidas ela podia sentir a solidão se transformar em angústia, a angústia se transformar em loucura e a loucura sussurrar-lhe calma e firme: Um dia eu te pego, um dia eu te pego, um dia eu te pego.
  • Page 39medidas, cortar o molde, costurar à mão, costurar à máquina, experimentar a prova, fazer outra prova, finalizar com os babados, prender os botões, costurar as casas, fazer a bainha, e olha só que coisa incrível, um vestido como aquele era exatamente o que Eurídice queria, não porque era bonito ou nem mesmo porque era vestido, mas porque eram nove moldes e vinte e três etapas, de coisas que não sabia. O processo de convencer Antenor a investir na máquina de costura durou quatro dias. Primeiro ele disse não. Depois ele disse não. Em seguida ele disse mais um não. E depois ele disse, “Não venha de novo com este assunto de corte e costura que não aguento mais esta ladainha. Se é para eu voltar a ter paz nesta casa, compre logo essa máquina, mulher!".
  • Page 40nessa canção seus versos falariam de mãos ocupadas, de mente tranquila, de realizações, e de paz. Ora. Não era bem isso que Zélia escutava com seu ouvido apurado, bem junto da parede em comum às duas casas. O ziguezague da máquina era o mesmo, mas para Zélia seus ritmos passavam outro recado. Pois o que levaria uma dona de casa acostumada a frequentar a Sloper, a comprar as roupas do marido na Casa José Silva e a dos filhos na loja Bonita, o que levaria a esposa de um prestigiado funcionário do Banco do Brasil a passar as noites e às vezes as madrugadas (Zélia escutava todos, absolutamente todos, os barulhos daquela casa) debruçada sobre uma máquina de costura?
  • Page 41desejo de Eurídice de continuar seu projeto. Foram bons, aqueles meses. As crianças chegavam da escola e eram recebidas por uma Eurídice de olhos interessados e coração inteiro. "O que vocês aprenderam hoje na escola?"
  • Page 42e aquelas horas de fim de tarde passavam muito rápido. Eurídice com um livro no colo, uma criança de cada lado, o relógio batendo as horas, e ninguém ouvindo as batidas. Antenor chegava em casa e beijava a mulher na testa. Trocava de roupa no quarto e voltava para a sala de chinelos. A família se reunia para jantar os pratos que agora apareciam e desapareciam da mesa através da silenciosa mulher da cozinha: a Maria das Dores e dos três filhos.
  • Page 43Meia hora depois a casa inteira estaria em silêncio e no escuro, com exceção da pequena lâmpada em cima da máquina Singer de Eurídice Gusmão, e dos leves ruídos dos pespontados. Eurídice costurava até a exaustão, para em seguida ir dormir um sono sem sonhos, porque ela não precisava mais deles. Alguns meses depois Eurídice voltou a ficar irrequieta. É que não podia mais inventar roupas para os filhos e uniformes para Das Dores, paninhos para a sala e camisas para Antenor. Precisava de novos projetos, o que não seria difícil conseguir. Eurídice vivia num tempo de poucas lojas e numa rua de muitas mulheres, fatores fundamentais para o sucesso de sua empreitada.
  • Page 44"Muito bem", dizia a cliente, os olhos cheios de alívio por não estar na mesma situação. Um alívio que inspirava bondade, e fazia com que respondesse "Faça- me este modelo aqui. E pode comprar o tecido, inclua na conta. Se precisar de adiantamento avise que eu pago já". Zélia também encomendou seu modelo, e não foi por necessidade ou pena de Eurídice, mas porque era preciso tirar medidas e experimentar as provas em um dos lugares mais interessantes de toda a Tijuca: a sala de estar da vizinha. Um lugar onde Zélia nunca tinha posto os pés, mas agora poderia enfiar o nariz, porque tinha sido chamada.
  • Page 45experimentar um vestido. Das Dores passava o dia fazendo mais café que uma padaria com balcãozinho de pão na chapa. O tilintar das xícaras se confundia com o burburinho das clientes, porque uma prova de vestido nunca era apenas uma prova de vestido. Era uma prova e uma pergunta sobre a escola das crianças, uma prova e uma queixa sobre os preços da quitanda, uma prova e um apanhado sobre toda a vizinhança. Outros projetos vieram. Corria no bairro que essa senhora distinta precisava complementar o orçamento da casa e aceitava encomendas em seu ateliê. Pela terceira vez no mês Eurídice teve que ir até a papelaria comprar outro caderno para anotar as medidas e encomendas de suas clientes. O melhor mês na vida de seu Antônio. O solteirão dividia seu tempo entre vender papéis e descansar de vender papéis, o que fazia no apartamento em que vivia com a mãe, d. Eulália. Era entrar em casa para ouvir a mãe se queixar de doenças ou relembrar os bons tempos de dinheiro na família. A mãe falava tanto que talvez seja correto dividir o tempo de seu Antônio entre escutar a mãe e descansar de escutar a mãe, o que ele fazia vendendo papéis.
  • Page 46para essa moça se fazer notar. Só mais um passo, que ela não deu. Eurídice permaneceu em seu mundo, conferindo medidas anotadas em um caderninho e pedindo cortes ao vendedor. Foi até o caixa, pagou pelos tecidos e voltou para casa pensativa. Preocupava-se com projetos e prazos. As tardes e madrugadas não estavam dando. conta de tanto trabalho. O jeito seria terceirizar os serviços, e foi assim que Eurídice contratou outra costureira, chamada Maricotinha.
  • Page 47maldades a ponto de ir para o inferno, a vida ao lado daquela mulher já era um purgatório, e estava na hora de buscar algo melhor para si. Em princípios de junho os primeiros ventos de inverno fizeram a curva nas ruas da Tijuca. Um deles pegou em cheio a nuca de Antenor, que saía do banho peladinho da silva, para pegar uma nova embalagem de talco no quarto. Tivesse Antenor interrompido o hábito de passar talco nas partes íntimas na mesma época que os outros mortais os fatos seguintes não se sucederiam. Mas fazer o quê? Estava frio, o talco do banheiro tinha terminado, Antenor gostava de dar um acabamento nas partes íntimas e por isso saiu do banheiro como veio ao mundo. Nesse andar sem cobertas o vento frio bateu na nuca e desceu pela espinha, causando um tremelique, que causou um espirro, e Antenor achou que ia ficar doente.
  • Page 48dos nossos filhos até acabarem o dever? Agora eles vão cortar a luz e me exonerar do banco. Por causa daquela mulher todos na rua vão repetir em uníssono: fracassado, fracassado, fracassado. E por isso ele dizia baixinho: vagabunda, vagabunda, vagabunda. A febre não melhorava, o médico achou que eral pneumonia. Receitou antibiótico, mandou dar aspirinas e instruiu Eurídice a trocar o pano frio sobre a testa de Antenor a cada vinte minutos. Desde o início da tarde até o amanhecer do novo dia Eurídice trocou o pano cinquenta e quatro vezes, e se não foram os panos com água fria que salvaram Antenor foram as mãos de Eurídice, que permaneceram na testa do marido ou juntas em posição de oração, durante toda a noite.
  • Page 49Eurídice vinha de um canto da sala e a máquina ficava no outro? Muito estranho, tudo aquilo. Antenor levantou-se rumo à sala sem se arrastar e achou que estava melhor. Foi o choque da cena que lhe restituiu a saúde. De frente para o espelho uma Zélia vestida apenas da cintura para baixo conferia os pertences da cristaleira, enquanto Eurídice ajoelhada marcava a bainha na saia da vizinha. Outra mulher vestida apenas da cintura para cima tinha as medidas tiradas por uma senhora de óculos. Duas morenas tomavam café e comiam sequilhos no sofá. Uma neguinha de cabelo pixaim e vestido de chita costurava na máquina de Eurídice. A mesa de centro parecia bancada de loja de tecido na rua Buenos Aires. O tapete persa estava coberto por retalhos, pedaços de linha e fitas métricas. A mesa de jantar continha moldes em papel pardo, tesouras, réguas, carretéis e duas caixas de costura.
  • Page 50serviço. E sabe como é, além da costura é preciso receber as clientes, conversar sobre os modelos, tirar as medidas e fazer as provas, e enquanto ela fazia uma coisa suas ajudantes faziam outra, porque assim os projetos andavam mais rápido. Aquela rudimentar descrição de cadeia produtiva não agradou Antenor, que quanto mais escutava, mais abria as narinas, ficando depois de um tempo muito parecido com o King Kong. Na mesma hora todo mundo na sala disse que precisava ir embora, porque o açougue ia fechar, e ia chover, e estava tarde. Restou a neguinha cabisbaixa na máquina de costura, que só não foi embora porque precisava receber a diária para comprar o jantar.
  • Page 51Ela sabia que em alguma hora teria que informar o marido sobre seus planos, mas a reprovação seria certa. Achou então que poderia postergar a conversa até, quem sabe, para sempre. No início da tarde a sala se transformava em ateliê, e um pouco pouco antes das cinco Das Dores e Eurídice transformavam o ateliê em sala. Moldes, revistas e tecidos desapareciam de vista, e se um ou outro material ficasse à mostra nem teria assim tanta importância. Antenor não prestava atenção nas coisas da casa. Para ele havia uma linha quase tangível tangível entre entre os seus domínios e os domínios de Eurídice. Na casa que dividiam Antenor transitava somente pelos espaços que The eram reservados, nunca indo além do percurso quarto-banheiro, banheiro-quarto, sofá-mesa de jantar, mesa de jantar-quarto, quarto-banheiro-mesa da copa- hall. O que havia além de seus limites não interessava. A intimidade de Antenor com a casa era quase inexistente. Não sabia o que tinha na geladeira, nos gabinetes da cozinha e muito menos na pia. Não se preocupava com o conteúdo do aparador e só de vez em quando olhava a estante como sendo um pouco sua, por causa dos volumes de Monteiro Lobato que lia para as crianças.
  • Page 52fome naquela noite. "Doneurídici, eu vou pegar a prova do vestido que tá em cima da tauba de passar pra terminar o serviço em casa."
  • Page 53Aconteceu aí uma coisa curiosa. Antenor não conseguia parar de repetir as mesmas frases. "Ouviu bem, Eurídice, ouviu? Eu saio pra trabalhar, você cuida das crianças. Ouviu, Eurídice, ouviu? Eu saio pra trabalhar, você cuida das crianças." E nem esperava a mulher dizer se tinha ouvido. Emendava a frase de novo, e de novo. “Eu saio pra trabalhar, você cuida das crianças." Quando Antenor conseguiu se livrar das mesmas frases, aconteceu algo ainda mais peculiar: a cada novo grito a situação dos filhos piorava. As unhas de Cecílial estavam sujas, os cabelos de Afonso estavam longos. O nariz dos dois escorria, muito, sem parar, o tempo todo. Catarros verdes, amarelos, arroxeados. As crianças não faziam uma refeição decente há semanas, ele já tinha percebido. Os filhos só comiam broinhas. Broinhas! E isso quando comiam. Eram crianças que viviam ao deus-dará, estavam entregues à sorte da Providência. Mais um pouco e seriam confundidos com meninos do morro.
  • Page 544. Até então então não foi mencionado um personagem importante nesta história. Um personagem que vem atuando desde os primórdios de Eurídice, e que é um dos grandes responsáveis pela atual situação da moça. Estamos falando da Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice.
  • Page 55a mãe passava e devolvia aos casarões do Rio Comprido. Num dia frio e nublado Clara insistiu em usar o uniforme, mesmo um pouco úmido. Ficou resfriada, ficou gripada. Morreu de pneumonia, e tirando o bem que fez aos alunos durante os três anos que ensinou passaria pelo mundo despercebida. Foi substituída por d. Josefa, uma mulher que seria para sempre lembrada por seus pupilos, nas noites de pesadelo. Ninguém preparou melhor os alunos para a vida fora da escola. D. Josefa ensinou-lhes os princípios da ironia e os fundamentos da hierarquia. Moldou personalidades obsessivo-compulsivas, através da repetição de sentenças que preenchiam cadernos, tardes e as tais horas de pesadelo. Não vou mais chegar atrasado na escola, o aluno escrevia por uma hora inteira depois do almoço, mesmo se no dia seguinte tivesse que chegar novamente atrasado, porque a fila do banheiro do cortiço durante as primeiras horas da manhã era comparável à da Central do Brasil nas últimas horas da tarde, e sendo ele só um garoto The The caberia, impreterivelmente, o último lugar na espera.
  • Page 56disciplinar Eurídice estava ali, na sua frente, e só agora ela tinha percebido. "Não entendi o que você disse. Fale de novo."
  • Page 57alforria na forma de esquecimento. Nascia, assim, A Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice. Quando A Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice já estava bastante desenvolvida d. Josefa deixou a menina em paz. Foi mais ou menos nessa época que ela aprendeu a falar problema e pReconceito, deixou de lado a pRocura, e entendeu que o mundo era um lugar pRecário. Eurídice aprendeu ali a noção distorcida de pRrogresso que as pessoas têm. Entendeu para onde é o pRa fRente que o Brasil vai.
  • "Mas eu quero.""Você ainda é muito menina pra usar batom." "Então faz assim com a boca, ó."
  • Page 59as cortinas, ou o cachorro que latia longe. Não escutaram o barulho do bonde que descia a rua, ou os canários que cantavam no vizinho. Seu Manuel estava se sentindo rico. O português, que precisou derreter o dente de ouro do finado pai para moldar as alianças do seu casamento, fazia agora o suficiente para manter a família e agradar a prole. Deu- se ao luxo de dar luxo às filhas, oferecendo atividades depois da escola. Conversou com Jean Luc, um europeu solteirão que morava no fim da rua com cinco gatos (de acordo com a última contagem) e que dava aulas de francês e de música. Guida escolheu francês, Eurídice quis aprender flauta doce.
  • Page 60na escola para discorrer sobre os benefícios do canto orfeônico. Ouviu Eurídice, tirou o charuto da boca e disse: “Quero esta menina comigo no conservatório". Eurídice pulou por dentro e por fora, mas os pais. disseram que não, talvez não, com certeza não. As aulas com o sr. Jean Luc estavam indo muito bem, pra que mais? Para os pais de Eurídice, a flauta jamais seria um fim. A flauta era apenas um meio. Um meio de aumentar as prendas da filha para que fizesse um bom casamento. Um meio de distrair a família depois do jantar, quando um ou outro pedia: "Toque esta marchinha". Eurídice não precisava de mais aulas com aquele excêntrico senhor de casaca colorida.
  • Page 61"Você quer é saber se há moços bonitos nesse conservatório. Eurídice não vai, e muito menos você." Guida levantou os ombros, encarou a irmã com uns olhos de eu tentei e continuou a ler sua revista.
  • Page 62puxava e puxava, mesmo sabendo que os pais tinham mais peso do outro lado. Chegou uma hora que as duas partes estavam tão exaustas que se esqueceram de que sabiam mais de duas ou três palavras. Eurídice só dizia eu quero, eu quero e eu quero. Os pais só respondiam que não, não e não. E Eurídice voltava com um por que não?, e os pais respondiam porque não, e no final aquilo já estava uma conversa de loucos iletrados, um lado dizendo por que não? O outro respondendo porque não. Por que não? Porque não. Por que não? Porque não. E todo aquele drama, toda aquela angústia, toda aquela toda aquela tensão despareceu em questão de segundos, por causa de um único olhar.
  • Page 63D. Jovina balançava a cabeça, concordando, e José olhava Eurídice, flertando. A menina baixou os olhos e se ajeitou na cadeira. Naquele momento Eurídice aprendeu que alguns olhares são diferentes de outros, e que existem olhares capazes de modificar a gente não só por dentro como também por fora, porque agora não havia meios de ela encontrar uma posição confortável na cadeira. Enquanto as batatas eram escolhidas, pagas e embaladas a menina permaneceu incômoda, tomando consciência de seu novo corpo, modificado por um olhar. De noite ela não comeu, e não foi por causa da flauta. Foi por causa do flerte. Das dez às duas da manhã relembrou a cena com o olhar de José. Das duas às seis a cena voltou a se repetir, acrescentada agora por passeios de mãos dadas pelo Campo de Santana, proposta de casamento no Largo dos Guimarães, jantar entre famílias e lua de mel em Friburgo. No sono ou na vigília Eurídice não pensava em outra coisa. Nem mesmo em uma flauta, que quase não ocupa espaço. No dia seguinte ela acordou como se o embate dos últimos dias nem tivesse acontecido. Villa-Lobos quem? Flauta o quê? A Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice celebrou; a outra parte disse tá legal, mas tem volta. Beliscou as bochechas para fazê-las vermelhas, tentou em vão fazer cachinhos como os de Guida, saiu para a escola feliz. Contou as horas até voltar para a casa, e para a cadeira junto ao caixa da quitanda. Achou que devia dividir o segredo com a irmã. Guida era uma dessas moças que já nascem sabendo de tudo, ou, no caso, de tudo o que vale a pena saber, o que não era o mesmo "tudo" sabido por Eurídice. Guida nunca foi uma aluna excepcional, e mesmo agora, depois de completar o secundário, tinha que usar os dedos para fazer as contas na quitanda, o que não era garantia de acertar na soma. Mas sabia pintar as unhas desses dedos de vermelho, e sem borrar. Guida também sabia falar
  • Page 64com os adultos, e foi ela que encarou d. Josefa para dizer, "Se eu souber de mais uma judiação da senhora com a minha irmã prometo fazer ponto na porta do senhor ministro, e só sairei de lá depois de relatar tudinho ao sr. Gustavo Capanema". Foi por causa de Guida que Eurídice voltou a beber água de noite, e foi por causa de Guida que ela relaxou e aprendeu a falar os erres. Elas se completavam. Quando Eurídice acordava apavorada no meio da noite, jurando que um fantasma estava caminhando no sótão, era Guida que segurava sua mão e dizia, "Calma, que é só um gambá, e com filhos. Ouve só o barulho dos guinchos". Quando Guida se desesperava, com mãos no cabelo e cotovelos sobre o livro, por causa de todos os micro-organismos que tinha que decorar para a prova do dia seguinte, era Eurídice que ficava a seu lado, dizendo, "A gente encontra um jeito de memorizar cada um deles, vamos começar pelos protozoários, que têm dois tipos de esqueleto, e que se locomovem usando flagelos ou cílios".
  • Page 65bonita, teria um bom marido e muitos filhos, uma casa muito grande, com um jardim. Como é que a Guida sabia? Ela sabia porque sabia. Guida era uma dessas moças que já nascem sabendo de tudo.
  • "As mais nobres.'Talvez pela surpresa da notícia, talvez pela segurança de Guida, talvez porque o interrogado morasse em Botafogo e estudasse medicina, o anúncio do namoro foi aceito sem dramas ou proibições. Guida foi autorizada a ir com Marcos ao cinema uma vez por semana. O resto do namoro deveria se passar no sofá da Almirante Alexandrino, tendo de um lado o abajur aceso, e do outro a mãe cerzindo meias. Marcos era um rapaz muito alto, muito magro e muito distinto. Distinto até demais. Foi esse namorado o responsável pelo Pão de Açúcar que se formou entre Guida e os outros membros da família. Depois de conhecer Marcos, e de ser acariciada por aquelas mãos que nunca trabalharam, e de ser encarada por aqueles olhos que nunca se preocuparam, Guida começou a transitar numa realidade requintada demais para aceitar a convivência com as outras pessoas da casa (um casal de portugueses tacanhos e uma menina de tranças e pernas peludas).
  • Page 67Aqui uma filha não responde a nada e a outra responde a tudo." Os bate-bocas de fim de tarde tornaram-se um hábito, e depois de um tempo os pais de Guida se acostumaram a ter a filha distante. Convenceram-se de que era um problema passageiro, não tinham que se preocupar. Ali estava uma filha, ali estava outra, nenhuma estava grávida, então vamos vender tomates. Eurídice é que estranhava o silêncio da irmã.
  • Page 68"Mas o que você está lendo? Dentro do jornal." "Não interessa.” "Interessa, senão eu não estaria perguntando."
  • Page 69para o desejo se realizar. Ele vai aparecer, ela pensava, acompanhando o movimento na rua e atendendo clientes com sorrisos de boa espera. José apareceu no final da semana. Eurídice alongou o corpo na cadeira e sentiu a urgência de encarar a caixa registradora. Ali estava José, ali estava o olhar.
  • Page 70embora!", berrava d. Ana de joelhos, de frente para os armários vazios da filha, mostrando para Eurídice que havia um mundo mais cruel do lado de fora do que aquele que tinha construído por dentro. Vendo a mãe se debater, vendo o pai abraçar a mãe para absorver a tristeza, vendo que a irmã não estava em nenhum cantinho do quarto ou do resto da casa, Eurídice sentiu uma escavadeira no peito extraindo seu coração. Fugir era que nem morrer, só que pior, porque na morte a pessoa vai embora sem saber, e não pode se despedir. Mas na fuga a pessoa sabe que está indo embora, e nem se importa em dizer adeus. E foi isso o que a Guida fez.
  • Page 71Decidiu-se que a porta do quarto ficaria entreaberta. Quando Eurídice passava pelo corredor virava o pescoço para continuar olhando, como se a irmã pudesse brotar do colchão. Guida não levou as revistas que lia na sala. Ficaram ali por um tempo, como se fossem uma parte da moça. Ninguém folheava, ninguém jogava fora. Um dia um porta-retratos com a foto da irmã apareceu na sala. Seu Manuel e Eurídice não perguntaram quem colocou. No começo a família só conseguiu lidar com a tristeza porque havia esperança. O carteiro era aguardado diariamente, já que a carta que Guida não deixou quando partiu poderia chegar naquela tarde. Duas vezes por dia seu Manuel corria até a farmácia, para saber se havia um recado da filha no único telefone do bairro.
  • Page 725. Agora que as partes de Eurídice foram apresentadas dá para entender por que essa moça vai e volta. Por que inventa projetos e não consegue enfrentar o marido. Por que não mandou Antenor catar coquinhos depois da gargalhada da Noite do Grande Banquete. E por que, no dia da Grande Briga Por Causa do Ateliê de Costura, depois da Grande Gripe, Eurídice não levantou a voz, dizendo as mãos são minhas e com elas faço o que bem entendo, e entendo que devo usá-las para costurar e para te apontar o indicador, e dizer que as mãos são minhas e com elas faço o que bem entendo.
  • Page 73somente por d. Maricotinha, e d. Maricotinha reclamou das novas responsabilidades. Teria que ignorar o trabalho das suas muitas clientes para atender às de Eurídice. D. Maricotinha não revelou que suas muitas clientes se contabilizavam numa soma de zeros. Mas revelou que o excesso de trabalho era ruim para sua pressão, e exigiu of pagamento de dois meses do salário de Damiana, para que juntas dessem conta do trabalho. Eurídice não discutiu. Apareceu no dia seguinte com todos OS cruzeiros requisitados, num gesto tão desprendido que fez d. Maricotinha reconsiderar o peso da perda de suas zero clientes. As duas mulheres se despediram, Eurídice fechou a porta e um silêncio imenso tomou o sobrado dos Gusmão Campelo.
  • Page 74seus livros autografados por Graciliano Ramos, e paral dizer a Cecília que Angústia era muito mais triste. Aquela era uma mulher comportada, do jeito que Antenor queria. Uma mulher dedicada à casa e às crianças, e que agora se deitava na mesma hora que ele, e não se levantava mais cedo para se entreter com a máquina de costura. Uma mulher que permanecia calada ao seu lado enquanto ele assistia à TV, e que lhe oferecia a testa olhando ligeiramente para baixo, quando ele saía ou chegava do trabalho. Era tudo o que Antenor sempre quis.
  • Page 75nos braços o teu corpo delicado. A vida de Maria Rita era um palco de performances pessoais, e embora fosse enfadonha essa vida era muito melhor do que a vida de sua plateia, composta pelas seis crianças que produziu antes de completar vinte e cinco anos. Feliciano chegava da repartição e se surpreendia com as façanhas da mulher, que conseguia deixar a casa num estado ainda mais caótico do que aquele do início da manhã. O chão da sala continha fraldas sujas, cascas de laranja, carrinhos de madeira, bebês à deriva e babadores manchados. As camas continuavam em seu estado permanente de por fazer. A cozinha estava sob o comando de baratas, passeando sobre as crostas de comida nas louças. Na única poltrona que não servia de cabide estaria Maria Rita ainda de camisolão, de frente para o caderninho de versos. Além dos olhos puxados a única herança que guardava dos antepassados guaranis era a dificuldade em entender as regras do cotidiano ocidental.
  • Page 76Todos sabiam que Maria Rita não era talhada para aquela vida, e no dia mais frio de agosto ela decidiu que não era talhada para vida alguma. A poeta incompreendida se matou com formicida. Talvez a maior contribuição que tenha dado ao núcleo familiar tenha sido trancar a porta do quarto, para que seus filhos não vissem o corpo contorcido e o rosto coberto pela espuma branca. A tragédia da rua das Marrecas só foi conhecida em todas as suas particularidades por Feliciano, que ao chegar do trabalho não estranhou as crianças jogadas na sala, mas 0 menino que por duas horas batia desesperado na porta do quarto da mãe. Depois de arrombar a porta Feliciano usou as mãos para tapar os olhos de Antenor, que só precisou de dois segundos para ver a cena que jamais sairia de sua cabeça. Ele tinha seis anos.
  • Page 77Rogou aos céus por ajuda e a ajuda chegou, embora não tenha vindo dos céus. Veio de algumas quadras dali, na figura de Dalva, irmã de Feliciano. Aos trinta anos ela já havia passado da idade para casar, e agora se fazia útil ajudando os pais no armazém de secos e molhados que mantinham na rua do Carmo. Dalva ofereceu-se para cuidar da casa e das crianças. Depois de ouvir a propostal ele só não abraçou a irmã e chorou em seus braços. porque aqueles eram tempos de poucos abraços e parcos choros masculinos. E foi assim que os seis filhos de Feliciano e Maria Rita passaram a pentear os cabelos e escovar os dentes. todos os dias. Dalva encontrou sua verdadeira vocação, que era a de estar ocupada dezoito horas por dia, e Feliciano voltou a ter uma vida de hábitos, como jantares às seis e meia da tarde, compostos por alimentos que passavam pelo fogão.
  • Page 78inconsequentes e o imenso egoísmo que foi ir embora sem pensar nos filhos do outro lado da porta. Para Antenor não havia nada mais inútil do que a poesia. A vida que ele teria seria o oposto da de Maria Rita. Um dia Antenor haveria de se casar, e sua mulher teria que ser tão boa quanto Dalva. A casa e os filhos teriam que ser prioridade. Ele estava disposto a dar tudo de si para a mulher que escolhesse, e exigia em troca uma vida que não tivesse nem um pouco da poesia e dos sonhos que só serviram para enlouquecer a mãe.
  • Page 79tempo do que precisava para receber o troco. Nada naquela moça provocaria segundas intenções. Ela tinha cabelos presos num coque, avental sobre o vestido cinza, nenhuma maquiagem no rosto e um olhar que só via notas. Quando Eurídice não retornou nada além do troco, ele começou a se interessar. "Falta muito pra chegar até a rua Monte Alegre?" "Um pouco."
  • Page 80Perguntou ao primo sobre a moça emoldurada nas frutas. Descobriu que se chamava Eurídice, que estava sempre junto dos pais e que tocava flauta como um anjo. Descobriu que tinha uma irmã mais velha e muito linda, e que depois que essa irmã fugiu ela nunca mais soprou uma nota. Soube que tinha completado o secundário, que era boa com os números, mas que parou de estudar para ajudar os pais na quitanda. Antenor viu o sol se pôr da janela do primo e concluiu que não havia lugar mais bonito e mais tranquilo no Rio de Janeiro. Despediu-se por volta das seis e desceu a pé até a quitanda. Eurídice continuava emoldurada por frutas, o rosto inclinado em cima de um caderno de notas.
  • Page 81e a empresa num conglomerado. Mas ela não sabia que queria tanto. Nos anos depois da fuga de Guida ela sabia ainda menos. Eurídice tinha abafado os desejos, deixando na superfície apenas a menina exemplar. Aquela que não levantava a voz ou o comprimento da saia. Aquela que não tinha sonhos que não fossem os sonhos dos pais. Aquela que só dizia sim senhora ou não senhor, sem nem mesmo se perguntar para o que é o sim, ou por que disse não.
  • Page 82meio morta. O silêncio que seguiu foi terrível, e depois de um tempo Antenor não queria saber se tinha se casado com uma segunda Dalva ou Maria Rita. Ele só queria Eurídice, a sua Eurídice, de volta. Tentou puxar assunto. "Quer caminhar até a praça depois do jantar? Parece que os jasmins vão abrir semana que vem. Faz tempo que você não me faz os medalhões de peru, com aquela coisa marrom por cima."
  • Page 836. Guida. Ela continuava bonita, mas se antes parecia ser a irmã mais velha de Eurídice, agora parecia ser a irmã muito mais velha. O cabelo estava preso num coque, de um jeito feito para não dar muito trabalho. Em uma das mãos ela segurava a mala que tinha desaparecido com ela da rua Almirante Alexandrino. Na outra tinha um menino gordinho, mais ou menos da idade de Cecília. Usava um casaco bege por cima de um vestido verde. "Posso entrar?"
  • Page 84O que Guida queria com tantas saídas era fazer aquele moço de cauda. Ela queria passear por aí e ver Marcos seguindo seus passos. Pois não era assim que o amor era descrito nas revistas, nos filmes e nos livros da Biblioteca das Moças? Cabe à mulher o dever de estarrecer o homem com sua beleza, e cabe ao homem a tarefa de lutar por essa mulher depois de voltar a se mexer, passados os primeiros segundos de imobilidade causada pela beleza estarrecedora d'A Escolhida. Marcos cumpriu seu papel. Por três sábados seguidos esperou Guida sair do cinema. Guida também fez sua parte, ignorando o moço para que, no sábado seguinte, ele voltasse com ainda mais vontade para a porta do cinema. Depois de um mês ela concordou em se fazer acompanhar até o seu éclair. Guida mordiscava o doce sem fome, levando os dedos à boca quando ficavam sujos de chocolate, o que parecia acontecer com mais frequência desde a aparição do admirador. Os olhos de Marcos flutuavam entre o éclair e a boca da moça.
  • Page 85os outros filhos fizeram, era isso que os pais de Marcos fizeram, e era isso o que achavam que Marcos faria. Há três séculos que os integrantes daquela família se casavam entre si. Só assim para manter completo o conjunto de louça inglesa, o jogo de talheres de prata, e de ter, sobre essa louça e esses talheres, uma fartura de banquetes que não seria possível se os casamentos se realizassem com terceiros. No palacete da Voluntários da Pátria Marcos não era Marcos, mas José Marcos Gonçalves de Moraes Monteiro Godoy. O pai, Augusto Monteiro Godoy, se casou com Mariana Gonçalves de Moraes, ambos descendentes de Godoy Gonçalves e Monteiro Moraes, descendentes de Gonçalves Morais e Monteiro Godoy, descendentes de Gonçalves Monteiro e Godoy Moraes. Às vezes aparecia um Pádua, às vezes um Castro Lima, mas os Godoy e Gonçalves e Moraes e Monteiro tinham se reproduzido o suficiente para tornar minimamente emocionante a escolha matrimonial entre primos, de modo que as variações sobre o mesmo tema permaneceram constantes durante OS tempos de Colônia, Império e República.
  • Page 86sob os babados da saia, aliviado ao longo dos séculos por dois padres, três médicos, um bandeirante perdido pelas. serras do Rio e cinco mulatinhos. Era esse o caso de Marcos, que nasceu mais alto e mais louro do que deveria, aumentando a crença da família na evolução da espécie, e a da mãe no teatro brasileiro. Foi nas coxias do teatro João Caetano que ela conheceu um ator delgado, responsável por trazer alguma emoção aos seus anos tranquilos de balzaquiana fluminense. O pai de Marcos cresceu numa das cinco fazendas de café que a família mantinha no Vale do Paraíba. Depois da crise de 1930 vendeu quatro de suas propriedades e se mudou com a família para junto do governo federal. Mobiliou o palacete de Botafogo com os canapés e as namoradeiras trazidos de uma fazenda, feitos pelo mesmo carpinteiro de d. Pedro II. Percebeu que era muito mais simples e lucrativo tirar o sustento apenas da política, em vez de intercalar política com extração de café, como fizeram seus pais e avós. Antes de candidatar-se ao Senado utilizou seus muitos contatos para dar os primeiros passos burocráticos na função de chefe de gabinete do prefeito do Rio, Henrique Dodsworth.
  • Page 87criada a Justiça do Trabalho. Tornou-se o juiz mais jovem do Brasil. As irmãs de Marcos não moravam na mansão de Botafogo. Uma se casou com um primo que ainda mantinha a crença no café e no título de Barão de Itaimzim que estava na família desde os tempos do tataravô. Barão e baronesa de Itaimzim passariam os cinquenta anos seguintes sentados na sala do casarão, vendo o reboco da parede cair. Outra irmã se casou com um diplomata e estava nesse momento em um café de Paris, pedindo ao garçom mais champanhe e discutindo com estranhos a meteórica emancipação da mulher latina.
  • Page 88nos sentidos figurado e literal. Todos esses primos que partiram desta para melhor não estavam assim tão melhor, porque ainda acreditavam ter direito aos bens da mansão de Botafogo. Permaneciam ali num limbo, admirando os brincos das mulheres da casa e secando os ouros em seus bustos, a ponto de fazer duas cunhadas de Marcos serem internadas secretamente num reformatório para tuberculosos em Petrópolis. A carga emocional deixava o ambiente tão pesado que os mais sensitivos juravam ficar mais altos assim que deixavam o palacete. Era assim também com Marcos, que preferia passar a maior parte do tempo na faculdade de medicina, nos bares da Lapa e nas ruas do Centro. Diferentemente de seus amigos, ele não queria ser um farrista de eternos vinte anos. Marcos não tinha vontade de fechar os bares, de experimentar as novidades dos rendez-vous ou de comparecer às rodas de samba tão exóticas para o resto da população, e tão na moda entre os boêmios daqueles anos.
  • Page 89E Guida saiu do cinema, e a perseguição pelas ruas do Centro durou quatro sábados, e quando finalmente conversaram ela aprendeu em dez minutos tudo o que precisava saber: o nome dele era Marcos, tinha vinte e um anos, estudava medicina e tinha um sorriso bonito. Marcos não entrou nos detalhes de seus sobrenomes, e ficou feliz em saber que Guida não se importava com isso. Tudo o que ela queria era um bom provedor que tivesse a cara do Gary Cooper. Um diploma da faculdade de medicina era a garantia de entrada na classe média, o máximo das aspirações de Guida. E, se Marcos virasse um pouquinho o rosto, o nariz ficava igualzinho ao do Gary Cooper.
  • Page 90coxas ao cruzar as pernas e escondia a barriga ao andar de tronco ereto. Os dois saíam por aí com ela à frente. "Hoje veremos este filme, depois vamos até a Colombo." Ficavam em casa com ela pautando assuntos. "Olha o penteado desta moça na revista, você acha que meu cabelo ficaria bom assim?"
  • Page 91A angina da d. Mariana durou mais quatro semanas. Temendo nunca mais ver a namorada sem os braços cruzados ou, pior ainda, temendo nunca mais vez os braços da namorada, Marcos se rendeu. "Sábado que vem vamos almoçar na minha casa, meu coração."
  • Page 92Guida mostrou certo alívio, mas continuou torcendo as mãos. “Então. Eu nunca te contei sobre esse almoço. Ah, Eurídice, foi nesse almoço que a minha vida começou a desandar."
  • Page 93patrocinar esses novos moços da natação. Guida também aprendeu que é possível conversar com outra pessoa por meia hora sem que essa pessoa absorva o que foi dito, como aconteceu quando conversou com o pai de Marcos. Dessa vez nada foi absorvido porque nada do que ela falava importava, o que podia ser visto pelos olhos rasos daquele homem estranho. Aprendeu que um bife pode demorar muito para ser comido, e que mesmo uma sobremesa como profiteroles pode perder o sabor. Aprendeu muito sobre Marcos, que também parecia visita no meio daquela gente, e sobre os irmãos de Marcos, que concentraram seus olhares na medalhinha de Nossa Senhora, não porque fossem devotos, mas porque a medalhinha se encontrava no único lugar em que gostariam de estar. Quando Guida foi encaminhada do Salão Amarelo paral o Salão Azul, do Salão Azul para a salinha da entrada, da salinha da entrada para o hall, do hall para a porta da casa, e da porta da casa para a saída ela sabia que nunca mais veria aberto o imenso portão de ferro que se fechava atrás. Ficou aliviada.
  • Page 94Casaram-se dois meses depois, assinando os papéis em frente a um juiz de paz. Guida usava um vestido simples de linho e tinha nas mãos um buquê de flores de laranjeira. Depois do casamento voltaram para a casinha que alugaram em Vila Isabel, e só então Marcos foi autorizado a dormir no quarto com Guida. Como os pais de Marcos jamais autorizariam casamento e os pais de Guida não aceitariam um noivo que viesse pela metade, sem o consentimento da família, Guida achou que os dois podiam se casar por conta própria, e morar num lugar longe de Santa Teresa e de Botafogo. Marcos tinha umas economias e poderia pagar pelo aluguel até se formar em formar em medicina, o que aconteceria em alguns meses. Com o diploma na mão, ele abriria um consultório. Assim que estivessem estabilizados casinha montada, consultório funcionando, gente doente sendo atendida e pagando as contas da nova vida Guida voltaria a procurar pelos pais, para explicar por que o casamento foi realizado às escondidas. A família de Marcos e Guida se estenderia então à d. Ana, seu Manuel e Eurídice.
  • Page 95"A vida é como essa brincadeira, Eurídice. Às vezes a gente acha que está fazendo tudo certo, mas quando se dá conta descobre que estava com os olhos tapados e não consegue acertar de jeito nenhum."
  • Page 967. Aqueles foram os meses do felizes para sempre da vida de Guida. Ela estava casada com o homem que amava. Morava em uma casa que não era grande nem pequena, era só perfeita. Podia passar o dia lendo revistas femininas e a tarde se pondo bonita para o marido. Ninguém batia no banheiro quando se demorava, ou implicava com seu silêncio quando se calava, ou mandava ela passar duas horas no caixa da quitanda. Às vezes ela chamava uma ou outra vizinha para um café, e trocavam receitas de bolo, dicas de limpeza e de cuidados pessoais. Saudades dos pais e da irmã ela sentia, mas convencia-se de que os veria em breve. Era questão de tempo para Marcos se estabilizar no consultório e ela reaparecer vitoriosa em Santa Teresa, com aliança de ouro no dedo e marido médico nas mãos.
  • Page 97anos". Não tinha que se desviar das cunhadas, versadas nas artes de camuflar os olhares obscenos. Não tinha que evitar os irmãos, que tentavam reproduzir na vida adulta as torturas que infligiram a Marcos na infância, quando o trancavam no baú do quarto dos pais, às vezes com alguma barata. Livre de todas as pressões familiares Marcos conseguiu se sentir confortável. Era como se só agora tivesse aprendido a respirar. Naquele final de novembro Marcos se formou pela Academia Nacional de Medicina e alugou um consultório num dos prédios recém-construídos da avenida Presidente Vargas. Mandou fazer uma placa com os dizeres Marcos Godoy - Clínico Geral. Encomendou cinco sobretudos brancos, com as iniciais M.G. bordadas sobre o bolso direito. Atendia de segunda a quinta, das nove às cinco da tarde. Às sextas não atendia, porque aqueles primeiros tempos ainda eram os de lua de mel, e só dois. dias e sete noites por semana não eram suficientes para apagar e reacender os fogos daquele casal.
  • Page 98realizavam com um pirlimpimpim, seguido de vastas somas em dinheiro que compravam bens e pessoas, e uns facões, espingardas e açoites, usados para acelerar of processo de aquisição. Marcos estava certo: o dinheiro comprou seu diploma. Ele financiou um colega meio mulato e meio pobre para assinar a folha de ponto das aulas de anatomia. Era também esse meio mulato que fazia as provas de Marcos, num sofisticado esquema de troca de papéis que se dava nos fundos da sala de exames na Praia Vermelha. Não tinha como dar errado. Esse meio mulato era muito capaz. Tão capaz que depois de se formar montou consultório e trabalhou nos melhores hospitais do Rio, deixando de ser ao longo da vida um meio mulato para se tornar um quase branco. Marcos compareceu a algumas aulas teóricas, embora os trabalhos fossem feitos nas coxas. Era nas coxas que ele apoiava o caderno, por usar o tempo sentado no bonde para os assuntos de faculdade, e o resto do tempo para os assuntos da namorada.
  • Page 99anticorpos. A senhorona da trombose rezou muito, mas perdeu uma perna. A senhorinha da dor de estômago tinha muitos anticorpos, mas ganhou uma úlcera. Antes de terem seus destinos marcados pela desgraça elas faziam uma última consulta ao dr. Marcos, que colocava a mão no queixo, levantava o indicador e dizia, "Acho que agora só temos que acertar a dose de penicilina". A única coisa que manteve Marcos no consultório por tanto tempo foram os dotes físicos herdados do agora obscuro ator de teatro que frequentou a cama de sua mãe. Pois como um homem tão alto, de olhos tão claros, de pele tão alva e modos tão refinados poderia fazer alguma lambança com seus pacientes?
  • Page 100resiliência ao alugar a casinha de Vila Isabel. Era pequena, era singela, mas tinha tudo o que precisava, que era a Guida em decotes e lingeries. Mas, depois que se mudaram para Piedade Marcos passou a ver o entorno com olhos de escritor naturalista, e mesmo Guida cheirosa e macia não conseguia atuar como filtro. A eterna goteira no único banheiro marcava com ferrugem a louça branca da pia, os cantos do teto úmidos e manchados de mofo, as tábuas do chão descascando de tão velhas. As marcas de quadros antigos na parede branca da sala, a cozinha tão pequena com ladrilhos faltando no chão. Pior do que a casa eram os arredores. Moravam de frente para os trilhos do trem e ao lado de um aviário. Era abrir a janela e ver entrar a poeira dos vagões e o cheiro das galinhas; era fechar a janela e ter o peito sufocado pelo calor. Os mosquitos eram tantos e tão famintos que agora Marcos tinha que dormir com o travesseiro sobre o rosto, não sendo mais possível aproveitar o lusco-fusco da noite para admirar os contornos de Guida. Havia também os galos de briga criados pelo vizinho, que começavam a cacarejar às cinco da manhã, e os cacarejos acordavam as galinhas do aviário, que cacarejavam ainda mais, e aquele era um cocoricó dos demônios, capaz de fazer qualquer um querer pegar o facão para resolver a situação no sangue. Alguns meses depois Marcos anunciou a mudança de consultório.
  • Page 101aprendeu a fazer das tripas um jantar honesto, e a fazer das sobras um almoço farto. Mas algo não estava certo. Como que ela, mulher de um médico, tinha que contar moedas na hora das compras, enquanto a vizinha do fim da rua, mulher de um pai de santo, comia carne cinco vezes na semana? A bonança no consultório da praça Saez Peña também teve dias contados. Depois, eram incontáveis os dias em que Marcos ficou sem pacientes. Voltava para casa afundado no assento de trem, pensando nessa realidade esquisita que não podia ser comprada. E, mesmo que pudesse ser comprada, ele não tinha dinheiro para pagar.
  • Page 102pensando? Que tinha meios de fabricar um membro?); e, mais recentemente, uma Guida com mãos na cintura, desconfiada de tudo, reclamando o tempo todo com uma única pergunta por trás de cada reclamação: "Por que a nossa vida tem que ser tão frugal?". A imagem de Guida na cama não foi suficiente para livrar Marcos do pesadelo. O dinheiro comprava felicidade sim, porque felicidade era um quarto sem mosquitos, mesmo que esse quarto ficasse em um palacete macabro em Botafogo. Marcos levantou-se, vestiu a roupa que estava sobre a cadeira e saiu em seguida, deixando um recado para a mulher na mesinha ao lado da porta.
  • Page 103estava grávida. A moça passava os dias enjoada, alimentando-se de broas de milho com pimenta malagueta, e pensando que precisava avisar a Marcos que ele seria pai. Assim que se sentiu um pouco melhor foi procurá-lo no consultório. Saiu de casa de salto alto e vestido rodado. Flor na lapela e batom vermelho, para ressaltar os lábios ao dizer volta com a gente, Marcos. Chegou no prédio da praça Saez Peña e perguntou pelo dr. Marcos Godoy.
  • Page 104pendurou-os no varal. Pôs os panos de prato de molho e areou as panelas de alumínio. Picou cebola para refogar o arroz, fritou dois ovos no azeite e sentou-se para fazer a primeira refeição em dias. Depois de arrumar a cozinha Guida sentou-se no sofá e ficou acariciando a medalha de Nossa Senhora no peito. Quem disse que não podia ter aquele filho sozinha? Ela poderia atrasar o aluguel e fugir sem pagar, mudando-se de madrugada para um lugar em que fosse desconhecida. Manter as aparências e a aliança no dedo, anunciar aos vizinhos que era viúva e que buscava um emprego. Precisava conseguir trabalho antes que a barriga ficasse aparente. Quando 0 empregador descobrisse a gravidez seria tarde demais, e não terial coragem de demiti-la. Depois do parto ela encontraria alguém para ajudar com o bebê e voltaria a trabalhar.
  • Page 105medida em que se aproximava da casa dos pais aumentava a vontade de deixar de ser mãe para voltar a ser filha. Queria caber de novo no colo da d. Ana, queria receber carinhos e dormir sonos de criança que sabe que o dia seguinte vai ser tão bom quanto o que passou. Queria acordar novamente com o pai encostando em seu ombro, queria tomar mingau morno com Eurídice, todos os dias pela manhã. Ela ainda estava dentro do bonde quando avistou a quitanda, e os olhos de seu Manuel. A mãe e a irmã deviam estar em casa, preparando o almoço. Pai e filha se encaravam enquanto ela se aproximava. Seu Manuel baixou o rosto quando Guida entrou na quitanda. "Pai?"
  • Page 106Aquela mudança, a busca por um emprego aos dois meses de gravidez, tudo aquilo continuava sendo uma ideia estapafúrdia. O que ela tinha que fazer era se livrar daquele bebê. Sim, era isso. Guida foi até a cozinha, ferveu alguns paus de canela e derramou o líquido marrom na xícara. Era tomar o chá e ter um aborto. Depois seria vida nova, e mesmo se essa nova vida não fosse assim tão boa Guida sabia que um dia ia melhorar. O chá estava quente, Guida esperou esfriar. Quando esfriou achou que ainda estava um pouquinho quente, melhor esperar mais. Depois o chá ficou frio, frio demais. Segurava a xícara com as duas mãos, olhava fixo para o líquido. Sentiu novamente o cansaço e a urgência em dormir. Amanhã eu penso nisso. Amanhã.
  • Page 107chutava sua costela, Guida avisava: “É daqui pro hospital e do hospital pro orfanato". A primeira parte do plano funcionou sem imprevistos. Guida sentiu as dores do parto num domingo de manhã, e como pareciam suportáveis achou que podia caminhar até o hospital. Chegou na praça da Cruz Vermelha sem conseguir fechar as pernas. Foi levada por desconhecidos até a entrada do hospital. Não lembra direito o que aconteceu em seguida, mas teve a impressão de ter passado duas horas (ou quatro, ou seis) sentada sozinha no fundo de um corredor (ou seria um salão?). Arqueava o corpo nos momentos insuportáveis, até sentir uma dor que extrapolou o insuportável. Olhou para baixo, viu al cabeça do filho. Apareceram enfermeiras, foi levada para a sala de parto. Lembra de ter dado mais gritos e de seguir ordens de pessoas que não sabiam seu nome. Um choro de bebê, o chão imundo, sangue que parecia brotar de roupas brancas, gente indo e vindo como se aquela fosse a rua da Quitanda. Alguém a colocou numa maca (ou numa cadeira de rodas?), ela reapareceu num quarto. E depois, quando finalmente pensou que descansaria sobre a roupa de cama que continha cabelos e manchas recentes de outra mulher, entregaram-lhe um pacotinho branco.
  • Page 108Ela nunca mais estaria sozinha.
  • Page 1098. Quando Guida voltou para casa encontrou na portal uma sacola com roupinhas e fraldas de pano. Um bercinho apareceu não se sabe de onde, e chupeta, mamadeiras e um chocalho. No Estácio daqueles tempos um filho de mãe solteira ganhava o bairro como padrinho. Guida não tinha sido a primeira a aparecer sozinha, inventando uma história estapafúrdia. Eram muitas as mocinhas defloradas e perdidas, muitas que mudavam de status de um dia para o outro, por causa de um deslize.
  • Page 110Não estava em seus planos viver de favor, e por isso começou a cuidar de uma ou outra criança enquanto a mãe trabalhava. Mãe e filho ficavam tão felizes que outras mães apareceram, e mais outras. Filomena tornou-se a babá mais requisitada do Estácio. Sua casa de três cômodos recebia crianças dia e noite. "Mais que sete por vez eu não cuido", dizia, quando a mãe de um oitavo aparecia na porta. "Tente a Maria da Penha. Ou a Efigênia."
  • Page 111Filomena não podia com mãe desamparada, ainda mais uma que nem Guida, tão fraquinha. "É de dar peteleco e ver cair", ela disse, quando se conheceram. A mulher também tinha uma queda por recém-nascidos. Quando pegava um no colo se lembrava dos oito filhos que teve. Cinco foram encaminhados para a adoção e três foram sufocados pelo companheiro da vez, nos fundos do cortiço. "São meus anjinhos que estão me esperando no céu", ela dizia, de sorriso desfalcado e hálito podre.
  • Page 112passar". Disse que estava proibida de comer feijão, “para não dar cólicas no neném". Mandou a moça passar três meses enfiada dentro de uma cinta apertada, "porque estava de resguardo mas não estava morta, e hômi acha que abraça poste quando envolve mulé sem cintura". O bebê tinha que comer pirão de peixe duas vezes por semana, "pra crescer inteligente". Era a própria Filomena que escolhia a cabeça de peixe para fazer o pirão do Chico. Chegava na feira na hora da xepa, os feirantes lhe reservavam as melhores partes entre as piores partes dos peixes que iriam para o lixo. "Achei que você não ia aparecer, Filomena."
  • Page 113Tanta segurança deixava os homens atordoados. Guida passava, eles não conseguiam fechar a boca. Aproveitavam os lábios abertos para emendar um convite para sair, que só servia para Guida virar o rosto, fechar os olhos e desconversar. Ela não queria saber de namoros. O único homem da sua vida era Chico. Quando o menino acordava no meio da noite ia correndo para a cama de Guida, e era tão bom estar junto da mãe que começou a acordar no meio de todas as noites. Depois de meses dormindo abraçada ao menino Guida teve que se fingir durona. "Você já é um homenzinho, tem que dormir na sua cama." Chico voltou a dormir em sua caminha, e agora era Guida quem acordava de madrugada, por falta de seu menino.
  • Page 114do campo, igualzinho a um que ela tinha visto no Jornal das Moças. As novas cortinas eram de voile azul-claro, a mesma cor escolhida para a colcha de babados. Comprou uma penteadeira e preencheu a bancada com perfumes da Casa Sloper. Num canto do quarto, destoando da decoração, ficava a caminha do Chico, coberta por uma colcha branca de piquê. Durante o dia Guida gostava de passar pela porta do quarto para admirar seu trabalho de decoradora e pensar se estava bom daquele jeito, ou se precisava de algo mais. Foi assim que adquiriu os três quadrinhos com tulipas. A escrivaninha para Chico fazer o dever de casa. E decidiu que o toque final viria com almofadas em tons de rosa, para cobrir a cabeceira da cama.
  • Page 115que pareciam ser medidas e mandou o vendedor cortar meia dúzia de panos. Guida recostou-se em uma pilastra, sem saber o que fazer. Ela podia ver a marca de catapora que a irmã tinha em uma das têmporas. Podia sentir o cheiro do Leite de Rosas que Eurídice continuava passando no rosto. Podia ver a imagem de Nossa Senhora que a irmã levava no peito, igual à que segurava, naquele momento, também em seu peito. Se estendesse o braço seria capaz de tocar Eurídice. Mas será que deveria tirar a irmã do transe? Era imensa a saudade, mas era maior a vontade de parecer vitoriosa. Seu quarto decorado ainda ficava no Estácio, seu filho continuava sem pai. Suas unhas vermelhas ainda eram usadas para trocar fralda dos filhos dos outros, e seu sustento vinha da parceria com uma ex- prostituta. Acreditava que um dia isso tudo ia mudar, e que portanto não era hora de abraçar a irmã. Esperou Eurídice pagar pelos tecidos, seguiu-a pelo Centro e sentou-se no último banco do bonde que a irmã pegou. "E foi assim que eu descobri onde você morava", disse Guida.
  • Page 116tinham duas mamães, e todas as mamães eram tão doces quanto as suas (mas as suas mamães eram as mais doces de todas). Acreditava que teria olhos de super-herói se comesse todas as formigas que apareciam em volta do açucareiro, porque “elas faziam bem pros olhos". Pensava que quando ganhava um galo na cabeça ia sair um pintinho por trás do calombo. Achava que a chaleira apitava porque estava viva, e que se comesse muito pirulito sua boca ficaria vermelha para sempre. Acreditava que o Capitão América vivia num lugar muito distante, que era aquele que existia atrás do morro. Cresceu um pouco, e viu que a coisa não era bem assim. Famílias como a dele não existiam. Tinha que ter um pai, como aquele que aparecia nas cartilhas da escola, de terno escuro e cabelo lustroso. Mãe era só uma, e irmãos podiam ser muitos, mas eles não iam e vinham como os dele. Formiga só fazia bem para os olhos quando uma ou outra caía dentro do mingau e Guida tinha preguiça de tirar. O galo da cabeça só doía, embora ele ainda tivesse esperanças de ver sair um pintinho dali. Por que a chaleira apitava ele continuava sem saber, mas ela não estava viva. A sua boca ia mesmo ficar vermelha para sempre se ele comesse muito pirulito, e isso as suas duas mães juravam ser verdade verdadeiríssima. Já o Capitão América não vivia atrás do morro. O Capitão América vivia num lugar onde só se podia chegar de avião. Quem vivia atrás do morro era o Saci-Pererê.
  • Page 117formigas do prato do filho. “É mentira isso das formigas, né mãe?” Ela desconversou. Chico já sabia que não ia sair um pintinho do galo que se formou na testa depois da briga, e sabia que a chaleira apitava por causa do vapor, como aconteceu naquela noite, porque além das feridas ele tinha o peito encatarrado, e Filomena ferveu um pouco de água com extrato de eucalipto. Depois lhe deu um pirulito e nem disse que a sua boca ia ficar vermelha para sempre. E como eram boas as noites em que estava doentinho, porque a mamãe Guida deixava ele dormir com ela na cama, e assim não teria medo dos tantos monstros que existiam atrás do morro, e ele ali, tão indefeso, porque o Capitão América morava muito longe e nunca teria tempo de chegar para salvar a todos. Apesar dos pirulitos e carinhos e mingaus, Chico foi crescendo meio revoltado por ter uma vida que era boal mas não era a certa. Por ter duas mães tão doces quanto renegadas. Por que aquela mulher tinha trocado de calçada e soltado um cuspe junto com um marafona ao ver Filomena na rua? Por que naquele dia na feira chamaram sua mamãe Guida de mulher da vida, e por que sua mamãe ficou muito brava quando ele perguntou qual era o problema em ser uma mulher da vida, já que todas as mulheres eram da vida, e não da morte? Por que Filomena só podia chegar na igreja depois que a missa começava e sair pouco antes de terminar? Tudo errado, ele pensava, e quanto mais sabia sobre o mundo mais raiva ele sentia. Preconceito, pobreza, a falta de um pai, a vida dura das mães, todas essas coisas formavam as duas pontas de um mesmo barbante, que na época ele só sabia que estavam ligadas por intuição.
  • Page 118palavra mais proibida que sirigaita, marafona e mulher da vida. Vendo o desespero nos olhos de Chico, Filomena voltou a sorrir. "Não se preocupe que isso não é nada!" Tentou pegar o menino no colo, mas deu um grito assim que seus corpos se tocaram. A dor no seio era maior que sua capacidade de disfarçá-la. Guida e Filomena dispensaram metade das crianças. que frequentavam a casa. Filomena passava os dias gemendo no quarto, enquanto Guida inventava braços e multiplicava pernas para cuidar das crianças e da amiga. Chico pedia para ajudar e era ignorado pela mãe. "Seu trabalho é estudar e tirar boas notas." Afundava a cara nos livros e se perdia em histórias. Quando levantava a cabeça achava tudo muito horrível, e sumia de novo, dentro de um livro qualquer.
  • Page 119Deus escutava e respondia, “Tá legal, mas hoje não". E Filomena perguntava, “Se não hoje quando, meu Deus?". E Deus dizia, "Quando chegar a hora, Filomena, quando chegar a hora". Essa era uma hora que nunca chegava. Quem via Filomena na rua numa das idas ao hospital virava o rosto para deixar de ver; quem morava perto tapava os ouvidos para deixar de ouvir. As mães foram tirando seus filhos dos serviços de cuidar, e no final só restaram na casa Guida, Chico com a cara nos livros e uns trinta por cento de Filomena.
  • Page 120A dose extra custou a metade das economias. A segunda dose custou a outra metade. A terceira dose custou o colar com a medalha de Nossa Senhora que Guida nunca tirava do pescoço. A quarta dose custou Guida deitada sobre o tapete dos fundos da farmácia, com seu João resfolegando por cima. A quinta dose custou o mesmo, e a sexta dose não foi necessária. Filomena partiu entre devaneios de morfina, do jeito que Guida queria. Chegou no céu ainda doidona, e encontrou enfim o portão aberto. A cada passo que dava sentia-se um pouco melhor. Depois de alguns metros estava tão forte quanto a moça que foi aos quinze anos.
  • Page 1219. Naqueles últimos dias de câncer Filomena ficou viciada em morfina, e seu João ficou viciado em Guida. Mesmo depois do enterro o dono da farmácia não se cansava de procurar a moça para a a finalização de negócios inconclusos nos fundos da loja. Como Guida não precisava mais de injeções de morfina, e precisava de muita paz, as respostas para seu João eram variações de não no começo e ameaças de queixa no final.
  • Page 122melhores que os exigidos os exigidos por Guida. O pote dos mantimentos em que guardava o dinheiro não tinha dinheiro nem mantimentos. O fim do mês ia chegar, e o dono da casa em que moravam já estava olhando Guida com uns olhos de muita fome. Conseguiu trabalho como caixa de um armarinho no Rio Comprido. Era uma loja estreita e escura, que recebia a poeira dos bondes e ônibus que subiam a rua do Bispo. A loja pertencia a uma turca com seios imensos, que ficavam ainda maiores dentro dos vestidos estampados que usava. D. Amira estava viúva há anos, e para se manter como dona do seu negócio e do seu destino descobriu que tinha que se portar como um homem. Nem mesmo os brincos de pingente e as unhas compridas conseguiam fazer com que ficasse um pouco feminina. Todos no bairro respeitavam seus bons-dias sem um sorriso, a sua boca em formato de arco e o seu total desinteresse por tudo aquilo que não eram agulhas, tesouras e dedais.
  • Page 123daria ao filho, e por isso aceitava. Essa Guida também sabia o principal: era melhor ter uma mulher como chefe do que um homem, mesmo que essa mulher fosse capaz de transformar um armarinho no purgatório, porque era melhor estar no purgatório que nos fundos de uma sala qualquer, embaixo de um patrão. Além do mais tudo haveria de melhorar no mês seguinte, quando o período de "experiência" de Guida acabaria, e ela poderia finalmente ganhar um salário mínimo e ter a carteira assinada. D. Amira condicionou a contratação de Guida a três meses de avaliação, pagos. com apenas a metade do ordenado. Segundo a turca, eram necessários noventa dias para se assegurar de que a moça sabia manejar a caixa registradora. Guida aceitou a condição. Não só porque não havia outras condições a serem aceitas, mas porque essa d. Amira, muito versátil nas artes econômicas, deu a Guida um adiantamento, fazendo com que a moça pudesse pagar o aluguel atrasado e se sentisse desde cedo em dívida com a patroa.
  • Page 124Chico estava com febre reumática. Precisava de injeções de Benzetacil, corticoides e remédios para o coração. "Por quanto tempo é o tratamento, doutor?", Guida perguntou, torcendo as mãos.
  • Page 125Aquele era o último sábado do segundo mês de tratamento do Chico. Guida tinha acabado de apagar as luzes da sala. A última cliente tinha saído havia pouco, e agora ela descansava no escuro, pernas por cima do sofá. Seus pés estavam inchados, as costas doíam muito. Pegou uma das revistas femininas, folheou sem prestar atenção nas páginas. Dentre todas as mãos que tocaram aquelas revistas as suas eram as únicas que continham unhas com esmalte descascado. No dia seguinte as mulheres começariam a chegar às nove, Guida mal teria tempo de varrer a sala, fazer comida e limpar o banheiro. Jogar fora o lixo de cabelos e algodões com esmalte e acetona, arrumar a pilha de revistas, fazer um carinho no Chico e ter a sensação de que tinha apenas piscado os olhos, nas breves horas em que dormia. Sentia-se cansada, mas tranquila. Estava conseguindo pagar as contas, e era isso o que importava. Levantou-se para pegar os remédios do Chico. Abriu o gabinete do banheiro, onde estava a injeção de Benzetacil que aprendeu a dar no filho e que doía tanto, nos dois. Era uma agulha grossa que passava o líquido espesso, e que deixava o bumbum do Chico doendo por muitos dias. Às vezes o menino não conseguia sair da cama por causa da dor. Os amigos deixaram de chamá-lo para o futebol no terreno ao lado da igreja porque seu bumbum estava sempre doendo, ai se uma bola tocasse ali. Guida colocava uma bolsa de água quente, e não adiantava. Colocava um saco de água fria, e adiantava menos. E fazia massagens, e dava beijinhos, o que adiantava um pouco. Pegou também as pílulas de corticoides e o vidro com o elixir para o coração.
  • Page 126Por dois segundos Guida pensou em chamar o filho para lamber o remédio que salvaria a vida dele, e a dela. Ali estavam oito dias de trabalho no salão. Oito dias penteando o cabelo de outras mulheres e pintando unhas que não eram suas. Oito dias mentindo para as clientes "você está linda com este penteado", "que mãos tão longas a senhora tem". Oito dias no meio de quatro semanas de trabalho tão intenso que Guida tinha deixado de ser um pouco Guida para ser a pecinha de uma engrenagem que ela não sabia para que servia, só sabia que funcionava, e desde que lhe retornassem com um canto para morar, um pouco para comer e a saúde do seu Chico podiam tratá-la como pecinha, que ela não ligava. Ela poderia ter ficado sentada no vaso do banheiro por meia hora ou hora e meia, lamentando pelo elixir derramado, se não tivesse assuntos mais importantes com que se preocupar. Chico tinha que tomar os remédios no dia seguinte, sem falta. O médico foi estrito: uma única falha no tratamento faria o menino ter problemas crônicos de coração.
  • Page 127Não foi essa exatamente a história que Guida contou para Eurídice. Sentada de pernas cruzadas, tendo para si a atenção da irmã, Guida sentiu o corpo relaxar e ganhou de volta um pouco da autoestima. Na versão contada para a irmã Filomena era uma professora aposentada. "Só mesmo trabalhando com educação pra entender daquele jeito de criança, Eurídice!" Seu João era o santo que ajudou Chico com os medicamentos. "Não sei o que seria de mim se aquele homem não quisesse tanto me agradar!" A parte sobre Marcos é que Guida contou inteira, acrescentando uns salafrários, safardanas paquidermes pelo meio, contando detalhes que faziam os olhos de Eurídice ganhar o formato de bolas de gude. "Pois no começo do casamento Marcos me perguntou pra que é que servia coador. Ele nunca tinha visto um coador, Eurídice! Disse que era pra tirar a nata do leite, e ele disse que o leite na casa dele já vinha coado da cozinha. Pode isso, Eurídice, um homem não saber o que é um coador? Marcos nunca tinha cortado uma laranja. Botei umas na mesa depois do almoço e ele cortou a fruta assim pelos lados, nem dava pra comer de barquinho. E só conseguia dormir com uma fronha cobrindo os olhos. Disse que não se acostumava com o sol da manhã batendo perto da cama, porque o quarto de Botafogo tinha cortinas de veludo que tapavam até sol de meio-dia. Um maricas, Eurídice, um maricas."
  • Page 128Na parte da história em que entrava d. Amira Guida inventou um pouco mais. Patroa meiguíssima. Quando recebeu o pedido de demissão teve que se sentar para conter o abatimento, e disse, com a mão no peito: "Você é uma filha para mim, ó Guida". "Precisava ver como ela chorava! Mas eu disse que estava na hora de eu mudar de vida, e de me dedicar mais à educação do Chico."
  • Page 129senhora precisa de um tônico para os nervos, ou para o coração, ou para os músculos, eles diziam. Tônico para esquecer que a filha foi embora não havia, então d. Ana continuava adoecendo, deixando pedaços de bacalhau no prato e olhando para a esquina, em busca do único antídoto que faria a saúde voltar. Um dia abriu os olhos e achou que não precisava sair da cama. Virou para um lado, virou para o outro e tirou uns cochilos. No dia seguinte abriu os olhos e achou que não precisava virar para os lados. No terceiro dia não abriu os olhos.
  • Page 130cena, que dramas como aquele ninguém podia perder. E tinha o o menino gordinho com cara enfezada, que abraçava a moça e balançava com ela, no ritmo do desespero. Antenor nem ficou muito bravo nem nada, porque pela primeira vez em muito tempo notou interesse nos olhos de Eurídice. Gostou de ver a mulher desperta, mesmo que fosse como coadjuvante de uma cena dramática, e mesmo que essa cena se passasse ali na sua sala, ao lado do rádio de pés palito, que ele tinha esperanças de ver sair intacto da performance.
  • Page 131estiver preparada, o que pode acontecer em um mês, em um ano ou sabe-se lá quando. Antenor consentiu. Era bom ver Eurídice feliz, dando sorrisos e muitos beijos em Cecília e Afonso. Bom ouvir as gargalhadas da mulher atravessarem a casa inteira. Ele nem sabia que a mulher podia gargalhar assim, em camadas. Também gostou de ter Guida por perto. A irmã de Eurídice trouxe para o sobrado dos Gusmão Campelo o toque Guida de decoração. Os vasos de cristal apareceram com flores, paninhos bordados apareceram nas mesas, e que lindas as almofadas que surgiram do nada, e que eram o que faltava para completar aquele sofá. Chico não fedia, não cheirava e não falava. Vivia num mundinho só dele, composto principalmente pelo. colégio Pedro II, para onde tinha passado no início do ano. Ele era o melhor aluno da melhor instituição de ensino do Rio, mas não parecia se importar com isso. Só se importava com os livros, o que deixava Cecília um pouco incomodada. Pois como um garoto que nem era assim o ó do forrobodó poderia ignorar aquela que tinha conquistado o R de Rainha do Sarau do Colégio Batista, escolhida quase que por unanimidade pelas três classes do segundo ano ginasial? (A segunda colocada ganhou oito votos, que, segundo Cecília, foram comprados através da distribuição de pão de queijo na hora do recreio.)
  • Page 132Era também só o que faltava para aumentar o disse me disse sobre aquela casa. Zélia passou muitos dias de braços e pernas cruzados, com a cara e o corpo fechados para o mundo, balançando o pé e pensando no que raios havia de tão engraçado acontecendo do outro lado da parede para Eurídice gargalhar daquele jeito. Umas gargalhadas indecentes, ela pensava, sendo indecente tudo aquilo que ia contra a moral e os bons costumes, e não era um bom costume naquele tempo mostrar-se assim tão feliz. E quem era aquela mulher tão, tão, tão... exótica, e aquele menino tão, tão, tão... menino? Era a irmã de Eurídice com o filho, Zélia descobriu através de suas artimanhas de ornitorrinco, e parece que ela tinha perdido o marido numa batalha contra o câncer, que Guida fez questão de contar em detalhes para a vizinha interessada. "Fomos para Cleveland fazer o tratamento, alugamos uma casa em estilo Tudor e passamos o inverno sob a neve. Bebíamos chocolate quente como se fosse água, Nicanor me comprou um casaco de vison e Chico aprendeu a patinar no gelo. Mas a senhora sabe, quando Deus chama, ninguém pode fingir que não ouviu, e Deus chamou o meu finado Nicanor, aquele homem tão bom, aquele diplomata tão alto, fiel servidor do nosso querido Brasil... É o que dizem, d. Zélia. O lado de lá está ficando mais interessante que o lado de cá." Ai que o coração da Zélia apertava de raiva. Apertava e não desapertava, porque não havia meios de ela descobrir onde estava o cabelo no ovo da vida da Guida. Mas ela sabia que tinha cabelo ali, isso ela sabia.
  • Page 13310. Eu devia ter feito isto há mais tempo, eu devia ter feito isto há mais tempo, Guida pensava durante aqueles meses tão preciosos e de tantos risos trocados com a irmã. Elas riam por qualquer coisa e por coisa alguma. lam juntas à mercearia, discutiam o destino dos personagens das novelas e passavam tardes inteiras vendo as vitrines da praça Saez Peña. Os risos só deixavam as duas quando Eurídice tentava convencer Guida a rever o pai. Nessas horas a irmã fazia uma cara igualzinha à das artistas de TV, quando querem mostrar que as adversidades da vida não são capazes de dobrar seu caráter.
  • Page 134Das Dores ouvia, e Das Dores se calava. Pois seus três meninos ainda precisavam dela, e parece que um deles não ia ser malandro que nem o pai, porque gostava dessas coisas de estudar. E se apenas um filho lhe saísse bem ela já podia morrer em paz, o que era agora uma das únicas coisas que queria. Ela inclusive já tinha visto o preço do caixão; tinha escolhido um de madeira clara com alças douradas. Já estava pagando as prestações do cemitério do Caju, que em cova rasa não ia ficar. A vida não tinha Ihe sorrido, mas ela faria a morte lhe tratar melhor. Para Das Dores uma saia levantada a mais ou a menos não fazia muita diferença. Que mal havia em aliviar as angústias do menino? Ruim foi sua primeira vez, porque aos treze anos não sabia de muito e tentou resistir, voltando para casa com manchas de sangue que não eram apenas pelo fim da virgindade. Mas deixemos Das Dores de lado. Voltemos para Guida, que agora se recupera de mais de uma década de bordoadas por acreditar no lema da Revolução Francesa. Apesar do peito triturado por Marcos, apesar dos longos meses de grávida solitária, apesar dos anos cuidando dos filhos dos outros, apesar das noites tão longas ouvindo Filomena gemer, apesar dos tempos empoeirados no armarinho e dos dias de acetona em sua sala, apesar de todos os fluidos depositados contra a sua vontade entre as suas pernas, Guida era uma espécie peculiar de João Bobo. De boba ela não tinha nada, mas podia bater que voltava. E voltava com mais força, e com mais sorrisos, e com mais crença em seu destino de vencedora.
  • Page 135precisava de mais. Só precisava encontrar um jeito de passar mais tempo perto de Eurídice, ou perto de tudo o que fosse um pouco Eurídice. Os primeiros bons-dias de seu Antônio para Guida vieram entre gaguejos, acompanhados de uma indisfarçável coceira no pescoço. Guida achou aquilo muito bonitinho. Sentia-se protegida perto da irmã, e por que não aceitar as boas intenções desse senhor de bigodinho e camisa abotoada até a gola, que só se referia a ela como "sra. Guida", tendo nessas palavras muito mais respeito do que todos os outros "sra. Guida" que tinha ouvido até então?
  • Page 136Antônio. Era afeto, que naqueles meses de flerte foi promovido a amor, para justificar o sonho das roupas passadas em frente à TV e a decoração em tons de azul do quarto do Chico. Era sobre Chico inclusive que ela queria conversar naquela tarde de sábado, depois de pedirem os folheados e o suco de groselha na Confeitaria Colombo. “Seu Antônio, entendo que o senhor tem por mim uma estima profunda. E que seria uma dádiva ter-me como companheira. Mas, o senhor sabe, eu tenho um filho. E dele não me separo, nunca.
  • Page 137pelos bares da Carioca, mais interessados na cerveja alemã. Foi mais ou menos nessa época que se formou a essência da cidade, e quem morava no Rio deixou de ser português imigrante, turco de nascença, brasileiro. legítimo, chinês expatriado, meio branco, meio mulato ou meio índio para se tornar carioca. E logo depois que essas pessoas entenderam que eram cariocas passaram a sentir o desejo de ter nas mãos um copo de cervejal estupidamente gelada.
  • Page 138contornado por flores imaculadas, independentemente da época do ano. Quando acordava não era a imagem da mãe que ela via através do cortinado de filó, mas a imagem da ama, que a banhava, vestia, penteava e alimentava. Hortência tinha assuntos mais importantes para tratar que cuidar das filhas. Tinha que aprender a ser rica. A vida era singela nos tempos da cerveja caseira, e quando aquele monte de dinheiro apareceu não sabia como proceder. Saía em sua nova carruagem até a rua do Ouvidor, observava a elegância das mulheres na rua e entrava nas lojas francesas, onde se fartava de comprar chapéus, sombrinhas e leques. O problema era combinar os acessórios com os vestidos da modista, e naqueles primeiros anos anos de bonança ela cometeu excessos. Aparecia na missa com corpetes bordados em ouro e camadas de renda na saia. Seus chapéus se passavam por enxertos da Amazônia, tamanha era a fartura de plumas, flores e frutas. Hortência era ao mesmo tempo ignorada pelas mulheres e o principal assunto comentado entre cochichos.
  • Page 139chapéus. Por ordens da mulher Luiz agora só podia sair de casa com casaca e cartola, corpete de seda importada e gravata plastrom. As filhas viviam engessadas em roupas de linho, calçando botinas lustrosas que machucavam os pés. A chácara também se transformou. Perdeu os ares de casa de campo para se tornar um castelo de torres góticas e portas mouriscas. O jardim ganhou uma fonte, e a fonte ganhou um cupido. Hortência comprou dois leões de louça para vigiar a entrada da casa e instalou na varanda as estátuas de Apolo e de Júpiter. Comprou bergères estofadas em seda, cadeiras com costas de tapeçaria, mesas com incrustações em bronze e livros. para decorar a biblioteca. Comprou tantos bibelôs que foi preciso adquirir mais mesas e mais cristaleiras para abrigar os bibelôs. Estando as mesas e cristaleiras já compradas, Hortência adquiria novos bibelôs, e se calhava de exagerar na compra dos bibelôs arranjava novas mesas e cristaleiras, e por aí a coisa foi.
  • Page 140Tupã. Até um índio apareceu, embora tenha sido poupado da performance. Foi considerado indolente por não aprender a tempo a lidar com malabares. Codornas, perdizes e pombos selvagens, fios de ovos, foie gras e sorvetes de frutas, presuntos com cravo, lombinhos e filés de badejo, castanhas açucaradas e bombons com licor eram servidos por vinte e cinco empregados que usavam perucas brancas dos tempos joaninos. Os copos só circulavam com a cerveja fabricada por Luiz, tornando explícita a mensagem de que a partir daquela noite os convidados teriam que engolir não só a bebida, mas também os anfitriões.
  • Page 141normal alimentar o fox terrier com os pedaços de peito de frango negados à criadagem. Pobres existiam para ela usar luvas novas e não sujar as mãos ao dar esmolas depois da missa. Escola existia para ela aprender francês, e saber pedir um croissant na boulangerie, nos meses de férias em Paris. E os salões de sua casa existiam para ela conhecer um pretendente tão ilustre quanto ela, se casar e dar à luz quatro filhos, que seriam criados por uma ama, pois ela tinha assuntos mais importantes para tratar do que cuidar deles, como por exemplo continuar sendo rica. Era bom e intenso e eterno. Até deixar de ser.
  • Page 142A chácara de Laranjeiras foi vendida para pagar dívidas. Hortência se mudou para uma casa de cômodos com uma cama de solteira, um baú com vestidos dourados e uma caixa de madrepérola, que continha o dinheiro da venda de cristaleiras e bibelôs. Era seu o último quarto do último andar, e dali ela só saía para comer, ir ao banheiro ou sentar-se ao sol junto às roupas no varal, por uma hora, todas as tardes. Ficou conhecida como a nobre dama dos vestidos longos, aquela que contava sorrindo histórias de bailes magníficos, que às vezes tinham um negro albino como bobo da corte e um cisne nadando em cerveja. Outras vezes era o negro albino que nadava em cerveja, enquanto o cisne se vestia de bobo da corte. Foi no piano de sua casa que Ernesto Nazareth compôs os tangos brasileiros. Santos Dumont cuspia enquanto falava, Olavo Bilac era um pouco gago, e Angelo Agostini não conseguia acertar nos desenhos o formato do seu nariz. Ninguém acreditava no que saía da boca da pobre mulher, mas gostavam dela. E, quando Hortência perdeu todo o dinheiro contido no baú, porque não soube fazer a troca das moedas de mil- réis para os cruzeiros que surgiram na década de 40, os moradores da casa de cômodos se juntaram para pagar o aluguel, tornando possível a rotina de banhos de sol e histórias fantásticas até sua morte, aos cento e dois anos. Infelizmente Eulália não soube lidar com a pobreza com a mesma naturalidade da mãe. Nunca soube o que era ser pobre, e não gostou de saber. Puxaram-lhe o tapete com tudo o que havia por cima dos sapatos italianos aos móveis de jacarandá. Mudar-se da chácara de Laranjeiras para um apartamento de dois quartos em Quintino foi um golpe em seus sentidos. Um golpe que ceifou qualquer tipo de doçura que sua indolente personalidade pudesse ter. Eram claustrofóbicas as paredes daqueles cubículos, e logo após a mudança não
  • Page 143havia meios de ela entender como podia caber ali uma família de seis pessoas. A resposta chegou depois de alguns dias, em que nada de extraordinário aconteceu. Cabia porque tinha que caber. Eulália foi ficando cada dia mais mal-humorada, e foi infernizando a vida de todos à sua volta. O marido de Eulália, que até então se chamava Onofre Francisco de Pádua Cavalcanti de Albuquerque Lacerda, passou a se chamar Onofre, seu imprestável. Ele vinhal de uma família que acreditava na riqueza endêmica. Algo que pertencia a eles por direito, e a que tinham acesso por um simples processo de osmose só precisavam ficar perto do poder para receber as vantagens que lhes permitiriam continuar ricos. Coube ao bisavô de Onofre, o marquês de Ouriçal, uma das boas casas do Rio, ao desembarcar do navio com a família real. Coube ao seu avô um posto na alfândega, para receber um salário sem trabalhar. Coube ao pai de Onofre o sobrenome distinto, que ele trocou pelo casamento com a filha de um traficante de escravos. E coube a Onofre o restinho de brilho desse sobrenome, que ele trocou pelo casamento com a filha de um empresário.
  • Page 144caninha conhecida como xixi de anjo, capaz de corroer estômagos e diluir fígados. Onofre, o Imprestável, morreu de cirrose. Eulália, a amarga, tirou os filhos da escola e botou todo mundo para trabalhar. No fim do mês ela interceptava o salário dos filhos, e se estava de bom humor liberava trocados para um cigarro um cigarro. Descobriu ter dado à luz uns meninos bastante românticos, que mal completavam dezoito anos para anunciar casamentos com moças jamais aprovadas pela mãe. Antes de partir escreviam o novo endereço no caderninho, com umas letras de médico que nem vidente poderia decifrar.
  • Page 145quando Antônio começou a apresentar cabelos brancos e tinha como único interesse a coleção de selos. Era a genética que fazia Eulália doente. Não aquela presente em seu DNA, mas a que estava no DNA do filho. Antônio era um homenzarrão de um metro e oitenta, com peito de escudo e um topete negro que lhe caía nos olhos, e que causava nas mulheres vontade de pentear seus cabelos. Os dentes perfeitos faziam mocinhas corarem, por descobrirem-se capazes de pensar em funções para a boca que transcendiam a hora das refeições. Uma delas chegou a desmaiar na papelaria, depois de ver os bíceps de Antônio explodindo sob a camisa, ao levantar uma caixa de papel almaço. Voltou a si minutos depois, e em local indesejado. Era Eulália que comprimia sua pélvis contra as costas da moça, que lhe dava tapinhas nas bochechas, e enchia suas narinas com um hálito de cebola.
  • Page 14611. Apenas duas das cento e oitenta e nove mulheres que foram à papelaria de seu Antônio em busca de algo além de mata-borrões conseguiram desbancar os agouros de d. Eulália. A primeira se chamava Isabelle Bouquier. Isabelle era filha do maior livreiro do Rio de Janeiro, o francês Jean Bouquier. Ela tocava piano, falava quatro línguas, não era feia e passava os verões em Paris. Isabelle poderia ter qualquer homem que caminhasse na rua do Ouvidor ou no Boulevard Saint Germain. E, para provar que poderia ter qualquer homem, quis um que não caminhasse pela rua do Ouvidor, ou por Paris. Conheceu Antônio num domingo de tédio, ao acompanhar a família para a apresentação da banda marcial no coreto da praça Saez Peña. A cabeça do rapaz sobressaía na plateia. Ele gostava de comer pipocas umal a uma, e olhava para a banda com o interesse de quem assiste a uma ópera no Municipal. Depois da apresentação a plateia se dispersou, e Isabelle pôde analisar o que restava de Antônio. Terno de alpaca, sapatos ordinários e uma senhora que lhe dava o braço.
  • Page 147Nas primeiras vezes que Isabelle apareceu na papelaria teve que enfrentar o bico de d. Eulália, que naqueles anos só deixava a caixa registradora para fazer um xixi por dia. Mas quando a mãe de Antônio inteirou-se sobre a família da moça o bico transformou-se em sorriso, para depois transformar-se de novo em bico, ao dizer Bonjour, comment allez-vous? À bientôt, à bientôt! Jean Bouquier era um homem de muitos contos de réis, não só porque sabia vender, mas porque sabia não comprar. Da porta para fora sua casa era uma das mais luxuosas da rua Conde de Bonfim. Da porta para dentro era uma das mais frugais. Examinava os selos das cartas que recebia, e aqueles que não continham carimbos eram descolados do envelope para ser utilizados em nova remessa. Seus sapatos passavam por um processo de metamorfose peculiar, que fazia Jean usar o mesmo par desde os dezoito anos: mandava trocar a sola de tempos em tempos, e se a sola estivesse boa mas a superfície rota, ele usava a base em um novo par. O pó do café peneirado era reaproveitado no dia seguinte, e nas poucas vezes que comia em restaurantes retornaval pratos tão limpos quanto os que tinha recebido. Não estava ali para devolver grãos de arroz já comprados com seu dinheiro. O único excesso eram as viagens a Paris, feitas a título de investimento. Jean tinha três filhas para casar, e o trânsito em dois continentes aumentava as chances de bom matrimônio. Além disso, a estada em Paris era doce por ser gratuita. A família acomodava-se na casa do irmão de Jean, o também livreiro Jacques Bouquier. Favor, aliás, que Jean nunca teve que retribuir. “Não, meu irmão, você não quer expor sua família aos perigos do Brasil. O Rio é um lugar imundo, com ruelas fétidas e mal arejadas. As poucas brisas só servem para disseminar doenças misteriosas que dizimam os estrangeiros. Um horror! Um horror!", ele dizia.
  • Page 148Não foi exatamente um romance o que se passou entre Isabelle e Antônio. Foi uma faísca, que se acendeu numa quinta-feira de chuva, quando a moça foi instruída por Eulália a procurar com Antônio um bloco de notas no estoque da papelaria. "Os que estão na vitrine ficaram queimados de sol, mostre à moça os modelos que chegaram semana passada. Tinoco colocou na prateleira dos fundos", disse Eulália. A única lâmpada do estoque não dava conta de iluminar o espaço, o barulho da chuva no telhado aumentava a sensação de isolamento. Enquanto Antônio mostrava à cliente a pilha de blocos o braço de Isabelle tocou o seu. Tocou e continuou tocando, tocou e não deixou de tocar. Antônio sentiu os órgãos rearranjarem- se na barriga, e uma quentura lhe subir o pescoço. Segundos depois a quentura se transformou numa coceira medonha, daquelas que as unhas não curam. O que Isabelle sentiu permanece um mistério. Durante o momento infinito do tocar de braços a moça continuou olhando a pilha de blocos com interesse peculiar, como se fosse a bandinha da praça Saez Peña, ou uma ópera no Municipal.
  • Page 149Viúva e filhas choraram muito durante o enterro. De raiva. Jean Bouquier deixou a fortuna para o irmão, e alguns contos de réis para a mulher. Ela agora teria que tomar as próprias decisões. A começar por decidir se devia gastar a herança para viver cinco anos na fartura, como a rica que tinha sido até então, e que não teve como aproveitar a vida. Ou usar o dinheiro para viver o resto de seus dias de forma frugal, como os anos que passou com o marido. Quando Isabelle chegou de olhos vermelhos. na papelaria a notícia da morte e do testamento de Jean Bouquier já tinha corrido o bairro. O bico de d. Eulália não tinha nada de francês, e a moça entendeu que jamais voltaria a procurar por um bloco de notas no estoque.
  • Page 150salão, seu pai interceptando os garçons que serviam champanhe, e uma menina mais alta, que lhe chutava as canelas com botas ortopédicas. Durante as décadas seguintes Henriqueta consertou os pés chatos e ganhou alguma graça. Graça que já era para ter desaparecido, porque naqueles tempos as graças não gostavam de acompanhar as moças com mais de trinta. Mas Henriqueta era uma das raras mulheres da época que se recusavam a envelhecer, mantendo no rosto uma frescura incomum a seus muitos anos. Tinha tudo para ser feliz, mas estava desesperada. Arrependeu-se de ter escolhido demais num tempo em que mulheres escolhiam de menos. Passou a juventude recusando noivos que não lhe caíam bem. Um era muito alto, outro era muito baixo, outro era muito feio, outro mais feio ainda, e todos, todos eles, uns chatos. Descartou homens demais, e quando ganhou dois ou três cabelos brancos passou a ser descartada por eles.
  • Page 151risinhos que as duas trocavam. Chegava em casa e via na mesa de centro as xícaras vazias de café e as migalhas do bolo consumido. Durante o affaire de Henriqueta e Eulália foram vários os antepassados que voltaram à vida. A começar por Onofre, o Imprestável, que foi redimido de seus pecados etílicos e alçado à posição de mártir do destino. Não foi por falta de caráter, mas por excesso de adversidades, que sua vida terminou entre destilados. As duas mulheres passavam horas tentando encontrar vínculos que justificassem as longas tardes de conversa. Mas o único vínculo era aquele que abria a porta às seis e um quarto da tarde, que mantinha a cabeça baixa depois de dar boa-noite e que seguia para o quarto em silêncio.
  • Page 152de Rosas, e o Leite de Rosas por emulsão de cânfora com fubá. Numa tarde de março Henriqueta estava na sala com Eulália quando o céu da Tijuca se fechou. As chuvas tão desejadas durante o mês estavam prestes a cair, numa única hora. Henriqueta levantou-se aflita, Eulália disse para se sentar. Imagine se ia deixar a moça ir embora, em horas como aquela as ruas se transformavam em rio. Henriqueta insistiu na partida, Eulália insistiu na estada, e mesmo depois de alguns minutos de fica-não-fica as duas já sabiam que a visita ficaria.
  • Page 153a Tudo mudou naquele inverno. Antônio começou gaguejar diante de Guida, e Eulália voltou a adoecer. A pressão baixou, o açúcar subiu, e como era possível viver com o barulho inusitado de seu intestino? Eram poucos os seus dias de vida. "Aproveite o pouco tempo que me resta", ela dizia para Antônio, debaixo de seu cobertor.
  • Page 154Guida era afetada por gostar de ser a mais bonita, neste mundo de todos nós. Era uma adversária à altura do amargor de Eulália. Pois se essa Guida está pensando que vai ter com o meu Antônio algo mais que passeios de mãos dadas está muito enganada, era o que Eulália dizia, o dia todo. Antônio nunca vai me deixar, ele nunca vai deixar este apartamento, Eulália repetia para si.
  • Page 155expandindo tanto, mas tanto, que seu Antônio às vezes se esquecia de Eurídice quando olhava para os dentinhos separados. Os momentos de amnésia foram se intensificando à medida que Guida mostrava a Antônio o verdadeiro sentido da vida, que ele descobriu estar ligado à abertura dos ganchos de um sutiã. Junto daqueles peitos e daquelas pernas, e daquela bunda seu Antônio se esquecia de Eurídice, se esquecia da mãe, se esquecia das coceiras. E quando Guida voltou a usar palavras práticas, como compromisso, seu Antônio desconversou e ela negou o acesso a partes do seu corpo já antes desfrutadas. O homem ficou maluco. Esqueceu-se de ainda mais coisas, como das consequências terríveis de pedir a amada em casamento. Soltou as palavras num borbotão, sentindo- se em seguida arrependido e aliviado.
  • Page 156Era verdade. Marcos estava por trás das cortinas, e permaneceu ali enquanto Guida recebia do porteiro a notícia de que ele não tinha voltado para a casa dos pais. Quando a moça deu meia-volta rumo ao ponto do bonde Marcos afastou a cortina. Teve a impressão de ver Guida um pouco curvada, e por alguns segundos pensou em correr para protegê-la. Os segundos passaram, e Marcos foi tomar um café. Se ele retornou para a mansão de Botafogo era para a mansão de Botafogo que Guida deveria endereçar a carta com o pedido de desquite. Pensou muito no que escrever, mas toda vez que alguma ideia lhe parecia boa na cabeça perdia o sentido quando chegava ao papel. Decidiu escrever apenas o necessário, "Quero assinar os papéis do desquite". Era o que saberia escrever, e era o que precisava ser dito.
  • Page 157Quando Marcos pegou a caneta ela ainda continha o calor da mão de Guida. Seu nome saiu tremido. Depois do desquite Marcos foi morar no apartamento da prima. Era uma cobertura em Copacabana com grades art nouveau, que davam no moço a sensação de estar numa prisão. Talvez tenham sido os hormônios, talvez tenham sido os nervos, talvez tenham sido as novas responsabilidades da vida a dois. O fato é que Maria Ester mudou muito depois da união. Deixou o bigode crescer, passou a arrotar grosso e ficava sentada que nem um buda entre almofadas, dando ordens para a empregada e para o marido. O único consolo de Marcos era saber que desfrutava de liberdade condicional. Seu pai arranjou-lhe um emprego no governo, em que nada acontecia. Passava suas horas livres num escritório na praça da República, olhando para um caderno pautado e sublinhando com força as linhas de um jogo da velha. Pensava de vez em quando no filho que nunca veria, calculava a sua idade e não sabia se fazia as contas para imaginar o filho adolescente, ou o tempo longe de Guida.
  • Page 158verdade para Antônio. Sim, ela tinha sido uma criança louca e inconsequente: tinha fugido de casa na mais tenra idade, para se casar com aquele que se vendeu como um grande provedor. Esse grande provedor não passava de um oportunista, abandonando Guida com o filho ainda no ventre, deixando um rastro de destruição que se iniciou no coração da moça e se estendeu por todos os confortos materiais furtados do cotidiano da jovem mãe e de seu terno filho. Ela teve que sustentar sozinha a nova família, e foi assim que se tornou a caixa de um armarinho no Rio Comprido, de propriedade de uma senhora turca, chamada d. Amira. Guida levantou os olhos e encarou o namorado.
  • Page 159Em maio daquele ano Antônio e Guida anunciaram ao bairro da Tijuca que iriam se casar. Fariam as bodas em Portugal, de acordo com o desejo da avó de Guida. Parece que essa avó era uma senhora muito religiosa, que se ajoelhou por meses até esfolar os joelhos, enquanto pedia à Virgem um segundo marido para a neta, tão bom quanto o primeiro. Agora que o pedido se realizava era necessário consumar o casamento na cidade de Fátima, de quem a avó era devota. A viagem a Portugal sofreu uma série de modificações, não divulgadas por Antônio e Guida. Trocaram a Europa por Campos do Jordão, e a cerimônia na igreja por duas semanas no Hotel Vila Inglesa. Mal saíram do quarto, não tiveram que se preocupar com o possível encontro com conhecidos.
  • Page 16012. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu primeiro. Estes foram fatos que se misturaram no tempo e no espaço, e depois se diluíram na memória dos participantes. Uma testemunha vai dizer que foi assim, outra vai dizer que foi assado, e o único consenso possível é o que diz que o passado, de fato, aconteceu.
  • Page 161apresentou correntes inversas, desde os tempos da memorização da tabuada. Foi mais ou menos por essa época que Antenor trocou os empréstimos da verdade pela completa aquisição da mesma. Os melhores sapatos eram os da Casa Aguiar, rádio GE era melhor que Emerson. Pomada Minancora servia para tudo, Leite de Rosas não servia para nada. Não importa o que outra pessoa falasse, aquilo se tornava um zum-zum-zum interrompido por Antenor, que dizia, "Não me interrompa, não me interrompa! Rádio GE é melhor porque é". Afonso era excelente estudante, Antenor sabia. Quem estavam erradas eram as notas do boletim. Cecília era moça exemplar, que apareceu com o batom borrado porque a amiguinha esbarrou em seu rosto. E Eurídice era uma mulher realizada e desprovida de preocupações, graças a ele, Antenor, que nunca deixou a pá dos potes de mantimento tocar o plástico do fundo. Sempre houve fartura, sempre haveria estabilidade, e por isso sua mulher era feliz.
  • Page 162outros lugares, e quando Antenor chegava ela disfarçava ainda mais, que não queria dar satisfações ao marido. Talvez tenha sido a constância. Anos e anos sentando- se no mesmo lugar, encarando o vazio na forma de estante. Ou talvez tenha sido porque tinha que ser. O fato é que nessa nova temporada de olhares perdidos Eurídice começou se sentir diferente. Era uma sensação bastante leve no começo, quase como uma cosquinha. Percebeu que a sensação só aparecia quando ela estava sentada no mesmo lugar, olhando para o mesmo ponto.
  • Page 163Dessa vez Eurídice colocou um de seus vestidos de sair para ir ao Centro comprar uma máquina de escrever. De volta à casa ela abriu espaço na mesa do escritório que até então tinha sido de Antenor. Mandou Das Dores encontrar outro lugar para as apostilas de contabilidade que ele teimava em guardar desde os dezoito anos. Colocou sobre a mesa a máquina de escrever Olivetti e ficou procurando as letras pelo resto da tarde. Tec tec tec era um barulho bom de se ouvir, Das Dores pensou. Enquanto o barulho existisse ninguém na casa estaria olhando para a estante de livros. Tec tec tec foi o som daqueles tempos. No começo eles eram um pouco lentos, tipo um tec aqui e outro ali. Depois se transformaram num único e constante som, um tectectectectectec que preenchia a tarde inteira, e era tão intenso que deixou de ser percebido como ruído.
  • Page 164vassoura nas crianças era nas garrafas do bar de Antenor que se aliviava. Evitava o Ballantines porque sabia que o patrão continuava consumindo a bebida nas Noites de Choro e Uísque ― e se aventurava por licores que ficavam ali como totens. Quando a bebida na garrafa baixava muito era completada com água e açúcar, e a vida seguia mais leve. Assim que Eurídice ouvia a porta de casa abrir com os filhos voltando da escola tirava da máquina a folha escrita, para trancá-la com as outras na gaveta da escrivaninha. la então para a sala, perguntar aos filhos como tinha sido o dia.
  • Page 165aventura, e quem era ela para começar a escrever assim. Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa, ou que era hora de acordar para a escola. Seus projetos estavam confinados ao universo daquela casa. Ou quiçá do bairro, se o projeto em questão envolvesse fazer sanduíches de queijo para as vizinhas nos dias das festas de aniversário. Eurídice não ligou. O não ligar fazia parte da nova fase. Passava seus dias trancada no escritório, e se não havia tectecs na máquina era porque havia livros abertos, com a cabeça de Eurídice sobre eles. De vez em quando Das Dores escutava alguém falar e saía da cozinha para saber se a visita queria um cafezinho. Chegava na sala e descobria Eurídice falando sozinha, por trás da porta do escritório. Das Dores dava um suspiro e voltava de pés esparramados para a cozinha.
  • Page 166Chico e Eulália (esta última só aparecia quando não estava doente, e ela nunca estava doente quando Eurídice fazia bacalhoada), Chico sumia no escritório com a tia. Ninguém escutava muito a conversa, porque era feita a portas fechadas, e porque não interessava a ninguém. O que incomodava nessa nova fase de Eurídice era of olhar: ele agora parecia entrar por dentro das pessoas, como se fosse roubar seus segredos. Mas desde que a rotina de casa fosse mantida, desde que Afonso tivesse os cabelos cortados e o uniforme limpo, desde que Cecília mantivesse a saia na altura correta e não risse alto por aí, desde que os chinelos de Antenor e as almofadas do sofá estivessem no lugar correto, Eurídice podia ter o olhar que bem entendesse.
  • “Quê?”"Aconteceu comigo também. O lençol não ficou manchado, mas o Marcos não ligou." Parou um instante, olhou para a frente. "A gente estava muito apaixonado naqueles anos." Eurídice olhou a irmã como se olhasse para um livro interessante. Depois foi guardar os talheres na gaveta.
  • Page 168continuar cumprimentando a Sílvia depois do desquite. Não quis participar do Conselho Tijucano contral Comunismo, formado por d. laiá. Eurídice recusou o convite para tesoureira do comitê filantrópico do Américal Futebol Clube, empenhado em erradicar a miséria no mundo através da produção de sapatinhos de crochê para os pés descalços dos mulatinhos do Borel. Certa vez d. Efigênia perguntou a Eurídice o que levava naquela sacola da Livraria da Vinci, e Eurídice teve o atrevimento de responder que eram as obras completas de Shakespeare e um dicionário Oxford, porque ela achava que Shakespeare deveria ser lido no original.
  • Page 169Sim, eles estavam de mudança, Zélia disse. E para onde iam? Zélia disfarçou como pôde a cara de decepção.
  • Page 170uma banana, embora jure que estava só usando a mão esquerda para jogar um papel de bala pela janela. Ipanema, ela logo descobriria, também tinha seus ornitorrincos. Mas era um novo bairro e era uma nova Eurídice, e isso, ela sabia, fazia toda a diferença.
  • Page 17113. Depois do casamento Guida enfrentou mais um desafio: os momentos de ócio da sogra. Esses momentos eram compostos por todos os segundos de todos os minutos de todas as horas do dia, usados tão somente para infernizar a vida de Guida. D. Eulália não se conformava com o rompante de iniciativa que acometeu Antônio, o seu Antônio, um menino que por meio século tinha sido tão bom. O casamento com Guida foi um golpe que debilitou sua saúde, ao mesmo tempo em que a tornou imortal. Eulália prometeu a si mesma que, para Antônio e Guida permanecerem juntos teriam que passar por cima do seu cadáver, e morrer nunca esteve em seus planos.
  • Page 172era o jeito de passar e de dobrar as roupas. A forma de arrumar os alimentos na geladeira e a camada invisível da poeira que não tirava. Guida então recorreu a Deus. A moça acendia uma vela a cada sete dias no banheiro do apartamento e rezava pedindo uma solução para Jesus Cristo Nosso Senhor, para São Sebastião do Rio de Janeiro, para Santo Expedito das Causas Urgentes, para Santa Rita dos Casos Desesperados, enquanto d. Eulália esmurrava a porta do banheiro, dizendo que a nora tinha que sair naquele instante, porque ela estava com uma infecção urinária e não podia passar cinco minutos longe do vaso.
  • Page 173receber tratamento especializado capacitados? de profissionais
  • Page 174frente para a TV, chupando balinhas de coco. Reclamaria da falta de luz, "por que raios a Guida fechou a janela?", do barulho dos bifes na frigideira e da almofada preferida que se encontrava tão longe, na outra ponta do sofá. Almoçava ao meio-dia, junto com onze comprimidos. D. Eulália reclamava da sobremesa "Gelatina, de novo? Dê-me um doce de verdade, que meu tempo é curto. Pudim, numa terça? Você quer que eu morra de diabetes?". À tarde d. Eulália intercalava os programas de TV com longas estadas à janela, chupando balinhas de coco. Só saía do posto para ir ao banheiro. "Como fede este banheiro, Guida. O que você está usando para limpar, seus pensamentos?" Jantava às seis, junto com nove comprimidos e críticas ao tempero da carne.
  • Page 175a sogra ficaria feliz, e sabendo que poderia, quem sabe, talvez, morrer entalada por uma. D. Eulália nem criticou as balinhas que agora Guida fazia todas as manhãs. A velha parecia um cocker spaniel, olhando para a nora com olhos de quero mais. Se dentadura tivesse cáries, a de d. Eulália estaria preta. Ela passava o dia in-tei-ro estalando o céu da boca. Stac, stac. Stac, stac. Stac, stac. Quando um pedaço maior ficava preso entre os dentes ela enfiava o indicador para tirar. Quando o pedaço preso era muito grande a dentadura se deslocava, e Eulália arrumava os dentes, com um barulho de crect. Stac, stac. Stac, stac. Crect. Stac, stac. Stac, stac. Crect. Stac, stac. Stac, stac. Crect.
  • Page 176se chacoalhou e correu até a sala e sim, aquilo que ela queria e não queria pensar que podia acontecer estava, de fato, acontecendo. Os porta-retratos da mesa estavam no chão e d. Eulália estava de de olhos arregalados, entalada com uma bala puxa-puxa. acontecendo.
  • Page 177certeza de que não conseguiria trabalho. Nenhuma família anunciou uma viagem ao exterior por parte do homem da casa, sendo o trajeto ao exterior aquele feito até o Hotel dos Descasados, em Santa Teresa. Zélia começou com uma mania de tirar as pelezinhas entre os dedos e a unha, de tão entediada que estava. Foi quando ela soube de uma história que era, talvez, A Melhor do Ano, quiçá da década. A convite da prima, ela foi na quermesse da igreja de São Joaquim, e nessa quermesse conversou com uma amiga da prima casada com um relojoeiro. Esse relojoeiro tinha uma cliente que morava na Muda, e essa cliente tinha uma meia-irmã, que tinha por sua vez uma outra meia-irmã, que contou para ela a história que ouviu de uma comadre, sobre uma vizinha dela no Estácio que tinha desaparecido da noite para o dia. O que fez a história dessa mulher passar por tantas bocas foi o fato de ser ela tão bonita quanto atrevida. Era mãe solteira, que negava seus favores a homens necessitados, e morava com uma ex-prostituta sabe-se lá o que faziam juntas na mesma casa. Dizem que a ex-prostituta morreu de forma hedionda, talvez para ter que pagar os próprios pecados, e que a mãe solteira era um pouco relaxada nos cuidados com o filho, pois o menino ficou muito doente. Parece que essa mãe solteira prestava favores para o dono da farmácia local, e que seu sumiço estava relacionado com a internação do homem após o consumo excessivo de Lacto-Purga que, segundo consta, estava escondido num bolo de chocolate, ou numas broas de milho, ou num pudim de claras, que a tal mulher levou para ele num dos encontros de pecado. Até hoje o dono da farmácia cerra os punhos ao se lembrar da mulher, que se chamava Guida Gusmão.
  • Page 178de Antenor. Precisava informar a verdade às partes interessadas o mais breve possível. Zélia pôs-se a trabalhar na divulgação, mas mesmo depois de uma semana a notícia não conseguiu chegar ao alvo principal, que eram Guida e Antônio. Depois da morte de Eulália o novo núcleo familiar não queria saber de atividades sociais. Financiado pela mãe, Chico descobria os prazeres do cinema, enquanto Antônio descobria os prazeres do casamento.
  • "Mas seu Antônio, não foi essa a intenção...""Ponha-se já para fora da minha loja." Naquela noite Antônio contou para Guida a história que ouviu de Zélia. Ele cuspia salivas, arregalava olhos e se indignava com a maldade no mundo.
  • Page 18014. Aquela foi a primeira manhã em quarenta anos que a quitanda da rua Almirante Alexandrino não abriu as portas. Do lado de dentro estava seu Manuel, jogado no chão e rodeado pelas laranjas em que tentou se apoiar quando sentiu os primeiros sinais de um Avc. O derrame tirou-lhe os movimentos do lado direito do corpo e o deixou com um rosto ainda mais rabugento do que aquele que tinha depois da morte da mulher.
  • Page 181ensinou o que era um coração, explicando o som que ela ouvia em seu peito, quando se recostava ali para dormir. Pai e filha sempre foram como imagens refletidas no espelho. Ele grunhia, ela grunhia. Ele ficava mal- humorado, ela ficava mal-humorada. Ele achava que sabia tudo, e isso era ela que achava.
  • Page 182naquilo, e se fosse necessário ele poderia indicar um elixir para os nervos. Quando voltou à quitanda Manuel perguntou como tinha sido a consulta.
  • Page 183lembranças. "Não se preocupe, a gente vai se acertar", prometeu para Eurídice. Mudar-se para Santa Teresa seria bom para Guida, Antônio e Chico. Naquele ano as vendas na papelaria diminuíram, o que Antônio atribuiu à abertura de uma Casa Mattos na rua Conde de Bonfim, e Guida atribuiu ao incidente entre Zélia e Antônio. O negócio foi posto à venda, o dinheiro investido em um terreno em Laranjeiras, e os três se instalaram no apartamento em cima da quitanda, junto com seu Manuel.
  • Page 184história na puc. Ela era a aluna mais vibrante do primeiro ano, a aluna ligeiramente vibrante do segundo, a interessada no terceiro, e a cética no quarto. Continuava escrevendo muito, e foi com Chico em algumas das passeatas estudantis que aconteceram depois de 64. A família se encontrava aos domingos para almoçar na casa de Eurídice. Seu Manuel sentava-se em um sofá perto da janela. Olhava o Atlântico por horas, talvez em busca das almas perdidas em correntes elétricas, talvez pensando na sua Ana, talvez só olhando a bunda daquela morena, e como é que pode se vestir com uma roupa assim tão curta, este mundo já foi melhor. Cecília participava dos encontros um pouco avoada, ouvindo menos as conversas e mais os toques do telefone. Podia ser uma amiga convidando-a para o cinema ou - no caso de ter ido a alguma festinha no sábado - pensando que podia ser ele, ai meu Deus, podia ser ele. Afonso continuava guardando a maioria das palavras para si. Almoçava calado e tinha como hobby terminar com as namoradas depois de levá-las para um último encontro na avenida Niemeyer. Antônio estava sempre feliz, olhando para Guida, ou para Eurídice. Chico lia, comia, falava com Eurídice e ia embora. Antenor se tornou essa coisa ainda mais antenoriense. Cheio de si, seguro de tudo, incapaz de erros, e ai de quem lhe dissesse que falhou em algum momento se todos falhassem como ele o Brasil seria uma potência.
  • Page 185geladeira. Pagaram-lhe os benefícios, deram por fora uns tantos cruzeiros e Das Dores sumiu no mundo, tão quietinha como sempre viveu na casa de seus patrões. Depois do Golpe de 64 Eurídice passou a escrever com mais raiva, o que se pode deduzir pela intensidade dos tectecs na máquina. Mandou alguns textos para o Jornal do Brasil, que nunca foram publicados. Alguns anos depois, quando um novo jornal chamado O Pasquim foi lançado, ela também tentou contribuir, mas nunca obteve retorno.
  • Nota da autoraNão se sabe se os escritos de Eurídice receberão algum dia a devida atenção. Talvez, após a morte da autora, quando Cecília estiver arrumando sozinha o escritório de Eurídice (porque Antenor estará chorando uma represa de lágrimas, acumuladas desde o dia em que viu o corpo de Maria Rita), ela tenha um tempinho de folhear os papéis da gaveta. Ou talvez Chico, para quem Afonso e Cecília darão a tarefa de organizar o escritório, e a permissão de ficar com os livros que lhe interessassem, por ser tão ligado à tia.
  • Page 187invisibilidade, e tiver a sabedoria de ler aquelas páginas, entenderá que é um livro importante demais para pertencer a apenas uma biblioteca.
  • Page 188MARTHA BATALHA nasceu em Recife em 1973, mas cresceu na Tijuca, no Rio de Janeiro. Formou-se em jornalismo com mestrado em literatura pela PUC-Rio, trabalhou nos jornais O Dia, O Globo e Extra e criou a editora Desiderata, hoje parte da Ediouro. Mudou-se para Nova York em 2008, onde completou o mestrado em Publishing da New York University e recebeu a maior distinção do curso, a Oscar Dystel Fellowship. Deixou o mercado editorial americano para se tornar escritora. Feito raro para um livro de estreia, A vida invisível de Eurídice Gusmão já teve os direitos vendidos para o cinema e para mais de dez editoras estrangeiras. JORGE LUNA
  • Copyright © 2016 by Martha BatalhaGrafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009. Capa
  • SumárioCapa Rosto Dedicatória
  • CIDADE EM CHAMASGARTH RISK HALLBERG COMPANHIA DUAS LEILAS
  • Cidade em chamasHallberg, Garth Risk 9788543805627
  • Page 193"Cidade em chamas" é um romance inesquecível sobre amor, traição e perdão, sobre arte, rock e o que significa a verdade. Sobre pessoas que precisam umas das outras para sobreviver. E sobre o que faz a vida valer a pena. Compre agora e leia
  • O LIVRODAS CRISES COMPANHIA DAS Letras
  • Tá todo mundo malJout Jout 9788543805863
  • GEORGESSIMENON O enforcado de Saint-Pholien
  • O enforcado de Saint-PholienSimenon, Georges 9788580869934
  • Page 198eventos que levaram o homem à decisão extrema de se matar. Compre agora e leia
  • AFONSO CRUZFLO RES ROMANCE
  • FloresCruz, Afonso 9788543805856
  • JOSÉ SARAMAGOCADERNOS DE LANZAROTE II PREMIO
  • Saramago, José9788543801995 504 páginas
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seus livros autografados por Graciliano Ramos, e paral dizer a Cecília que Angústia era muito mais triste.

Aquela era uma mulher comportada, do jeito que Antenor queria. Uma mulher dedicada à casa e às crianças, e que agora se deitava na mesma hora que ele, e não se levantava mais cedo para se entreter com a máquina de costura. Uma mulher que permanecia calada ao seu lado enquanto ele assistia à TV, e que lhe oferecia a testa olhando ligeiramente para baixo, quando ele saía ou chegava do trabalho. Era tudo o que Antenor sempre quis.

Sim, era tudo o que ele sempre quis.

Será?

Não, não era. Ele não queria uma Eurídice assim. Vendo a mulher num contínuo estado de tanto faz Antenor entendeu que aquilo que achava que queria talvez não fosse aquilo que achava que queria. Mas então o que ele queria? Tentou encontrar a resposta numa noite de insônia. Mas insônias não combinavam com o expediente do banco, por isso deixou de se perguntar. Antenor não sabia o que queria, mas sabia que não queria saber. O que sabia é que pela primeira vez no casamento havia um problema maior do que o incidente da noite de núpcias.

Apesar de tudo, ou apesar do nada que a vida de Eurídice se tornou, Antenor era, de fato, um bom marido. Filho de um funcionário público com uma poeta que nunca publicou um livro, Antenor cresceu numa casa de poucas refeições e muita sujeira. A única coisa estruturada naquela família eram os dísticos e tercetos recitados pela mãe. O beijo que é glória e tormento, a alma que subiu ao firmamento, as juras e carícias de um blasfemo. O coração que sofre exasperado, o afeto que é simples e sagrado, o homem que precisa ser amado e ter