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Renato Cascão & Sammy Maluco: Uma dupla do balacobaco

By Sammis Reachers

Nesta obra, memória e humor se entrelaçam para narrar divertidíssimas histórias da infância de dois jovens criados num subúrbio de São Gonçalo (município da região metropolitana do Rio de Janeiro), no

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Published
Oct 12, 2025
Pages
116
Language
English

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  • Sammis ReachersRenato Cascão & Sammy Maluco
  • Page 2LIVRO GRATUITO
  • Sammis ReachersRenato Cascão & Sammy Maluco Uma dupla do balacobaco
  • Copyright ©2021 Sammis ReachersIlustrações de Franciliudo G. Freitas - Studio Lin Ilustra Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
  • Page 5"“É melhor escrever sobre o riso do que sobre a lágrima. Porque o riso é próprio do homem." Rabelais
  • SumárioApresentação......... Capítulo 1: Situando os quiprocós
  • IntroduçãoEste pequeno volume reúne algumas memórias de minha infância, transcorrida entre meados da década de 80 e inícios da década de 90 do século passado. Não faz assim tanto tempo, mas ainda era numa época em que as crianças, então não feridas pelas virtualidades da web ou enjauladas pelo risco da violência lá fora, brincavam de fato e de direito. E era um brincar na acepção plena do termo, na configuração máxima das 24 horas do dia, onde os pequerruchos exploravam o seu geralmente vasto espaço vital à exaustão. Claro, nem tudo eram flores; a pobreza exercia o seu duro reinado, e aprendendo a driblá-la levávamos a vida - uma vida sofrida, transida de malandragem e inocência, mas, atropelando os pesares, profundamente feliz. Afinal, o chão da memória é apagar o grosso das sofrências, ou romantizar pela nublagem o rude dos amargos momentos.
  • Page 9adultos os ignoram e o céu os protege. Um menino é a verdade de cara suja, a sabedoria de cabelo esgadelhado, a esperança de calças caindo. Tem o apetite do cavalo, a digestão do avestruz, a energia da bomba atômica, a curiosidade do mico, os pulmões de um ditador, a imaginação de Júlio Verne, a timidez da violeta, a audácia da mola, o entusiasmo do buscapé e tem cinco polidáctilos em cada mão, quando pratica suas reinações. Adora os doces, os canivetes, as serras, o Natal e a Páscoa; admira os reis e os livros de figuras coloridas; gosta do guri do vizinho, do ar livre, da água, dos animais grandes, do papai, dos automóveis e dos trens, dos domingos, das bombas e traques. Abomina as visitas, o catecismo, a escola, os livros sem figuras, as lições de música, as gravatas, os casacos, os barbeiros, as meninas, os adultos e a hora de dormir. Levanta cedo e está sempre atrasado à hora das refeições. Nos seus bolsos há sempre um canivete enferrujado, uma fruta verde mordida, um pedaço de barbante, dois botões e algumas bolinhas de gude, um estilingue, um pedaço de substância desconhecida e um objeto raro, que lhe é precioso por 24 horas. É uma criatura mágica. Você pode fechar-lhe a porta do seu quarto de ferramentas, mas não a do seu coração... Pode expulsá-lo do seu escritório, mas não do seu pensamento. Toda a sua importância e a sua autoridade se desmoronam diante dele, que é o seu carcereiro, seu chefe, seu amo... Ele, um despótico e ruidoso mandãozinho!... Mas quando você volta para casa, à noite, de esperanças e ambições
  • Page 10despedaçadas, ele pode compô-las num instante com as suas palavrinhas mágicas: "OH! - MAMÃE!". É de se imaginar que as travessuras aqui narradas tenham como personagens principais esses dois aí do título: Meu amigo de infância, Renato "Cascão", eo Sammy "Maluco", este pacato alucinado que vos escreve. Mas não apenas eles ou nós: Outros atores desta ópera- bufa que é a vida numa periferia se fazem presentes, emprestando suas histórias para, queira Deus, trazer um pouco de alegria e diversão a você, amigo leitor.
  • Capítulo 1Situando os quiprocós Toponímia é aquela área de estudo que se ocupa dos nomes próprios de lugares. Iniciemos este relato esclarecendo alguns embaraços toponímicos, sem os quais o leitor talvez não consiga se situar no teatro dos eventos. A região aqui em geral referida pertence "legalmente" ao bairro de Tribobó; sim, o bairro com um dos nomes mais divertidos ou ridículos do Brasil. Situado no município fluminense de São Gonçalo, o extenso Tribobó é composto pelo que se chama de sub-bairros, que, oficiais ou não, são pequenas repartições ou regionalizações adotadas principalmente pelos moradores desses lugares.
  • Page 12Boa parte de minha infância e primeira adolescência foi passada na favelinha Beira do Rio ou Beira Rio, pequeno bocado de chão do já pequeno Jardim Nazaré. Ela recebe esse nome, você já pode imaginar, por margear trecho de um rio neste caso, o Rio Alcântara, que nasce no município niteroiense de Pendotiba, alguns quilômetros acima de nosso ponto, e percorre quase meia São Gonçalo (mudando de quando em quando ou de trecho em trecho de nome, como um fugitivo) em sua peregrinação soturna em busca da Baía de Guanabara. Morando numa rua de acesso à movimentada Beira Rio, sua influência, como um ímã, não poderia me deixar escapar, estando eu a tão poucos metros de sua fervura. Muitas aventuras foram vividas ali - ou não exatamente nela, mas em andanças a partir dela - andanças em que eu e os companheiros de ocasião percorríamos quilômetros que, hoje, me defenestrariam as pernas, caso eu tentasse encará-los.
  • Page 13que eu era. As lições de "malandragem" eram aplicadas diariamente, sem muita cerimônia. Uma de nossas maiores ocupações era, quase que todos os dias, catar ferro-velho - reciclagem, cobre, alumínio, garrafas e até ferro, ferro depois abandonado pois o lucro não compensava o sacrifício de, franzinos moleques que éramos, carregar todo aquele peso.
  • Page 14eu que depois aprendi a amá-las! Quando podia, removia cautelosamente a planta e sua touceira de terra da panela, depositando a touceira gentilmente a um canto. Quem sabe a madame não conseguisse um outro vaso para reacondicioná-la? Esses pequenos furtos também foram uma severa escola - em geral, nos quintais mais "arriscados", eu, mais lerdo e ainda por cima mais "visível" pela minha pele amarelona, ficava de vigia, enquanto Renato lá ia tentar aliviar... LIXO, mas era roubo pois o "lixo" tinha dono, e trazia na corcunda seu risco.
  • Capítulo 2Um assalto à horta do hospício Iniciemos nosso controverso elenco de encrencas pelo surrupio de gêneros alimentícios, pois quem tem fome tem pressa, asseverava o grande benemérito Betinho.
  • Page 16moleque destemido que rastejava qual um perfeito milico, como se tivesse recebido algum treinamento militar. E, de mais a mais, apenas os pacientes - todos doentes mentais acometidos das mais diferentes patologias - ficavam tomando sol num dos calçadões da parte do hospital que dava para a horta. Não teriam mente, olhos, interesse ou consciência para nos notar. Bem, assim pensávamos. Quando o moleque esperto estava já na borda da horta, arrancando pés de alface e couve que estavam à mão, não é que um dos "loucos" que de louco devia ter muito pouco deu o alarme? E os demais que com ele estavam principiaram a berrar, num coro alucinado: "Pega ladrão! "Per-rega ladrão! Perrr-rega ladrão!"
  • Page 18Gonçalo e que separava a "nossa área" da micro região que chamávamos apenas de "morro" - na verdade um enorme trecho composto por um encadeado de montes, onde a mata de cerrado e chaparral se intercalava com bolsões de Mata Atlântica, micro região no meio da qual estava justamente o tal Hospital. Corremos como desvairados, mas o tinhoso do Renato, ou Nato para os íntimos, não largou nenhum dos muitos pés de alface que confiscara... Era um signatário da velha máxima brasileira: "Vergonha é roubar e não conseguir carregar".
  • Capítulo 3Sexto Sentido Isso me leva a recordar de outros episódios, agora divertidos, pelos quais passei. Eu ainda não relatei, mas Renato possuía algo que perturbava minha mente que, embora infantil, era leitora de enciclopédias e já manifestava a tendência racional-científica que fundou a frio nosso mundo tecno-científico e a tudo manieta, retifica e constrange. Esse algo era o que se costuma chamar de "sexto sentido". Sim, aquele rapazinho que jamais entrara numa escola (não havia lei, ou a lei não tinha força que obrigasse a mãe dele, Bebete, a matriculá- lo), possuía um sinistro sexto sentido que o avisava, geralmente com apenas alguns segundos de vantagem, de que algo de ruim estava prestes a acontecer; que a jangada pirata iria naufragar, a aventura do momento estava em vias de dar errado.
  • Page 20moravam muitos homens eram os tios dela, todos solteiros e ainda albergados em roda da saia da matrona. Pois bem, lá estávamos nós, acocorados no mato em frente daquela casinha de telhas francesas e sem cercas. A rua estava deserta, pois o bairro naqueles tempos era menos povoado e a hora já ia avançando noite adentro; podíamos divisar, dentro da casa de janelas de madeira abertas, o trânsito dos moradores, inclusive da princesinha de ébano. Eu olhava para a rua de quando em quando, pois nossa atitude, embora de intenções inocentes, era também suspeita. Foi quando Renato, fulminado por seja lá que tição do céu ou do inferno, entregou o oráculo: "Tô com a sensação de que vai acontecer alguma merda...". "Que nada, a rua tá deserta e nós não estamos fazendo nada", respondi. Um breve momento de indefinição foi suspenso pela aparição, ex nihilo, sim, direto do nada, de um dos tios da menina, bem na nossa frente. Como aquilo se deu? E era justamente Elias, o mais "brabo" dos moradores da casa. Renato foi apanhado pelo braço, e tomou uma salva de cascudos. Eu também levei o meu e me dei por satisfeito - bem, em geral eu ficava para trás e arcava com as consequências sozinho. As explicações sobre os puros sentimentos do jovem Romeu, ao invés de tocarem o coração de Elias, tiveram o resultado oposto, enfurecendo ainda mais o valentão. Se tivéssemos corrido quando o oráculo deu o alarme...
  • Page 21partimos para nossas casas, contrariados por mais uma injustiça da vida. Renato jurava "vingança" quando crescesse. Quanto a mim, bem, em boa parte de minha infância, receber um cascudo era como receber um bom dia.
  • Capítulo 4Sobre paus, pedras e sopapos Parte do lecionário dos meninos, numa comunidade pequena mas algo hostil como aquela, assim como acontece e aconteceu em quase todo o mundo e ao longo de toda a divertida história humana, era dedicado ao combate corpo a corpo.
  • Page 23Desses meus doutrinadores de rua, novamente Renato foi o primeiro e o maior deles: vez por outra eu era espancado, para recalibrar meu entendimento da hierarquia que rege o cosmos. Brigávamos num dia e, no dia seguinte, lá estava ele no portão de minha casa, gritando: "Ô Sâmi! Sâââ-mêêê!!! Ô Sâââmiii!!! Bora catar ferro-velho!" E lá ia eu, despudorado, mais perdoador que o futuro cristão que eu haveria de ser. Mas nem tudo eram murros colecionados. Enquanto não aprendia a utilizar os punhos, desenvolvi um mecanismo de defesa, dissuasão ou vingança que acabou se tornando "lendário" nas cercanias: virei franco-atirador. Funcionava mais ou menos assim: Você, mais forte do que eu, me aplicava uma pancada, me constrangia com alguma ameaça, ou mesmo me lançava alguns desaforos e impropérios numa dose acima do que eu estava disposto a metabolizar. Ato contínuo eu, sempre num sinistro e sintomático silêncio, me recolhia à minha insignificância pugilista e existencial, dava vinte passos, sempre lentos, quase tristes. Cabeça baixa, expressão contrita, era só um garotinho fracote recolhendo-se à convalescença aconchegante no lar.
  • Page 24Foram tantas as pedras despachadas (eram tempos conflagrados!) que adquiri alguma especialização, e aquilo passou a ser temido na rua. Eu sou um tipo esquisito ou incompleto de ambidestro: escrevo com a direita, mas uso a mão esquerda para atirar objetos. Lenda reza que minha mãe, a melhor mãe do mundo mas acabrunhada pela educação de roça das profundas Minas Gerais, ao perceber minha tendência inicial para a canhotice, vendo que eu rabiscava com a pata sinistra ao invés da destra, forçou a barra para que eu me corrigisse, que aquilo de escrever com a esquerda era coisa do capiroto. Ah, Minas Gerais, misto de poesia e sensaboria, que tantas fábulas pariu!!!
  • Capítulo 5A fundação do MMA numa comuna gonçalense Demorou bastante para que eu aprendesse a devolver com mínima perícia os golpes que levava. Nesse curso fui ajudado por algo em que nosso bairro foi o pioneiro. Sim, se hoje somos o país do MMA, as Mixed Martial Arts (Artes Marciais Mistas), naquelas alturas ou profundezas da década de oitenta os Gracies talvez ainda nem sonhassem em criar esta modalidade.
  • Page 26Amigos, ao poder da pá, da enxada e da chibanca, não apenas a areia era o recurso natural explorado pela comunidade. A areola, com sua fina textura marrom, utilizada em emboços, na massa para assentar tijolos e também como terra para plantas, era outro recurso lucrativo, esse escavado dos muitos terrenos baldios. Acontece que um empreendedor, um inovador desconhecido do bairro, teve a suprema ideia de matar dois coelhos com uma só bordoada. Ou pazada, ou enxadada que seja.
  • Page 27do fluxo de água da enchente. Assim, ao baixarem as águas barrentas, somente a areia fina fora "capturada". Aquele lugar era amplo, mas insuficiente para o jogo de futebol, a famosa pelada - e para isso a comunidade já contava com um campinho mais acima do morro. E as areias eram muitas. Assim, uma solução foi encontrada: O areal passou a ser campo de honra - não, não um cemitério mas campo onde as honras entravam em disputa. E assim as briguinhas entre as crianças passaram a ser resolvidas ali do outro lado do rio (na margem contrária donde havia moradias), longe da vista ou ao menos da ação dos pais.
  • Page 28formava - a ferro, fogo e lágrimas empapadas com areia - seus campeões. 28
  • Capítulo 6Meganha, raça do cão Uma das aventuras mais divertidas - hoje é tudo muito divertido que passei em minha vida de coletor de reciclagem com Renato foi assim: Num belo e ensolarado dia, enquanto transitava sozinho por um trecho da RJ 106 um pouco distante de nossas casas, já no final do bairro Arsenal, Renato viu, desperdiçado ao fundo de um riacho ou valão que cortava a rodovia, um eixo de automóvel. Sim, cinquenta ou mais quilos de ferro estavam ali, jogados fora, sem marca nem dono.
  • Page 30Chegados ao local, o diligente líder da expedição logo desceu para tentar amarrar a corda em volta do grande eixo. Agora restava a parte mais doce: Suspender todo aquele peso "no braço", numa encosta íngreme. Enquanto nós três puxávamos com tudo o que tínhamos, Renato empurrava o grande troço, que vinha lento e agarrando-se vez por outra nas ramas de mato, como quem resiste a sair de seu cemitério pacífico. Acho que nunca nenhum dos quatro fizera tanta força na vida. Conseguido o suado intento, agora era fácil: Após a pausa para respirar, bastava arrastar asfalto afora aquele pedação de ferro, até o ferro-velho. E lá fomos nós.
  • Page 31O agravante que enfurecia o meganha era Renato, que não segurava o riso durante aquele interrogatório, fato que nem eu compreendia. Os outros dois expedicionários, Andinho e Rodrigo, esvaíam-se em lágrimas, achando que seríamos presos, e imaginando a surra que levariam em suas casas. Não posso afirmar com certeza, mas talvez até eu tenha chorado... Resumo da ópera bufa: O pilantra supostamente a serviço da lei, após nos explicar que aquilo era de um carro roubado e que todas as peças possuem um registro numérico, disse que não poderíamos de maneira alguma vendê-la, e nos obrigou a arrastar o eixo novamente até o riacho, e jogá-lo ribanceira abaixo. Embaralhados em alívio e revolta, fizemos isso, enquanto o canalhinha nos observava, de frente à loja - que, passados quase trinta anos, ainda existe.
  • Capítulo 7Papita e o atoleiro Se o assunto é ferro-velho, vamos falar de outra aventura, uma aventura não feérica (fantasiosa), mas ferrada de apertos e perrengues.
  • Page 33Amigo leitor, deixe-me abrir um parêntesis: Já terá sua distinta pessoa se servido, em seus momentos de intimidade, dos papéis higiênicos e toalhas de papel Cotton, Deluxe, Klass, Coquetel? Que tal as fraldas descartáveis Looney Tunes? Eles e muitos outros bons produtos são fabricados pela empresa Carta Fabril, que até pouco tempo atrás era localizada aqui, em Tribobó City, na em sonhos linda São Gonçalo. Foi pelos matagais e terrenos baldios circunvizinhos dela que fomos nos aventurar, em busca de alumínio e cobre. Afinal, Renato passara por ali e os vira... Amigos, outro parêntesis, pois precisamos aproveitar a Literatura para isso: Naqueles tempos, num córrego que cruzava dos fundilhos desta tal empresa, era descarregado um líquido colorido, por vezes azul, por vezes verde, que se dirigia diretamente para o já citado rio Alcântara. Poluição pura, sem filtros nem firulas. Pior: Sem saber direito do que se tratava, e acostumado àquela vida de "bravuras", certa vez entrei no trecho do rio Alcântara que recebia aquela química toda, venenosidade que lhe mudava a cor daquele ponto em diante. Graças a Deus não me aconteceu nada. Bem, sabe-se lá.
  • Page 34irritado até os infernos, bradando e gesticulando como uma matrona italiana?! Papita ameaçava nos aplicar fartas cargas de cascudos, caso nada encontrássemos. Afinal, o fizéramos desabalar-se de sua paz para nos seguir na peneira em terras longinquas e inóspitas. Meus queridos, tudo que é ruim pode piorar, e aquele dia estava funestamente atípico. Realmente não havia NADA nos lixões dos terrenos baldios. Era como se algum outro catador houvesse passado por ali, momentos antes.
  • Page 36Pare um pouco para imaginar: crianças de onze anos, corpos fracos, num lugar desconhecido, presas até a cintura em lama movediça. Sem forças para sair, e pelo contrário: Quanto mais força fazíamos, parecia que mais afundávamos... Bateu a brisa do desespero, logo transfeita em vendaval. Chorei, confesso que chorei. Papita, do alto do barranco, apenas observava a cena. Por isso chorei: Pensando naquela velocidade hipersônica do medo, imaginei que ele, furioso, nos abandonaria ali, longe das vistas de qualquer pessoa, para morrermos como num maldito filme de meu herói, o também catador e ladrão de ferro-velho Indiana Jones.
  • Capítulo 8Ri por último quem ri de bolso cheio As catanças de ferro-velho abarcavam, a partir de nosso sub-bairro Jardim Nazareth ou Palha Seca (a "fronteira" entre os bairros de Tribobó e Arsenal) diversos outros bairros: No poder arcano da canela, alcançávamos Jockey Club e Anaia, Capote e Arsenal, chegando até a Rio do Ouro e Maria Paula, quando não Colubandê e Bairro Almerinda. Era muito chão!
  • Page 38que este mesmo Buraco Quente era área fiel de nossas coletas, pois havia lá um enorme lixão comunitário, instalado numa espécie de cratera. E não é que foi numa dessas andanças naquelas paragens que acabamos descobrindo em que casa moravam os tais Romeus valentões? Tempo passou, e belo dia fomos nós nos abeirando da casa deles, cuja cerca de arame farpado, já banguela, coitada, fazia lado a um terreno baldio, coberto por moitas e arbustos. Apenas batíamos aquele terreno em busca de algo, inchados de inocência, quando, lá ao fundo do tal terreno e fronteiriço à cerca da casa dos sacanas, percebemos uma enorme caixa de ferro - um desses baús de geladeiras antigas. Ao nos acercarmos com cuidado, a falha dos valentinos foi descoberta: Os trouxas deixavam, do lado DE FORA de seu quintal, um depósito de reciclagens composto apenas de alumínio, cobre, chumbo e metal, um depósito repleto. Alumínio já bem amassado, fios de cobre já descascados ou queimados, com sabor de mel.
  • Page 39consumimos nos sabores Chocolate e Flocos dos sorvetes da Kibom, nossos preferidos... O dono da padaria sorria quando entrávamos, sujos e amarrotados, mas cheios de dinheiro de nosso suado trabalho - e nossa justa & vingativa rapina!
  • Capítulo 9O sítio (mal-assombrado) de Seu Pedro Alguns dos melhores dias da infância aqui no Jardim Nazareth foram passados no Sítio do seu Pedro. O sítio era na verdade de um japonês misterioso - do qual seu Pedro era o caseiro. Ou semidono, pois o tal japonês quase nunca aparecia.
  • Page 41do ano e de que temporada/ano era aquele. Tinha momentos em que não havia ainda mangas maduras, ou sequer manga alguma, nos pés. Mas, nos melhores anos e na alta temporada, já vi aquele velho senhor negro e franzino, de fala mansa e pausada, abrir covas profundas de uns quase dois metros de profundidade por dois de largura e bem uns quatro de extensão - ou seja, suficiente para sepultar quase um elefante! - apenas para jogar mangas podres (uma tonelada? Duas? Três!?), pois não havia o que fazer com tanta manga. Nem a população do bairro dava conta. Bem, independentemente de haver mangas e outras frutas ali ou não, a molecada amava entrar no sítio e tentar peneirar alguma coisa. Por vezes a solicitação de entrada era negada, e então os mais afoitos não se faziam de rogados, adentrando no sítio por um dos muitos pontos de acesso "encobertos".
  • Page 42em linha direta com a parte mais sinistra do sítio - Um pequeno casebre abandonado, construído ao lado da tal quadra de tênis. A casa era habitável, e não entendíamos por que ficava vazia, até que um dia um dos moleques ali daquela área - sim, a cada rua, poucos metros de distância, havia uma "galera" mais ou menos independente e, quando queria, hostil - nos informou que aquela casinha era mal assombrada. Para uma criança, aquela informação de mau agouro caía nas costas como uma jaca de inquestionável certeza e medo... A hora era quase a do almoço, por volta das 11 da manhã, com o sol a pino. Foi quando o sexto sentido de Renato se manifestou, com garbo e brilhantismo. Me cutucando e a alguns outros moleques, ele apontava para um enorme pé de tamarindo, que fazia sombra sobre parte da quadra de saibro. É ridículo relatar isso e, acredite, foi ridículo naquele próprio momento: O que vimos foi uma sombra sim, um ente perfeitamente translúcido - segurando uma vara de bambu e cutucando a árvore, como quem tranquilamente arrancasse tamarindos para chupar.
  • Page 43impassível, continuava a lentamente mover aquele bambu. Após uns breves segundos de incredulidade, de tentar divisar se aquilo era aquilo mesmo, a ficha caiu. O que se seguiu foi a mais espetaculosa corrida com obstáculos que o bairro Palha Seca já viu - e ele viu muitas!
  • Page 44Alberto, que murou o sítio e o transformou num tipo de complexo esportivo, alugando quadras para peladeiros de fim de semana e fazendo festas para seus amigos. Seu Pedro não ficou desamparado: Sua casinha e parte do terreno lhe foram concedidas, justificadamente pelos serviços prestados. E, neste momento em que escrevo, o espaço foi novamente vendido, e agora um enorme condomínio de apartamentos populares se ergue naquele lugar, já prontos para a habitação. Os novos moradores provavelmente jamais saberão de tudo o que já aconteceu naquele terreno em que habitam...
  • Page 45escuridão, balançava os galhos e emitia sinistros gritos, a cada alma desafortunada que por ali passasse. Muita coragem embolada com muita safadeza do então jovem Gilson! Já na rua, era tanta correria que aquele chão ficou compactado, de tanta patada de medroso em fuga!
  • Capítulo 10As doces mangas - e o muro - do velho Lauro Como eu disse, uma das mais doces atividades da idade, figurada e literalmente, era apanhar frutas dentro ou fora da legalidade, pois à época a fronteira entre tais picuinhas era muito sutil.
  • Page 47principiamos a tacar paus e pedras naquelas alturas, tentando derrubar algum favo daquele mel alaranjado, rainha das frutas vinda da Índia. Em meio da faina naquela dura lavoura, nem percebemos quando o Lauro, um moreno com cabelos lisos como um índio, adentrando o clube dos obesos, "brotou" já dentro da cerca. O sexto sentido de Nato falhara, e nossa captura era iminente!
  • Page 49"quebrou” quase ao meio. A sincronicidade dos moleques do balacobaco naquele dia foi elevada a nível olímpico, como de uma dupla de salto ornamental: Ainda no ar, caindo para trás com o muro, entendemos imediatamente que seríamos esmagados - nada que matasse, mas alguns ossos poderiam se quebrar e a fuga seria frustrada. Assim, em pleno ar, demos impulso com o pé de apoio no muro que caía, para que nos livrássemos de seu raio de impacto. Amigos, cai em pé no chão, seguido pelo esboroar-se do muro, a coisa de apenas uns cinco centímetros de esmagar meus pés. E os de Renato, que caíra à mesma distância. Pronto, subíramos de nível e já éramos Ninjas da Presepada. Mas não era caso de comemorar o feito. Sem olhar para trás, pulamos por sobre os tijolos e o cotôco de muro que restara, enquanto o bom Lauro - poderia ter sido meu sogro! - multiplicava seu ódio ao perceber o prejuízo com o muro - muro que talvez ele mesmo tivesse erguido...
  • Capítulo 11A rapina bananal Uma fruta de apelo universal estava entre as mais cobiçadas pelos pequenos corsários de água doce da Beira Rio: A banana.
  • Page 51A descoberta de que a casa mudara de dono deu-se da maneira mais desagradável possível: Ao lado desta casa, dentre ela e outra, ficava um beco, um beco apartadíssimo, claustrofóbico até, e que só permitia mesmo a passagem de crianças. Aquela era nossa rota usual e mais confortável para acessarmos "a beira do rio" de fato, de onde seguíamos pelos fundos das casas catando ferro velho ou vadiando à esmo. Acontece que ninguém avisara ao marujo de que aquilo era caminho comunitário. O resultado? Por duas vezes, ao tranquilamente passar por ali, fazendo despreocupado barulho nas muitas folhas caídas do bananal - veja, nem íamos roubar bananas, que demoravam para ficar prontas - fomos recepcionados a tiros, tiros de espingarda de chumbinho. Malditas espingardas, onipresentes nos anos oitenta!
  • Page 52Sabe-se lá quem foi o autor da façanha, o portador da chama de tirocínio roubada dos deuses da rapina, mas uma solução foi encontrada. A ideia primava pela simplicidade, que é sempre a marca, selo das ideias revolucionárias: Munidos de um facão, entrávamos silenciosamente naquele bananal e, sempre à moda dos ninjas ou dos samurais, peritos maiores no manejo da espada, desferíamos um fulminante golpe contra o tronco da bananeira. Aqui estava a sabedoria: O golpe deveria abarcar menos da METADE do tronco, de preferência apenas um terço de sua circunferência.
  • Page 53pesado botijão de comida, melindrosamente saíamos daquele campo minado. Já do outro lado do rio, era hora de preparar as coisas para livrarmo-nos de uma outra e tinhosa dificuldade: O Pedágio de Dona Maria.
  • Page 54esbravejando com sua rouca voz de trovão ou taquara rachada, tomava posse do pedágio, sempre farto para o lado dela... Assim, elaboramos a estratégia do saco de latas. E olha que mesmo assim a velha ainda costumava dizer, com aqueles olhos ao mesmo tempo esbugalhados e aquilinos, nos fulminando por sobre o baixo muro de sua casa:
  • Capítulo 12Jamelões! Nem só de frutas surrupiadas viviam os sobreviventes da Beira Rio. Havia, no espaço entorno, alguns frutos "ao ar livre", em terrenos baldios ou na mata.
  • Page 56ela possui nomes. Abra o peito e apare, segure a rajada nomenclatural: Jambolão, jamborão, baguaçu, jalão, joão- bolão, topin, manjelão, azeitona-preta, ameixa roxa, baga- de-freira, oliveira, azeitona-roxa, brinco-de-viúva e ainda guapê. E sabe-se lá quais nomes mais. Aqui tínhamos uma ampla e plana área - por sinal vizinha ao já citado sítio do seu Pedro, a que chamávamos de "Sek"-sabe-se lá por quê. Bem, a Sek abrigava o campo do Nazaré, famoso campo de peladas regional. Mas, de futebol só fui gostar após os quatorze anos. Naquela altura, eram os quase trinta (valei-me Deus!) pés de jamelão que me solicitavam todas as mesuras. As maiores daquelas árvores chegavam a mais de dez metros, e impunham-se na paisagem, como gigantes - de quem nos aproximávamos com um misto de amor e temor, como se fossem totens.
  • Page 57Até hoje, quando vejo um pé de jamelão à beira duma estrada e há deles em beiras de estradas por todo o estado do Rio de Janeiro, e todo o Brasil - sinto uma melancolia feliz, e uma tristeza por não poder achegar-me. De mais a mais, já não tenho preparo para escalar rudes troncos, nem peso para arriscar a sorte sobre finos galhos. Hoje, toda a região da Sek, que fica na rua Dalva Raposo, foi ocupada por um condomínio, de estranho nome: Atenas. A pátria da democracia nomeia uma usurpação latifundiária que nos roubou nosso campo de anarquia, nossa livre-lavoura de prazer e sustância.
  • Capítulo 13De quando fomos desafiar o famigerado Lobão para um jogo de bolas de gude
  • Page 59Chegados em frente da casa do bruto, começamos a chamar. Chama que chama e o tal Lobão, que de lobo parecia não ter nada pois pelo visto era quase surdo, não respondia. Continuamos a chamança, a chamação, o chamado, a chamadeira ou que seja, e nada do lupino pilantra dar as caras. Eu já queria ir embora, mas Renato, fominha, queria jogo, queria duelo, queria aumentar sua colença daquelas inúteis bolas de vidro. Lobão morava num quintal de duas casinhas, quintal cuja frente era protegida por um murete, coisa de um metro, metro e vinte de altura, tijolos assentados sem chapisco nem reboco.
  • Page 60Nas praticamente duas horas seguintes, eu e Renato fomos feitos de pedreiros, trôpegos, confusos, aloprados - montando tijolos uns sobre os outros, sem massa nem nada, apenas "no encaixe" como num jogo de Lego mesmo - sob o olhar furioso do Lobo mau. Mais uma vez, o prejuízo da trupe ficou barato: Se meus pais fossem acionados, eu levaria mais uma coça. Não teve jogatina naquela noite: Após concluirmos a cansativa montagem, fomos honrados com um belo cascudo cada um, e voltamos para casa em silêncio.
  • Capítulo 14Sobre nossos apelidos Amigo leitor, percebo que até aqui eu não dei nota sobre a origem de nossos apelidos. Vamos, pois, a isso.
  • Page 62Já o meu apelido, esse sim era bem merecido. O "maluco" era devido a meus esporádicos ataques de fúria - sim, segundo os psicólogos do tempo, causados por um problema de disritmia. Nesses ataques eu quebrava coisas, fazia pirraça, feria pessoas: ficava mesmo possesso como um pequeno javali. Você pode imaginar que causei muitos dissabores para meus pais, em alguns episódios dos poucos que me lembro - de que até hoje me envergonho. É comum todo morador antigo que teve convívio comigo ter alguma história para contar, e eu mesmo quase que duvido quando as ouço. Por Deus, admiro meu pai por não ter me desintegrado na pancada!!! Lamento pelo leitor de pundonores, talvez pelos psicólogos, mas apanhei bastante, e hoje julgo que foi até bem pouco, pelo volume de encrencas que eu deflagrei.
  • Capítulo 15O Triciclo dos Alucinados Bem no início de nossa estranha amizade, me lembro de que o avô de Renato ainda era vivo.
  • Page 64eixo de pedais como de uma bicicleta, adaptada para ser movida com as mãos. Assim, forçando aquela manivela, o velho podia mover a cadeira-triciclo, ganhando alguma autonomia. No objetivo de comprar mercadorias para sua venda, e também apanhar algumas doações que os comerciantes do CEASA lhe forneciam, seu Cândio costumava ir até o CEASA de São Gonçalo, que ficava a coisa de uns cinco quilômetros de nosso bairro. De ônibus são apenas dez minutos. Mas, na força da canela, era duríssima a caminhada! Pois o velhote ia naquele triciclo, sendo quase sempre empurrado ou por Volnei, irmão mais velho de Renato, ou pelo próprio. Numa dessas idas ao CEASA (que eu não tinha a menor ideia do que e onde era), fui convidado a juntar-me à expedição. Quem sabe não foi aí que surgiu ou sedimentou-se nossa dupla expedicionária canelar? Confesso que não me lembro.
  • Page 65Imagine a cena, amigo leitor: Você, pacato citadino passando de automóvel ou ônibus, avançando sorumbático para seu trabalho ou estudo, refém de mil horários e sistemas, e vendo do livre lado de fora uma sinistra cadeira de rodas descendo a grande, insana velocidade asfalto abaixo, com um velhinho amputado como "piloto" e duas crianças de carona!!! Era a vida loka ainda no seu modo 1.0... Pouco tempo depois, seu Cândio infelizmente veio a falecer, e a vendinha foi fechada.
  • Capítulo 16Renato e seu cachorro Bugui Durante longo tempo de nossas infâncias, Renato possuiu um cachorro - Bugui era o nome dele. Bem, todo mundo tinha ou teve ou tem um cachorro, mas aquele ali era diferenciado, lotado de singularidades.
  • Page 67Eu não entendia aquilo, eu miseravelmente não entendia aquilo, pois sempre fui um desavergonhado abraçador de animais. Pelo contrário, aquela era uma relação rude: O dono por vezes até lhe batia para afugentá- lo, e o cão não dava demonstrações de alegria ou contrariedade: era impassível, fizesse o que fizesse, sofresse o que fosse. Que tipo de relação estóica era aquela? Aqueles dois entes espartanos, acostumados aos cardos e abrolhos da vida, que jamais davam demonstrações mais visíveis de amor um pelo outro - como se atraíam naquele nível sobrenatural? Sempre acreditei que aquele cachorro possuía um elo telepático com o dono. Dono que mais o enxotava do que qualquer outra coisa. "Não trate o cachorro assim", eu repetia. "Ele não liga", ouvia em eco.
  • Capítulo 17Volnei Peito-de-Aço Como relatei, Renato tinha quatro irmãos. O mais velho deles era o Volnei. Lembro de Volnei pelo peitoral largo- provavelmente pela atividade de tirar, no poder da pá, areia do rio para vender, atividade por sinal praticada por muitos moradores do local, como já relatei. E na qual até eu me aventurei, embora meus músculos imediatamente dessem alerta de que não podiam com aquilo.
  • Page 69los ou apenas pelo prazer da "caça" - tinham grande dificuldade de apanhar os balões que aqui caíam. Dificuldade essa que não nos afligia: O terreno era nosso conhecido, e os balões, ah, nós mesmos os apanhávamos e relançávamos ao ar, em ocasião oportuna. Não tínhamos dinheiro para comprar (ou desperdiçar em) sequer parafina para as buchas dos balões. E sabe como resolvíamos o problema? De forma sustentável, e aqui também há pioneirismo: íamos a um trecho do rio chamado de "Ponte Caída" - outro dos lugares fortes do bairro, lugar de mortes e histórias - e raspávamos a sobra das muitas e muitas velas que os adeptos da macumbaria, religiões de matriz afro e wicca que fossem, deixavam queimar para suas entidades. Que horror, você dirá. Sortilégio! Sim, era com temor que o fazíamos, em geral arrastados pelo exemplo de algum moleque mais ousado. Raspávamos e ensacávamos ecumenicamente toda aquela parafina que fora destinada sabe-se lá para qual força, seja anjo, Gaia, deus ou demônio, e lá íamos fazer o nosso próprio "festival": Em geral três ou quatro balões de tamanho pequeno a médio, cujo lançamento reunia gente, principalmente a molecada, como se fosse inauguração de creche pública.
  • Page 70Além daquele trecho, não havia muita opção de atravessar o rio sem ter que se molhar. E, de mais a mais, a área era nossa, o que temeríamos? Ao chegarmos, os cidadãos de bem simplesmente disseram que aquele balão era deles. Retrucamos: "Não levem a mal não, mas fomos nós que pegamos. Ele agora é nosso".
  • Page 71- Ei ei, olha aquele carro lá, aquele Passat branco! São os caras que tomaram nosso balão no outro dia! A percepção de que os mesmos calhordas estavam ali, no mesmo ponto, comodamente esperando que lhes trouxéssemos, já dobrado e desmontado, o balão, encheu a todos de fúria. Um dos rapazes, não me lembro se Tonho, teve uma ideia, que prontamente comunicou aos demais.
  • Page 72cerrado, capim de baixo e médio porte e alguns arbustos. Assim, era "campo aberto" para aqueles diabos treinarem tiro-ao-alvo. A debandada foi geral, cada um vazou para um lado! E toma pipoco, toma tiro cantando no chão. Foi então que o sobrenatural de almeida se manifestou: Volnei, desesperado, desceu por uma ravina correndo como um cavalo ou um gambá em telhado de zinco quente, cabeça baixa como se para protegê-la ou concentrar forças na corrida. Não dava mesmo tempo de olhar pra nada!
  • Page 73a velocidade acaba favorecendo a aderência ao terreno. Só faltou mesmo foi acertar o plano com a dona cerca... E nela bati com toda a força, sendo imediatamente jogado para trás, com furos numa das mãos e na barriga. Não consegui romper nem um fio do arame, e Volnei levou três...
  • Capítulo 18Os caronistas Um dos grandes prazeres de minha infância de diabruras era pegar carona. Mas, como assim? O lance era o seguinte: Qualquer caminhão que passasse pelo bairro, na época todo feito, todo trabalhado em esburacadas ruas de chão e terra socada, era um convite, um chamariz tocado à diesel, um poleiro convidando os frangos que éramos.
  • Page 75passos adiante, do canto da rua andávamos para o centro da mesma, até atingir o delicioso "ponto cego", centralizados bem atrás do caminhão e ficando invisíveis aos espelhos retrovisores. Neste momento dávamos meia- volta e literalmente voávamos em disparada, para agarrar nas ferragens. Outra carona muito praticada era a realizada nas portas dos ônibus. Naqueles tempos, os ônibus possuíam um balaústre (espécie de apoio ou corrimão) para o lado DE FORA das portas o que nos modelos posteriores foi sabiamente alterado, ficando agora do lado de dentro das mesmas, e sendo expostos apenas quando as portas se abrem.
  • Page 76de tantos vidros que quebrei. Mas deixemos esses comentários venenosos para os maledicentes. Quanto às caronagens clandestinas nas portas dos ônibus, eu e Renato éramos ali os talvez mais hábeis praticantes desse esporte radical e suburbano - atletas de ponta, campeões irreconhecidos dum esporte hoje proscrito pelo duro julgamento da lei.
  • Page 77ponto que dava para nossa "rua", notamos que o miserável acelerava ainda mais - talvez já nos conhecesse! Vendo que ninguém iria descer, que o carroção tremia em solavancos cada vez maiores, e que acabaríamos lá em Maria Paula ou coisa pior, Renato, meu sinistro mestre, nãos se fez de rogado: Pulou dentro de uma fossa de esgotos que margeava certo trecho da rua! Enquanto avançava agarrado com força àquela porta, ainda pude ver o bitelão se levantando da lama, todo "cagado". Mesmo em desgraça, encontrei tempo de gargalhar e gritar, caçoando do "espertalhão medroso", que confirmava a fama de "Cascão"! Entretanto, poucos metros adiante era o limite, a linha vermelha entre a civilização e o breu total. Tentei pensar o mais rápido que pude, ao ver que naquele último ponto ninguém desceria mesmo, e o satanáquia do motorista só fazia acelerar. Foi só então que me ocorreu que não havia mais fossas de esgoto. Ou moitas e matagais. Era apenas chão. Chão duro, compactado, coberto de esfoliante cascalho. Agora em mortal desespero, qual Ícaro de desfeitas asas, foi naquele chão que me joguei.
  • Page 78eu tomaria mais uma coça, uma surra homérica! Ela não se comoveu, que não era disso, nem eu tive forças: e lá vieram meus pais. Jogado nos bancos de um Fusca ou Brasília, fui levado às pressas até um hospital para o raio-x rotineiro. Nada quebrara, por sorte. Nos dias seguintes, aquele de quem ri, o que se jogara na maciez pútrida de uma vala, me zoou como a um asno, dizendo que eu preferira me jogar no chão duro e "apagara" como um pavão ou heroína de novela das sete.
  • Capítulo 19Vamos falar sobre etnia Filho de um paranaense de Arapongas com uma mineira de Itanhomi que, um a trabalho e outra a passeio, no Rio de Janeiro se encontraram e, fulminados pelo terrorista Cupido, num insosso e depauperado subúrbio gonçalense resolveram fundar família, fui um menino branco criado fundamentalmente entre negros.
  • Page 80entre moleques (e meninas), aqueles tapas verbais terminavam como as ofensas baseadas em tapas físicos: No dia seguinte, ou tardar numa semana, tudo havia passado. Antes que eu pudesse compreender todas as vantagens indevidas que a minha cor, que não escolhi, me concedia e concederia enquanto eu vivesse - às custas do sangue, do suor e das oportunidades roubadas de meus irmãos negros - sim, aqueles negros por cuja amizade eu optei e a cujo círculo eu chorei para dele pertencer, para ser entre eles aceito uma outra e divertida "vantagem", essa mais condizente com este livro de humor, foi muito explorada pela malandragem beirarriense. Notadamente, claro, por meu mestre-de-ofícios, o Renato.
  • Page 81que não se fora convidado? Tentávamos como podíamos, como joões-sem-braço, na base do cerca-lourenço, devagar e sempre, ou mesmo na marra, entrando de bonde. Não importava o método, o resultado era o mesmo: Todos aqueles "pretinhos" eram imediatamente identificados, claro, como penetras, como bicões naquelas festas de nordestinos brancos. O ocorrido numa ocasião em que entráramos numa das festinhas despertou a atenção do malicioso Renato: Dos cinco bicões que se intrometeram naquele festim, quatro foram expulsos; mas eu, branco, fui deixado incólume. Não era racismo: Eu simplesmente fora confundido com o filho de um deles.
  • Page 82de, ainda tão jovem, ser o responsável, o arrimo, pela alimentação de tantas bocas! 32
  • Capítulo 20Casemiro, O Profeta Impossível coordenar no mesmo período os termos Jardim Nazaré e catar ferro-velho sem elencar o terceiro elemento que completa a equação: Profeta.
  • Page 84Profeta, o desconjuntado fazia uma cara de pensador profundo, e dizia: - Você não ia entender, garoto...
  • Page 85Chegando diante do ferro-velho do Profeta, um ritual se estabelecia: Apanhávamos alguns soquetes bem pesados, feitos de barras de ferro, e nos púnhamos a amassar todas aquelas latas, uma barulheira infernal. Como o produto era pouco, pouquíssimo valorizado, e nossa carestia era grande, recorríamos a um subterfúgio que, acredito, sempre foi e ainda é praticado em todo o grande mundo: Colocar pedras dentro das latas para que, depois de amassadas, seu peso aumentasse. Ah, doce esporte! Mas tal subterfúgio nem sempre redundava em logro: Se Profeta, apanhando uma das latas a esmo e a balançando, percebesse o engodo, mandava recolher todo o conteúdo que já estava em sua balança e "ir vender em outro lugar”. Era preciso apuro para amassar bem amassadas as latas com pedras, e não colocar pedras em todas, é claro.
  • Page 86algo suspeitas de sempre "roubar para a casa", ou a banca, outra prática de universal valência... Toda noite, íamos até aquele ponto da cerca e, forçando silenciosamente a lataria, embutíamos um dos pequenos para dentro - em geral um dos irmãos menores de Renato, Aguinaldo ("Guinaldo") ou Ricardo ("Cado" ou "Cadim"). Os pequenos safardanas então surrupiavam o que podiam - garrafas e garrafões, pedaços de alumínio que porventura Profeta houvesse esquecido "do lado de fora", já que os materiais de mais valor eram guardados dentro de casa, e até ímãs.
  • Page 87Com o tempo, o pobre do Profeta foi diminuindo as atividades, e por fim vendeu a parte da frente de seu terreno para um indivíduo que lá construiu sua casa. Ficando ainda mais isolado, pois sua casa agora ficava "escondida" no terreno dos fundos, ali Profeta faleceu, sozinho e misterioso como sozinho e misteriosamente vivera boa parte de sua vida. Saudades de Profeta, de suas broncas, seu jeito irritadiço, e das muitas risadas que pude dar com aquele simpático, sim, simpático velhinho ranzinza. Velhinho que, além de me ensinar sem querer a exercitar a imaginação, me dera os rudimentos práticos do ofício de catador: saber diferenciar "metal" de cobre, antimônio de "bloco", ferro de aço e por aí vai...
  • Capítulo 21O Pau-de-Sebo As novas gerações e mesmo as mais maduras, porém criadas em ambiente urbano, talvez não saibam o que seja um pau-de-sebo - ou imaginem, de pronto e maldosamente, que ele seja algo muito diverso do que é na realidade.
  • Page 89dessas, deveria atracar-se a todo aquele escorregadio desafio e escalar tronco acima, como um macaco. E como era divertido! De quando em vez o sebo era reposto, pois o frenesi de candidatos ao tesouro acabava arrancando boa parte do tal sebo, que saía grudado em camisas e bermudas... Alguns, já quase chegando ao topo, cansados e de repente tocando área de banha ainda "virgem", repentinamente despencavam - e o sebo restante na enorme envergadura daquele pau fazia as vezes de poderoso lubrificante, pois para baixo, seja em festa de São João ou de qualquer outro patrono, todo santo ajuda. Certa feita, fins da década de oitenta, realizaram aqui na comunidade do Jardim Nazaré, e bem em frente à minha casa, uma festa junina. O festim foi organizado dentro do tradicional, no prumo da ortodoxia: Montaram palanque para a dança de quadrilha, forraram a rua de lado a lado com barraquinhas de guloseimas e prendas; bandeirinhas cruzando os céus, bambus e caniços dando o tom de roça. O organizador da festa era um camarada bem simpático, eterno candidato a vereador (eterno não, depois cansou-se), o William. William era também cana, meganha, magarefe: Soldado porra-louca como era o normal dos policiais militares cariocas daquele tempo.
  • Page 90Eu e Renato, junto a outros peraltas, bem que tentamos dar nosso sangue em tal peleja comunitária, mas nada logramos. Nem o talvez maior escalador de nossa idade, o legendário Luciano "Neném", também dito "Highlander, o Imortal" que se tornara lenda não por seus dotes de abraça-tora mas, acredite se quiser, por engolir QUALQUER remédio que achasse no lixo durante as expedições em que catávamos ferro-velho, sem jamais manifestar qualquer efeito, seja salutar, seja colateral, de tão sinistro apetite - conseguia superar a extensão daquela vara... O expediente era coisa pra adultos mesmo. A causa ou a bufunfa já era dada como perdida. Mas, num arroubo final, já no penúltimo dia dos festejos - que se estenderiam por uma semana - uma aliança sombria foi formada, uma cabala de malandros do "melhor" que havia na área. Iluminados ou apertados pela desesperança, elucubraram uma ideia, uma última cartada contra a fortaleza de sebo. E assim, com cada um dando o melhor de si, formou-se uma pirâmide humana, composta de uns seis bravios canabravas...
  • Page 91que urravam, ou mugiam, ou grasnavam, ou sei lá que som um burro faz quando avoa! Apanhando o cheque das mãos de Nande, o suarento Marcão, organizador ou chefe daquela estranha liga dos escaladores de tora, e que aturara o peso de cinco homens nas costas (não tente isso em casa!), foi conferir o valor do mesmo e a assinatura. Assinatura não constava, e o valor era nenhum: O cheque estava em branco.
  • Page 93e, contrafeito, observava de por cima do muro. Era cada um em sua casa, chorando mágoas, esfregando roupa encardida até o talo, de tanto abraçar aquela grande e sebenta tromba, e aplicando emplasto de saião nas feridas e nos magoados. Quanto ao cheque em branco, em branco ficou: Nunca foi saldado, e cada um ficou com seu prejuízo. Mais que o valor imaginado, custavam aquelas caixas de som que foram despedaçadas naquela festa de São João, um São João palha-sequence regado a maçãs-do-amor e tapas na cara, e que, ao menos naquele ano, foi melhor que o de Campina Grande, a capital paraibana e mundial do tal festim!
  • Capítulo 22Gambá e o Gran Cassino Palha Seca Todo bairro tem suas histórias, seus mitos, seu fabulário.
  • Page 95Jardim Nazaré, que é o nome verdadeiro e honrado do nosso hoje difamado Palha Seca. Um rodízio entre variados jogos de baralho (da ronda ao truco, do buraco ao vinte-e- um) e ainda dados e dominó, quando não a prosaica purrinha, jogos que eram praticados à exaustão, indo por vezes madrugada adentro, e sempre valendo dinheiro. Nada de à brinca, ali era à vera. Na época cheguei a ver gente entrar ali lá pelas 21 horas e, lá pelas 2h da madruga, sair literalmente pelado - isso mesmo, peladão pois apostara a ROUPA DO CORPO e, não sendo usuário de cuecas, teve que sair pelado, correndo pela night até sua casa... Nosso anti-herói Renato foi um dos tais a escapulir- se - ou ser ejetado para a sarjeta da rua - liso, tesado e como veio ao mundo... Bem, toda essa confraternização era regada à muita cachaça, o hidromel dos deuses morenos dos trópicos. Assim nosso amigo gerente de cassinos complementava a renda, e também vendendo os tarimbados tira-gostos do tempo: linguiça frita, ovo cozido, torresmo e vez por outra um caldo ou mocotó.
  • Page 96Cada um que chegava ia se fartando naquela riqueza, bem fritinha e espantosamente gratuita. Até a família do amigo sim, a criança e as mocinhas eram obrigadas a conviver e interagir com aquele ambiente sinistro em sua própria sala - também se serviram a gosto. Enquanto isso, o nosso amigo aproveitava para pedir, na conta dos demais, boas doses de cachaça e suas variantes destiladas - uma verdinha aqui, um Domecq ali, um licorzinho de coco acolá. Os jogos iam animados e os ânimos, turbados pelo álcool, explodiam em sorrisos naquele miserável lazer suburbano. Foi quando alguém, sem qualquer maldade, perguntou ao indivíduo que lhes fornira com tão saboroso e farto repasto:
  • Page 97Após o diálogo acima, travado com o Ciço, o embriagado Gambá, que passara da conta habitual valendo-se da boa-vontade alheia em pagar pela bebida, emendou a sorrir ainda mais. A cada vez que alguém pegava um daqueles últimos pedaços de frango, ele, com aquele brilho mortiço no olhar, comum aos ébrios, sorria com gosto - ou quase com cinismo, diria algum espírito de porco... Ao ser fisgado o último pedaço de carne daquela grande e encardida panela, estando todos já afogados nos humores e vapores alcoólicos, um dos convivas reforçou o argumento de Ciço:
  • Page 98alcoólico imenso reinante nas veias dos presentes, todos levariam aquilo na direção do que aquilo era afinal - uma grande brincadeira. Mas alguém antecipou-se, e passou a chave na porta, a única porta do casebre...
  • Page 99Amargurado por cicatrizes de corpo e alma, ferido em seu brio e espírito fraternal, Gambá, nosso Macunaíma, nunca entendeu o motivo da brutal falta de senso de humor de seus antigos companheiros de jogatina... 99
  • Capítulo 23O Tempero Colombiano A nossa breve narrativa corre para seu fim, afoita como um molecote em saída de escola. Mas deixe-me abrir aqui um parêntesis para inserir uma história de meu pai - e de como, hilariamente como, ele veio a parar neste Jardim Nazaré gonçalense. Afinal, se este parece ser um livro de memórias, minha ideia foi sempre fazer um livrinho de humor. Que esta narrativa patriarcal, algo veraz, algo fictícia pois a literatura não tem como safar-se de tais miscigenações, para terror dos puristas da raça historial - me ajude a não ver o tiro sair pela culatra! Se o tom se emboneca, se a escrita aqui ganha firulas, é que tal texto foi (assim como o anterior, sobre outro anti-herói, o Gambá) publicado em forma de crônica independente no Jornal Daki, noticiário gonçalense mantido pelo combativo Helcio Albano.
  • Page 101Herbert Richers, o falido e antes onipresente empresário da dublagem televisa ("Versão brasileira: Herbert Richers", lembra?). Veio dos nomes nos créditos finais dos filmes que ele, meu velho jovem pai, amava, na pacatitude da já citada Arapongas, onde o cinema era tudo o que havia, a bacia das almas. Bem, após alguns meses desavisadamente fustigantes na efervescência da capital, a inadequação de nosso herói mambembe encontrou refrigério inesperado quando ele foi convidado para ver "aquela cidade ali, do outro lado da baía". Atravessando as águas turvazuis da Guanabara, o jovem paranaense teve uma iluminação ao conhecer a cidade onde eu vim a nascer (epa, spoiler!). A calmaria da Niterói ainda em sua meia idade lhe lembrava de alguma forma o Paraná pacatizado, pacativante, e a paixão assomou aos olhos do aspirante a James Dean.
  • Page 102agora velha Consuelo, jovem ainda havia se apaixonado por algum cafajeste viajor, que a trouxera para as paragens braileñas, e aqui a abandonara à própria e mala sorte. Era ela, a querida de todos na pensão, que proporcionava o momento mágico da vida daqueles senhores, homens e rapazes que ali habitavam, durante o jantar (a pensão servia apenas café da manhã, simplório, e jantar. O almoço cada um tinha que filar ou comprar em outras paragens). A comida, sempre exuberantemente saborosa, mesmo nos dias de maior frugalidade, entorpecia os ânimos e estômagos de todos aqueles que, felizardos, a provassem. Uma cozinha primorosa, cercada como convém de segredos (era terminantemente proibido que enxeridos penetrassem na casa de dona Consuelo durante a elaboração dos pratos) e com doces toques de exotismo era ali praticada; uma cozinha que merecia até estar aberta ao público, e mais, a um público mais seleto do que àquela coletânea de solteiros que se refastelava nas panelas. Solteiros que, cientes da bênção que era sorver aquela cozinha encantadora, segredavam entre si o privilégio que era morar naquele lugar, se por mais nada, ao menos pela comida fulminante. Contrariados, evitavam estender-se em elogios, embora os mesmos fossem algo inevitáveis: temiam que a boa senhora abrisse um restaurante, caso em que certamente faria imediata fortuna, e de uma única e mesma facada lhes fossem surrupiadas a estalagem e a boa comida...
  • Page 103sorridentes convivas. Havia algo de mágico naquele ambiente, e era sempre após o jantar que aquela magia socializadora ou destimidizadora parecia explodir. Certa feita o silencioso Abelardo, aprendiz de oculista, e que normalmente mal despachava um "bom dia, boa noite" aos companheiros de pensão, pôs-se a rodopiar em dança, solitário, olhos cerrados, como que arrebatado; seu bailar, aplaudido pelos demais, estendeu-se portão afora da república - e lá foi o Abelardo, antes tímido que só ele, dançarolando pela calçada, ao som de algum acompanhamento musical que só ele ouvia (pois não havia música a tocar), para espanto dos poucos transeuntes daquele trecho.
  • Page 104movimentos cambiava para uma leveza quase... quase feminina. E assim, sorrindo largamente até as gargalhadas, traquejando com inesperada malemolência, o Rui, agora levantado de sua cadeira, passava então a apertar e massagear os ombros dos amigos, alisando os cabelos de um aqui, ajeitando a gola de outro ali... O que no princípio inevitavelmente descambou em algumas confusões, mas rapidamente aquela "transformação" foi absorvida pela geleia geral daquele festim diário de pós-expedientes. O desenlace de nossa historieta teve seu início com o aperto e a correspondente esperteza de meu pai: conhecedor da proibição de cozinhar nos quartos, o jovem paranaense, talvez contaminado pela mítica malandragem carioca, resolveu transgredir a lei em nome da economia: conseguindo um pequeno fogareiro de um bocal, movido à prosaico querosene, passou a cozinhar pequenas porções de macarrão ou outras basicalidades dentro do quarto; para isso, todos os dias na hora do almoço voltava para a pensão a título de descansar justamente o "almoço" que alegara já ter consumido no centro de Niterói...
  • Page 105aquela maga temperava suas comidas. Não deveria ser tão difícil. Nosso mais novo malandro já não suportava a tortura de almoçar sola de sapato e jantar manjares e ambrosias... Um belo dia meu pai saiu um pouco mais cedo do trabalho (nesta época já trabalhava como contínuo na Facit, no centro de Niterói) e dirigiu-se para a pensão. Ali, esgueirou-se pela parte detrás daquele conjunto de quartos, já com um tamborete nas mãos, para dar altura à pequena janela que fundeava a cozinha da velha, e lá se espichou ele para observar qual o segredo dos temperos da dona Consuelo. Observou por um tempo considerável enquanto a velha picava carne para um ensopadinho, cozinhava uma formidável panela de arroz e remexia um feijão que estranhamente não levava alho, mas ficava sempre delicioso. A atenção do malandrete estava concentrada no momento das temperanças, pois ali ele esperava descobrir ao menos algo que pudesse replicar, ainda que porcamente, a fim de mitigar o gosto já intragável de sua comida.
  • Page 106O ex-matuto de roça e aprendiz de haute coisine já havia visto aquela erva fina, mas não fora nas pequenas roças de fundo de quintal naquela terra roxa e fértil do Paraná, nem nas vendas e armazéns, quando sua madrasta The mandava ir até lá comprar este ou aquele item; quem The mostrara aquele tipo de tempero fora Fernando, o policial ferrabrás, que certa feita exibia numa revista de sua corporação imagens daquela exótica planta, tão em moda naqueles idos da década de 60. O desconcerto da informação, sub-reptícia e algo dura de equalizar, derrubou meu jovem pai estatelado no chão. Enquanto caia de sua banqueta, num daqueles fenômenos de slow motion que gostam de acontecer nos momentos dramáticos de nossas vidas, o jovem cinéfilo paranaense revira em flashback toda aquela espalhafatosa alegria pós-pasto; a música, as piadas, o gracejos e traquejos e a felicidade quase mágicas que assomavam a todos os republicanos da pensão de dona Consuelo. O motivo estava agora claro, pensava o magricela enquanto pranchava suas costelas contra alguns pedregulhos do chão.
  • Page 107temperos colombianos. Bem, nem tão longe assim, mas essa história todos conhecemos... 107
  • Capítulo 24Epílogo Esse nosso núcleo comunitário da Beira Rio foi desagregado, em inícios da década de noventa, por uma pequena tragédia: Uma cheia catastrófica do Rio Alcântara. Graças a Deus, vidas não foram ceifadas, mas casas inteiras se perderam, ou partes delas, ficando neste caso a estrutura restante em geral comprometida.
  • Page 109Sim, tudo começou com menos de três dúzias de famílias, realocadas da Rua Manoel Bandeira, a "Beira Rio", para lá. Se hoje aquilo tudo e tudo aqui é chamado de Complexo da Palha Seca, antes, para nós do Jardim Nazaré aquele trecho era chamado simplesmente de Estrada Velha ou mesmo Areal, em virtude da usina de areia que, por muitos anos, esteve em frente à entrada do bairro, lá quase no início da RJ 106. Como dito, não havia tanta gente aqui na Beira do Rio para povoar aquelas imensidões de terra: Após esses primeiros moradores, outros terrenos continuaram a ser doados a pessoas de baixa renda não diretamente afetadas pelo rio, e depois até mesmo comercializados por grileiros, os onipresentes vampiros de chão. Assim, pessoas de muitos outros lugares de grande parte da região metropolitana fluminense - São Gonçalo, Niterói e até Itaboraí (recordo que minha própria mãe conseguiu por lá um terreno para ajudar uma família que havia sido "expulsa" de Itaboraí) foram ocupando aquele lugar, antes apenas uma sequência de montes e morros recobertos pela característica vegetação de cerrado, com muito pequenos pontos de Mata Atlântica aqui e ali.
  • Page 110rica do termo, que me transcorreu a adolescência – meu até hoje melhor amigo, Wilson, com quem vivi também um bom número de aventuras; os irmãos Ronaldo e Ronilson, idem; e Ademilton "Bolotinha", meu companheiro de jogatinas no Nintendo 8 bits... Minha relação com Renato, que então morava na Dalva Raposo, passou a ser a dessa camaradagem esporádica entre antigos amigos e conhecidos, baseada num "e aí, qual é?" "Fala aí, como você tá?", quando nos cruzávamos, e um ou outro raro momento de rememoração de presepadas.
  • Page 111A aventura de todo escritor, a aventura que é escrever, começa sempre no mesmo lugar: Na leitura. Quanto a mim, aprendi a ler praticamente na Bíblia. Ou nela exercitei a prática da leitura. Não por instrução dos pais, que eram católicos nominais assim não muito preocupados com essas coisas, mas por conta própria, mix de temor e curiosidade.
  • Page 112Sua escola ficava aqui bem próximo de minha casa e, após mudar de lugar diversas vezes, hoje retornou ao mesmo ponto inicial. Depois dela, caí na tarrafa dum tal Ursinho Branco colégio escolhido por minha mãe pelo fato simples de que seus muros eram altos demais para permitir minha fuga. Sim, pois eu que hoje sou professor era arredio aos ordenamentos e firulas da escola, que sempre tolerei sem, dura confissão!, jamais amar. O tal Ursinho era situado no já referido e malfadado Buraco Quente. Essa profissão de fé ou todo esse cerca-lourenço é para falar que, da Bíblia, sempre me intrigou e maravilhou o trecho final do evangelho de João (capítulo 21, versículo 25): "E ainda muitas outras coisas há que Jesus fez; as quais, se fossem escritas uma por uma, creio que nem ainda no mundo inteiro caberiam os livros que se escrevessem."
  • Sobre o autorNascido em 1978 em Niterói, mas desde sempre morador de São Gonçalo, ambos municípios fluminenses, Sammis Reachers é poeta, escritor, antologista e editor. Autor de dez livros de poesia e três de contos/crônicas, organizador de mais de quarenta antologias e professor de Geografia no tempo que lhe resta - ou vice-versa. Como autor, publicou:
  • Page 114Leia mais de meus textos em alguns de meus blogs: www.marocidental.blogspot.com www.azulcaudal.blogspot.com www.opoemasemfim.blogspot.com www.jornaldaki.com.br/blog/categories/sammis-reachers 114
  • Page 115K Nesta obra, memória e humor se entrelaçam para narrar divertidíssimas histórias da infância de dois jovens criados num subúrbio de São Gonçalo (município da região metropolitana do Rio de Janeiro), nos duros anos da década de 80.
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Herbert Richers, o falido e antes onipresente empresário da dublagem televisa ("Versão brasileira: Herbert Richers", lembra?). Veio dos nomes nos créditos finais dos filmes que ele, meu velho jovem pai, amava, na pacatitude da já citada Arapongas, onde o cinema era tudo o que havia, a bacia das almas.

Bem, após alguns meses desavisadamente fustigantes na efervescência da capital, a inadequação de nosso herói mambembe encontrou refrigério inesperado quando ele foi convidado para ver "aquela cidade ali, do outro lado da baía". Atravessando as águas turvazuis da Guanabara, o jovem paranaense teve uma iluminação ao conhecer a cidade onde eu vim a nascer (epa, spoiler!). A calmaria da Niterói ainda em sua meia idade lhe lembrava de alguma forma o Paraná pacatizado, pacativante, e a paixão assomou aos olhos do aspirante a James Dean.

Em pouco tempo Mario estava de mala e calça boca de sino alugando quarto de pensão em Icaraí, naquela época o bairro (que já era nobre) que reunia o melhor consórcio de aprazibilidade e centralidade.

Estabelecido, meu pai logo conseguiu emprego na cidade sorriso e pôs-se a fazer amigos. Na própria pensão em que se instalara, havia os mais diferentes tipos.

A tal pensão tinha sua legislação, como é (epa, ao menos era) de praxe em tais repúblicas. Nada de mulheres; nada de cozinhar nos quartos; divisão de quartos? No máximo entre dois homens.

A dona da pensão era o coração pulsante do lugar, e ela mesma uma figura da mais relevante singularidade. Bogotana, filha da Bogotá de nossa vizinha Colômbia, ninguém nunca soube o que ela viera fazer naqueles idos por aqui. A suspeita que liderava as pesquisas era que a