Back
Flip
Vertical
Horizontal
All Pages
1 / 88
Mailing List
Share
Fullscreen
BC Sao Pedro da Serra avatar
Personal

O Livro do Chá (Kakuzo Okakura)

By BC Sao Pedro da Serra

Data da leitura: Setembro e Outubro de 2024

Go to stand
Share link
https://covver.com/magazine/bcsaopedrodaserra/o-livro-do-ch-kakuzo-okakura
Published
Mar 21, 2026
Pages
88

More in this magazine

  • 貞 globalMARINA COLASANTI
  • Mais de 100 histórias maravilhosasMarina Colasanti 1ª edição digital São Paulo
  • Page 3Uma ideia toda azul
  • O último reiTodos os dias Kublai-Khan, último rei da dinastia Mogul, subia no alto da muralha da sua fortaleza para encontrar-se com o vento. O vento vinha de longe e tinha o mundo todo para contar. Kublai-Khan nunca tinha saído da sua fortaleza, não conhecia o mundo. Ouvia as palavras do vento e aprendia. - A Terra é redonda e fácil, disse o vento. Ando sempre em frente, e passo pelo lugar de onde saí. Dei tantas voltas na Terra, que ela está enovelada no meu sopro.
  • Page 5recolhiam seus sons, como uma harpa. O vento contou o deserto.
  • Além do bastidorComeçou com linha verde. Não sabia o que bordar, mas tinha certeza do verde, verde brilhante. Capim. Foi isso que apareceu depois dos primeiros pontos. Um capim alto, com as pontas dobradas como se olhasse para alguma coisa.
  • Page 7acabava em fio. E lá estava ela, de volta na sua casa. Agora que já tinha aprendido o caminho, todo dia a menina descia para o bordado. Escolhia primeiro aquilo que gostaria de ver, uma borboleta, um louva-deus. Bordava com cuidado, depois descia pela linha para as costas do inseto, e voava com ele, e pousava nas flores, e ria e brincava e deitava na grama.
  • Por duas asas de veludoA princesa pegou a rede, o vidro, a caixinha dos alfinetes, e saiu para caçar. Sempre atrás de borboletas, não se contentava com as que já tinha, caixas e caixas de vidro em todos os aposentos do palácio. Queria outras. Queria mais. Queria todas. Nem adiantava procurar nos jardins. Depois de tanta caça, de tanto alfinete nas costas, as borboletas sabiam que aquele não era lugar para elas e até mesmo as lagartas arrastavam para longe suas curvas preguiçosas em busca de um canto mais seguro para virarem borboletas. Talvez nos campos, quando a colheita estivesse madura. Mas era outono. Talvez no bosque.
  • Page 9Era quase noite quando a viu, imensa borboleta negra voando lenta no azul que se apagava. Correu querendo acompanhá-la. Tropeçou numa pedra, perdeu-se entre os arbustos. O céu limpo, onde estava a borboleta? Pensou tê-la visto numa direção. Foi para lá. Mas tudo era quieto, só a água se encrespava na superfície do lago. À noite, no palácio, só falou dela. Queria a borboleta. Se a tivesse, prometeu, deixaria de caçar. Escolheu no quarto o melhor lugar: acima da cabeceira, de asas abertas sobre a cama.
  • Um espinho de marfimAmanhecia o sol e lá estava o unicórnio pastando no jardim da princesa. Por entre flores olhava a janela do quarto onde ela vinha cumprimentar o dia. Depois esperava vê-la no balcão, e quando o pezinho pequeno pisava no primeiro degrau da escadaria descendo ao jardim, fugia o unicórnio para o escuro da floresta. Um dia, indo o rei de manhã cedo visitar a filha em seus aposentos, viu o unicórnio na moita de lírios.
  • Page 11amava, agora sua dona, e que dele nada sabia. A princesa aproximou-se. Que animal era aquele de olhos tão mansos retido pela artimanha de suas tranças? Veludo do pelo, lacre dos cascos, e desabrochando no meio da testa, espinho e marfim, o chifre único que apontava ao céu.
  • Page 12seu peito, com suave força, com força de amor empurrando, cravando o espinho de marfim no coração, enfim florido. Quando o rei veio em cobrança de promessa, foi isso que o sol morrente lhe entregou, a rosa de sangue e um feixe de lírios.
  • Page 13Um dia o Rei teve uma ideia. Uma ideia toda azul
  • Page 14O tempo correu seus anos. Ideias o Rei não teve mais, nem sentiu falta, tão ocupado estava em governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais que mentiam a verdade. Apenas, sentia-se mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade de brincar nos jardins. Só os ministros viam a velhice do Rei. Quando a cabeça ficou toda branca, disseram-lhe que já podia descansar, e o libertaram do manto. Posta a coroa sobre a almofada, o Rei logo levou a mão à corrente. - Ninguém mais se ocupa de mim – dizia atravessando salões e descendo escadas a caminho das Salas do Tempo -, ninguém mais me olha. Agora posso buscar minha linda ideia e guardá-la só para mim. Abriu a porta, levantou o cortinado.
  • Page 15Na primeira corça que disparou, errou. E na segunda corça acertou.
  • Page 16Na floresta também ouviram a trompa e o alarido. Todos souberam que eles vinham. E cada um se escondeu como pôde. Só a moça não se escondeu. Acordou com o som da tropa, e estava debruçada no regato quando os caçadores chegaram.
  • Page 17compridas, um corpo branco. Tentou levantar, não conseguiu. O príncipe lhe deu a mão. Vieram as costureiras e a cobriram de roupas. Vieram os joalheiros e a cobriram de joias. Vieram os mestres de dança para ensinar-lhe a andar. Só não tinha a palavra. E o desejo de ser mulher. Sete dias ela levou para aprender sete passos. E na manhã do oitavo dia, quando acordou e viu a porta aberta, juntou sete passos e mais sete, atravessou o corredor, desceu a escada, cruzou o pátio e correu para a floresta à procura da sua Rainha.
  • Page 18Fio após fio Todas as tardes, na torre mais alta do castelo de vidro, Nemésia e Gloxínia bordavam.
  • Page 19próxima e logo mergulhava a agulha cantando na cadência dos pontos obedientes. Fio após fio esqueceu-se da irmã. Havia linha, o bordado enriquecia, e Gloxínia trabalhava feliz no passar dos anos. Chegou o dia do último ponto. Gloxínia acabou uma pétala, arrematou um espinho, e percebeu num sorriso que nada mais havia para bordar: a primavera desabrochava no manto e a seda desaparecia debaixo das ramagens.
  • A primeira sóEra linda, era filha, era única. Filha de rei. Mas de que adiantava ser princesa se não tinha com quem brincar? Sozinha no palácio chorava e chorava. Não queria saber de bonecas, não queria saber de brinquedos. Queria uma amiga para gostar.
  • Page 21estilhaçou jogo e amizade. Uma moldura vazia, cacos de espelho no chão.
  • Page 22Mas a princesa não queria mais uma única amiga, queria tantas, queria todas, aquelas que tinha tido e as novas que encontraria. Soprou na água. A amiga encrespou-se mas continuou sendo uma. Atirou-lhe uma pedra. A amiga abriu-se em círculos, mas continuou sendo uma. Então a linda filha do rei atirou-se na água de braços abertos, estilhaçando o espelho em tantos cacos, tantas amigas que foram afundando com ela, sumindo nas pequenas ondas com que o lago arrumava sua superfície.
  • Sete anos e mais seteEra uma vez um rei que tinha uma filha. Não tinha duas, tinha uma, e como só tinha essa gostava dela mais do que de qualquer outra. A princesa também gostava muito do pai, mais do que de qualquer outro, até o dia em que chegou o príncipe. Aí ela gostou do príncipe mais do que de qualquer outro.
  • Page 24enorme disfarçado por sete enormes portas e começou a dormir. Sete anos se passaram e mais sete. As plantas cresceram ao redor. Os guardas desapareceram debaixo das plantas. As aranhas teceram cortinados de prata ao redor das camas, nas salas enormes, nos enormes corredores. E os príncipes dormiram nos seus casulos. Mas a princesa não sonhou com ninguém a não ser com o príncipe. De manhã sonhava que o via debaixo da sua janela tocando alaúde. De tarde sonhava que sentavam na varanda e que ele brincava com o falcão e com os cães enquanto ela bordava no bastidor. E de noite sonhava que a Lua ia alta e que as aranhas teciam sobre o seu sono. E o príncipe não sonhou com ninguém a não ser com a princesa. De manhã sonhava que via seus cabelos na janela, e que tocava alaúde para ela. De tarde sonhava que sentavam na varanda, e que ela bordava enquanto ele brincava com os cães e com o falcão. E de noite sonhava que a Lua ia alta e que as aranhas teciam. Até o dia em que ambos sonharam que era chegada a hora de casar, e sonharam com um casamento cheio de festa e de música e de danças. E sonharam que tiveram muitos filhos e que foram muito felizes para o resto da vida.
  • As notícias e o melUm dia o rei ficou surdo. Não como uma porta, mas como uma janela de dois batentes. Ouvia tudo do lado esquerdo, do direito não ouvia nada. A situação era incômoda. Só atendia aos Ministros que sentavam de um lado do trono. Aos outros, nem respondia. E até mesmo de manhã, se o galo cantasse do lado errado, Sua Majestade não acordava e passava o dia inteiro dormindo.
  • Page 26parentesco com as abelhas para fabricar, no ouvido real, alguma cera e um pouco de mel. O trato funcionou às mil maravilhas. Tudo o que o gnomo ouvia, repetia em voz bem alta nas cavernas da orelha, e o eco e a voz do gnomo chegavam até o rei, que passou a entender como antigamente, de lado a lado.
  • Page 27tristezas, e todos os ventos maus pareciam soprar à esquerda da sua cabeça. Mas o rei tinha provado o mel e a doçura era agora mais importante do que qualquer notícia. Entregou o trono e a coroa para o Primeiro- ministro. Depois chamou o gnomo para junto da boca e murmurou-lhe baixinho a ordem.
  • Page 28Doze reis e a moça no labirinto do vento
  • A moça tecelãAcordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
  • Page 30dias. Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.
  • Page 31tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira. Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
  • Page 32a manhã repetiu na linha do horizonte.
  • Entre leão e unicórnioNo meio da noite de núpcias, o rei acordou tocado pela sede. Já ia se levantar, quando, junto à cama, do lado da sua recém-esposa, viu deitado um leão. - Na certa - pensou o rei mais surpreso do que assustado - estou tendo um pesadelo.
  • Page 34zac! Decepou as patas da fera de um só golpe. Depois, mais sossegado, retomou o sono. Durante algum tempo dormiu todas as noites até de manhã, sem sobressaltos. Mas numa madrugada quente em que os edredons de pluma pareciam pesar sobre seu corpo, acordando todo suado viu que o quarto real estava invadido por dezenas de beija-flores e que um enxame de abelhas se agrupava na cabeceira. Depressa cobriu a cabeça com o lençol, e debaixo daquela espécie de mortalha atravessou as horas que ainda o separavam do nascer do dia. Só ao perceber o primeiro espreguiçar-se da rainha, emergiu de dentro da cama, contando-lhe da bicharada.
  • Page 35leve os cascos, pronto para a partida. Desta vez o rei não temeu. Levou-lhe a mão ao pescoço, alisou o suave azul do pêlo, e de um salto montou. Unicórnios de sonho não relincham. Aquele levantou a cabeça, sacudiu a crina, e como se pisasse nos caminhos do vento, partiu a galope.
  • Page 36esperar pelo sono da rainha. Tão logo esta adormecesse, veria surgir um leão sem patas. Que não temesse. Pegasse as patas que jaziam decepadas à sua frente, e, com um fio de seda, as costurasse no lugar. Tendo obtido da moça a promessa de que tudo faria conforme o explicado, deitou-se a rainha logo ao escurecer, pretextando grande cansaço. No que foi imediatamente acompanhada pelo rei. Custava porém o sono a chegar. Virava-se e revirava-se o casal real sobre o colchão, enquanto embaixo a dama de companhia esperava. E de tanto esperar, o sono acabou chegando primeiro para ela que, sem perceber, adormeceu.
  • A mulher ramadaVerde-claro, verde-escuro, canteiro de flores, arbusto entalhado, e de novo verde-claro, verde-escuro, imenso lençol do gramado; lá longe o palácio. Assim o jardineiro via o mundo, toda vez que levantava a cabeça do trabalho. E via carruagens chegando, silhuetas de damas arrastando os mantos nas aleias, cavaleiros partindo para a caça.
  • Page 38fizesse mais forte. Durante meses trabalhou conduzindo os ramos de forma a preencher o desenho que só ele sabia, podando os espigões teimosos que escapavam à harmonia exigida. E aos poucos, entre suas mãos, o arbusto foi tomando feitio, fazendo surgir dos pés plantados no gramado duas lindas pernas, depois o ventre, os seios, os gentis braços da mulher que seria sua. Por último, cuidado maior, a cabeça, levemente inclinada para o lado.
  • Page 39beleza, cortava rente todos os botões. De tanto contrariar a primavera, adoeceu porém o jardineiro. E ardendo de amor e febre na cama, inutilmente chamou por sua amada. Muitos dias se passaram antes que pudesse voltar ao jardim. Quando afinal conseguiu se levantar para procurá-la, percebeu de longe a marca da sua ausência. Embaralhando-se aos cabelos, desfazendo a curva da testa, uma rosa embabadava suas pétalas entre os olhos da mulher. E já outra no seio despontava.
  • No colo do verde valeCansado. Assim sentia-se o Tempo. - Muito mais que velho, muito além de antigo. Isto eu sou - pensava andando para frente, ele não conhecia outra direção.
  • Page 41Só uma coisa não conhecia. Parar. Foi pensar na palavra, e estremecer de susto. Nunca antes essa ideia tinha estado com ele. Pela primeira vez desde a alegria, percebeu que tropeçara em algo novo.
  • Page 42- Pois eu estarei! - exclamou súbito o Tempo, reconhecendo naquela paz todo o seu desejo. E aos poucos, suspiroso, temendo a própria coragem, espraiou-se no vale, estendeu-se longo como ele mesmo não sabia ser. E pela primeira vez descansou.
  • Page 43No colo do verde vale, dorme afinal o Tempo, enquanto filhotes amadurecem nos ovos.
  • Uma concha à beira-mar-Presentes mais ricos ninguém nunca teve - disseram todos que haviam sido convidados para o aniversário do filho do rei. E acabada a festa, enquanto os músicos cansados guardavam seus instrumentos e o sol já bisbilhotava em frestas nos salões, prepararam-se para voltar a suas casas.
  • Page 45fenda, fino e breve, colhido em poça na palma da mão. Poça que provou, e que a ponta da língua confirmou salgada, de salgado mar. Mais precioso ainda pareceu-lhe o presente. Ao contrário do que dissera o rei distante, trazia-lhe água. Não verde como esmeralda, nem funda. Mas um dedal de oceano suficiente para molhar os lábios ou borrifar a testa, diminuindo a distância que o separava do mundo cantado pela voz.
  • Page 46borrifava a manhã. Não havia mar nenhum. A água que ele derramava na mão, esvaziando a concha, eram lágrimas da sereia, que logo com seu pranto a tornava a encher. Aquela que havia sido a sua alegria, nada mais era do que a tristeza dela. E por tê-la feito sofrer, ainda mais a amou. De nada adiantava porém todo o seu carinho. De nada adiantavam os minúsculos móveis e o passar do tempo. Só o mar ela queria. Só o mar podia fazê-la sorrir.
  • Page 47Desceu agarrando-se às rochas, apoiando os pés nas saliências, assustando as gaivotas nos seus ninhos. Desceu esfolando os dedos e chegou à areia. Então viu que na orla do mar, arrastando suas rendas, a branca anágua das ondas trazia e levava tantas conchas rosadas, tantas conchas como aquela que escondia seu bem-querer. Pegou a primeira, procurou em vão sua voz, levando-a ao ouvido. Pegou a segunda, a terceira. A praia era grande, não se via o fim. E ele foi andando, recolhendo as conchas uma por uma, enquanto nas marcas dos seus pés a água vinha se deitar em poça e depositar outras conchas.
  • Onde os oceanos se encontramOnde todos os oceanos se encontram, aflora uma ilha pequena. Ali, desde sempre, viviam Lânia e Lisíope, ninfas irmãs a serviço do mar. Que no manso regaço da praia vinha depositar seus afogados. Cabia a Lânia, a mais forte, tirá-los da arrebentação. Cabia a Lisíope, a mais delicada, lavá-los com água doce de fonte, envolvê-los nos lençóis de linho que ambas haviam tecido. Cabia a ambas devolvê-los ao mar para sempre.
  • Page 49Não, ela não devolveria aquele moço, pensou com fúria de decisão. E rápida, antes que Lisíope chegasse, correu para uma língua de pedra que estreita e cortante avançava mar adentro. - Morte! - chamou em voz alta chegando na ponta. - Morte! Venha me ajudar.
  • Page 50para o mar. Quando, subindo a água, o primeiro beijo de sal a aflorasse, Ela a levaria. E assim foi que Lânia esperou uma noite de luar, quente e perfumada, e chegando perto de Lisíope lhe disse:
  • Page 51deparou com a forma de dois corpos deitados lado a lado. A maré já havia apagado os pés, breve chegaria à cintura. Mas na areia molhada a marca das mãos se mantinha unida, como se à espera das ondas que subiam.
  • Um desejo e dois irmãosDois príncipes, um louro e um moreno. Irmãos, mas os olhos de um azuis, e os do outro verdes. E tão diferentes nos gostos e nos sorrisos, que ninguém os diria filhos do mesmo pai, rei que igualmente os amava. Uma coisa porém tinham em comum: cada um deles queria ser o outro. Nos jogos, nas poses, diante do espelho, tudo o que um queria era aquilo que o outro tinha. E de alma sempre cravada nesse desejo insatisfeito, esqueciam-se de olhar para si, de serem felizes.
  • Page 53O de baixo sentiu frio, e quis possuir o céu, certo de que nada o faria mais feliz do que voar na sua mornança. Então emergiu o focinho do cavalo-marinho e molharam-se as patas do cavalo alado. Soprando entre as mãos em concha os dois irmãos lançaram seu desafio. Alinhariam os cavalos na beira da areia e partiriam para a linha do horizonte. Quem chegasse primeiro ficaria com o reino do outro.
  • Page 54Baixou seu voo o cavalo alado, quase tocando o reflexo. Aflorou o cavalo-marinho entre marolas. As plumas, espumas se tocaram. Céu e mar cada vez mais próximos confundiram seus azuis, igualaram suas transparências. E as asas brancas do cavalo alado, pesadas de sal, entregaram-se à água, a crina branca roçando já o pescoço do hipocampo. Desfez-se a carruagem de nuvens na crista da última onda. Onda que inchou, rolou, envolvendo os irmãos num mesmo abraço, jogando um corpo contra o outro, juntando para sempre aquilo que era tão separado. Desliza a onda sobre a areia, depositando o vencedor. Na branca praia do horizonte, onde tudo se encontra, avança agora um único príncipe, dono do céu e do mar. De olhos e cabelos castanhos, feliz enfim.
  • As De suave cantoAs garças chegaram no outono. Por que vinham as garças às portas do frio, elas que sempre anunciavam o fim da primavera? Na aldeia todos se perguntavam. Não pareciam diferentes. Como nos anos anteriores pousaram na beira do pântano desabrochando asas sobre as longas pernas. Como nos anos anteriores abriram penas ao vento, e voaram silenciosas acompanhando sua imagem sobre a água.
  • Page 56canto que nada interrompia. - Vou ver do que se trata - disse o primeiro homem da aldeia. E foi. O canto continuava sem que ele tivesse voltado.
  • Page 57Ao amanhecer já sabia. Aproximou-se do salgueiro que afundava raízes na água, escolheu um ramo do alto, outro junto ao chão. E em laçadas firmes estendeu a corda de seda de cima a baixo, várias vezes, até tecer uma enorme harpa. A brisa da manhã vinha da planície. Colhida nas cordas suspirou, gemeu, tentou fugir. Mas as mãos de Taim estavam lá para retê-la, tangendo a seda, canto de pássaros, canto de moço.
  • Page 58O rosto atrás do rosto
  • Page 59Vencedor de tantas guerras, o Guerreiro das Tendas de Feltro apossou-se um dia daquele reino, e abandonada a vida nômade decidiu para sempre habitar o castelo agora seu. Sem que porém ninguém lhe tivesse visto o rosto, coberto desde os campos de batalha por escura máscara de aço. - Tirará junto com a armadura - disseram os súditos. - Quando não houver mais inimigos e todo perigo tiver passado.
  • Page 60ver. - Porque te amo, faço o que me pedes - disse o Guerreiro. Mas tirada a máscara de aço, viu a Rainha com espanto que por baixo dessa não havia um rosto, senão outra máscara, de bronze, por trás da qual ouviu o Guerreiro murmurar: - Se teu amor por mim ainda existe, nunca mais faça pedido como este.
  • Page 61Guerreiro. E ela ferida de espanto cambaleia, deixa cair a vela sobre as sedas da cama, e foge, foge por portas e corredores, desce louca as escadas, ouvindo atrás de si o cantar do fogo que se espalha. Arde o castelo. No jardim os súditos percebem o Guerreiro chegando à janela entre luzir de chamas. E presos no seu pasmo veem a máscara ceder ao calor, desfazer-se aos poucos a laca em gotas de fogo. Sem que nada apareça em seu lugar, rosto nenhum. Só um escuro vazio contornado de cabelos, que a labareda incendeia num abraço.
  • Uma ponte entre dois reinosNo dia em que a menina nasceu, a mãe mandou afiar a tesoura. - Cabelo comprido dá muito trabalho - disse.
  • Page 63onde secar. E a filha, compreensiva, escolhia o mais forte dos fios, para estendê-lo em varal, prendendo as brancas asas dos lençóis. Lamentosa, reclamava da velhice: tão surda estava que já não ouvia o canto da cotovia ao amanhecer. Talvez, se a tivesse mais perto... E a filha, compassiva, descobria o mais flexível dos fios para trançá-lo em viveiro e aprisionar o pássaro da manhã.
  • Page 64Nos bolsos da velha, mais três rubis haviam ido se juntar ao tesouro já acumulado. Passado algum tempo, e estando pronta a ponte, novamente o rei mandou chamar a jovem. Iriam até o penhasco, atravessar pela primeira vez para o outro reino.
  • À procura de um reflexoDer e repente, uma manhã, procurando-se no espelho para tecer tranças, não se encontrou. A luz de prata, cega, nada lhe devolvia. Nem traços, nem sombra, nem reflexos. Inútil passar um pano no espelho. Inútil passar as mãos no rosto. Por mais que sentisse a pele sob os dedos, ali estava ela como se não estivesse, presente o rosto, ausente o que do rosto conhecia. – Imagem minha – murmurou aflita -, onde está você?
  • Page 66Nem bem percebeu que entrava, tão grande a boca, tão verde o musgo que a cobria. Andou ainda um pouco lá dentro, hesitante entre tantos rumos. Mas logo fez-se frio. E a escuridão ao redor. Gotas pingavam do alto, gemendo nas poças em que o córrego parecia desfazer-se. O medo, entre rochas, bateu asas. Por onde tinha vindo? Olhou em volta, procurou atrás de si. Tudo era tão semelhante que não conseguia reconhecer os caminhos. Só lá adiante, além dos arcos formados pela pedra, viu brilhar a claridade. - Talvez por ali – pensou reconfortada.
  • Page 67de água, clara poça em que um rosto de mulher flutua. Não o seu. Pálido rosto sem tranças, que não a olha, encerrado no círculo de prata. - De quem é este rosto, senhora? - pergunta a moça tentando controlar o visgo do espanto.
  • Page 68- Antes que a noite acabe, você compreenderá por quê. A noite? Já é noite, então? Trancada na gruta entre velas acesas, a moça não sabe do tempo. Sabe apenas que não quer afastar-se de si mesma, deixar seu rosto sozinho na água fria. E ali, junto dele, sem ousar acariciá-lo com medo de romper-lhe os traços, deixa as horas passarem em silêncio.
  • Page 69Assustada, a moça foge sobre cacos e poças, tropeça, se levanta, corre, pisando leve enfim o doce musgo. Lá fora, na claridade da manhã que apenas se anuncia, o córrego mantém o antigo trote, água fresca e cantante que parece chamá-la. E a moça se aproxima, se ajoelha, estende o queixo, boca entreaberta para matar a sede. Mas no manso fluir da margem outra boca a recebe. Boca idêntica à sua, que no claro reflexo do seu rosto de volta lhe sorri.
  • Doze reis e a moça no labirinto do ventoTrezentas e sessenta e cinco quinas bem aparadas tem o labirinto de fícus no meio do jardim. - Para que o labirinto, meu pai? - perguntou a filha.
  • Page 71atrás dela. Mas seus pés calçados de ferro não conseguem acompanhar os passos ágeis que conhecem o caminho. Por mais que a procure, só o vento parece esperá-lo nos cantos, abocanhando-lhe as pernas, esfriando aos poucos a couraça. E enquanto ele vai e volta sobre suas próprias pegadas, perdido entre quinas iguais e falsos corredores, o frio sobe no seu corpo, toma a pele e a carne, congela o sangue, devolvendo ao mármore o que do mármore havia sido tomado. Até paralisá-lo na antiga posição, estátua novamente. Do outro lado do labirinto, a moça sai sozinha.
  • Page 72Para encontrá-lo adiante, além das folhas. Seis meses se foram. E seis reis. No ar frio do inverno avança o sétimo, valente, arco e flechas ao ombro.
  • Page 73- diz ela procurando-lhe o olhar. E devagar some entre muros verdes. Mas o rei não a segue, não procura seu caminho. Com toda a força que séculos de mármore lhe puseram nas mãos, desembainha a espada, levanta a lâmina acima da cabeça, e zapt!, abre um talho nas folhas, e novamente zapt!, corta e desbasta, e zapt! zapt! zapt!, esgalha, abate, arranca os pés de fícus. Uiva o vento escapando pelos rasgos, fugindo a cada golpe. Sob a lâmina, trezentas e sessenta e cinco quinas se desfazem. Até que não há mais labirinto, só folhas espalhadas. E a moça. Que livre, no gramado, lhe sorri.
  • Palavras aladasSilêncio era a coisa de que aquele rei mais gostava. E de que, a cada dia, mais parecia gostar. Qualquer ruído, dizia, era faca em seus ouvidos. Por isso, muito jovem ainda, mandou construir altíssimos muros ao redor do castelo. E logo, não satisfeito, ordenou que por cima dos muros, e por cima das torres, por cima dos telhados e dos jardins, passasse imensa redoma de vidro.
  • Page 75Mas se os sons não podiam entrar, verdade é que também não podiam sair. Qualquer palavra dita, qualquer espirro, soluço, canto, ficava vagando prisioneiro do castelo, sem que lhe fossem de valia fresta de janela ou porta esquecida aberta. Pois se ainda era possível escapar às paredes, nada os libertava da redoma. Aos poucos, tempo passando sem que ninguém lhe ouvisse os passos, palavras foram se acumulando pelos cantos, frases serpentearam na superfície dos móveis, interjeições salpicaram as tapeçarias, um miado de gato arranhou os corredores.
  • Page 76sons para aposentos esquecidos do primeiro andar. Foi portanto por acaso que o rei passou frente a um desses cômodos. E passando ouviu um murmúrio, rasgo de conversa. Pronto a reclamar, já a mão pousava na maçaneta, quando o calor daquela voz o reteve. E inclinado à fechadura para melhor ouvir, o rei colheu as lavas, palavras, com que um jovem, de joelhos talvez, derramava sua paixão aos pés da amada.
  • Page 77A mão na massa
  • Page 78Delícia nem percebeu quando perdeu a mão. De tanto amassar, esticar, afofar a massa de bolos, tortas, pães e biscoitos, sua pele já cheirava a açúcar, sua carne era macia como manteiga, e ela toda, suave e branca, confundia-se com cremes e confeitos. Assim, não se deu conta de ter esquecido a mão dentro da massa de um pão de nozes. E cobrindo-o com um pano, saiu da cozinha. Só mais tarde, ao pegar na cômoda seu anel para enfiá-lo no dedo, deparou-se com aquela ausência. Sacudiu o braço. Procurou dentro da manga, no bolso, entre as pregas do avental. E nada. Oh, meu Deus! Que tonta fora. Olhou pelo chão, ao redor. Então lembrou-se do pão. Ainda bem que estava apenas levedando, pensou com alívio, não tinha ido para o forno.
  • Page 79Chorava Delícia, sem saber que enquanto isso sua mão só não ria porque não tinha boca. Lá ia ela ondejando ao passo do Primeiro Camareiro Real, escondida debaixo de um guardanapo de linho imaculado, ao lado de uma rosca açucarada, na travessa de ouro que o Camareiro levava. Lá ia ela, fujona, depois de ter saído da massa do pão, de ter-se esgueirado entre os doces destinados ao palácio, de ter- se confundido com as roscas e ter-se metido debaixo do guardanapo. Lá ia ela, aventureira, ao longo dos corredores, rumo aos aposentos do Rei. Até que as portas reais se abriram e o grande Mordomo fez um sinal com o seu bastão, o Primeiro Camareiro aproximou-se de Sua Majestade, o Segundo Camareiro baixou a travessa à altura do real nariz, o Terceiro Camareiro levantou o guardanapo de linho. E Sua Majestade deparou-se com uma mão oferecendo-lhe uma rosca.
  • Page 80determinação. - Assim, bonitinha – aprovou, trazendo-a para o colo, enquanto a afagava delicado. E dirigindo-se em tom imponente aos criados e pajens que olhavam a cena boquiabertos: - Muito engenhoso este artefato. Deveras engenhosíssimo. Minha magnanimidade faz com que o considere digno de Minha Majestade.
  • Page 81não havia ninguém capaz de ostentar uma terceira mão. E quando, levada pelo Grande Pajem, atravessava os salões tamborilando com jeito enfarado a almofada de veludo carmesim, sentia cravados sobre ela os olhares invejosos da corte. Mas, se o Rei podia gabar-se de ter uma terceira mão, era à custa de Delícia que, tinha ficado só com uma. E se a mão, deslumbrada com os favores palacianos, parecia esquecer sua antiga proprietária, o mesmo não acontecia com esta.
  • Page 82Só de pensar na pobrezinha sendo metida a força num saco, sem que de nada adiantasse arranhar ou remexer-se, sentiu subir novamente a maré das lágrimas. Mas não era de lágrimas que sua mão estava precisando, disse para si mesma com súbita determinação. Estivesse onde estivesse, na certa precisava de ajuda. E quem poderia ajudá-la melhor do que ela?
  • Page 83tentado afogá-la durante as reais abluções. Mas não se limitavam às violências físicas. Elas, que durante tantos anos haviam sido molengas e preguiçosas, de repente mostravam-se atentas aos mínimos desejos do Rei, prontas a atendê-lo com a maior rapidez, antes que a intrusa tivesse tempo de intervir. Assim, deixavam-lhe poucas oportunidades de mostrar-se útil e carinhosa, e a obrigavam a passar a maior parte do dia esquecida em sua almofada. Não bastante isso, a mão direita valia-se de seu talento inegavelmente maior para humilhá-la. Era sempre ela a convocada para escrever, fazer os gestos mais imponentes diante da corte, para estender-se às damas. Era ela que puxava a espada e apunha nas cartas o sinete. Ela que recebia embaixadores e governantes. Ela que apontava. E se é verdade que a Terceira e a esquerda podiam levar à real boca os bons bocados, é verdade também que só a direita tinha o privilégio de erguer, quantas vezes fosse, a taça de vinho.
  • Page 84acaso não teriam visto sua mão em algum canto, se ela não teria ido bater ali por descuido. Enfrentava os olhares surpresos. Recebia as negativas. E ia perguntar na casa ao lado. Logo esgotou seu quarteirão. Depois, seu bairro. Sem que da mão houvesse notícia.
  • Page 85Sua posição de regra-três tornava-se a cada dia mais incômoda. E já não tinha tanta certeza de que ser a Terceira Mão oficial do Rei fosse melhor do que ser a mão bem-amada da doceira. À noite, deitada em seu travesseiro rendado sobre a mesinha de cabeceira, ficava olhando para as outras duas, as privilegiadas, que dormiam sobre a cama - como ela havia feito no passado -, ou metiam-se debaixo das cobertas quando fazia frio. Chegou a tentar juntar-se a elas uma noite de inverno. Mas as megeras, logo despertas, a receberam aos tapas, quase acordando Sua Majestade, e obrigando-a a rastejar de volta para seu travesseiro gelado.
  • Page 86E a partir do momento em que a saudade apareceu, deixou de ser saudade para tornar-se um desejo fundo. Do qual não conseguiu mais se livrar. Há tempos Delícia não fazia pão. Desde que sua mão a havia deixado, as aranhas até se permitiram tecer discretas teias na masseira, e o gato dormia no forno. Ela comia pão feito pelos outros, quando comia. E doces, nunca mais. Em casa, ficava apenas o tempo de dormir. O resto, passava na rua, procurando, perguntando, olhando.
  • Page 87tivesse afogado. Em meio à confusão geral, só as mãos do Rei não procuravam, esfregando-se uma na outra com um gesto que parecia de aflição, mas era de secreta alegria.
  • Page 88cá! E, mal podendo esperar, cadê a minha mão? Parada afinal diante de tão tonitroante realeza, Delícia não conseguia entender o que queriam dela, por que havia sido trazida até ali. Só entendia que estava no palácio, frente a frente com o Rei. E isso a deixava tão intimidada que, sorrindo de admiração, levantou as mãos para cobrir a boca.
  • Page 89Assim foi que a doce mão da doceira entrou pela terceira vez no palácio. E, desta vez, para ficar.
  • Page 90Entre a espada e a rosa
  • A dama do lequeEra uma dama de quimono que vivia na superfície pregueada de um leque de papel. Não vivia sozinha. Pousada atrás dela, uma garça cravava a longa perna de coral na água de um lago. Enquanto no canto esquerdo, outra garça voava. Sem chuva ou neve que viessem alterar a paisagem, sem frutos que substituíssem as flores do pessegueiro, a dama e suas garças pareciam paradas no tempo. Mas paradas não estavam. O tempo passava no leque, embora a seu modo. Pois cada vez que seu dono, um velho mandarim, o fechava num estalo seco, fazia-se noite entre as dobraduras. A dama então dormia. Dormiam as garças. E até os nenúfares do lago pareciam repousar suas pétalas sobre a água. Somente o vulcão, ao fundo, continuava soltando um fio de fumaça. Bastava, porém, que o mandarim abrisse outra vez o leque, para que
  • Page 92todos despertassem. As pequenas ondas do lago brilhavam como se algum vento lhes chegasse das montanhas. Voava a garça sem sair do lugar. A dama de longos cabelos tocava o instrumento que tinha sobre os joelhos, tangendo as cordas com dedos pálidos. Que calorento era aquele mandarim! A todo momento, rraac! abria o leque, abrindo com ele os olhos da dama e das suas garças.
  • Page 93Durante aquele dia e nos que se seguiram, a dama esperou por ela, tocando sua doce música. Mas a garça não voltou. E o canto esquerdo do leque continuou vazio, sem que sequer uma marca desbotada lembrasse a antiga presença. Mais tempo se foi, lentamente. Sozinha, agora, a garça do lago não tinha mais razão para continuar ali, com a perna mergulhada na água. E numa tarde quente em que a concubina se abanava com preguiça, a garça esticou enfim a outra perna, ondulou o pescoço, desdobrando as asas que desde sempre haviam permanecido fechadas. Como uma corola tocada pelo vento, estremeceram as penas brancas. E a garça abriu seu voo, abandonando o leque.
  • Page 94outro lado, mais próximo da dama. Mergulhou o pincel na tinta branca, tocou de leve a ponta em cor-de-rosa. E logo outra garça surgiu, asas fechadas, a perna de coral metida na água do lago. Sim, agora tinha um leque digno da sua amada. E havia ficado tão lindo, que ela não quis guardá-lo fechado na gaveta. Cuidando de não ferir o papel, prendeu-o aberto na parede diante da sua cama.
  • O reino por um cavaloEra lustroso, esguio, mais branco que um lençol ao sol. E bem mais precioso. Era o cavalo do Rei. Precioso não apenas por sua beleza, mas porque só se alimentava de moedas de ouro. Na estrebaria do palácio, palafreneiros atarefavam-se constantemente ao seu redor em delicados tratos. Escovavam-lhe o pelo imaculado, trançavam-lhe a crina, enceravam-lhe os cascos, desembaraçavam-lhe a longa cauda. A um canto, músicos especialmente escolhidos para distraí-lo revezavam-se tocando alaúde. E uma vez por dia realizava-se a cerimônia da alimentação. Ao som de trombetas e precedidos pelo Grão-Curador dos Bens Reais, pajens adentravam na estrebaria carregando cestos cheios de moedas de ouro. Ao bater de palmas do Palafreneiro-Mor, aproximavam-se um a um da manjedoura, despejando a carga cintilante, que em poucos momentos desaparecia entre os dentes amarelados do cavalo.
  • Page 96amanhã, durante semanas e meses cheios de hojes e amanhãs, começaram a se fazer sentir. E chegou o dia em que, tendo esgotado todos os outros recursos, o Grão-Curador se viu obrigado a avisar Sua Majestade de que, para satisfazer o apetite do cavalo, breve seria necessário vender a coroa. - A coroa nunca! - exclamou o Rei levando as mãos à cabeça.
  • Page 97Os palafreneiros, os músicos e o Grão-Curador em pessoa começaram a puxar. Puxa que puxa, eis que, devagar, bem devagar, o cavalo foi virado pelo avesso. E ali estava agora um cavalo que, sendo ele mesmo, era o contrário que tinha sido.
  • Page 98nenhum cavalo de que um Rei pudesse se orgulhar, nenhuma nobre montada para desfilar em dias de parada ou procissão. E os cofres já estavam pra lá de cheios.
  • Entre a espada e a rosaQual é a hora de casar, senão aquela em que o coração diz “quero"? A hora que o pai escolhe. Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe. Se era velho e feio, que importância tinha, frente aos soldados que traria para o reino, às ovelhas que poria nos pastos e às moedas que despejaria nos cofres? Estivesse pronta, pois breve o noivo viria buscá-la.
  • Page 100sobre seu reino diante de tal estranheza, ordenou-lhe abandonar o palácio imediatamente. A Princesa fez uma trouxa pequena com suas joias, escolheu um vestido de veludo cor de sangue. E, sem despedidas, atravessou a ponte levadiça, passando para o outro lado do fosso. Atrás ficava tudo havia sido seu, adiante estava aquilo que não conhecia.
  • Page 101Pouco se demorava em cada lugar. Lutava cumprindo seu trato e seu dever, batia-se com lealdade pelo Senhor. Porém suas vitórias atraíam os olhares da corte, e cedo os murmúrios começavam a percorrer os corredores. Quem era aquele cavaleiro, ousado e gentil, que nunca tirava os trajes de batalha? Por que não participava das festas nem cantava para as damas? Quando as perguntas se faziam em voz alta, ela sabia que era chegada a hora de partir. E ao amanhecer montava seu cavalo, deixava o castelo, sem romper o mistério com que havia chegado. Somente sozinha, cavalgando no campo, ousava levantar a viseira para que o vento lhe refrescasse o rosto, acariciando os cachos rubros. Mas tornava a baixá-la tão logo via tremular na distância as bandeiras de algum torreão.
  • Page 102longamente pensando nele. Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la. E outros tantos em que, percebendo que isso não a afastava da sua lembrança, mandava chamá-la, para arrepender-se em seguida e pedir-lhe que se fosse.
  • Page 103Uma após a outra, as rosas murcharam, despetalando-se lentamente, sem que nenhum botão viesse substituir as flores que se iam. Aos poucos, a rósea pele aparecia. Até que não houve mais flor alguma. Só um delicado rosto de mulher. Era chegado o quinto dia. A Princesa soltou os cabelos, trajou seu vestido cor de sangue. E arrastando a cauda de veludo, desceu as escadarias que a levariam até o Rei, enquanto um perfume de rosas se espalhava no castelo.
  • Cinco ciprestes, vezes doisNão era um homem rico. Nem era um homem pobre. Era um homem, apenas. E este homem teve um sonho. Sonhou que um pássaro pousava em sua janela e lhe dizia:
  • Page 105que um dia, quando o sol começava a acariciar-lhe as costas, viu lá longe, erguendo-se como torres na bruma do horizonte, as negras silhuetas de cinco ciprestes. Sob o puxão involuntário das rédeas, o cavalo estremeceu. Porém, logo esporeado, pôs-se a galopar. E galoparam, galoparam, galoparam. Espumava o cavalo, suava o homem, quando afinal chegaram à primeira casa. E estando o homem tão cansado, já no final do dia, pareceu-lhe melhor beber a água daquele poço, deitar-se à sombra daquela árvore, para só no dia seguinte, descansado, procurar o tesouro que lhe pertencia.
  • Page 106Mas um conto é apenas um conto, que eu conto, reconto e transformo em outro conto.
  • Page 107Não era um homem rico. Nem era um homem pobre. Era apenas um homem. E este homem teve um sonho. Sonhou que um pássaro pousava na sua janela e lhe dizia:
  • Page 108ciprestes não eram cinco, como havia pensado, mas apenas quatro. - Ainda não é esta - disse desapontado, como se alguém pudesse ouvi-lo. E, esporeando o cavalo, afastou-se.
  • No rumo da estrelaJá não havia nenhuma razão para continuarem vivendo na ilha. Morto o pai, assim decidiram os sete irmãos.
  • Page 110silêncio. Vai o barco, sempre em frente. Não há trilhas no mar. O reto caminho desenhado pela mão que segura o leme só aparece na esteira, depois que o barco passa. E logo se apaga.
  • Page 111sabe o que é acima ou abaixo. Rompe-se a noite. Um raio salta. O moço cobre os olhos com a mão. Mas, quando a abaixa, lá está de novo sua alegria, clara e limpa estrela brilhando numa garganta de céu.
  • No castelo que se vaiNo seu castelo de ar morava o Rei do Nada. Não tinha paredes aquele castelo, não tinha telhado. Mas assim, transparente, era belo e delicado como nenhum outro. E porque o Rei nada possuía, nem mesmo um mínimo pedacinho de terra, a qualquer sopro de vento lá se ia o castelo com toda a sua corte, etérea arquitetura flutuando no azul. Pousava quando amainava o vento. Ora era visto num pico escarpado, ora surgia à beira do mar ou assentava-se na planície. Nada o prendia a lugar algum. E o mundo inteiro era seu reino.
  • Page 113uma declaração de guerra! - ordenou. E foram os embaixadores em suas suntuosas vestes de veludo. E em suas vestes apenas um pouco amarrotadas regressaram, quando já Rei Ráiç se preparava para a batalha.
  • Page 114fizeram ondejar os aéreos cortinados, moveram aos poucos os inexistentes torreões, as ausentes paredes. Como um navio que levanta suas velas, o castelo inteiro começou a flutuar, docemente partindo para novas distâncias. Debaixo das patas dos cavalos, o gramado já se fazia lama. O exército embainhou as espadas, recolheu as lanças. Impotente, Rei Ráiç viu afastar-se a vitória. Por causa daquele Nada, daquele castelo impalpável que se ia no regaço do vento, nunca mais seria Rei de Tudo. Perdido estava para sempre seu sonho.
  • Uma voz entre os arbustosEram tão poucos naquela trupe de saltimbancos que, quando a jovem atriz desistiu, para casar com um comerciante, não tiveram outra para botar no seu lugar. E querendo, assim mesmo, realizar a encenação, costuraram uma enorme boneca de pano, moldaram para ela o mais lindo rosto de cera e, depois de completá-la com a peruca e os trajes que haviam sido da atriz, a puseram delicadamente sentada num canto da cena.
  • Page 116contassem a todos do seu encantamento por aquela moça de rara beleza e doce silêncio, pois já no dia seguinte o Rei, que havia muito procurava uma dócil esposa, dava ordens para que se aprontasse uma carruagem, e um pajem levando seu pedido fosse buscar aquela que, a partir de agora, queria para noiva. Foi a carruagem, saltou o pajem diante das tendas dos saltimbancos. Que depois de ouvirem a leitura do pergaminho real, entreolharam-se assustados. Quem teria coragem de contrariar desejo tão poderoso e mandar dizer ao Rei que a bela moça era apenas uma boneca? Melhor deixar que descobrisse por si mesmo.
  • Page 117pajem que não lhe haviam trazido a moça encomendada, mas sua irmã mais feia, ordenou que a levassem de volta e trouxessem a que havia escolhido. Novamente a carruagem partiu, novamente o pajem transmitiu a ordem do Rei aos saltimbancos. Que, sem entender o que havia acontecido, recolheram a boneca e pediram uma noite de tempo para preparar condignamente a noiva de Sua Majestade.
  • Page 118imediatamente reparar o erro! E, se prezavam suas cabeças, não voltassem sem cumprir o mandado! Os saltimbancos nem queriam acreditar quando viram a carruagem parar diante de suas tendas. Mais difícil ainda foi acreditar no estado da linda boneca de cera. Mas não havia como negar. Mais uma vez pediram uma noite de tempo. Mais uma vez recompuseram o rosto! E a boneca foi docemente sentada nos coxins.
  • Page 119cobria os lábios com os dedos, parecendo apenas um pouco mais viva que a boneca. E a corte, encantada com moça tão discreta, começou os preparativos para a grande festa das bodas.
  • Page 120fazia, era apenas com um brevíssimo sim, ou um rápido não. Irritava-se o Rei com tanta determinação. Irritava-se a moça com tanta insistência. E à noite, no quarto, ensopava o travesseiro de lágrimas, perguntando-se como podia estar tão infeliz se era noiva do Rei. Enquanto isso, aproximava-se o dia das bodas.
  • Page 121estandartes. As mães levantaram os filhos pequenos para que pudessem olhar, os homens tiraram os chapéus para agitá-los ao alto. E sob os vivas do povo os noivos saíram sorridentes, liderando o cortejo.
  • Page 122Po O homem atento or mais que recuasse com a memória, aquele homem não encontrava em sua vida um só momento em que não tivesse estado atento. Atento a tudo, plenamente, abertos os sentidos como se o seu corpo fosse a porta de entrada do mundo.
  • Page 123Atento. Imóvel na penumbra como se ignorasse sua chegada, mantinha-se entregue à sua tarefa, olhos abertos sem bater pestanas. Aproximou-se o viajante. O Homem o olhava, sem deixar de ver além e aquém dele, sem deixar que sua presença sequer encrespasse a transparência da concentração. O Homem o olhava, mudo. E o viajante teve pena.
  • Page 124Com voz que há tantos anos não ouvia, o Homem pediu aos criados que lhe trouxessem um pente. Estendeu até o marfim os dedos magros. Depois, pela primeira vez na vida, distraiu-se. Fechados os olhos, deixou a sombra de um sorriso tocar-lhe a expressão. E inclinando a cabeça para trás, longamente penteou os cabelos que lhe desciam pelos ombros.
  • Page 125É Como um colar cega, diziam todos. Mas cega a Princesa não era. Desde o dia do seu nascimento não havia aberto os olhos. Não porque não pudesse. Apenas porque não sentia necessidade, pois já no primeiro momento vira tantas coisas bonitas por trás das pálpebras fechadas, que nunca lhe ocorrera levantá-las. Era como se a janela dos seus olhos fosse voltada para dentro, e debruçada nessa janela ela passasse seus dias entretida. Mas isso os outros não sabiam.
  • Page 126recomendaram mudanças de ar, prescreveram banhos frios, exigiram banhos quentes. Porém, como nada conseguisse curar aquilo que não estava doente, cansaram de lutar contra sua própria ignorância e, declarando o caso único na ciência médica, desinteressaram-se dele. A partir de então, viveu serena a Princesa, mais e mais descobrindo daquele mundo só seu, mais e mais querendo descobrir. E enquanto acumulava por dentro seu tesouro, outro tesouro, por fora, se fazia. Pois todos os anos, desde que havia nascido, seu pai lhe dava o mesmo, precioso, presente de aniversário. Era sempre igual a cerimônia. Os sinos do reino repicavam festejando a data, o Rei e a Rainha, acompanhados de cortesãos, entravam nos seus aposentos. Ao lado do Rei, um pajem com uma almofada de veludo cor de sangue. E sobre a almofada, pequena lua translúcida e luminescente, uma pérola. Que o Rei colhia entre dois dedos e, para admiração da corte, depositava na palma da mão da sua filha.
  • Page 127A Princesa foi até a janela, abriu-a. Antes que suas mãos começassem a tatear, uma bicada gentil veio encontrá-las, penas macias roçaram nelas. Uma ave que ela não saberia nomear arrulhou, passou a cabecinha contra seus dedos e começou a bicar o mármore do peitoril coberto de neve. - Pobrezinha! - pensou a Princesa. - Com fome neste frio. E sem ter nada para comer.
  • Page 128Mas dessa vez, depois de colocá-la na mão da filha, o Rei, em voz alta, pediu-lhe as outras catorze, pois era chegada a hora de mandar o ourives real fazer o colar. Sobressaltou-se a Princesa. Como dizer ao pai, diante de todos, que não as tinha mais?
  • Page 129mais conter a indignação. E, nem bem havia saído dos seus aposentos, já aos brados chamava o Ministro, exigindo que os arqueiros reais caçassem o pombo. Daria um prêmio valioso a quem lhe trouxesse as catorze pérolas. Pombo, pensou a Princesa ouvindo as ordens do pai, era esse o nome do seu amigo. Pombo, que os arqueiros procurariam para matar.
  • Page 130Batem no vento os negros galhos. Caída sobre a neve, desfeito o casulo do xale, a Princesa fecha lentamente os olhos que havia demorado tanto para abrir. Mas pela ferida no peito do pombo rola uma pérola, depois outra, outra mais. Catorze pérolas escorrem como gotas sobre o alvo colo da Princesa. E preciosas se aninham ao redor do pescoço. Como um colar.
  • Em noites de Lua cheiaHouve um tempo em que a Lua era só cheia, sempre redonda, visível, igual. E nesse tempo houve uma noite em que, avançando no céu, ela se viu de repente refletida lá embaixo, na água parada de um poço. Achou-se tão linda, mesmo à distância, que quis se ver mais de perto. E desviando-se do seu caminho, aproximou-se, debruçou-se na beira do escuro, debruçou-se mais, até que... tchibum!!! sem nem saber como, caiu lá no fundo. A noite fez-se negra como nunca. Calaram-se os sapos, emudeceram os grilos. Pela primeira vez prisioneira, a Lua foi obrigada a esperar a chegada do dia.
  • Page 132tarde chegasse ao fim, nada mais poderia ser feito. E era preciso libertar a Lua para que iluminasse a noite. Então, como se a tivesse colhido entre as avencas, a ideia mais simples lhe ocorreu.
  • Page 133sem sabê-lo, certo de estar protegido pela escuridão, continuou suas andanças. Andando, aproximou-se da aldeia. Mais do que o uivo, foi a estranha claridade que alertou o caçador. Há tempos vasculhava os bosques atrás daquele assassino de rebanhos. E eis que, de repente, o tinha ao seu alcance. Levantou o fuzil. Por mais que se esgueirasse, o lobo enluarado era um alvo fácil. De nada lhe adiantaram o tronco da árvore, os galhos do arbusto. Bastou um tiro. E lá estava ele estirado, morto.
  • Page 134carregada para o céu. Logo, baixou uma cegonha branca e, agitando suas grandes asas, agarrou a segunda com o bico, subindo com ela para o azul, E desceu uma gaivota branca para buscar a terceira. E uma pomba branca levou a menorzinha pela trança. A águia voou, voou, voou. A garça voou, voou, voou. E voou a gaivota. E a pomba voou. Até chegarem à grande lona da noite. Onde, abrindo garras e bicos, depositaram as irmãs.
  • Page 135O homem que não parava de crescer
  • Page 136Sim, crescer havia sido bom, pensou Gul aquela noite ainda sentado à mesa, pernas esticadas, olhando as pontas quadradas dos sapatos, quase a medir a distância na penumbra. De menino a homem, belo percurso havia feito seu corpo. Avanços pequenos a cada dia, é bem verdade, tão pequenos que em geral nem os percebia, mas que agora se somavam no seu peso morno e sólido sobre a cadeira, fazendo-o sorrir de segurança. O tempo de crescer passou, pensou ainda Gul dando uma palmada na coxa. "Agora, é cuidar da vida", disse em voz alta. E levantou-se para fechar a janela. Lá fora, noite estrelada. Tão distantes as estrelas. E tanto céu além delas. Gul demorou-se um instante atraído pela imensidão. Depois, fechando os batentes com um suspiro, foi dormir.
  • Page 137suas grandes pás. Ficava no alto do morro, mas assim mesmo tinha água pelo chão. Gul pegou um saco de farinha e o carregou na cabeça. O moleiro pegou outro saco e o depositou em cima daquele. E a farinha pesava na cabeça de Gul, e ele queria livrar-se daquele peso e não conseguia, sacudiu os ombros, esticou o pescoço espigando-se inteiro, tentando derrubar os sacos, corcoveou, e o peso continuava na sua cabeça, o peso pesava, pesava. Num sobressalto, Gul acordou. Percebeu que a cabeça empurrava com força a guarda da cama. Acendeu a vela. Viu que os pés - gelados - superavam de um palmo o colchão, e o cobertor só alcançava até os tornozelos. Levantou a vela, olhou em volta no quarto. Tudo estava normal. Olhou para a parte de si que continuava estendida enquanto a outra parte se erguia sobre o cotovelo. Depois olhou demoradamente para a cama, para os desenhos do tapete sobre o qual a cama pousava, como se quisesse decorar aquele entrelaçar-se de rosas e folhas. Não havia dúvida possível. A cama continuava do mesmo tamanho da noite anterior, seus quatro pés esmagavam ainda os mesmos botões, as mesmas ramagens. Só ele não continuava do mesmo tamanho. No escuro, seu corpo havia dado um salto. Olhando para trás, era como se o crescimento de Gul tivesse feito uma parada para descansar. Férias do crescimento. Durante dias, semanas, meses, talvez mais de um ano, nem a farpa de um milímetro tinha vindo se acrescentar ao seu comprimento espichado. Gul tinha todos os motivos para acreditar ter alcançado seu tamanho definitivo. Como todo jovem, via-se pronto. Mas essa manhã, sem pedir licença, eis que sua carne e ossos retomavam o silencioso avanço.
  • Page 138vai que i para trás. Mas, depois, tinha tudo na memória. Na casa de Gul quem decidia quanto ele tinha crescido era a mãe. Uma vez por mês mandava que encostasse na parede, sempre no mesmo lugar. "Fique direito, menino!", dizia regularmente, empurrando a testa dele de leve até a cabeça encostar no reboco frio. Aí marcava a parede com lápis e mandava ele se afastar. Para medir, usava a fita métrica amarela, de costura, e toda vez dizia que não era a melhor, precisava comprar um daqueles metros de madeira, mais precisos, como se a falha da medida fizesse diferença no tamanho de Gul. Toda vez dizia, mas acabava esquecendo de comprar, e passado um mês lá vinha ela com a fita amarela na mão, meio desenrolada parecendo escapulir feito serpente. “Encosta, já falei”, e fazia a marca. Uma marquinha tão pequena – porque ela queria guardar a altura de Gul mas não queria estragar a parede - que frequentemente, procurando a do mês anterior para comparar, não a achava, e ficava então com o pescoço esticado, o nariz junto da superfície branca, subindo e descendo, movendo-se de leve como se cheirasse o reboco. Às vezes, cansada da pesquisa, desistia, decretando com seu absoluto poder de mãe: “Cresceu o bastante”. E dava o assunto por encerrado. O que ela não sabia é que a verdadeira medida do crescimento de Gul não era dada pela sua fita amarela. Era dada pelas conquistas de Gul.
  • Page 139muito outra, é encostar a boca na porcelana fria e ficar olhando a água correr quanto se quer, na hora em que se bem entende. A pia foi um marco na independência de Gul. Depois conseguiu alcançar as gavetas do alto da cômoda, sem precisar abrir as de baixo e fazê-las de escada. Houve uma manhã em que percebeu que esticando bem o braço podia pegar o pão no meio da mesa. E a tarde em que, pela primeira vez, seu dedo chegou até a sineta da porta. Assim, ultrapassando com o nariz um peitoril, metendo a mão no trinco de um portão, dando para meninos menores sapatos que já não lhe cabiam, Gul se apossava de suas novas medidas com certeza muito maior do que a fornecida pelas vagas marcas da mãe.
  • Page 140Em primeiro lugar, meias, que os pés estavam de gelo, disse Gul para si mesmo depois de vencer o espanto ao acordar naquela manhã, quando as estrelas já haviam desaparecido. Mas as meias grossas de lã que antes chegavam até os joelhos agora só alcançavam o meio das canelas. "Não faz mal", disse a mãe de Gul logo presente para constatar mais esse crescimento. "Tricoto outras." Em segundo lugar, levantar. Erguido, olhou a cama. Parecia bem pequena para o homão que havia se tornado. “Não se preocupe", disse o pai. "Com alguns pregos e boa madeira ponho ela no tamanho certo para você."
  • Page 141dependendo da terra e do vento, dependendo do sol. Um raio de sol entrava justamente pela janela, traçando seu caminho sobre a mesa. E pareceu a Gul um bom augúrio que o sol viesse assim brincar com seus dedos. "Vamos à luta", disse em voz alta para aquele raio, pois a mãe tinha saído para comprar a lã e o pai, envolto no barulho da serra sobre a dura madeira, não podia ouvi-lo. Apoiando-se sobre o tampo, desempenou de um só impulso o novo comprimento das suas costas, erguendo-se.
  • Page 142Quase paralelamente a esse pensamento, notou que os olhos já não estavam à altura da primeira voluta dos braços do lustre, mas da segunda. E em pouco deu-se conta de que não só os olhos, como o nariz a boca a cara toda, ultrapassavam esta também com lenta firmeza e subiam acompanhando a corrente que prendia o lustre ao teto. O alto da cabeça de Gul coçou de leve, os cabelos anunciando, com sensibilidade igual a dos bigodes de gato, que ele havia encostado em alguma coisa.
  • Page 143Noite. Foi isso que se abateu de imediato sobre Gul. Noite preta. E um silêncio abafado. "Era dia ainda agora", disse Gul, pensando falar para os seus botões, esquecido de que os botões, acompanhando a geografia do corpo, tinham ficado no andar de baixo. "Será que anoiteceu e não me dei conta?"
  • Page 144"Que fome, mãe!", foi tudo o que conseguiu dizer num rompante, para encobrir o constrangimento do seu próprio medo. Esquecido de ter comido há tão pouco tempo, sequer se surpreendeu de ter fome de novo, como se a fome fosse o meio mais legítimo de recuperar a normalidade. E viu o rosto da mãe abrir-se naquele sorriso radiante que as mães têm quando descobrem que o único mal dos seus filhos é uma fome passageira, mal que elas tão bem sabem remediar. Mas a chegada do prato fumegante junto à cama ainda não foi a solução de todos os problemas, pois a boca de Gul continuava estacionada a meio caminho, no exato ponto em que alcançá-la com garfo ou colher resultaria, senão impossível, demasiado dificultoso. Foi preciso que mais uma vez interviesse o pai. Um banquinho, colocado lá embaixo sob os pés de Gul, ergueu sua boca dois palmos, lá em cima. "Até parece que não cresci o bastante”, pensou Gul reparando na ironia do gesto. Devidamente afastado o gato, pôde afinal comer pela mão da mãe - mas com a colher grande, a que ela usava para mexer nas panelas, pois perto da sua boca as outras pareciam agora colherinhas de café.
  • Page 145primeiro andar. Abotoava o colarinho da camisa sem ver mais os sapatos que tinha calçado. Mas as meias tricotadas pela mãe lhe aqueciam os pés. Roupas mais folgadas haviam sido providenciadas. Era forte, era bonito, tinha recuperado a alegria, e só não cantava a plenos pulmões de manhãzinha, para não ensurdecer a vizinhança. Por prudência, porém, não fosse crescer de repente e ficar entalado, o buraco entre teto e assoalho foi aumentado de vários palmos. "As meias encolheram", disse Gul ao se vestir, numa manhã de uma das semanas seguintes. “E os sapatos também”, constatou, antes de perceber que as calças estavam igualmente pequenas. Não precisou verificar que o cinto já não fechava, para dar-se conta de que, na verdade, nada havia diminuído de tamanho. Ele é que havia recomeçado a crescer. Não ficou aborrecido. A curiosidade estava ficando maior do que qualquer outro sentimento. A curiosidade e um calor novo que lhe habitava o peito, calor da força que, intuía vagamente, começava a acompanhar o seu crescimento.
  • Page 146Quando cansou de olhar para fora, Gul debruçou-se sobre a folga do buraco. Vista do alto, a sala da sua casa pareceu-lhe graciosa e reduzida como casa de boneca. Tudo tinha um ar muito delicado. Mal ousava mexer os pés, com medo de esbarrar naqueles móveis pequenos, de derrubar aquelas louças em miniatura. Até o canário, na gaiola, tinha adquirido um jeito de bichinho de corda. Ali, pensou ele, moravam as suas pernas, morava metade do seu corpo. A outra metade morava no andar de cima. E porque em cima morava o seu pensamento, era como se só o quarto fosse sua casa mais verdadeira, ficando a sala, embaixo, como uma casa querida que se teve algum dia e que já não nos pertence.
  • Page 147com quatro furos, brilhavam escuros como prata antiga. Gul não precisava de espelho para saber que estava bonito - em que espelho caberiam aqueles metros todos de homem? E porque estava bonito, deu-lhe um súbito desejo de sair, quem sabe, dar uma volta. "Será que ainda passo pela porta?", indagou-se. Abaixou-se lentamente, deixando o primeiro andar. Lentamente pôs- se de quatro. A mão direita coube entre a poltrona e a mesinha. Conseguiu encaixar a esquerda com os dedos metidos debaixo da cristaleira e o polegar enfiado entre as pernas do sofá. Com um joelho quase derrubou o aparador, mas a mesa de jantar e as cadeiras couberam debaixo do seu peito. E aos poucos a cabeça, curiosa, meteu- se pela porta aberta.
  • Page 148espaço para um joelho. E as nádegas quase entravam lareira adentro. "Depressa! O serrote”, clamou Gul intuindo as exigências da sua nova dimensão. E estava certo. Ultrapassado o térreo, varado o primeiro andar, Gul passava a ocupar também o sótão.
  • Page 149costura, empertigado, só não anuiu porque não tinha cabeça. Gul poderia ficar horas e horas entretido, procurando a farda do avô que devia estar guardada em algum armário, ou o segundo vagão do seu trem de brinquedo que enferrujava junto a uma velha poltrona. Mas seu corpo exigiu atenção. Por que sentia tanto frio na barriga e no peito, se as pernas estavam bem quentes e o pescoço não pedia cachecol?
  • Page 150Diante dele, os vales acariciavam com verdes dedos o sopé mais escuro das montanhas, e as montanhas se erguiam docemente poderosas, cobertas de florestas, que aqui e acolá cortava o lanho prateado de uma cachoeira. Pássaros se cruzavam no alto. Nos campos moviam-se mansos animais. Pessoas aravam seu cotidiano. E tudo se esbatia na distância, envolto pelo mesmo hálito azul que soprava sobre céu e terra. "O tamanho do mundo", pensou Gul, “é sem medida." Sinos batiam em seu coração.
  • Page 152Um amor sem palavras
  • Page 153Acordava quando a primeira claridade começava a puir a noite na bainha do Leste. Mas claridade fina não era suficiente para ela. Precisava esperar o sol para poder espreguiçar todos os seus braços, sacudir a cabeleira e dar-se a conhecer. Só então começava de fato o dia daquela sombra. A sombra daquela árvore.
  • Page 154Cabia-lhe ainda acolher o gado, que gostava de ruminar protegido da luz mais forte. Abrigar insetos delicados, pálidos alguns, que não sobreviveriam ao sol. Manter a terra fresca para as minhocas. E havia muitos anos considerava seu dever dar guarida a um sapo que tinha estabelecido moradia entre duas pedras ao pé da árvore. Não se esgotava aí seu trabalho. Ela era o lençol escuro sobre o qual os camponeses vinham se deitar quando o sol estava alto, e onde comiam seu pão, espalhando as migalhas que as formigas viriam buscar mais tarde. Era também o véu que descia dos galhos até o chão, véu que quase não se via, mas onde se abrigavam os pássaros e as abelhas, e onde os frutos da árvore retardavam seu amadurecimento, último presente para o final do verão.
  • Page 155ou outra árvore distante. E ao longe um bosque, tão longe que parecia mais uma mancha do que uma grande família de árvores. Não havia sido sempre assim. Durante um período, na juventude, tivera companhia. E alegre. A partir de uns verdes de nada, crescera a seu lado um arbusto, só alguns ramos e um tufo de folhagem, mas cuja sombra gordinha roçava nela dependendo do vento, e à qual se afeiçoara como se afeiçoam as sombras. Durante um tempo longo e bom - ela não sabia medir o tempo em meses e anos - haviam brincado juntas, empurrando-se amistosamente, entrelaçando seus desenhos e desafiando-se ao entardecer em torneios de alongamento que a gordinha sempre perdia. Até que, num dia nevoento, os camponeses haviam cortado o arbusto para fazer uma fogueira. E junto com as cinzas mais leves fora-se no vento a gordinha.
  • Page 156como se alguém o tivesse gritado, seu âmago sussurrou que a árvore não gostava dela. Quanta triste surpresa nessa revelação! Mas por que surpresa, se estavam juntas desde sempre, e desde sempre o comportamento da árvore em relação a ela havia sido um só? Talvez porque nunca tivesse havido antes um dia de primavera exatamente igual àquele, com o mesmo vento frio mordiscando os galhos, a mesma luz morna agasalhando o vento, um dia em que ela, vindo tão só de suas férias e tendo caprichado tanto na reprodução de cada brotinho, de cada bifurcação, de cada detalhe da árvore, esperasse, desejasse tão intensamente um agradecimento, um louvor, um carinho.
  • Page 157A partir dessa constatação, a sombra não achou mais graça em nada. Parou de desenhar, parou de dançar. Movia-se lenta e preguiçosa, borrava seus contornos, ignorava hóspedes e visitantes. Em vez de uma sombra gentil, parecia ter-se tornado uma poça de tinta. Tão pesada estava, que por pouco os insetos não se viam presos nela, como em uma teia, e não se vergavam os galhos arrastados por aquilo que antes havia sido um véu. Mas a tristeza pesava mais nela do que em ninguém. E, sentindo-se esmagar debaixo da sua própria escuridão, decidiu afinal que, a viver ligada a alguém que não a amava, era preferível partir.
  • Page 158grossas que serpenteavam antes de afundar na terra, e sobressaltou-se sentindo a presença da outra. Havia muito ninguém vinha visitá-la. Embora gostasse da ideia de uma companhia, manteve-se prudente. Sabia que, como sombra da árvore mais importante da região, sua posição era muito cobiçada. Não convinha abrir a guarda para qualquer recém-chegada.
  • Page 159E assim foi que nossa sombra se instalou em sua nova morada e amanheceu no primeiro dia cheia de entusiasmo, disposta a demonstrar que saberia retribuir a boa acolhida. Não demorou para que a presença da jovem sombra ao pé da castanheira atraísse mais visitantes do que qualquer outra na campina. Mães traziam seus bebês, deitando-os sobre o xale, enquanto iam ceifar e colher, o pastor vinha com seus cordeiros mais novos, um menino aparecia às vezes recostando-se no tronco para tocar sua flauta de bambu.
  • Page 160que a árvore, despida de suas folhas, parecia tremer mais do que o esperado e que o tronco, saindo da terra sem enfeite ou apoio de sombra, havia-se tornado esquálido como um poste. Soube assim nenhuma outra sombra tinha ido ocupar o seu lugar junto àquela ingrata. E, sem saber bem por quê, alegrou-se. que Com a chegada da primavera, uma brisa lhe disse que a floração da árvore não havia sido tão farta, e que a copa parecia mesmo um tanto emagrecida. Voltando, no verão, confidenciou-lhe que as raízes sofriam com o calor, pois não havia mais quem as protegesse. E que o sofrimento das raízes se refletia nos frutos, pequenos e de pouco sumo. Já no fim da estação, enteirou-se, por um sopro, de que não tinha havido nenhum fruto tardio, como os que ela costumava guardar nos seus recantos mais frescos para atrasar-lhes o amadurecimento. O outono veio, alguns grilos retardatários crocitaram que os insetos não procuravam mais aquela árvore esturricada. Dois pastores comentaram que o gado havia deixado de abrigar-se debaixo dos seus galhos, e que sem gado faltava adubo, e que sem adubo não haveria fruto nenhum no ano próximo. Alguém disse também, mas certamente não foram os pastores, que as minhocas, fugindo do calor, tinham mergulhado fundo na terra, deixando de perfurá-la perto da superfície, e que a chuva já não encontrava solo fofo para penetrar.
  • Page 161E, afinal, o inverno chegando ao fim, uma raposa trouxe a notícia mais triste, que ninguém tinha ousado lhe dar: o sapo, o velho sapo da toca das pedras, sem sombra para se proteger e sem força para partir, havia morrido ainda durante o verão. Naquela noite, ao pé da castanheira, a sombra não dormiu. Pensou no sapo que não coaxava mais, na cabeleira baça, nas frutas sem sumo, nas raízes que quase não tinham força para mandar a seiva até as folhas. E sentiu que, mais que pensar, sofria. E sofrendo e pensando deparou-se com a possibilidade de que, embora em silêncio, ela e a árvore, a sua árvore, fossem mais amigas do que havia acreditado. Pois ali estava ela, penalizada pela sorte da outra. E talvez a outra, no mesmo silêncio da mesma noite, estivesse lamentando a sua ausência.
  • Page 162hospedeira que, apesar da acolhida generosa, teria que deixá-la. Esperaria a próxima Lua Nova. Até lá a companheira teria que arranjar outra ajudante. Pois, embora gostasse tanto de viver junto à castanheira, tinha um dever de amizade a cumprir. A Lua Cheia minguou, minguou, fez-se Nova, apagando o céu. E, estando o céu bem apagado, a sombra agradeceu mais uma vez, despediu-se, começou seu deslizar. Deslizou no riacho, deslizou no trigal, agora sem hastes e já semeado, deslizou sobre as pedras. Rasgou-se um pouco acolá, um pouco ali. Porém, novamente, conseguiu avançar mais rápido que a noite. E, antes que o dia chegasse, viu-se aos pés de sua árvore.
  • Page 163lado sem trocar palavra. E talvez fosse da natureza do amor existir mesmo sem palavra alguma. Tão doce era esse pensamento, que por instantes a sombra esqueceu seu trabalho. Mas um sopro de vento enredou-se na árvore, descompôs os desenhos que ela já havia traçado, e ao rearrumar-se percebeu que a ponta de um galho inchava em leve protuberância. Era a primavera anunciando sua chegada. Em breve teria muito o que fazer, pensou a sombra, aquecida de contentamento. E, como se fosse um beijo, depositou uma tatuagem no dorso do jovem sapo que vinha vindo.
  • Page 164Longe como o meu querer
  • Page 165A princesa mar a mar Três filhas tinha o Rei. E as três queria casar.
  • Page 166Que isso não me impeça de cumprir a ordem - disse o Embaixador ao Rei que já se inquietava. - Levarei o retrato de outra maneira. Escolheu no tesouro real a mais linda pérola, guardou-a num cofre pequeno, e partiu em sua carruagem rumo às distantes fronteiras do Norte.
  • Page 167Então o Embaixador contou como o Rei o havia enviado porque a segunda de suas filhas estava madura para casar. E quando o castelão pediu para ver seu retrato, tirou de debaixo do manto o botão que havia desabrochado, e exibiu à corte a mais linda das rosas. - Ela é assim - disse, bem alto, para ser ouvido por todos. - Delicada, suave, rósea. A mais nobre entre todas.
  • Page 168bolsa macia, tirou o frasco, levantando-o bem alto, para que todos vissem. - Ela é como o mar - disse lentamente. - Profunda e misteriosa. Cheia de riquezas escondidas. Seus movimentos obedecem à lua.
  • Page 169O que o traz, Senhor, além dos bons ventos? - perguntou o Rei do alto do seu trono, quando o Monarca Navegador chegou finalmente à sua frente. Então o visitante contou como havia sabido que a mais jovem das princesas estava madura para casar. Como, sem tê-la visto, a conhecia desde sempre. Como, conhecendo-a, queria casar com ela.
  • Um palácio, noite adentroSem nunca antes ter desejado uma casa, aquele homem surpreendeu-se desejando um palácio. E o desejo que tinha começado pequeno rapidamente cresceu, ocupando todo o seu querer com cúpulas e torres, fossos e porões, e imensas escadarias cujos degraus se perderiam na sombra, ou no céu. Mas como construir um palácio quando se é apenas um homem sem nada de seu?
  • Page 171escada que levava ao topo, e um terraço que coroava a escada, e colunas que sustentavam o terraço. Mas ao entardecer o vento acordou, e com sua língua macia começou a lamber a construção. Levou os muros, desmanchou o terraço, esfarelou as colunas que o homem nem tinha acabado de fazer. - De fato - pensou o homem, paciente -, é preciso coisa mais duradoura para se fazer um palácio.
  • Page 172Olhou a lua no alto, sem saber que ela já tivera tempo de levantar-se e deitar-se mais de uma vez. Olhou ao redor. Continuava sozinho, no topo da montanha ventosa, ao desabrigo. Não habitava no palácio. Mas o palácio, grandioso e imponente como nenhum outro, habitava nele, para sempre. E talvez navegasse silencioso, noite adentro, rumo ao sonho de outro homem.
  • Page 173Pé ante pé Nariz pontudo, olhar agudo, gesto de veludo. Isso dito, está descrito o Sapateiro Real. Não do Rei, que aquele reino não possuía nenhum. Mas da Rainha, dona do cetro e da coroa.
  • Page 174brilhante par de fivelas de prata, e abriu-se ele próprio num sorriso. Ansioso para estreá-las e não tendo nenhuma oportunidade disponível, o General tratou de providenciar uma. À primeira provocação de um vizinho inimigo, declarou inevitável a batalha. E lá se foi, com as altas botas luzidias e o chapéu emplumado, à frente dos seus soldados. Verdejava o campo que logo estaria vermelho, o inimigo erguia os mosquetes de um lado, os oficiais desembainhavam as espadas do outro. O General deu o sinal. Os trombeteiros tocaram o ataque. Lançaram-se os soldados para a frente. Mas, ao invés de sentir-se levado contra o adversário por heroica coragem, o General sentiu que seus pés retrocediam, levando-o inapelavelmente na direção oposta. A tropa boquiaberta viu seu líder sair correndo, de costas. E, embora sem entender a inusitada manobra militar, seguiu seu exemplo. Caíam alguns por falta de habilidade, tropeçavam outros, enquanto a maioria recuava como um bando de escorpiões, abandonando o campo de batalha sob as gargalhadas do inimigo.
  • Page 175Seriam sapatos, semelhantes àqueles usados na corte. Dessa vez, o Sapateiro não precisou franzir o cenho nem ferir os dedos. Sapatos cortesãos era tudo o que sabia fazer. E sabia fazê-los melhor que ninguém. Em breve estavam prontos.
  • Page 176fazer, pendentes como morcegos no sono diurno. Lá em cima entreviu outra sombra rasgante. Então descalçou os sapatos. Com muito cuidado atou-os pelos cordões. Depois, metendo a mão por dentro de um e o polegar por dentro do outro, segurou-os bem juntos, bem firmes, suspendendo-os acima do chão.
  • Bela, das brancas mãosEra bonita e jovem como um amanhecer. E os homens da aldeia, todos, suspiravam por ela. Os solteiros a olhavam de frente, tentando apoderar-se do seu olhar. Os casados a olhavam de viés, escondendo o brilho dos olhos sob as pálpebras abaixadas. Os velhos e os meninos a olhavam à noite em seus sonhos. Ela, porém, não olhava ninguém. Cuidava do seu fazer com alegria, cantava, caminhava leve com pés descalços. Pouco conversava com as outras mulheres da aldeia.
  • Page 178jovens brigaram à faca, e se disse que havia sido por ela. O louco da aldeia enforcou-se e todos só pensaram em um motivo. À noite, as mulheres reuniram-se enquanto ela dormia. E decidiram seu destino. No escuro ainda, a arrancaram da cama e a expulsaram da aldeia, que nunca mais voltasse. Aos homens, no dia seguinte, disseram que havia partido com um viajante.
  • Page 179conhecessem todos os ninhos e tocas, naquele dia nenhuma criatura de pelo ou pena cruzou seu caminho. E procurando, embrenharam-se mais do que pretendiam. Um deles ia na frente. O outro, o acompanhava. Sem que o primeiro percebesse, o segundo foi ficando para trás e, atraído por um ruído, meteu-se entre as folhagens.
  • Page 180força. Mas era. E afinal caíram os três exaustos, e o homem que acabava de sair viu que seus tornozelos estavam presos, e os quatro começaram a puxar. Cinco homens vieram à luz dessa forma. Na mesma ordem em que ao longo dos meses haviam desaparecido da aldeia. E quando o quinto saiu, viu que ao redor dos seus tornozelos, como pulseiras de marfim, duas mãos delicadas e brancas se apertavam.
  • O moço que não tinha nomeEra um moço que não tinha nome. Nem nunca tinha tido. Um moço que, não tendo nome, também não tinha rosto. - Psiu! - chamavam-no as pessoas.
  • Page 182pulando de pedra em pedra. Passava de uma cidade a outra, de uma casa a outra, sempre procurando, nas famílias que se reuniam ao redor das lareiras, nas multidões das feiras, e até nos broches de esmalte que enfeitavam os decotes, nos camafeus e nas pedras entalhadas dos anéis. Sem nunca, naqueles anos todos, afastar seu caminho da procura. E nesse caminho, um dia, encontrou a moça que voltava da fonte. Ia tão atenta para não entornar o cântaro equilibrado alto da cabeça, que nem o viu chegar pela trilha. E quando ele se aproximou, oferecendo-se para carregar o cântaro, foi com surpresa agradecida que encarou o rosto vazio. Mais do que com espanto.
  • Page 183Envolta no xale, ainda foi à fonte durante alguns dias. Mas naquela manhã em que as beiradas do regato começavam a fazer-se de cristal, o medo de perder o moço atravessou-a como um vento. Quis retê-lo, chamá-lo. Em ânsia estendeu-lhe as mãos. E quase sem sentir, num sopro, Amado! foi o nome que lhe deu. Ondejou seu reflexo no rosto do moço. Lentamente, seus olhos espelhados perderam a nitidez, desfez-se o contorno dos lábios. Naquele vazio, só restava uma névoa. E na névoa, trazidos de longe pelo chamado de um nome, começaram a aflorar duas sobrancelhas espessas, depois a aresta de um nariz, a sólida linha de um queixo, a ampla testa. Traços cada vez mais nítidos, desenhando o rosto enfim encontrado.
  • Como os camposPreparavam-se aqueles jovens estudiosos para a vida adulta, acompanhando um sábio e ouvindo seus ensinamentos. Porém, como fizesse cada dia mais frio com o adiantar-se do outono, dele se aproximaram e perguntaram: - Senhor, como devemos vestir-nos?
  • Page 185disse. Só um jovem pequenino não havia feito sua roupa. Esperava que o algodão estivesse em flor, para colhê-lo. E quando teve os tufos, os fiou. E quando teve os fios, os teceu. Depois vestiu sua roupa branca e foi para o campo trabalhar.
  • De ardente coraçãoTeria sido um baralho como os outros, não fosse por aquela Dama de Copas. Coroa pousada na cabeça, arminho do manto cruzado sobre o peito, rubras mangas, e na mão uma flor - papoula ou rosa? - que os dedos empunhavam como cetro. Sem um gesto. E com um único sorriso. Imóvel, ainda assim, quantos amores provocava, e como ardia seu coração! Todos os valetes do baralho ansiavam por ela. E os reis, mais que ansiar, fremiam de paixão, ameaçando-se uns aos outros com a espada erguida e a boca dura sobre os cachos da barba.
  • Page 187reduzida população do baralho, disputavam os mesmos homens. Os mesmos, mas nem sempre ao mesmo tempo. Podia acontecer que enquanto a Dama do alto endereçasse o perfume da sua flor para o garboso Rei de Espadas, a Dama de baixo soprasse nas suas pétalas em direção ao pálido Valete de Paus. Presas pela cintura, não tinham como se desvencilhar. E toda vez que alguém embaralhava as cartas, lutava uma para ficar ao lado do seu amado, forçava a outra para ter como vizinho aquele que já lhe habitava o coração.
  • Page 188gordinhos cheirando a bala, dedos de pequenas unhas um tanto sujas pescam a primeira delas. É um Valete. Que se vê colocado de pé sobre o tapete, perigosamente inclinado para a frente. Um Às vem parar diante dele, inclina-se. Os dois se encostam no alto. Ao lado, um Quatro e um Três são postos na mesma posição. Por cima um Rei deitado, servindo de teto. Logo outras duplas, outro teto. E outras. E outros.
  • Page 189estremecem os Paus, fremem as Espadas, palpitam as Copas. Todo o baralho vibra. E a vibração percorre o castelo, que ondeia, oscila, descamba, se inclina, desliza. E farfalhando vem abaixo. Valetes e Reis, caídos no tapete em meio às outras cartas, olham esperançosos ao redor. E em cada olhar vai a mesma pergunta: “Será que a sorte me derrubou ao lado da Dama?".
  • No dorso da funda dunaOsol atravessava lentamente o céu. E abaixo dele, bem abaixo, um emir com sua caravana atravessava o deserto. A claridade era envolvente como um sono. Mas de repente, pelas frestas dos olhos apertados, o emir viu a figura escura de um homem recortar-se no dorso de uma duna. De um homem e de uma cabra. Que parasse a caravana, ordenou o emir. Um homem sozinho no deserto é um homem morto.
  • Page 191que se juntasse ao bando. Mas quando o homem recusou a oferta, acrescentando que certamente era um inútil embora não estivesse sozinho, o chefe dos piratas achou que debochava dele, e mandou que o surrassem. Sem demora e sem ruído, pois cascos não ecoam na areia, o tropel partiu. Os ferimentos da surra há muito haviam cicatrizado, no dia em que uma caravana de peregrinos passou no seu caminho. E assim como ele a viu chegar com prazer, também os peregrinos consideraram a presença daquele homem e daquela cabra um sinal propício, e decidiram acampar ao seu lado no dorso da duna.
  • Page 192- Ando porque ainda sou morador da minha cidade – respondeu. Inclinou-se, encostou o ouvido na areia, quedou-se atento por alguns minutos. Há muito os encontrei – disse, erguendo-se. Sorriu novamente. No ventre daquela duna, debaixo de caravana acampada, estavam os minaretes, as casas, a figueira. Estavam seus filhos e sua mulher. E ele podia ouvi-los à distância. Através da areia que os separava, podia ouvir os gritos dos pregões, as preces dos muezins, o riso da mulher e das crianças que certamente agora haviam crescido.
  • Por um olharNão gostava de companhia. Mas sofria com a solidão. Assim, para evitar a presença das pessoas, sempre mais ruidosas e imprevisíveis do que podia suportar, escapando contudo à vazia imensidão das salas e salões, aquele Príncipe havia mandado pintar nas paredes do seu palácio cenas cheias de personagens, com as quais se acompanhava. Se o dia parecia arrastar-se mais lento que de costume trazendo o tédio em seu rastro, dirigia-se o Príncipe às longas galerias onde, de ponta a ponta, de chão a teto, uma caçada acontecia. Nervosas perseguições ocupavam então seu tempo. Empinavam-se os cavalos pintados, fugiam os cervos saltando na floresta, os cães lançavam-se sobre os javalis, e revoadas de pássaros manchavam o céu enquanto
  • Page 194dos arcos tendidos as flechas apontavam para vivas carnes. Se era a noite que se alongava quase roubando horas do dia, ia o Príncipe para o grande salão. Ali, pintados ao redor, nos trechos de parede que se alternavam a altíssimos espelhos, damas e cavalheiros dançavam, conversavam, bebiam em finas taças. E as superfícies espelhadas multiplicavam os pares, tornando mais reais os pálidos rostos, os ricos trajes que brilhavam à luz de tantas velas acesas. Para distraí-lo em qualquer ocasião, as alegrias do mundo haviam sido representadas nos quartos, nas salas e corredores, sem que nunca o Príncipe precisasse sentir-se só, sem que nunca verdadeiras presenças viessem perturbar sua fragilidade.
  • Page 195seguia em frente. Teria mantido inalterada a quase rotina imposta por suas preferências se uma manhã, querendo presenteá-lo por ocasião do seu aniversário, o pintor da corte não lhe tivesse feito encontrar uma nova sala. A Sala da Ponte.
  • Page 196fizesse, não conseguia arrancá-lo do ponto em que parecia fixado. Um ponto preciso, situado talvez além dele ou mais para o lado, entre os Rapazes.
  • Debaixo da pele, a luaChegado o tempo, uma moça se fez mulher. Mulher não como as outras, porém. Tão clara a sua pele! E por baixo dessa pele, vinda da própria carne, uma luminosidade que aflorava em certos dias, e nos seguintes se intensificava, dia a dia, luz a luz, até alcançar o esplendor de tantas chamas frias, de tantas imóveis estrelas. Então os cabelos da mulher se faziam mais cheios, leite gotejava dos seus seios, e as bacias e as tinas da sua casa transbordavam. Aquela mulher tinha a lua debaixo da pele.
  • Page 198sua solidão durante algum tempo. Mas não tardou muito para que a luz percorresse em direção oposta os mesmos caminhos que a haviam trazido, recolhendo-se à escuridão do corpo, e deixando a mulher apagada e pronta para longos sonos. Cedo passou seu tempo de repouso. E uma noite, prudentemente fechadas as janelas para que sua plena luz não perturbasse as trevas alheias, foi vista por um ladrão que passava rente ao muro.
  • Page 199pálida que as demais. Na feira, quem iria pagar pera ver uma mulher apenas pálida? Furioso, soltou a corrente e empurrou sua prisioneira porta afora. De novo em casa, a mulher que tinha a lua debaixo da pele. Apagada e sonolenta. Mas não por muito tempo.
  • Eram três, e um precipícioUma estrada no campo, alguns arbustos, um certo sol de quina. E naquela estrada, dois cegos esmoleiros esperando a improvável passagem de alguém caridoso, capaz de meter em suas mãos uma moeda. Assim estavam, entre um suspiro e um passo, quando naquele ar de poucos ruídos ouviram um cacarejar de galinha.
  • Page 201atada a uma corda. Uma corda segura por um homem. Um homem cego, esmoleiro, que esperava a improvável passagem de alguém caridoso capaz de depositar-lhe uma moeda na mão. Por que não vem conosco para o mercado? – perguntaram-lhe os outros dois, passados alguns minutos de conhecimento. E logo sugeriram que poderia vender o leite da cabra. Ou, quem sabe, até mesmo a cabra.
  • Page 202ligeiras marradas. Dela não se apartou mais. O primeiro cego acordou. O segundo cego acordou. O terceiro cego acordou. Para perceber que estavam todos despertos, foi preciso que um bocejasse, que o outro se coçasse e que o terceiro ouvisse os dois. Se andassem rápido, disse o mais velho, poderiam chegar ao mercado antes do anoitecer. E o dono da cabra, ainda de gatinhas, apressou-se a procurá-la. Chamou, tateou na grama, achou uma ponta de corda, segurou-a com firmeza. Depois, já erguido, deu-lhe uma sacudidela avisando sua guia, e sentindo que avançava, acompanhou-a obediente.
  • Page 203mercado pelo cavalo. Não podiam imaginar que o salteador os levava em direção a um precipício, do alto do qual tencionava lançá-las para apossar-se dos seus animais. Caminharam um bocado, até chegar junto ao ponto em que a campina parecia acabar no nada. Dizendo-se cansado, o salteador sugeriu uma breve parada. E antes que os outros sentassem, apeou, avançando rápido para empurrar o primeiro cego. A rapidez foi sua perdição.
  • Page 204estavam indo para o mercado. Pois o cavalo, sentindo-se tocado por aqueles seis calcanhares ossudos e vendo que o dia já se acabava, havia tomado o único caminho que realmente conhecia. O caminho de casa. Chegaram que era noite. O cavalo parou, os cegos apearam. Silêncio ao redor. Quieto assim o mercado não podia ser. Onde estariam? Esperaram parados, bateram palmas, chamaram. Esperaram mais um pouco. Começava a fazer frio. Era preciso achar um abrigo. Então avançaram com cuidado, meio enfileirados, tateando. O da frente encontrou a casa do salteador. Juntos empurraram a porta apenas encostada, entraram na casa, e perceberam que estava vazia, e se alegraram de ter encontrado uma casa sem dono. Aos poucos, vasculhando nos móveis e nos cantos, descobriram comida, lenha para acender o fogo, uma garrafa de vinho. E um pote de barro. Tentaram meter a mão pela boca, para ver o que continha. Era estreita demais. Quiseram levantá-lo, era pesado demais. E balança e sacode e puxa e empurra, lá se foi o pote ao chão com estrondo, e com um tilintar, um tilintar tão alegre que só podia ser de moedas.
  • Page 205Aqueles ovos, que a galinha havia sido obrigada a abandonar no choco, aquecidos pelo calor do peito, do sol e da caminhada, estavam prontos para se abrir. Abriu-se o primeiro libertando o pintinho ainda molhado. Abriu-se o segundo. O terceiro se abriu. Três pintos pipilaram sobre a mesa. Em resposta relinchou o cavalo, mugiu a vaca, baliram a cabra e o cabritinho. E riram, riram de contentes os três cegos.
  • Sem asas, porémDura ura aldeia era aquela, em às mulheres não era permitido comer carne de aves - não fossem as asas subir-lhes ao pensamento. Dura aldeia era aquela em que, apesar da proibição, voltando da caça ao final da tarde e sem nada mais ter conseguido abater, o marido entregou à mulher uma ave, para que a depenasse e a cozesse e fosse alimento de ambos. E assim a mulher fez, metendo os dedos por entre as penas ainda brilhantes, arrancando-as aos punhados, e entregando à água e ao fogo aquele corpo agora morto, que a fogo e água nunca havia pertencido, mas sim ao ar e à terra.
  • Page 207Resposta do corpo a algum chamado que ela sequer ouvia. A agulha ficava parada no ar, a colher suspensa sobre a panela, as mãos metidas na tina. E a cabeça, cabeça que agora se movia com a delicadeza que só um pescoço mais longo poderia lhe dar, espetava o ar. A mulher olhava então para aquilo de que não precisava. E olhava como se precisasse.
  • Page 208casa rumo ao Sul. Há muito as folhas haviam-se banhado de cobre, o solo começava a fazer-se duro no frio. E as aves de carne escura seguiam no céu em direção ao sol.
  • DesfraldaUm cantar de mar e vento esfraldava a vela com os mesmos gestos amplos com que outras abrem a toalha sobre a mesa ou o lençol na cama. Vela branca com uma branca lua bordada. E assim que escurecia fazia-se ao largo. Não levava redes, não levava anzol no barco pequeno. Cestos somente, grandes. E em silêncio, escuro adentro, navegava até chegar onde o mar é fundo como a noite.
  • Page 210por rápidos instantes o fundo úmido do barco. Durante a noite toda a moça cantava. Seu primeiro silêncio despertava o sol. Era hora de voltar, vela enfunada.
  • Page 211pendurou no pescoço. Mais ainda que o anel, a chave pendente como um colar feriu o olhar dos outros pescadores. A inveja os unia. Murmurantes e oblíquos, maldizendo o mar que só à moça entregava seus tesouros, decidiram entregá-la ao mar, que a guardasse sem nunca mais devolver. Serraram o mastro do seu barco o quanto bastava para levá-la ao largo e partir-se com os ventos do amanhecer. E pela primeira vez sorriram vendo no escuro porto a vela branca que se abria.
  • Page 212Dessa vez, não havia ninguém no porto quando a moça chegou, porque era noite. Mas na manhã seguinte, mais enraivecidos ainda ficaram os pescadores vendo que, contra todos eles, o mar teimava em favorecê-la. Quando dias depois, consertado o casco, ela se fez ao mar, o leme havia sido trabalhado para desprender-se e afundar. Percebeu-o a pescadora vendo-o desaparecer no azul, quando estava em altíssimo mar e já não adiantava perceber. Sem leme, seria levada pelas correntes, atirada contra os arrecifes ou devorada pelo sol.
  • Page 213debruçar-se sobre o perfume das flores. E ei-la chegar ao alto, à beira de um gramado que se estendia até o pequeno palácio – ou grande vila - diante de cuja porta fechada parou. Chamou, primeiro baixinho. Depois mais alto. Alguns pássaros esvoejaram. A voz dela perdeu-se entre as árvores. Ninguém atendeu. Bateu com a pesada aldrava de bronze. Ouviu as pancadas ecoando lá dentro. O eco abafado foi a única resposta.
  • Page 214passado e todas as salas e cômodos que intuía naquela casa, todo mínimo recanto, expandindo-se nos jardins e descendo pela escadaria. E aproximando-se percebeu aquilo que seu coração estava de alguma forma tentando lhe dizer, que na mão esquerda do homem brilhava entre ramos de ouro a pedra verde de um anel, o mesmo anel que ela sentia, pesado e um pouco largo, rodeando seu dedo médio. Naquele dia, sequer pensou em partir. Deixou-se ficar longamente na sala, diante do retrato. Depois vagueou pela casa, atravessou a sombra da magnólia no pátio interno, procurou seu próprio rosto na superfície escura do laguinho, e subiu degraus, desceu degraus, foi às cozinhas, assombrou-se com as enormes pias enxutas, as centenas de pratos empilhados nos armários. Comida não havia, nem cheiro dela. Há muito nenhuma lenha ardia naquele fogão. Mas a figueira fora da porta estava carregada, os figos rachados escorriam mel, e ela fartou- se, bebendo depois água nas mãos em concha. Não ousou servir-se de uma das taças.
  • Page 215chegou, escolheu um prato de porcelana, um delicado cálice de cristal, e sentada sozinha na grande mesa de mármore negro comeu as uvas ainda mornas de sol que havia colhido na parreira, bebeu a água fresca que havia ido buscar na nascente. À noite, deitada na cama, debaixo do dossel, sonhou que o moço entrava no quarto com o mesmo passo anunciado no retrato, e que sentado a seu lado lhe dizia coisas que ainda não entendia, mas que acariciavam, com quanta suavidade, seu coração.
  • Page 216rochedo. Agora, pelas janelas atrás dos reposteiros, o vento queixava-se. A casa fazia-se fria. Mas à noite ela sonhava com o jovem senhor daquelas salas, envolto em um casaco de peles, que lhe abria os braços e a acolhia. E ela se sentia aquecida como nunca havia estado.
  • Do tamanho de um irmãoTinha um irmão pequeno, e mais não tinha. Há muito tempo, desde a morte dos pais, haviam ficado só os dois naquela praia deserta, rodeada de montanhas. Pescavam, caçavam, colhiam frutos e sentiam- se felizes. Na verdade, tão pequeno era o outro, cabendo na palma da sua mão, que o mais velho achava natural tomar para si todas as tarefas. Embora sem nunca descuidar-se do irmão, delicado e único em seu minúsculo tamanho.
  • Page 218E, mesmo de dia, os dois irmãos só pensavam em como ia ser bom, ao escurecer, sentar diante do fogo e falar do mundo que não conheciam. A noite foi ficando melhor que o dia, a imaginação mais sedutora que a realidade. Até que uma vez, o sol quase raiando, disse o pequeno:
  • Page 219As encostas desciam suaves até os vales, e os vales plantados em hortas e campos eram pintalgados de aldeias, casinhas e umas pessoinhas que, ao longe, se moviam. Alegres, os dois irmãos começaram a descer. Desceram e desceram, por caminhos agora à mais fáceis, traçados por outros pés humanos. Mas, estranhamente, por mais que avançassem, as casas e as pessoas não pareciam crescer tanto quanto haviam esperado. Eles estavam cada vez mais perto, e os outros continuavam pequenos. Tão pequenos, talvez, quanto o irmão que, encarapitado no alto, olhava surpreso.
  • Page 220O mundo, descobriu num súbito susto, ao compreender enfim a realidade, era da medida do seu irmão. Então viu que este, tendo falado com as pessoas da casa, voltava até ele estendendo-lhe a mão. O irmão, que sempre lhe parecera tão frágil, o chamava agora com doce firmeza. E ele inclinou-se até tocar a mãozinha, deixando-se conduzir à gente da aldeia, frágil gigante que nesse mundo se tornava único.
  • Na planície, os castelosEra um reino pequeno como um vale. E como um vale, rodeado de montanhas. Altas. Altíssimas. Nesse reino, distantes uns dos outros, mas não tanto que não se pudessem ver, erguiam-se castelos. Altos. Altíssimos. Quase torres. Cada castelo no topo de um morro, cada morro tão corroído por tempo e vento que não tinha mais encostas, só escarpas. E tão improvável subir ou descer pelas trilhas estreitas e interrompidas, à beira de precipícios, que os moradores daqueles castelos ali nasciam e ali morriam, sem aventurar-se fora dos seus muros.
  • Page 222cúpulas, entrando pelas seteiras, metendo-se pelas janelas. Conversas bem visíveis, que cada castelo tecia a seu modo e a seu modo interpretava. Do castelo mais alegre, aquele em que alguns galhos por cima dos muros anunciavam a primavera com suas flores e o verão com seus frutos, partiam mensagens coloridas. Eram bandeiras e bandeirolas que a qualquer hora do dia, de repente, se agitavam, se alternavam, aparecendo e desaparecendo no alto da mais alta torre. O esvoaçar das cores era a voz daquele castelo.
  • Page 223parou no contraforte mais baixo de uma das altíssimas montanhas. E olhou para o vale. Viu um reflexo ofuscante piscar no alto de um castelo. Viu lufadas de fumaça responder-lhe ao longe. Ouviu um som de trombetas partindo de um torreão. O rufar das asas de tantas pombas lhe fez eco acima de uma muralha. E em breve o céu manchou-se de pipas coloridas.
  • Page 224Finda a necessidade de interpretes, a velha que sabia ler bandeiras logo perdeu seu posto. Agora, bastava obedecer com exatidão às regras e eliminar as variantes, para ser entendido de ponta a ponta do vale. Quanto à mensagem alheia, era só limitar-se a compreender o que o outro dizia. Nada mais. Sem acrescentar, sem tirar, sem arredondar nada. Ainda que o que se compreendesse não fosse o que se queria compreender. Ainda que a mensagem não respondesse a qualquer necessidade. Acima da harmonia colocava-se a clareza. A invenção, que nas antigas linguagens era tudo, estava banida. Pareceu a todos muito simples, essa nova linguagem. Muito prática. E até prazerosa. Por algum tempo.
  • Page 225jovens belicosos para falar-lhes de entendimento e paz. Mas o viajante não parou. Nem teria tido paciência de esperar durante um dia inteiro, durante a longa noite que se seguiu, até o alvorecer para, só então, ver subir lá longe, costurando a manhã, um delicado fio de fumaça.
  • Page 226Era Mas ele sabia sonhar ra um ogre parecido com todos os ogres. Mas, diferente de todos os ogres, só se alimentava de sonhos. Nada mais lhe apetecia. Chegava a comer cinco, seis sonhos em cada refeição. E mais teria comido se os tivesse.
  • Page 227de se concretizar. Exaustos, os aldeões cochilavam em meio a suas tarefas. Vários cabecearam durante a pesca e caíram no rio. Outros despencaram das árvores, adormecidos enquanto colhiam frutas. E um dormiu tão fundo, de pé, no meio da trilha da floresta que, quando o tigre o devorou, sonhava talvez ser seu próprio sonho sendo devorado pelo ogre.
  • Page 228havia farejado seu sonho, e ele já despertava. Passou dois dias sem dormir, dessa vez. Mas quando voltou ao sonho a muda de bambu já estava crescidinha e novas brotações lançavam-se pelos lados. Em breve seria uma touceira. Antes disso, bem antes, abriu os olhos e afastou-se do sonho.
  • RegressavaLonge como o meu querer egressava ao castelo com suas damas, quando do alto do cavalo o viu, jovem de longos cabelos à beira de um campo. E embora fossem tantos os jovens que cruzavam seu caminho, a partir daquele instante foi como se não houvesse mais nenhum. Nenhum além daquele. À noite, no banquete, não riu dos saltimbancos, não aplaudiu os músicos, mal tocou na comida. As mãos pálidas repousavam. O olhar vagava distante.
  • Page 230O que o pai pensou, não disse. Mas no dia seguinte, senhor que era daquele castelo e das gentes, ordenou que se decapitasse o jovem e se atirasse seu corpo ao rio. A cabeça entregou à filha em bandeja de prata, ele que sempre havia satisfeito todas as suas vontades. - Aqui tens o que tanto desejavas. E sem esperar resposta, sem sequer procurá-la em seus olhos retirou-se.
  • Page 231No dia seguinte, chamou aquela dama que mais do que as outras lhe era fiel e, pretextando um passeio, saíram juntas além dos muros do castelo. Subiram a cavalo até o alto do monte. As ovelhas pastavam. A castelã cobriu sua saia com o manto, não fossem folhas e espinhos denunciá- la ao pai. Depois, com a ajuda da dama reuniu as ovelhas e, levando o cavalo pelas rédeas, desceu com o rebanho até o redil.
  • Page 232- Mas o mar é tão longe! – exclamou a castelã num lamento. E naquela noite foram dois a suspirar.
  • Page 233Q₁ Nem de jasmim, nem de rosa ue apetecível cozinha, aquela! O forno, grande como uma caverna, luzia em fogo dia e noite, e pães entravam e pães saíam, carregados pela longa espátula dos cozinheiros. Presuntos e salsichas pendiam do teto como bandeirolas. Nos ganchos por cima das bancadas, lebres, patos e cachos de codornas esperavam sua vez de habitar as panelas. Tortas enfeitadas como catedrais luziam neve de açúcar. E pastelões de dois, de três e mais andares, rodeados de frutas e flores, abrigavam todas as delícias.
  • Page 234socorria-se com confeitos, bombons e guloseimas sempre ao seu alcance em caixinhas de prata ou pratinhos de cristal. Algo faltava-lhe, porém. Uma saudade indistinta parecia aninhar-se entre sua língua e o céu da boca, escorregando garganta abaixo e ameaçando-o de eternidade. Gotejava justamente o amargo sabor em direção às vísceras naquela manhã em que, regressando a cavalo de um passeio, o Rei foi alcançado por um perfume. Nem de jasmim nem de rosa vindo de algum jardim. Nem imitação daqueles, exalada por alguma dama. Era um suave, inebriante, tentador perfume de sopa.
  • Page 235camareiros. E viram o Rei farejando o ar, franzindo o sobrolho. E atirando o guardanapo antes mesmo que o pastelão fosse cortado. Demitida a cozinheira, tudo voltou ao antigo rumo entre forno e fogões, enquanto os pálidos dedos do Rei retomavam seu caminho entre prata e cristal. E assim teria continuado se algum tempo depois, voltando da caça, o Rei não tivesse esbarrado com o nariz em outro perfume alentador. Era pão, dessa vez, que um humilde padeiro acabava de tirar do forno. - Quero esse pão e esse padeiro! – exclamou o Rei vendo-o à porta da padaria com as mãos ainda brancas de farinha.
  • Page 236palácio, acompanhado por seus cavaleiros e pela admiração do povo que pela primeira vez o via percorrer ruelas. À noite, porém, uma figura envolta em um manto, com a cabeça coberta por largo chapéu, deixou os salões através de uma passagem secreta, varou as muralhas palacianas, e saiu por uma portinhola atrás da casa da guarda. Esgueirando-se, dirigiu-se para a hospedaria.
  • Naquela cidadeEra só o sol lançar seu primeiro raio por cima dos muros, e abriam- se as portas daquela cidade, deixando sair homens armados. Apenas um punhado cada vez; sem couraça ou elmo, e a pé. Mas comandados por um cavaleiro reluzente, e suficientes para reforçar uma tropa distante, ajudar a tomar um castelo, conquistar uma terra. Nenhum deles estava de volta à tardinha, quando as portas eram fechadas. Outros partiriam na manhã seguinte. Assim é que os homens daquela cidade nunca sabiam se poderiam acabar seu serviço. O carpinteiro talvez deixasse seu lenho por aplainar; naquela cidade, se os homens do rei viessem buscá-lo trocando sua plaina pela espada. Talvez queimasse o pão, no forno daquela cidade, se requisitassem o padeiro arrancando-lhe o avental para entregar-lhe o escudo. A jarra era abandonada no torno, o tecido esquecido no tear, e as mós do moinho rodavam, rodavam, sem que nenhum grão lhes caísse entre os dentes, enquanto o oleiro, o tecelão, o moleiro saíam pela grande porta marchando no mesmo passo.
  • Page 238mulher, a silhueta de outra, escorrendo suas longas saias, esgueirando seus véus, negro sobre o negro avançando na escuridão. Não iam longe, as mulheres. Não faziam grande coisa. Na mão branca, sob as vestes, cada uma trazia um graveto, um só. Que depositava aos pés do palácio do rei.
  • Page 239ninho, como se em seu miolo acordasse incontida fera. E roncando e gemendo e retorcendo-se no ar, a imensa labareda subiu pelos muros, entrou pelas janelas, abocanhou as cortinas, abraçou todo o palácio. Arderam os pergaminhos do rei, o calor secou seus tinteiros. A pena de eganso voltejou por um instante antes de desfazer-se em centelhas. O ouro do sinete escorreu em gotas sobre a mesa. No palácio em chamas, o rei tentava em vão apagar o incêndio com seu cetro, e já o fogo lhe beijava as vestes. Lá longe, no campo recém-conquistado, os homens deitados entre as hastes de cevada viram o horizonte clarear. Mas era do lado do palácio, do lado do poente, e ainda faltava muito para o amanhecer. Então souberam que não haveria outra batalha no dia seguinte. E nem seria preciso esperar o sol, para encontrar o caminho da volta.
  • Luz de lanterna, sopro de ventoE tendo o marido partido para a guerra, na primeira noite da sua ausência a mulher acendeu uma lanterna e pendurou-a do lado de fora da casa. Para trazê-lo de volta – murmurou. E foi dormir. Mas ao abrir a porta na manhã seguinte, deparou-se com a lanterna apagada. “Foi o vento da madrugada”, pensou olhando para o alto como se pudesse vê-lo soprar.
  • Page 241erguida ao lado da sela, os duros contornos da couraça. Era um soldado que vinha. Seu coração hesitou entre o medo e a esperança. O fôlego se reteve por instantes entre os lábios abertos. E podia ouvir os cascos batendo sobre a terra, quando começou a sorrir. Era seu marido que vinha. Apeou o marido. Mas só com um braço rodeou-lhe os ombros. A outra mão pousou na empunhadura da espada. Nem fez menção de encaminhar-se para a casa.
  • Page 242silhueta de um homem. Um homem a pé que caminhava na sua direção. Protegeu os olhos com a mão para ver melhor e aos poucos, porque o homem avançava devagar, começou a distinguir a cabeça baixa, o contorno dos ombros cansados. Contorno doce, sem couraça. Hesitou seu coração, retendo o sorriso nos lábios – tantos homens haviam passado sem que nenhum fosse o que ela esperava. Ainda não podia ver-lhe o rosto, oculto entre barba e chapéu, quando deu o primeiro passo e correu ao seu encontro, liberando o coração. Era seu marido que voltava da guerra.
  • Rio abaixo, rio acimaSuado depois de longa caçada, um deus banhou-se no rio. E, em recompensa pelo refrigério, cada minúscula gota do seu suor fez-se ouro. Ouro escorreu brilhante pelo corpo do deus, dourando a areia a seus pés, os pequenos seixos, as escamas dos peixes, os juncos das margens, e a água toda ao redor. Assim aconteceu que o rio escorresse azul até aquele exato ponto, para tornar-se a partir dali cintilante como uma lâmina, corrente feita de tantos pequenos pontos preciosos, tantas minúsculas pepitas que revolteando e sem se esgotar fluíam rumo ao mar.
  • Page 244lançavam às margens com baldes e panelas, uns poucos providenciavam pedras e tijolos, carroças e argamassa, para erguer uma barragem. Não demorou muito, o rio estava represado. Agora nenhuma gota passaria dali. A riqueza estava presa. E cada cidadão passou a recolher diariamente sua parte, enchendo jarros, potes, tigelas e pratos fundos, abarrotando cofres e baús.
  • Page 245passantes se juntavam ao seu redor. - Represei o rio para erguer um lindo monumento de ouro na cidade gritou ainda, tratando de fazer estremecer a voz como se estivesse à beira do pranto. - E meus filhos gananciosos quiseram ficar com o rio só para eles.
  • As janelas sobre o mundoPorque queria ver um mundo novo a cada dia, aquele Rei mandou construir um palácio com 365 janelas. Sem que nenhuma tivesse a mesma vista da outra. Esmeraram-se os arquitetos para obedecer à sua vontade. E, um tijolo após o outro, o palácio foi crescendo cheio de quinas, de lados, de torres, de terraços e de janelas, janelas, janelas.
  • Page 247subitamente o invadia. E apoiando os cotovelos no mármore, deixou- se ficar ao longo de todo o dia contemplando-a, alheio às tarefas da corte. Ao cair da tarde a moça retirou-se. A janela foi fechada. O Rei bem que desejou mandar abri-la na manhã seguinte. Mas nas outras janelas o mundo inteiro esperava por ele. E o Rei disse a si mesmo que talvez a moça nem viesse naquele dia. E disse ainda que poderia encontrá-la em alguma das próximas paisagens. E perguntou- se de que valeria ter um palácio com 365 janelas se só se debruçasse em uma delas. Então mandou o Camareiro abrir a próxima janela e nela se debruçou.
  • Page 248Não estava naquela manhã. Não veio à tarde. À noite certamente não viria. O Rei sequer mandou fechar a janela.
  • Grande delicadeza, perfumadas floresInclinando-se diante do Rei, o Embaixador chinês estendeu o presente enviado por seu monarca. Uma caixa de laca, quadrada. Aberta a tampa, outra caixa. Quadrada também, mas de leve madeira entalhada, quase renda. E dentro dessa, ao fundo, um vaso pequeno de porcelana do qual despontava uma muda. – Raríssima espécie de magnólia, trazida de vale distante – disse o Embaixador prostrado. - Grande delicadeza, perfumadas flores.
  • Page 250Palácio transparente, etéreo, em que as folhas brilhantes moviam-se lentas, quase sem farfalhar, mas abrigavam pássaros. E onde do alto de cinco torres os Vigias da Magnólia cuidavam de que nada lhe faltasse, e a cada primavera anunciavam sua brotação. Era então que o Rei e suas esposas, acompanhados de alguns cortesãos privilegiados, mudavam-se para o palácio da magnólia. Tapetes, coxins, e a densa sombra. Não apenas da árvore. Mas da própria estrutura do palácio. Pois, embora vazado, permitindo que o mundo externo fosse visto em tantos pedacinhos, como um mosaico, nenhum raio de sol penetrava nos entalhes, e os postigos inclinados protegiam as janelas. A planta não corria riscos.
  • Page 251Debruçavam-se do alto os Vigias, a corte olhava de baixo. Um galho pareceu espreguiçar-se, estendeu-se, cresceu, projetou-se para fora de um postigo. Um outro meteu-se pelo rendilhado, estilhaçando madeiras. E outro, e outro, lançaram-se para fora empurrando, forçando, derrubando. O telhado da estufa caiu com um cascatear de sarrafos. Ripas rebentaram. As paredes destroçadas mal e mal se mantinham de pé. A magnólia expandia-se em pleno sol. Temeu por ela o Rei, cochichou assustada a corte. À sombra que agora era só das folhas, esperaram.
  • Page 252Vigias se esforçassem, não foi possível anunciar a brotação. Os galhos que ninguém havia envolto em lãs continuaram despidos, os pássaros não vieram procurá-los, e a magnólia vinda do Oriente, planta de grande delicadeza, não acordou.
  • Com sua voz de mulherAquele deus era dono daquela cidade como um mortal seria dono de fazenda ou sítio. Não era grande a cidade. O templo, casas, e campos ao redor. Mas porque era dono daquela cidade, o deus era também responsável pela felicidade dos seus habitantes. E um dia, pelas preces, percebeu que os habitantes não eram felizes. - Nada lhes falta - disse o deus, em voz alta. - Cuido para que as estações se sigam em boa ordem. Garanto-lhes colheita no campo e comida na mesa. Nenhum grão apodrece nas espigas. Nenhum ovo gora nos ninhos. E seus filhos crescem. Por que então não são felizes? Porém os homens desconhecem as perguntas dos deuses. E embora
  • Page 254tivesse falado em voz tão alta que poderia ser ouvida de uma estrela a outra, ninguém lhe respondeu. A cidade estava na palma da mão do deus. E ainda assim tão longe que ele não via os sentimentos daquelas pessoas - Irei até lá - disse a alta voz. - Entre eles, verei melhor o que se passa.
  • Page 255em suas sandálias. E os filhos cresciam como crescem filhos que não têm doenças. Porém, pouco sorriam. Cumpriam suas tarefas de dia. À noite juntavam-se no estábulo para aproveitar o calor dos animais. As mulheres fiavam. Os homens consertavam ferramentas ou faziam cestos. Ninguém falava. As noites eram longas depois de longos dias. Os humanos se entediavam. Até mesmo o deus, de fuso na mão, se entediava. E uma noite, não suportando a mesmice dos gestos e do silêncio, abriu a boca e começou a contar.
  • Page 256noite apresentou-se com os seus no estábulo para também ouvir. E depois foi a vez do vizinho do lado. E em pouco tempo o estábulo estava cheio, e pessoas amontoavam-se nas janelas e porta. Agora, durante o dia, enquanto aravam, martelavam, enquanto erguiam o machado, os homens lembravam-se das histórias que tinham ouvido à noite, e tinham a impressão de também navegar, voar, cavalgando trovões e nuvens como aquelas personagens. E as mulheres estendiam lençóis como se armassem tendas, repreendiam o cão como se domassem leões, e atiçando o fogo chuçavam dragões. Até o pastor com suas ovelhas não estava mais só, e as ovelhas eram sua legião.
  • 23 histórias de um viajanteTão altas as muralhas ao redor daquelas terras. Altas como despenhadeiros, escuras como rochas. Quem mora atrás daquelas muralhas? Um moço príncipe e sua pequena corte. Por que tão altas, se é pouca a gente? Porque o moço tem medo. Viu seu avô voltar ensanguentado da batalha. Viu seu pai ser abatido em torneio. Viu feridas abertas nos corpos dos seus tios. A história da sua coroa foi escrita mais com a espada que com a pena. E a espada plantou o medo no seu coração.
  • Page 258presença correu pela alta aresta, mensageiros foram enviados com urgência ao castelo. E o príncipe logo soube, um estrangeiro bordejava suas defesas. Quando o destino de olhos amarelos chegou diante dos grandes batentes, estava sendo esperado pelo lado de dentro. Bateu. Uma mínima seteira foi aberta.
  • Page 259medida que os sentia solicitados pelo interlocutor. Falaram longamente, quase esquecidos da comida. As taças já estavam vazias e os músicos cansados, quando o príncipe pediu ao viajante que contasse para seus convivas uma das tantas histórias que certamente havia escutado ou presenciado em suas andanças.
  • A Morte e o Rei1a história do viajante Noite, ainda não. Mas as nuvens tão escuras, que era como se fosse.
  • Page 261À noite, a Sussurrada novamente dirigiu-se ao Rei. - Senhor, em minha morada esperam por nós.
  • Page 262castelo. E na sala, agora desguarnecida de seus cavaleiros, o Rei assinou o tratado de paz. Molhada ainda a tinta, já a Insaciável se adiantava, lembrando ao Rei que uma outra viagem o aguardava.
  • Page 263Uma acha desabou em brasas na lareira. O silêncio fundia-se na penumbra. A história pareceu pairar sobre os comensais, dissolvendo-se lentamente. Todos os olhares voltavam-se para o príncipe, sem que ninguém ousasse pronunciar as primeiras palavras. - Que meu cavalo esteja pronto amanhã cedo - disse então este em voz alta, e era uma ordem. Depois, voltando-se para o viajante: - Irei consigo até nossa fronteira mais distante. Será uma boa oportunidade para visitar minhas terras. E haverá tempo para que me conte outras histórias.
  • No aconchego de um turbante2a história do viajante O único filho do velho vizir não demonstrava ter herdado a sabedoria do pai. Com a morte deste, porém, herdou-lhe toda a fortuna.
  • Page 265possibilidade de instalar-se sem delongas. Num último bater de asas, pousou bem no meio do turbante, eriçou as penas espantando a poeira da viagem, dobrou as longas pernas, ajeitou-se, e fechando as pálpebras pálidas adormeceu. Paralisado de surpresa, o filho do vizir perguntava-se o que fazer. Espantar animal tão benfazejo era impensável, não se enxota a boa sorte que nos escolhe. Compartilhar com ela o turbante parecia impossível. De momento, porém, não havia outra solução à vista. Não seria por muito tempo, pensou o jovem. Quando a cegonha acordasse, certamente buscaria pouso mais conveniente, uma boa chaminé, um topo de telhado, uma árvore.
  • Page 266torneios ou caçadas, deixava expandir seus pensamentos, refletia. E os serviçais surpreenderam-se vendo-o ocupado em leituras. Depois um dia, de repente, um estremecimento no alto, um seco estalar, e eis que a cegonha havia colhido com o bico a bela esmeralda que arrematava o turbante. Em vão o filho do vizir alongou o braço apalpando. Ela a havia metido debaixo de si juntamente com seus próprios ovos, e revidava a bicadas qualquer tentativa de invasão. Caído o penacho, perdida estava toda elegância.
  • Page 267Pensando nisso talvez, o jovem filho do vizir deteve o gesto com que se preparava a desfazer as espirais puxando a ponta da longa seda. Com extrema delicadeza tirou o turbante inteiro da cabeça, e mandou que assim como estava fosse depositado no mais alto telhado do palácio.
  • Page 268Foi um bom sono o que acolheu o príncipe naquela noite. Perpassado de sedas e aves brancas, pareceu até mesmo ter perfume, de açafrão ou rosas. E eis todos novamente a cavalo cortando o ar fino, pisoteando a vegetação encharcada de orvalho, rumo à fronteira ainda invisível, ainda distante. que As terras do príncipe eram belas e vastas. Terras que ele, quase sempre trancado no castelo, pouco conhecia e que via agora com olhar novo, como se as descobrisse. A manhã pareceu pequena para tanto verde. E parando a comitiva para descansar, um cavaleiro havia trazido seu falcão tirou-lhe o capuz para que fosse à caça, com as tirinhas de couro adejando no ar, seu grito agudo alertando o espaço. O que ele trouxe foi assado nas brasas, para o almoço. E sentados todos ao redor em partilha de carnes e conversas, pediu o príncipe mais uma história, que lhes viesse pela voz do viajante como a caça havia chegado pelo bico do falcão.
  • São os cabelos das mulheres3a história do viajante Naquela aldeia de montanha perdida entre neblinas, a chuva havia começado há mais tempo do que era possível lembrar. Só água vinha do céu, em fios tão cerrados que as nuvens pareciam cerzidas ao chão. As plantações haviam-se transformado em charcos, as roupas já não secavam junto aos fogos fumacentos, e pouco ou nada restava para comer.
  • Page 271encontravam de repente enroscadas no cabo de uma enxada, no fundo de um cesto, ou brilhando entre os sulcos. Eram tantas. De nada adiantava caçá-las; cortadas ao meio ou degoladas por facão ou foice multiplicavam-se, cada parte adquirindo vida própria e afastando-se como se recém-saída do ovo. Quase não lhes bastassem os campos, começaram a deslizar em direção à aldeia. Em breve bastou afastar um móvel, abrir um armário, para encontrar uma serpente enovelada. Qualquer cobertor, qualquer travesseiro, qualquer manta ou almofada podia ser seu ninho. E entre as achas de lenha, entre as talhas de azeite, entre os gravetos e as cinzas do fogão, entre os grãos nas despensas, por toda parte e em todo canto cobras ondulavam suas espirais.
  • Page 272cobrindo as orelhas. A mãe colheu um fio, enfiou-o numa agulha. Todos olhavam. Todos viram a mãe levantar uma pedra, suspender a serpente que ali se abrigava e, com pontos firmes, coser-lhe a boca. Todos viram a serpente afastar-se deslizando ladeira abaixo. O rabicho da menina já era apenas um fio quando a última ondulação negra desceu a encosta e a grama fechou-se sobre o seu rastro.
  • Page 273Pela primeira vez, o príncipe demorou-se a pensar nas toucas bordadas e adornadas de véus que encobriam os cabelos das mulheres da sua corte. Aquilo que havia considerado bonito parecia-lhe agora represar beleza maior. E lembrou-se de cabelos longos vistos na infância, e teve desejo de afundar os dedos naqueles cabelos. Pensou neles outra vez quando cruzaram um riacho e viu a água enlaçar os jarretes dos cavalos. Olhou ao longe. Além da sua fronteira havia altas montanhas. Choveria muito nos cimos encobertos pela neblina?, perguntou-se.
  • Como cantam as pedras4a história do viajante Era um guerreiro grande e sólido como uma montanha, que regressava à sua casa depois de muitas e muitas batalhas. A terra tremia debaixo dos seus passos.
  • Page 275deserto. Mas isso ele não sabia. Sabia, com súbita clareza, que estava aprisionado dentro de si, sozinho no escuro, vivo caroço de dura fruta. E que talvez ninguém viesse devolvê-lo ao sol. Então, para não estar tão só, pôs-se a cantar.
  • Page 276poços? Onde estavam as mulheres de ancas largas e cântaros na cabeça, as crianças, as crianças todas, os homens com seu pesado andar de pés calçados, e os animais? Onde estavam os animais, os pássaros e os burros, os cães e os gatos, os bois, os avestruzes? Girava a cabeça e só via areia e pedras, areia e pedras e morros de pedras ao longe. Onde, onde estavam todos os seus? O guerreiro que havia vencido tantas batalhas gritou, amaldiçoou o tempo, agitou os braços, chamou. Depois, dobrado sobre os joelhos, chorou.
  • Page 277Ventava de leve na escuridão. Era o mesmo vento que nas noites de inverno passava cantando entre as ameias do castelo, sem que o príncipe se detivesse a decifrá-lo. Agora, no entanto, o ouvia como a uma voz. Saberia ouvir o silêncio das pedras? Protegido pelas muralhas em seus domínios, ainda assim não era um guerreiro desde sempre adormecido. Ao nascer do sol, retomaria a viagem. A mesma viagem, embora atravessando novos lugares e detendo-se um pouco mais adiante. Ele também seria o mesmo homem, embora mudado por mais um dia de vida e uma noite de sono. Tão pouco mudado que ninguém, nem ele, saberia a diferença. E, no entanto, já não exatamente o mesmo.
  • Com certeza tenho amor5a história do viajante Moça tão resguardada por seus pais não deveria ter ido à feira. Nem foi, embora muito o desejasse. Mas porque o desejava, convenceu a ama que a acompanhava a tomar uma rua em vez de outra para ir à Igreja, e a rua que tomaram passava tão perto da feira que seus sons a percorriam como água e as cores todas da feira pareciam espelhar-se nas paredes claras. Foi dessa rua, olhando através do véu que lhe cobria metade do rosto, que a moça viu os saltimbancos em suas acrobacias.
  • Page 279- Que tens? - perguntaram-lhe os irmãos. - Acho, não sei... - respondeu ele abaixando a cabeça sobre o seu rubor creio... que tenho amor.
  • Page 280galgando seus irmãos um a um. No alto, a janela se abriu.
  • Page 281Uma bela certeza para se ter, pensou o príncipe sentindo o peito subitamente pesado de interrogações. E em silêncio e segredo, os cavaleiros ao redor interrogaram suas vidas para saber se a continham. Calados, todos. As pálpebras do viajante tão apertadas que parecia dormir. E passados alguns minutos, talvez estivesse. Chovia de manhã quando acordaram. Ainda seguiram viagem durante algumas horas, mas os mantos faziam-se pesados, as gotas frias eram agulhas contra o rosto e, atravessando uma aldeia, concluíram que abrigar-se seria o melhor. Não havia pressa de chegar. Só o estranho tinha uma meta além da fronteira.
  • Rosas na cabeceira6a história do viajante Mulher de cadeiras largas, sem esforço pariu o primeiro filho na cama que havia sido da sua família. Oferecia-lhe o peito ainda deitada, quando a vizinha veio visitá-la. Debruçou-se elogiando o pequeno, entregou à mãe a laranja que havia trazido, e cedo despediu-se. Mas ainda na porta voltou-se, olhou a cama.
  • Page 284na terra escura, e enterrou as moedas. Passadas algumas semanas, como saber, entre tantas plantas, que uma muda despontava no lugar da terra mexida?
  • Page 285Deitado na cama ainda fria, o príncipe puxou para junto do pescoço o cobertor de peles. - Não se rodeia de muros uma cama - pensou antes de fechar os olhos - nem é possível saber o que germina na escura terra do nosso quintal. E ouvindo a chuva, deixou-se ir na mansidão do sono. Choveu também no dia seguinte e nos dois que vieram depois. Os cavalos esperavam mastigando seu feno, cochilando de pé. Um deles sangrava de leve no pescoço, onde um morcego vinha pousar no escuro. Lá dentro, os homens aquecidos pelas brasas e pela companhia deixavam o tempo passar, sem cuidar das horas. Apenas, um ou outro metia por vezes o rosto pela fresta da porta, olhando ora na direção das nuvens, ora na dos cavalos, ora na do horizonte. Mas embora ao cabo daqueles dias o sol se levantasse no horizonte três vezes precisas, ainda que encoberto pela neblina, lá dentro se punha sem ter-se levantado ou se levantava várias vezes ao dia, obedecendo não ao tempo, mas à desordenada ordem das narrativas.
  • Na sua justa medida7a história do viajante Filho primeiro e único de nobre família, com a morte do pai herdou o brasão, as terras e os bens. Era um belo brasão. E as terras eram vastas e férteis. Mas os bens, ah! os bens podiam ser considerados quase males.
  • Page 287solução. Haveriam de fazer um palácio completo, elegante, nobre, mas em tamanho reduzido. Um palácio dos grandes, pequeno. E assim foi feito.
  • Page 288moradores, o Senhor sentia-se quase espremido. Aquela cidade ia-lhe justa demais, como uma roupa alguns números menores. Uma sala apertava-lhe os ombros, um beco lhe roçava os quadris, os degraus eram sempre mais curtos que seus pés. Mas era linda. Era sua. E, para consolar-se, pensou que emagrecer lhe faria bem.
  • Page 289O Bobo não entendia. Temeu por instantes que o Senhor quisesse expulsá-lo ou usurpar o seu ofício. Mas, pelo rosto sorridente do novo patrão, entendeu que nada precisava fazer para alegrá-lo. Na praça, pararam. O patrão mandou que se aproximasse da estátua, ao centro, e ficou ele mesmo num canto, olhando, olhando aquela amplidão com que tanto havia sonhado.
  • Quem me deu foi a manhã8a história do viajante Foi uma moça lavar suas anáguas no rio. Espuma de rendas, espuma de águas. Depois deitou-as sobre a grama para secar. E da grama uma salamandra levantou a cabeça e perguntou:
  • Page 291mordendo o próprio rabo, deixou-se ficar. Era lisa e verde como esmeralda. Porém, com medo da picada, a moça não ousou tocá-la. E voltou para a aldeia.
  • Page 292naquela aldeia, afirmou este. A moça só podia tê-las roubado, concluíram todos. E, expedida a ordem, foram os esbirros buscá-la em sua casa e a trouxeram até a cela. Nas joias ninguém se atreveu a tocar, serviriam como evidência. As paredes da cela eram espessas, as grades da janela eram grossas, mas o falatório do povo ali embaixo chegava até a prisioneira. Aos poucos porém, fez-se escuro, as vozes foram se afastando. Silêncio e sereno pousaram enfim na praça. A noite havia chegado.
  • Page 293atada sobre os feixes de lenha. O povo na praça ergueu os braços celebrando a primeira labareda. A cabeça da moça pendia de lado. A fumaça se expandiu, pessoas tossiram na assistência. E logo todos os feixes arderam ao mesmo tempo, refletidos nos olhos da multidão.
  • A cidade dos cinco ciprestes9a história do viajante Não era um homem rico. Nem era um homem pobre. Era um homem, apenas. E esse homem teve um sonho.
  • Page 295altíssimo seu coração. E embora tão cansado o cavalo, pediu-lhe um último esforço. Ainda hoje te darei cocheira e palha fresca na minha cidade, prometeu sem ousar cravar-lhe as esporas. Foram a passo. Porém, desbastando a distância, percebeu o homem que não poderia cumprir a promessa. Nenhum perfil de telhado, nenhuma quina de casa, nenhum muro denteava o alto da colina. Galgaram lentamente a encosta sem caminhos. No topo, cinco ciprestes reinavam altaneiros e sós. Não havia cidade alguma.
  • Page 296- Curioso - disse o príncipe -, algum dia, sei lá quando, ouvi uma história semelhante. Não igual a essa, certamente, mas uma história assim, de tesouro à espera. E de cinco ciprestes. Talvez os cinco ciprestes fossem dez, ou então são duas cidades de cinco ciprestes que moram na minha memória. Mas de uma coisa estou seguro, já estive nessas cidades. - E não estivemos todos? - os olhos amarelos pareciam sorrir. - Não seria a vida de todos nós - e fez um gesto largo com a mão abrangendo os cavaleiros que ouviam atentos – a procura de um tesouro, o raro tesouro da felicidade? - Mas o tesouro - rebateu um dos cavaleiros - nem todos o encontram à sombra de cinco ciprestes.
  • Entre eles, água e mágoa10a história do viajante Dois rios se cruzam em uma terra distante, exatamente como se cruzariam duas ruas de uma cidade. E nas quatro esquinas que a água aparta começam - ou acabam, dependendo de onde se olha - quatro pequenos países.
  • Page 298espera que seu ocupante não demore a chegar. Que diferença do castelo da dama! Suas torres são delgadas como agulhas, nos muros finos abrem-se janelas, e lá onde não se vê porque ainda não foi feito, haverá um viveiro para pássaros grande como um jardim. Muitos trabalham na construção, martelando, desenhando, esculpindo, porque a dama quer seu castelo recortado e leve como uma renda.
  • Page 299dono de dois reinos, a dama não terá motivo para recusá-lo como esposo. Torre e balcão do jovem, porém, ainda não foram construídos, e a dama desconhece o desejo que lhe acende o peito. Enquanto ele só pensa nela, ela só pensa em ver-se livre de tantos príncipes, monarcas, conselheiros, nobres que a rodeiam, insistentes como insetos, insinuantes como raposas, querendo casar com ela para possuir sua coroa e seu castelo.
  • Page 300- Sim - pensa ainda, astuto - eu poderia ir livrá-lo dos ruivos, e depois cobrar o reino dele como agradecimento. Mas seria um bote e um troco. Só isso. Por que ganhar um reino quando o destino me oferece dois? O destino, segundo ele, deixou desguarnecido à sua espera o reino dos irmãos invasores. Atacá-lo enquanto estão ausentes, será lucro certo e risco algum. Depois, quando eles descerem para recuperar o que era seu, deixarão desprotegido o reino do fracote, e será hora de apossar-se daquele, enviando logo reforços abaixo para dar cabo, de uma vez por todas, dos seis desastrados. Do reino da dama se ocupará no fim, como de um doce.
  • Page 301Corre a água entre quatro reinos levando o tempo. Nas margens, só dois castelos avançam em sua construção. Sobre os outros dois, abandonados, avança a hera.
  • Page 302Costeavam um rio. Na margem oposta, um gamo, debruçado sobre a água, bebia. - A mesma água que eu beberia deste lado, se tivesse sede - disse o príncipe, como se pensasse em voz alta. - E no entanto, ele próprio não bebe dois goles da mesma água.
  • Na neve, os caçadores11a história do viajante Curvados urvados ao peso das roupas pesadas e do cansaço, escuros como troncos, três caçadores avançam afundando na neve, a caminho de casa.
  • Page 304aproxima um lado do talho ao outro lado. A ferida continua aberta e sangra. Lá fora, a paisagem vai mudar nos meses seguintes. O lago irá beber sua casca de gelo, a neve se fará fina até deslizar em regatos, as nuvens se abrirão rendadas deixando penetrar o sol. O inverno passará adiante em busca de outras terras para esfriar.
  • Page 305nos lábios o frescor da louça. Quer mais? - pergunta ela. Os olhos sorriem. -Não, obrigado.
  • Page 306Cavalgavam na última luz. Os tordos, ou que outros pássaros vivessem ali, já se haviam recolhido. Mas antes mesmo de apear, como se desejasse interpor um tempo mais longo entre suas palavras e o sono, o homem dirigiu-se ao príncipe em voz baixa, deitando a seus pés um brilho de sangue e espada.
  • Como se fosse12a história do viajante De nada adiantou a couraça contra o fio da espada. O sangue jorrou entre as frestas metálicas e o jovem rei morreu no campo de batalha. Tão jovem, que não deixava descendente adulto para ocupar o trono. Apenas, da sua linhagem, um filho menino.
  • Page 309lhe valesse a couraça. Antes que fechasse os olhos, acercaram-se dele seus capitães. Retiraram o elmo. O sangue escorria da cabeça. O rei ofegava, parecia murmurar algo. Com um punhal cortaram as tiras de couro que prendiam a máscara. Soltou-se pela primeira vez aquele rosto pintado ao qual todos se haviam acostumado como se fosse carne e pele. Mas o rosto que surgiu por baixo dele não era um rosto de homem. A boca de criança movia-se ainda sobre mudas palavras, os olhos do rei faziam- se baços num rosto de menino.
  • Page 310Sons de lâmina contra lâmina ecoaram na lembrança do príncipe. Filho menino havia sido ele também, de pai morto a despeito da couraça. - Uma máscara é proteção de nada, que não defende contra gume e fio - disse depois de algum tempo, como se voltasse.
  • Antes que chegue a manhã13a história do viajante Acabada a sopa de nabos, um ferreiro cochilou por instantes junto ao fogo, depois foi deitar-se ao lado da esposa, soprou a vela e adormeceu.
  • Page 312A comitiva avançava, mas sem pressa. Pois não havia dito o jovem senhor daquelas terras que queria visitá-las? E as visitava com vagar. Atardavam-se costeando rios que deveriam apenas atravessar, alcançando, para caçar, pequenos bosques que os desviavam do caminho, alongando em curvas um percurso que teria sido bem menor em linha reta. Observando os rumos daquele punhado de homens montados, que os serviçais a pé e algumas mulas acompanhavam, qualquer um diria que a demora era intencional.
  • De muito procurar14a história do viajante Aquele homem caminhava sempre de cabeça baixa. Por tristeza, não. Por atenção. Era um homem à procura. À procura de tudo o que os outros deixassem cair inadvertidamente, uma moeda, uma conta de colar, um botão de madrepérola, uma chave, a fivela de um sapato, um brinco frouxo, um anel largo demais.
  • Page 314Estava justamente deitando-se, na noite em que bateram à porta. Acendeu a vela. Era um moço. Teria por acaso encontrado a sua chave? perguntou. Morava sozinho, não podia voltar para casa sem ela.
  • Page 315Assim, pela primeira vez, o homem passou a procurar alguma coisa que e não sabia como fosse. E para reconhecê-la, caso desse com ela, levava consigo a mulher. Saíam com a primeira luz. Ele trancando a porta, ela já a esperá-lo na rua. E sem levantar a cabeça – não fosse passar inadvertidamente pelo juízo perdido o homem começava a percorrer rua após rua.
  • Page 316grama, colhida agora entre dois dedos, o homem havia encontrado a primeira violeta da primavera. E quando levantou a cabeça e endireitou o corpo para oferecê-la a ela, o homem soube que ele também acabava de perder o juízo.
  • De torre em torre15a história do viajante Tudo era veludo, ouro e farfalhar de sedas naquele casamento. A noiva, tão jovem! Depois, os esposos sentados à mesa do banquete. E os músicos, as carnes, o vinho derramado nas toalhas.
  • Page 319isolada, em cujo quarto mais alto ela haveria de permanecer trancada para sempre. Não disse, mas fez dizer, que a jovem havia enlouquecido. Só quando viu a sombra dela por trás da janela gradeada no topo da torre, o castelão vestiu novamente a couraça. Outras batalhas o esperavam.
  • Page 320menos sorridente. Que como as outras foi deixada sozinha longamente, e em seguida trancada em sua torre. Sozinho um homem não pode ficar. Houve outras esposas.
  • Page 321Entre uma curva e outra, entre um jogo de dados e uma disputa de arco e flecha, os contos escorriam para dentro da viagem...
  • Quase tão leve16a história do viajante Naquela manhã de primavera o inesperado aconteceu, o velho monge não conseguiu voar. Havia feito suas abluções, havia meditado longamente e longamente repetido as palavras sagradas. Havia elevado o espírito, mas o corpo, ah! o corpo não abandonara seu peso. Com certeza, pensou o velho penitenciando-se, faltou-me a fé. E humildemente voltou a purificar-se na água gelada e, nu no ar cortante, orou até sentir-se tomado pelo calor de mil sóis. Mas, luminosa embora sua alma, não houve meio do corpo pairar acima do chão.
  • Page 323velho recomeçou a andar. Caminhando, olhava o céu ao qual sentia não mais pertencer. Ouviu o grito do gavião e o viu abater-se, altivo e feroz, sobre uma presa. Até ele, que agride os mais fracos, tem o direito que eu não mereço, pensou contrito. E mais andou. Viu o azul cortado por um bando de patos selvagens em migração. Lá se vão, de uma terra a outra, de um a outro continente, disse em silêncio o velho, enquanto eu não sou digno nem de mínimas distâncias. E mais andou. E viu as andorinhas e viu o melro e viu o corvo e viu o pintassilgo, e a todos saudou, e a todos prestou reverência.
  • Page 324... e incorporados à viagem, se confundiam com ela.
  • Do seu coração partido17a história do viajante Sentada junto à sacada para que com a luz lhe chegasse a vida da rua, a jovem costurava o longo traje de seda cor de jade que alguma dama iria vestir.
  • Page 327- Senhor! Senhor! – gritou ela, mas nem tão alto, que não lhe ficaria bem. E agitava o braço. O mancebo não chegou a ouvir. Afinal, não era o seu nome que chamavam. Mas voltou-se assim mesmo, voltou-se porque sentiu que devia voltar-se ou porque alguém ao seu lado virou a cabeça de súbito como se não pudesse perder algo que estava acontecendo. E voltando- se viu, debruçada no alto de uma sacada, uma jovem que agitava o braço, uma jovem envolta em sol, cuja trança pendia tentadora como uma escada. E aquela jovem, sim, aquela jovem o chamava.
  • Um homem, frente e verso18a história do viajante Engolia sua magra refeição e despedia-se da mulher e dos filhos como se não fosse voltar. Ia ao campo. E no campo, inclinado sobre a terra, como saber quando um tigre se aproximaria silencioso por trás, preparando o bote?
  • Page 329falso rosto medonho. Quando virou a cabeça, um corpo listrado fugia entre bambus. - Covarde! - gritou o homem em sua direção. – Covarde! – repetiu com voz já toldada, erguendo os braços em gesto de vitória.
  • Page 330Atravessavam uma floresta. Sem feras, que ali não as havia, um ou outro lobo, talvez, javalis. Nenhum tigre lhes saltaria às costas. E no entanto, avançando na penumbra lançada pelas copas fechadas, entre as colunatas dos troncos, todos aqueles homens valentes sentiam-se perpassar por uma ponta de estremecimento, cada qual levando seu próprio tigre no peito.
  • O riso acima da porta19a história do viajante Um homem foi condenado a morte por um crime que não havia cometido. Havia cometido outros em sua vida, mas não aquele. Assim mesmo foi decapitado, e sua cabeça pendurada pelos cabelos acima da porta da sua casa, para que todos soubessem o destino que aguardava aqueles considerados culpados pelo rei.
  • Page 333machado que utilizava há muito havia perdido o fio, o cabo era áspero, e ele o manejava apenas para livrar-se da tarefa, sem pensar na qualidade do serviço ou em poupar sofrimento a quem, ajoelhado, esperava a lâmina. Mas voltando para casa aquela noite, inflado de orgulho, relatou à família o fato que punha em outra luz o seu trabalho. E terminado o jantar, levantou-se para ir afiar o machado.
  • Page 334para o outro lado da vida, o pai havia finalmente percebido o quanto ela era doce e valente. Seu riso lhe dizia agora que ele não mais lamentava não ter tido um filho varão, mas exibia ao mundo sua alegria por ter tido uma filha a enriquecer-lhe a vida. As primeiras nuvens anunciando a chuva acavalavam-se no horizonte, quando veio a passar por aquela rua o autor do crime pelo qual o homem fora condenado. E olhando para o alto, viu a cabeça que havia rolado sob o machado em lugar da sua. O sorriso do outro o feriu como lâmina.
  • Page 335Mas, apesar da demora, apesar dos pequenos subterfúgios para atrasar a hora da chegada, via-se ao longe uma cordilheira escura barrando o caminho, e não era cordilheira que se pudesse escalar. Era a muralha da fronteira, para a qual se dirigiam desde o início.
  • Poça de sangue em campo de neve20a história do viajante Desde pequena gaguejava. A mais simples palavra era corredeira que a arrastava ricocheteando entre letras e sílabas, distante, tão distante o ponto de chegada. E as frases, ah! as frases não eram para ela. Que diferença do seu pensamento fluido, da limpidez dos diálogos que armava na imaginação. Mas ninguém ouvia seu pensamento, e aos poucos ela havia se tornado esquiva e solitária.
  • Page 337Ao contrário do pai, ela não levava instrumento. Seu instrumento era a sua própria voz. Pois impedida de falar como todos, menina ainda, havia povoado sua solidão cantando como ninguém, e era cantando que se comunicava. Agora, chegando a cidades e povoados no dorso do urso, cantava pelas ruas anunciando o seu número, chamando para a feira. E as pessoas acorriam atraídas por aquela voz de guiso e pássaro, para ver como em meio à praça um urso dançava acompanhando-a com graça inesperada. Findo o número, moedas tilintavam sobre o lajeado. Com sua primeira moeda de prata a moça do urso comprou um xale bordado, com sua primeira moeda de cobre comprou uma flor de seda vermelha que prendeu na ponta da trança.
  • Page 338Que moça era aquela que cantava como os outros falam? Vinda da lembrança uma voz chamava. E era mel. Uma ordem a mais nada significava para o Senhor. Que se encontre a moça! ordenou no dia seguinte. Queria tê-la para si.
  • Page 339Só então, com sua voz de canto, chamou o amigo. Chamou e chamou, até que ele se pôs de pé, sacudiu a cabeçorra e ofereceu-lhe o dorso. Como haviam feito ao longo de tantos caminhos, afastaram-se os dois ondulando, percorreram corredores, desceram escadarias, cruzaram jardins deixando na grama a marca de pesadas patas, e chegaram à estrada.
  • Page 340Abancados diante da caça que acabava de ser assada, hesitaram ainda alguns minutos antes de começar a comer, como se dando tempo para que um urso amestrado se afastasse com sua delicada carga. E já ia o viajante dar início a mais uma narrativa, quando foi retido por um gesto do Senhor.
  • Vermelho, entre os troncos21a história do viajante Os cães à frente. E os jovens a cavalo, e o tinir dos metais. Vozes ao vento. Entre os troncos escuros, o vermelho galopa. A caçada invade com seus sons a floresta.
  • Page 342Jaz a mulher de borco. Das suas costas, como um fino tronco, nasce a lança. Os caçadores se aproximam. Sem apear, examinam do alto a presa abatida, cavalos e cães pateiam ao seu redor num agitar de ancas e caudas. Mas não há muito o que ver, a perseguição acabou. O vencedor arranca a lança de um tranco, as esporas afundam nos flancos suados, sons e corpos ainda giram em torvelinho, depois se vão. As outras caças serão levadas para o castelo atravessadas sobre os cavalos, gotejando sangue. Essa, não. Aos poucos, vozes e latidos afundam entre folhas. A floresta volta ao seu silêncio. Nada parece mover-se. Na escuridão que se adensa, o corpo estendido é branco como a lua.
  • Page 343com fúria, resvala no pelo hirsuto, se mancha de sangue. O animal se torce enfurecido, se volta aos guinchos. Ataca. As presas dilaceram as patas do cavalo. O cavaleiro crava as esporas. O cavalo empina, o javali ataca pelo lado, o cavaleiro se volta na sela, desequilibra o cavalo. O cavalo cai. E por baixo do cavalo, sob o seu peso, está a perna do cavaleiro. Agora é na direção dele que o javali investe. Dele que não pode se levantar e que perdeu a lança. Dele indefeso. A cabeçorra baixa se aproxima, quase o alcança com suas presas amarelas, quando um movimento novo, um ruído vindo da floresta, interrompe os guinchos. Um instante de hesitação, a cabeçorra se volta, e o javali foge, abandonando sua presa.
  • Page 344Mais um dia passou. Embora os cavalos parecessem cansados, a muralha já se fazia próxima. E a comitiva entrou em sua sombra como se entrasse em um lago.
  • Com sua grandíssima fome22a história do viajante No limiar das coisas, onde a noite arma o bote, viviam duas irmãs. Tinham em comum a idade, uma cabana, o único olho de uma, o único dente da outra, e uma fome enorme que nunca se esgotava.
  • Page 346buscar lenha lá fora para acendermos o fogo. - Vá você - respondeu a do olho, não querendo afastar-se do jantar. Com o olho na mão, a outra saiu em busca de lenha sem perceber que o cachorrinho a acompanhava. E estava regressando carregada de achas, quando tropeçou nele e, de susto, abriu a palma deixando o olho cair.
  • Page 347Olhando adiante, nada mais se via agora senão o despenhadeiro erguido pedra a pedra. Pouca vegetação crescia e a terra úmida afundava sob os cascos. Seguiam em silêncio, mergulhados naquele cheiro de gruta. Haveria ainda uma última manhã, em que os moços lutariam para acender o fogo com as achas molhadas. E uma última história para levar na lembrança até a fronteira.
  • No caminho inexistente23a história do viajante Ia a filha muda guiando o pai cego quando, depois de muito caminhar, chegaram ao deserto. E sentindo o pai a areia nas sandálias, acreditou ter chegado ao mar e alegrou-se.
  • Page 350jovem. Sentaram. O deserto, disse o pai à menina, é filho dileto do sol. E a menina olhando à frente, viu os raios deitando na superfície, partindo- se, rejuntando-se, mosaico de sol, e sorriu. Os pés afundam no deserto, acrescentou o pai, e ele acaricia nossos tornozelos. A menina soltou sua mão da dele e foi molhar os pés, deixando que a água lhe acariciasse os tornozelos. O deserto, disse ainda o pai, é plano como um lençol ao vento, sem montanhas, ondeando nas costas das dunas. A menina correu o olhar pela linha do horizonte que nenhuma montanha interrompia, viu as ondas, e em seu coração chamou-as dunas.
  • Page 351Escuro e trancado, o enorme portão quase não se diferenciava das rochas. Ao aproximar-se da comitiva, tambores rufaram, houve um movimento de guarnição, e um pequeno tropel avançou a cavalo para recebê-la. O destino de olhos amarelos acabava a travessia das terras do jovem Senhor.
  • Page 352Como uma carta de amor
  • Como uma carta de amorLavava a boca com água de rosas, calçava as sandálias, e saía. Ia com boca de flor para que, chegando ao amado, o hálito lhe lembrasse o perfume dos seus cabelos ao sol. Mas, tão distante, como alcançá-lo? Caminhava até o alto do penhasco. Passos leves que não levantavam poeira, iguais como pontos de costura, rápidos como se tivesse pressa ou encontro marcado. No penhasco, porém, só o vento esperava por ela.
  • Page 354sentia a areia nas sandálias e o frio percorrendo-lhe a pele. Em casa cozinharia sua magra ceia, encheria no poço o cântaro deixando pronta a água com que lavaria as mãos e perfumaria a boca no dia seguinte. A princípio, quando ele partira prometendo logo voltar, ela havia contado o tempo, marcando com um mínimo entalhe o tronco da castanheira que lhe sombreava o quintal. Tomar a lâmina na cozinha e ferir a casca tornara-se um ritual em que com a cumplicidade da árvore decepava os dias, um após o outro, diminuindo a espera que tinha à frente. Leite pegajoso escorria do corte.
  • Page 355horizonte. Seria difícil para a mulher distinguir mais tarde, na escuridão, aquele traço. Mas o primeiro fio brilhava pousado sobre as ondas miúdas que The molhavam os pés. E ela não hesitou. Deixou cair o xale, descalçou as sandálias e de braços abertos e queixo erguido como uma equilibrista apoiou um pé na linha fina, depois o outro, começando a percorrer o caminho que a levaria lá aonde ela queria estar.
  • De algum ponto além da cordilheiraHá quanto tempo aquela cidade se preparava para a chegada dos bárbaros? Não desde sempre. Mas quase. Por isso as sólidas muralhas mais antigas que muitas casas, e as constantes sentinelas no topo. Viriam da fronteira traçada pela cordilheira, estava escrito, atravessariam com seus animais de duras patas o vale de pedras. E embora a muralha cintasse a cidade por inteiro e houvesse fronteiras em outras direções, só para o lado do vale voltavam-se os olhares das sentinelas. Até que uma manhã, atendendo àqueles olhares que se feriam contra o sol nascente, viu-se a linha do horizonte estremecer, como se abrasada por um vapor. E com o passar das horas, já às beiras do escuro, foi possível dizer, com quase certeza, que sim, havia um remoto mover-se que bem podia significar um avanço.
  • Page 357reforçaram-se portas e janelas. Protegeram-se os poços. A cidade rangia os dentes, mas os bárbaros não chegavam. Mais de um mês havia sido gasto em preparativos, quando percebeu-se que acampavam na distância, muito além do alcance de tiro e olhar, demasiado longe para permitir um avanço seguro da cavalaria. Estão recompondo suas forças depois da longa marcha, deduziram os chefes militares da cidade. E, como água, a informação escorreu por debaixo de cada porta. Em breve atacarão, deduziram todos. Nem em breve, nem mais adiante. Os bárbaros pareciam ter esquecido o motivo da sua vinda. Acampados estavam, acampados continuaram, no mesmo lugar. Por um tempo, muito.
  • Page 358pegaram em armas. Talvez nem as tivessem. Estavam ali, tão somente, como antes haviam estado no vale. Eram mais coloridos do que pareciam à distância, e ruidosos. A música dos seus instrumentos escalava a muralha, perdia-se nas ruas, convidando a destrancar as janelas. Tendo-os assim tão próximos, com sua algaravia e seus colares de contas, parecia difícil aos habitantes da cidade justificar o medo que os havia precedido. Com certeza são apenas nômades, comentaram entre si os chefes militares. E nas ruas e casas repetiu-se com satisfação, apenas nômades.
  • Page 359N À sombra de cinco ciprestes em rico, nem pobre, era um homem como tantos outros, um homem a meio caminho. Até a noite em que um pássaro voou no seu sonho.
  • Page 360pensou o homem. E parou para descansar e pedir informações. Mas informações ninguém soube lhe dar. Ao amanhecer já estava em sela. Cavalgou durante muitos dias. Subiu encostas, desceu encostas. Anoitecia, quando passou pelo portal de uma cidade ladeado por dois ciprestes. – Dois ciprestes não me bastam – pensou o homem. Antes que o sol varasse o portal, estava longe. Atravessou pastagens, cruzou aldeias e vilarejos. Viu ao longe uma cidade sombreada por três ciprestes, e pareceu-lhe bom sinal, como a dizer-lhe que aquele era o caminho. De fato, nem bem um dia havia passado quando, depois de atravessar uma densa floresta, o horizonte lhe ofereceu uma cidade. Na cidade, deparou-se com quatro ciprestes. O coração do homem aqueceu-se como se estivesse diante do tesouro. Agora sim- pensou -, falta pouco. - E olhando os pássaros que volteavam no alto, acreditou reconhecer aquele que havia sido mensageiro.
  • Page 361única cidade que havia tocado seu coração. Ali, junto às quatro árvores escuras, abriu uma cova pequena e, com toda delicadeza, plantou uma muda de cipreste. Só depois de recomposta e regada a terra, foi banhar-se. E fez a barba, e prendeu os cabelos. Tinha uma espera pela frente.
  • Hora de comerHora de comer, naquela casa. A mulher foi lá fora pegar uma braçada de achas que empilhou perto do fogão, sem perceber que com a madeira havia trazido um camundongo. Já com uma acha na mão, inclinou-se para soprar nas brasas avivando o fogo. Debaixo da pilha, o camundongo farejou a oportunidade, arriscou o focinho para fora. A distância até a cadeira parecia enorme. O cachorro dormia sacudindo de leve a pata no sonho. O gato estava ausente, ainda assim o camundongo soube que naquela casa havia um gato. Olhando para cima viu no alto o largo traseiro da mulher. O rosto, metido junto ao fogão, não se via. A hora era aquela.
  • Page 363Reis não precisam prestar atenção no mundo a seu serviço, e aquele camundongo distraído acabou despertando a atenção de uma coruja. Que sem pressa, silenciosa como todas as da sua espécie, deixou o alto da árvore onde havia estado de vigia, e abateu-se sobre ele, devorando- 0.
  • Page 364do camundongo um naco de carne duas ou até três vezes maior, que acabava de roubar do prato do cachorro e que ela própria não conseguiria comer. Duas ou até três era tentação demais para a coruja glutona. Abriu o bico, cuspiu o camundongo, e cravou o bico na carne.
  • Page 365cravado o bico emergiram duros bigodes, um pequeno focinho cinzento. E o camundongo, molhado e tonto mas vivo, escapuliu metendo-se entre as achas. O caçador veio voltando com o balde, a mulher saiu da casa para buscar uma boa braçada de lenha. Estava na hora de cuidar da comida.
  • Page 366Estratégia, senhores sol lapressou sua retirada quando a Peste bateu às portas daquela cidade. Alvoroço nas torres de vigia. Que se avisasse o palácio da espantosa presença. As portas não cederiam passagem para visitante tão indesejada.
  • Page 367Eu seria um governante cego se não a aproveitasse. - Fez uma pausa, deslizando o olhar sobre os ministros. - Estratégia, senhores, assim se chama nosso banquete de logo mais. Estratégia! E já, nas cozinhas, afiavam-se as facas e brilhavam os fogos.
  • Page 368taça para um brinde ao acordo, quando a outra prosseguiu. – Porém, embora devedora de tão generosa hospitalidade, não poderei atendêlo. Deteve-se a mão rumo à taça, e nos ouvidos reais pareceram deter-se todos os sons do grande salão. Foi pois em pleno silêncio, apenas o sangue batendo nas têmporas, que o Rei ouviu o que a Peste ainda tinha a dizer.
  • O seixo debaixo da línguaParecia apenas um mal estar quando ela levou a mão ao peito. Mas era doença. E deitando-se para descansar, não tornou a levantar. Morta a esposa, o marido catou dois seixos no caminho que conduzia à casa, enfiou um no bolso, colocou o outro debaixo da língua dela para que levasse consigo o rumo daquilo que haviam construído juntos. Deitou-a na cova. Depois encheu de terra o poço que durante tantos anos lhes havia dado água, cortou um cajado de um galho da castanheira, e tendo vendado os olhos com um pano escuro, partiu. Metade da sua vida havia-se ido com a mulher, metade da sua maneira de ver o mundo havia sido apagada com ela. Cabia-lhe agora buscar novas maneiras de enxergar. E como um cego se foi pelos caminhos.
  • Page 370mão. Não esquivava mais o rosto, ao contrário, projetava-o para a frente, antecedendo o corpo na percepção de cheiros e sons. E surpreendia-se com a quantidade de sinais que o rodeavam, como se não se movesse no ar mas em algo mais sólido, lama, argila ou outra carne, que por todos os poros lhe falava. Tão ocupado estava em ouvir o mundo, que não ouvia mais suas lamentações. E, por não ter quem as ouvisse, não mais as fazia.
  • Page 371Com delicadeza, como se tirasse pele, o homem desatou a venda. Não precisava mais dela. Estava na raiz de uma colina, à beira de um vale. E o vale era amplo. Sem procurá-la, havia chegado à sua meta. Caminhou mais um pouco na escolha do lugar exato. Nesse lugar, cravou o cajado. Em seguida, com a faca, riscou no chão as paredes da casa que construiria, à sombra da castanheira que haveria de crescer a partir do cajado. E começou a cavar o poço.
  • Um presente no ninhoNão era propriamente um homem mau. Egoísta sim, e azedo. Havia azedado no tempo, como uma fruta que nem cai nem é colhida e ali fica, no pé, madura demais, azedando seus sucos. Assim era ele, quase sem suco agora, cada vez mais ácido. Alguém amava esse homem? Sim, há sempre alguém que ama quem não sabe amar.
  • Page 373cotidiano, o homem ácido e a mulher paciente apagavam a luz à noite, abriam a janela de manhã, sem interrogar o tempo. Em um ponto daquele tempo, ouviram-se pancadinhas secas na porta. A mulher foi abrir. Diante dela estava uma cegonha. Pareceu- lhe a mesma que ao longo de alguns verões havia habitado seu telhado, mais precisamente o grande ninho sobre a chaminé.
  • Page 374Ainda permaneceu de pé longo tempo, parecia-lhe não ter nada a fazer agora que o marido não estava. Só depois lembrou-se do presente. Foi à horta, buscou a escada que estava apoiada na figueira, encostou-a na parede da casa, e subiu ao telhado. Atenta, para não quebrar telhas, moveu-se até a chaminé, pôs-se de pé.
  • Page 375Assim contou. E só depois de contar, de tomar um banho e comer, o homem reparou na casa e na mulher, tão mais belas agora do que quando as havia deixado. Foi então a vez da mulher fazer sua narrativa, contar do ovo, do choco, do diamante, do dinheiro tanto que havia obtido com sua venda. Os olhos do homem se apertaram como duas fendas. Pediu para repetir tudo diversas vezes. Por trás das fendas, seu pensamento equacionava a próxima estratégia.
  • Page 376contar as horas que pareciam paradas. Não podia imaginar que enquanto isso a mulher, com seu temperamento gentil, havia feito boas relações no Egito. Ela estava justamente navegando no Nilo com seus novos amigos, na tarde em que ele sentiu debaixo de si um leve estalar, um estremecer, e levantou-se ávido. A rachadura da casca avançava, abria-se em cacos a branca curva. Viu um cintilar lá dentro, meteu a mão. A picada foi instantânea. No ovo enfim desfeito brilharam os olhos da serpente que, coleando, abandonou o ninho.
  • No rio, como fitaPorque seu irmão havia voltado ferido da batalha, foi a moça ao rio lavar a camisa manchada de sangue. Ajoelhada na beira, ensaboou e esfregou longamente, muitas vezes batendo o tecido contra as pedras, até vê-lo branco, enxaguado pela corrente. O sangue desceu na água sem se misturar, ondeando vermelho como fita ou peixe. Aconteceu que rio abaixo outra moça estivesse de cócoras na beira, ensaboando e esfregando. Era a lavadeira do senhor daquelas terras e lavava a camisa com que ele havia voltado suado da batalha. Tão empenhada estava ela no seu fazer, que não viu o aproximar-se do sangue na água. Só viu, com espanto, manchar-se de vermelho a camisa que tinha entre as mãos.
  • Page 378avançando nu e ensanguentado rio adentro. Demorou um tanto, mais pelo prazer no contato da água fria do que por necessidade, pois logo sua pele limpou-se, e ao sair estava quase tão branco quanto o havia sido sua camisa. O sangue do seu corpo trançou-se na correnteza, sem se misturar.
  • Page 379cor. Nenhum pão, nenhuma comida ou bolo poderiam ser feitos com ela. E a reputação do moinho estaria arruinada se apenas tentassem vendê-la. O jeito, concluíram afinal com esperteza, era dá-la aos porcos. Ajudaria a cevá-los, ao mesmo tempo em que se eliminava aquela imundície. E quanto mais depressa melhor, antes que alguém soubesse do acontecido. Tão rápido quanto lhes permitiam a idade e a tensão de que se viam tomados, ensacaram a farinha e foram despejá-la no cocho.
  • Page 380pedia, poucos compradores apareceram e nenhum deles fechou negócio. O dia ia se gastando. Levar os bichos de volta era impensável, melhor pareceu ao moleiro baixar o preço. Acabava de fazê-lo, quando um grupo de homens fortes e rudes, lenhadores vindos da alta montanha, parou diante da barraca. Regatearam, pagaram com moedas tiradas da bolsa do cinto, e levaram os porcos atravessados sobre seus cavalos.
  • Tempo de madurezaEra o monarca de um reino pequeno, mas ainda assim tinha coroa e palácio. Tinha também um filho, o único, que um dia herdaria todo aquele pouco que havia para herdar. E que para isso ia sendo preparado com rigor, sem que um único dia se escoasse inutilmente. Aprendeu a ler e a escrever, aprendeu a montar e a dançar, aprendeu a manejar a espada e o arco, a decifrar um mapa, acompanhar as estrelas e interpretar o astrolábio. Só não aprendeu a viver. E chegou o dia em que esse único conhecimento que não tinha começou a fazer-lhe falta. E porque esse faltava, todos os outros lhe pareceram excessivos. Viu roupa demais sobre o seu corpo, cachos demais nos seus cabelos, demasiados óleos e perfumes sobre a sua pele. Viu nos seus dedos anéis que não havia escolhido e, como se reparasse nela pela primeira vez, surpreendeu-se com a grossa corrente de ouro que lhe rodeava o pescoço. Tinha tanto, pensou, e faltava-lhe o principal. Abaixou a cabeça devagar, tirou a corrente. E sentindo seu peso ainda na mão foi até a janela.
  • Page 382desejos dos jardineiros, e os gramados cumpriam meticulosamente sua tarefa impedindo que nobres sapatos encostassem na terra nua. O que ele procurava, pensou o jovem príncipe, não estava ali. Uma vez tomada sua decisão, nada pôde demovê-lo. As ameaças do pai, os conselhos do primeiro ministro, os soluços da mãe chegaram quase inaudíveis a seus ouvidos, como se vindos de grande distância. Só ouviu claramente o ganido do cão. Rodeou-lhe o pescoço com a corrente de ouro que havia sido sua, e levando-o por essa estranha coleira, foi-se embora com ele, certo de que para lá do palácio, para lá dos jardins e dos muros que o rodeavam, haveria de encontrar aquilo que lhe fazia falta.
  • Page 383boca a comida do cachorro, deixando para ele as delicadezas servidas nos pratos de porcelana. Mas com o repetir-se da cena, e a imediata melhoria da comida da tigela, o que era estranho acabou por tornar-se rotina, e a rotina foi rapidamente confundida com a normalidade. Só uma vez o rei havia ido vê-lo, pedindo que entrasse. Não aconteceu exatamente uma conversa. O que o pai disse ao certo, ninguém soube. Mas por trás das venezianas encostadas a criadagem viu que, sem abrir a boca, o filho escreveu na parede com um caco de telha a sua resposta: "No tempo de madureza".
  • Page 384ninguém o ouviu repetir várias vezes o nome do cão, que pela primeira vez não atendia ao chamado. Ninguém viu quando a mão procurou debaixo do pelo emaranhado, até achar a corrente de ouro. Abriam-se as primeiras janelas do palácio. O dia avançava seus passos. O príncipe passou a corrente ao redor do pescoço, levantou-se. E antes que o mordomo viesse, bateu decididamente à porta, para entrar.
  • Por querer, só por quererÀs vésperas de partir, um homem entregou à esposa um frasco de vidro. A viagem seria longa, disse, e para compensar tanta ausência fazia questão de receber, na volta, o frasco cheio das lágrimas de ela haveria de derramar. saudade que Não era um frasco pequeno.
  • Page 386ferreiro que, do outro lado da rua, martelava o ferro incandescente luzindo braços nus. Sorria ela à porta, faiscava sobre a cômoda o frasco vazio, quase a cobrar-lhe atenção.
  • Page 387agora sua alegria por tê-lo de volta. E perguntava-se como podia a esposa indiferente, que mal lhe servia à mesa e pouco lhe aquecia o leito, ter chorado tanto por ele. Ou teria esgotado nas lágrimas o seu amor? Do outro lado da rua, o ferro incandescente mergulhava na tina com um gemido, o martelo batia na bigorna. O pensamento da mulher ia-se janela afora.
  • O nada palpávelEm tempos distantes, naquele minúsculo país de pouco saber, descobriu-se, por puro acaso, algo que até então lhe era desconhecido: a maneira de fazer vidro. Que bela coisa esse vidro, exclamaram os habitantes encantados diante do primeiro fragmento. Belo como ar sólido, disse um cidadão que gostava de usar bem as palavras, belo como água enxuta, acrescentou outro, belo como ar palpável, rivalizou um terceiro sem perceber que repetia o primeiro, belo como... belo como... esforçou-se em vão um quarto, até arrematar triunfante, belo como o nada visível! Tão belo, que logo tornou-se precioso. Precioso assim, só ao senhor daquelas terras caberia. E o senhor desejou um frasco para seus perfumes, pediu uma garrafa para seu vinho, quis uma bandeja para suas frutas, exigiu uma banheira para o seu corpo. E em seguida perguntou-se por que, sendo ele tão rico e o vidro tão caro, não haveria de envidraçar suas janelas.
  • Page 389mas não o olhar. De um lado a outro, tudo se via. Via o senhor os seus vassalos. Viam os vassalos o seu senhor. Viram quando tropeçou no tapete indo de cara no chão, e riram muito. Viram quando começou a dar beijinhos no cangote da senhora, e sorriram muito. Viram quando botou o dedo no nariz, quando derramou tinta no documento, quando deu um chute no cachorro. E vaiaram muito.
  • Page 390começaram a pensar que se o braço direito do braço direito do senhor podia ter uma casa de vidro, não era luxo tão inalcançável. A princípio fizeram beirais de telhado, depois puxados, quartinhos, cômodos anexos. E a cada reforma, era uma parede de pedra que vinha abaixo e uma de vidro que subia. Quando até o estábulo do cavalo da diligência foi feito de vidro, percebeu-se que a cidade havia-se tornado toda transparente. O que não se percebeu logo é que o nada palpável já não parecia tão belo ou tão desejável. Esfriava muito no inverno, aquecia muito no verão, e a vida dos outros – que ele oferecia -, vista assim por inteiro o tempo todo, revelava-se espetáculo bastante monótono.
  • Claro VOO das garçasFazia pentes, como outros homens fazem pífaros ou jogam cartas, porque gostava. E porque seu trabalho de carreteiro, costura de longas viagens e longas esperas, lhe deixava tempo vago. Tirava então da sacola o pedaço de madeira escolhido dias antes ao passar pelo bosque ou catado à beira da estrada, e cantando e divagando, cheio de paciência, cortava com uma faquinha dente a dente, soprava a mínima serragem, polia os espaços apertados. O tempo escorria manso naquele fazer cuidadoso, deixando-lhe afinal um pente que daria de presente a quem bem o atendesse no caminho, já que ninguém comprava pentes no universo modesto em que se movia.
  • Page 392calça, até vê-lo brilhar, morno como se vivo na sua mão. Guardou-o esperando que a viagem o levasse novamente à sua aldeia, pois só à sua filha pastora o queria dar. Ficaria bem, pensou, metido na sua cabeleira morena.
  • Page 393qualquer nó. Voltando para casa, sorriu sem responder quando a filha do padeiro lhe perguntou “É feito de quê, esse pente que agora você não tira do cabelo?".
  • Page 394abriu a porta aos ruídos, às exigências. Escutou o silêncio da casa, no silêncio soltou os cabelos, sacudiu a cabeça repetidas vezes para senti- la mais leve, deslizou os dedos entre os fios, quase desejando encontrar o emaranhado de outros tempos. Depois debruçou-se sobre a água da bacia em busca do rosto que havia sido seu. E fechou os olhos buscando-o dentro de si. Parecia haver transcorrido muito tempo quando os abriu, embora a luz da manhã atravessasse o chão no mesmo lugar onde estava antes. Olhou ao redor apropriando-se de cada objeto, cada canto que estivera esquecido enquanto ela cuidava dos outros. O pente destacava-se claro sobre a mesa. Ela o tomou, e usando a força das duas mãos o partiu ao meio.
  • Um rufar de negras asasDobravam-se ao vento os ciprestes. Não era poeira, eram farrapos de nuvens que volteavam no ar encharcando os campos. Onde estava o verde? perguntou-se a mulher, descansando no chão o balde de castanhas que trazia. Olhou para o alto, farejou o ar. A neve já vem vindo, acrescentou seu pensamento.
  • Page 396vibrar. Pancadinhas secas vinham de dentro, alguém batia. Ela também bateu, de leve, para ajudar. Com a ponta da unha primeiro, com uma pedrinha depois. Bate de fora, bate de dentro, o ovo afinal partiu-se. Um pássaro escuro saiu entre cascas. Escuro, molhado, quase sem plumas. A mulher pensou em esvaziar o balde e colocá-lo dentro. Mas estava frio e o balde duro não seria acolhida para ser tão novo. Enxugou mal e mal o bichinho com a ponta do avental, depois colocou-o dentro da blusa, junto ao peito, que ficasse protegido enquanto ela terminava suas tarefas.
  • Page 397esperar, vinha a ave entregar-lhe algum presente. Uma enguia, uma preá, uma lebre, até um cordeirinho amanheceram na sua soleira. E acabava de trançar o cabelo para dar início a um novo dia, quando o bater de asas que se havia acostumado a receber lhe trouxe um choro. Abandonou a trança, o cabelo se desfez sobre as costas, que bebê seria aquele, que pedia atenção e peito? E já ia ela à porta, já colhia do chão a trouxa de pano que movia pregas, logo aninhando, acalentando o menino que agora seria seu.
  • Page 398Naquela noite o jovem dormiu na sua antiga cama. E no dia seguinte, antes de partir, serrou e bateu pregos, armando um poleiro que instalou na cozinha, perto da janela e do calor do fogão. Depois despediu-se da mãe, acariciou a cabeça da ave, e partiu. Sozinhas, as duas se olharam longamente. A luz aos poucos gastou- se. A mulher se levantou, acendeu o candeeiro, acendeu o fogão. Antes de começar a cozinhar, aproximou-se da ave e, como havia visto seu filho fazer, lhe acariciou a cabeça. O pio ecoou na cozinha.
  • Page 399nas árvores, bateu asas para refrescar a testa que ardia em febre. Seus olhos atentos acompanhavam o lento mover da cabeça no travesseiro. Até que a cabeça aquietou-se, para não mais se mexer. No silêncio da casa, o grito da ave pareceu ainda mais agudo. Abaixou a cabeça sobre o peito, e a golpes de bico rasgou a pele de penas negras que havia sido sua morada. Saiu dos lanhos nua e branca, de cabelos longos, uma moça. Com gestos de moça colheu a pele de penas no chão e cobriu com ela a mulher, asas abertas.
  • Page 400Quando a primavera chegar
  • Na palma da mãoAs chuvas haviam terminado e as flores cresciam até debaixo das pedras, quando a tribo dela chegou. Outras tribos já estavam acampadas havia dias, com seus cavalos, suas carroças, suas tendas e seus filhos. Muitas ainda viriam para o encontro. E este ano ela não era mais menina. Havia-se feito mulher. Agora trazia um crisântemo pintado na palma da mão direita. E no coração, o desejo de encontrar o homem a quem ofertá-lo.
  • Page 402do crisântemo desbotou até desaparecer. Dia seguinte, aquele que prendia o cabelo na nuca sentou-se sobre o tapete do pai da moça. E na bandeja de areia desenhou os limites da terra em que a receberia, e aos seus que quisessem acompanhá-la.
  • Page 403a moça mantinha a mão voltada para baixo, que não se visse a palma quase desguarnecida encostada na saia. Vergonha seria ajudar a mãe a desmontar a tenda com mão limpa. E naquela manhã, um apresentou-se que não havia estado entre os jovens, nem era companhia dos mais velhos. Havia chegado tarde ao encontro, com seu cavalo, sua carroça e seu sorriso. Já quase em tempo de retomar o caminho da volta. Mas os cabelos eram longos, finos os dedos.
  • Povo é necessárioEra tão pequeno aquele reino, que não tinha povo. Rei, sim, tinha. E Rainha. E alguns ministros. Tinha também uns tantos cavaleiros. Mas povo, nada. - Povo é necessário! - queixava-se o monarca com a consorte. - Como posso ser magnânimo, se não há quem implore a minha generosidade? E como posso ser severo se não há quem desrespeite as leis?
  • Page 405modo ficariam faltando ministros. E nem pensar em manobra semelhante com os cavaleiros, tão poucos e tão necessários para a defesa do reino. Passado algum tempo sem que lhe ocorresse ideia melhor, o Rei decidiu enviar seu Ministro Quase Primeiro ao reino vizinho, com a secreta missão de contratar Povo.
  • Page 406não só a corte mas eles mesmos duvidavam, conquistaram para o Rei o país vizinho. Era, este também, um reino modesto, pequeno. Seu pequeno povo foi suficiente apenas para formar uma pequena tropa de soldados. Que os cavaleiros treinaram com determinação e mão forte, longamente, até torná-la tão temível quanto eles próprios. Logo, à sua frente, cruzaram fronteira e se apossaram do país mais próximo.
  • De nome FilhoteHá um castelo severo de poucas janelas. Ali vive uma única castelã, jovem, muito jovem. Não está prisioneira. Não está confinada. Está só. Com sua ama. Suas irmãs e primas partiram uma a uma para outras terras, levadas por casamento. Os velhos, pais e parentes, morreram progressivamente. Os homens da sua família estão sempre ausentes. Vão chamados por guerras, caçadas, ou longas viagens. Uns voltam, outros não. E os que voltam demoram tanto a chegar, e tão pouco a partir novamente.
  • Page 408E envia a ama em busca daquilo que quer. Tarefa difícil para a boa senhora. Descarta logo as aves, apesar do canto. Dos animais que habitam a floresta ao redor do castelo, lobo, raposa, javali, nenhum lhe parece aconselhável. Nem esquilo ou lebre, muito fugidios. Pensa em gato, que seria fácil de achar, mas o considera pouco para tanta solidão. Cachorro, só sendo muito especial. Vai até a aldeia mais próxima, e nada. Aventura-se mais além, até a cidade que é porto de mar. E ali, junto ao cais, encontra afinal o que lhe parece à altura da sua jovem senhora. Paga o preço que pedem, mete o filhote dentro de uma cesta, o cobre com um pano para que não pegue frio, e toma o caminho da volta.
  • Page 409pequena caça, um coelho ou ave que compravam dos lenhadores haviam bastado até então para a jovem e sua ama. Logo, porém, se revelam insuficientes para a Filhote. Vou caçar para ele! - declara a jovem num ímpeto, em plena manhã de sol. E a ama ri, damas não caçam, não educou sua patroa para isso.
  • Page 410Ficando ele tão forte, parece natural à jovem levar Filhote consigo à floresta, agora que a caça se tornou sua principal ocupação. Lá se vão os dois no verde até o anoitecer, a moça cavaleiro e o animal fulvo de longa juba, ela retesando a corda do arco, ele saltando sobre as presas maiores, em plena sintonia. Nunca dois amigos foram mais companheiros e se amaram mais do que eles se amam. E chega o dia em que a garganta de Filhote forja um som diferente, e erguendo a cabeça ele ruge, uma e duas vezes, afirmando sua majestade para aquela floresta que toda estremece.
  • Tomando-o do marTudo foi levado pelo mar. A onda grande, imensa, atravessou a praia, chegou à beira da encosta, entrou na casa, revirou as gavetas, levou os móveis e as roupas, os chinelos e as botas, as comidas guardadas, a gaiola vazia. Quebrou vidros, quebrou telhas. Derrubou paredes. Lençóis e panelas boiaram ainda por instantes. O uivo da água encobriu o único grito, longos cabelos louros giraram e giraram no rodamoinho com que a onda se retirou. Depois tudo desapareceu no grande ventre verde. E até o vento se calou. O homem a quem aquilo tudo pertencia era marinheiro e navegava em alto mar. Nada soube. Demorou a voltar, cansado, desde longe buscando com o olhar a sua casa, a sua mulher. Mas no lugar onde a casa sempre havia estado não viu casa alguma. Uma estranheza, um travo, uma tontura lhe abocanharam o pensamento, lhe tomaram o corpo. Ainda assim correu, olhando desesperado ao redor. Em vão. A casa que havia sido sua e tudo o que ela continha haviam desaparecido e, por mais que procurasse, a única coisa que encontrou foi a marca das fundações meio sumida no chão.
  • Page 412um sentido, a cada espaço uma função, pensar no prego, no apoio, no degrau. E a tudo acrescentar um pouco de supérfluo, um tanto de coisa esquecida, uma recordação. Uma casa, para acolher, tem que ter acúmulo de vida. - Mas onde buscar acúmulo – perguntou-se o homem -, se tudo o que eu tinha de mais caro e cada mínimo grão que juntei na vida foi levado pelo mar?
  • Page 413dentro estava um botão parecido com os da camisa que já não possuía, coseu na que estava vestindo e onde fazia falta. Viu uma chave enterrada na areia, fez para ela a fechadura. Tudo aproveitava, tudo se tornava tão seu como se sempre o tivesse sido. Sentia saudades, porém, dos seus bens de antes, que já começava a esquecer. E um vazio, no espaço do peito que havia pertencido à mulher.
  • Page 414mar quase parado e nada farfalhava, o canto fez-se ouvir alto e próximo, bem próximo. Houve um leve baque contra o casco. O homem levantou-se justo a tempo de ver um braço roliço saindo da água, e logo emergir até a cintura uma mulher de longos cabelos louros. Ele estendeu-lhe a mão, viu brilhar junto ao pescoço um único brinco dourado, de pingente. E pensou que lhe daria o outro assim que a trouxesse a bordo, para querê-la, mesmo com aquela cauda de escamas que, em vez das pernas, lhe completava o corpo.
  • Embora mínimaHora de comer. Mas a família era grande. E o que o pai havia conseguido caçando e colhendo não era muito. Então a mãe, a quem cabia essa tarefa, dividiu entre pratos e fomes o pouco que havia, deixando para si apenas uma fava. Grande, essa fava, de um verde claro e luzidio. Com cuidado, para que nenhuma migalha se desperdiçasse esmagada entre faca e prato, partiu a fava ao meio. Esperava talvez que algum gênio ou voz benfazeja escapasse daquela fava, e com boas palavras a recompensasse pela fome que passaria aquela noite.
  • Page 416escuro, algo novo acontecia. Amanheceu e continuava frio, pois era inverno. Mas do ouvido da mulher uma brotação verde surgia delicada, estendendo-se sobre o travesseiro até o rosto do marido.
  • Page 417desfavorável, as ramas magras que se formaram conseguiram produzir somente uma baga. E dentro daquela baga magra, duas favas pequenas, tão pequenas, e mirradas. Não mais. Mas eram duas. Desta vez a mulher não formulou desejos. Alegrou- se, simplesmente. E sorriu porque a vida, sempre tão áspera, lhe oferecia agora uma mínima abundância.
  • Lá fora, as castanheirasNaquele castelo rodeado de bosques, uma menina adoece. Está frágil, não pode ir brincar ao ar livre. Lá fora as castanheiras farfalham, a sombra de suas copas deita no chão desenhos bailarinos, as lagartixas se aquecem nas manchas de sol. A menina mal pode olhar pela janela, que é alta. Para distraí-la e para que melhore, a madrinha faz para ela uma boneca, da mesma massa com que se faz a louça do castelo. Não é grande a boneca, um palmo ou pouco mais. Mas é graciosa e tem uma particularidade, talvez devido ao carinho da madrinha seu rosto resultou tão parecido com o da menina, que se diria quase igual.
  • Page 419Chega a neve. A boneca já tem uma mesinha de cabeceira, uma pequena bacia, e um gato de porcelana. Mas brincar na cama com esses objetos delicados ficou difícil para a menina, sobretudo agora que está tão fraca. E a madrinha pede ao marceneiro do castelo que faça uma espécie de grande caixa de três lados. Apoiada sobre uma mesa ao lado da cama, será o quarto da boneca, que ganhará cortinas, paredes forradas de seda, um espelho emoldurado, uma poltroninha, e um armário para os pequenos vestidos que já não cabem no baú. Faz frio no quarto do castelo, apesar da grande lareira sempre acesa. Ou é a menina que já não consegue se aquecer. Envolta em xales, submersa em cobertas, ainda assim estremece, e parece não ter forças para brincar com o quarto de boneca. A seu lado, a madrinha tenta alegrá-la mudando os pequenos móveis de lugar, vestindo e despindo a gentil dona daquele ambiente. Mas a alegria já não mora com sua afilhada.
  • Page 420própria se deslocou. Ninguém mais está autorizado a tocá-la. Um dia a encontrou diante da janela alta, sem que houvesse castanheiras além dos batentes de mentira que se abriam para o espaço penumbroso do quarto. O que será que está vendo? perguntou seu pensamento antes de perceber a impossibilidade da pergunta. Muitas vezes caíram e brotaram as folhas das castanheiras. Já estão amarelando novamente, quando a madrinha adoece. Não deve ir lá fora. Então manda chamar o marceneiro, e pede que faça uma grande caixa de três lados, e uma cama miniatura igual à sua.
  • E eram tão pequenasChoveu e choveu naqueles meses, e mais choveu. O rio transbordou em vários pontos, os açudes incharam como se cheios de peixes. Os pés afundavam em terra molhada. Depois vieram o sol e as aranhas. O sol percebeu-se logo. Das aranhas ninguém se deu conta a princípio. Algumas donas de casa sim, que as surpreendiam saindo dos cantos, ou debaixo das folhas na horta. Mas eram tão pequenas, que não mereceram atenção. A atenção foi despertada depois, pelas teias. Como uma névoa cinzenta começaram envolvendo as dálias e as magras roseiras junto às portas, engolindo cor e perfume. Depois as portas foram sendo tomadas, e as janelas, teias subindo pelas paredes feito trepadeiras, alcançando os telhados, cobrindo tudo. Que luta para impedir que fechassem a boca do poço! Mas, ocupados com o poço, os moradores esqueceram de cuidar do cachorro, e quando ele ganiu já parecia um embrulho de papel de seda. Até a macieira desapareceu debaixo daquela estranha colcha, as maçãs maduras caíam dos galhos mas não chegavam ao chão, apodreciam lá dentro. Aranhas não comem maçãs. Tentaram de tudo, nada parecia capaz de arrancar aquela cobertura espessa e pegajosa. Que só fazia aumentar.
  • Page 422E passados alguns dias, precedido pelo mensageiro que vinha a pé, aquele que salvaria o povoado chegou, a cavalo. Um belo moço, tão bem ataviado, de botas e chapéu de pluma. E que espada cintilante trazia à cinta. Imediatamente, quis demonstrar o seu talento. Rodeado de pessoas e de admiração, pediu um lenço de seda que cortaria no ar, de um só golpe. Mas tal coisa não havia no povoado - seda, ali, só a das aranhas. As moças ofereceram seus cabelos para o garboso decepar. Ele, porém, desdenhoso, declarou-se cansado da viagem, repousaria um instante antes de fazer o serviço. Pediu uma cadeira, sentou-se, fechou os olhos enquanto os populares iam buscar cidra para lhe oferecer.
  • Page 423sair de sua boca e nariz. Tomados por dentro, começavam a ser dominados por fora. Durante algum tempo, desalentados, os do povoado pensaram em como resolver a situação que parecia insolúvel. Ainda estavam pensando, na tarde em que o homem adentrou a rua principal e única do povoado. Levava uma vaca por uma corda.
  • Page 424outros bem mais qualificados haviam encontrado o fracasso. Onde estão suas armas? perguntaram ameaçadores. E ele, olhando para trás sem se alterar: minha arma é a fome. De fato. Acompanhando seu olhar, viram todos a nuvem de insetos que volteava ao redor das duas manchas escuras no chão, e perceberam o tropel de teias, se dirigia para o banquete.
  • Alguém bate à portaNo povoado abandonado, uma velha vive só. Os homens se foram aos poucos, alguns levados pelo Senhor para defender seus domínios, outros mortos diante da porta para defender sua própria casa. Sem homens da sua gente para cuidar e querer bem, as mulheres foram sendo colhidas uma a uma por homens de outra geografia, e partiram levando o magro enxoval, os poucos pertences, o burro ou a vaca. As viúvas levaram os filhos. Só as paredes, que a hera haveria de cobrir, foram deixadas para trás.
  • Page 426visitantes. Mas com a vinda de tempos escuros, fizeram-se cada vez mais raros os hóspedes. E quando vira a última mulher do povoado desaparecer na curva da estrada, pensara em juntar suas coisas e seguir igual caminho. Fora só um momento. Logo, o mesmo olhar que percorria entristecido as ruelas vazias e as janelas fechadas percebera uma outra realidade: aquele povoado morto havia deixado de interessar a quem quer que fosse. Agora que só ela o habitava só a ela pertencia. Sentira- se rica como um Senhor.
  • Page 427guardava, ele só aceitou água mas nem tocou no copo. Sentado frente ao fogo, não despiu o manto nem tirou o chapéu. Ela não lhe viu o rosto, tomado pela sombra, não lhe viu as mãos, enluvadas. Mas quando o homem se levantou para recolher-se ao quarto, teve por um instante a impressão de ver, através do seu corpo, o tremeluzir das brasas. Na manhã seguinte, tendo despertado muito cedo para atendê-lo, já não o encontrou. Sobre a mesa, duas moedas de prata.
  • Page 428a sua mão estava enluvada.
  • Escuros olhos de vidroDurante anos, o melhor relojoeiro daquela cidade famosa por seus relógios havia estado debruçado sobre minúsculas engrenagens, diminutas molas, pequeníssimos rubis. Durante anos, lente presa diante do olho esquerdo, havia cuidado de minutos e segundos como se o tempo estivesse em suas mãos. Depois, um dia, sem ser solicitado, um desejo surgiu no seu peito, e o homem quis construir um homem mecânico, um autômato. Tendo colocado tantos cucos e bonecos em seus relógios, sentia o ímpeto de fazer o contrário. E o atendeu, de imediato.
  • Page 430automato exigem precisão absoluta, e o relojoeiro sabia que qualquer equívoco as impediria. O que estava em questão não era o empenho, era o resultado.
  • Page 431mecanismo abrigado no peito do autômato, ao qual tinha acesso através de uma portinhola. Os outros cuidados não lhe cabiam. Responsável pela aparência do escriba era a filha do relojoeiro. Dela, o dever de escovar diariamente o paletó de veludo, verificar que: não faltasse nenhum botão, ajeitar os babados no peitilho da camisa, lustrar com flanela os sapatos de verniz e, sobretudo, pentear os cabelos. Com quanta delicadeza passava o pente naqueles fios macios como se vivos, e acertava o repartido, arrumava o caimento. Acabado o serviço, atardava-se ainda alguns minutos admirando o rosto de porcelana, lamentando que os lábios bem desenhados não se abrissem para sorrir ou falar. Depois, ia cuidar de outros afazeres, para só aproximar-se novamente do autômato no dia seguinte. O velho relojoeiro havia voltado a fabricar relógios.
  • Page 432Os olhos de vidro pareceram refletir o seu gesto. No dia seguinte, nenhuma frase, a folha continuava intocada. Mas já a partir daquela manhã, a moça pousou outra atenção sobre o jovem aprendiz de relojoaria. Reparou na sua bela estatura, nas suas mãos. E quando ele abriu a portinhola para azeitar o mecanismo, espiou de soslaio para ver se mexia em alguma engrenagem, se afrouxava ou apertava algum parafuso. Nada disso foi feito.
  • Page 433aprendiz de relojoeiro havia feito o seu pedido. Houve um anel modesto, houve taças de vinho e bolo de noivado. Em seguida, cada um voltou a suas tarefas.
  • A cicatriz inexistenteFoi ao campo de batalha recuperar seu marido. Anoitecia. Durante todo o dia o trovoar dos canhões estremecera os campos, e apesar da distância ela acreditara ouvir ao longe, talvez trazidos pelo vento, relinchar de cavalos, tinir de metais, e gritos, tantos. Depois, aos poucos, silêncio, ameaçador como os gritos. E agora ali estava, os tamancos empastados de lama, as mãos agarradas uma na outra, garganta travada diante do que era tão difícil suportar. Vultos moviam-se entre os corpos caídos e os destroços. Podiam ser sobreviventes, podiam ser ladrões, havia outras mulheres como ela. À luz de fogueiras esparsas, os vivos colhiam o que sobrava dos mortos. E ela também, como os outros, começou a procurar.
  • Page 435a cota de malha. Depois deu-lhe a mão para ajudá-lo a levantar-se, e o amparou no caminho, para que não tornasse a cair. Em casa, retirado o elmo, lavado o rosto, a mulher viu a luz do lampião confirmar aquilo que já sabia, aquela cabeça não era daquele corpo. Mas há muito estava só, faltava ao campo e aos animais mão de homem, o telhado da casa precisava de consertos. Melhor, disse a si mesma, aceitar o rumo traçado pela agulha. Já conhecia metade daquele marido, aprenderia a conhecer o resto.
  • Page 436tivesse trocado a sua.
  • Em busca de cinco ciprestesNão era um homem rico, tampouco era pobre. Vivia sua vida, e parecia-lhe bem. Até a noite em que teve um sonho. Sonhou que um pássaro entrava em voo pela porta aberta e pousando na cabeceira da cama lhe dizia: "Um tesouro te espera na cidade dos cinco ciprestes". Viu-se estender a mão para afagar o inesperado visitante, mas com o gesto espantou sonho e mensageiro. Sem que, entretanto, se espantasse a mensagem.
  • Page 438uma ou outra cidade, uma ou outra aldeia, esperando encontrar não os cinco ciprestes que ninguém havia visto, mas alguém que soubesse deles. E a cada viagem, sem nada ter conseguido, retornava à sua casa levando consigo um desejo que tanto mais crescia quanto mais esbarrava em negativas. A vida que havia sido suficiente para ele já não lhe bastava. Vendeu primeiro a colheita da horta – precisava de roupas mais quentes. Depois vendeu tudo o que a sua casa continha, os móveis toscos, os canecos e pratos de estanho, as poucas panelas de barro - precisava de arreios para o cavalo que ainda não tinha. Só no fim, como uma concha vazia, vendeu a casa. Com o dinheiro comprou o cavalo, colocou numa sacola de couro o pouco que sobrou, prendeu-a na cintura. E partiu.
  • Page 439Quando a primavera chegar sol é uma espada a pino quando o homem para em meio ao campo, retendo burro e arado. Suor lhe escorre pelo pescoço, sua magra sombra mal lhe cobre os pés. Ergue um braço, passa a mão na testa, desce-a pela nuca. Mas, se enxugou momentaneamente o suor, não conseguiu afastar a amargura do seu pensamento. Que mal ele fez, pergunta-se, para merecer o castigo que lhe coube junto com aquela terra? Não da terra se queixa, que de terra ninguém se queixa, e sim da aridez que a endurece e a racha, parecendo sugar-lhe toda a força e a capacidade de dar fruto. Acima, o céu tenso como aço não oferece resposta. Mais um dia haverá de passar sem trazer chuva. Com um estalar de língua o homem dá a ordem ao burro, inclina-se sobre os braços do arado para acrescentar-lhes o peso do corpo, e lento, fendendo a terra com esforço, retoma o trabalho. Não avança muito. Um tranco repentino o joga com o peito contra a estrutura de madeira, o estalo parece repercutir em seus ossos. Batendo em algum obstáculo oculto, a lâmina do arado partiu-se.
  • Page 440escavando com as mãos junto ao ferro, à procura da causa do desastre. E lá está ela encastoada entre os torrões, grande pedra escura que parece nascer da própria terra e na terra afunda. Tenta arrancá-la, não consegue. Abraça-a empurrando com força para a frente e para trás, não se move. Quer forçá-la com os pés, nenhum resultado. Então, enfurecido, busca a enxada e tornado forte pela raiva golpeia a pedra, uma, duas, muitas vezes, num cintilar de faíscas e lascas.
  • Page 441À sua frente, um túnel arredondado. O homem pensa em alguma escavação de animal, mas que animal seria tão grande? E avança cuidadoso, cabeça baixa, o corpo rijo de medo evitando encostar nas paredes. Parece haver alguma fraca claridade adiante. O homem caminha durante algum tempo. Por fim, como porta que se abre, o túnel se alarga, o espaço parece maior. O homem para, tentando se orientar na quase escuridão. Sem que nenhum perigo real o ameace, as mãos estão prontas à defesa. Mínima luz filtra do alto, entregue por um chão talvez mais fino. O homem está debaixo do seu campo, mas não sabe disso, não tem como saber. Espera, somente, buscando alguma forma de entendimento. Depois avança alguns passos. E só então a vê à sua frente, escura na escuridão, impenetrável como um muro, de alto a baixo, pedra.
  • Page 442sua como se nele sangrasse. No terceiro dia, porém, quando busca a abertura no chão, não a encontra. Nenhum vestígio. Dá alguns passos mais, verifica o lugar, busca com as mãos pelo chão. E nada. Para seu espanto, a terra voltou a ser aquela que sempre conheceu, penteada por passos e vassouradas, abrigo de pequenos insetos que as galinhas ciscam.
  • No relógio da torreBong!... Bong!... Bong!... Bong!... Bong!... Doze toques entregues pelo relógio da torre avisam à população que a meia-noite chegou! Mas a população dorme e não ouve, já é muito se um ou outro se revira na cama confundindo som e sonho. No alto, porém, no grande nicho emoldurado por colunas, as personagens criadas pelo famoso artesão Guilherme O Coxo se exibem mais uma vez, retomando seu percurso indiferentes à falta de audiência. Quatro vezes ao dia, os bonecos de madeira pintada marcam os tempos do cotidiano. O amanhecer às seis, a fome ao meio-dia, a sopa às seis da tarde, e o fundo sono da meia-noite. Desfilam girando em dois círculos. No mais alto, o Rei, a Princesa com seu Pai e Mãe, a Morte, e o Cavalo. No mais baixo, a Ama, o Pajem, o Paladino, o Cozinheiro, o Frade, e o Galo.
  • Page 444Galo que cantaria para o reino a chegada de um novo dia. E o belo e viril Paladino, que daria a todos segurança. Entre os bonecos de madeira, porém, a boda nunca chegou a ser celebrada. E embora na vida real tudo tivesse se passado há mais de um século, naquele relógio onde as personagens viviam seu tempo somente por poucos minutos, a cada dia era como se festa e núpcias ainda estivessem por acontecer.
  • Page 445O que estava escrito naquele bilhete não nos foi dito, mas o olhar do Paladino se acendeu de nova luz, enquanto o da Ama escurecia de inquietação. Toca e gira o relógio. Em uma das voltas, o pequeno Pajem passa um bilhete à Ama, para que o repasse à Princesa, com as juras de amor do Paladino. Palpitam de emoção as veias de madeira.
  • Page 446arrebanhou a Princesa pela cintura, arrancou o bolo da mão do Rei, e partiu a galope. Só quando iam longe perceberam que haviam esquecido de pedir a benção do Frade, mas isso já não tinha importância. O dia clareava. No relógio da torre que ia ficando cada vez mais distante, o galo cantou a chegada da manhã.
  • Sicômoro, sicômoroO primeiro homem passou na estrada ao amanhecer. Logo, eram fileiras levantando poeira, e assim foi durante todo o dia. Os homens iam para a guerra. Na casa pequena, o jovem soube que era inútil esperar, sem demora alguém bateria à porta. Antes que ficasse escuro, pôs no alforje um pão e uma cebola para comer no caminho, e saiu. Vinha no ar um ruído como se de besouros, ou de cavalos ao passo. E um cheiro seco de terra. Ele deu a volta à casa, foi até o sicômoro que estendia sua copa quase cobrindo o telhado, e o abraçou.
  • Page 448um instante estremeceu em dúvida, e logo um clarão de consciência ardeu-lhe o peito lançando-o para a frente com as poucas forças que lhe restavam, e ele correu arrastando os pés, tropeçou, levantou-se, venceu a última distância. Até parar nos fundos da casa, diante do toco do sicômoro decepado. Na cama nua da casa vazia dormiu vestido como havia chegado, gastando sua exaustão durante toda aquela noite, atravessando o dia seguinte, inerte ainda por uma noite. No terceiro dia levantou-se, lavou-se com água do poço, vestiu a camisa que continuava no pequeno baú onde a deixara, cozinhou as raízes e ervas que conseguiu encontrar na horta tomada pelo mato. E sentou-se para comer. Pela porta aberta, olhou o toco.
  • Page 449as labaredas, de todas as brasas com que cruzou. Mas nenhuma daquelas chamas conduzia para o alto o cheiro que ele buscava. Procurou em seguida nas casas e currais em construção. Havia muito que reerguer, depois da destruição da guerra. Junto às obras viam-se vigas, esteios, tábuas. Nas serrarias empilhavam-se os cachos claros saídos das plainas, e a serragem se espalhava pelo chão. Tudo ele examinava. Alisava os veios, interrogava com os dedos, testava o perfume. Sem que nenhuma daquelas madeiras se revelasse sua. Restavam os instrumentos. Nobre, a madeira do sicômoro era irmã da música, e sempre havia sido procurada para acolhê-la. O homem frequentou trovadores e violeiros, dedilhou guitarras, tocou bandolins, pediu para examinar violinos e alaúdes. O som emanava claro daqueles corpos cavos. Mas embora encantado com o que ouvia, o homem não encontrou a única voz que falaria ao seu coração.
  • Page 450em manchas de sol no jardim. Na calma harmonia que o rodeava, o homem sentiu o calor subir-lhe pelo corpo, abrigar-se no peito. E sorriu amplo. A alegria de viver estava de volta. Só mais tarde, ao passar junto ao tronco decepado, rumo à horta, o homem percebeu que abaixo da clara ferida do machado uma brotação rompia a casca, lançando ao ar delicadas folhas de sicômoro.
  • Uma vida ponto a pontoUm homem tão baixo que, para melhor se debruçar sobre a grande mesa de madeira, via-se obrigado a trabalhar de pé numa cadeira. Não maior que um menino pequeno. Mas que talento único de alfaiate. Ninguém como ele para domar os tecidos, amansar-lhes as fibras, ordenar-lhes o caimento. Usava a tesoura como outros usam o pincel, e os seus pontos, os seus pontos pequenos, perfeitos, eram mais uma escrita que uma costura. Nem contabilizava o tempo gasto para ultimar um traje. O tempo não tinha valor para ele, valor tinha a tarefa. Trabalhava de dia, trabalhava de noite, dias e noites seguidos, até vê-la acabada. Só então descansava. E essa era a sua vida.
  • Page 452precisava? Precisava, sim, às vezes, de modelos. Não que fosse incapaz de criar, pelo contrário, mas sentia desejos de renovação. Então chegava à janela e durante horas estudava as bainhas que passavam ondeando junto ao calçamento, o corte das golas, das mangas, ou as rodas volteantes dos mantos. Olhava por fora e era como se visse pelo avesso. Depois, era com renovado entusiasmo que empunhava os grandes esquadros de madeira e traçava sobre o pano novos planos. Não se limitava às roupas, queria o figurino completo. Fazia questão de ter sapatos, luvas, xale, uma pequena bolsa para as senhoras, e pelerine, calçados, chapéus, um pequeno punhal para os cavalheiros. Uma coisa, porém, se mantinha sempre igual: não importava a que horas ou que dia começasse, nem qual fosse o traje, seu trabalho sempre terminava tarde da noite, bem tarde. Era quando o homenzinho arrematava o último ponto, cortava a linha com os dentes, prendia a agulha no seu próprio colete e, com os braços carregados de indumentos, atravessava quase no escuro o fundo silêncio da casa. Uma porta, um quarto. Nesse quarto ele dispunha as peças de roupa sobre a cama organizando-as na ordem mesma do uso, a camisa ao alto, o corpete por cima, a anágua, a saia, as meias despontando abaixo da bainha, e os sapatinhos no chão. Ou a camisa, o colete, o casaco, as calças e as botas. Conferia os detalhes, verificava os acessórios, dava um último toque numa prega, numa gola. E saía. Nessa noite dormia profundamente.
  • Page 453sobre a mesa, empunhava novamente os esquadros. De que mais podia precisar?
  • Page 454Sobre a mesa, os esquadros jaziam abandonados. Nem ele ousava subir na cadeira para trabalhar, temendo que ela chegasse de repente e o surpreendesse assim, empoleirado. E à noite deitava-se, para adormecer só depois que os passos leves anunciavam seu regresso. Pensou que com o tempo ela o olharia de outro modo. Passou a cozinhar, deixando a mesa posta para ela. Mas a cada manhã retirava o prato e a taça de vinho como os havia deixado à noite, intocados. Comprou flores, que colocava no quarto enquanto ela estava ausente, e que lentamente apodreciam no jarro. Solicitou a seus fornecedores pequenos agrados com que a esperava por vezes sem ocupar-se da hora, um lenço bordado, uma pluma para o chapéu, um perfume. Ela os recebia como havia recebido a chave, estendendo a mão sem uma palavra, sem qualquer ternura no olhar. A agulha amorosa do pequeno alfaiate não havia costurado sentimentos.
  • Page 455já em frangalhos parecia vazia. Trancou-se no quarto. Ele ficou acordado ouvindo-lhe o silêncio. Depois, cansado, adormeceu.
  • A casa da MorteEstando muito velha, uma mulher chamou a filha. - Minha filha - disse -, os anos passam e passam, mas a vida continua mantendo sua mão pousada no meu ombro.
  • Page 457esteiras que havia feito, prendeu suas longas varas laterais nos arreios do burro que o arrastaria – pobre burro, tão velho ele também, aproveitaria a contento o futuro endereço – e levando-o pelo cabresto deu início à jornada. Iriam em frente até obter direção mais precisa. Afastaram-se primeiro da casa, depois da aldeia, seguiram por estradas e campos conhecidos, deixando aos poucos para trás tudo o que lhes era familiar. E eis que pela primeira vez avançavam num mundo estranho. O tempo da colheita havia passado, ainda não chegava o da semeadura, ninguém cruzou com elas no caminho. Ao anoitecer pararam diante da estalagem. Pensaram que uma refeição seria muito bem-vinda - só haviam comido até então o pão e duas peras trazidos de casa - e que além de obter as informações que buscavam, teriam um canto para dormir. Mas, se de fato conseguiram um bom ensopado e uma cama larga, ninguém soube lhes dizer onde morava a Senhora, embora todos a conhecessem.
  • Page 458Avançavam mais devagar agora que era preciso evitar os obstáculos da floresta. E, fosse pela dificuldade do caminho, fosse pela sombra das árvores, mal perceberam que a tarde se ia. Quando se deram conta, era noite. Tudo escuro. Brilhava apenas, lá adiante, uma luz de chama. E para a luz foram elas.
  • Page 459alegria encontrá-la! A Morte olhou ao redor esquecendo o gato, parecia não entender. Amparada pela filha, a velha aproximou-se. Mas quando explicou a que vinha, a Morte, aquela Morte de rosto estranhamente jovem e louro, riu, riu muito, dobrando-se sobre si mesma. Demorou a se recompor, sacudida ainda por breves risadas. Não era a Morte, disse ao recobrar a seriedade, era somente o ator da companhia de saltimbancos que estava atuando na aldeia, um modesto ator metido em sua fantasia de esqueleto.
  • O que não está à vistaNão havia muita luz no quarto quando o menino nasceu, as venezianas estavam encostadas para afastar o calor. Só mais tarde, ao dar-lhe o seio, a mãe percebeu que aquilo que havia confundido com uma mancha no meio da testa do filho não era uma mancha, era um olho a mais que agora, entre os outros dois, a encarava atento. Foi sempre assim, depois. Aquele olho central de íris tão escura quanto as pestanas parecia sempre mais interessado, mais desperto que os outros. Piscava pouco, pouco dormia, e mesmo sem quase mover-se parecia alcançar coisas que aos outros escapavam.
  • Page 461claros melhores que pedras, e escolheram para ele os mais finos galhos de carvão das fogueiras. O menino ainda desenhou as ovelhas que o pai levava ao pasto, desenhou as serpentes que enroladas em suas tocas cobiçavam as ovelhas. E logo em seguida desenhou o pai.
  • Page 462imobilidade. Solicitado por seus secretários movia-se na poltrona, abandonava e recolhia o cetro, assinava documentos, dava breves ordens. O olho central do artista tudo acompanhava, sereno e firme como se olhasse um rochedo. Ao cabo de alguns dias o rapaz sacudiu a cabeça, piscou repetidas vezes. O retrato estava pronto.
  • Page 463Posfácio
  • Conferência proferida no 19° Cole, 2014O navio fantasma atracou na terceira margem do rio E o navio fantasma atracou na terceira margem do rio. Poderia ser um título criado para encaixar-se com precisão no tema desse 19° Cole, Leituras sem margens. Mas, na verdade, é um conto. Porque o pedido que recebi da organização foi que falasse do meu trabalho, escolhi para nomear esta conversa o miniconto que encerra meu livro mais recente, Hora de alimentar serpentes.
  • Page 465"Enfiou a serpente na agulha. E começou a costurar". Desde o início, preferi a serpente a qualquer outro fio. Serpente, não pelo veneno mas pelo risco, serpente não pelo medo mas pela sedução, serpente porque coleante, viva, e inesperada.
  • Page 466-, aquele cintilar em movimento provocado pela bola de espelhos girando no teto. Com o título Eu sozinha, o livro, considerado de crônicas, teve até boa recepção. Ninguém percebeu estrutura alguma! Mas eu tinha posto o pé no caminho.
  • Page 467resultou Zooilógico. Como uma mancha de óleo
  • Page 468importante era imobiliária. Durante oito anos vivi mergulhada em plantas, lançamentos, pontos de venda, metragens. O mercado imobiliário era a minha morada. E podia ser sufocante. A necessidade de abater paredes de concreto que estavam se tornando opressivas, aliada ao conhecimento que tinha delas, ditou o tema. Agora, entretanto, eu não precisava mais de guarda-mancebo, havia aprendido a andar solta no convés. Tema e estruturas ganhavam outra finalidade.
  • Page 469Estabeleci para o meu prédio/livro nove andares e três coberturas. Em cada andar, sete apartamentos. E entre cada andar, uma área coletiva, portaria, elevador, play etc. Coloquei o quarto de empregada como área coletiva, indicando que não fazia parte do núcleo familiar. E passei a preencher os quadrados.
  • Page 470escrevendo um ensaio. Além dos sentidos
  • Page 471falar de auréola imaginária. Sem abracadabra
  • Page 472começo a reescrever A bela adormecida. É aí que sou fisgada. Pois ao terminar de escrever, percebo ter gerado outro conto. Pensando continuar sentada no meu escritório, eu havia me transferido para aquele universo ao qual nunca havia imaginado pertencer. E a maravilha é tanta, que não quererei mais abandoná-lo. O conto ganha o título de 7 anos e mais 7. Assim tem origem o livro Uma ideia toda azul.
  • Page 473desperta a sensação de outro sentido: a visualização de uma escultura é percebida como um cheiro, ou um cheiro traz a percepção de uma cor. Ou seja, um estímulo funciona como disparador de outro. Foi mais ou menos o que aconteceu ao escrever o primeiro conto, quando o sono fantástico do conto original serviu para estimular meu inconsciente, levando-o a produzir outra narrativa em que o sono deixa de ser uma ausência, para tornar-se ativo. Assim, meus contos maravilhosos me surpreendem como se não fossem meus, como se eu os recebesse de alguém, tocando-me apenas dar-lhes forma. Sei perfeitamente que não é isso, já que não trabalho com espiritismo. Eu apenas me debruço sobre uma frase, um fato, um quadro, abaixo as minhas defesas, e deixo aquela frase, aquele fato, aquele quadro se expandir, superar as fronteiras dos cinco sentidos. A razão está ausente. Eu, à espera. E se alguma história começa a surgir, a acompanho com passos felpudos, cuidando de mantê-la protegida para que vá adiante, seguindo o caminho que é seu e que eu desconheço. Às vezes vamos juntas até o fim. Outras vezes a história se parte como um fio, e se nega a proceder. Talvez eu não estivesse pronta para ela. Voltará adiante, ou a perderei para sempre. Impossível saber.
  • Page 474recrio os contos tradicionais. Minha sensação não é de recriação, é de retomada. Um mote me foi legado, e como um estafeta quero levá-lo adiante, criando novas histórias em harmonia com o todo, e em concordância com o meu próprio tempo. Não tenho nem a doce voz do povo, nem a sua sabedoria ancestral. Modestamente urbana e moderna, procuro minha voz no farfalhar das plantas, no misterioso respirar das conchas, nas buzinas, nas sirenes. E cuido de não dar conselhos.
  • Page 475cortes/vara as coisas pequenas/fura a casca/o odre/ rasga a placenta/ e deixa gotejar/o fino/sangue". Curiosamente, meu processo criativo na poesia é oposto ao dos contos maravilhosos. Pois naqueles a história acontece sem qualquer contributo da razão, enquanto a linguagem respira debaixo do meu absoluto controle. E no poema há um intuito claro, algo que quero dizer, um toque de vista a expressar, mas a linguagem tem ditado próprio, foge da minha mão, escapa, se mete por frestas insuspeitadas, procura um caminho outro com o qual eu não havia contado, e muitas vezes sou obrigada a chamá-la - ou a chamar-me à ordem, para não perder-me do tema. É como se nos dois processos houvesse uma inversão de domínios.
  • Page 476escadarias saídas dos livros de história da arte. A escrita não é feita só de palavras. E a minha se aproveita do meu olhar de pintora.
  • Page 477che qualcosa nel letto mi facea soffrire. / Veramente tu sei principessina / disse in quel mentre la vecchia regina / un pisello nascosi nel tuo letto / e dissi tutto al mio figlioletto. Sè principessa lo dovrà sentre/sè principessa ne dovrà soffrire. / Questo disse la furba regina,/ed uni il príncipe e la principessina 2 Lungarno - Lungarno un pescator solo soletto / avea pescato argenteo un pescioletto / ei lo poneva dentro un bianco cesto/rimirando la preda pel suo desco / egli era un fiorentino, / ma proprio un contadino / il pesce mai mangiava / apposta rimirava / la preda dentro al cesto / per il suo bianco desco.
  • Obras reunidas neste volumeUma ideia toda azul. Rio de Janeiro: Nórdica, 1979. São Paulo: Global, 2006. Doze reis e a moça no labirinto do vento. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982. São Paulo: Global, 2006.
  • Marina Colasanti[Affonso R. de Sant'Anna] Nasceu em Asmara, na Eritreia, viveu em Trípoli, percorreu a Itália em constantes mudanças, transferiu-se com sua família para o Brasil. Viajar foi, desde o início, sua maneira de viver. E, desde o início, aprendeu a ver o mundo com o duplo olhar de quem pertence e ao mesmo tempo é alheio. A pluralidade de sua vida transmitiu-se à obra. Pintora e gravurista de formação, é também ilustradora de vários de seus livros. Foi publicitária, apresentadora de televisão e traduziu obras fundamentais da literatura. Jornalista e poeta, publicou livros de comportamento e de crônicas. Recebeu numerosos prêmios como contista. Sua obra para crianças e jovens é extensa e muitas vezes premiada.
  • © 2014 by Marina Colasanti1ª Edição Digital, Global Editora, 2015 Jefferson L. Alves - diretor editorial Dulce Seabra - edição
  • Page 481Colabore com a produção científica e cultural. Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a autorização do editor.
Text of this page

che qualcosa nel letto mi facea soffrire. / Veramente tu sei principessina / disse in quel mentre la vecchia regina / un pisello nascosi nel tuo letto / e dissi tutto al mio figlioletto. Sè principessa lo dovrà sentre/sè principessa ne dovrà soffrire. / Questo disse la furba regina,/ed uni il príncipe e la principessina

2 Lungarno - Lungarno un pescator solo soletto / avea pescato argenteo un pescioletto / ei lo poneva dentro un bianco cesto/rimirando la preda pel suo desco / egli era un fiorentino, / ma proprio un contadino / il pesce mai mangiava / apposta rimirava / la preda dentro al cesto / per il suo bianco desco.