O Preço do Pioneirismo
Mas a história não é feita apenas de aplausos. Ser pioneira em um país conservador e sob regime autoritário cobrou um preço brutal de Ângela. A violência bateu à sua porta não de forma velada, mas com violência física.
A cantora revelou publicamente ter sido espancada cinco vezes por homofobia ao longo das décadas de 1980 e 1990. Quatro dessas agressões partiram de oficiais da Polícia Militar e uma da Polícia Civil. Em um dos episódios mais bárbaros, os golpes desferidos com barras de ferro e cacetetes resultaram na perda definitiva da visão de um de seus olhos e de metade de sua audição.
A resposta de Rô Rô à violência estatal e civil? Mais música, mais deboche e zero recuo. Ela transformou o escândalo que a imprensa sensacionalista tentava criar ao redor de sua vida amorosa (como seu vulcânico relacionamento com a cantora Zizi Possi) no conceito do aclamado álbum "Escândalo" (1981).
"Me assumir lésbica me custou a cegueira de um olho e meio e metade da audição. (...) Me orgulho de ter sido pioneira." — Ângela Rô Rô, em depoimento de resiliência histórica.
Ângela Rô Rô nos deixou recentemente, aos 75 anos de idade, em setembro de 2025, no Rio de Janeiro. Sua partida gerou uma onda de homenagens de nomes que vão de Daniela Mercury a Caetano Veloso, todos reverenciando a mulher que pavimentou o caminho com dinamite para que as gerações de hoje pudessem cantar sobre orgulho no topo das paradas.
Rô Rô foi a personificação do som e da fúria da liberdade. Ela provou que o amor entre mulheres não era uma nota de rodapé na cultura brasileira, mas sim poesia de primeira grandeza. Abrir este especial com sua história não é apenas uma homenagem; é um ato de justiça histórica com a nossa padroeira mais rebelde.