SÉRIE ESPECIAL: ÍCONES DE ORGULHO
Episódio 1: O Som, a Fúria e a Liberdade de Ângela Rô Rô
O RETRATO EM PRETO E BRANCO DE UMA MULHER QUE ESCANCHAROU AS PORTAS DO AMOR LÉSBICO NA MPB QUANDO A CORAGEM CUSTAVA CARO E O SILÊNCIO ERA A REGRA.
A Voz de Vinho Barato e Joias Cortantes
Rio de Janeiro, 1979. Enquanto o Brasil ensaiava uma lenta abertura política para sair dos anos mais cinzentos da ditadura militar, uma mulher de 29 anos sentava-se ao piano para estraçalhar o bom mocismo da Música Popular Brasileira. Ângela Maria Diniz Gonçalves, que ganhou o apelido de Rô Rô ainda na infância por causa de sua risada e voz gravemente roucas, lançava seu primeiro álbum homônimo.
Dizer que o disco foi um sucesso é reduzir o impacto de um verdadeiro terremoto cultural. Com arranjos de Antonio Adolfo, a obra misturava o requinte do piano clássico — que ela estudava desde os 5 anos — com a dor rasgada do blues, do jazz e do samba-canção. Canções como "Amor, Meu Grande Amor" e "Tola Foi Você" não eram apenas hits de rádio; eram cartografias explícitas e confessionais do desejo.
O que tornava Rô Rô uma figura monumental, contudo, ia muito além de seu talento técnico monumental como musicista. Ângela Rô Rô foi a primeira grande cantora de projeção nacional a se assumir publicamente lésbica no Brasil.
Em uma era em que grandes estrelas recorriam a pronomes neutros e metáforas cifradas para esconder seus relacionamentos, Ângela cantava o amor de mulher para mulher com o peito aberto. Ela transformou o afeto lésbico em canção de massa. Não existiam armários para Rô Rô porque, para ela, a verdade era o único veículo possível para sua arte. Em entrevistas históricas da época — como a que concedeu ao boletim feminista ChanaComChana em 1981 —, ela tratava a sexualidade com a naturalidade de quem simplesmente se recusa a pedir permissão para existir.