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Revista Amplitude n.3 - Revista Cristã de Literatura e Artes

By Sammis Reachers

Número 3 - Vol 1 - JUL 2019 Assustadores três anos se passaram, lentos ou esvoaçantes, a depender do ponto de quem observa. AMPLITUDE entrou em seu anunciado hiato, devido aos hercúleos e cli

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https://covver.com/magazine/sammisreachers/revista-amplitude-n3-revista-crista-de-literatura-e-artes-5SocGCe61tDpG2jot9q9
Published
Oct 12, 2025
Pages
78
Language
English

More in this magazine

  • AMPLITUDE#3 Jul 2019 Revista Cristã de Literatura e Artes
  • Page 2A AMPLITUDE é uma revista de cul- tura evangélica, com foco principal em ficção e poesia. Mas nosso leit- motiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por cinema, fotografia, artes plásticas e quadrinhos. Publi- Editorial.
  • LiteraturaLiteratura Comes
  • Clélia Inácio Mendes (*)Olhos Azuis pintura esquecida, ou (quem sabe?) seria apenas a mente de Lucília a criar mais um ser para não se sentir sozinha. Uma tarde de Novembro necessita de companhia e vida. Ao chegar perto do velho, ela reparou que Naquela tarde chovera abundantemente e tinha os olhos de um azul tão puro e jovem que Lucília olhava as folhas mortas no chão, boiando Lucília apertou a garganta para não soltar um grito. nas poças ou simplesmente açoitadas pelo vento norte que cortava o ar.
  • Page 5Lucília achou-o tão real que lhe quis dar as boas junto à janela, vendo as luzes sumidas pela cortina noites, mas ao abrir a boca viu com espanto que só fosca da chuva miudinha que caía, observando o agora reparara que o palhacinho tinha os olhos de silêncio do sono da cidade, pensou no velho que via lantejoula de um azul muito belo, muito claro e diante do rio. Para onde teria ido? Ainda lá estaria? infantil, como os olhos do velho do rio. Lucília Naquele momento, sentiu uma vontade imensa de deixou cair uma lágrima. Por detrás da montra a correr para lá, para ver se era realidade ou se o senhora gorda dizia-lhe qualquer coisa com um velho se teria ido embora. Pensou depois no sorriso bondoso nos lábios, mas ela não ouviu. palhacinho que olhara para ela com olhos de Murmurou um adeus ao palhacinho e quis que lantejoula. Ambos tinham os olhos azuis e ela não nesse momento um milagre se desse e fosse o sabia de onde tinham vindo. Um sobressalto bonequito a retorquir-lhe a despedida, mas só apoderou-se dela e de um salto correu para o houve silêncio e o sorriso emprestado da senhora móvel, abriu-o, retirou de lá o álbum das da loja. fotografias, o velho álbum sem época e pousou-o nos joelhos Uma a uma, as folhas eram passadas com uma carícia e uma lágrima. Ela procurava o menino dos olhos azuis que lhe sorrira há tanto tempo, mas...tal vez não fosse esse o menino nem esses os olhos. Lucília parou. As mãos apertaram-se num
  • Page 6No mundo superior o inferno uma vez se rebe- lou contra o céu. Mas neste mundo o céu está se rebelando contra o inferno. O religioso antigo clama- va por seu Deus. O religi- oso moderno clama para que deus seja seu. Aceitar tudo é um exercí- cio, entender tudo é uma A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão.
  • Page 7O coração deve estar pre- so à coisa certa; a partir do momento em que temos o coração preso temos liber- dade para as mãos. HOT SPOTS:
  • ASAS PASCAISDeus, que o homem criaste em tudo enriquecido, Ainda que, insensato, ele tudo perdesse, E decaindo assim em desabrigo, Elle, pois, se convertesse Em pobre mendigo. Contigo
  • • GRUPO DE KOBALDEdna das Dores de Oliveira Coimbra Logo, eles teriam que ter o mesmo destino de Ko- bald! Mas não! Qualquer um que solicitasse a repre- sentação do Dr. Emanuel saía vitorioso. As argu- mentações do Dr. Emanuel eram sempre verdadei- ras. Nada ficava escondido. E ainda assim, o veredic- to era satisfatório para os seus clientes. E era isso que fazia com que Kobald o odiasse ainda mais. Ko- bald não só odiava, mas também invejava o Dr. Emanuel. Invejava, porque o próprio Kobald tam-
  • Page 10cisava ser mais convincente. era marcada por belos músculos, corpo bem defini- segurava. Kobald não poderia esperar mais. Ele pre- do, pele cuidada. E quando ele estava com Ludmila sempre demonstrava sua força, seu lado de macho, Em uma noite em que chovia bastante, Kobald esta- de protetor. Porém, perdia para a beleza do domi- va com Ludmila junto à varanda do apartamento. nante.
  • Page 11nifestasse com o mesmo desejo que o seu. Kobald olhava um por um do grupo e sutilmente insinuava no ouvido de um, no ouvido de outro, que a noite ficaria melhor se pudessem fazer algo mais do que beber. Dali a alguns minutos, alguém disse que havia um lugar onde eles poderiam se divertir de verdade. Era tudo o que Kobald queria. Ao che- garem ao endereço sugerido, encontrou de tudo. Viu muita coisa rolando nesse grupo. Nem quando ele vivia aqui fora, aprontando todas, viu o que aquele grupo fazia. Era todo mundo misturado, inje- tado, ensanguentado e vomitado.
  • CrónicasPor John Piper Tradução por Desiring God
  • Page 13bora eu tenha muitas vezes sido exposto ao frio e à fome no deserto...; tenho me perdido na mata frequente- mente... Bendito seja Deus pois Ele tem preservado a minha vida". Mas, em tudo isso estava a busca incessante de Deus e santidade. "Quando eu realmente desfruto de Deus, eu sinto meus desejos por ele mais inesgotáveis, e a minha sede por santidade mais insaciável; ... Oh, por santidade! Oh, por mais de Deus em minha alma! Oh, esta dor agradável! Faz a minha alma se apressar em busca de Deus... Oh, que eu não caminhe lentamente na minha jornada celestial!"
  • Page 14FRAGMENTO DE UMA SENTENÇA terça-feira, se não me engano. Jorge F. Isah
  • Page 15ta vez, como sentia saudades de ir à padaria com- sempre distorcida à mente, uma espécie de bruma prar pão, depois de fazer um café fresquinho, esti- translúcida em que os traços faciais se dissipavam car a mão, pegar o troco e cumprimentar os vizi- como neblina. Por maior esforço despendido, a me- nhos. Não havia quem não passasse por ela e não mória sempre trazia uma figura distendida, difusa, conhecesse. Naquele hospital, podia sentir como a como se a fugir ou esconder-se da minha observa- caminhada matinal era uma bênção. ção; então, eu desistia, quase sempre, de agrupar as linhas dispersas, contentando-me apenas com o no- me e o que ele trazia de significativo da pessoa. Mas ficava mesmo era a tristeza com a factualidade da - Sabe, moço, não sei quando vou sentir aquilo tudo de novo. Mas o dia em que sair de casa, depois de coar o café fresquinho, subir a rua até a padaria e sentir o cheiro de pão novo, será o dia mais feliz vida, de como pode se evanescer rapidamente, nu- da minha vida... - Segurou uma lágrima que teimava ma fração de segundos, não restando nada além de lembranças... em escorrer, esfregando os olhos para afastá-la - A gente não dá importância para as coisas da vida até que perde... Eu nunca mais vou deixar de ligar para as mínimas coisas do dia-a-dia, por menor que se- jam, por mais que se faça. Até mesmo se não gostar dela, vou agradecer a Deus... Na semana seguinte, procurei pela velhinha, e não estava. Havia morrido numa quarta-feira...
  • Page 16O canto real é uma forma poética rara, formada por cinco estrofes, de onze versos em geral, terminando por uma estância menor, chamada envio ou oferta, e que tem cinco ou seis versos. As rimas são simétricas, iguais em todas as estrofes e seguindo sempre o esquema: ABABCCDDEDE. O último verso de cada estrofe é, per- manentemente, o mesmo. CANTO REAL Nº2
  • Page 17Roberto Vargas Jr. Um pecador mediocre
  • Page 18to a si mesmos, por outro impõem fardos sobre o comportamento alheio. No mais das vezes sequer conseguem viver de acordo com seus próprios far- dos. É mesmo asqueroso. - Exatamente.
  • 100 CITACOES SOBRE A ANTEA arte foi feita para ser sentida e não para ser compreen- A criatura defende-se criando. dida; por isso, toda vez que se tenta falar dela com inteli- André Malraux gência, o mais que se consegue dizer são tolices.
  • Page 20A arte é o único domínio em que a onipotência das ideias se manteve até nossos dias. Só na arte ainda acontece que um homem, atormentado por desejos, realize algo que se assemelhe a uma satisfação; e, graças à ilusão artística, este jogo produz os mesmos efeitos afetivos, como se fos- se algo real. É com razão que se fala da magia da arte e que o artista é comparado a um mágico. Freud O artista tem um estranho poder sobre a vida. Cria sobre o nada e isso lhe dá sensação de eternidade. Marcello Grassmann
  • Page 21Arte legítima é aquela que tem uma certa inevitabilidade: Eu não pinto a natureza. Eu sou a natureza. só poderia ser feita naquele momento histórico, por uma Jackson Pollock determinada pessoa, inspirada por uma visão de um mundo determinada. Alexei Bueno Willa Cather
  • Page 22Sem autenticidade, sem educação, sem liberdade no seu Eu escolhi Bezalel, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi significado mais amplo - na relação consigo mesmo, com do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e ple- as próprias ideias pré-concebidas, até mesmo com o pró- na capacidade artística para desenhar e executar trabalhos prio povo e com a própria história - não se pode imaginar em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, um artista verdadeiro; sem este ar não é possível respirar. para entalhar madeira e executar todo tipo de obra arte- Ivan Turgueniev sanal. Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me cha- mar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa. Ariano Suassuna
  • João A. de Souza FilhoO Borracheiro Para entender bem essa história, você tem de saber o que faço. Sou pastor e vivo envolvido com pessoas, participando da alegria e das tristezas delas. Quero dizer: sou um pastor à moda antiga, que cuida de pessoas, ouve seus dramas, chora e ri com elas, participa de aniversários, casamentos, funerais, batizados, enfim, um pastor. Por isso sos, aperta os parafusos. Calibra o pneu. Vê se está tudo certo. E um novo cliente espera a vez de ser atendido. Sua mulher me diz que o borracheiro tem um problema de saúde: as constantes dores nas costas não lhe permitem trabalhar direito; está pen- sando em largar tudo. E chega em casa nervoso, agitado. Quando não briga com todo mundo, acomoda-se no seu silêncio interior diante da tevê.
  • Page 24co. Agora não era imaginação: era real. Havia um Percebi que me examinava da cabeça aos pés; fiz de homem de branco no pátio. conta que não notei e por algum momento não lhe O velho que seguira comigo sem eu perceber, deu dirigi a palavra. Fiquei ali imaginando os portugue sua opinião: novo.
  • Page 25- Nessa casa morou primeiro a família do Felisbino Ninguém sabe o que há por trás delas. Assim é o de Souza; depois a família se misturou com os Silva desdobramento das maldições! Aparecem no próxi- e vieram os Garcia e os Santos... mo cenário da vida. Em algum descendente! Ansioso por falar, não se conteve: - Não sei muita coisa meu filho, mas quando a maldição veio sobre esses conterrâneos, até o bairro envelheceu. Esse bairro era próspero nos anos 30 a 60. O bonde gaio-
  • Page 26vamente com a cabeça. O homem com quem eu conversava tinha informações que me poderiam ser úteis, pensei. Conversar sobre genealogias, famílias, mal- dições, etc. é bem interessante. O pior é quando se descobre na árvore genealógica, não um príncipe, mas um bandido, um assassino! Mas eu tinha de falar com o borracheiro, afinal, sua esposa andava preocupada com ele. O homem fez menção de seguir adiante e nos despedimos. Ele colocou no bolso da minha camisa um pedacinho de papel rabiscado com seu primeiro nome e telefone.
  • Page 27fechadura. Estava bem trajado, jeans e paletó pelo corpo. Isso me intrigou, afinal, só sinto arrepios com demônios por perto. A presença dele causou -me estranheza. Não era o mesmo homem que eu vira pela fresta da fechadura. Estava bem trajado, jeans e paletó branco; uma corrente de ouro grossa aparecia sob o colarinho aberto da camisa mostrando um peito cabeludo. Duas pulseiras de ouro ornavam-lhe as mãos. Um anel grosso cingia seu dedo ao lado de uma aliança. Fomos apresentados. - Este é o pastor - falou o borracheiro. Veio orar por mim.
  • SEI QUE ESTÁS PRESENTEJosé Julio de Azevedo Ao acordar sei que estás presente Quando vejo o rosto das crianças Seu que estás presente.
  • Sammis ReachersViseu Nostromo passagem do ano. Deste ano mau. Noventa textos, provas, indícios. Agora órfãos. Precisamos retomar seu projeto. Ele merece, disse Dario. Nós outros dois abaixamos a cabeça em concordância. De longe o mais simpático e afável dentre nós. Sua Éramos últimos, (sub?/trans?) cristãos de meia idade passagem foi um baque, um estorvo em nossas lides.
  • Page 30O dia é este, Que tu me deste. Vou fruir cada hora que passa
  • Jardim dos ClássicosParte da colossal A Comédia Humana, o projeto literário balzaquiano que abarca qua- se 150 obras, entre concluídas e inconclusas, este belo conto (ou novela) Jesus Cristo em Flandres causou alguma polêmica quando de sua publicação, notadamente pelo caráter algo anticlerical do conto e de seu autor, o católico Honoré de Balzac (1799-1850). Honoré de Balzac
  • Page 32queles personagens pertenciam à mais alta no- Ostende, recuou para dar lugar suficiente breza de Flandres. Primeiro um jovem cavalei- ao recém-chegado. Seu movimento não re- ro, acompanhado de dois belos galgos e usando velou nem servilismo nem desdém. Foi um sobre os cabelos compridos um gorro bordado daqueles testemunhos de gentileza através de pedrarias, fazia retinir suas esporas doura- dos quais as pessoas pobres, habituadas a das e, com impertinência, frisava a intervalos conhecer o preço de um favor e as delícias seu bigode, lançando um olhar desdenhoso ao da fraternidade, revelam a franqueza e a na- resto do cortejo. Uma altiva senhorita tinha um turalidade de suas almas, tão ingênuas na falcão sobre o punho e só falava com sua mãe ou a um eclesiástico das altas esferas, sem dú- expressão de suas qualidades e de seus de- vida seu parente. Aquelas pessoas faziam mul- feitos; em consequência, o estranho agrade- to barulho e conversavam entre si, como se es- ceu-lhes com um gesto cheio de nobreza. tivessem sozinhas na barca. Entretanto, junto Então sentou-se ele entre essa jovem mãe e delas estava um homem muito importante na o velho soldado. Atrás dele estavam um região, um gordo burguês de Bruges envolto camponês e seu filho, com 10 anos de ida- num grande casaco. Seu criado, armado até os de. Uma mulher pobre, com uma sacola dentes, colocara perto dele dois sacos cheios quase vazia, velha e enrugada, em farrapos, de dinheiro. Ao lado deles havia ainda um cien- imagem de infelicidade e indiferença, jazia tista, doutor na universidade de Louvain, lade- na ponta da barca, acocorada sobre um ado por seu pároco. Essas pessoas, que despre- grande maço de cordas. Um dos remadores, zavam umas às outras, estavam separadas da parte da frente pelo banco dos remadores. Quando o passageiro em atraso pôs o pé na barca, lançou um rápido olhar para a popa, não viu lugar, e foi pedir um aos que esta- vam na frente do barco. Tratava-se de gente pobre. Pelo aspecto do homem de cabeça descoberta, cujo casaco e calções em tecido marrom, cuja manta em tela de linho engovelho marinheiro que a conhecera bela e rica, deixara-a entrar, aplicando o admirável dito popular: pelo amor de Deus. Muito obrigada, Thomas dissera a ve- lha, rezarei por você essa noite dois pais- nossos e duas ave-marias.
  • Page 33diferentes forças humanas atuando em har- dos se calaram e contemplaram o mar e o monia para fazê-la atravessar o estreito me- céu, fosse por pressentimento, fosse para diante um pequeno pedágio. Longe de de- obedecer àquela melancolia religiosa que plorar tal miséria, mostravam uns aos ou- assalta quase todos na hora da oração, ao tros os remadores, rindo das expressões cair do dia, no instante em que a natureza grotescas que a manobra imprimia a suas se cala, em que os sinos falam. O mar emitia fisionomias atormentadas. Na proa, o solda- uma luz branca e pálida, mas instável e se- do, o camponês e a velha contemplavam os melhante às cores do aço. O céu estava to- marinheiros com aquela espécie de compai- talmente acinzentado. A oeste, longos espa- xão natural às pessoas que, vivendo de seu ços estreitos simulavam borbotões de san- labor, conhecem as rudes angústias e o fe- gue, enquanto no oriente linhas faiscantes, bril cansaço do trabalho. Além disso, habi- como que traçadas por um pincel fino, eram tuados à vida ao ar livre, todos haviam com- separadas por nuvens plissadas como rugas preendido, pelo aspecto do céu, o perigo no rosto de um ancião. Assim, mar e céu que os ameaçava, e estavam assim todos sé- ofereciam por toda parte um fundo som- rios. A jovem mãe embalava seu filho, can- brio, todo em meios-tons, que fazia ressal- tando-lhe um antigo hino religioso para tar os fogos sinistros do poente. Essa fisio- adormecê-lo. nomía da natureza inspirava um sentimen- Se chegarmos disse o soldado ao campo- to terrível. Se é permitido introduzir os au- nês, o bom Deus terá metido na cabeça a dazes tropos do povo na língua escrita, re- ideia de nos deixar vivos. petiríamos o que dizia o soldado, que o -Ah!, ele é quem manda respondeu a tempo era de retirada, ou, o que lhe respon- velha ; mas acho que seu prazer preferi- deu o camponês, que o céu tinha a cara de do é nos chamar para junto dele. Estão ven- um carrasco. O vento ergueu-se de repente do aquela luz lá? E, com um gesto da ca em direção ao poente, e o chefe, que não pa- beça, apontou o poente, onde riscas de fogo rava de consultar o mar, vendo-o inchar no cortavam vivamente nuvens marrons de re- horizonte, exclamou: "Ho! Ho!" A esse grito, flexos avermelhados que pareciam bem os marinheiros pararam na mesma hora e perto de desencadear algum vento furioso, deixaram flutuar seus remos. O mar fazia ouvir um murmurio surdo, uma O patrão tem razão disse friamente para o fundo do mar entreaberto. Com esse movimento extraordinário, com essa súbita ira do oceano, as pessoas da po- pa empalideceram e deram um grito terrirespondeu-lhes tranespécie de mugido interior, muito parecido Thomas quando o barco levado para o alto com a voz de um cão quando só quer res- de uma enorme onda voltou a descer como mungar. Afinal, Ostende não era longe. Na- quele momento, o céu e o mar ofereciam um daqueles espetáculos aos quais é im possível tanto à pintura quanto às palavras dar mais duração do que realmente têm. As vel: criações humanas precisam de contrastes Vamos morrer! poderosos. Também os artistas pedem em- Ah, ainda não! geral à natureza seus fenômenos mais bri- quilamente o chefe. lhantes, desesperando sem dúvida de tor- Nesse momento, as nuvens se despedaça- nar ordinária a grande e bela poesia de seu ram sob o esforço do vento, bem acima do aspecto, ainda que a alma humana seja tam- barco. Tendo as massas cinzentas se esten- bém muitas vezes profundamente abalada dido com sinistra prontidão no oriente e no tanto na calma quanto no movimento, e pe- poente, a luz do crepúsculo ali caiu perpen- lo silêncio tanto quanto pela tempestade. dicularmente por uma fresta provocada pe- Houve um momento em que, na barca, to- lo vento de tempestade, e permitiu que se
  • Page 34vissem os rostos. Os passageiros, nobres ou E vocês continuou ele dirigindo-se aos ricos, marinheiros e pobres, ficaram por um marinheiros, remem com vontade! Te- instante surpresos com o aspecto do recém- mos um instante de trégua, em nome do di- chegado. Seus cabelos de ouro, divididos ao abo que lhes abandona neste mundo, seja- meio sobre seu semblante tranquilo e sere- mos nós mesmos nossa providência. Este no, caíam em inúmeros cachos sobre os om- canal é furiosamente perigoso, todo mundo bros, recortando sobre a cinzenta atmosfe- sabe, já são trinta anos que eu o atravesso. ra uma figura sublime de doçura e da qual Não é de hoje que eu brigo com a tempesta- se irradiava o amor divino. Ele não despre- de! zava a morte, ele tinha a certeza de não pe- recer. Mas se, em princípio, as pessoas da popa esqueceram por um instante a tem- pestade cuja implacável fúria os ameaçava, logo voltaram a seus sentimentos de egoís- mo e aos hábitos de suas vidas. Então, de pé defronte ao leme, o chefe con- tinuou a olhar alternativamente para o bar- co, o mar e o céu.
  • Page 35com algum delicado festim, que talvez na- semelhante ao entusiasmo que os soldados quele momento estivesse se banhando, se têm por seu chefe, quando ele é um homem perfumando, vestindo-se de veludo, ou co- de poder, cercado pelo brilho das vitórias, e locando seus colares e pedrarias. Longe de caminha em meio às brilhantes glórias do pensar nos poderes da santa Igreja e de gênio. A velha indigente dizia em voz baixa: consolar aqueles cristãos exortando-os a Ah! Pecadora infame que sou! Será que já confiar em Deus, o bispo perverso combina- sofri o bastante para expiar os prazeres da va lamentos mundanos e palavras de amor juventude? Ah! Por que, infeliz, levaste a vi- às santas palavras do breviário. A claridade da fácil de uma gaulesa, comeste o pão de que iluminava aqueles rostos pálidos per- Deus com gente da igreja, o pão dos pobres mitiu que se vissem suas diversas expres- com os torcionários e exatores? Ah, como sões quando a barca, erguida nos ares por fiz mal! Ah, meu Deus! Meu Deus! Deixal- uma onda, depois atirada ao fundo do abis- me acabar meu inferno nessa terra de infe- mo, depois sacudida corno uma folha impo- licidades. Ou melhor: Virgem Santa, mãe de tente, brinquedo da brisa de outono, esta- Deus, tende piedade de mim! lou em seu casco e pareceu prestes a se quebrar. Houve então gritos horríveis, se- guidos de medonhos silêncios. A atitude das pessoas sentadas à proa do barco con- trastou singularmente com a dos ricos e po- Ah! Senhor anspeçada, essas belas se- derosos. A jovem mãe apertava seu filho de nhoras são felizes por estarem ao lado de encontro ao seio a cada vez que as ondas um bispo, de um homem santo! - continu- ameaçavam engolir a frágil embarcação; ou a velha. Elas terão a absolvição de mas ela acreditava na esperança que lhe seus pecados. Ah! Se eu pudesse ouvir a voz lançara no coração a frase dita pelo estra de um padre me dizendo: "Seus pecados se- nho; a cada vez, ela voltava seu olhar para rão perdoados", eu acreditaria nele! aquele homem e colhia em seu rosto uma O estranho voltou-se para ela e seu olhar nova fé, a fé forte de uma mulher fraca, a fé caridoso a fez estremecer. Acalme-se, minha velha, o bom Deus não é um lombardo. Mesmo que eu tenha mata- do, talvez a torto e a direito, os bons e os maus, não temo a ressurreição.
  • Page 36existências, um homem poderoso, o chefe dou ao lado dele sobre o mar. O soldado er- da barca, de nada desconfiando, o patrão, o gueu-se de repente dizendo em sua lingua- rei fatalista, fazendo-se sua própria provi- gem de inocência: "Ah! Filho de uma égua! dência e gritando "São Vertedouro!...", e não Eu te seguirei até o inferno." Então, sem pa- "Santa Virgem!"... enfim, desafiando a tem- recer surpreso, andou sobre o mar. A velha pestade e lutando com o mar corpo a corpo. pecadora, acreditando na onipotência de Na outra extremidade do bote, os fracos!... a Deus, seguiu o homem e andou sobre o mar. mãe embalando em seu seio uma crianci- Os dois camponeses disseram: nha que sorria para o temporal; uma moça, Se eles andam sobre a água, por que nós outrora contente, agora entregue a horrí- não faríamos como eles? Levantaram-se e veis remorsos; um soldado crivado de feri- correram atrás deles andando sobre o mar. mentos, sem qualquer outra recompensa Thomas quis imitá-los, mas, sua fé fraque- além de sua vida mutilada ao preço de uma jando, caiu diversas vezes no mar, ergueu- dedicação infatigável; ele tinha apenas um se; então, depois de três provações, andou pedaço de pão encharcado de lágrimas; en- sobre o mar. O audacioso piloto se agarrara tretanto, ria de tudo e andava sem preocu- como uma rêmora sobre o chão do barco. O pações, feliz quando afogava sua glória no avaro tivera fé e se levantara, mas quis levar fundo de um copo de cerveja ou quando a seu ouro, e seu ouro o levou para o fundo contava a crianças que o admiravam, confi- do mar. Zombando do charlatão e dos imbe- ava alegremente a Deus os cuidados com cis que o escutavam, no momento em que seu futuro; enfim, dois camponeses, gente viu o desconhecido propondo aos passagei- de lida e fadiga, o trabalho encarnado, a la- ros caminhar sobre o mar, o sábio começou buta da qual vivia o mundo. Essas criaturas a rir e foi engolido pelo oceano. A mocinha simples não se preocupavam com o pensa- foi levada para o abismo por seu amante. 0 mento e com seus tesouros, mas estavam bispo e a velha dama foram ao fundo, com o prestes a mergulhá-los numa crença, tendo peso de crimes, talvez, mas ainda mais pe- a fé ainda mais robusta por jamais terem sados pela incredulidade, pela confiança em discutido, ou analisado, o que quer que fos falsas imagens, pesados de devoção, leves se; naturezas virgens nas quais a consciên- de esmolas e de verdadeira religião. cia havia permanecido pura e o sentimento, O grupo fiel que comprimia com pés firmes poderoso; o remorso, a infelicidade, o amor, e secos a planície das águas enfurecidas ou- o trabalho haviam exercitado, purificado, via a seu redor os horrendos silvos da tem- concentrado, decuplicado sua vontade, a pestade. Vagas enormes vinham se quebrar única coisa que, no homem, se parece com o sobre seu caminho. Uma força invisível cor- que os sábios chamam de alma tava o oceano. Através da bruma, aqueles Quando a barca, conduzida pela miraculosa fiéis percebiam ao longe, na margem, uma. habilidade do piloto, chegou quase defronte luzinha fraca que tremeluzia pela janela de a Ostende, a cinquenta passos da margem, uma cabana de pescadores. Cada um deles, foi empurrada por uma convulsão da tem- andando corajosamente em direção àquela pestade e socobrou de repente. O estranho luz, acreditava ouvir seu vizinho gritando de rosto luminoso disse então àquele pe- através dos rugidos do mar: "Coragem." E queno mundo de dor: entretanto, atentos ao seu perigo, ninguém -Os que têm fé serão salvos; que me si- dizia coisa alguma. Atingiram assim a beiral gam! do mar. Quando estavam todos sentados no O homem se levantou, caminhou com passo lar do pescador, procuraram em vão seu firme sobre as ondas. Imediatamente, a jo- guia luminoso. Sentado no alto de um ro- vem mãe pegou seu filho nos braços e an- chedo, aos pés do qual o temporal atirara o
  • Page 37piloto agarrado à sua prancha por aquela ceu. Naquele local foi construído, pelos ma- força que demonstram os marinheiros às rinheiros, o convento da Graça, no qual por voltas com a morte, o HOMEM desceu, reco- muito tempo se viu a pegada que os pés de lheu o náufrago quase quebrado; disse en- Jesus Cristo tinham, dizem, deixado sobre a tão, estendendo uma mão confortadora so- areia. Em 1793, quando os franceses entra- bre sua cabeça: ram na Bélgica, monges levaram aquela -Tudo bem desta vez, mas não faça de no- preciosa relíquia, a prova da última visita vo, seria um péssimo exemplo. que Jesus fez à Terra. Pôs o marinheiro sobre os ombros e levou-o até a cabana do pescador. Bateu pelo infeliz, Do livro Os Melhores Contos Bíblicos, de Flá- para que lhe abrissem a porta daquele mo- vio Moreira da Costa (org.) - Ediouro Publica- desto abrigo, e então o Salvador desapare- ções.
  • POETAS CRISTÃOS DE IBEROAMÉRICAApresentamos aqui traduções de poetas nossos irmãos na fé, oriundos da Espanha e de diversos países da América Latina O POETA MÍSTICO
  • POETAS CRISTÃOS DE IBEROAMÉRICAVEM COM O AR ... Juan Carlos Martín Cobano (Espanha)
  • Page 40O TELEFONE TOCOU... Wagner Antonio de Araújo
  • Page 41- Como foi, Natasha? igreja, que se dane o pastor, que se dane você, e se Deus achar que estou errada, que me castigue..." Nossa, era como se a cena passasse de novo na mente de Luciano.
  • Page 42Essas máquinas, esse cheiro de éter e de carnes in- va entre sua vontade e a vontade de Deus. Sonhou durante o sono, no delírio da febre. Sonhou flamadas, esse barulho infernal, meu Pai, o que posso dizer? Que deixe a minha garota morrer em paz? estar na igreja. Viu o pastor a pregar, e, ao seu lado Sim, Senhor, leve-a para a tua glória! Eu a amo! Mas estava Natasha, bonita e sorridente. Lá do púlpito o sei que tu a amas mais do que eu! Abençoa a Natas- pastor dizia: "Aquele que amar mais à sua mulher, mais do que a mim, não é digno de mim - palavras ha. Em nome de Jes... Subitamente Luciano pensou em completar a ora- ção com o seguinte pedido:
  • Page 43co, o sapato de pano, as luvas e a máscara. Box 06. O poder de Deus, a misericórdia do Altíssimo. E um Lá estava ela, e três médicos palestrando. Ao olha- câncer desaparecido tem que parecer um mero rem o rapaz, perguntaram: - Você é o Luciano?
  • ESCOLHATradução de Álvaro Alves de Faria Podes embarcar na ternura e sentir como o amor se oferece à respiração.
  • LONGA VIDA AOS PROFETASTradução de Sammis Reachers Alfredo Pérez Alencart nasceu em Puerto Maldonado, Peru (1962), mas está radicado há
  • OS MEUS SENTIDOSCarlos Nejar Um dia vi Deus numa palavra e luminosa despontava, argila. E Deus vagueava tudo, aquietava as numinosas letras, quase em fila.
  • GaleriaAHABLES ADOR
  • Page 48"2018" TODO O LUCRO DE VENDAS DE PRODUTOS E OFERTAS VÃO PARA A ONG CHILDREN OF THE NATIONS
  • Page 49VAMOS PARA BELÉM! no momento. Anamaria Kovács
  • ResenhasLIVRO / Arppegios Insulares [POESIA]-Jorge Fernandes Isah (Kálamos Editora, 2019). Toda obra poética, da sua concepção aos acabamentos, é a realização da potência presente no escritor de expandir seu mundo interior e de dominar as formas de interiorizá-lo e dizê-lo.
  • CARTA DE JOÃO PAULO II AOS ARTISTASAmplitude é uma revista declaradamente protestante, em sua confissão de fé, cosmovi- são e objetivos. Entretanto, abrimos com prazer espaço para a publicação da carta do Papa João Paulo II aos Artistas, confiantes de que as palavras aqui presentes reverbera- rão nos corações de todos os apreciadores e praticantes da arte como expressão do bem, do bom e do divino, em suas múltiplas formas. Arte é missão. O artista, imagem de Deus Criador
  • Page 57modo de agir é peculiar do homem enquanto imagem de Deus. Com efeito, depois de ter afirmado que Deus criou o homem e a mulher "à sua imagem" (cf. Gn 1,27), a Bíblia acrescenta que Ele confiou-lhes a tarefa de dominarem a terra (cf. Gn 1,28). Foi no último dia da criação (cf. Gn 1,28-31). Nos dias anterio- res, como que marcando o ritmo da evolução cósmica, Javé tinha criado o universo. No final, criou o ho- mem, o fruto mais nobre do seu projeto, a quem submeteu o mundo visível como um campo imenso on- de exprimir a sua capacidade inventiva. Por conseguinte, Deus chamou o homem à existência, dando-lhe a tarefa de ser artífice. Na "criação ar- tística", mais do que em qualquer outra atividade, o homem revela-se como "imagem de Deus", e realiza aquela tarefa, em primeiro lugar plasmando a "matéria" estupenda da sua humanidade e depois exer- cendo um domínio criativo sobre o universo que o circunda. Com amorosa condescendência, o Artista divino transmite uma centelha da sua sabedoria transcendente ao artista humano, chamando-o a parti- lhar do seu poder criador. Obviamente é uma participação, que deixa intacta a infinita distância entre o Criador e a criatura, como sublinhava o Cardeal Nicolau Cusano: "A arte criativa, que a alma tem a sorte de albergar, não se identifica com aquela arte por essência que é própria de Deus, mas constitui apenas comunicação e participação dela".[1]
  • Page 58que o Criador o chamou com o dom do "talento artístico". E também este é, certamente, um talento que, na linha da parábola evangélica dos talentos (cf. Mt 25,14-30), se deve pôr a render. Tocamos aqui um ponto essencial. Quem tiver notado em si mesmo esta espécie de centelha divina que é a vocação artística de poeta, escritor, pintor, escultor, arquiteto, músico, ator... -, adverte ao mes- mo tempo a obrigação de não desperdiçar este talento, mas de o desenvolver para colocá-lo ao serviço do próximo e de toda a humanidade.
  • Entre Evangelho e arte, uma aliança profunda6. Com efeito, toda a intuição artística autêntica ultrapassa o que os sentidos captam e, penetrando na realidade, esforça-se por interpretar o seu mistério escondido. Ela brota das profundidades da alma hu- mana, lá onde a aspiração de dar um sentido à própria vida se une com a percepção fugaz da beleza e da unidade misteriosa das coisas. Uma experiência partilhada por todos os artistas é a da distância incol- mável que existe entre a obra das suas mãos, mesmo quando bem sucedida, e a perfeição fulgurante da beleza vislumbrada no ardor do momento criativo: tudo o que conseguem exprimir naquilo que pintam, modelam, criam, não passa de um pálido reflexo daquele esplendor que brilhou por instantes diante dos olhos do seu espírito. O crente não se maravilha disto: sabe que se debruçou por um instante sobre aquele abismo de luz que tem a sua fonte originária em Deus. Há porventura motivo para admiração, se o espírito fica de tal modo inebriado que não sabe exprimir-se senão por balbuciações? Ninguém mais do que o verdadeiro artista está pronto a reconhecer a sua limitação e fazer suas as palavras do apóstolo Paulo, segundo o qual Deus "não habita em santuários construídos pela mão do homem", pelo que "não devemos pensar que a Divindade seja semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e engenho do ho- mem" (Act 17,24.29). Se já a realidade íntima das coisas se situa "para além" das capacidades de com- preensão humana, quanto mais Deus nas profundezas do seu mistério insondável!
  • Page 60tinho incluía também, entre as temáticas da sua produção, um De musica, Hilário, Ambrosio, Prudêncio, Efrém da Síria, Gregório de Nazianzo, Paulino de Nola, para citar apenas alguns nomes, faziam-se pro- motores de poesia cristã, que atinge frequentemente um alto valor não só teológico mas também literá- rio. A sua produção poética valorizava formas herdadas dos clássicos, mas bebia na linfa pura do Evan- gelho, como justamente sentenciava o Santo poeta de Nola: "A nossa única arte é a fé, e Cristo é o nosso canto".[12] Algum tempo mais tarde, Gregório Magno, com a compilação do Antiphonarium, punha as premissas para o desenvolvimento orgânico daquela música sacra tão original, que ficou conhecida pelo nome dele. Com as suas inspiradas modulações, o Canto Gregoriano tornar-se-á, com o passar dos sécu- los, a expressão melódica típica da fé da Igreja Católica durante a celebração litúrgica dos Mistérios Sa- grados. Assim, o "belo" conjugava-se com o "verdadeiro", para que, também através dos caminhos da arte, os ânimos fossem arrebatados do sensível ao eterno. Não faltaram momentos difíceis neste caminho. A propósito precisamente do tema da representação do mistério cristão, a antiguidade conheceu uma áspera controvérsia, que passou à história com o nome de "luta iconoclasta". As imagens sagradas, já então difusas na devoção do povo de Deus, foram objeto de violenta contestação. O Concílio celebrado em Niceia no ano 787, que estabeleceu a legitimidade das imagens e do seu culto, foi um acontecimento histórico não só para a fé mas também para a própria cul- tura. O argumento decisivo a que recorreram os Bispos para debelar a controvérsia, foi o mistério da Encarnação: se o Filho de Deus entrou no mundo das realidades visíveis, lançando, pela sua humanida- de, uma ponte entre o visível e o invisível, é possível pensar que analogamente uma representação do mistério pode ser usada, pela dinâmica própria do sinal, como evocação sensível do mistério. O ícone não é venerado por si mesmo, mas reenvia ao sujeito que representa.[13]
  • Page 61menos como os mais importantes deles. Mas, não é minha intenção lembrar coisas que vós, artistas, bem conheceis. Dado que vos escrevo deste Palácio Apostólico, escrínio de obras-primas talvez único no mundo, quero antes fazer-me voz dos maiores artistas que por aqui disseminaram as riquezas do seu gênio, permeado frequentemente de grande profundidade espiritual. Daqui fala Michelangelo, que na Capela Sistina de algum modo compendiou, desde a Criação ao Juízo Universal, o drama e o mistério do mundo, retratando Deus Pai, Cristo Juiz, o homem no seu fatigante caminho desde as origens até ao fim da História. Daqui fala o gênio delicado e profundo de Rafael, apontando, na variedade das suas pinturas e de modo especial na "Disputa" da Sala da Assinatura, o mistério da revelação de Deus Trinitário, que na Eucaristia Se faz companheiro do homem, e projeta luz sobre as questões e os anelos da inteligência humana. Daqui, da majestosa Basílica dedicada ao Príncipe dos Apóstolos, da colunata que sai dela como dois braços abertos para acolher a humanidade, falam ainda Bramante, Bernini, Borromini, Maderno, para citar apenas os maiores, oferecendo plasticamente o sentido do mistério que faz da Igreja uma co- munidade universal, hospitaleira, mãe e companheira de viagem para todo o homem à procura de Deus. A arte sacra encontrou, neste conjunto extraordinário, uma força expressiva excepcional, atingindo ní- veis de imorredouro valor quer estético quer religioso. O que vai caracterizando cada vez mais tal arte, sob o impulso do Humanismo e do Renascimento e das sucessivas tendências da cultura e da ciência, é um crescente interesse pelo homem, pelo mundo, pela realidade histórica. Esta atenção, por si mesma, não é de modo algum um perigo para a fé cristã, centrada sobre o mistério da Encarnação e, portanto, sobre a valorização do homem por parte de Deus. Precisamente os maiores artistas acima mencionados no-lo demonstram. Bastaria pensar no modo como Michelangelo exprime nas suas pinturas e esculturas, a beleza do corpo humano.[16] Aliás, mesmo no novo clima dos últimos séculos quando parte da sociedade parece indiferente à fé, a arte religiosa não cessou de avançar. A constatação torna-se ainda mais palpável, se da vertente das ar- tes figurativas se passa a considerar o grande desenvolvimento que, neste mesmo período de tempo, teve a música sacra, composta para as necessidades litúrgicas, ou apenas relacionada com temas religio- sos. Sem contar tantos artistas que a ela se dedicaram amplamente (como não lembrar Pero Luís de Pa- lestrina, Orlando de Lasso, Tomás Luís de Victoria?), é sabido que muitos dos grandes compositores — de Händel a Bach, de Mozart a Schubert, de Beethoven a Berlioz, de Listz a Verdi - nos ofereceram obras de altíssima inspiração também neste campo.
  • Page 62literatura e das artes na vida do homem: "Elas procuram dar expressão à natureza do homem, aos seus problemas e à experiência das suas tentativas para conhecer-se e aperfeiçoar-se a si mesmo e ao mun- do; e tentam identificar a sua situação na história e no universo, dar a conhecer as suas misérias e ale- grias, necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor". [18] Baseados nisto, os Padres, no final do Concílio, dirigiram aos artistas uma saudação e um apelo, nestes termos: "O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, co- mo a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração". [19] Neste mesmo espírito de profunda estima pela beleza, a Constituição sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium lembrou a histórica amizade da Igreja pela arte e, falando mais especificamente da arte sacra, "vértice" da arte religiosa, não hesitou em considerar como "nobre ministério" a atividade dos artistas, quando as suas obras são capa- zes de refletir de algum modo a beleza infinita de Deus e orientar para Ele a mente dos homens. [20] Também através do seu contributo, "o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado e a pregação evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens".[21] À luz disto, não surpre- ende a afirmação do Padre Marie-Dominique Chenu, segundo o qual o historiador da Teologia deixaria a sua obra incompleta, se não dedicasse a devida atenção às realizações artísticas, quer literárias quer plásticas, que a seu modo constituem “não só ilustrações estéticas, mas verdadeiros lugares' teológi- cos".[22]
  • Page 63de. Sobressaiu também o laço peculiar que existe entre a arte e a revelação cristã. Isto não quer dizer que o gênio humano não tenha encontrado estímulos também noutros contextos religiosos; basta recor- dar a arte antiga, sobretudo grega e romana, e a arte ainda florescente das vetustas civilizações do Ori- ente. A verdade é que o cristianismo, em virtude do dogma central da encarnação do Verbo de Deus, ofe- rece ao artista um horizonte particularmente rico de motivos de inspiração. Que grande empobrecimen- to seria para a arte o abandono desse manancial inexaurível que é o Evangelho! Apelo aos artistas
  • profunda intuição, que "a beleza salvará o mundo".[25]A beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro. Por isso, a beleza das coisas criadas não pode saciar, e suscita aquela arcana saudade de Deus que um enamorado do belo, como Agostinho, soube interpretar com expressões incomparáveis: "Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!".[26] Que as vossas múltiplas sendas, artistas do mundo, possam conduzir todas àquele Oceano infinito de beleza, onde o assombro se converte em admiração, inebriamento, alegria inexprimível. Sirva-vos de guia e inspiração o mistério de Cristo ressuscitado, em cuja contemplação
  • Moisés MartinsA noite inesquecível "Estai vós também apercebidos; porque, num momento que não penseis, virá o Filho do Homem" (Lc 12.40)
  • Page 66tão presente na América católica, mas, ao mesmo se surrealista. Ismael não ficou ali muito tempo. tempo, tão bizarro e deplorável. O homem do livro Queria ir embora. E foi. preto passou bem perto das mulheres e a que esta- Em casa sentou-se na varanda para respirar fundo e va em transe deu várias gargalhadas e falou pala- pensar. Repassou todas as cenas retidas em seu vrões. O homem permaneceu em seu trajeto sem cérebro. Era impossível de acreditar. Mas foram se perturbar com os agravos. Atravessou a rua e concretas, realmente aconteceram.
  • Page 67O amigo, chorando e nervoso, pediu para que Isma- - Oi, Ismael. el o ajudasse, pois não sabia o que fazer. Ismael dis- - Entre. se que sim. - Obrigado.
  • Page 68para olhar uma mulher que tentava pular lá de ci- canto, em sua cadeira. O português decidiu falar: ma, sendo contida por um grupo de pessoas tam- Escuta aqui, minha filha, deixa de bobagem e sai bém agitadas. Que quadro comovente e inusitado. logo daqui. Distraído, Ismael não percebeu o homem que se aproximou do carro. Encostou uma arma na cabeça dele e mandou que saísse do veículo, com as mãos na cabeça. - Nada de heroísmo, amigo, ou você vai morrer. - Calma, amigo. Não quero morrer.
  • Page 69Um rapaz bem vestido apareceu na esquina, vindo disse o endereço. Durante a viagem Ismael dormiu de uma rua lateral. Ele gritava que o arrebatamento profundamente. havia acontecido. Sua voz estridente acordou pes- Ao chegar em casa ligou a televisão e verificou a soas de um apartamento próximo. Ele gritava que secretária eletrônica. Nenhum recado. Discou para Jesus Cristo veio e levou seus seguidores fiéis. Isma- a filha Rita. Ninguém atendeu Sentou no sofá e el olhava, atônito, aquele quadro. Algumas pessoas prestou atenção ao noticiário. Tudo confirmado. começaram a insultá-lo. Mas ele prosseguiu, andan- Milhões de pessoas desapareceram misteriosamen- do desnorteado e gritando sua mensagem a plenos te em todo o globo terrestre. Todas elas eram cris- pulmões, até entrar em outra rua lateral e sumir de tãs e acreditavam na Bíblia de forma literal, em qua- vista. se todos os pontos. Desligou a televisão. Foi até a Ismael sentou-se encostado no portão de ferro de varanda, olhou para as nuvens no céu e, em silên- uma loja de brinquedos. Esfregou as mãos no rosto cio, do fundo da alma, pediu a Deus que lhe desse e na cabeça. Balbuciou algumas palavras de dor e uma oportunidade para que conhecesse a verdade. sofrimento. Por fim abaixou a cabeça apoiada nos Em seguida ajoelhou-se e chorou, tanto por arre- braços cruzados sobre os joelhos. Não quis pensar pendimento quanto por remorso e angústia... em nada. E ali, cansado, adormeceu. Por alguns anos, durante um tempo terrível e im- placável de tribulação e juízo divino, Ismael se lem- braria daquela noite inesquecível!
  • Page 71direm diversos poetas bissextos país afora, e a antologia, se não teve o mérito de inaugurar um gênero ou re- corte, conferiu-lhe entre nós grande vivacidade. Outro caso paradigmático deu-se com a publicação em 1940, na Argentina, da Antologia da Literatura Fantástica, vinda a lume pela operosidade de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo. Aqui os antologistas elegeram um tema (a literatura fantástica), base- ados principalmente em textos estrangeiros, tema este que eles próprios já versejavam em suas obras, e que após tal publicação passaram a priorizar em suas próprias escritas; assim, a antologia, se não fundou, estabele- ceu um marco ou sendeiro em direção daquilo que os próprios organizadores (logo acompanhados por simpa- tizantes de primeira hora) desejavam trilhar, ajudando tanto a "delimitar" (se a grande heterogeneidade dos textos ali coligidos pode ser assim referida) quanto a popularizar o gênero. Diversas categorizações nos ocorrem para distinguir as antologias. No tocante a seu conteúdo, podemos segmentá-las a princípio em duas modalidades:
  • Page 72por desconhecimento, desinteresse etc. A Lei prevê a responsabilização civil, que consistirá em: (1) Multa cor- respondente a até 100 (cem) vezes o valor da obra no mercado; (2) Apreensão de exemplares em número sufi- ciente para atender às finalidades do depósito. Mas, na prática, faltam mecanismos e pessoal que façam cum- prir tal regra. Assim, a salvaguarda que deveria garantir a todo cidadão brasileiro, dentre os quais o pesquisa- dor, o acesso à bibliografia nacional é sabotado e fragilizado. Há ainda outros fatores que dificultam o acesso do pesquisador à bibliografia sob a guarda da BN: de- mora para a catalogação das publicações dentro da própria BN; extravios, falta de campanhas informativas etc. O resultado é que é bem provável que haja livros que qualquer leitor médio, com uma biblioteca pequena, pos- sua em sua estante, que NÃO CONSTEM dos registros da BN. De nossa parte, ao longo de anos de pesquisa, atestamos já diversos livros que possuímos e não constam dos registros da BN, e outros de que eventualmente carecemos, tanto novos quanto esgotados, e que precisaram ser adquiridos em livrarias e sebos virtuais, pelo mesmo motivo de não poderem ser consultados na BN. A falha do mecanismo de depósito legal compromete todo um projeto de cultura e, necessário é dizer, de país - pois a máxima de Monteiro Lobato de que um país se faz com homens e livros não é fabulosa. Aqui, um parênteses: segundo informa Fernando Baez (2004, p.397), há pouco mais de duas décadas a quantidade de livros exigidos pela Biblioteca Nacional do (algo inós- pito) Iraque, era de cinco livros. Um belo contraste com a lei brasileira que requer um exemplar apenas.
  • Page 73tenha que cores tenha, o que teve/tem/poderá ter impacto, ainda que pela via da controvérsia (alimento dialéti- co), no universo ideário daquele tema ou literatura. Pois as antologias que optam por fundamentalmente susci- tar polêmicas são um fenômeno editorial cada vez mais comuns. Como um biógrafo que desce às minúcias sobre seu biografado, o antologista lança-se no universo de seu tema, buscando a raiz do cânone, das obras principais, mas atento ao diferencial, atento mesmo às curiosi- dades que podem dar desde um novo sabor em sua seleta até uma mudança de sua tese inicial e nova direção à sua investigação.
  • Page 74que porventura resgata/elege textos que o autor prefere ver esquecidos, ou que permanecessem num segundo plano. No entanto, aqui a proposta ou recorte do antologista deverá ser considerada, pois a antologia é ela mes- ma a confecção de obra nova, e não mero balaio de "cegas" repetições; e mais que ela, o interesse cultural e do especialista há de ser priorizado. Pois é fato sabido que o autor pode ser motivado a preferir/preterir determi- nado de seus textos por interesses os mais espúrios, desde os de foro sentimental, repentes panfletários, rene- gação wittgensteiniana de parte de sua produção etc. Se há antologias catastróficas, são poucas e o entorno tratará de as suprimir; quanto a uma antologia ruim, que não seja tomado por escândalo a constatação de que uma antologia ruim é melhor que antologia ne- nhuma.
  • Page 75do autor, detentor dos direitos ou editor, para a reprodução de parte da obra (aqui proposta para o âmbito esco- lar). Sobre direitos autorais, autorizações e antologias, abro parêntesis para introduzir uma nota de horror. O poeta Thiago de Mello publicou, depois de 20 anos de abnegado trabalho, a obra Poetas de América em Canto Castelhano (Global Editora, 2011). A obra, colossal por suas quinhentas páginas, pelo tamanho (formato 18 x 26 cm) do livro e pela amplidão de poetas abarcados - 120 autores, de dezenove países da Latinoamérica, seria na verdade ainda mais significativa. A antologia, única em nossa bibliografia, contaria na origem com nada menos que duzentos autores, segundo nos relata o editor da obra, A. P. Quartim de Moraes (p.11). Acon- tece que, por problemas da ordem de autorizações, exigências irreais e outras querelas por parte de autores, descendentes e agentes literários, e apesar de a obra ser única no gênero, a alcançar o amplo público brasileiro, apesar de muitos dos autores estarem sendo apresentados pela vez primeira ao idioma português, apesar de o trabalho estar a cargo de um dos maiores poetas brasileiros vivos, e certamente aquele de maior penetração entre seus confrades latino-americanos, tais pessoas impediram a inserção de quase uma centena de textos na referida obra (o editor chega a listar os ausentes - cujos poemas já haviam sido inclusive traduzidos). Tal rela- to serve para clarificar situações muitas outras em que o interesse de um indivíduo mostrou-se maior que o interesse da Arte, da cultura, de seu próprio povo e país, e mesmo da humanidade inteira.
  • Page 76do o título, o autor, o país e a editora, individualizando-os inclusive por edição. No Brasil, é a mesma Bibliote- ca Nacional quem coordena as atividades sobre o ISBN. Para as publicações periódicas e seriadas, há o ISSN. REFERÊNCIAS
  • Page 77PARLATOR UM "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus é o conselho do salmista, e sempre achei que este é um bom conselho para a Literatura também. Aquiete-se do mesmo modo que Tolstoi se aquieta, ou como Anthony Trollope se aquieta, de modo que seus personagens possam falar por si e ganhem vida em sua própria maneira imortal. Se você é um escritor como eu, dá menos importância a tentar impor uma forma no caos do que ver qual é o formato que emer- ge dele, que está oculto dentro dele. Se personagens menores mostram sinais de se tornarem personagens principais, você pode, pelo menos, dar uma chance a eles, pois no mundo da ficção você pode precisar de algumas páginas para descobrir quem realmente são os ver- dadeiros personagens. É como na vida real. Pode ser que você leve alguns anos para desco- brir que aquele estranho com quem conversou por meia hora numa estação de trem fez mui- to mais ao apontar a direção correta do que seus amigos mais próximos ou seu terapeuta." Frederick Buechner "JESUS é um momento de significação inin- terrupta: um SIGNO de leitura INFINITA."
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queles personagens pertenciam à mais alta no- Ostende, recuou para dar lugar suficiente breza de Flandres. Primeiro um jovem cavalei- ao recém-chegado. Seu movimento não re- ro, acompanhado de dois belos galgos e usando velou nem servilismo nem desdém. Foi um sobre os cabelos compridos um gorro bordado daqueles testemunhos de gentileza através de pedrarias, fazia retinir suas esporas doura- dos quais as pessoas pobres, habituadas a das e, com impertinência, frisava a intervalos conhecer o preço de um favor e as delícias seu bigode, lançando um olhar desdenhoso ao da fraternidade, revelam a franqueza e a na- resto do cortejo. Uma altiva senhorita tinha um turalidade de suas almas, tão ingênuas na falcão sobre o punho e só falava com sua mãe ou a um eclesiástico das altas esferas, sem dú- expressão de suas qualidades e de seus de- vida seu parente. Aquelas pessoas faziam mul- feitos; em consequência, o estranho agrade- to barulho e conversavam entre si, como se es- ceu-lhes com um gesto cheio de nobreza. tivessem sozinhas na barca. Entretanto, junto Então sentou-se ele entre essa jovem mãe e delas estava um homem muito importante na o velho soldado. Atrás dele estavam um região, um gordo burguês de Bruges envolto camponês e seu filho, com 10 anos de ida- num grande casaco. Seu criado, armado até os de. Uma mulher pobre, com uma sacola dentes, colocara perto dele dois sacos cheios quase vazia, velha e enrugada, em farrapos, de dinheiro. Ao lado deles havia ainda um cien- imagem de infelicidade e indiferença, jazia tista, doutor na universidade de Louvain, lade- na ponta da barca, acocorada sobre um ado por seu pároco. Essas pessoas, que despre- grande maço de cordas. Um dos remadores, zavam umas às outras, estavam separadas da parte da frente pelo banco dos remadores. Quando o passageiro em atraso pôs o pé na barca, lançou um rápido olhar para a popa, não viu lugar, e foi pedir um aos que esta- vam na frente do barco. Tratava-se de gente pobre. Pelo aspecto do homem de cabeça descoberta, cujo casaco e calções em tecido marrom, cuja manta em tela de linho engovelho marinheiro que a conhecera bela e rica, deixara-a entrar, aplicando o admirável dito popular: pelo amor de Deus.

Muito obrigada, Thomas dissera a ve- lha, rezarei por você essa noite dois pais- nossos e duas ave-marias.

O chefe tocou a trompa mais uma vez, olhou o campo emudecido, atirou a corrente no mada não tinham qualquer enfeite, que não barco, correu pela beira até o leme, segurou trazia na mão gorro ou chapéu, sem bolsa a barra, continuou de pé, então, depois de contemplar o céu, disse numa voz forte a seus remadores, quando estavam ao mar: Remem, remem com força, e vamos embo- ra! Esse danado desse mar não está com ou espada na cintura, todos o tomaram por um burgomestre seguro de sua autoridade, burgomestre bom e terno como alguns da- queles velhos flamengos cuja natureza e temperamento ingénuos nos foram tão bem conservados pelos pintores do país. Os po- bres passageiros acolheram então o desco- nhecido com demonstrações respeitosas que provocaram zombarias sussurradas en- tre a gente da popa. Um velho soldado, ho- imprimiram aos remos um movimento ace- mem triste e cansado, deu seu lugar no ban- lerado, mas sempre cadenciado; movimenco ao estranho, sentou-se na borda da barca boa cara! Sinto o marulho no movimento do leme e a tempestade em minhas feridas. Tais palavras, ditas em termos de marinha, espécie de língua inteligível apenas Para ouvidos acostumados ao barulho das ondas, to unânime, diferente da forma de remar e ali se manteve em equilíbrio pelo modo anterior, como o trote de um cavalo o é de como apoiou seus pés contra uma daquelas seu galope. A sociedade sentada na parte de trás gostou de ver todos aqueles braços tábuas que, como as espinhas de um peixe, nervosos, aqueles rostos marrons aos olhos servem para ligar as pranchas dos barcos. Uma mulher jovem, mãe de uma criancinha de fogo, aqueles músculos tensos e aquelas e que parecia pertencer à classe operária de