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Revista Perpétua

By João Vieira

Projeto de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Jornalismo, desenvolvido no formato de revista impressa, dedicado a narrar a história do Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte. O trabalho reúne pesquisa histórica, reportagem e entrevistas para retratar a importância cultural, social e patrimonial de um dos cemitérios mais emblemáticos da capital mineira.

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Published
Jun 19, 2026
Pages
40

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  • Morituri MortvisDas que vão aos merrer mes martes. Dedicamos este trabalho a todos aqueles que caminharam conosco ao longo desta jornada. Aos ami- gos, familiares, professores, colegas e companheiros que compartilharam conhecimento, apoio, afeto e incentivo durante cada etapa deste percurso. Aos que permanecem ao nosso lado, sustentando nossos sonhos e ajudando a construir nossos caminhos. Aos que fizeram parte de nossas vidas, mas partiram antes de testemunhar este momento, deixando lembranças, ensinamentos e marcas que continuam vivas em nós. E também àqueles que vieram antes de todos nós, cujas histórias, lutas, descobertas e legados tornaram possível o mundo que habitamos hoje. Que este trabalho seja um gesto de gratidão, memória e reconhecimento. Dos que um dia também partirão, aos que já partiram: MORITVRI MORTVIS
  • Além da MorteA Morte A vida ao redor do Bonfim
  • Page 6Also de miste da Existem poucas certezas na vida; uma delas é a morte. Apesar da ciência sobre o destino final, o tema costuma ser evitado no cotidiano – ninguém gosta de atrair o agouro para si. Os malabarismos retóri- cos e as mudanças repentinas de assunto são ineficazes, pois nenhum ser humano passa incólume aos sentimentos de luto, dor e tristeza que somente a perda de um ente querido pode originar. A imprevisibilidade da vida pode fazer com que a morte chegue de forma mais prematura para uns, enquanto para outros o respiro final acontece mais tardiamente. Afinal, sabendo-se da inevitabilidade da morte, cabe uma importante pergunta: será que não vale a pena se preparar para o luto, em vez de apenas não tocar no assunto?
  • A marthNo Cemitério do Bonfim, a morte não assombra ninguém, ela trabalha ali, caminha lentamente entre os corredores estreitos, repousa sob a sombra escura do pés de frutas e observa, em silêncio elegante, as famílias que atravessam os portões carregando flores, culpas e saudades grandes demais para caber nas mãos. Ela conhece cada túmulo como quem conhece antigos vizinhos. Sabe quais lápides ainda recebem cartas dobradas sob os vasos de flores e quais foram abandonadas ao pó e à ferrugem do tempo. Ela não possui pressa, pois sabe que aqueles que ela encontra já não precisam mais correr. Existe algo profundamente melancólico naquele cemitério, incrustado no coração de Belo Horizon- te como uma memória ao qual a cidade tenta fugir. Do lado de fora, buzinas atravessam a avenida Pedro II, ônibus engolem trabalhadores cansados, a vida continua pulsante e agitada. Mas ali dentro do Bonfim, o tempo adoece devagar, o ar muda, a luz parece envelhecer entre os mausoléus.E a morte permanece ali, discreta como uma velha funcionária pública que conhece todos os arquivos do prédio. Ela conhece os horários da senhora que limpa o túmulo do marido toda semana, ainda ajeitando as flores como se ele pudesse reparar. Observa filhos adultos encarando fotografias ovais de mães que já partiram há décadas, escuta pedidos de desculpas murmurados baixo demais para os vivos ouvirem. Porque o luto raramente termina no enterro, ele apenas aprende a caminhar ao nos- so lado. E talvez seja esse o verdadeiro desconforto da sociedade com a morte: nun- ca foi sobre o cemitério, ou sobre o fim do corpo, mas sobre a permanência da ausência.
  • Page 9Porque ninguém visita os mortos apenas para encontrar quem partiu, visitamos para tocar aquilo que em nós também morreu… Uma voz específica, uma hábito banal, o cheiro de um perfume preso na memória. Os mortos continuam vivendo em pequenas aparições cotidianas, numa música inesperada tocando dentro do carro, numa cadeira vazia durante o almoço de domingo, no impulso absurdo de pegar o telefone antes de lembrar que certas distâncias já não podem ser atravessadas. Talvez por isso o Bonfim jamais pareça realmente vazio.
  • Page 10аа vida redor do Bersion
  • Page 11Era fim de manhã de sábado, por volta das 10h, quando uma cachorra entrou. Preta, vira-lata, cruzou a porta de vidro com uma certa cautela, como se estivesse estudando o espaço. Cláudia Moreira percebeu na hora e co- mentou, com bom humor, que nunca tinha visto o animal ali antes. “Deve estar com sede", disse, sugerindo que colocassem água. A cena foi rápi- da, mas suficiente para quebrar o silêncio da loja.
  • Page 12231 aparece sempre às segundas-feiras. Em uma dessas vezes, uma música de Elvis Presley tocava ao fun- do. Ele se sentou, pediu algo para beber e contou que aquela tinha sido a primeira música que dançou com a esposa, hoje falecida. Desde então, repete o ritual: chega, conversa, revive a memória e depois segue para o cemitério. “Ele sempre vem, conta a mesma história e depois vai la”, diz.
  • Page 13No entorno, ninguém ignora o que existe do outro lado do muro. Mas também ninguém para por causa disso. A vida ali não gira em torno da morte.
  • BerſionMuito além da função funerária, o Cemitério do Bonfim também ocupa um espaço significativo no imaginário cultural de Belo Horizonte. Entre esculturas centenárias, corredores silenciosos e mausoleus marcados pelo tempo, o local tornou- -se cenário, inspiração e símbolo em diferentes manifestações artísticas da capital mineira, atra- vessando literatura, quadrinhos, fotografia e música. Fundado ainda nos primeiros anos da construção de Belo Horizonte, o Bonfim carrega não apenas a memória das famílias sepultadas ali, mas tam- bém parte da identidade simbólica da cidade. Ao longo das décadas, o espaço passou a despertar o interesse de escritores, artistas visuais, pesquisa- dores e fotógrafos, especialmente pela atmosfera melancólica e pela forte presença estética da arte tumular presente no local.
  • Page 15capacidade de concentrar memória, simbolismo e estética em um mesmo espaço. As esculturas, os mausoleus antigos, os corredores silenciosos e a própria relação social com a morte transformam o Bonfim em um ambiente carregado de significado artístico. Mais do que cenário, o cemitério tornou- -se personagem recorrente da cultura belo-horizontina.
  • SAUDADEReligina tes. па
  • Page 17Apesar da presença e participação ativa de de- votos, Júlio também observa uma mudança no comportamento dos jovens que visitam o cemi- tério. "As novas gerações mudaram seus con- ceitos de encarar a morte. A perspectiva atual é de viver muito sem se preocupar muito com o morrer, mas isso é cíclico. A forma de devoção, as práticas religiosas e a ressignificação da morte vão se adaptando aos novos costumes e mudan- ças culturais que a sociedade passa”, destaca. Figuras religiosas A religiosidade no Bonfim também se expressa por meio da devoção a figuras consideradas es- peciais pelos visitantes. Em alguns túmulos, velas acesas, flores, bilhetes e objetos deixados como forma de pedido ou agradecimento revelam que a relação com os mortos não se encerra no se- pultamento. O túmulo passa a ser um ponto de conexão entre o mundo dos vivos, a memória e o sagrado.
  • Page 18COM AR PRO
  • e preservar a memória histórica enterrada em BH.”Conservaçãa Jarles Considerado um dos cemitérios mais antigos e simbólicos de Belo Horizonte, o Bonfim abriga jazigos, mausoléus e monumentos que contam parte da história da capital mineira. Entre mau- soléus de famílias tradicionais, figuras importan- tes, esculturas religiosas e lápides produzidas em diferentes períodos históricos, o espaço reúne re- ferências arquitetônicas, artísticas e culturais que atravessam gerações.
  • Page 21Enquanto parte dessas estruturas segue resistindo à ação dos anos, outra parte enfrenta o avanço silencioso da depredação. Entre lápides quebradas, esculturas furtadas e túmulos deteriorados, espe- cialistas alertam para a necessidade de ampliar o debate sobre conservação e valorização da memória presente nos cemitérios históricos. 19
  • D cemeterie you so que jeTransferman im prate taristice том em
  • Page 25O projeto, idealizado pela pesquisadora Marce- lina das Graças de Almeida, completa 14 anos e continua a atrair centenas de visitantes por ano "O silêncio e a paz que este lugar evoca na gente são maravilhosos", confidencia a psicóloga Lud- milla Martins de Medeiros, de 32 anos, que não escondia o entusiasmo em sua primeira visita ao Cemitério do Bonfim. A galeria do celular, repleta de fotos da necrópole, reforçava o fascí- nio da mulher.
  • Page 26O reconhecimento do trabalho acontece não apenas pela avaliação positiva da população, mas também em premiações. No ano de 2014, a iniciativa foi gratificada durante o VI Fórum Mestres e Conselheiros, evento anual que discute a preservação de patrimônios culturais. "As visitas guiadas nasceram a partir do incômodo de uma pessoa e a gente transformou em um projeto premiado”, comemora a historiadora. O Bonfim vive
  • Page 30mais As sepulturas visitadas de Bension
  • Page 31Cemitério reúne túmulos que permanecem como símbolos de lembrança e reconhecimento em Belo Horizonte
  • Page 32RELIGIÃO: 30
  • Page 33CULTURA / ARTES: PACÍFICO MASCARENHAS [1902 - 1972]
  • Page 34Entre Terra céu e Q a Coveiro coloca a pá de lado e fala sobre o Cemitério do Bonfim e a vida para além da necrópole O céu límpido e o ar fresco acompanhavam a equipe de entrevistadores na espera por Israel Car- los Pedra, de 54 anos. O clima contrastava com os carregados dias de março, mas refletia a paz de espírito do entrevistado, ao contrário do que se espera de um funcionário de cemitério para o senso comum.
  • Vida de coveiroAntes do Bonfim, Israel Carlos Pedra trabalhou em outra necrópole muito conhecida em Belo Horizonte: o Cemitério da Paz, localizado no bairro Caiçaras, região Noroeste da capital. Há vinte anos, foi convidado pelo cunhado, hoje falecido, que trabalhava no Paz, a fazer um teste para trabalhar no local. Desempregado e com contas a pagar, aceitou a oportunidade. "Os primeiros dias foram meio cansativos, mas acabei me interessando porque você aprende a lidar com a dor e o sofrimento das pessoas, o que te dá uma certa lição de vida", relembra.
  • Page 3634 PARQUES E PREFEITURA 200BOTANICA BELO HORIZONTE
  • Page 37Mesmo com o breve momento de “branco”, conseguiu se lembrar de uma história, que ele conside- rou "meio estranha", segundo as próprias palavras. O caso ocorreu durante a pandemia de Covid-19 – período marcado pelo alto volume de óbitos causados pelo vírus, e não foi diferente no Bonfim. Em 2020, Israel estava fazendo o enterro de uma senhora cuja causa da morte desconhecia.
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Além da Morte

  • A Morte
  • A vida ao redor do Bonfim
  • O Bonfim Na Mídia
  • A Religião No Bonfim
  • Conservação e Furtos
  • Jolice

O cemitério que se transformou em ponto turístico

  • As sepulturas mais visitadas do Bonfim
  • Entre o céu e a terra
  • REDAÇÃO E EDIÇÃO: João Victor Gambogi
  • João Victor Vieira
  • Julia Luiza Mendonça
  • Lucas Luckeroth Gonçalves

IDENTIDADE VISUAL, PROJETO GRÁFICO, DIAGRAMAÇÃO: João Victor Vieira

  • Julia Luiza Mendonça
  • FOTOGRAFIA
  • Julia Luiza Mendonça João Victor Vieira
  • IMAGENS DE ACERVO
  • Visitas Bonfim
  • ORIENTADOR:
  • Prof. Dr. Mozahir Salomão Bruck