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O Ninho (Bethânia Pires Amaro)

By BC Sao Pedro da Serra

Data da leitura: Agosto de 2025

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Published
Mar 21, 2026
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125

More in this magazine

  • PIRES AMAROBETHANIA O NINHO
  • PIRES AMAROBETHANIA OHNIN O VENCEDOR DO PRÊMIO SESC
  • BETHÂNIA PIRES AMAROO NINHO 1ª edição
  • Page 5A522n Amaro, Bethânia Pires
  • Page 6Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz, à sua maneira. Liev Tolstói
  • Leite de cactoColagem Nero
  • Page 8quando eu tinha a tua idade no meu tempo era diferente enquanto você viver debaixo do meu teto você não sabe o que é cansaço não me faça parar o carro de castigo agora mesmo pois saiba que dinheiro não dá em árvore tenha juízo coloca um casaco quando você for mais velho você vai entender não coloca a mão na boca não esquece de escovar os dentes você já está muito crescidinho pra isso já comeu alguma coisa isso é hora de estar acordado dê um beijo na titia dê um abraço no seu irmão diz tchau para o amiguinho já passou da hora você precisa comer direito parece comigo quando eu era jovem só não esquece a cabeça porque tá grudada no pescoço me dê a mão para atravessar a rua será sempre o meu bebê não chegue tarde em casa querer não é poder tira isso da boca menina avise quando chegar não levante a voz comigo não foi isso que te ensinei tenha modos você não para quieta qual é a palavrinha mágica não é pra correr dentro de casa não vá dormir muito tarde chega de videogame por hoje se você não estudar não vai chegar em lugar nenhum você não é os outros eu te amo porque sim tira o dedo do nariz tanta gente com fome e você desperdiçando comida onde você estava com quem você vai sair que horas vai chegar em casa se colocar no prato vai ter que comer deus te abençoe e te guarde meu filho minha filha aconteceu alguma coisa você passa muito tempo no celular nem vai doer é só uma picadinha o gato comeu a sua língua como foi na escola estudou para a prova senta direito na volta a gente compra o que você quer ser quando você crescer pare de bancar o palhaço você ainda vai me matar de desgosto se apanhar na rua vai apanhar em dobro quando chegar em casa espera só sua mãe chegar o que você tem na cabeça não fale com estranhos deixe de ser bicho do mato já está pronta pra casar vou contar até três o que eu acabei de dizer não me faça voltar eu não quero ouvir um pio passa pra dentro você nem experimentou é como falar com a parede esse quarto parece um chiqueiro se eu for aí você vai ver quantas vezes eu tenho que perguntar não importa quem começou já mandei parar eu disse talvez se você perguntar de novo a resposta é não
  • Page 9vai ser assim e pronto se comporte como uma mocinha rapazinho engole esse choro agora você vai aprender a me tratar que nem gente se eu for até aí e achar você me paga olha pra mim quando eu estiver falando com você você não é todo mundo espera só a gente chegar em casa quer me matar do coração você me respeite quebra mesmo não foi você que pagou não fez mais do que a sua obrigação eu não durmo à noite por sua causa quando eu morrer você vai me dar valor estou falando para o seu bem um dia você vai me agradecer um dia você vai ter filhos e vai entender
  • Page 10LEITE DE CACTO já está pronta pra casar vou contar até três o que eu acabei de dizer não me faça voltar eu não quero ouvir um pio A menina chora enquanto eu aperto o isqueiro com as duas mãos. Abro e fecho a chapa metálica: uma pequena chama surge e desaparece, surge e desaparece. Quando a atravesso com os dedos, uma mornidão agradável se espalha pela minha palma e consigo ouvir o chamado do fogo, uma canção pesada, decadente. Eu tento resistir, recordar os passos que me levavam para longe, para um tempo calmo e seguro, e as palavras quase se formam na minha cabeça, mas logo as perco por trás do choro de minha filha o choro de um filho é feito para ser insuportável para a mãe, isso eu tinha lido em alguma revista para grávidas, antes de tudo.
  • Page 11acender o isqueiro, o fogo sufocando por um segundo até que eu o deixe respirar numa combustão controlada, sumindo e reaparecendo mais grandioso a cada vez que eu o liberto. O fogo dominando as pupilas, busco às pressas por novas memórias, memórias suaves que me embalem para longe do parto e das dores maiores recordo então da casa de praia, quando eu e Marcelo nos isolamos por oito semanas no litoral, numa mansão de filme, minimalista e branca, emoldurada por cortinas translúcidas que davam contornos ao vento. Esforço-me para invocar a paz daqueles dias, os passos melódicos das ondas, mas o choro da menina forma um crescendo, alça voo pelos corredores até me encontrar, encolhida sobre o porcelanato deste apartamento de duzentos metros quadrados, um por andar. Fecho o isqueiro, a menina engasga e por um segundo há um silêncio milagroso, perfeito; mas ela logo recupera o fôlego e retoma o pranto avassalador, ainda mais poderoso do que antes.
  • Page 12desamparo, de sua fome pelo meu leite, do nome que eu lhe emprestei, após herdá-lo de meus avós. Meu cérebro parece ter encolhido, a enxaqueca que se sedimentava desde a madrugada emerge de súbito, a menina é o competente maestro desta cefaleia, as correntes de náusea que me assolam seguem o ritmo de seus dedinhos, dançando no ar enquanto me aniquilam. É impossível, coloco as almofadas sobre o rosto, mas, sem o silêncio, a escuridão apenas me enclausura, tapa o meu nariz e me sufoca, é exatamente o que deseja a menina, ver-me afogada em saliva como ela mesma, tremendo e babando pelos cantos da boca. Desde a queda, ela me odeia, vem me punindo todos os dias, usando a única arma que tem, sempre nesta mesma luta - ela me atacando na máxima força de seus pulmões e eu resistindo, exilada no extremo do apartamento, o mais longe possível do quartinho cor-de-rosa onde ela se entrincheira. Ela conhece as minhas fraquezas, ataca certeira e impiedosa, sabe do segredo sob a roupa de cama e tenta me empurrar de volta ao isqueiro, para dentro da lama, de onde saí uma vez quase louca, quase morta. Estou acordada há praticamente doze dias, posso ouvi-la mesmo com todas as portas fechadas, às vezes eu a ouço até durante o sono, nas poucas horas em que ela enfim cede ao cansaço e dorme, num breve cessar-fogo que me enche de pesadelos.
  • Page 13pelos minutos que ela levava para me arrancar o bico do peito, recomeçando a gritar tão logo estivesse satisfeita. Decidi então ignorá-la e ver se isso surtia algum efeito mas o choro parece ter se tornado ainda mais violento, ela se esgoela com uma força inadmissível, dantesca. Penso que talvez não quisesse nascer, que desejasse permanecer dentro de mim para sempre, aninhada entre as minhas costelas, que o parto lhe parecera uma espécie de rejeição fundamental — a minha falência enquanto mãe, da qual, desde então, ela se vingava. Pego o isqueiro de volta e vou ao banheiro, mal me debruço sobre a pia quando a bile me invade a garganta, pingando morna pela cuba. As luzes me assaltam os olhos, a dor é excruciante, envelopada pelos uivos insistentes da menina; ao menos estou sozinha e não preciso me preocupar com o que os outros diriam, a maior vantagem deste apartamento é não ter vizinhos e, após a queda, eu dispensei os serviços de Louise. Isso também foi mais uma vitória da menina — meu tempo está agora inteiramente à sua mercê; eu dependo de sua boa vontade para me sentar e ter uma refeição, tomar um banho ou dormir, graças que ela concede apenas muito esparsamente. O que diria Louise se nos visse neste momento, eu me desfazendo sobre a cuba, a menina soluçando no quarto, coberta de ranho?
  • Page 14um instante. Sim. Escorrego pelos ladrilhos e apoio a testa nos joelhos, o isqueiro compondo o quarteto como numa obra magistral e fantasmagórica. A menina continua chorando, meu Deus, é um barulho que nunca termina. Ela estava chorando assim no dia em que a deixei cair, dentro da minha cabeça explodem alfinetes em todas as direções, a menina chora, chora, chora, leva-me de volta ao quarto de bebê naquela tarde, eu a segurando e tentando fazê-la aceitar o peito, ela se debatendo com tamanha energia que me escorregou pelas mãos, eu não dormia direito desde o parto, os móveis cor-de-rosa saltavam ao redor, ela chorando, agitando as perninhas vermelhas, talvez eu tenha afrouxado o abraço no qual a tinha envolvido, ela gritava e se empurrava para longe, tudo girando, o que foi que eu fiz, ela caída por cima do tapete, chorando ainda mais forte, tinha escorregado, foi um acidente, eu não queria tê-la derrubado, ela chorando e me olhando rancorosamente do chão, meu Deus, eu mirava os meus braços vazios enquanto ela gritava, mal percebi quando Louise chegou e a recolheu. Tinha sido um acidente, achei que fosse desmaiar, tudo saía de foco, há quantos dias a senhora não dorme, olhei para Louise e a vi envolta do choro esplendido da menina, do choro triunfal, a minha filha sabia ali que tinha vencido. Pisco, o banheiro aflora ao redor, séptico e gelado. O rosto de Louise ainda circunda minha visão periférica, o choque em suas bochechas enquanto ela balbuciava delicadezas para acalmar a menina, o apartamento tem duzentos metros quadrados, Louise não pode ter demorado muito para chegar e nos socorrer. Tento lembrar exatamente quanto tempo deixei a menina no chão, chorando esse mesmo choro que há doze dias ela vem chorando, mas não consigo ter certeza, a lembrança se liquefaz sempre que tento encará-la de frente, fugindo para a neblina por trás dos meus olhos. A lógica que me resta insiste que Louise chegou em segundos, que levaria apenas um minuto para atravessar o apartamento, para correr sobre o porcelanato brilhante em diagonal, mas a menina continua chorando, ela está me dizendo que é mentira, que eu a abandonei naquele tapete por horas, por uma eternidade, pela vida inteira.
  • Page 15criança levada por balões, carregada por pipas de rabiolas compridas que desenham sorrisos no ar. Estou de volta ao corpo de minha mãe, boiando nos fluidos da placenta, inatingível sob camadas e camadas de tecido celular. Olho para minhas mãos, sorrio, sinto que posso fazer qualquer coisa, posso hoje mesmo retomar as esculturas que abandonei pela metade, posso acalmar a menina, não me levará nem um segundo, posso ligar para Marcelo e dizer que venha mais cedo, que prepararei o jantar, e será o melhor jantar que teremos comido na vida, um bom risoto, um vinho português, sim, e a menina no berço, bela como um anjo... Levanto num susto, sem saber quanto tempo havia passado. O sol que entra forte pelas janelas já não queima as retinas, o corpo leve, gasto quarenta e três segundos até alcançar o berço dourado. A menina ainda chora, os lábios repuxados repletos de cuspe, o rostinho escarlate e suado. Quase não quero tocá-la, mas a coloco nos braços, ela me estapeando enquanto escorrego a blusa e o sutiã pelo ombro direito. Ela me lança a fúria de um último olhar antes de se atirar à minha carne, sugando com força, muito mais força do que seria preciso. A menina mama, também ao mamar ela me pune, exigindo-me por inteiro, ser sua mãe me tirou tudo, aquilo que eu não quis entregar voluntariamente ela tomou quando a deixei cair e me colidi com a suspeita impregnada nos gestos de Louise, no silêncio angustiado de Marcelo, que vasculhou o apartamento de cima a baixo por dias, sem pensar em tocar nas roupas de cama. O choro da menina é para me recordar de que somos cúmplices nas deficiências de minha maternidade, de que minha própria identidade agora lhe pertence estamos, ambas, confinadas àquela imagem de mãe e filha, dominante o suficiente para apagar quaisquer indícios da mulher que fui, repleta de expectativas que tornam necessário que eu falhe em particular, longe dos olhares curiosos. Eu e a menina, somente, nos testemunhamos.
  • Page 16também estou sonolenta, levo alguns instantes para me lembrar da seringa, e tenho um estremecimento que por pouco não a desperta aquela rendição, pois, não foi intencional, nada mais é do que a droga passando do meu organismo para o dela por meio do leite que ainda goteja dos meus mamilos. Recosto-me com ela na poltrona apertada, cochilo boa parte da tarde, quando acordo a menina está me encarando, muda e de olhos arregalados. Estende as mãozinhas para o meu peito meio enfiado no sutiã, eu sei o que ela quer, sei porque fui por anos escrava daquele isqueiro, porque mesmo agora sinto um delicioso torpor pelos membros que me enche da vontade de ser dócil, de acariciar os cabelos da menina, de niná-la como a minha própria mãe jamais fez comigo. Ante a minha lentidão em puxá-la contra mim, ela abre a boca e ensaia um lamento, mas agora sou eu que tenho o comando desse jogo, eu que carrego o trunfo desta nova proximidade, começo a me levantar e a menina se cala, nós nos fitamos uma à outra até que ela finalmente sucumbe o murmurar das folhagens entra pelas janelas e, dentro do apartamento, esse silêncio estupendo, ressentido, me diz que eu venci. Marcelo chega quase à meia-noite, caminha descalço com receio de nos acordar, ao passar pelo quarto ele nos vê enroscadas num abraço sorrio para ele enquanto a menina sorve meu leite em grandes goladas, o líquido branco e espesso escorre por seu queixo até empapar a roupinha, eu a enxugo ternamente e sussurro uma canção.
  • Page 17COLAGEM tenha juízo coloca um casaco quando você for mais velho você vai entender Estamos jogando buraco quando ela chega, eu que sequer gosto de cartas, embora as minhas filhas, quando vêm aos domingos, garantam que eu sempre gostei de jogar, que adoro os blefes e as canastras, e eu a vejo entrar, tímida e pequena, arrastando os pés pelos tapetes enquanto lhe apresentam esta casa de repouso cercada de grama e, ao vê-la, eu estou de novo entrando no colégio, no primeiro dia também entrei assim, lenta e encabulada, pois tinham dito que eu era jovem demais para ser professora, ou talvez fosse apenas o receio de recém-graduada que adentra aqueles espaços da maturidade, já não me lembro bem, maldita doença. É minha vez de jogar, ouço a conversinha ao redor, mas não consigo desviar os olhos da mulher, estão lhe dizendo aqui é a sala de jogos, e eu não sei mais qual carta eu quero jogar nem que jogo é aquele, ela tem o mesmo rosto macio, os mesmos caracóis sobre as orelhas que tinha aquela outra mulher, a que me recebeu no colégio dizendo aqui é a sala dos professores, e eu mirando-a de lado e já não me recordo qual era a escola nem a roupa que ela usava, tento lembrar ao menos seu nome, que talvez comece com A. Começo a enumerar as palavras com A que ainda me restam, à minha frente a mulher segue para o jardim com a diminuta mala de mão, a luz bate em seu rosto como bateu no rosto daquela mulher de antes, iluminando suas bochechas sem maquiagem, não sei dizer exatamente quando, mas uma vez almoçamos e ela me disse que era difícil encontrar tons de base para peles negras, por isso sei que fazia tempo, e eu de tão nervosa respondi que as bases eram escuras demais para o meu tom de pele, e morri de vergonha, quase rio agora como ela riu então, o sorriso sutil elevando o desenho das primeiras rugas, é o mesmo sorriso desta mulher que percorre os jardins conhecendo os prédios da administração e os canteiros de violetas. Pouso as cartas na mesa porque não gosto de jogar, observo rente à porta
  • Page 18a mulher ser guiada para a biblioteca, eu me lembro que gosto de ler, gosto talvez desde sempre, talvez por isso tenha virado professora, e percebo que venho supondo com cada vez mais frequência, mas estou certa de ter frequentado a biblioteca da escola, lá por vezes me encontrava a mulher, esta que talvez fosse Adélia ou Anabela ou Amanda, e sentávamos bem juntas e era tão bom quando ela me explicava as coisas de que ela gostava, pena que não consigo me lembrar quais eram, e corrigíamos juntas as provas, eu ensinava alguma coisa e ela também. Passávamos horas assim conversando, mas a mulher de agora passa rápido pela biblioteca e logo emerge do outro lado do corredor, aqui é a enfermaria, eu sigo pelo mesmo caminho, e entrei na sala errada logo no primeiro dia, a mulher pediu aos alunos que esperassem um minuto e me levou até a sala correta, conduzindo-me com um leve toque nas costas, eu paro diante da mulher e ela levanta o queixo quando eu me apresento, e eu perguntei se ela gostaria de tomar um café depois da aula, ela demorou antes de assentir, e eu estou suando um pouco quando lhe pergunto se quer tomar um café conosco na sala de chá. A mulher hesita, mas a moça que lhe serve de guia a incentiva a me acompanhar, é talvez a moça da recepção, não consigo me recordar de seu nome, começo a atravessar o corredor e caminhamos em silêncio pelas ruas históricas de alguma cidade, o tempo todo eu a sentia morna e próxima, a pele rija dos braços reluzindo os vermelhos da tarde, a mulher segue com dificuldade ao meu lado, tem alguma restrição nos movimentos da perna, eu ando devagare errei de propósito o trajeto para aumentar o passeio, nossos vestidos eram carregados pela brisa e exibiam nossas coxas firmes, as dela mais magras que as minhas, e finalmente viro à direita e abro a porta da sala de chá. Não sei a que horas o café é servido, mas o corpo sempre me lembra, os puxões do estômago necessitado de cafeína, eu deixo que a mulher passe e ela escolheu a mesa bem rente à janela, onde se sentou de frente para mim, e eu tive vontade de lhe tocar as mãos, mas somente pergunto se ela prefere com ou sem leite, a mulher olha ao redor e falou sou a única professora negra da escola, e esta mulher à minha frente não diz nada, mas posso vê-la pensar a mesma coisa, cercadas que estamos de velhas pálidas e amarelas como eu. Ela viu minha aliança e perguntou há quantos anos eu era casada, e pergunto por que ela veio parar aqui, e eu
  • Page 19respondi que o casamento foi desejo de minha mãe, enquanto ela bebia o café, e me diz que está nos estágios iniciais do Alzheimer, Alzheimer, arado, areia, eu perguntei da família dela e ela fala que não tem ninguém, a não ser um afilhado, afável, afaimado, nada disso é o nome de uma pessoa. Não recordo qual fora a cafeteria, em que rua, apenas que ela tinha lido muitos livros e eu também, falamos destes tantos livros cujos títulos agora me escapam e eles tinham algum significado, eu lera muito talvez porque buscasse alguma coisa, e olhando para ela pensei que ela soubesse e pudesse me ensinar, por isso procurei seus dedos, ela recolhe as mãos para o colo, suspira e me encara como se realmente soubesse. Eu perguntei se ela queria ir para a minha casa, era um horário em que meu marido trabalhava e as crianças não estariam, ela continua me olhando e tenho certeza de que ela sabe, e pergunto se posso levá-la até o quarto, e então a mulher de antes e a de agora sorriem o mesmo sorriso franco e aberto, terminam o café sem açúcar com a ponta da boca, enquanto eu as encaro detrás da cortina de minhas memórias repletas de espaços. Levantei e ela me seguiu sem alarde, a tarde caía ao redor e as mulheres nos convidam para ver a novela, escorregamos pelas calçadas e às vezes nos tocávamos com os ombros, e nenhuma de nós se afastava, ela tem os passos miúdos e incertos, e eu prolongo ao máximo os corredores estreitos do asilo, mas chegamos rápido demais à porta de casa, quando ela entra tira logo o casaco, a nuca viçosa e estreita cheirava a perfume, ela se senta na poltrona e cruzou as pernas e me disse meio brincando que nunca se imaginara com uma branca que sequer saíra do armário, e eu hesito sob o umbral e espero que ela me chame, ela começa a dizer o meu nome, e estamos a sós como estivéramos antes, entre nós apenas a pele, essa fronteira.
  • Page 20NERO só não esquece a cabeça porque tá grudada no pescoço me de a mão para atravessar a rua será sempre o meu bebê Eu soube que a bebê tinha sido deixada pra mim porque eu nunca pegava o caminho até a igreja, mas justo naquele dia eu decidi passar por lá. Estava ouvindo "Morena tropicana" em volume máximo, mexendo os quadris como se ainda tivesse dezessete anos, e praticamente tropecei nela no meio da calçada. Naquele instante, foi como se eu voltasse a ser adolescente, quando escolhia nomes para as bonecas das meninas mais novas; uma das bonecas tinha os mesmos olhos daquela criança largada diante da igreja, era uma boneca linda, que me fazia pensar que a coisa mais simples do mundo era ter uma filha, escolher um belo nome e dividir com ela o café da manhã enquanto ela diria “obrigada, mamãe” toda vez que eu passasse o leite. Eu tentei explicar a Marília e ela não entendeu. Mas que merda, você pegou uma criança do nada pra criar? E eu respondi que as pessoas faziam coisas piores na vida.
  • Page 21lenga. Eu tinha por princípio nunca me preocupar com dinheiro. A vida me ensinou que o dinheiro sempre aparecia de alguma forma. Qualquer um acreditaria que a menina era nossa filha porque ela tinha um tom café com leite que formava uma mistura perfeita da minha pele com a de Marília. Não quando estávamos juntas, é claro, mas se saíssemos com ela separadamente, ninguém duvidaria que fossemos, cada uma, a mãe da criaturinha. Eu podia dizer sem medo: esta é a minha filha, Moira. E as pessoas comentavam o quanto ela parecia comigo. Marília não queria nem saber da menina, estava convencida de que eu iria desistir da maternidade como desisti de trançar os cabelos ou de decorar as unhas com aquelas fitinhas de silicone colorido. Parece brincadeira, mas era isso mesmo que ela achava. Às vezes, ela chegava do trabalho e nos encontrava juntas no quarto, tentando montar uns cubos frouxos, e dizia coisas como: quatrocentos reais de fralda. Quinhentos reais num berço, você ficou maluca? Tudo assim, quantificado. Eu reconhecia o medo dela, de sermos expulsas do apartamento, de ficarmos sem nada, na porta da miséria, uma zona nebulosa que Marília apenas deixou de frequentar depois de adulta. A ameaça da miséria era constante, incansável. Estávamos mais ou menos protegidas por aquelas paredes ordinárias, mas a qualquer momento a miséria poderia chegar e levar tudo, feito uma enchente. Enquanto isso, deixava Marília acordada durante a noite, fumando cigarros.
  • Page 22aquelazinha. Eu me irritava e queria saber o que havia de errado com Marília, ao que ela murmurava alguma coisa incompreensível, rasteira, e eu soltava: pelo menos ela não me bate. Então mamãe olhava fixo para a frente, suflê nas mãos, até eu não aguentar e desviar a vista. Foi mamãe quem descobriu que Moira tinha no bumbum uma mancha de nascença que, com um pouco de boa vontade, poderia se dizer igual à nossa: uma pincelada marrom-escura, semelhante a uma crisálida. Quando a trocava, eu alisava aquela mancha e sentia que estávamos predestinadas, que éramos da mesma matéria, ela uma versão melhor e mais bonita de sua mãe, como, aliás, compete a todas as filhas. Tinha vontade de ficar o dia todo com ela, mas precisava trabalhar, Marília repetiu mil vezes precisar de ajuda para pagar as contas. Acabei arranjando outro emprego mais perto de casa, como secretária de uma clínica popular. Enchi a mesa com fotos de Moira e as pessoas a elogiavam o dia todo, até mesmo o doutor Fagundes, que costumava reclamar que meu cabelo estava sempre bagunçado, ainda que eu tivesse colocado um pote inteiro de gel naquele coque. Pensei que Moira, ao menos, tinha os fios lisinhos, com um pouco de sorte não encrespariam e quando crescessem eu não precisaria passar óleo neles e puxar o couro cabeludo até sangrar, que nem a minha mãe tinha feito comigo.
  • Page 23pontilhadas de sardas minúsculas, como se ela tivesse esquecido de lavar o rosto. Eu ouvi o doutor Fagundes sussurrar no ouvido de um colega, embora alto o suficiente para todos escutarem - isto, sim, é uma mulher. Me perguntei onde isso deixava as outras, nós que já trabalhávamos ali e não éramos propriamente mulheres. Eva era muito jovem, recém-saída da faculdade, e foi colocada sob minha supervisão. Ela parecia esperta e tinha um currículo impressionante, a ponto de surpreender que aceitasse trabalhar na clínica por um salário mínimo. Se eu falasse inglês e espanhol, com certeza buscaria um lugarzinho mais arrumado do que aquele. Expliquei a ela que o trabalho maior se resumia a obter as autorizações dos convênios, muitos dos pacientes estavam inadimplentes e não gostavam quando a gente dizia que o pedido deles tinha sido recusado. A melhor estratégia era então encaminhá-los para o escritório parceiro de advocacia, a perspectiva de um processo e gordas indenizações sempre acalmava os ânimos de todo mundo. Todos os dias, independente do clima, Eva vestia mangas compridas, o que só fui entender quando nos cruzamos no banheiro e ela tinha dobrado os punhos para enrolar abaixo do cotovelo um plástico transparente. Foi aí que vi que os braços dela estavam cobertos por tatuagens: pássaros, números, símbolos xamânicos. Ela riu ao notar a minha cara. O corpo dela erguia-se à minha frente feito uma âncora em que se enroscavam aquelas sensações eternizadas, capturadas pela tinta. Quando contei a Marília aquela impressão, ela não gostou de eu ter ficado sozinha no banheiro com uma garota e nem quis ouvir o resto da história, mas a verdade é que não senti desejo nenhum por Eva desejei, sim, as tatuagens. Até então, as únicas tatuagens que eu tinha visto eram tribais e dragões nos músculos inchados dos homens, e um ou outro pequeno coração em nucas e tornozelos. Nada como aquela composição derretida pelos braços de Eva, serpenteando debaixo das costuras da blusa. As tatuagens dela não eram enfeites, mas armadilhas -capturavam alguma coisa e prendiam debaixo da pele.
  • Page 24de vezes, começando pela minha avó, que um dia me esqueceu na estação de ônibus e embarcou sozinha para o litoral. Fiquei rodando com um baldinho por doze horas até um segurança conseguir localizar a minha mãe. O caso virou uma anedota de família, todo mundo achou engraçadíssimo, e eu já grande aprendi a rir também, mas, na hora, lembro de ter ficado apavorada. Às vezes, aquele medo reaparece de surpresa, nas situações mais inconvenientes, e é como se eu nunca tivesse sido encontrada naquela estação, como se até hoje vagasse pelos corredores em busca de um rosto conhecido, tentando não gritar. Assim que descobriu o meu fascínio pelas tatuagens, Eva passou a me dar descrições detalhadas de como fez cada uma delas, seus significados, coisas do tipo. Ela mesma tatuou uma boa parte dos símbolos, os que ficavam ao alcance, com um traçado firme e elegante ondulando através de seus pelos — Eva tinha o corpo todo recoberto por uma leve penugem, ou ao menos era o que eu imaginava, pelo que via dela. Havia uma bússola ao redor do umbigo para mantê-la centrada e, logo acima, uma cabeça de alho, porque ela cresceu num sítio repleto deles e o cheiro era a única coisa capaz de acalmá-la se estivesse ansiosa. Eu gostava mais quando as tatuagens tinham significados bonitos, porque achava estranho Eva tatuar também velhos traumas, como se não quisesse mesmo se libertar deles. Na verdade, ela nunca contava o que aconteceu, apenas passava por algumas tatuagens sem explicações, coisas horripilantes feito baratas ou uma ratazana. Eu também não perguntava porque não queria ouvir mais uma história de alguém que esteve no fundo do poço. Todos estivemos, alguns de nós voltam de vez em quando, para passar as férias. Não havia por que se demorar nesse assunto.
  • Page 25para mim diziam “bom dia” ou “boa tarde", meio tardiamente, como uma lembrança. Eu às vezes contava os segundos que eles levavam para lembrar, mas nunca passava muito de cinco ou seis; depois acenavam, distraídos, quando eu dizia "boa tarde" de volta. Um dia, enquanto víamos fotos na galeria embaçada do meu celular, Eva me perguntou por que eu não tatuava o nome de Moira. Fiquei pensando naquilo um tempão. Mas quando comentei com mamãe, ela descartou a ideia num segundo, falando que eu teria que achar alguém especializado e me custaria o dobro do preço. Para a minha mãe, o pior pecado do mundo era não pagar o absoluto mínimo por alguma coisa. Marília declarou que eu já tinha passado da fase de querer tatuagem, que com o tempo minha pele se dissolveria ao redor dos ossos e então tudo ficaria terrivelmente deformado. Depois deu o golpe final, lembrando que não nos sobrava dinheiro para essas futilidades, Moira já nos dava despesas o suficiente. Embora não soubessem, acho que foi a primeira vez que as duas concordaram em alguma coisa. Mesmo assim, nos intervalos, eu me divertia escrevendo o nome de Moira com um monte de fontes diferentes, depois projetando na perna, na barriga. Talvez só um M, tem mais mistério, Eva opinava, mordendo a caneta.
  • Page 26computador; eram uns charutos importados da Argentina, que o doutor fumava somente às sextas-feiras, no final do plantão. Eu fiz que não com a cabeça, mas ainda assim me sentei diante de Eva como se fosse sua paciente e estivesse a ponto de confessar uma penca de inflamações. O cheiro do charuto era enjoativo, quase repugnante; eu tinha um monte de coisas para fazer e fiquei um pouco nervosa ao pensar que logo estariam me procurando, que nada impediria alguém de entrar e nos ver ali, ocupando um espaço que não nos pertencia. ― Fumar me ajuda, entende? - ela ofereceu, e eu assenti, embora não fizesse a mínima ideia do que ela estava falando. Eu a via fumando o tempo todo no pátio, cigarros baratos que ela amontoava na bolsa, às dezenas. Imaginei ser algo relacionado à depressão, às tatuagens obscuras que desciam pelas pernas dela, agarrando-se aos calcanhares. Eu quase disse que a depressão era um bom negócio naquela clínica, porque os médicos praticamente faziam fila pra te receitar um monte de remédios; ninguém reclamava muito depois de umas doses injetáveis de calmante, isso eu podia garantir.
  • Page 27ou, nos melhores dias, pegava no meio da bunda e nem doía. Não era um filme muito bom, e quase todo mundo já havia visto. Não contei nada daquilo a Eva porque, agora, pelo menos, eu tinha Moira. A melhor parte do dia era voltar para casa com ela mole e cheirosa no colo. Uma criatura tão pequena e indefesa não podia abandonar ninguém, nem se quisesse. E depois, quando crescesse, seria tarde demais, eu já a teria capturado, irremediavelmente. Não se pode escapar do amor de uma mãe: ele nos persegue até quando estamos sozinhas em nosso próprio banheiro decidindo, uma noite, não fazer nero, e então fazendo mesmo assim. Marília garantia que eu ficava bonita de qualquer jeito, e eu não tinha como dizer a ela que, nesse aspecto, a opinião dela não contava, nem um pouco. Na verdade, queria muito que ela não falasse nada, mas isso nunca acontecia - Marília falava sem parar, quem acabava ficando em silêncio era eu.
  • Page 28acalmar, por favor. O diretor olharia para o doutor Rangel e seria evidente que estariam pensando: se ela está nervosa assim, deve ter alguma culpa no cartório... Quando contei a Marília que fui obrigada a pedir demissão, ela ficou possessa; queria ir até a clínica para fazer um escândalo, chamar o jornalzinho fuleiro do bairro e conseguir uma manchete, ainda que só circulasse por umas doze ruas. Você não vai reagir? Se defenda, merda! Eu preferia mesmo que ela não tivesse dito nada. Era em momentos assim que eu me via de volta à rodoviária, girando naquele saguão por horas, sabendo que, se gritasse, algumas pessoas teriam mais medo de mim do que eu delas, mesmo aos oito anos. Então eu perguntava "o senhor pode me ajudar?", de novo e de novo, até alguém não virar o rosto. Alguns abraçaram as bolsas, outros me deram esmolas; só no começo da noite, enfim, chamaram o segurança, que não escondeu a satisfação quando a minha mãe afinal se escafedeu comigo. Se a gente fosse se importar com essas coisas, seria impossível levantar da cama. Ainda assim, fui me sentindo mal, Marília não dava trégua, bradando que aquilo não ficaria assim, não mesmo; acabei me refugiando no quarto com Moira, cantando para ela enquanto a balançava suavemente nos meus joelhos.
  • Page 29sabendo que tinha os dias contados, que logo estaria de pés juntos na cova ao lado do irmão. Já pensou uma coisa dessas, mamãe perguntou, agitadíssima, depois ela própria respondeu: era impensável. Acho que ela queria ilustrar algum ponto obscuro sobre as falhas da saúde pública, mas eu disse não ser muito diferente do que acontece ao resto de nós morremos ordenados, avós, pais e filhos, sabendo que a cada morte a nossa vez se aproxima e rezando para não acabar furando a fila. Aquilo, para minha surpresa, deixou mamãe caladinha. Só que ela não esqueceu, porque, num dia em que regávamos as plantas da casa dela, mamãe me disse como quem não quer nada:
  • Page 30me lembrei do ponto e vírgula vermelho, úmido de suor. Ela não precisou explicar para que eu entendesse: a gente coloca um ponto e vírgula quando poderia acabar a frase ali, mas por algum motivo opta por continuar. Era o carimbo dos sobreviventes, e, perto de uma coisa assim, o resto não podia ter grande importância, muito menos um empreguinho numa clínica picareta daquelas. Mas o fato era que agora ela me devia uma, nós sabíamos. A casa era uma república antiga, cheia de garotas transitando pela sala em variados estágios de nudez, por isso Eva nos levou até o quarto e fechou a porta. Eu repeti, num só fôlego, que precisava que ela tatuasse uma crisálida no bumbum de Moira, idêntica à minha, e nem esperei ela responder antes de abaixar as calças. ― Ela não tem idade - Eva se opôs, mordendo as unhas. O quarto tinha um cheiro insuportável de cigarro. ― Moira completou um ano esta semana rebati, embora, na realidade, não soubesse. Ainda não tinha me ocorrido que precisaria decidir uma data de aniversário para ela. Poderíamos, quem sabe, ser do mesmo signo.
  • Não era nunca foiRINHA quando eu tinha a tua idade no meu tempo era diferente enquanto você viver debaixo do meu teto vovó. A casa era dela, de Rute, que além de minha avó foi também minha mãe desde os meus doze anos. Desde os meus doze anos, que foi quando a minha mãe morreu, ela era tudo aquilo: Rute, minha avó, minha mãe. Mas gostava de ser chamada de Rute era o nome escrito em seus antigos jalecos, que ela certamente ainda guardava dobrados e tirava uma vez no ano para alvejar. E eu, sua neta, era também a filha que sua filha havia deixado, assim dizia ela para os outros eu de herança como as roupas penduradas no armário, o carro velho e algumas cartas escondidas na escrivaninha, tudo doado ou jogado fora. Dos restos da minha mãe, a minha avó permaneceu somente comigo. Era sua obrigação, dizia sempre para os outros. E me criou bem criada, porque as coisas tinham que ser feitas direito, o amor vinha depois, talvez. Nesse meio-tempo, era Rute, como foi desde que nasceu e seria até morrer. Eu digo a Fernando: ela gosta de ser chamada pelo nome. Estamos de frente para a casa dela, ele querendo um cigarro, eu proibindo e olhando a fachada azul. Azul igual, tudo exatamente igual ao dia em que saí dali da casa dela, de Rute, para nunca mais voltar. Eu tinha dito que nunca mais pisaria os pés na casa dela, nunca, nunca mais, odiava aqueles cômodos abafados, os livros empoeirados nas estantes, odiava até as imagens dos santos, os pobres que precisavam conviver com ela. Eram santos, suportavam tudo eu que não tinha aguentado mais. Nunca mais ela ia ver a minha cara, eu disse a ela. Isso eu tinha lá meus vinte anos. Vinte anos, quinto semestre do curso de Direito, peguei a mochila e disse que nunca mais ia voltar, fui viver com a Lurdinha na pensão, dobrando horário no estágio e pedindo dinheiro a quem pudesse emprestar. Mas ali, naquela casa, não pisaria mais, nem morta — isso eu tinha dito.
  • Page 32Toco a campainha com as mãos suarentas, mordendo os lábios; Fernando ri e me diz para ter calma todas as mães gostam dele, com avó não ia ser diferente. Ele ri porque não sabe, eu o deixo rir e me abraçar por trás com aquele cheiro bom que ele tem e que realmente me acalma. O rosto que abre a porta é jovem, mais jovem do que o meu, é a moça que cuida da minha avó, foi com ela que eu havia conversado no telefone. Teresa, o nome dela, ela repete agora na porta. Teresa, coitada tinha que ser uma santa. Está toda de branco, até os sapatos; eu nem pergunto porque sei que deve ser exigência da minha avó. Rute tem dessas coisas, eu me lembro. Ali na sala apertada eu me lembro de tudo, ela ali sentada quando eu tinha vinte anos e estava no meio da faculdade de Direito. Bem no dia em que fui embora, para nunca mais voltar, e ela, Rute, tinha derramado o café, a mancha ainda está ali no sofá, desbotada pelos anos. A mesmíssima mancha, nem isso havia mudado, os livros também iguais, o tapete surrado, a cristaleira em que eu não podia mexer nem quando deixei de ser criança. Tudo igual, meu Deus, menos eu, que falei que não voltaria, nunca mais, nunca na vida, e cá estou, dizendo a Fernando que não toque na cristaleira. Teresa abre caminho e nos guia pela casa, é a mesma casa de sempre, tudo está exatamente a mesma coisa. Eu sigo porque já dei aqueles passos infinitas vezes nas tantas correrias para o quintal quando ainda morava ali, e cada passo tem aquele peso. Pesam os passos e eu me demoro, a mesa de jantar está idêntica, até da toalha bordada eu me lembro perfeitamente, debaixo da ponta dobrada se completa o desenho de borboleta, o desenho de borboleta em fita roxa. É como andar debaixo d'água, aquele peso, depois de tantos anos. Fernando sorri porque não entende nada, porque Teresa falando pede um sorriso, é uma santa, já se vê. A cozinha foi renovada, mas permanece o papel de parede florido e amarelado, os aparatos de outro tempo de que Rute gosta e então o vulto dela, no meio do jardim.
  • Page 33Sentada no que devia ter sido a sombra dos velhos pés de laranja. Ela, Rute, toda seca, como se a água houvesse evaporado de dentro dela. Nela ali sentada se vê a passagem dos anos, todos eles, cada um daqueles quinze anos desde que eu saí pela porta da frente gritando que não iria voltar, nunca mais. Nunca mais ela me veria, naquela tarde havia o mesmo cheiro de café que encontro agora, saindo da xícara que ela tem nas mãos, logo em cima de um cobertor de lã. O mesmo café, outra eu e outra ela. Eu que tinha esbravejado que nunca mais pisaria naquela casa, ela esbravejando que eu nunca mais pusesse os pés na casa dela. Teresa traz umas cadeiras da cozinha, Fernando pergunta como vai a senhora, dona Rute, ela não responde. É difícil arrancar uma palavra da minha avó, tinha sido sempre assim, desde muito antes da demência. O diabo mora na ponta da língua, ela dizia, e então estalava os lábios fazendo um som esquisito, toc toc toc, é o tipo de coisa que assusta uma criança. Ela dizia aquilo enquanto colocava o jaleco por cima da roupa, de frente para o espelho, toc toc toc, quando eu, doze anos, reclamava da falta que sentia da minha mãe. Ela, Rute, muito arrumada, toc toc toc, o batom carmim chocante contra o branco fosco do pó de arroz, eu tirava a saudade da língua e engolia até que descesse ao estômago, isso eu tinha doze anos. Ela ainda trabalhava, embora já pudesse ter se aposentado. A roupa era branca, como a de Teresa, os sapatos também.
  • Page 34quem foi amado desde o berço. Como é que alguém assim entenderia alguma coisa? Eu começo a explicar a Rute sobre o nosso casamento, o meu mais Fernando. Que talvez seja hora de deixar o passado para trás, eu sou a única família que ela tem. Ela não fala nada, mas a boca se retorce num meio-sorriso, talvez isso seja bom, talvez não, como ela não fala nada, é impossível saber. Digo que tudo foi há muito tempo - -tudo, as laranjas, o sofá, o café, os arquivos do hospital. Quinze anos é muito tempo. Mas ela não se arrepende, isso consigo dizer só de olhar para o rosto dela, por baixo da pele vincada é o mesmo rosto de quinze anos atrás. Ela vindo da cozinha, trazendo o café, isso fazia quinze anos. Eu estatelada na sala, os papéis na mão. Quarenta e oito nomes escritos ali nos papéis, nomes de mulher quarenta e oito mulheres que ela, Rute, tinha denunciado. Estava tudo ali nos papéis, nos arquivos do hospital. As mulheres haviam chegado com sangue no meio das pernas, quase mortas, Rute era chefe das enfermeiras, enquanto os medicamentos faziam efeito, ela ia até o escritório e preenchia as denúncias. Quarenta e oito mulheres, chegadas exangues ao hospital.
  • Page 35tinha vindo. Não vir seria ainda pior do que estar ali, lembrando de tudo, do café, da mesinha na qual eu derrubei os papéis com força, você violou o sigilo profissional, Rute, isso também é crime. Ela muito arrumada, gola engomada, me oferecendo um café como se eu fosse visita, eu que era filha da filha dela o problema dessas mulheres, Isabel, ela me chamava sempre de Isabel, nunca me pôs apelido nenhum, o problema não é serem denunciadas, o problema dessas mulheres é que elas são irresponsáveis e assassinas. Falou na maior calma do mundo, tomando café, falou exatamente assim — irresponsáveis e assassinas. Eu estou com a consciência tranquila, Isabel, é uma questão de princípios. Eu fiquei louca, nunca na vida senti tanta raiva, você arruinou a vida dessas mulheres, Rute, elas deviam ter o direito de decidir, você é um monstro, Rute, e comecei a gritar, acho que nunca na vida me descontrolei como naquele dia. Eu gritava e ela tomava café, só foi se aborrecer quando os vizinhos começaram a espiar pela janela. Fernando enfim se cala; num silêncio satisfeito, ele se recosta e observa o sol cair por trás das casas. Rute ainda olha para mim, o café abandonado sobre o colo. Eu agarro as mãos dela, geladas apesar do calor da tarde; as unhas feitas, cortadas bem curtas e sem esmalte, como nos tempos em que ela trabalhava no hospital. Rute, eu chamo, quinze anos é muito tempo, Rute, ela me olha e não fala nada, as mãos inertes dentro das minhas. Teresa começa a se levantar, dá um suspiro e explica que há dias assim, dias em que Rute não consegue se conectar. Às vezes, o excesso de estímulos é contraproducente, melhor voltar outro dia, ela está mesmo é nos dizendo para ir embora, não é tão santa como eu pensei. Agarro os dedos de Rute, suplico, quinze anos, Rute, você sabe por que eu vim. Ela não diz nada, quinze anos atrás ela se levantou do sofá e me deu uma bofetada, o braço fez um ângulo de quarenta e cinco graus, atingiu a xícara de prata, o café quente manchando o estofado. Você é muito esperta, não é, ela perguntava enquanto eu rebatia seus golpes fracos, muito correta, não é, Isabel? Eu continuava gritando, ela me estapeava os braços e o pescoço, você se acha melhor do que eu, não é, Isabel? Ela nunca havia me batido antes, era estranho estar em contato com o corpo dela daquela forma, tão próxima. Eu me esgoelava, ela puxou os meus cabelos e então falou, sua mãe não te queria, Isabel, ela queria abortar, se não fosse por mim você estaria morta, Isabel.
  • Page 36Isso faz quinze anos. Eu me esgoelando e gritando mentira, ela arranhando a minha bochecha, eu arranquei a sua mãe de uma dessas clínicas, Isabel, você preferia que eu não tivesse feito nada? Foi aí que eu me calei, os olhos ardendo, esperando que ela dissesse alguma coisa, ela apenas começou a catar as xícaras do chão, as de prata brilhante que ela guardava para as visitas. Eu peguei a mochila e disse que nunca mais ela veria a minha cara na vida, ela gritando de volta, os vizinhos todos assistindo da janela e achando tudo um espetáculo, eu repetindo na minha cabeça que era mentira. Por quinze anos eu venho repetindo na minha cabeça que era mentira e agora eu preciso saber. As mãos dela dentro das minhas, eu sussurro, era mentira, não era, Rute, ela nem pisca, não se move nem um milímetro. Talvez Teresa esteja certa, Rute olha para mim e provavelmente vê outra coisa, a minha mãe, talvez, a verdadeira filha dela. Eu tinha doze anos de recordações da minha mãe, doze anos. Mas depois daquele dia, era como se não tivesse nada. Rute estava sempre espreitando naquelas memórias, passou a ser difícil ver o rosto da minha mãe sem ver também o dela, eram às vezes o mesmo rosto, um em cima do outro, duas mulheres a quem eu havia sido imposta. Naquele dia, Rute me roubou doze anos de recordações, me roubou a firmeza dos pés, era impossível viver com uma dúvida daquelas, impossível, por isso eu tinha vindo. E agora Fernando diz que precisamos ir embora, ainda temos que pegar estrada, Fernando é destas pessoas cuja maior preocupação na vida é evitar um engarrafamento. Eu solto as mãos de Rute e me levanto com um cansaço imenso, um cansaço antigo, familiar como um velho casaco. Rute se esconde por trás da demência, mas sei que ela sabe, ela sabe a verdade e nunca vai me dizer; vai me punir até o túmulo pela morte da minha mãe, pelas acusações que fiz, pelos vizinhos. Vai levar a verdade consigo para o túmulo, ela é assim, eu a conheço bem.
  • Page 37ter filhos, quem sabe... Eu tento puxar o braço, ela segura com firmeza, seus dedos se fechando em garra ao redor do meu pulso. Como é boa a vida, não é, Isabel? Como é bom ter nascido, não é? Fernando não entende por que eu estou chorando, Teresa está longe demais para evitar que eu me arremesse sobre Rute, derrubando-a da cadeira, ela me estapeia com força surpreendente, eu puxo os cabelos dela e grito que ela é um monstro, que não vejo a hora de enterrá-la, eu grito quinze anos de obscenidades na cara dela, grito até que Fernando me contém e nos separa. Puxo o braço dele para longe, esbravejando que ela é uma mentirosa, que irá morrer sozinha, que nunca mais eu colocaria os pés naquela casa. Ela, ainda do chão, esbravejando que eu nunca mais pusesse os pés na casa dela.
  • Page 38ESPIRAL não chegue tarde em casa querer não é poder tira isso da boca menina Eu gostava quando a minha mãe dizia: caiu o cacau. Assim a comida saía sem ter entrado de verdade na boca dela, porque cair o cacau significa uma chuva violenta, um temporal assustador, mas o que eu visualizava mesmo era a polpa doce dos cacaus amarelos que o meu pai trazia da feira e a minha mãe nunca comia. Ou melhor, comia, mas não como a gente: a minha mãe tinha um jeito próprio de comer as coisas. Ela disse que iria cair o cacau naquele dia e o meu pai resmungou que ela estava inventando desculpas, que eu precisava de contato com os meus avós, nem tudo é sobre você, Cláudia. Mamãe então levantou o celular com a previsão do tempo, os raiozinhos furiosos saindo da bunda das nuvens, mas era só olhar pela janela para comprovar que o cacau não tinha caído, que nenhum cacau cairia tão cedo, então papai se julgou vitorioso e dirigiu satisfeito os quarenta minutos até o clube. O meu pai jura até hoje que cacau é a fruta preferida da minha mãe.
  • Page 39ficava perto do mar, mas sem acesso direto, então o tobogă era o melhor que conseguíamos por ali, mesmo que, aos onze anos, eu estivesse ficando grande demais para os tubos de plástico azul. A primeira coisa que se notava na vó Lete era o quanto ela era elegante. Ela sempre me abraçava sem tocar realmente nas minhas costas, aproximando as nossas bochechas e estalando um beijo na altura do meu ouvido. Tinha sido Miss Camacan na adolescência ainda andava como se tivesse uma vassoura no lugar da espinha e equilibrasse um livro no topo da cabeça. Uma vez ela tentou me ensinar a andar daquele jeito, mas não deu certo por causa do problema nas minhas pernas; tenho uma coisa chamada joelho valgo, que arruinou quaisquer chances de que eu brilhasse nas passarelas. A minha avó sugeriu uma cirurgia, mas a minha mãe foi contra, então andei um pouco torta a vida toda. Pensando bem, o joelho também me impediu de virar uma nadadora competente e, talvez por isso, eu desaguasse com tanto estardalhaço do tobogă enquanto as outras meninas pareciam deslizar como foguetes; mas aos onze anos eu achava que explodir na piscina após voltas e voltas nos tubos azuis com cheiro de cloro era uma espécie de habilidade.
  • Page 40sobre as pinturas, se enfim estavam expostas em alguma galeria, ou num portfólio que pudessem mostrar aos amigos, mas a minha mãe insistiu que o processo criativo dela não funcionava assim, que preferia trabalhar com fluxos naturais, e então a minha avó soltou um muxoxo. As duas se entreolharam e dava pra perceber que elas achavam saber exatamente o que a outra estava pensando. A minha avó tinha esfarelado um cubo inteiro de queijo e espalhado pelo prato; quando ficou claro que ela não iria comer aquilo, perguntei se podia ficar com os pedacinhos e fui catando tudo com a ponta dos dedos. A minha mãe não gostava de queijo coalho, mas aceitou uma água de coco, só que ela também não tinha dado nem dois goles quando levantou e anunciou que passaria protetor nas minhas costas. Nós já tínhamos esparramado protetor pelo corpo inteiro antes mesmo de sair de casa, mas eu não disse nada enquanto ela esguichava o creme branco na palma da mão e ia apertando com força contra a minha pele; a minha avó foi obrigada a fechar a boca bem na hora em que estava listando uma série de pessoas que poderiam ajudar na carreira da minha mãe, inserindo-a em feiras e eventos artísticos. Eu já sabia o que vinha em seguida, então, assim que a minha mãe terminou, fui correndo para a piscina. Vô Naldo alongava as canelas debaixo d'água e se empurrou para fora logo que eu comecei a descer as escadas. Ele não gostava muito de crianças.
  • Page 41Lembrei a ela que o tobogã só abria às dez, o que me parecia um pouco tarde, porque lá pelas duas o rapazinho de uniforme precisava almoçar e nos mandava dar o fora. Ficar na fila, subir os degraus molhados, espiralar e dar uma pancada na água, às vezes de bunda, às vezes com as duas pernas. Depois repetir, o sol lascando a cabeça, pulando na pedra quente repleta de poças. Fila, degraus, plástico azul. Às vezes a piscina ainda estava morna porque uma das crianças tinha ficado com medo e feito xixi; era impossível saber até cair com tudo no meio daquilo. Mas como eu nunca vinha ao clube, a não ser nas raras vezes em que mamãe aceitava o convite da minha avó, não ia ficar reclamando de um tobogã por causa de um detalhe desses. Nenhuma das outras mães fazia a pose de mamãe para entrar na água: primeiro, ela sentava na borda, balançando os pés na piscina para se acostumar com a temperatura. Então afundava só até o quadril, os fios presos numa trança, o que eu nunca entendi, já que ela tinha cabelo de sereia mesmo fora d'água, mesmo se estivesse seco. Quando ela finalmente entrou o suficiente para molhar a cintura, eu já estava ali ao lado, na parte rasa que costumava evitar para não me acharem uma criancinha. A minha avó esbravejava da mesa que mamãe ainda iria matá-la de desgosto, mas seus olhos brilhavam ao acuar papai na cadeira e colocar um dedo em riste na cara dele. Mamãe enfim sorriu, servia bem a papai por ser tão cabeça-dura, e então entendi que era o momento em que devíamos rir de papai, de vovó, daquelas preocupações todas, e aproveitar o dia. Eu gostava daquela versão de mamãe: alegre, um pouco cínica, fazendo o que desse na telha. Ela fez piada sobre as cobranças da minha avó, imitou as respostas de papai, a cara que ele fazia quando não sabia o que dizer. Olhei para a mesa e lá estava o meu pai com aquela exata expressão desmilinguida. Fiquei morrendo de raiva dele por não defender a minha mãe.
  • Page 42calcanhares uma da outra - ganhava pontos quem subisse primeiro. Devíamos parecer dançarinas siamesas porque logo alguns rapazes que jogavam cinco toques começaram a olhar para nós, e um deles nos chamou para jogar também, embora fossem muito mais velhos do que eu. Concordamos em participar somente por algumas rodadas, e um dos garotos chegou a sorrir para mim, o que nunca tinha acontecido antes, até onde eu me lembrava. Comecei a querer que ele visse o quanto eu era boa naquilo, porque tinha muita prática no baleado, que não era um jogo tão diferente assim, já que o importante mesmo era acertar alguém antes que me acertassem de volta. Fiz um esforço para encaixar todos os passes e me saí tão bem quanto qualquer um deles foi maravilhoso. Eu tinha certeza de que o garoto estava a ponto de me dizer alguma coisa quando mamãe me puxou e apontou para as crianças que começaram a formar a fila do tobogă. Desculpem queridos, é a nossa deixa, ela adora esse tobogă...
  • Page 43ansiedade crônica, que morria de medo de descer sozinha, e que poderia muito bem ter uma crise, a não ser que ela me acompanhasse, pelo menos da primeira vez. Ele começou a argumentar, a faixa etária era até doze anos, mas será que ele não poderia abrir uma exceção? O rapaz olhou para mim, e de volta para a minha mãe, para nossos maiôs idênticos, e para o tamanho do corpo dela, apenas um pouco maior do que o meu. Mamãe sorriu de novo e dava para ver pela seriedade no rosto dele que em nenhum momento duvidou daquela historinha que ela tinha contado. Ele ainda tentou alcançar o supervisor pelo walkie-talkie, as crianças atrás choramingando pela demora, mas papai sempre dizia que a minha mãe era carne de pescoço quando queria alguma coisa, e realmente ela continuou parada no meio do caminho, sorrindo e se desculpando, até o rapaz desistir e nos deixar passar. Assim que nos distanciamos um pouco, mamãe se inclinou sobre o meu ouvido e sussurrou sim salabim, que também era o que ela me dizia baixinho sempre que vendia uma das telas. Subimos os degraus em caracol, eu bem agarrada ao corrimão por causa dos joelhos, enquanto mamãe seguia à minha frente perguntando se eu achava que ela ainda caberia no tobogã. Respondi que sem dúvida caberia com mais folga até do que da última vez. Lá de cima pudemos ver o clube inteiro, as mesas brancas debaixo dos guarda-sóis, os muros cheios de propagandas e, mais adiante, a mata e o mar, um pouco escondido pelos redemoinhos de salitre. Mamãe hesitou na boca do tubo, colocando primeiro os braços, como se fosse descer de cabeça, depois voltando para sentar com as pernas esticadas, gritando por cima do vento que não tinha certeza se estava fazendo aquilo do jeito certo. Eu sabia que ela não estava realmente confusa, mas corrigi seus ombros e disse que mantivesse as mãos junto ao peito, embora o tobogã nem fosse tão rápido assim. Ela escorregou o quadril pela borda e riu, eufórica, quando seu corpo deslizou sem esforço sobre a corrente, com uns bons palmos de folga de cada uma das paredes do tobogã, coisa que mesmo eu quase não conseguia a uma altura daquelas. Era impressionante e também um pouco assustador.
  • Page 44insistia que os políticos eram todos iguais, que neste país não havia direita, nem esquerda, nem centro de verdade, mas uma massa uniforme de aproveitadores e sanguessugas. Papai mudava de opinião a cada cinco minutos, ora acenando enquanto vô Juca falava de alguns projetos, ora concordando com a minha avó que o país estava perdido, e discretamente piscava para mamãe. Ela me contou uma vez que tinha decidido largar a faculdade de Artes ao conhecer papai, para poder mudar de estado quando o trabalho dele determinasse, e também porque, segundo ela, poderia pintar de qualquer lugar. A minha vó perguntou se ela iria mesmo largar a faculdade por causa desse homem que você conhece há dois minutos, e mamãe riu e respondeu é, pelo jeito vou sim. Foi aí que ela decidiu se casar com papai, de modo que a vó Lete teve mais influência naquele romance do que imaginava. Tomei um monte de água de coco, ainda intacta no jarro e, depois de algum tempo de conversa fiada, a minha avó começou a falar que se preocupava com o meu futuro, as muitas mudanças de estado poderiam me prejudicar na escola e, às vezes, os filhos acabavam pagando pelos sonhos dos pais. Mamãe levantou rapidinho, perguntando se eu não queria ir até a baiana de acarajé no piso de baixo, embora ela sempre reclamasse que o acarajé do clube custava o dobro de um perto de casa. A minha avó olhou torto porque ninguém mais na mesa gostava de acarajé; mesmo assim, mamãe começou a tirar as nossas cangas da bolsa, só que por engano acabou colocando a minha, que enganchou no osso do quadril e, por um instante, achei que ela fosse gritar enquanto tentava se espremer para dentro da canga esticada ao máximo no meio das pernas. Expliquei a ela que estava com a canga errada, e ela não me respondeu, mas deixou o tecido escorregar pelos joelhos, os joelhos perfeitos que não eram valgos, e falei que a canga dela era muito mais bonita, que queria uma igualzinha, a minha canga ficava completamente apagada perto da dela. Pensei a certo ponto que mamãe fosse sair somente de maiô e desafiar a regra do clube de não circular em traje de banho fora da área de piscina, mas afinal ela pegou a própria canga, amarrando com um nó atrás do pescoço, e me puxou em direção às escadarias.
  • Page 45o ponto da baiana, já próximo às quadras de tênis. Não havia fila, então mamãe foi direto para a moça no caixa e pediu dez acarajés completos, com camarão. A baiana foi montando os papelotes, distraída e apressada, mas mamãe fez questão de dizer que eram para uma reunião de família, que estávamos em mais de vinte pessoas, todas loucas por um vatapá, será que ela podia caprichar no recheio? Depois se virou para o casal atrás de nós e comentou que aquele acarajé era maravilhoso, que vinha ao clube com a família inteira só para comer ali, mais de vinte pessoas esperando ansiosas lá na piscina. O casal sorriu, mamãe se deu por satisfeita e apanhou a sacola com os acarajés empilhados uns sobre os outros sem maiores preocupações, com montes de guardanapo por cima. Seguimos pela grama e demos a volta nas quadras, até uma parte mais afastada, onde sentamos atrás da parede de um dos quiosques. Quando a minha mãe entra na disputa da comida, não tem pra ninguém. Ela abriu a sacola e eu sabia que precisava mastigar rápido, antes de ela acabar com tudo, mas não consegui passar do segundo acarajé, e fiquei observando enquanto ela enchia as bochechas, os lábios brilhantes e amarelos. Eu sempre ficava embasbacada com a quantidade que ela conseguia comer quando se decidia, e admirei a concentração em seu rosto ao apanhar cada acarajé, raspando a língua nos últimos cubinhos de vinagrete grudados no papelote, depois avançando pela pilha a uma velocidade inacreditável, como se nem sentisse o gosto de nada, como uma mulher numa missão. Ela não levou nem vinte minutos para devorar aquilo tudo, o que devia ser um novo recorde. Começamos a colocar os guardanapos sujos dentro da sacola e pensei que, se corresse, ainda teria tempo para uma última descida no tobogã antes do horário de encerramento, mas eu sabia que não havíamos terminado por ali. Levantamos e fomos direto para o banheiro, onde mamãe entrou na última cabine e fechou a porta. Eu ainda não conseguia fazer aquela parte, então somente esperei ao lado das pias, pronta a explicar que mamãe estava passando mal para qualquer pessoa que entrasse, mesmo se não perguntassem nada. Pode parecer uma rotina difícil, mas na verdade tudo que você precisa para começar é de uma pequena, boa mentira.
  • Page 46cavernosas de mamãe.
  • Page 47A ESPERA quer me matar do coração você me respeite quebra mesmo não foi você que pagou não fez mais do que a sua obrigação Mamãe disse que a comida estava quente; tinha ainda aquela mania de comer com os dedos quando estávamos a sós. Por sobre a bancada da cozinha, eu a vi apertar os grãos de arroz com força, até transformá-los numa massa lisa, depois empurrar o prato para o lado. Seu silêncio me desafiava a dizer alguma coisa - eu não disse. Lavei o que sobrava das panelas enquanto ouvíamos as fracas canções da rádio, a que tocava as músicas antigas e lamuriosas dos tempos dela de menina, na casa de fazenda.
  • Page 48deslizando pelas paredes. Durante o seu cochilo da tarde, eu podia finalmente terminar as tarefas de casa e trabalhar um pouco. O projeto do design da sala comercial na rua Chile já estava quase finalizado, mas pedia alguns retoques. Absorvida por aqueles aperfeiçoamentos, não vi as horas passarem; quando dei por mim, o sol se punha. Corri para tirar as roupas do varal e esquentar a água. Ao abrir a porta do quarto de mamãe, encontrei-a já de pé, muito arrumada dentro de um vestido vermelho ainda vibrante, o de golas e punhos de renda reservado para os domingos. Aproximei-me para pegar seu braço, cheirava a lavanda e a sabonete. Eu hesitei, então escovei rapidamente o cabelo e passei um pouco de batom, nada que ficasse muito evidente. Forrei a mesa com uma toalha sem manchas, trouxe o café, os pães e os biscoitos. Olhando a pobre composição, pensei que talvez devesse ter feito também um bolo, mas agora era tarde. Esperamos, primeiro conversando banalidades, depois em silêncio. Chequei o celular, mamãe murmurou alguma coisa sobre o trânsito. Ao cabo de uma hora, levantei, melhor fazer outro café, mamãe, que este esfriou. Ela não disse nada.
  • Page 49IKTSUARPOK já comeu alguma coisa isso é hora de estar acordado de um beijo na titia dê um abraço no seu irmão Sentada no ônibus, morrendo de calor enquanto devorava uma coxinha massuda, eu me dei conta, tarde demais, de que não trouxemos o gato. Aquilo só passou na minha cabeça naquele momento e então virou uma questão fundamental, inevitável: como foi que esquecemos o gato? Deixei de lado o salgado gorduroso que segurava com as duas mãos, uma monstruosidade que seria almoço e jantar até chegarmos à capital. Ao lado, meu irmão, Caíque, dormia, a cabeça encostada no vidro, e cheguei a sacudi-lo para falar sobre o gato, sobre o fato inconcebível de o termos esquecido, mas ele estava tão exausto que nem abriu os olhos. Puta merda. Passei as horas seguintes olhando pela janela, esperando de alguma forma o gato se materializar no meio da estrada, elegante e arisco como no dia em que o encontrei. A paisagem verdinha deslizava colada à estrada, bonita que só, as cidades com nomes inteiros nas placas, sem nenhuma letra faltando, mas nem prestei muita atenção. Como diabos nos esquecemos do gato?
  • Page 50Explicamos que partimos com a roupa do corpo e ele achou aquilo divertidíssimo, gesticulou para entrarmos logo no carro, 0 estacionamento passava a cobrar depois de cinco minutos. Caíque sentou e tentou um abraço descoordenado, os braços cheios de cotovelos bateram no para-brisa e recuaram, o amigo riu e apertou seu joelho. A rádio tocava alguma coisa em espanhol, meu irmão mal conseguia encaixar uma ou duas frases em meio à música e ao falatório do cara; voltei a pensar no gato enquanto os prédios passavam aquarelados e sujos pela janela, mas tirando isso a cidade parecia boa o suficiente - seria fácil desaparecer numa metrópole daquele tamanho, com tantas esquinas escuras. Paramos na mais escura de todas, um beco com cheiro de mijo, e o homem nos disse para descer. Antes de subirmos as escadas, ele se virou para mim e falou:
  • Page 51Estávamos há dois meses na casa de Uri. U-ri, como uma bifurcação. Caíque costumava dizer que Uri nos ajudava muito, e quando chupava o baseado chegava a sussurrar que Uri salvou a gente, a porra da nossa vida, tá ligado? Mas não era bem assim. É verdade que de vez em quando ele trazia as sobras das entregas do almoço, mas na maior parte das vezes que eu caminhava até o ponto, se esticasse o pescoço por cima do viaduto, podia vê-lo dormindo com os outros motoqueiros, as cabeças enfiadas nas caixas vermelhas do aplicativo de delivery. A cidade era aquilo: um monte de cozinhas industriais improvisadas e linhas e linhas de entregadores esgotados com as cabeças cheirando a macarrão. De dia, Uri circulava por aqueles cantos parecendo um zumbi. De noite, era outra coisa. Eu devia estar estudando, mas, como era menor de idade e Caíque não tinha a minha guarda, decidimos evitar chamar a atenção; eu não assinava nem cartela de rifa com medo de nos descobrirem. Depois, principalmente quando estava chapada, eu tinha certeza de que ninguém dava a mínima para o que quer que eu estivesse fazendo, mas era só pegar a caneta que eu mudava de ideia rapidinho. Quando precisava mesmo, eu assinava como Joana Cintra, que era o nome de uma colega linda que tive, uma vingança por ela parecer sempre tão feliz durante a porcaria da aula. Joana Cintra limpando sanitários, ajoelhando no desinfetante com mãos de borracha, não era engraçado? Queria ver ser feliz assim, dando descarga na merda dos outros. Mas se alguém conseguisse, seria ela.
  • Page 52dele, a casa da gente sempre nos puxa de volta e é impossível não ceder, mais cedo ou mais tarde. O que mais me incomodava era que em nenhum momento, nem antes do fogo nem depois, o gato cruzou a minha mente. Só fui lembrar no dia seguinte, no meio da estrada, entupindo a barriga de coxinha. Como esquecemos o gato, como? Caíque não ligou tanto assim, o gato não era dele, eu que o encontrei parado igual a uma assombração em cima da pia. Tomei um susto daqueles. A casa não era um exemplo de ordem, nem de limpeza, mas não havia bichos ali, ratos, nada do gênero. Então de onde o gato surgiu? Estava muito bem tratado para ter vivido na rua, o pelo longo e macio, dava pra afundar os dedos nele como se fosse uma nuvem. Tive medo de perguntar pelo bairro e alguém tomá-lo de volta, por isso somente deixava uns pedaços moles de peixe esperando e ele sempre aparecia para comer. O pai no início reclamava do fedor na cozinha, dos peixes apodrecendo debaixo do sol, mais tarde se acostumou.
  • Page 53além de uma saladinha murcha e ácida. Primeiro eu achei que Caíque estava mentindo quando disse que cortava e fritava batatas das nove às seis, depois vi que era verdade; sempre que eu chegava, não importava o horário, ele estava esquentando o umbigo na borda dos tanques escuros de óleo, afundando e puxando a grade de batatas, afundando e puxando. Ele brincava dizendo que se o espremessem sairia uma garrafa inteira de Liza, mas eu podia ver que estava satisfeito em ter um trampo com carteira assinada, férias e tudo. Talvez, quando eu fizesse dezoito anos, também pudesse trabalhar ali, ser uma das meninas que acompanhavam os clientes até a mesa e estendiam os cardápios, fingindo não perceber enquanto eles olhavam a bunda delas. Era Caíque quem pagava o grosso das nossas despesas, inclusive o aluguel do quarto no apartamento de Uri; eu podia ajudar mais, mas em vez disso reclamava que o bar não pagava direito, que ficavam com metade do meu salário sem motivo nenhum, e guardava o dinheiro num pote de margarina escondido no fundo do armário. À noite, depois de Uri sair, deitávamos no sofá, enrolávamos um baseado e nos lembrávamos de todas as coisas que havíamos perdido no fogo.
  • Page 54cima da hora, mas eu acho mesmo que era ele quem usava aquela quantidade toda, por incrível que pareça. Uri tinha pavor de pegar uma doença qualquer, devia trocar de camisinha tanto quanto lavava as mãos, e ele lavava as mãos o tempo todo. Não sei quando foi que Uri fez a cabeça de Caíque, embora em algumas ocasiões eu já tivesse visto os dois sussurrando na pequena varanda entulhada de plantas que dava para as janelas do outro lado do beco. Apenas, numa noite, saíram juntos, apesar de eu ter feito um escândalo, quebrando os poucos pratos da despensa, o que não serviu para nada, a não ser para me deixar o trabalho enorme de catar os cacos depois. Quase arranquei o pote de margarina do meio das roupas para dar a Caíque tudo que eu possuía, mas não iria adiantar, ele queria voltar a comprar os tênis, a corrente de ouro, talvez uma moto igual à de Uri. Eu já estava dormindo quando eles voltaram, mas acordei com o peso do corpo de Caíque pressionando o colchão da cama única que dividíamos, cheirando a sabonete. Acabei não aguentando e perguntei a ele como tinha sido, se ele estava bem.
  • Page 55perguntar maldosamente se ele fazia aquilo por saudades do pai, mas ele deu de ombros, a verdade é que Caíque não se incomodava tanto com o pai quanto eu. Da primeira vez em que nos flagrou chorando, eu encolhida num canto da sala, o pai soluçando ainda mais alto à minha frente pedindo perdão, Caíque me levou ao banheiro para tomar uma ducha e disse que o segredo era esse: uma boa ducha, e contar até cem, nunca levava mais tempo que isso. Cem segundos e a vida seguia como sempre, um pote de sorvete e o filme de dinossauros, não era tão ruim quando a gente sabia que tinha um prazo para terminar. Qualquer um podia aguentar cem segundos, não importa do que fosse, não podia? E eu descobri que sim, no fim das contas, podia mesmo. Talvez eu também sentisse um pouco de inveja por Caíque ter encontrado sua turma tão rápido, enquanto só me restava ele com quem conversar. Agora, apenas nos cruzávamos rapidamente no café da manhã e ao final da tarde, no trajeto de volta para casa. Os donos do restaurante não gostavam muito de me ver numa mesa de canto, esperando pelo meu irmão, mas eu pedia uma Coca-Cola e ninguém podia fazer nada a não ser me observar sugar o refrigerante feito uma lesma, fazendo um barulho molhado como se aquilo fosse a melhor coisa que eu já tivesse tomado na vida. Eu gostava de bisbilhotar em especial as garotas que trabalhavam na loja de maquiagem logo em frente: elas chegavam se equilibrando em saltos finos demais para aquelas calçadas, lenços presos ao redor do pescoço, então pediam um lanche e se atiravam sobre ele como leoas, quatro ou cinco mulheres elegantíssimas chupando o queijo dos guardanapos até rasgar o papel. Todas elas levantavam os olhos quando Caíque aparecia, sem a redinha de proteção, os cabelos dele caíam grossos e cheios ao redor das bochechas, e eu sentia uma pontada de orgulho por ser aquela que o acompanhava até a saída, ainda que às vezes o rosto dele me perturbasse, porque lembrava muito o rosto do pai.
  • Page 56alguém. Então era isso que eu sentia: iktsuarpok. Eu só dormia de verdade quando eles chegavam, por isso vivia cansada, a ponto de começar a receber reclamações no trabalho. Numa tarde, um cliente entrou no chuveiro e quase escorregou porque os azulejos ainda estavam cheios de lubrificante do horário anterior. Quis perguntar se ele achava que aquela era a espécie de estabelecimento que recebia avaliações no Google, mas fechei a boca e fui correndo limpar tudo com água sanitária. O cliente e a garota me esperaram terminar e, assim que saí no corredor, retomaram de onde tinham parado. Aquilo me fez pensar que eu não sabia que tipo de clientes Caíque atendia. Por algum motivo, esperava que fossem mulheres. O fato é que, apesar das ausências no cotidiano, passamos a viver com mais folga: pedíamos comida no fim de semana, caixinhas inteiras de yakisoba nadando no shoyu, e bebíamos tanto refrigerante que não parávamos de arrotar por uma meia hora. Em alguns domingos, íamos ao parque, puxávamos um monte de beques e nos entupíamos de pastel com caldo de cana, enquanto as donas arrastavam os cães e as crianças para longe. A melhor coisa do parque era que as pessoas sempre levavam cachorros, nunca se via um gato por lá, e eu não precisava me lembrar de ter abandonado o meu em Formosa, à mercê do fogo e da fome. Corríamos aos tropeços quando os seguranças chegavam, rindo, porque tudo era tão engraçado, tão leve que, naqueles momentos, eu quase podia voar. Em casa, continuávamos fumando, uma vez que o isqueiro pifou, enrolamos um cordão de Bombril e enfiamos na tomada, era um truque que os amigos de Uri ensinaram a ele, daí bastava acender os baseados com a brasa percorrendo os fiozinhos de aço mesmo se chamuscássemos a ponta dos dedos, era mais legal do que usar o fogão.
  • Page 57fumaça escapando pelas molduras das janelas e enchendo nossos olhos de lágrimas. Devia ser quase meia-noite, o bairro inteiro dormia, lembramos que o pai também estaria apagado, nocauteado pelas doses cavalares de Lexotan, e foi então que olhamos um para o outro e eu levantei e tranquei por fora todas as portas de casa. Dizem que com o tempo a gente se acostuma com tudo, até mesmo com as piores lembranças. Eu às vezes dava com o meu próprio rosto em algum vidro na fila do supermercado, ou passando ao lado de um monte de carros parados no posto de abastecimento, e via uma expressão contente, ou pelo menos não miserável, e pensava como diabos eu tinha me esquecido do gato, como não me lembrei dele no meio do fogo, e como não estava sequer pensando nele até aquele momento, flagrada por mim mesma no ápice do esquecimento. Mas, aos poucos, fui desviando a vista desses espelhos; esquecer era fácil e, apesar de tudo, eu ainda tinha Caíque, ou algumas partes dele a cada dia eu o perdia um pouquinho mais para as horas extras no restaurante e para o trabalho noturno, do qual ele chegava impregnado de outras pessoas. Vendo-o dormir a meu lado, eu era tomada por uma ternura imensa, insuportável. Tanta ternura que, numa semana em que estávamos especialmente distantes, abracei-o como o pai costumava fazer, envolvendo a cintura dele até meus dedos se entrecruzarem na frente um abraço que era um pedaço de casa, a casa que sempre nos chama de volta. Então aproximei nossos lábios, porque o pai dizia que era assim que amávamos na nossa família, e eu achava que tinha esquecido, mas dentro de mim eu ainda lembrava. Caíque colou a testa na minha e falou que não precisávamos fazer aquilo, mas acabamos fazendo mesmo assim; durou exatos oitenta e sete segundos, debaixo do corpo dele, eu olhei para o teto repleto de manchas e contei.
  • Page 58BANQUETE eu disse talvez, se você perguntar de novo a resposta é não vai ser assim e pronto se comporte como uma mocinha São duas, que se revezam ao redor do caixão.
  • Page 59seriam bem-vindos, inclusive o cunhado, se afinal Martinha já o tivesse convencido a voltar para casa. Quando o calor se torna insuportável, Lúcia se resigna a buscar água no filtro da cozinha. Oito meses de pingadeira, era de acabar com qualquer um. Tentaram trocar as borrachas e a manopla, sem sucesso; o vizinho de cerca, acostumado a todo tipo de agrura doméstica, recomendou uma revisão total do encanamento. Claro que não tinham dinheiro, o pai se encarregou de resolver o problema com as próprias mãos, as mesmas mãos rígidas que se entrelaçam na sala sobre o terno marrom, enquanto a torneira se agiganta vitoriosa e ondulante junto à parede. Cedendo a um impulso irresistível, Lúcia aperta o fecho com força antes de buscar o copo; a torneira ainda a desafia, espremendo gotas improváveis por espaços mínimos. Está debruçada sobre a pia quando uma mulher a encontra e murmura condolências. Lúcia se endireita, não sabe o que dizer a esta gente, praticamente não os conhece, além das vistas pelas calçadas do vilarejo aonde vai uma vez por semana comprar suprimentos. São tantos os afazeres no sítio, não lhe sobra tempo algum para amenidades na rua. Foi rápido, diz enfim à mulher, virando o copo d'água na garganta. Ele não sofreu.
  • Page 60gentilmente com a cerca velha, tantas vezes partida, com as ervas daninhas e as pragas; tinha uma mansidão cheia de raízes, que se alastrava pela terra, pelas plantas, até mesmo por ela, Lúcia, que se viu enredada no mato cheiroso, no silêncio e nos calos das mãos. Ao longo daqueles quarenta anos, acostumou-se com tudo: os mosquitos, as secas, a despensa ora deserta, ora transbordante de verduras, tudo, menos a maldita torneira. Oito meses e já não consegue pensar em outra coisa - basta entrar em casa para o corpo se retesar em alerta, lembrando-a do conserto incompleto. Oito meses falhando em encontrar a causa do vazamento, a mente reproduzindo sons fantasmas durante o sono. Descobre de repente que já não pode tolerar o campo, os homens. vincados cuja bravura frente às coisas orgânicas recua perante os mais simples problemas mecânicos; despreza igualmente os canalhas do vilarejo, que cobrariam fortunas pelo menor remendo. Não se sente a mesma algo pode feri-la, não tem mais aquela invulnerabilidade. É bem isso: envelheceu. O pai, no caixão, perdeu a grandeza que se revelava nos olhos; não sofreu, Lúcia repete para si mesma. Pois se o médico tinha dito, devia ser verdade, estudou mais do que ela, embora no peito ainda caiba uma última desconfiança de que os estudos não servem para grande coisa naquelas partes, onde se morre no escuro da madrugada, longe da Medicina. Argumenta dizendo a si mesma que não poderia ter feito nada; o pai partiu no sossego em que vivia, com a dignidade da própria cama. Não competia querer mais. Ainda assim, ali estão: ele na quietude infinita, ela se doendo com a torneira. Os últimos vizinhos entram, o sereno pousado nos ombros, ela vê o Chico Pescador e não consegue se impedir de lhe agarrar o braço a torneira, Chico, você pode dar uma olhada? E nesse momento não se importa em parecer transtornada, o decoro a recebe como uma mulher em luto, a quem se permitem algumas irreverências. Tem mesmo o desejo de que a vejam um pouco louca, de que comentem a pobrezinha, assim que ela virar as costas. E está triste, é claro, não teria por que fingir, está tristíssima, mas não fosse a torneira seria mais fácil entregar-se à tristeza adequada.
  • Page 61dos sofás, a sala repleta de rostos vagamente conhecidos parece encolher, faz muito tempo que ela não se vê cercada de tanta gente. A família vinha somente aos domingos, para os almoços fartos com cerveja e carne na brasa, Martinha com o marido, três tios, uma ou duas primas mais próximas, ao todo não eram sequer dez pessoas. Quantas havia agora na sala, trinta? Quarenta? Um número imenso. Ela se lembra então da primeira vez que foi à cidade - não ao vilarejo, mas à cidade grande, o taxista tinha dito mais de um milhão de pessoas. Ela e Martinha engaioladas no banco traseiro enquanto o pai tagarelava, animado em levá-las para visitar alguns parentes por parte de mãe, que tinham enviado cartas pedindo para conhecê-las. Eram já moças, talvez quinze ou dezesseis anos, mesmo assim se assustaram, nem a imaginação acomodava um milhão de pessoas. Pessoas tantas como as folhas de todas as árvores da roça. De manhã cedo, levariam o caixão. A funerária deixaria o corpo na pequena capela, então o padre diria o que cumpria dizer; ela sentaria na primeira fila, toda de preto, recusaria qualquer outra cor, e teria alguns minutos de paz. Sim, de manhã bem cedo. Ainda faltam várias horas, é preciso respeitar o tempo da morte, e Lúcia implora baixinho: Chico, mas é Martinha quem o cumprimenta, do outro lado da sala, na fronteira para o quintal. Martinha, Lúcia pensa, é outra coisa - se parecem no porte, nos cabelos castanhos, ambas sabem também ser mesquinhas até o limite uma com a outra. Mas Martinha é outra coisa, ali cercada do povaréu, casada e confortável naquelas conversas que deixam Lúcia embasbacada, aos tropeços. É por causa de toda aquela gente que Lúcia sente que precisa espremer a tristeza para fora, como se estivesse mentindo. Não é difícil, de uma filha solteira se espera que esteja dilacerada pela morte do pai, e realmente está, mas não é suficiente, por que não é suficiente? Precisa chorar. Quer chorar, tem mesmo vontade, e as lágrimas chegam ao espaço detrás dos olhos, se apenas pudesse se concentrar cairiam belas pelo meio do rosto, ela sentada com as mãos grossas abandonadas ao lado das coxas enquanto o choro escorreria quieto e nobre. Mas, antes, é preciso consertar a torneira.
  • Page 62com maridos voláteis, com conversas obscenas. Ocorre então a Lúcia a ideia de que, se Martinha pedisse, talvez Chico resolvesse a torneira, e se levanta com ânimo renovado, enfim distraída. Aproxima-se da irmã como um animal que cerca o outro, acautelando-se ao lado de Martinha, torna-se lenta, gorda, consciente dos fios desalinhados, da pele manchada. Martinha a nota, enfia o rosto em seu pescoço, diz: querida. E, nas bochechas, a maquiagem borrada do pranto. Lúcia tem vontade de machucá-la, de fazer algum comentário maldoso, mas a vontade morre por trás do cansaço, do gota a gota que se esconde atrás das paredes. A torneira ainda está quebrada, Martinha, você poderia pedir ao Chico...? É indecente que papai esteja morto e a casa assim, conclui, um gesto abstrato abarcando tudo, com uma vagueza preguiçosa. Martinha entende errado, garante que a casa está ótima, que ela, Lúcia, cuidará muito bem do sítio, não precisa de ninguém lhe mostrando como fazer as coisas, tinha sido assim desde criança. Crianças, elas tinham corrido naquele mesmo quintal. As redondezas abrigavam apenas uma escola primária, que concluíram aos doze anos; sem as longas caminhadas para as aulas, as tardes se estendiam intermináveis pelas colinas tinham somente uma à outra. Martinha pergunta se ela quer um cigarro e Lúcia faz que sim, embora sequer goste de fumar. Avançam na escuridão até o mato baixo, pontilhado de grilos o exílio determinado pelo pai, que detestava o cheiro de tabaco perdurando nos móveis.
  • Page 63No início da adolescência, a puberdade as pegou desprevenidas no meio de acres e acres de terras quase desabitadas. Lúcia não sabe mais como havia começado, aquele interesse obsessivo pelo próprio corpo apalpava-se durante o banho, descobrindo cavidades ocultas, sensações agradáveis. A histeria daquilo a carregava hipnótica pelos dias, pelas tarefas corriqueiras entre a louça e a horta, como se o mundo inteiro retrocedesse para que ela pudesse ocupar novos espaços, dissolver-se do lado de dentro da pele. Quando o cachorro de infância a flagrou em tais cios, atacou-a com o osso do púbis, violento e urgente; Lúcia recorda da repulsa que lhe apertou a garganta ao se abaixar para descortinar o órgão vermelho e bulboso encaixado entre as pernas do bicho. Assim, então, o pênis de um macho. Tocou com a ponta dos dedos a pele retesada, o animal contorcendo-se para pressionar-se contra sua palma aberta, era um desespero que ela conhecia, que a perseguia todas as noites, e aquela simpatia lhe trouxe um atraso, um atraso infinito, em recolher a mão, o que fez, assustada, quando Martinha os surpreendeu e gritou. E ela levantou com o peso de um nojo terrível, um nojo monumental, que até hoje sente bem agarrado à sua barriga - a grande náusea. Lúcia larga o cigarro no meio, abafando-se no pai morto, no membro asqueroso de Pinote, ao redor o mato preto e sibilante a prende na réstia entre a casa e as galinhas, do lado de dentro a torneira continua pingando. Não sei mais o que fazer, ela confessa a Martinha, que responde, inocente: ainda somos uma família, meu bem. Lúcia a encara, incrédula, e então você poderia pedir ao Chico? Ele não vai negar, vindo de você... Martinha é outra coisa, a cabeleira comprida, a cintura se curvando sobre as ancas estreitas, papai estava louco com essa torneira, Martinha, tentamos de tudo, por favor, até que a irmã assente com a sugestão de um sorriso. São fáceis essas vaidades, Lúcia compreende, seguindo-a de volta à casa, onde Chico demora na concordância, fazendo reticências enquanto Martinha lhe alisa o braço. Quando o homem desaparece pela cozinha, Lúcia se derrete cheia de carinhos pela irmã, sua irmãzinha, sua irmãzinha adorada, tão linda, tão sofrida ao abandono daquela casa deserta na vila, o marido metido com Irene, que todos diziam ser uma mulher da vida, quatro filhos de pais diferentes. Era quase uma rima: a mulher da vida e o homem do mundo.
  • Page 64Lúcia se recorda de súbito daquela viagem à cidade grande, a primeira. A noite em que, após uma semana, as tias devolveram os três à rodoviária; Lúcia grudada na janela para despedir-se do mar, Martinha com a respiração colada em sua garganta, disputando os últimos olhares. As mulheres apareceram discretas, primeiro na sombra dos postes, depois abertamente ao lado das ruas, com saias de látex preto, sutiãs mal escondidos por tecidos baratos, longas botas que terminavam nos joelhos; tinham 0 rosto pintado, sorriam, inclinavam-se sem constrangimento sobre os carros que paravam no meio da pista. A tia fechou as janelas, um destino terrível a prostituição, meninas, e a outra tia emendou: tão jovens, coitadas, a culpa é desta crise sem fim. O pai concordou, balançando o queixo, enquanto as mulheres ficavam para trás em meio ao salitre, com suas liberdades ameaçadoras, tão distintas da familiaridade indefesa das Irenes do vilarejo. comentam
  • Page 65estufados, a madeira bebendo a umidade com uma sede de anos, talvez queimasse também a geladeira, tremiam os pés enferrujados enquanto linhas e linhas de formigas subiam desesperadas pelas paredes. Chico enfim encontra o registro, a água cessa após um gorgolejo final da torneira. Ele fala alguma coisa, Lúcia apenas fita os escombros. O pai morto. Está morto, setenta e cinco anos, um coração inerte devia doer como o diabo, independente do que o médico dizia. As pessoas bem agarradas à própria comida, aos sussurros, ninguém a viu chorar a morte do pai, tanta gente, quarenta pessoas. Levaria horas para enxugar o piso, empurrando a água para o quintal, depois desinfetar a cozinha inteira, passar o pano, espremê-lo à mão dentro do balde, despejar no tanque, tudo isso enquanto a torneira permanecia quebrada, todo o encanamento comprometido, talvez também a geladeira. Atrás de si uma pequena comoção, ouve a voz de Cláudio, que afinal chegou, bêbado, e escorregou na entrada da cozinha - Cláudio caído, rindo e pedindo socorro, Chico repete que nada daquilo tinha sido culpa dele, canos velhos estouram assim, por qualquer motivo, os demais inexpressivos, até os cochichos tinham cessado.
  • Page 66Encontram a noite ofuscante da cidade em máxima performance era uma sexta-feira. Os prédios baixos da orla enrugados pelo sal, os restaurantes acesos, pequenas multidões aguardando na porta dos bares. Lúcia reduz a velocidade e aspira o cheiro rançoso do mar urbano; aos poucos, enxerga as primeiras mulheres, alastradas pelas esquinas. Coloca a primeira marcha, mas permanece na faixa à direita, mais distante _ dali observa os corpos das prostitutas, envelopadas em vestidos de organza por cima de biquínis cavados. As pernas longas, as meias terminando em saltos pontudos. As perucas, os apliques baratos deslizando pelas costas quando elas vão negociar, à porta dos carros, com homens que permanecem na sombra. Algumas com jeans rasgados, pedaços de malha torcidos, as tatuagens brilham foscas, lábios sempre muito vermelhos. Lúcia logo aponta: olha lá, a sem-vergonha de saia preta, tá na cara que gosta mesmo da coisa! Martinha aperta o rosto contra o vidro, elas gostam assim, querida, gostam mais é de se amostrar. Jeitinho mais fácil de ganhar a vida, Lúcia arremata avidamente, pisando ainda mais forte no freio. Olha aquela ali, tem que ser puta por vocação, como que tem coragem, Martinha? Está vendo como rebolam, mal se escuta a música, e Martinha se engaja, olha o decote dessas piranhas, se duvidar vai até o umbigo, e riem, riem, que meia mais horrorosa. Lúcia segue devagar, quantos homens tinham dentro daquele carro, Martinha? Caem na gargalhada, quando a rua acaba Martinha insiste dá a volta, dá a volta, e retornam à primeira esquina, onde uma das mulheres as descobre e acena. Lúcia cresce, firme, não mais desmoronável, sente-se sólida atrás do volante, capaz de desprezar o podre das marés entrando pelas janelas, coloca um pé definitivo na ponta do acelerador para avançar imperturbada e solene, um esquecimento benevolente tomando conta de tudo olha como são atrevidas, Martinha!
  • Page 67O FRUTO DA ÁRVORE diz tchau para o amiguinho já passou da hora você precisa comer direito parece comigo quando eu era jovem Para voltar da escola e chegar até a minha casa, um apartamentozinho arruinado num prédio de seis andares, era preciso passar pelo velho matadouro de perus. O galpão ocupava um quarteirão inteiro, cercado de placas metálicas devoradas pela ferrugem, muitas já caídas, revelando os pátios abandonados, repletos de ganchos. O outro lado da rua acabava num monte de mato enlameado, por isso eu atravessava a calçada do matadouro todas as tardes, apertando as alças da mochila enquanto os homens me faziam ofertas. Eu soube que as ofertas eram boas quando contei à minha mãe que um homem me estendeu uma garrafa de Jack Daniels, lacrada dentro de uma sacola plástica, e ela levantou os olhos do esmalte que passava nas unhas do pé para dizer que duvidava que eu valesse aquilo tudo.
  • Page 68estalava os lábios para uniformizar o batom, então saía com o café batizado dentro de um copo térmico, aos golinhos. Ao meio-dia, quando eu às vezes ia ao salão levar alguma encomenda, ou pegar dinheiro para o mercado, encontrava-a sorridente e tranquila ao lado das máquinas de cartão de crédito. Ela costumava me pedir para levar balas de menta, mas eu jamais podia simplesmente entregá-las devia aproveitar a aproximação de alguma cliente, a movimentação agitada do caixa, enquanto a minha mãe somava os números e anunciava o valor total, para puxar a gavetinha embaixo do computador e depositar as balas lá dentro. Eu acenava ao sair, e ela me dizia, generosa, que ficasse com o troco. Se eu a esperasse terminar o expediente, pegávamos juntas o ônibus que nos deixava no cruzamento da Jorge de Toledo com a Borges Campos e, então, eu não precisava atravessar o matadouro sozinha. Ela bebericava do copo térmico, um copo que nunca se esvaziava, mas era preferível aguentar seu passo lento, seus risinhos maldosos enquanto os homens nos abordavam, porque ao menos ao lado dela eu era prontamente esquecida, meu tronco magro, ainda sem seios, contrastando com o busto firme e as coxas grossas de minha mãe. Ela parava, ouvia as ofertas como se as considerasse, daí tragava um gole generoso e ria na cara deles, de um jeito que sugeria que talvez numa próxima oportunidade, e eles a chamavam pelo nome até muito depois de desaparecermos atrás da esquina. Os homens quase nunca eram os mesmos, vinham de todas as partes do bairro para se escorar ali, de modo que, a qualquer horário, sempre se encontravam dois ou três deles fumando, ou coisa do tipo, e fazendo promessas com as mãos dentro dos bolsos da calça. Eu confessei à minha mãe, uma vez, que tinha medo de que um deles me agarrasse à força, puxando-me para dentro dos corredores desertos do matadouro, e perguntei se não poderíamos voltar a morar com a minha avó, longe dali. Ela fez uma careta, disse que o meu problema era aquele: ser fina demais para fazer um boquete bem feito.
  • Page 69tocar a campainha. Esqueci as malditas chaves, falava, a língua arrastando, os olhos brilhantes. Eu não dizia nada, em troca ela tomava uma boa ducha e esquentava para nós uma panela de macarrão. Chupávamos o molho ácido no sofá, vendo novela. Ela perguntava sobre o colégio, se eu tinha feito novas amigas, e eu contava sobre as meninas com quem me encontrava nos treinos de vôlei. Ela concordava, satisfeita, dizia: qualquer uma será melhor do que aquela putinha da Mercedes. Depois adormecia no sofá, onde eu a cobria com uma manta grossa, mesmo no verão. Só conheci Roni, o novo homem dela, depois de uns cinco ou seis meses. Ela o trouxe uma noite, cruzei com os dois, trôpegos, a caminho do banheiro. A minha mãe me abraçou, essa é a minha queridinha, é uma aluna excelente, e eu tive vontade de perguntar como ela poderia saber uma coisa daquelas se nunca comparecia às reuniões de escola, mas ela devia adivinhar pelas longas horas que eu passava no quarto, lendo. Eu não era a melhor da classe, longe disso, apenas me mantinha acima da média, mas Roni me encarou com as pupilas enevoadas como se eu fosse uma criatura importante, apoiou-se na parede e murmurou como vai, o que era mais do que qualquer outro namorado dela jamais tinha me dito. Eu os deixei passar e ouvi seus risos e gemidos madrugada adentro, o tilintar das taças e das garrafas rolando pelos tapetes.
  • Page 70chegasse a torcer o tornozelo numa calçada? Eu nunca a tinha visto dançar tanto antes. A farsa terminou somente quando Roni, numa das festas que deram em nossa casa, decretou que eu já tinha catorze anos, que podia tomar um trago. Ele mesmo abrira sua primeira cerveja aos nove anos de idade, e estava bem, muitíssimo bem, não estava? A minha mãe logo confirmou que sim, estava mesmo, Roni era dono de uma empresa de segurança, liderava uma equipe de oito pessoas. Eu gostava de Roni: ele não passava a mão em mim quando a minha mãe não estava olhando, nem sussurrava obscenidades no meu ouvido, como os outros costumavam fazer. Trazia salgadinhos do supermercado e sempre lembrava o meu sabor preferido. Por isso, provei a cerveja e me forcei a engolir mesmo quando o líquido ameaçou subir de volta pela minha garganta. Ele perguntou quer mais, eu fiz que não e ele pareceu decepcionado, mas logo se redimiu, eu era o cérebro daquela família, era melhor que alguém mantivesse a cabeça fria para fazer as contas. A minha mãe, porém, considerou uma desfeita que eu recusasse a cerveja de um homem bom como Roni, apressou-se a dizer que eu sempre fui assim, fresca, que me achava boa demais para eles, para o bairro. Disse: a vida espalha merda por toda parte, mas ela acha que pode manter os sapatos limpos... Eu não achava nada daquilo, claro, mas não respondi, e ela repetiu que meus pés em breve estariam bem afundados na lama, junto com o resto da humanidade.
  • Page 71a se atracar com a boca de Roni. Cheguei a colocar a minha mão sobre a dele e, quando ele apertou, não a puxei de volta, deixei que ficasse, mole, entre seus dedos suados e compridos, como pernas de aranha. Depois da festa, não vi Prego por vários dias, até que ele apareceu na porta da minha escola, à saída. Tinha acabado de voltar de um treinamento, a minha mãe contou onde eu estudava e, se eu não me importasse, ele gostaria de me acompanhar no caminho de volta daqui para a frente. Achei-o mais magro e mais alto do que nunca, mas aceitei, um pouco tocada. Ele agarrou a minha mão e começou a tagarelar sobre um monte de coisas inúteis, times de futebol e jogos de cartas, e, quando eu perguntei se ele também gostava de ler, me encarou como se não tivesse a menor ideia do que eu estava falando, como se nunca tivesse visto um livro na vida. Eu jamais o convidava para subir, mas ele não guardava ressentimentos; no dia seguinte estava sempre à espera, sossegado, em frente ao portão.
  • Page 72de carne dos corpos uns dos outros pela variedade. Perus canibais, agressivos, atropelando-se nos comedouros, depois pendurados de cabeça para baixo, para sangrar, centenas de perus, milhares, o avô achava que ainda devia haver carcaças ali, esquecidas nos antigos congeladores. Prego, ainda criança, lamentou quando o matadouro faliu, porque a avó costumava preparar os perus adquiridos com desconto de funcionários todo domingo, dourados e crocantes com manteiga e batatas, eram os perus mais macios do mundo, ele jurava que desmanchavam na boca, cheios de líquido, e quando chegamos em casa estávamos já mortos de fome. Após algumas semanas, enfim cedi e deixei que Prego subisse; fiz para ele o único almoço que conhecia, arroz e frango, e ele comeu sem reclamar, então se deitou no sofá e dormiu boa parte da tarde. Vimos televisão antes de ele precisar ir ao trabalho, um filme policial repleto de clichês, e, ao final, Prego tentou me beijar; eu me esquivei, aterrorizada com a perspectiva de sua boca úmida, de lábios feridos, contra a minha. Ele não pareceu incomodado; agradeceu pelo almoço e saiu, enquanto eu suspirava de alívio e retomava minhas leituras. Ainda assim, deixei que voltasse nos dias seguintes, Roni gostava muito de nos encontrar juntos, assistindo tevê, quando chegava com a minha mãe a tiracolo. Os dois passarinhos, era como nos chamava, com um sorriso, e a minha mãe sorria também porque eu finalmente tinha aprendido a me comportar. Sentávamos os quatro ao redor da mesinha de centro, jogando dominó, a minha mãe bebendo como nunca, um copo atrás do outro até que não conseguia mais segurar as peças, as pernas abertas deixando entrever a calcinha vermelha. Nesses momentos, para evitar que ela derrubasse as garrafas de Gordons, Roni derramava o líquido direto na garganta dela, sem nem tocar na língua pastosa e inerte. A minha mãe ficava alucinada, pedia mais com a cabeça mole apoiada no encosto da poltrona, tremendo. Prego espiava a calcinha dela com o canto dos olhos, os pelos escuros escapando pelas laterais, e a cena inteira me parecia vagamente distante, sensual. Ao ajudar Roni a levá-la para a cama, eu me perguntava se ela ainda estaria acordada quando ele começasse a transar com ela, caso conseguisse, e se aquilo a perturbaria de alguma forma; mas ela sempre aparecia bem-disposta na manhã seguinte, ronronando como uma gata satisfeita.
  • Page 73Numa dessas noites em família, o telefone tocou e eu era a única pessoa sóbria o suficiente para atender - Prego e Roni cantavam o hino de algum time de futebol, enquanto a minha mãe aplaudia e gesticulava, fazendo as vezes de maestro e plateia. Eu gostava de vê-los assim, felizes, e tinha me habituado a tomar um ou dois goles de vinho, embora ainda achasse o gosto amargo demais. A voz do outro lado da linha me surpreendeu: era Mercedes. Sentia minha falta, era como se eu tivesse desaparecido, nunca mais havia lhe telefonado desde que saímos da casa de minha avó. Mercedes e eu crescemos juntas, nossos quintais bem colados um ao outro, de modo que a casa dela era como uma extensão da nossa e vice-versa. Eu lhe confidenciava tudo, inclusive a descoberta, atrás dos casacos, da caixa onde minha mãe escondia os licores, e foi ideia dela abrir as garrafas. A minha avó nos encontrou vomitando as tripas no assoalho, Mercedes depois disse a tua mãe é alcoólatra, sem sequer se desculpar pela ideia de merda que ela teve, e que acabou nos obrigando a mudar de bairro quando a minha avó quis internar a minha mãe à força numa clínica de recuperação. Ainda assim, eu morria de saudades dela, estava pronta a perdoá-la, a contar sobre como as coisas andavam bem agora, com Prego, Roni e a escola, mas a minha mãe me viu demorar na linha e sem que eu percebesse aproximou-se e arrancou o telefone de minhas mãos. Sua filha da puta, não volte mais a ligar aqui, putinha, eu te quebro inteira, tá me entendendo? Eu te corto toda, a começar pela língua, sua dedo-duro filha da puta!
  • Page 74penteados, sem sucesso - suas mãos tremiam demais até para prender os grampos. O cabelo devia incomodá-la mais do que imaginei, porque, alguns dias depois, a minha mãe atacou uma cliente em pleno lavatório, lançando-se sobre a mulher e puxando seus cabelos até deixar o couro cabeludo em carne viva. Estava completamente bêbada, a dona do salão me contou, impaciente, quando fui buscar o cheque com a grana que lhe deviam; gritava tanto que de início pensaram que fora a cliente a atacá- la. Ela gritava muito com Roni também, sempre que o via, embora ao final acabasse chorando, agarrada a seus joelhos, implorando por uma garrafa. Do meu quarto, eu a ouvia repetir, numa cantilena, você vai me deixar assim, Roni, vai me deixar assim, é, e ele afinal cedia e dizia que não era para tanto, ele traria um engradado, e trazia mesmo, todas as vezes, embora das últimas fosse Prego quem os trouxesse em seu lugar. Roni tinha uma nova mulher, era o que se comentava no bairro, uma garota mais jovem, dona do próprio negócio, um armarinho. A minha mãe teria ido atrás dela, teria arrebentado a loja inteira, mas tinha medo de Roni, medo de que não aparecesse mais, de que a abandonasse com o armário vazio.
  • Page 75minha mãe - até que vi, sobre a mesa da sala, a garrafa de Jack Daniels, quase vazia, ainda dentro da sacola plástica. Nesse dia, saí correndo de casa e liguei para Prego; os olhos baços de minha mãe sequer se ergueram quando eu bati a porta, trancando-a do lado de dentro. Esperei encostada à parede do corredor, tentando afastar a imagem de seu corpo espectral, curvado sobre os vapores do uísque, o rosto encoberto pelos cabelos gordurosos, rarefeitos. Quando Prego chegou, eu pedi que me levasse a algum lugar, qualquer lugar que não fosse aquele conjunto miserável de apartamentos cheirando a esgoto. Ele perguntou que lugar e eu dei de ombros, disse: um lugar romântico. Ele se remexeu, as mãos cruzadas atrás da cabeça, lembrou que tinha um plantão dentro de duas horas; mas afinal me puxou para a rua, onde a tarde minguava num calor úmido, repleto de moscas. Caminhamos em silêncio, Prego chutando pedrinhas com a ponta dos sapatos, a cabeça caída deixando à mostra os ossos do pescoço. Pegamos a avenida, ladeira acima, bem ao lado dos carros rebaixados que passavam zunindo, rumo ao litoral. Os rádios ligados e os escapamentos estourando quando arrancavam após um semáforo, o chão vibrava com o impacto das britadeiras que realizavam a manutenção das calçadas. Logo nos afastamos das ruas que eu conhecia e adentramos um bairro novo, de vias mais largas. Prego nos conduziu até a portaria de um edifício envidraçado, explicou que fazia a ronda noturna ali algumas vezes por semana. O porteiro olhou para a cara dele por um segundo e nos deixou passar, apontando o elevador de serviço.
  • Page 76fachadas e mais fachadas de janelinhas escuras. Mais adiante, o rio corria tão cinza quanto o asfalto, as margens tomadas por capim selvagem e montes de lixo. Prego comentou que dava para ver um pedaço da represa, ao longe, e apontou uma direção com os olhos apertados. Fiquei sem reação, olhando deprimida para aquilo tudo, enquanto Prego se sentava num dos bancos à sombra e esticava as pernas. Após alguns momentos, eu me sentei a seu lado, deixei que me abraçasse pela cintura. Que diferença faria, afinal, se o beijasse? Estávamos cercados da feiura da cidade, acuados como besouros. Nos afastamos somente quando chegou um grupo de fumantes, Prego falou que precisávamos ir embora, e eu hesitei, então respondi que conhecia um lugar. Hoje o matadouro de perus virou sede de uma multinacional, uma construção enorme que puxou um monte de negócios para esta margem do rio, cercando-se de universidades e butiques estreitas, com nomes franceses. As meninas agora andam por lá com sapatos altos, cafés na mão, carregando computadores então se sentam e conversam em inglês num pequeno pátio quase aos fundos do terreno, bem ali onde afastei as seringas descartadas ainda grudadas às agulhas, me ajoelhei ao lado das gaiolas e coloquei na boca o caralho de um homem pela primeira vez.
  • Page 77CUCO você ainda vai me matar de desgosto se apanhar na rua vai apanhar em dobro quando chegar em casa espera só sua mãe chegar O prediozinho fica enfiado entre o hipermercado e a galeria - cinco andares tortuosos, os lances de escada dobrando-se pelas paredes. A fachada apinhada de janelas ainda mais suja ao lado dos vidros bem iluminados da galeria, com seu constante cheiro de pipoca. Josimeire para bem no meio da calçada, diante dos botões do interfone, em fileirinhas moles abaixo do número dos apartamentos. Ela golpeia o primeiro botão, espremendo o indicador contra o plástico preto, dez segundos. O aparelho range, range, a voz chega suando do outro lado, quem é? Às vezes, dependendo do dia, Josi sussurra alguma coisa num sotaque inventado enquanto a mulher do outro lado suplica quem é, mas quem é que está falando, e Josi repete as mesmas bobagens com urgência, três, quatro vezes até então corta o sinal e caminha risonha para dentro do prédio, sabendo que a velha Iolanda, do 204, não poderia vê-la de sua varanda dos fundos.
  • Page 78o mais arriscado, pois a janela do 401 está bem acima de sua cabeça e a qualquer momento aquela mulherzinha poderia enfim largar o celular e gritar o flagrante. Dois bipes. Às vezes, os adolescentes do bairro recebem a culpa, parece mesmo o tipo de coisa que adolescentes fariam, e por serem muito jovens divertem-se com as acusações infundadas, o que sempre é interpretado como uma confissão. Ninguém sabe o que fazer com os adolescentes. Três bipes, ela sente o estômago começar a queimar; se a mulher atendesse, desligaria e tentaria de novo. No quarto bipe, uma sorte imensa: é uma voz infantil, deliciosa, que diz: alô. Josi se dissolve com aquele alô embolado, muda e contente, ele insiste alô, alô, tão querido, um bonequinho. Ela ouve a respiração dele pelo arranhar do interfone, uma nuvem, imagina aquele halitozinho doce, a pele morna, imagina apertá-lo contra o pescoço e inspirar seus cabelos, o corpinho suave desmanchando-se de encontro a seu colo, imagina-se beijando as bochechinhas tenras, oh, meu Deus, como queria abraçá-lo! Não podia dizer que quisesse qualquer outra coisa mais do que aquilo. Quando sente que ele se afasta do aparelho, preparando-se para desligar, ela rompe o silêncio e o imita — alô, para que ele, as forças renovadas, continue a cantilena alô, alô, alô, cada vez mais terno, entretido com a brincadeira, ela quase pode vê-lo agitar as mãozinhas enquanto a mãe seguiria no celular, teclando com as unhas compridas e vermelhas. Oh, o seu anjinho!
  • Page 79A não ser por Josi, o apartamento está deserto - dos cantos dos cômodos desprendem-se fragmentos de tecido, recortes, linhas perdidas. Os rodapés descascados repousam sob uma suave camada de pó, nos bancos de plástico empilham-se revistas esbranquiçadas pelo manuseio ― quase sempre, é Josi quem as folheia, nos descansos vespertinos que por vezes se estendem por dias e, outras vezes, por semanas inteiras. É raro que uma cliente se interesse pelos vestidos nas imagens, pelas calças de alfaiataria, pelos cardigãs de tricô modernizados. As clientes chegam - quando chegam -para reparos. Tocam o interfone, sobem os quarenta e cinco degraus e pechincham o ajuste de uma bainha. Precisam encurtar uma saia, repor os botões de uma camisa, apertar a cintura de um vestido e depois folgá-la de novo, garantindo que em breve conseguirão emagrecer o suficiente. Sentam-se nos bancos e não olham para as revistas. Se Josi sugere e se fizéssemos um tailleur, você teria um traje completo, mostram-se confiantes de que podem encontrar tudo aquilo na galeria. E encontram. Depois aparecem para ajustar a bainha. Josi olha para o vestido e pensa que está praticamente terminado tem tempo para tomar um banho. Somente precisa entregar o vestido amanhã, há tempo de sobra. O apartamento tem um único quarto; ela não precisa de mais do que isso, mas o resultado é que chega rápido demais a qualquer aposento. Ela sofre esse incômodo de chegar cedo demais ao próprio banho, por isso aguarda alguns minutos antes de ligar o chuveiro, apalpando o rosto. Fecha os olhos e se comove novamente com a voz do garotinho, um boneco!, balbuciando do outro lado da linha, talvez reconhecendo-a de outras chamadas, sem dúvida era mais esperto do que a mãe mexeriqueira. A injustiça de sua situação era impenetrável: ela, tão disposta a amar, e logo acima o bebezinho alegre, ainda inconsciente da negligência materna, sedento de atenção. Há um mês, desde que se mudaram para o prédio a biscate e seu filho milagroso, Josi vinha tentando cercar a mulher, garantir-se em suas confidências, colocar-se como uma espécie de avó conveniente, capaz dos maiores favores. Mas não conseguiu avançar um passo sequer, a mulher a evita sem motivo nenhum, privando-a daquela nuca cheirosa, daquelas dobrinhas cheias de talco, apoderando-se de algo que poderia sem prejuízo algum ser compartilhado.
  • Page 80Quando retorna à sala, Josi decide que irá terminar o vestido naquele exato instante. Não se deixará distrair pela noite fresca, não descansará dos afazeres do dia. Ainda assim, ao sentar, passeia os dedos por uma revista quer ter certeza de que acertou a pedraria ao redor do decote. Encontra a inspiração no corpo de uma atriz de novela, o nome desbotado; a cliente tinha pedido algumas alterações, mas não pode evitar que Josi determine o desenho final — ninguém pode restringi-la nesses detalhes. Ela é, afinal, a modista. Tem a seu lado a força da experiência, é seu dever impedir que a cliente se debruce sobre escolhas erradas. E logo à sua frente, em sua glória drapeada, o vestido de festa. Ali suspenso pelo manequim, o vestido ainda lhe pertence, surgiu inteiro de suas mãos; esta qualidade e este caimento, confidenciou à cliente, não se encontram nas galerias. Os pontos firmes e certeiros feitos com auxílio de um dedal, longe da máquina de costura, Josi alternando a tesoura, o vincador e o passador de linhas enquanto o tecido tomava forma, atemporal. Mesmo que em muitos anos tivesse feito apenas consertos, ainda sabe costurar um vestido. De todo modo, para se assegurar, Josi contempla a revista. Parece- lhe agora que houve um pequeno desvio nas linhas da pedraria, que não acompanham o corte das mangas. Josi gosta de se atentar aos pormenores, de vasculhar ociosamente o próprio trabalho, na obrigação de torná-lo irrepreensível mesmo os consertos ela realizava com a máxima diligência para, então, explicar às clientes sobre a competência dos arremates, demonstrando a exatidão de cada acabamento. As clientes se cansavam e não voltavam mais; Josi as irritava, elas respondiam nervosas estou atrasada, tem troco para cinquenta? Algumas voltavam porque não tinham encontrado preço melhor em outra modista, eram clientes que tinham calças em excesso e pouco dinheiro pouquíssimo para reformá-las. Há mais de uma década, os consertos eram seu ganha-pão, mas agora podia dizer: me encomendaram um vestido de festa. Preciso adiar a entrega da sua bainha, estou terminando um vestido de gala, muito elegante, é uma encomenda para sexta-feira. Dentro do prédio pequeno, numa sala pequena, uma senhora pequena curva-se com suas agulhas diante da imensidão de um vestido.
  • Page 81nas linhas erradas, a pretexto de poupá-la do desperdício. Ontem, tudo lhe pareceu bem. Algumas vezes chegou a pendurar o manequim em lugares estranhos de propósito, apenas para vê-lo sob um novo ângulo, e descobrir as falhas que se escondiam do olhar habituado. Mas ontem, colocando-o sobre o solo instável do sofá, o trabalho se apresentou perfeito - poderia ter terminado naquele momento, se não houvesse decidido ser mais prudente aguardar o dia seguinte. Então passou a noite inteira devaneando sobre o instante em que o vestido, no corpo indigno da cliente não poderia ser um pouco mais magra? —, levaria seu nome de volta à boa sociedade: Josimeire Galvão, modista. Precisará avisar à cliente que houve um atraso. Talvez seja melhor marcar outra prova, com a pedraria completa, para ver como se assenta sobre os seios. Ao redor de Josi, amontoam-se cones e cones de linhas coloridas. Tesouras de todos os tamanhos. Suportes algodoados para agulhas rolam sobre o assoalho, a mesa está coberta de furadores de aço, fitas métricas e corta-fios. Ao lado da máquina de costura, tecidos enrodilhados e antigos, com os quais ela busca tentar alguma cliente a confeccionar uma jardineira, uma blusinha. As sacolas dos consertos engordam apoiadas nas paredes, sem identificação ela não tem clientes suficientes para se esquecer de seus nomes. Percebe que, para qualquer daquelas coisas se mover, era preciso que ela colocasse muito esforço. Meus acabamentos são superiores aos de loja, ela lembra em alto e bom som, embora tampouco os colocasse à prova nunca tinha posto os pés na galeria.
  • Page 82passavam as clientes a caminho de coisas maiores. O atraso no decote serviria ao aperfeiçoamento da saia, a cliente deveria ter paciência, era certo que no domingo apareceria deslumbrante diante de todos, já esquecida desses percalços. E quando lhe perguntassem, diria: o vestido é de Josimeire Galvão, modista. É quase madrugada quando ouve o choro da criança. No apartamento de cima, o seu anjinho soluça, depois grita, retoma os soluços, Josi acompanha tudo pelas paredes velhas e finas. Ela levanta, a sala parece mais viva agora que a voz dele a percorre. Josi alonga a coluna e se orgulha de estar acordada e atenta, preparada para assumir as vantagens de sua posição. Não é a primeira vez que o menino chora durante a noite, mas nunca com tamanha força, está excitadíssimo, é certo que alguma coisa aquela biscate lhe fez - Josi estremece ao pensar nos bracinhos beliscados pelas unhas pontiagudas da mãe, nas perninhas estapeadas com violência. Num ímpeto, agarra o telefone. Diz: venham depressa. A sujeita segue acima de sua cabeça numa corrente de palavras e passos abafados pelo concreto, mas Josi não se convence, está furiosa e satisfeita - tão furiosa e tão satisfeita que retira o dedal e espeta o dedo na ponta da agulha, torcendo-a para alargar o corte. Aquela dorzinha tranquila, ela logo devolve a agulha manchada de sangue ao suporte e chupa, gananciosa, o indicador. O garotinho para de chorar, ela continua chupando até escutar as sirenes.
  • Page 83Ao redor, os vizinhos querem apenas ir para a cama. É por isso que Josi os detesta, mesmo assim não consegue deixar de ser arrastada à força para dentro de suas intimidades, não pode se libertar de sua presença, de suas meias-palavras, que proclamam distraidamente: a família é a base de tudo. Mas, às vezes, é a família que abre as portas para a fatalidade. Os vizinhos não sabem o que fazer com a viatura parada bem adiante, hesitam sobre as medidas cabíveis, remexendo-se de um pé para o outro, até que Josi se aproxima do garotinho e o toma nos braços. Oh, o seu bonequinho! Está sonolento, logo deixa cair o pescocinho cheiroso pelo ombro dela, a boquinha rosada entreaberta, ela o aperta somente um pouco para não acordá-lo, espera que não acorde nunca, que permaneçam para sempre assim entrelaçados. Começa a niná-lo suavemente, a mãe insiste é você, você que liga para nós, mas Josi não fala nada, mergulha ainda mais no menino, aspirando a cabecinha mole e suada. Logo alguém se lembra dos adolescentes, os adolescentes sem dúvida são os responsáveis, agora que tudo está resolvido, os vizinhos podem, enfim, descansar. Josi também retorna para casa, carregando no colo um alívio efêmero, apenas naquela noite, enquanto os policiais finalizam a busca; a mãe não tinha ninguém na cidade vazia. O anjinho aninhado de encontro a suas costelas, cálido, ela resolve não o levar à cama, grande demais - espremem-se no sofá de dois lugares, Josi com os joelhos dobrados para fora, o corpinho da criança pressionando o seu na altura da barriga. Descobre que precisa ir ao banheiro, mas não quer se arriscar a desmanchar o casulo, acompanha o coraçãozinho dele batendo, a pele sadia, circunda-o em posição fetal, como os galhos secos que formam o ninho ao redor do ovo: passa a noite inteira de olhos abertos. Por entre o dueto de respirações, ela adivinha nas sombras o manequim coberto de tecidos disformes: o vestido de festa, inteiramente desfeito, que, no dia seguinte, costuraria à perfeição.
  • Page 84CABO DE GUERRA qual é a palavrinha mágica não é pra correr dentro de casa não vá dormir muito tarde chega de videogame por hoje Você está sentado no sofá, o pratinho de plástico se equilibrando sobre os joelhos. Sua mãe encomendou o bolo de sorvete que você pediu, e que agora derrete em poças azuis e verdes que refletem a ponta do seu nariz. Ao seu redor, a festa está em seu melhor momento: as tias deixaram de apertar suas bochechas e se distraem fofocando enquanto os primos correm ao redor, as veias repletas de açúcar. Você pensa se deve se juntar às brincadeiras, mas hesita - a festa ainda não está completa. Apenas quando a campainha toca, você se levanta.
  • Page 85Você busca a mão de seu pai, enorme e cheia de calos como você se lembra, custa prestar atenção no que o menino realmente gosta? Todos os garotos da idade dele querem um desses, Marisa, quando ele jogar é impossível que não goste, venha, filho, vou lhe mostrar. Você acompanha seu pai enquanto ele segue devagar pela sala, como se houvesse esquecido o caminho, cumprimentando os parentes com um aceno distante. Quando um dos tios tenta se aproximar, seu pai se vira para você e pergunta por Leo, o antigo trenzinho com que costumavam brincar, mas você já não curte trens automáticos nem videogames, e tem vontade de chamá-lo até o seu quarto para contar sobre as coisas de que gosta agora, e ele com certeza se lembraria depois. Mas o pai continua até a tevê, falta você depositar quase metade da pensão, você quer falar desse assunto na frente de todo mundo, Marisa? A mãe diz que não se importa, seria bom mesmo que todos soubessem que tipo de pai ele era. Você tenta puxar a barra de seu vestido, mas ela não percebe, o crepe vermelho deslizando silenciosamente pelos seus dedos. Aposto que para aquela vagabunda você não deixa faltar nada, prefere prejudicar o seu filho, o pai larga os cabos ligados pela metade, você acha que não sei o que você faz com a pensão, Marisa, o menino não vê a cor desse dinheiro, espera só até o juiz descobrir, o meu advogado... você aperta os dedos do pai, diz que quer lhe mostrar os últimos desenhos que fez para a escola, mas você está bêbada, Marisa, é impossível conversar com você, até numa festa você insiste em ser desagradável. E se eu estiver bêbada, é da sua conta? Pelo menos eu sei que o meu filho não gosta de jogar videogame, fala pra ele, meu amor, você detesta videogame, não detesta? Todos se viram para você, mesmo as tias ao fundo que fingem não perceber nada, você não quer aprender a jogar, filho? Você disse para a mamãe que odeia videogame, não foi? Você abre a boca, mas não sai uma palavra, olha só, você está confundindo o menino, tudo tem sempre que ser do seu jeito, Marisa?
  • Page 86Roberto, que é pra todo mundo ver que você é um grosso, um ignorante... As tias se afastam e cochicham, você sente uma ardência incômoda detrás dos olhos, o pai está dizendo que vai embora, a mãe abre os braços e fala que tinha certeza de que ele não ficaria mais que dez minutos no aniversário do próprio filho, os cabos jazem abandonados sobre a estante, pendurados como artérias negras cortadas ao meio. O pai sai para o corredor, você ouve as vozes sumindo pelas escadas, os parentes escoando às pressas numa cauda comprida e, naquele dia, ninguém lhe deseja boa noite.
  • Page 87OVELHA NEGRA no meu tempo era diferente enquanto você viver debaixo do meu teto você não sabe o que é cansaço Acho que ela queria que eu dissesse: quando eu tinha quatro anos, a minha mãe se matou. Ela já tinha escutado a história toda um milhão de vezes, da boca da minha tia, da outra terapeuta, mas não de mim. Foda- se o que ela queria, eu só venho aqui para fazer minha tia gastar o dinheiro das consultas, trezentos reais a hora para eu esticar as pernas no sofá de suede e ver os aviões cruzando a janela, sem abrir a boca. O consultório é um caixão de madeira, as estantes cercando as paredes entre narinas de vidro temperado, com película fumê. No meio de tudo, senta Patrícia, e me pergunta um monte de merda. Toda terça chego no horário, sala 502, Patrícia levanta para me receber, eu sigo até o sofá e não me mexo até ela suspirar a derrota e dizer que nosso encontro está terminado.
  • Page 88Ela avisa que nosso horário se encerrou, precisa deixar entrar o próximo paciente. Eu levanto e apanho a mochila, saio sem nem me despedir. Quando eu tinha quatro anos, passei de criança a paciente. Será que a mulher que entra depois de mim é filha de suicida, será que o homem que aguarda na recepção? Penso nas formas pelas quais as mães se matam: enfiando a cara no fogão no meio da noite, cortando os pulsos no chuveiro, tomando remédios, estourando os miolos com uma pistolinha. Ou o método preferido da minha mãe, acelerando o carro por uma ponte, bem no trecho onde a grade de segurança estava em manutenção. As possibilidades são infinitas, mas nem todas mobilizam uma equipe inteira de dragagem para vasculhar o leito do rio, nem todas bloqueiam o trânsito de uma ponte por sete horas, e nem todas chegam aos noticiários locais - algumas mães se matam mais discretamente, não viram conversa senão dos vizinhos de porta. Então, mesmo nessa hierarquia de mulheres desgraçadas, a minha mãe está em algum lugar perto do topo Mãe mais filha da puta deixa órfã... A tarde me cega de carros e comerciantes. De executivos amassados falando no celular. De crianças que brincam no parque logo em frente e de mães que não se mataram, e agora retocam batom e protetor com um espelhinho de bolso. Atravesso a rua sem olhar para os lados porque não tenho medo do tamanho da vida. O ponto de ônibus fede a sovacos, o meu também, o ar queima a trinta e cinco graus e me estufa de asfalto; preciso pressionar minha tia a agilizar o Celta azul-escuro do vizinho, somente vinte mil quilômetros rodados, pneus um pouco gastos, uma ninharia. Ela só hesita porque acha que eu poderia muito bem atravessar um muro, para ser empalada de concreto, costurando a pele nas ferragens; um muro que ela nunca teria visto, para o qual não teria se preparado. Olhar um muro e decidir se é sólido o suficiente para matar alguém.
  • Page 89calcei os sapatos, peguei a bolsinha, a coisa vagabunda de plástico em que enfiava as moedas que esmolava da família. O garoto erra uma lambida, uma gota cremosa escorre por seu queixo e se pendura ali como um morcego. Eu torço as mãos como se ainda esganasse galinhas no pátio da casa do interior de minha tia, antes que viéssemos para a cidade; o sangue coagulado precisava ser mexido, então ia para o molho. Estalo os dedos, os fantasmas dos pescoços. Crec. O garoto olha incomodado, a gota enfim quebra a tensão superficial e se esvazia sobre seu colo, crec. Estamos inundados de baunilha, segui a minha mãe naquela tarde até o Chevrolet estacionado na rua, a casa não tinha garagem. Quase dois meses trancafiada, a redenção do sorvete para a filha que logo deixaria de ser. Crec. Desço na décima sexta parada, enjoada. O subúrbio morde a garganta, o conjunto deprimente de prédios com varandinhas burguesas. Com garagens, bem fundo na boca do subterrâneo. Naquela outra tarde, fui ao Chevrolet e esperamos dez minutos até a ignição pegar, mas o Celta do vizinho roda bem, eu testei um desses dias quando deixei que o sacana pusesse as mãos nos meus peitos. Dirigi quase uma hora com ele do lado, atrás de uma ponte; só fomos encontrar uma depois do limite do município, na estrada para Tupinambás. Eu, o vizinho, o Chevrolet de anos atrás. Na entrada da ponte, acelerei ao máximo, invadi o acostamento, bem rente à queda, ferro nenhum mediria forças com uma tonelada a cento e cinquenta quilômetros por hora. O vizinho gritou, meus peitos não valiam uma morte daquelas, mal enchiam um sutiã tamanho médio, com aro por baixo. Pisei no freio e derrapamos, comi uns bons anos daqueles pneus, foi quando virei para ele e disse que poupasse o escarcéu, não me faltava criatividade melhor seria trombar com um muro. Ele deve ter contado para a minha tia, descobriu que quando eu tinha quatro anos. Agora já não nos falamos, ele abaixa a vista ao cruzar comigo no elevador.
  • Page 90vida-toda. Tomo posse desta condição enquanto busco as chaves e abro a porta. Sou recebida pelos tapetes gastos, um território de contrastes: a mobília, metade da minha mãe, metade da minha tia, metade de seu marido. A metade de meu pai nem eu carregava, deixei passar por mim aqueles genes como quem foge de si, como quem se purifica; dele ao menos sabia o nome, enquanto o de minha mãe só fui aprender com quase treze anos de idade ele sempre Valter, ela era Nhazinha nos beliscos das minhas lembranças. Eu escrevia Nhazinha nas cartas que a psicóloga mandava escrever, cercada de cubos coloridos e desenhos de girafas. Minha tia sempre Nhazinha isso, Nhazinha aquilo, mesmo depois de morta, afogada, destroçada, comida de peixes. Na hora da carteira de identidade foi que vi o nome dela amaldiçoado a pessoa errada todos aqueles anos. Helena. Eu tinha
  • Page 91nela e na vida de casado, eu lhe disse que não éramos parentes, que não havia nada proibido numa união escandalosa, era mesmo o tempero do ato espero que ele não ache que me atraem suas bochechas flácidas, a barriga cheia de pintas. Pensei que ele pularia sobre a oportunidade, mas me degradei em vão, ali está o grandessíssimo filho da puta socando numa sexagenária, deitada em meu lugar em cima da cama, numa posição que não comprometa a lombar. Meu quarto gravita em torno da xícara de café que eu nunca bebo e que sempre me espera quando saio do banho. Meu quarto, um retalho de minhas versões aos treze anos, aos quinze, aos vinte e dois o armário cheio de roupas, sapatos, o computador de mesa, os livros espalhados no chão, nestas horas me sinto grata à minha mãe, se ela não tivesse se suicidado, não me permitiriam esta vida indolente, este vazio de planos, ninguém espera nada de mim além da sobrevivência diária. Eu sobrevivendo a mim mesma, rodeando o café sem tomar. Um dia, irei derramar a xícara em cima da colcha; um dia, um sorvete. Eu com a bolsinha de plástico no colo, engolindo cerejas às colheradas, não consigo lembrar o que conversamos, o que diz alguém que decidiu morrer? Minha mãe pediu para mim o sorvete grande de baunilha, estava atrasada nos traquejos da maternidade, sequer sabia que eu não gostava do sabor. Mas fazia dois meses, eu, a filha anônima que ela não colocava para dormir, dentro dos sapatos velhos eu comeria qualquer coisa que ela pedisse, até hoje não consigo pedir outro sabor.
  • Page 92Se a assistente social, certamente a assistente social. Sabia e me deixou ali, para ser levada ao último sorvete, para ouvir as palavras banais da minha mãe naquela tarde, não disse nem que me amava, eu tinha quase certeza. Eu devia começar a distribuir currículo, mas foda-se. Este labirinto é um dos efeitos colaterais do consultório de Patrícia, toda vez que vou ali o silêncio amuralha o passado, os restos sedimentam nas paredes do meu crânio, saio muito pior do que entrei da sala 502 direto para a sorveteria. Do fundo do armário, saco uma garrafa de uísque que roubei da despensa enquanto minha tia fingia se distrair; bebo pelo gargalo, um gole que eu sempre visto de libertação, um afago que ao menos mente com sinceridade. Quando eu tinha quatro anos, o suicídio e suas circunstâncias monopolizavam os fiapos de devotamento, melhor teria sido se lhe dessem uma pistola em vez dos comprimidos que ela despejava sem cerimônias no vaso sanitário. Minha tia fingia não ver, enterrava avisos na piedade dos olhos, coitada da Nhazinha. Coitada.
  • Page 93momentum que vem no vigésimo gole, ou trigésimo aquele ponto em que a realidade se borra deliciosamente nas margens. A verdade é mais intensa, cheia de lapsos em que tropeço, entro novamente no corredor e bato à porta deles com a violência dos anos, que agora eclode e germina seu gosto azedo na minha língua. ― Dá-lhe, tia, isso mesmo, que falta faz uma boa trepada, mostra pra ele, tia!
  • Page 94sei digerir. Vamos conversar, querida, mas não quero sentir o cheiro do sexo deles, nem lembrar que não tenho desejo nenhum, nem vontade de nada fora daquele quarto. Minha tia diz que fará meu bolo favorito, na verdade o único que eu como, as maçãs carameladas no topo pintadas de canela, se afasta e o marido liga a televisão, estão acostumados com as tardes de terça-feira. O uísque já está no final, me arrasto para o banheiro conjugado, a lâmina aguarda debaixo dos chumaços cor-de- rosa de algodão. Ergo a manga da blusa, no antebraço direito, a rede escarlate dos pequenos cortes pelos quais eu respiro. Tendo falhado em ser sua filha, tomei o sorvete. Mastiguei as cerejas. Eram cerejas falsas, sem talo, basicamente bolas de açúcar em cima de um sabor insípido. Ela me perguntou está bom, eu disse que sim, mas ela nem prestou atenção. Pagou distraída, ninguém a impediu de sair e me levar até o Chevrolet onde se repetiam os Paralamas, eu, sonolenta, adormeci no banco da frente, sonhando com a cabeça apoiada no vidro enquanto ela cruzava o sinal vermelho e acelerava sem reservas até a ponte pego a lâmina e corto exatamente sobre os rasgos de ontem, a minha mãe afunilou o carro exatamente pela fresta na grade de segurança, era uma terça-feira salgada quando dormi criança e acordei paciente.
  • Page 95A CAUSA não me faça parar o carro de castigo agora mesmo pois saiba que dinheiro não dá em árvore Eu leio para papai toda manhã. Gosto de começar o dia assim, com Robert Frost ou Adélia Prado, e papai finge olhar pela janela, mas tenho certeza de que ele está escutando e que as palavras se misturam à visão do jardim. É um homem quieto, ainda mais agora; acho que é isso que acontece com as pessoas que vivem demais: perdem a vontade de conversar, ficam muito cansadas e preferem olhar coisas insignificantes, as próprias unhas ou os insetos que passeiam pelo piso, como se registrassem lembranças de última hora. Não tenho certeza sobre o que nos espera depois da morte, mas posso dizer com segurança que deste lado da vida a poesia é de grande ajuda. Às vezes, eu mesma adapto algumas traduções, para simplificar para papai. Por exemplo, no livro está escrito duas estradas divergiam num bosque, e eu eu tomei a menos trilhada, mas trilhar não me parece o verbo mais adequado, nem de longe. Atrasa na língua, então por que não viajada, a estrada menos viajada soa melhor e ainda por cima é uma tradução exata. A precisão é algo que valorizo muito, revela uma mente disciplinada, capaz de longos planejamentos. Por isso, um dia li assim e sorri satisfeita para papai, para ver se ele tinha notado aquele truque, mas ele não disse nada. Às vezes, desconfio que a poesia o abala ainda mais do que eu imagino.
  • Page 96antes de puxá-lo pelas axilas enquanto ele se debatia; ou a vez em que ficamos no sol tempo demais e papai teve febre por uma semana. Margot me lembrava de que não havia chegado a hora de papai, que não podíamos brincar de Deus com a vida de alguém. Depois, me tranquilizava dizendo que era normal que eu me sentisse daquela maneira, e a culpa a fazia deixar um cheque gordo em cima da estante. Durante os cochilos medicamentosos de papai, eu aproveito para fazer a patrulha. De início, eu não tinha gostado daquele termo porque primeiro o ouvi dos vagabundos que se amontoavam nas mesinhas de plástico do bar da frente. Devia fazer uns três ou quatro meses desde que passei por ali e um deles gritou:
  • Page 97servem os donativos. A aposentadoria de papai vai para a casa e para os remédios, o que sem dúvida deve agradar-lhe é um homem que nunca aprovou despesas desnecessárias. Quando éramos crianças, eu e Margot pedíamos bonecas ou vestidos de aniversário, mas nunca ganhamos mais do que um bolo de chocolate e um pacotinho de doces. Lembro de perguntar a mamãe se éramos pobres e ela me respondeu com a voz de papai, enquanto dobrava a roupa: quem guarda, tem. Mas isso não impedia papai de passar o domingo todo na garagem, trocando peças do Impala Sport verde-musgo herdado do meu avô. Aquela lata velha custou uma nota em restaurações e, mesmo assim, papai a tratava melhor do que jamais fez com qualquer pessoa. Depois de ele ficar doente, Margot disse que o carro valia uma grana, muito mais do que havíamos pensado todos aqueles anos estivemos sentadas numa verdadeira fortuna. Margot queria vender o Impala para colecionadores e investir o dinheiro, mas eu disse que não seria certo fazer aquilo com papai. O amor dele por aquele carro era tamanho que, se ele pudesse ter trocado nós duas por um carburador Eldelbrock original, teria feito isso sem nem pensar duas vezes. A patrulha funciona assim: primeiro, eu desço a rua virando à esquerda, passando pelo bar e por uma praça suja com uma fonte desligada servindo de depósito para latinhas vazias e bitucas de cigarro. Nesse trecho, há três casas que sempre gosto de observar na verdade, gosto que os donos saibam que estou de olho neles. Aquelas são casas quase sem quintal, mas, mesmo assim, todas têm um canil acoplado nos fundos: uma casinha de concreto espremida no muro, onde dormem um ou dois cães acorrentados. Eu acho uma barbaridade acorrentar um cão, ainda mais quando já quase não tem espaço para esticar as pernas; só que, das vezes que eu chamei a polícia, demoraram tanto que os moradores tiveram tempo de soltar os cachorros e fingir que tinham prendido somente por alguns instantes, enquanto terminavam de faxinar a casa. Esse é o tipo de história que os policiais ficam felizes em acreditar, então não é necessário muito esforço para convencê-los. Pelo menos agora, quando me veem, os donos correm para soltar os cachorros, e talvez seja a única hora do dia em que os coitadinhos podem andar livremente e respirar sem um ferro apertando a garganta;
  • Page 98isso é suficiente para me dar ânimo de encarar os rostos hostis, ou o que quer que apareça. Nesse tipo de trabalho, precisamos aceitar que sempre deixaremos alguém enfurecido: a polícia, para quem eu ligo toda semana, os bombeiros, os proprietários do animal. No início, disfarçam, tentam se mostrar cooperativos, embora mal consigam esconder que não dão a mínima para o que eu estou falando. Quando os policiais percebem que não vou desistir, começam as enrolações: querem saber se eu contatei a associação protetora, ou checam o nome da rua para ter certeza de que não faz parte de outro distrito, para onde possam me despachar. Dizem que o sistema está fora do ar, que eu teria que voltar depois; eu sempre respondo que prefiro esperar ali mesmo e, no final, peço uma via assinada da denúncia para ter certeza de que encaminharão o processo. Os donos dos cachorros gritam comigo e me ameaçam, batem o portão na minha cara, jogam frutas podres na minha roupa. Resumindo, trata-se de um trabalho de formiga e, na maior parte do tempo, parece que eu não estou avançando um passo sequer. Mas esse tipo de coisa não me desestimula, ao contrário faz alguns anos que nada me dá tanto prazer como uma boa briga.
  • Page 99considerou uma despesa impensável. Mamãe, por sua vez, aprovou que ficássemos por perto, para ajudar nas tarefas domésticas. Eu termino a patrulha pelo lado direito da rua em que moramos. A parte final é a mais complicada, e é nela que fica o meu caso mais sensível: a casa 402. Não há nenhum problema com a casa em si — tem um pátio espaçoso, sombreado. A cadela, Alasca, é uma vira-lata de médio porte, branca com uma rajada marrom na barriga, e olhos de cores diferentes, um azul e outro castanho. Apenas esse fato já mostra que é uma cadela extraordinária, porque a heterocromia é muito incomum fora de algumas raças. Os donos, um casal de comerciantes, à primeira vista não chamam muita atenção; sempre me cumprimentam, se não com simpatia, ao menos com respeito. Não se importam se chamo a cadela e coço o espaço entre suas orelhas, nem se lhe dou um petisco por entre as grades do muro, aproveitando para confirmar que está bem alimentada, sem marcas ou feridas. Mas já faz algum tempo que observei uma mudança no comportamento de Alasca: quando eu a chamo, ela não vem, mesmo que eu ofereça pedaços de carne; e passou a assumir uma postura encolhida, tímida, mirando-me de longe com uns olhos apáticos. Aquilo tudo me acendeu um alerta.
  • Page 100aguarda com a vista fixada no teto. Coitado de papai. Às vezes penso que ele já aguentou o suficiente, mas Margot insiste que não há nada que possamos fazer. Eu acho prudente ouvir Margot sobre qualquer assunto, porque ela é uma pessoa muito prática e desprovida do mínimo de imaginação. Digo isso sem maldade nenhuma, vivemos num mundo com pouco espaço para a criatividade, em que a característica mais valiosa de alguém é ser capaz de demostrar juízo, o que Margot sempre teve de sobra. Assim que descobriu que não poderia cursar a faculdade, Margot resolveu vender bolos para fora, o que com o tempo se converteu num negócio muito lucrativo. O mais impressionante é que ela nem gosta de bolos, mas talvez por isso mesmo tenha o distanciamento necessário para jamais errar uma receita. Ela me disse mais de uma vez que a confeitaria era uma mistura de números, mililitros e gramas, e que até uma criança poderia se sair bem numa coisa assim. Eu achei aquilo um pouco triste, mas também sei que eu me entristeço com a maior facilidade do mundo. Enquanto preparo o almoço, papai vê televisão. Não sei se ele ainda consegue acompanhar os programas, mas o ruído me distrai; coloco sempre na TV Cultura porque gosto dos desenhos educativos. Se papai estivesse prestando atenção, com certeza também aprenderia uma coisa ou outra, mas ele tem dificuldade em erguer o pescoço para ver as imagens. Mesmo se eu apoiasse a cabeça dele com almofadas, quando eu chegava com a comida ele já tinha voltado a encarar os tapetes. Talvez seja apenas a memória muscular, porque papai passava muito tempo com a cabeça baixa diante das entranhas do Impala Sport, arrancando e repondo peças complicadas, ou polindo as laterais - uma vez o surpreendi sussurrando para a lataria enquanto a alisava; chegou a cheirar os bancos de couro antes de guardar as ferramentas. Se alguma de nós o interrompesse, o castigo era certo. Papai foi um homem vigoroso, de veias inchadas; eu costumava ter medo dele mesmo depois que cresci. Mas hoje em dia ele não consegue sequer espantar as moscas que pousam sobre seus ombros, atraídas pelo cheiro da carne. Eu espero que ele ainda tenha o senso de humor necessário para perceber a ironia daquilo.
  • Page 101pouco que me pagam é minha única fonte de renda, mas nunca precisei de muita coisa, e a verdade é que jamais me recuperei de não ter sido mandada à universidade. Me parecia que, se não pude estudar literatura, não havia muito sentido em fazer qualquer outra coisa; isso até me envolver com o resgate dos cães. Posso afirmar com toda a honestidade que os cães salvaram a minha vida: eu estava afundando quando Laica cruzou o meu caminho, a primeira cachorra que resgatei de um homem que só a alimentava com restos, três vezes por semana. Margot me dava um monte de conselhos bem-intencionados, perguntando por que eu não tentava isso ou aquilo, oferecendo inclusive pagar as mensalidades do curso de Letras na capital, mas aos quarenta e cinco anos eu achava que a minha hora tinha passado, que já não teria forças para encarar uma mudança daquelas. Os cães foram a única coisa capaz de me dar um propósito. Resgatar animais vítimas de maus-tratos, na realidade, é menos um trabalho do que uma obsessão. Mesmo depois daquela explicação chinfrim, não consegui tirar Alasca da cabeça; acelerava os trechos iniciais da patrulha apenas para ter tempo de analisá-la com calma, buscando desvendar os sinais que ela estaria me dando. Como seria bom se os cachorros pudessem falar! Então eu poderia simplesmente perguntar a eles como estavam se sentindo, e se alguém os tinha machucado, com a mesma gentileza que se usa com as crianças pequenas. Mas do jeito que as coisas são, é preciso intuição e paciência. Um mês depois da suposta morte da amiga, Alasca continuou amuada, distante. É uma cadela belíssima, me partia o coração vê-la tão abatida; quando a observava, ela me avaliava brevemente e então desviava os olhos, desinteressada. Seria impressão minha ou buscava proteger o pescoço com as patas ao se deitar? Não podia estar com fome, pois os petiscos que eu levava não ganharam sua atenção nem por um segundo mas também não a via comendo. Decidi mudar o horário da patrulha e aparecer quando menos me esperavam, arriscando deixar papai por conta própria, mas sempre a encontrava da mesma maneira: retraída junto ao muro de trás, parecendo indisposta.
  • Page 102comentado que eu vivia rondando a casa, porque a expressão dele se fechou assim que me viu. O que a senhora quer a uma hora dessas?
  • Page 103pela forma que me cumprimenta, percebo que é competente eu consigo dizer muita coisa de alguém logo de primeira. Dessa vez, ao abrir a porta e dar de cara com o fiscal, o seu Tonho é só amabilidades: que surpresa, que surpresa, entrem, entrem. Percebo que, quando está nervoso, ele repete as mesmas palavras duas vezes, o que me tranquiliza; é um pouco melhor do que aqueles tipos que não recuam e decidem comprar a briga, sem se importar se iriam presos ou não. Um homem que não tem medo da cadeia é capaz de qualquer coisa, como já comprovei inúmeras vezes. Encontramos Alasca prostrada ao lado do tanque; mesmo enquanto mãos estranhas a examinam, ela não reage. Dona Marieta vai explicando que a cadela está de luto, mas é muito bem tratada, mostra a caminha e os potes de água e ração, depois pega Alasca no colo o que nunca a vi fazer e alisa o pelo branquinho, saudável. Tenho que reconhecer que não há nenhum ferimento aparente, e Alasca não parece temer a dona, ainda que o tempo todo não olhe para nós, distraída e resignada com as atenções. O seu Tonho, mais confiante, puxa o fiscal um pouco de lado e sussurra que o bairro inteiro já me conhece, que todos sabem o quanto eu sou histérica, desequilibrada. Alasca não era assim insisto, mas sei que estou perdendo terreno. — Está apática, não brinca mais, é claro que tem alguma coisa de errado.
  • Page 104Deu tudo certo? Margot pergunta, apanhando o celular. Ela tenta esconder, mas não suporta fazer companhia a papai; os dois são como substâncias que, uma vez combinadas, formam algum tipo de gás silencioso e tóxico. - Ainda não, mas vai dar. Você fica para jantar com a gente?
  • Page 105decentes no mundo, para quem o sofrimento de um animal é intolerável. Claro que eu também recebo reações negativas querem saber se eu não me preocupo com as crianças abandonadas, ou distribuo sopa aos moradores de rua. Essa gente nunca deu uma esmola na vida, mas é só uma pessoa tentar fazer alguma coisa por um animal que logo tiram do bolso a carta dos moradores de rua. Mal entramos no outono e o inevitável acontece: com as chuvas de maio, papai sempre piora da tosse. Seu corpo-graveto se dobra ao meio enquanto escarra sobre tigelas e pratos de cerâmica pintados por mamãe quando eu e Margot éramos pequenas. Sentávamos as três na varanda, com bolas de argila e uma jarra de água, além de tintas de todas as cores espalhadas sobre os jornais. Às vezes, ao recolher os pratos, vejo, debaixo das secreções, o brilho vermelho de pétalas finíssimas, cercadas de folhas e ramos entrecruzados. Já não sei se tinham sido obra minha ou de mamãe, e procuro não pensar muito no assunto depois de certa idade, todas as nossas lembranças, não importa o quão boas sejam, viram lembranças tristes. Eu noto o efeito disso o tempo todo na minha própria vida: os cômodos da casa transformados em palcos fantasmagóricos, em que os atores repetem os mesmos diálogos falsificados, preservados no âmbar da minha memória. Não é incomum que eu me veja buscando objetos onde eles estiveram vinte, trinta anos atrás, ou abra distraidamente a porta do quarto que dividia com Margot, esperando descobri-la sentada na cama. É ao mesmo tempo assustador e doloroso voltar à realidade.
  • Page 106quando estão trabalhando, dona Marieta sempre deixa alguém tomando conta da casa, então imagino na mesma hora que estão viajando, e aí noto a silhueta de Alasca, circulando vagarosa no pátio deserto. Na minha cabeça se inicia um monólogo: não é possível que tenham deixado a cadela sozinha. Uma cadela deprimida e possivelmente doente, não é possível, e me sinto invadida por uma raiva esplêndida, grandiosa, capaz de calar qualquer outro pensamento. Nesse instante, tenho a absoluta convicção de que a maioria das pessoas deste planeta não possui a mínima capacidade para cuidar de um cachorro, que lhes falta algo de essencial, algo que os impede de se conectar com outro ser vivo como mandam as leis da natureza. Largo papai e me aproximo da casa; o muro é baixo, não tenho dificuldade nenhuma em trepar pelas grades. Alasca está tremendo e não resiste quando a apanho, puxando-a contra o meu corpo; permanece tão mansa quanto eu me lembro. Noto que a porta para a sala está aberta, então chamo por Tonho, Marieta, quem quer que seja, mas ninguém responde; depois de hesitar um momento, resolvo entrar. O lado de dentro está aquecido e seco, o comedouro tem ração até a boca e água de sobra do lado. Por que diabos Alasca estaria vagando do lado de fora, na friagem? Me asseguro que a casa está realmente vazia e faço aquilo que qualquer um teria feito no meu lugar: pulo o muro de volta e levo a cachorra comigo.
  • Page 107manchado e repleto de pelos - seria caro demais mandar lavá-lo o tempo todo, então só faço isso de vez em quando. Os tapetes ainda cheiram a mijo, por mais que eu deixe os vidros abertos. É evidente que o Impala Sport não envelheceu muito bem, exatamente como papai. Entramos em casa, eu disponho a cama de Alasca ao lado da minha e preparo para ela tiras de carne, uma iguaria para qualquer cachorro; quando ela não come, me resigno a lhe dar a ração premium que mantenho no armário. Ela também não se agrada, não se aproxima nem para cheirar. Talvez esteja cansada, mas ao menos para de tremer, enroscando-se nas cortinas; para ter preferido o pátio molhado de Tonho e Marieta, deve sentir completa aversão a ficar dentro de casa. Sabe-se lá o que aqueles dois tinham feito com ela, traumatizando-a desta maneira.
  • Page 108me para saber se eu as merecia. Voltamos para casa, e sei que falhei quando Alasca passa direto pelos potes e volta a se esconder atrás da cortina, onde eu mesma costumava me enfiar para que mamãe e Margot me procurassem, desesperadas com aquela ausência repentina o que Alasca quer é ser encontrada e por um momento esquecer, na euforia da descoberta, aquilo mesmo que a tinha feito procurar um esconderijo. Quando nos aproximamos dos muros da casa 402, dona Marieta vem até o portão com um sorriso zombeteiro. Está contente, não parece nem um pouco surpresa, e aquela segurança me irrita a ponto de quase levar a cadela de volta; mas antes que eu possa fazer qualquer coisa, Alasca pula dos meus braços e corre pelo quintal, até parar próxima ao tanque de roupas. Marieta me dá as costas e arranca uma banana da fruteira, partindo-a em pedaços pequenos, então estende as mãos num segundo, Alasca avança sobre os dedos dela, lambendo as unhas, os punhos, engolindo pedaços da casca misturados com os nacos amarelados da fruta.
  • Page 109EM NOME DO PAI como foi na escola estudou para a prova senta direito na volta a gente compra o que você quer ser quando você crescer Enquanto Cora dirigia, eu olhava o barro vermelho da estrada. Evitava assim ter que ver os dedos dela, curvados ao redor do volante as unhas bordô por dentro da pele ressequida, os cantos manchados de esmalte e os anéis. Tantos anéis e, logo abaixo, encalhadas nos cotovelos, fileiras de braceletes dourados, com pingentes minúsculos. Não eram somente dourados, eu imaginava, mas folheados a ouro: Cora sempre caprichava nesses detalhes. Todos os meses fazíamos esta mesma viagem pelo sertão barrento, repleto de abutres eu com o vestido florido e gasto, ela de unhas feitas, perfumada. Insisti em olhar a paisagem, era uma paisagem belíssima, com os contornos distantes das chapadas e os veios quase secos dos rios, ainda que fosse difícil respirar com o pó entupindo as narinas; tive vontade de fechar o vidro, mas não quis ser mal-educada. Era suficiente que Cora me oferecesse carona, não queria passar a impressão de ser exigente.
  • Page 110emprego e, durante o trajeto, ele abria um volume enorme, de páginas fininhas, que tínhamos comprado num sebo: coleções de mapas incompreensíveis e letras miúdas, captadas pelas vistas dele sem dificuldades, enquanto eu enxergava apenas um emaranhado de linhas, um labirinto que percorríamos de cima a baixo sem encontrar a saída. Cora, é claro, usava um aplicativo GPS, embora nem olhasse na direção do aparelho. Aquela estrada já se impregnara em nós duas, ainda que lidássemos com ela à nossa própria maneira: eu esmagada pela voz doce de Edgar, que nunca acertava a pronúncia de longitudinal, enquanto Cora tagarelava sobre os planos para o futuro, quando aquela viagem não fosse mais necessária. Ela marcava o tempo no calendário; na vida dela, os anos se identificavam por uma série de eventos, como aquele em que ela fez uma festa de cinquenta anos, ou aquele das férias em Porto Seguro. Para mim, os anos corriam todos iguais, a verdadeira diferença era apenas uma: havia o tempo de antes, em que Edgar era um garoto, concentrado e gentil, e o depois, no qual ele, da noite para o dia, tinha crescido. Cora não gostava de me ouvir falar assim, comentava o quanto eu precisava acreditar, ter fé que tudo acabaria bem, então eu costumava ficar calada ao ouvi-la dizer que dali a x anos iríamos todos à praia, que alugaríamos um chalé bem na frente do mar. Seria bom para os meninos, todo aquele ar fresco, sorvetes e tudo o mais. Essa parte, devo admitir, eu gostava de escutar. Era bom imaginar que alguma infância havia sobrevivido em Edgar e em Tiago, o filho de Cora, mesmo depois de meia década na prisão.
  • Page 111eu também tinha inveja de seu filho, por ser apenas um arrombador de carros, um crime que as pessoas costumavam reprovar balançando a cabeça e logo voltando a falar do clima, porque não ficavam realmente decepcionadas. Era quase esperado que um garoto de Vila Redonda fosse roubar as famílias do Trabuco ou de Penedeira, então havia algum conforto no fato de Tiago ter feito exatamente aquilo, provando que todos estavam certos, no fim das contas. Por isso, quando presumiam que Edgar fora preso pelo mesmo motivo, eu nunca corrigia, mesmo passando a vergonha de me transformar numa mentirosa. Cora e eu tínhamos nos conhecido na igreja. Eu havia me inscrito numa lista de trabalho voluntário, e não notei que tinha marcado a opção errada até me ver numa sala repleta de máquinas de costura. Fiquei constrangida em dizer que não sabia costurar, não queria passar por grā- fina, como aquelas mulheres que nunca pegaram numa agulha na vida mesmo se tudo que eu tivesse costurado até então fossem velhos sacos de arroz, para estocar mantimentos. Tinha o maior cuidado para não deixar as minhas camisas e as de Edgar rasgarem antes da hora, e as patroas sempre doavam muitas roupas que iriam para o lixo, mas estavam em ótimo estado e elas ficavam satisfeitas quando eu dizia que aproveitaria quase tudo. Sentei na frente da máquina e passei por todo tipo de indignidades ao tentar colocá-la para funcionar; Cora, ao meu lado, teve pena e se levantou para me mostrar como encaixar a agulha e passar a linha, depois endireitar o tecido. Devíamos remendar cobertores para doar aos abrigos e, por meses, não consegui deixar de me torturar com a imagem de meus pontos malfeitos, rudes, arranhando a pele de papel dos velhinhos. Tive certeza de que Cora, assim como o resto da congregação, me julgava uma idiota, mas alguns dias depois ela me chamou para tomar café na casa dela e contou que havia escutado sobre Edgar. Repetiu que eu precisava ter fé e fiquei parada com a xícara na mão, tentando com todas as forças acreditar mesmo naquilo.
  • Page 112produtos finos, bijuterias de luxo e perfumes com nomes exóticos, e sempre conversava com segurança tinha um jeito firme de colocar a mão no seu ombro e proclamar alguma coisa inteligente, para a qual eu nunca tinha resposta. A verdade é que Cora poderia ter saído há muito tempo de Vila Redonda, não fossem os vícios de Tiago, na época em que estava solto, e, agora, os gastos com advogado. Para mim, os advogados eram irrelevantes, jamais me interessei em conhecer o defensor que recebeu o caso de Edgar - sentia a humilhação queimando o estômago só de imaginar o que o doutor pensaria se eu fosse ao fórum perguntar qualquer coisa, sabendo o que Edgar tinha feito. Em minhas fantasias, o doutor, alto, num terno cinza, me encarava e dizia, rispidamente: o que há para perguntar, minha senhora? Por isso, sempre que Cora matraqueava sobre essa ou aquela petição, eu mantinha a expressão neutra, e assentia nos momentos esperados, evitando revelar minhas opiniões. Na metade do caminho, Cora declarou que precisava fazer xixi, pedindo para eu ficar atenta a algum posto de gasolina. O sol queimava nossos braços através das janelas e, ao redor, se estendiam montes infinitos de terra e árvores de troncos chupados, enegrecidos; algum incêndio, intencional ou não, fizera recuar a linha distante dos pastos. Eu havia crescido num lugar não muito diferente daquele, uma vila insignificante com uma única escola primária, da qual me tornei professora assim que terminei os estudos, assumindo a turma das crianças vizinhas quando a antiga professora decidiu se aposentar. Não havia um currículo predeterminado, e eu ensinava principalmente Português e Geografia, matérias em que me saía bem, e tropeçava nos módulos de Matemática e História, com os quais sempre tive dificuldades. Após alguns anos, o estado mandou uma professora de verdade, com formação e tudo, e acabei indo trabalhar na casa de uma família conhecida de meus pais, na cidade grande. Quando cansava de morar num lugar, procurava emprego em outra cidade. Desse modo, conheci o estado todo, as rodovias transversais e longitudinais que formavam um xadrez na superfície dos mapas, e podia jurar que já deveríamos ter cruzado ao menos um posto, mas quase uma hora depois ainda estávamos cercadas apenas da aridez silenciosa do sertão.
  • Page 113Sugeri pararmos num ponto qualquer, a estrada estava completamente deserta; Cora resistiu, mas enfim atravessou 0 acostamento e invadiu o chão empoeirado, coberto de grama cinzenta. Olhou para mim como se esperasse orientações, o que era uma novidade; eu lhe disse que abríssemos as portas do carro, de forma a nos proteger da visão de quem passasse, então agachamos, arriamos as calcinhas e urinamos sobre as plantinhas mortas, as pernas bem abertas para evitar que molhássemos os pés. Cora riu, o chiado das bexigas se esvaziando e aplacando a sede da grama e, quando ela se levantou, pude ver sua bunda mole, com buracos fundos de celulite, logo abaixo da saia plissada, embolada na cintura. Não tínhamos papel higiênico, pulamos um pouco e sacudimos os joelhos; enquanto erguíamos o corpo, ajeitando a roupa, pudemos ouvir as buzinas distantes dos carros, a toda velocidade na pista oposta, sentido cidade. Voltamos para dentro e Cora alongou as costas antes de ligar o motor. Depois de algumas tentativas, o Uno retomou a estrada. sacolejando um pouco, algumas luzes acesas no painel. Eu tinha andado de carro poucas vezes na vida, as coisas materiais nunca me pareceram muito importantes até que comecei a perder pessoas, inclusive Edgar, de certa maneira; naquele momento, o conforto do Uno, com seus bancos macios, e o calor que entrava com o vento me relaxaram tanto que quase dormi ali mesmo, com a cabeça apoiada no encosto. Pensei: Cora é quem sabe viver. Ela agora cantava, acompanhando a rádio, e ninguém que a visse poderia imaginar que estava a caminho da penitenciária, onde seu único filho cumpria uma sentença de nove anos, agravada por Tiago fazer parte de uma quadrilha, e ele nem reclamou porque tinha tantas dívidas de jogo que provavelmente se sentia mais seguro na cadeia do que em Vila Redonda. Só que se eu aprendi alguma coisa nos filmes é que dentro de uma prisão a jogatina continua rolando, talvez até mais do que do lado de fora. Cora nunca confessou, mas tenho certeza de que ela dava um jeito de passar a Tiago dinheiro, cigarros, o que conseguisse. Eu não queria dizer alguma coisa errada, então ficava em silêncio, mesmo ao surpreendê-la enxugando as lágrimas do canto dos olhos.
  • Page 114assunto. Quando muito, as pessoas querem saber o que você fez de errado, se foi ausente, ou permissiva demais, se o garoto já manifestava essas tendências desde criança, ou se o pai dele também estava na cadeia. Na igreja, eu era incentivada a levar comigo a palavra de Cristo, e todos pareciam muito dispostos a perdoar o meu filho se ele se arrependesse, mais talvez do que a mim. Era comum me darem uma série de sugestões, ou recordarem a última vez em que tinham visto Edgar, e o que ele disse naqueles encontros, descrevendo com detalhes como parecia alheio, nervoso, suspeito, tudo para, em suma, demonstrar o quão perturbador era ter convivido de perto com um criminoso. Assim, toda vez que eu conhecia uma mãe como eu, sabia que o melhor a fazer era ficar de boca fechada. Eu queria dizer a todas essas pessoas que me abordavam que eu me sentia tão perdida quanto elas. Não tinha a mínima ideia de como Edgar poderia ter feito o que fez; eu evitava, na máxima medida possível, nomear aquilo, dar voz à palavra: estupro. Ele e Mônica namoravam há muito tempo, anos, tinham se conhecido no carnaval, bem o tipo de festa que eu pedia a Edgar para não frequentar. Às vezes, um grupo da igreja ia até o circuito para promover orações e eu morria de medo que dessem de cara com ele, a regata suada, o nariz dentro de uma cerveja. Quando Edgar era criança, o pai dele costumava enfiar o bico da mamadeira no copo de cerveja e colocá-la de volta na boca do menino aquele era um vício cuja origem, ao menos, eu podia traçar. Mônica também bebia demais, e da vez em que a arrastei para o culto, ela roeu as unhas o tempo inteiro e nunca mais apareceu. Para falar a verdade, eu não gostava muito dela, me parecia uma má influência. Em Edgar, eu notava alguns indícios de que já não era aquele garoto com mapas abertos sobre os joelhos, tentando aprender os segredos das rotas: tinha gosto pelos prazeres mundanos, festas e cervejas, e, ainda que me acompanhasse à igreja aos domingos, não se inspirava muito com os evangelhos.
  • Page 115daquele dia. A parte preferida dele era mostrar às pessoas as fotos e os laudos médicos do período no hospital: nos primeiros meses, coberto de ataduras e gessos, com uma perna suspensa, e montes de tubos ligados às veias; e, então, aos poucos, emergindo dessas indumentárias, libertando os pés roxos, o quadril, os braços repletos de cortes ainda não cicatrizados, para enfim restar somente o colar cervical, que ele acabou usando por muito mais tempo do que os médicos recomendaram. Meu marido tinha morrido de imediato porque usou o próprio corpo para proteger Edgar, o que o meu filho sempre enfatizava ao narrar o caso, para depois reforçar que cresceu sem pai, que teve desde muito cedo que traçar seu próprio caminho no mundo. Nesse momento, a plateia, quase sempre formada por mulheres jovens ou grupos da igreja, e ocasionalmente por estranhos no supermercado, olhava para mim como se me perguntasse onde diabos eu tinha me metido para não estar presente numa hora daquelas, por que não fora eu a colocar o corpo em defesa do meu filho. Eu não tinha uma boa resposta, a faxina usual das terças-feiras na casa da dona Isabel não parecia uma razão forte o suficiente, e eu me sentia tão mal que as pessoas amoleciam um pouco e chegavam a dar tapinhas nas minhas costas, murmurando que a coisa toda fora uma terrível fatalidade. Mas eu tinha certeza de que me achavam uma desnaturada, que eu piorava tudo ao poder dizer a elas qual o maior sonho de Edgar (ganhar na loteria), ou até mesmo seu medo mais intenso (cair do alto de um prédio), mas não ter a mínima ideia de por que ele havia feito o que havia feito com Mônica.
  • Page 116estampado nos ossos, que sempre encontrávamos nas filas do dia de visitação. Essas mulheres parecem ter desistido da vida, Cora comentava, estremecendo, quando fazíamos o caminho de volta. Mordi a broa: estava seca, quebradiça. Cora triturava aquilo com feroz determinação, ao mesmo tempo em que usava os guardanapos descartáveis para limpar as canelas, manchadas de barro e, talvez, um pouco de urina. A dona do local veio às pressas, estendendo um rolo de papel higiênico ―os guardanapos eram muito caros para serem usados daquela maneira. Levantamos, passamos novamente no banheiro, caso as filas estivessem grandes nos portões de entrada e fôssemos obrigadas a aguardar por algumas horas. Cora estava otimista, mesmo com o café, fizemos o percurso em boa velocidade e chegaríamos cedo, mais cedo do que muitas outras mães, que pegavam o ônibus. Esta última parte da viagem era a mais agradável: os topos das colinas repletos de moinhos modernos, girando como cata-ventos e emitindo os assobios fortes das hélices. Começavam ali as plantações de soja, com suas linhas verdes e brilhantes sumindo no horizonte, ao lado de rios que resistiam melhor ao domínio das secas. Naquele trecho, de olhos fechados enquanto a música entoava baixinho do rádio, eu começava a me sentir quase bem, quase contente: o café aquecendo a barriga e o falatório suave de Cora me faziam esquecer por um momento onde eu estava, o espaço se dissolvendo ao redor; mas aquela sensação nunca durava muito tempo, porque logo eu abria os olhos, as plantações cediam mais uma vez ao descampado terroso e era possível distinguir, contra o céu enevoado, as paredes inconfundíveis do Complexo Penitenciário Arnoldo Lima Mascarenhas.
  • Page 117imagina, então, apesar de horrível, não há surpresas. Os guardas podiam ser bons ― aqueles que mantinham as armas na cintura e nos cumprimentavam — ou maus, quando praticamente apontavam um fuzil para a nossa cara e gritavam até mesmo as ordens mais simples, do tipo passa logo ou entrem, merda. Mas mesmo os bons eram vistos com rancor pelas mulheres, as mães, esposas e amantes de homens injustamente encarcerados, dentre os quais Tiago, que para Cora já pagara pelo seu erro com todos os juros e somente permanecia preso pela morosidade do sistema - era o que dizia o advogado. Isto aqui é um depósito, ela não cansava de repetir. Um curral humano. Toda vez que eu chegava ao Complexo, eu me lembrava de que também poderia ter acabado aqui. Aquilo quase me fazia vomitar, toda vez aquilo ou os nervos. Uns anos atrás, quando eu trabalhava para a dona Larissa, peguei escondido um vestido dela, para usar no dia em que eu e meu marido assinamos os papéis no cartório; fiquei tão nervosa, com medo de me descobrirem, que acabei pedindo a ele para pularmos o almoço de casamento, e voltamos direto para casa, mortos de fome. O vestido era de um tecido delicado e transparente; eu não sabia nem o nome, mas parecia importado chegava a fazer carinho na pele. Eu sabia que não devia ter feito uma coisa daquelas e voltei na semana seguinte disposta a confessar tudo, com o rabo entre as pernas, mas a dona Larissa tinha tantos vestidos que nem deu pela falta daquele; quando o devolvi ao armário foi como se nada tivesse acontecido. Depois disso, nunca mais eu tinha roubado uma fruta que fosse, mas era só chegar no presídio que as minhas pernas começavam a tremer, como se a qualquer momento fossem me prender em flagrante. Nunca confessei isso a Cora, tenho certeza de que ela iria me achar uma maluca, e não era como se eu não a envergonhasse o suficiente. Com a saia plissada e as unhas feitas, Cora parecia deslocada ali, qualquer um pensaria que estava indo fazer compras numa daquelas lojas em que a vendedora vem perguntar a você se precisa de alguma coisa. Eu podia jurar que um dos guardas flertava com ela.
  • Page 118engolido pelo Complexo, e então eu soltava um suspiro enorme com todo o ar que nem percebia que tinha prendido. Eu matava tempo rodeando bem lentamente todo o perímetro, mas eram umas duas horas cruéis, com o sol a pino e nenhuma árvore à vista, por mais mirrada que fosse; às vezes me aproximava de um ou outro grupo, mas sempre escutava o mesmo papo furado: condicionais negadas, audiências. As mães conversavam entre si e pareciam concordar que seus filhos tinham se comportado como moleques, mas que, no fundo, eram bons garotos. Ouvindo aquelas pessoas, seria de se imaginar que ninguém preso ali era culpado, o que eu duvidava muito, mas só de ver algumas mães descrevendo o processo de revista - como tinham de tirar a roupa e agachar, três vezes de frente, três vezes de costas, eu me convencia de que mesmo criminosos não mereciam um lugar daqueles. Não era como se eu não tentasse entrar no Complexo; só que todas as vezes, quando me aproximava dos portões, eu acabava dando uma desculpa qualquer para sair dali. Uma vez consegui chegar ao saguão antes de fingir uma dor de barriga lancinante, e tropecei até o banheiro enquanto os guardas soltavam risinhos; fiquei lá quase uma hora lavando o rosto, com falta de ar. Eu só conseguia pensar: é agora é agora é agora é agora, e tinha a impressão de que iria morrer ali mesmo, que Cora encontraria o meu corpo esparramado nos azulejos imundos e seria mais uma vergonha que eu causaria a ela, o que logicamente me deixava ainda mais ansiosa. Sabe Deus como me recompus e saí com as minhas próprias pernas daquele lugar. Eu me sentia numa corda bamba, constrangida por estar ali, e mais ainda por permanecer do lado de fora, dando voltas sem sentido e suando, até Cora aparecer e se desculpar por ter demorado tanto. Ela me perguntava como tinha sido a visita, como iam as coisas com Edgar, e eu respondia, balançando a cabeça: como sempre. Então eu chorava, o que acabava dando um toque extra à história toda, e Cora me abraçava, chorando junto, sem que uma tentasse consolar a outra.
  • Page 119roupas secando por entre as grades. Eu não gostava nem de imaginar o que Edgar passava lá dentro, como deveria se sentir sozinho, desamparado; se bem que, para ser honesta, o que eu mais queria saber era se ele tinha se arrependido. Só que, mesmo se eu conseguisse entrar, mesmo que tirasse a roupa e agachasse seis vezes para provar que não tinha enfiado nada nos orifícios, mesmo se me visse cara a cara com o meu filho e fizesse a ele aquela pergunta, tenho certeza de que ele diria apenas ah, mãe, vai se foder. Ou ainda: você sabe que eu nunca faria algo assim. Eu teria acreditado nele, mas eu estava em casa quando os dois chegaram, bêbados, fechando-se no quarto no meio de uma briga, e também quando Mônica abriu a porta algumas horas depois e vi de perto os olhos dela. Foi como voltar àquele beco, décadas antes, quando eu ainda era uma jovenzinha, e me senti apavorada: os olhos de Mônica tinham se tornado um espelho dos meus. Edgar repetiu o julgamento inteiro que tudo tinha sido um mal-entendido, mas vamos encarar os fatos: ele havia bebido tanto que não se lembraria nem de ter explodido um canhão naquela noite. Não deve ser tão difícil se convencer de que você jamais faria algo assim, jamais, mesmo que, bem, você tenha feito exatamente aquilo. Pronta?, Cora me perguntou. Era só eu me lembrar do beco que a minha garganta começava a fechar e meu coração parecia ter acabado de correr uma maratona. Eu não podia dizer nada a Cora, porque ela seria excessivamente gentil, o que só pioraria as coisas, então pedi que puxasse uma oração. Ela concordou, feliz, era importante manter o ânimo, e iniciou uma sequência de pai-nossos, sempre uma boa escolha por conta da parte que fala sobre o perdão das nossas ofensas. Continuamos muito depois que eu já tinha me acalmado, as palavras escorrendo dos nossos lábios como se desfiássemos um novelo enquanto, do lado de fora, o sertão oprimia as janelas do carro. Quando Cora fez uma pausa e perguntou se devíamos emendar uns salmos, eu disse que sim. A gratidão, pensei, era trabalho duro.
  • Page 120AREIA avise quando chegar não levante a voz comigo não foi isso que te ensinei tenha modos você não para quieta Chamei a menina para almoçar e ela não veio. Olhei rápido para o mar e a vi obediente sentada bem na beirinha, ali onde as ondas lhe enchiam o biquíni de areia, e pensei só mais um instante, o peixe esperaria só mais um instante, mas ainda assim a chamei outra vez, o vento carregou minha voz com os risos que me sobravam nos dentes, e ela estava distraída, o baldinho laranja cheio até a metade, e terminar a conversa com o homem levaria só um instante, não seria nem o tempo de o peixe esfriar, porque era tão bom existir nos olhos daquele homem, um que ainda era moço e forte, os primeiros fios grisalhos apenas despontando do peito, e eu tão amassada, as olheiras fundas de carregar a menina, me doíam as costas, os seios pendurados sem grande certeza, um muito maior do que o outro, como é que o homem não enxergava? Ele me olhava e sorria, eu sorria também quando chamei a menina, e tentei chamá-la com aquela impaciência de sempre, mas estava contente que não viesse, a pressa que eu não tinha me escapou pela boca e a menina não veio, continuou a encher o balde laranja e a transformá-lo num frágil castelo, daqueles que eu não tinha ânimo para construir, pois qual seria o propósito de levantar algo fadado a desmoronar, a ser levado pelas águas para a mesma areia inerte ao redor, de que serviria senão para lembrar que todo esforço neste mundo era inútil, era inútil pedir a qualquer coisa que permanecesse, mas era cedo demais para falar à menina desses fracassos, por isso eu seguia prostrada sob o sombreiro e, ali nas ondas, ela aprendia sozinha a lição que eu não quis ensinar. O homem olhou para ela e comentou que se parecia comigo, e eu concordei, embora não fosse verdade, a menina tinha a pele dourada do pai, tinha dele o mesmo jeito insistente e ousado, e, como ele, não tinha medo de nada, nem de encarar o oceano aos seis anos de idade, enquanto a mãe se acovardava sob o sombreiro e sorria para um homem
  • Page 121que não era o seu pai. O pai agora existia somente no barbeador abandonado na última gaveta, nos últimos ternos abafados dentro das capas, enquanto aquele homem estava presente, tinha cheiro, tinha cor e fios que desciam volumosamente pela barriga, e me disse que seu nome era Armando enquanto me olhava ridícula dentro do maiô vermelho, com peitos frouxos cheios de estrias, e continuava sorrindo. Eu abri a boca para insistir com a menina, para gritar com o garçom, para dizer que meu nome era Daniela, mas ele podia me chamar de Dani, e o peixe aguardava cercado de cebolas, fumegando entre as folhas de bananeira, ainda aguentaria muito, a menina tampouco comia quando estava quente demais, soprava o garfinho até esticar a ponta da língua, o peixe precisava esfriar um pouco e eu ganhava aquele instante, o instante em que me voltei para o homem e devolvi o sorriso, quando estendi a mão ele avançou até me envolver num abraço, e eu não era tocada há muito tempo, há anos que o pai da menina chegava tarde da noite, até o dia em que simplesmente se esqueceu de voltar, mas quando voltava sempre me lembrava de que eu já não era uma jovenzinha, de que já não tinha aquelas coxas, as que eu usava para dançar nos bailes de nossa adolescência e que o tinham fisgado de vez, ele contou a história no dia do nosso casamento, mas agora já não é a mesma coisa, ele balançou a cabeça porque lastimava muitíssimo, jurava que mais até do que eu, enquanto o homem à minha frente me envolvia com sua carne morna e dizia muito prazer como se estivesse realmente dizendo a verdade. Num instante, ele iria embora, e então eu iria buscar a menina, pegá-la pelas axilas e arremessá-la contra o quadril enquanto ela choraria e me humilharia diante de toda a praia, e talvez eu lhe dissesse para calar a boca, ou talvez lhe acariciasse os cabelos e cantasse sua canção favorita, porque o olhar do homem se demoraria dentro de mim, e sentaríamos para comer o peixe ainda quente, mas não quente demais, e voltaríamos para a casa que nós duas odiávamos desde que o pai dela se fora, e tentaríamos não nos matar até o próximo domingo, quando voltaríamos àquela mesma praia e eu procuraria o homem por entre os sombreiros, enquanto os castelos dela desabariam sob as ondas sem que nem eu, nem ninguém fizesse alguma coisa. Mas o homem a vira também, brincando alegre e solitária na beira das ondas, eu confirmei que era minha filha e mesmo assim ele ficou, parou a meu lado e respondeu que
  • Page 122tinha filhos também, dois meninos crescidos que já não iam à praia com o pai, mas falou deles com afeto, até com um pouco de saudade, aquela saudade que eu ainda não conhecia, mas intuía sempre que deixava a menina na escola, o corpo dela se desprendendo do meu com esforço, porque naquelas manhãs eu podia sentir que algo entre nós se rasgava, e meu corpo se tornava mais livre e um pouco menor, eu não precisei explicar para perceber que ele entendia. Por um instante ele permaneceu, falou que eu era muito bonita, que me viu assim que eu desci do carro, bem quando o vestido se enrolou nos meus tornozelos e a menina se recusou a passar protetor, e eu senti os olhos do mundo inteiro quando lhe gritei ou você passa essa merda ou voltamos agora mesmo para casa, e aquilo junto com a promessa de sorvetes foi suficiente para convencê-la, mas, mesmo assim, veio emburrada até o sombreiro, onde a deixei com os baldes e me deitei exausta e sedenta de sol, e fiz tudo isso bela aos olhos daquele homem, dentro do maiô apertado demais e da canga fora de moda, que agora já não me pareciam tão terríveis assim, mas até um pouco charmosos. Ele pediu o meu telefone e aquela conversa durou um instante, ele precisava pegar a estrada, estava ali somente a passeio, mas repetiu que voltaria se fosse para me ver, uma mulher bonita como eu pedia aqueles sacrifícios e mais, porque ele morava longe, mas viria mesmo assim, e naquele instante eu me julguei digna de algumas horas de estrada, de um restaurante sem as cadeiras de plástico de que o pai da menina gostava, e senti um carinho enorme por tudo, porque, mesmo depois que o homem partisse, aquele instante ficaria comigo, para sempre dentro da minha cabeça, e ele me via e eu era alguém, como já tinha sido antes e seria depois, só que fora ficando por aqueles outros caminhos que não eram os meus, e já era tempo de estar novamente comigo. Espiei enquanto o homem sumia pela calçada, o meu telefone bem apertado entre os dedos, eu o tinha escrito num guardanapo, mas para falar a verdade nem me importava muito se ele ia ligar ou não, e se ligasse eu colocaria meu melhor vestido e o batom carmim, e a menina me imitaria roubando os meus sapatos e soltando beijos com as duas mãos, e eu fingiria não ver para deixá-la brincar um pouco mais, mas agora já era hora do almoço, toquei o peixe e a crosta dura estava na temperatura ideal, por isso chamei a menina com pressa verdadeira nos lábios, e olhando para o mar constatei que as ondas
  • Page 123tinham levado apenas um instante para destruir o castelo, e eu desviara a vista só um instante, mas a menina não estava lá, então chamei novamente, porque ela gostava de correr e não tinha medo de nada, e eu estou chamando há doze anos, mas ela não vem.
  • AGRADECIMENTOSEste livro nasceu graças ao incentivo e apoio de muitas pessoas, às quais gostaria de deixar meus agradecimentos. A meus pais, Carlos e Maria Aparecida, que desde muito cedo me apresentaram ao mundo dos livros, e à minha irmã Carla, companheira de leituras de infância, pelo amor e apoio incondicionais ao longo dos anos.
  • Page 125desde o início acreditado em mim e neste livro. Aos amigos da Oficina de Criação Literária da PUC/RS, pelas contribuições inestimáveis aos contos deste livro, e por compartilharem comigo seu amor e sua fé na literatura.
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insistia que os políticos eram todos iguais, que neste país não havia direita, nem esquerda, nem centro de verdade, mas uma massa uniforme de aproveitadores e sanguessugas. Papai mudava de opinião a cada cinco minutos, ora acenando enquanto vô Juca falava de alguns projetos, ora concordando com a minha avó que o país estava perdido, e discretamente piscava para mamãe. Ela me contou uma vez que tinha decidido largar a faculdade de Artes ao conhecer papai, para poder mudar de estado quando o trabalho dele determinasse, e também porque, segundo ela, poderia pintar de qualquer lugar. A minha vó perguntou se ela iria mesmo largar a faculdade por causa desse homem que você conhece há dois minutos, e mamãe riu e respondeu é, pelo jeito vou sim. Foi aí que ela decidiu se casar com papai, de modo que a vó Lete teve mais influência naquele romance do que imaginava.

Tomei um monte de água de coco, ainda intacta no jarro e, depois de algum tempo de conversa fiada, a minha avó começou a falar que se preocupava com o meu futuro, as muitas mudanças de estado poderiam me prejudicar na escola e, às vezes, os filhos acabavam pagando pelos sonhos dos pais. Mamãe levantou rapidinho, perguntando se eu não queria ir até a baiana de acarajé no piso de baixo, embora ela sempre reclamasse que o acarajé do clube custava o dobro de um perto de casa. A minha avó olhou torto porque ninguém mais na mesa gostava de acarajé; mesmo assim, mamãe começou a tirar as nossas cangas da bolsa, só que por engano acabou colocando a minha, que enganchou no osso do quadril e, por um instante, achei que ela fosse gritar enquanto tentava se espremer para dentro da canga esticada ao máximo no meio das pernas. Expliquei a ela que estava com a canga errada, e ela não me respondeu, mas deixou o tecido escorregar pelos joelhos, os joelhos perfeitos que não eram valgos, e falei que a canga dela era muito mais bonita, que queria uma igualzinha, a minha canga ficava completamente apagada perto da dela. Pensei a certo ponto que mamãe fosse sair somente de maiô e desafiar a regra do clube de não circular em traje de banho fora da área de piscina, mas afinal ela pegou a própria canga, amarrando com um nó atrás do pescoço, e me puxou em direção às escadarias.

O cheiro do dendê perfumava todo o primeiro andar. Atravessamos as lojinhas de biquínis e bibelôs, o pátio repleto de mesas de sinuca, até