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Revolucao_da_Psicanalise_

By Jorge Lannes Jr

Revolução da Psicanálise é uma revista literária e de reflexão psicanalítica que reúne crônicas, poemas, contos e escritos sobre a subjetividade, a angústia, os vínculos humanos e as diferentes formas de existir. Um espaço dedicado à literatura, à palavra e à experiência humana, acolhendo aquilo que nem sempre conseguimos dizer.

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Published
Oct 13, 2026
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16

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  • EDIÇÃO INAUGURALREVOLUÇÃO DA 2026
  • Page 2ESCREVO PORQUE ESCREVO Escrevo crônicas, poemas e tudo aquilo que, por vezes, parece surgir sem aviso, como se a palavra me precedesse e eu apenas precisasse alcançá-la. Há quem escreva o que deseja, há quem escreva o que lhe vem, e há aqueles que, mesmo escrevendo sobre a psicanálise, não são psicanalistas. Eu, por minha vez, não preciso confundir as coisas para reconhecer o lugar de onde escrevo. Minha relação com a palavra antecede muitas das definições que hoje me acompanham. A linguagem é o esforço da minha alma para escrever.
  • Page 3E é por isso que eu repito. Não vou escrever mais, disse eu, escrevendo de novo e mais uma vez. Pronto, acabou. A frase deveria fechar alguma coisa, mas há finais que, quando pronunciados, abrem uma fresta. Digo que terminei e a mão continua; anuncio o silêncio e uma palavra se levanta no meio dele, como se não tivesse ouvido a ordem. Talvez a escrita seja uma espécie de desobediência doméstica: mora em mim, conhece meus hábitos, sabe onde guardo as chaves e, ainda assim, não aceita que eu determine a hora de partir. Repito porque há coisas que não se concluem na primeira tentativa. O pente atravessa o cabelo e retorna; o ferro alisa a roupa, que será usada, lavada, posta para secar e novamente passada. A rotina tem seus ritos e suas liturgias miúdas. Aquilo que parece acabado regressa à condição de inacabado, e a vida, que tanto se esforça para parecer novidade, muitas vezes apenas troca a disposição dos móveis. Talvez seja por isso que gosto das repetições que escrevo. Elas me devolvem uma evidência incômoda: quase tudo volta, mas nunca encontra exatamente a mesma pessoa.
  • Page 4Não me incomoda que leiam de outra maneira. O texto, depois de publicado, já não depende inteiramente da intenção de quem o escreveu. Cada pessoa chega com suas próprias lembranças, seus fantasmas, sua gramática secreta. A leitura é também uma espécie de encontro entre desconhecidos: o que escrevi toca alguma coisa em quem lê, mas não tenho como determinar exatamente o quê. Talvez a literatura comece nesse descompasso, nessa distância entre aquilo que se quis dizer e aquilo que, afinal, foi escutado. E é por isso que eu repito. Não porque me faltem palavras novas, mas porque as antigas ainda guardam passagens que não percorri. Volto a uma frase como quem retorna a uma casa antiga e percebe uma porta que sempre esteve ali, embora nunca tenha sido aberta. Às vezes encontro uma ideia; às vezes, apenas poeira. Também a poeira tem sua história. Ela se deposita devagar, quase sem ser notada, até que um dia a luz atravessa a janela e revela tudo aquilo que o descuido deixou acumular.
  • Page 5de mim aquilo que já fui, censuro o que ainda não consegui ser e, no intervalo entre essas duas instâncias, tento descobrir quem está escrevendo. Talvez a comparação seja uma espécie de espelho retroativo: devolve uma imagem que já não existe e exige que eu volte a caber nela. Estou ansioso pela quarta-feira. Recebi hoje, por e-mail, a notícia de que um site publicará algumas crônicas minhas nesse dia. A notícia chegou como chegam certas coisas desejadas: trazendo alegria numa das mãos e inquietação na outra. Ainda não aconteceu, mas alguma parte de mim já está vivendo o acontecimento, como se o futuro tivesse encontrado uma fresta e entrado sem pedir licença. Ao mesmo tempo que aguardo a quarta-feira, sinto uma espécie de desassossego antecipatório, uma aflição que ainda não encontrou objeto e, mesmo assim, já ocupa lugar dentro de mim.
  • Page 6Talvez seja por isso que não queira me estender indefinidamente. Existem coisas que escrevemos porque precisamos dizê-las e outras que sentimos justamente porque ainda não conseguimos escrevêlas. O amor, por exemplo. O amor é bom, embora às vezes tenha a duração breve das coisas que prometem permanência. Começa, acontece, modifica a paisagem e, um dia, termina. Talvez quase tudo o que é humano padeça dessa precariedade: a existência se inaugura sem consultar ninguém e se encerra sem nos explicar inteiramente o que significou. Há, entretanto, um amor que parece desafiar a cronologia. O amor de mãe. Mesmo quando ela parte, alguma coisa desse amor continua a nos alcançar de um lugar que não sabemos localizar. Não afirmo que a morte o torne infinito; digo apenas que a ausência nem sempre consegue revogar aquilo que foi inscrito em nós. Talvez eu escreva porque não sei conservar as coisas de outro modo. A palavra não impede que o tempo passe, não devolve o que se perdeu, tampouco assegura que alguém permaneça. Ainda assim, registra o vestígio. Faz do instante uma espécie de vestimenta para aquilo que, sem ela, talvez desaparecesse sem deixar sequer uma ruga na memória. Não escrevo para vencer o tempo. Escrevo porque ele vence de qualquer maneira e, diante dessa evidência, alguma coisa em mim insiste em deixar um sinal.
  • CONTOSO retiro que existe dentro de mim Preciso de um retiro espiritual. Sair do mundo grande, da cidade do Rio de Janeiro, mas também não ir para a cidade de São Paulo. Preciso ir para algum interior, uma fazenda onde existam bois, vacas, galinhas e uma igreja. Uma igreja onde eu possa ir todos os domingos, como fazia aos quinze anos, quando tinha essa tendência de ir à missa. Depois, acender uma vela às dezoito horas, fincá-la na terra e deixar que a chama converse com aquilo que minha boca já não consegue dizer. Talvez a terra compreenda melhor certas coisas do que os homens. Não preciso viver sozinho, porque a solidão já vive comigo. Ela não ocupa espaço, não paga aluguel e, embora às vezes me faça companhia, nunca me pergunta aonde pretendo chegar. Também não precisarei de muito dinheiro para comprar coisas para comer. A vaca poderá me dar leite, as galinhas terão seus ovos, e as árvores, seus frutos. Talvez eu fique até mais saudável, respirando o ar puro, ouvindo os pássaros e descobrindo que o mundo continua existindo mesmo quando deixamos de olhar para ele.
  • Page 8esse amor me alcança, nem por que, em determinados dias, preciso me perder tanto para perceber que ainda sou capaz de reconhecê-lo. Mas, naquele instante, não precisei de uma resposta. Talvez a espiritualidade comece exatamente quando a necessidade de compreender se ajoelha diante daquilo que simplesmente se sente. Preciso desse lugar. De uma terra que me receba sem perguntar meu nome, de uma igreja cujo sino atravesse as árvores, de uma vela acesa às dezoito horas e de uma mãe que continue por perto, fazendo sua máquina velha bater tique-taque, tique-taque, como se o tempo ainda pudesse ser lavado e colocado para secar ao sol. Preciso conversar com os mortos. Não porque os vivos não tenham importância, mas porque há coisas que só consigo dizer diante da ausência. Os mortos não interrompem, não exigem explicações, não me pedem que eu seja diferente daquilo que sou. Talvez eu os procure porque já não espero deles uma resposta, e é justamente por isso que consigo escutá-los. Preciso da espiritualidade e que os mortos me salvem. Os vivos ajudam em alguma coisa, mas os mortos fazem mais. Eles permanecem onde o tempo não alcança, e há noites em que suspeito que certas mãos só conseguem nos tocar depois que deixam de existir.
  • “Oi, madrinha. Tudo bem?”Na ingenuidade daquele menino, ele mal percebia que aquelas ligações significavam muito mais do que parecia. Maria já era viúva, aposentada, tinha uma vida boa e morava num morro que ela fazia questão de chamar de colina, porque dizia que ficava mais elegante. Mas, apesar de ter uma vida tranquila, era uma senhora de setenta e tantos anos, sozinha, e sentia falta de companhia.
  • “Quer que eu faça café?”Ele respondeu: “O senhor não faz café para mim?”
  • “Será que ela sofreu?”Mas o corpo estava diante do fogão. Então ele imaginou que ela havia acordado, levantado da cama e ido preparar o próprio café, como fazia todas as manhãs.
  • Page 12Com o passar do tempo, percebeu mudanças em sua experiência subjetiva. Alguns sintomas deixaram de ocupar o mesmo lugar, enquanto a angústia continuou presente, insistindo como uma questão que nem sempre encontra respostas definitivas. Em vez de tratá-la como uma explicação para tudo o que vive ou escreve, Jorge passou a reconhecer a necessidade de estabelecer com ela uma relação que não se reduzisse à tentativa de eliminá-la ou de lhe atribuir um sentido único. Em diferentes escritos e livros, essa relação aparece em uma formulação que lhe é particular: “Minha angústia me ajuda.” A frase não pretende romantizar o sofrimento, tampouco sugerir que adoecer seja necessário para criar. Ela aponta para outra possibilidade: a de reconhecer que, mesmo diante de experiências difíceis, o sujeito pode encontrar maneiras de elaborar o que vive, construir sentidos e produzir algo que não se limite à dor.
  • Page 13A angústia permanece, mas não precisa definir o horizonte inteiro. Pode ser matéria de reflexão sem se tornar destino; pode atravessar a escrita sem ser convertida em ideal; pode ser reconhecida sem que o sujeito seja reduzido a ela. Porque uma pessoa é sempre maior do que a explicação que se tenta construir sobre ela. E talvez escrever seja também isso: não encontrar uma definição final de si, mas continuar abrindo espaço para aquilo que ainda pode ser pensado, sentido e dito.
  • O ESTRANHO QUE HABITAEM NÓS Há momentos em que o sujeito se torna estrangeiro de si mesmo. Continua habitando o próprio corpo, reconhece os objetos de sua casa, responde quando chamado pelo nome e cumpre, ainda que mecanicamente, as exigências da vida cotidiana. Por fora, quase nada parece ter mudado. Entretanto, alguma coisa se deslocou. Aquilo que antes parecia familiar adquire uma estranheza difícil de explicar, como se a pessoa continuasse sendo quem sempre foi, mas já não conseguisse reconhecer-se inteiramente naquilo que faz, sente ou deseja.
  • Page 15Escutar não é preencher todos os silêncios. Tampouco é oferecer conselhos para cada impasse. Às vezes, escutar significa sustentar a presença diante daquilo que ainda não pode ser dito, sem apressar o outro a produzir um sentido que não encontrou. É reconhecer que uma pessoa não se resume ao diagnóstico que recebeu, à perda que sofreu, ao erro que cometeu ou àquilo que os outros aprenderam a esperar dela. Existe uma história em movimento, atravessada por desejos, identificações, vínculos e conflitos que não cabem inteiramente em uma definição. Talvez também precisemos aprender a escutar a nós mesmos sem transformar cada descoberta em uma sentença. Reconhecer uma contradição não nos torna falsos. Perceber que desejamos algo diferente do que defendíamos ontem não significa que toda a nossa história tenha sido uma mentira. O sujeito se modifica, encontra limites, abandona certezas e, por vezes, precisa rever a imagem que construiu para conseguir continuar vivendo. Há uma diferença entre responsabilizar-se pela própria existência e exigir de si uma coerência impossível.
  • Page 16reflexões psicanalíticas, interessa-se pelo que permanece nas entrelinhas, pelos silêncios que acompanham as palavras e pelas contradições que constituem cada sujeito. Publica seus textos no Recanto das Letras e, às quartas-feiras, no site Crônicas Cariocas. Também utiliza o Instagram como espaço de expressão literária e reflexão, por meio do perfil @revolucaodapsicanalise.
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EDIÇÃO INAUGURAL

REVOLUÇÃO DA 2026
  • REVOLUÇÃO DA
  • PSICANÁLISE https://covver.com/
  • LITERATURA
  • CRÔNICAS
  • POEMAS
  • SUBJETIVIDADE
  • Palavras também são formas de existir.
  • CRÔNICA

A repetição das coisas que não terminam

Há ciclos que não se fecham. Apenas mudam de forma. E a escrita é o lugar onde eles fazem sentido.

  • JORGE LANES JÚNIOR
  • ESCRITOR
  • CRONISTA

ETERNO AMANTE DA ESCRITA

Entre o que se sente e o que se escreve, existe um lugar chamado literatura.

PINICOS

EXTEREL

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ESCREVO PORQUE ESCREVO Escrevo crônicas, poemas e tudo aquilo que, por vezes, parece surgir sem aviso, como se a palavra me precedesse e eu apenas precisasse alcançá-la. Há quem escreva o que deseja, há quem escreva o que lhe vem, e há aqueles que, mesmo escrevendo sobre a psicanálise, não são psicanalistas. Eu, por minha vez, não preciso confundir as coisas para reconhecer o lugar de onde escrevo. Minha relação com a palavra antecede muitas das definições que hoje me acompanham. A linguagem é o esforço da minha alma para escrever.

ESCREVO PORQUE ESCREVO

Escrevo crônicas, poemas e tudo aquilo que, por vezes, parece surgir sem aviso, como se a palavra me precedesse e eu apenas precisasse alcançá-la. Há quem escreva o que deseja, há quem escreva o que lhe vem, e há aqueles que, mesmo escrevendo sobre a psicanálise, não são psicanalistas. Eu, por minha vez, não preciso confundir as coisas para reconhecer o lugar de onde escrevo. Minha relação com a palavra antecede muitas das definições que hoje me acompanham. A linguagem é o esforço da minha alma para escrever.

Comecei na infância, quando ainda não compreendia inteiramente o que me levava a escrever. Na adolescência, descobri a psicanálise. Conheci Sigmund Freud, fundador desse campo de investigação do inconsciente, e, posteriormente, Jacques Lacan, que retomou e reinterpretou a obra freudiana, atribuindo à linguagem um lugar fundamental em sua leitura da experiência psicanalítica. Entre o inconsciente investigado por Freud e a formulação lacaniana de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, fui encontrando uma maneira particular de me aproximar daquilo que, em mim, nem sempre encontra explicação. A minha linguagem é escrever.

Escrevo porque escrevo. Escrevo porque o ponteiro do relógio avança, porque o tempo passa e alguma coisa permanece, insistindo em encontrar uma forma. Escrevo não aquilo que me atravessa, mas aquilo que sou atravessado. Há uma diferença que me interessa nessa inversão: não sou apenas aquele que recolhe as experiências e as transforma em palavras; sou também aquele que se descobre modificado por elas, convocado por algo que nem sempre consegue nomear antes de escrever.

Escrever é uma loucura, mas não escrever me parece um hospício no qual não desejo entrar, a não ser que seja para trabalhar. Há ironia nessa afirmação, evidentemente, mas também há uma tentativa de dizer o que a escrita representa para mim. Não se trata de romantizar o sofrimento, tampouco de transformar a angústia em ornamento. Trata-se de reconhecer que, para mim, a palavra abre uma possibilidade de elaboração, um lugar onde aquilo que insiste pode adquirir contorno, ainda que nunca se deixe apreender por inteiro.

Consequentemente, escrever é um trabalho, embora um trabalho diferente. Não obedece sempre ao planejamento, não se apresenta necessariamente quando o convoco e nem sempre se submete à minha vontade. Às vezes, sou eu quem procura a palavra; em outras, é a palavra que parece me encontrar. Existe um esforço nisso, uma disciplina, mas existe também algo que escapa à decisão consciente, como se a escrita carregasse consigo uma exigência que não se explica apenas pelo querer.

É dessa relação que nasce a Revolução da Psicanálise: não da pretensão de inaugurar uma verdade, tampouco de reinventar aquilo que já foi pensado, mas do desejo de abrir espaço para a palavra, para a literatura, para a subjetividade e para as diferentes maneiras de investigar a experiência humana. Esta revista nasce do encontro entre a minha trajetória, a escuta psicanalítica e a escrita que me acompanha desde a infância. É um espaço para crônicas, poemas, reflexões e escritos que procuram se aproximar daquilo que somos, inclusive quando não sabemos dizer.

Não escrevo simplesmente porque quero. Sou convidado a escrever pela linguagem do meu ser.

E talvez seja por isso que continuo: não porque tenha encontrado todas as respostas, mas porque ainda há alguma coisa que insiste em se escrever.

  • CRÔNICAS
  • A REPETIÇÃO DAS COISAS QUE NÃO
  • TERMINAM
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E é por isso que eu repito. Não vou escrever mais, disse eu, escrevendo de novo e mais uma vez. Pronto, acabou. A frase deveria fechar alguma coisa, mas há finais que, quando pronunciados, abrem uma fresta. Digo que terminei e a mão continua; anuncio o silêncio e uma palavra se levanta no meio dele, como se não tivesse ouvido a ordem. Talvez a escrita seja uma espécie de desobediência doméstica: mora em mim, conhece meus hábitos, sabe onde guardo as chaves e, ainda assim, não aceita que eu determine a hora de partir. Repito porque há coisas que não se concluem na primeira tentativa. O pente atravessa o cabelo e retorna; o ferro alisa a roupa, que será usada, lavada, posta para secar e novamente passada. A rotina tem seus ritos e suas liturgias miúdas. Aquilo que parece acabado regressa à condição de inacabado, e a vida, que tanto se esforça para parecer novidade, muitas vezes apenas troca a disposição dos móveis. Talvez seja por isso que gosto das repetições que escrevo. Elas me devolvem uma evidência incômoda: quase tudo volta, mas nunca encontra exatamente a mesma pessoa.

E é por isso que eu repito. Não vou escrever mais, disse eu, escrevendo de novo e mais uma vez. Pronto, acabou. A frase deveria fechar alguma coisa, mas há finais que, quando pronunciados, abrem uma fresta. Digo que terminei e a mão continua; anuncio o silêncio e uma palavra se levanta no meio dele, como se não tivesse ouvido a ordem. Talvez a escrita seja uma espécie de desobediência doméstica: mora em mim, conhece meus hábitos, sabe onde guardo as chaves e, ainda assim, não aceita que eu determine a hora de partir.

Repito porque há coisas que não se concluem na primeira tentativa. O pente atravessa o cabelo e retorna; o ferro alisa a roupa, que será usada, lavada, posta para secar e novamente passada. A rotina tem seus ritos e suas liturgias miúdas. Aquilo que parece acabado regressa à condição de inacabado, e a vida, que tanto se esforça para parecer novidade, muitas vezes apenas troca a disposição dos móveis. Talvez seja por isso que gosto das repetições que escrevo. Elas me devolvem uma evidência incômoda: quase tudo volta, mas nunca encontra exatamente a mesma pessoa.

A repetição, contudo, não é necessariamente cópia. Uma palavra retorna com outra sombra. Uma lembrança reaparece com o rosto alterado pelo tempo. O que ontem me pareceu banal hoje se apresenta com uma gravidade quase litúrgica; o que me feriu há anos talvez agora provoque apenas uma espécie de curiosidade arqueológica. Não é que o passado tenha mudado. Sou eu que chego a ele com outros instrumentos, outras faltas, outra maneira de suportar aquilo que antes parecia insuportável. Talvez recordar seja uma forma de reler a própria vida sem garantia de compreender o texto.

Há dias em que digo que não escrevo mais. Digo com a solenidade de quem encerra um testamento, como se pudesse determinar o destino daquilo que ainda não nasceu. Depois me sento, encontro um papel, uma caneta ou o teclado, e alguma coisa começa. Não sei se é vontade, hábito, necessidade ou uma espécie de compulsão sem algemas visíveis. Sei apenas que a escrita retorna quando eu já havia anunciado sua partida. E então me pergunto se sou eu quem escreve ou se sou apenas o lugar por onde as palavras passam, deixando marcas que nem sempre reconheço como minhas.

Talvez eu tenha aprendido a desconfiar dos finais. Eles são convenientes: põem uma moldura no caos, organizam o que ficou disperso e oferecem ao leitor a ilusão de que tudo encontrou seu lugar. Mas nem a vida é um texto bem revisado, nem o sujeito termina onde a frase termina. Há sempre um resto, uma sobra, um fragmento que não se acomoda. A última palavra de uma crônica pode ser apenas a primeira palavra de outra coisa. O ponto final, por vezes, é um sinal de pontuação fingindo ser uma sentença definitiva.

Gosto de observar as paredes e encontrar nelas cores que parecem falar de mim. O verde, o cinza, o vermelho, o azul. Não porque essas cores me expliquem, mas porque nenhuma delas consegue me conter por inteiro. Em determinados dias, sou uma tonalidade que não saberia nomear; em outros, pareço ter sido pintado por uma mão impaciente, que mistura pigmentos sem consultar o resultado. Talvez a identidade seja isso: uma paleta provisória, uma composição sujeita à luz, ao ângulo, ao olhar de quem vê. O outro diz que me reconhece, mas talvez reconheça apenas a versão que conseguiu guardar.

É curioso como alguém pode ler um texto meu e acreditar que me leu. Às vezes, nem eu reconheço quem o escreveu. Um leitor já me felicitou por uma publicação e, por um instante, pensei que estivesse me desejando feliz aniversário. Era apenas um texto que havia encontrado seu caminho até alguém. Fui simpático, embora eu saiba que nem sempre sou dado à simpatia. Talvez a escrita tenha essa propriedade estranha: envia ao mundo uma parte de nós e, depois, nos devolve o eco de uma pessoa que já não sabemos se somos. O leitor encontra o texto no presente; eu, quando volto a ele, encontro o vestígio de um instante que já não consigo habitar.

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Não me incomoda que leiam de outra maneira. O texto, depois de publicado, já não depende inteiramente da intenção de quem o escreveu. Cada pessoa chega com suas próprias lembranças, seus fantasmas, sua gramática secreta. A leitura é também uma espécie de encontro entre desconhecidos: o que escrevi toca alguma coisa em quem lê, mas não tenho como determinar exatamente o quê. Talvez a literatura comece nesse descompasso, nessa distância entre aquilo que se quis dizer e aquilo que, afinal, foi escutado. E é por isso que eu repito. Não porque me faltem palavras novas, mas porque as antigas ainda guardam passagens que não percorri. Volto a uma frase como quem retorna a uma casa antiga e percebe uma porta que sempre esteve ali, embora nunca tenha sido aberta. Às vezes encontro uma ideia; às vezes, apenas poeira. Também a poeira tem sua história. Ela se deposita devagar, quase sem ser notada, até que um dia a luz atravessa a janela e revela tudo aquilo que o descuido deixou acumular.

Não me incomoda que leiam de outra maneira. O texto, depois de publicado, já não depende inteiramente da intenção de quem o escreveu. Cada pessoa chega com suas próprias lembranças, seus fantasmas, sua gramática secreta. A leitura é também uma espécie de encontro entre desconhecidos: o que escrevi toca alguma coisa em quem lê, mas não tenho como determinar exatamente o quê. Talvez a literatura comece nesse descompasso, nessa distância entre aquilo que se quis dizer e aquilo que, afinal, foi escutado.

E é por isso que eu repito. Não porque me faltem palavras novas, mas porque as antigas ainda guardam passagens que não percorri. Volto a uma frase como quem retorna a uma casa antiga e percebe uma porta que sempre esteve ali, embora nunca tenha sido aberta. Às vezes encontro uma ideia; às vezes, apenas poeira. Também a poeira tem sua história. Ela se deposita devagar, quase sem ser notada, até que um dia a luz atravessa a janela e revela tudo aquilo que o descuido deixou acumular.

Talvez eu repita para me certificar de que ainda estou aqui. O gesto de escrever, mesmo quando não resolve coisa alguma, dá contorno ao intervalo entre um pensamento e outro. Não me oferece uma resposta definitiva, mas impede que a pergunta se dissolva por completo. E talvez eu não precise de uma resposta. Talvez precise apenas continuar formulando a pergunta de modos diferentes, até que ela deixe de ser uma exigência e se torne companhia.

A vida também repete seus movimentos: amanhece, escurece, recomeça. O relógio não se cansa de avançar, e nós insistimos em voltar aos mesmos lugares, às mesmas lembranças, aos mesmos desejos, como se alguma coisa tivesse ficado esquecida no caminho. Nem sempre encontramos o que procurávamos. Às vezes encontramos outra coisa, que não sabíamos estar perdida. Talvez seja essa a diferença entre repetição e retorno: repetir é refazer o gesto; retornar é descobrir que o lugar já não nos recebe da mesma maneira.

Eu disse que não escreveria mais. Disse com todas as letras, como se as letras fossem testemunhas confiáveis da minha desistência. Mas a frase continuou reverberando, e a reverberação pediu outra frase, e esta chamou uma terceira. Assim, o fim foi ficando para depois, como ficam tantas coisas que não sabemos concluir. Talvez um dia eu consiga terminar uma crônica sem sentir que alguma coisa permaneceu do lado de fora, batendo discretamente à porta. Ou talvez não. Há quem encerre o dia apagando a luz; eu, às vezes, deixo uma palavra acesa.

E é por isso que eu repito. Não para dizer exatamente a mesma coisa, mas para descobrir o que ainda não consegui dizer.

Pronto, acabou.

Jorge Lannes Júnior

INFANTILICAMENTE

Recordo-me de que comecei a escrever infantilicamente. Não na infância, não quando era pequeno, nem quando a idade ainda me permitia atribuir às coisas a desculpa da inocência. Infantilicamente. A palavra talvez não exista nos dicionários; se não existe, reivindico para mim a sua invenção. Há palavras que nascem porque as outras, já envelhecidas pelo uso, não conseguem mais dar conta de determinada experiência. Talvez esse tenha sido meu primeiro pecado: fabricar uma palavra para uma coisa que eu mesmo não sabia nomear. Ou talvez tenha sido o maior deles. E, se há alguma penitência reservada a quem escreve, desconfio que seja esta: passar a vida tentando explicar uma palavra que nasceu antes da explicação.

Não me comparo a ninguém. Quando isso acontece, comparo-me comigo mesmo, o que nem sempre é uma forma mais branda de crueldade. O sujeito de ontem olha para o sujeito de hoje como se ambos tivessem assinado um contrato que nenhum dos dois se recorda de ter lido. Cobro

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de mim aquilo que já fui, censuro o que ainda não consegui ser e, no intervalo entre essas duas instâncias, tento descobrir quem está escrevendo. Talvez a comparação seja uma espécie de espelho retroativo: devolve uma imagem que já não existe e exige que eu volte a caber nela. Estou ansioso pela quarta-feira. Recebi hoje, por e-mail, a notícia de que um site publicará algumas crônicas minhas nesse dia. A notícia chegou como chegam certas coisas desejadas: trazendo alegria numa das mãos e inquietação na outra. Ainda não aconteceu, mas alguma parte de mim já está vivendo o acontecimento, como se o futuro tivesse encontrado uma fresta e entrado sem pedir licença. Ao mesmo tempo que aguardo a quarta-feira, sinto uma espécie de desassossego antecipatório, uma aflição que ainda não encontrou objeto e, mesmo assim, já ocupa lugar dentro de mim.

de mim aquilo que já fui, censuro o que ainda não consegui ser e, no intervalo entre essas duas instâncias, tento descobrir quem está escrevendo. Talvez a comparação seja uma espécie de espelho retroativo: devolve uma imagem que já não existe e exige que eu volte a caber nela.

Estou ansioso pela quarta-feira. Recebi hoje, por e-mail, a notícia de que um site publicará algumas crônicas minhas nesse dia. A notícia chegou como chegam certas coisas desejadas: trazendo alegria numa das mãos e inquietação na outra. Ainda não aconteceu, mas alguma parte de mim já está vivendo o acontecimento, como se o futuro tivesse encontrado uma fresta e entrado sem pedir licença. Ao mesmo tempo que aguardo a quarta-feira, sinto uma espécie de desassossego antecipatório, uma aflição que ainda não encontrou objeto e, mesmo assim, já ocupa lugar dentro de mim.

Nesse mesmo dia tenho consulta médica, às oito da manhã. Não é propriamente um martírio consultar-me; o martírio é levantar às oito com o corpo atravessado pelas reverberações dos medicamentos, como se a manhã me convocasse antes que eu tivesse regressado inteiramente de mim. Não quero ir. Não queria ir. Mas é necessário. Saúde, não é? Há obrigações que não se tornam menos necessárias só porque a vontade se ausenta. A gente comparece com o corpo, enquanto o desejo permanece deitado, olhando para o teto, tentando negociar mais alguns minutos com o mundo.

Então, que viva a quarta-feira. Que venha com suas horas, suas notícias, suas esperas e seus pequenos desmentidos. Talvez eu esteja celebrando antes do tempo; talvez seja essa a única maneira que encontrei de não deixar o tempo celebrar sozinho.

Ando oscilando demais. Eufórico demais, triste demais, amargurado, quem sabe. Não sei se os sentimentos se excedem ou se sou eu que já não possuo uma medida confiável para aferi-los. Os ponteiros do relógio, pelo menos, parecem conhecer o ofício. Há o dos segundos, que corre sem qualquer pudor, como se tivesse medo de chegar atrasado a algum lugar. Há o dos minutos, mais vagaroso, quase circunspecto. E há a hora, que se anuncia sem pressa, embora carregue nas costas tudo aquilo que passou. Neste instante são duas horas, trinta e cinco minutos e quarenta segundos da madrugada. O relógio sabe dizer onde estamos no tempo. Eu, não raro, mal sei onde estou em mim.

Escrever também é isso: permanecer desperto quando a casa já se entregou ao silêncio, em pé ou sentado, com uma caneta entre os dedos e a impressão de que alguma coisa solicita passagem. Minha caneta está cheia de tinta. Há, portanto, uma promessa material de continuidade, embora eu saiba que a tinta abundante não garante a existência de uma frase. A mão pode estar pronta e a linguagem, esquiva. A página pode ser branca sem estar vazia; pode estar cheia antes mesmo de receber uma palavra.

Terminei hoje um livro e pretendia terminar outro. Li tanto que resolvi deixar o segundo para amanhã. A decisão, contudo, não me libertou da leitura. Há dois volumes à espera, ali embaixo, que pretendo terminar para recomeçar. Já os li. Vou relê-los. Não se trata de ignorar o que está escrito, mas de regressar ao que talvez eu não tenha sabido ler da primeira vez. Um livro não permanece igual quando o leitor retorna a ele. A página é a mesma; o leitor, não. E talvez a releitura seja uma maneira discreta de comprovar que o tempo passou por nós, mesmo quando juramos continuar no mesmo lugar.

Deu vontade de acender um cigarro. Enquanto escrevo, consigo fumar; enquanto leio, a coisa se complica. Talvez porque a escrita me permita pequenas interrupções, enquanto a leitura exige que eu acompanhe o pensamento de alguém sem abandonar o meu. A solidão está atrás de mim, e eu vou atrás das palavras. La soledad detrás de mí y yo detrás de las palabras. Digo isso em outra língua como se a tradução pudesse mudar a distância entre aquilo que me acompanha e aquilo que persigo. Mas a solidão, essa velha inquilina, reconhece qualquer idioma.

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Talvez seja por isso que não queira me estender indefinidamente. Existem coisas que escrevemos porque precisamos dizê-las e outras que sentimos justamente porque ainda não conseguimos escrevêlas. O amor, por exemplo. O amor é bom, embora às vezes tenha a duração breve das coisas que prometem permanência. Começa, acontece, modifica a paisagem e, um dia, termina. Talvez quase tudo o que é humano padeça dessa precariedade: a existência se inaugura sem consultar ninguém e se encerra sem nos explicar inteiramente o que significou. Há, entretanto, um amor que parece desafiar a cronologia. O amor de mãe. Mesmo quando ela parte, alguma coisa desse amor continua a nos alcançar de um lugar que não sabemos localizar. Não afirmo que a morte o torne infinito; digo apenas que a ausência nem sempre consegue revogar aquilo que foi inscrito em nós. Talvez eu escreva porque não sei conservar as coisas de outro modo. A palavra não impede que o tempo passe, não devolve o que se perdeu, tampouco assegura que alguém permaneça. Ainda assim, registra o vestígio. Faz do instante uma espécie de vestimenta para aquilo que, sem ela, talvez desaparecesse sem deixar sequer uma ruga na memória. Não escrevo para vencer o tempo. Escrevo porque ele vence de qualquer maneira e, diante dessa evidência, alguma coisa em mim insiste em deixar um sinal.

Talvez seja por isso que não queira me estender indefinidamente. Existem coisas que escrevemos porque precisamos dizê-las e outras que sentimos justamente porque ainda não conseguimos escrevêlas. O amor, por exemplo. O amor é bom, embora às vezes tenha a duração breve das coisas que prometem permanência. Começa, acontece, modifica a paisagem e, um dia, termina. Talvez quase tudo o que é humano padeça dessa precariedade: a existência se inaugura sem consultar ninguém e se encerra sem nos explicar inteiramente o que significou. Há, entretanto, um amor que parece desafiar a cronologia. O amor de mãe. Mesmo quando ela parte, alguma coisa desse amor continua a nos alcançar de um lugar que não sabemos localizar. Não afirmo que a morte o torne infinito; digo apenas que a ausência nem sempre consegue revogar aquilo que foi inscrito em nós.

Talvez eu escreva porque não sei conservar as coisas de outro modo. A palavra não impede que o tempo passe, não devolve o que se perdeu, tampouco assegura que alguém permaneça. Ainda assim, registra o vestígio. Faz do instante uma espécie de vestimenta para aquilo que, sem ela, talvez desaparecesse sem deixar sequer uma ruga na memória. Não escrevo para vencer o tempo. Escrevo porque ele vence de qualquer maneira e, diante dessa evidência, alguma coisa em mim insiste em deixar um sinal.

Vou dormir. Amanhã volto, se a manhã me permitir regressar com alguma nitidez. A caneta continuará cheia ou talvez já não esteja; os ponteiros seguirão em sua marcha indiferente; a quartafeira chegará, cumprirá seu ofício e irá embora, como tudo o que chega.

Pássaros a cantar

Pássaros a cantar, mar a mergulhar, amor a se aprofundar, desejos a desejar, linguagens a linguar, cócegas a cocegar, vinhos para tomar, cervejas para alegrar e poemas para me despertar.

Entre os rios

Eu te amei, te amo, te amarei, amar-te-ei para sempre.

Lindo, belíssimo carioca do Rio.

meu, Entre os rios que passei, eu te amei. E enquanto eu te amei, eu te odiei. E quanto mais te odiei, mais amei você.

POEMAS

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CONTOS

O retiro que existe dentro de mim Preciso de um retiro espiritual. Sair do mundo grande, da cidade do Rio de Janeiro, mas também não ir para a cidade de São Paulo. Preciso ir para algum interior, uma fazenda onde existam bois, vacas, galinhas e uma igreja. Uma igreja onde eu possa ir todos os domingos, como fazia aos quinze anos, quando tinha essa tendência de ir à missa. Depois, acender uma vela às dezoito horas, fincá-la na terra e deixar que a chama converse com aquilo que minha boca já não consegue dizer. Talvez a terra compreenda melhor certas coisas do que os homens. Não preciso viver sozinho, porque a solidão já vive comigo. Ela não ocupa espaço, não paga aluguel e, embora às vezes me faça companhia, nunca me pergunta aonde pretendo chegar. Também não precisarei de muito dinheiro para comprar coisas para comer. A vaca poderá me dar leite, as galinhas terão seus ovos, e as árvores, seus frutos. Talvez eu fique até mais saudável, respirando o ar puro, ouvindo os pássaros e descobrindo que o mundo continua existindo mesmo quando deixamos de olhar para ele.

O retiro que existe dentro de mim

Preciso de um retiro espiritual. Sair do mundo grande, da cidade do Rio de Janeiro, mas também não ir para a cidade de São Paulo. Preciso ir para algum interior, uma fazenda onde existam bois, vacas, galinhas e uma igreja. Uma igreja onde eu possa ir todos os domingos, como fazia aos quinze anos, quando tinha essa tendência de ir à missa. Depois, acender uma vela às dezoito horas, fincá-la na terra e deixar que a chama converse com aquilo que minha boca já não consegue dizer. Talvez a terra compreenda melhor certas coisas do que os homens. Não preciso viver sozinho, porque a solidão já vive comigo. Ela não ocupa espaço, não paga aluguel e, embora às vezes me faça companhia, nunca me pergunta aonde pretendo chegar. Também não precisarei de muito dinheiro para comprar coisas para comer. A vaca poderá me dar leite, as galinhas terão seus ovos, e as árvores, seus frutos. Talvez eu fique até mais saudável, respirando o ar puro, ouvindo os pássaros e descobrindo que o mundo continua existindo mesmo quando deixamos de olhar para ele.

A máquina de lavar roupa da mamãe faz tique-taque, tique-taque. Já está bem velhinha. Quando começa a fazer aquele barulho, é porque a roupa está sendo lavada. Mamãe não se desfaz dela. Papai comprou outra, dessas que dizem ser melhores, mas a novidade não deu muito certo. E talvez exista alguma sabedoria nisso: nem tudo aquilo que chega com a promessa de ser melhor consegue substituir o que já aprendeu a permanecer. Então levarei a máquina para a fazenda. E levarei mamãe também. Ela ficará comigo. Não sei se a fazenda terá sinal de internet, mas, se tiver, talvez eu publique outro livro. Se não tiver, escreverei assim mesmo. Porque não sou escritor. Ou talvez seja justamente por isso que continuo escrevendo. Publicar um livro não me transforma em escritor, assim como deixar de publicar não me retira aquilo que escrevo. São eles que dizem que sou autor daquele tal livro. Eu, por enquanto, só sei que escrevo. E isso, às vezes, já me custa uma vida inteira.

A cada vinte anos, talvez eu volte à cidade grande. Entregarei todos os manuscritos e retornarei à fazenda, antes que alguém me convença de que preciso ficar. Não quero morrer sem deixar minhas palavras, mas também não quero passar a vida inteira tentando provar que existo por meio delas. Quero cuidar das vacas, alimentar os bichos, montar a cavalo e sair correndo pelos campos, gritando qualquer coisa que não tenha nome. Quero ir à manjedoura, acordar cedo, aproximar-me da vaca e, antes de apertar suas tetas, pedir licença. Sim, pedir licença. Afinal, se vou beber de seu leite, que ao menos não me esqueça de que existe uma vida do outro lado daquilo que me alimenta. Há coisas que recebemos sem agradecer e outras que, mesmo agradecendo, jamais conseguiremos retribuir.

Mas não é exatamente para uma fazenda que desejo ir. A fazenda é apenas o lugar que encontrei para dar um endereço ao que não sei explicar. Preciso de um retiro espiritual que seja comigo mesmo, com meu eu e eu mesmo, sem testemunhas, sem a obrigação de parecer alguém, sem precisar responder quando perguntarem o que tenho feito da vida. Olho fixamente para esta janela e escuto o barulho das cigarras. Existe alguma coisa naquele som que me faz pensar que a natureza não precisa compreender o tempo para continuar anunciando sua passagem. Lembro-me de dezessete dias atrás, quando passei um dia inteiro sem falar. Fiquei mudo. Não sei se era silêncio ou se alguma coisa havia se cansado de atravessar a minha boca. O dia passou, e eu continuei ali, dentro de mim, como quem espera uma visita que talvez nunca chegue. Até que, quando chegou a hora da catedral, escutei o sino. E minha boca, depois de tantas horas fechada, pronunciou uma única palavra: Amém.

Não precisei pensar. A palavra saiu de mim como se já estivesse ali antes de mim, esperando que o sino lhe desse autorização para nascer. Amém. Foi quando pude entender alguma coisa que ainda não sei explicar por inteiro: Deus me ama. Não sei de que maneira, não sei por quais caminhos

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esse amor me alcança, nem por que, em determinados dias, preciso me perder tanto para perceber que ainda sou capaz de reconhecê-lo. Mas, naquele instante, não precisei de uma resposta. Talvez a espiritualidade comece exatamente quando a necessidade de compreender se ajoelha diante daquilo que simplesmente se sente. Preciso desse lugar. De uma terra que me receba sem perguntar meu nome, de uma igreja cujo sino atravesse as árvores, de uma vela acesa às dezoito horas e de uma mãe que continue por perto, fazendo sua máquina velha bater tique-taque, tique-taque, como se o tempo ainda pudesse ser lavado e colocado para secar ao sol. Preciso conversar com os mortos. Não porque os vivos não tenham importância, mas porque há coisas que só consigo dizer diante da ausência. Os mortos não interrompem, não exigem explicações, não me pedem que eu seja diferente daquilo que sou. Talvez eu os procure porque já não espero deles uma resposta, e é justamente por isso que consigo escutá-los. Preciso da espiritualidade e que os mortos me salvem. Os vivos ajudam em alguma coisa, mas os mortos fazem mais. Eles permanecem onde o tempo não alcança, e há noites em que suspeito que certas mãos só conseguem nos tocar depois que deixam de existir.

esse amor me alcança, nem por que, em determinados dias, preciso me perder tanto para perceber que ainda sou capaz de reconhecê-lo. Mas, naquele instante, não precisei de uma resposta. Talvez a espiritualidade comece exatamente quando a necessidade de compreender se ajoelha diante daquilo que simplesmente se sente.

Preciso desse lugar. De uma terra que me receba sem perguntar meu nome, de uma igreja cujo sino atravesse as árvores, de uma vela acesa às dezoito horas e de uma mãe que continue por perto, fazendo sua máquina velha bater tique-taque, tique-taque, como se o tempo ainda pudesse ser lavado e colocado para secar ao sol. Preciso conversar com os mortos. Não porque os vivos não tenham importância, mas porque há coisas que só consigo dizer diante da ausência. Os mortos não interrompem, não exigem explicações, não me pedem que eu seja diferente daquilo que sou. Talvez eu os procure porque já não espero deles uma resposta, e é justamente por isso que consigo escutá-los. Preciso da espiritualidade e que os mortos me salvem. Os vivos ajudam em alguma coisa, mas os mortos fazem mais. Eles permanecem onde o tempo não alcança, e há noites em que suspeito que certas mãos só conseguem nos tocar depois que deixam de existir.

Talvez eu nunca encontre essa fazenda. Talvez ela não esteja em nenhum mapa, nem tenha uma porteira, nem um curral, nem uma igreja de paredes descascadas. Talvez eu esteja procurando um lugar que não existe fora de mim. Ainda assim, quero ir. Quero descobrir se, longe do barulho da cidade, conseguirei ouvir aquilo que sou sem a interferência daquilo que fizeram de mim. Quero saber se, retirando tudo, ainda restará alguma coisa. E, se não restar, que a terra me ensine a começar outra vez.

Porque tenho desconfiado de que não preciso fugir do mundo. Preciso apenas deixar de pertencer a ele durante algum tempo.

E quando perguntarem por mim, não digam que fui embora. Digam que acendi uma vela às dezoito horas e entrei nela.

Talvez Deus saiba onde me encontrar.

E talvez os mortos já estejam me esperando.

  • Jorge Lannes Júnior
  • Maria e o tadinho
  • Um dia, anos atrás, nasceu Maria.

Foi criada na pobreza, mas nunca faltou pão em sua mesa. Tinha cinco irmãos mais novos e, ainda menina, cresceu vendo a mãe se esforçar para sustentar a casa. A mãe mal sabia ler e escrever, e Maria logo começou a trabalhar para ajudá-la.

O tempo passou. Todos cresceram. Alguns tiveram filhos, outros não. Maria se casou e teve uma vida boa. Mesmo assim, nunca deixou de ajudar a irmã, que se descabelava com o marido. Coitadinha, apanhava dele e não tinha para onde ir. Era mãe de cinco filhos, que também cresceram e seguiram suas vidas.

O marido de sua irmã acabou numa cadeira de rodas. Arrependeu-se dos pecados que havia cometido e, de algum modo, encontrou salvação no amor dos netos. Um deles cuidou dele até o fim, até os seus últimos dias.

Esse mesmo menino era afilhado de Maria.

E Maria cuidava muito dele.

Todas as manhãs, ele ligava para a madrinha. O número era 3779 e o final ele nunca quis me contar.

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“Oi, madrinha. Tudo bem?”

Na ingenuidade daquele menino, ele mal percebia que aquelas ligações significavam muito mais do que parecia. Maria já era viúva, aposentada, tinha uma vida boa e morava num morro que ela fazia questão de chamar de colina, porque dizia que ficava mais elegante. Mas, apesar de ter uma vida tranquila, era uma senhora de setenta e tantos anos, sozinha, e sentia falta de companhia.

Na ingenuidade daquele menino, ele mal percebia que aquelas ligações significavam muito mais do que parecia.

Maria já era viúva, aposentada, tinha uma vida boa e morava num morro que ela fazia questão de chamar de colina, porque dizia que ficava mais elegante. Mas, apesar de ter uma vida tranquila, era uma senhora de setenta e tantos anos, sozinha, e sentia falta de companhia.

Maria sabia que aquele afilhado a amava.

Ele também passou a ir sempre à casa da madrinha. Às vezes chegava de manhã, tomava café, almoçava e jantava. Algumas noites dormia por lá. Conhecia a rotina dela, os horários, os hábitos, os pequenos gestos. Maria ajudava a todos.

Certa vez, o próprio afilhado entrou em surto, quebrou o celular e, quando Maria soube, simplesmente disse:

“Tadinho. Ele não sabe o que faz.” E deu outro celular para ele.

A família reclamou. Disseram que ela não deveria ficar pagando as coisas para ele.

Então Maria se irritou e respondeu:

“Qual dos meus afilhados me liga todos os dias? Eu sou sozinha. Eu sinto falta de companhia.”

Todos ficaram mudos.

Ela não precisava dizer mais nada.

O afilhado só estava feliz com o celular novo. Não sabia nem como agradecer.

Mas também deixava Maria doida.

“Madrinha, me dá cinco reais.”

“Madrinha, me dá vinte reais.” E ela dizia:

“Eu não tenho, afilhado. Eu não tenho.”

Às vezes, realmente não tinha. Mas dava um jeito.

Até que aconteceu uma noite.

O pobrezinho do afilhado ligou desesperado, chorando, querendo conversar com a madrinha.

  • Ligou uma vez.
  • Ninguém atendeu.
  • Ligou outra.
  • Ninguém atendeu.
  • Ligou mais uma vez.
  • Nada.

Pensou que ela já tivesse ido dormir. Depois de algum tempo, ele também dormiu.

Na manhã seguinte, acordou com o pai perguntando:

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“Quer que eu faça café?”

Ele respondeu: “O senhor não faz café para mim?”

Ele respondeu:

“O senhor não faz café para mim?”

“Não. Mas agora eu vou fazer.” E começou a preparar o café.

Ainda meio adormecido, deitado naquele colchão no quarto, o único lugar onde conseguia dormir, o menino olhou para o rosto do pai e percebeu alguma coisa diferente.

Era o dia em que ele deveria levar a mãe para uma reabilitação.

“Aconteceu alguma coisa? Por que você não foi?” O pai apenas mexeu a cabeça, dizendo que não.

  • “Foi com meu avô?”
  • Não.
  • “Foi com minha
  • Também não.
  • mãe?”

“Foi com a minha madrinha?” O pai mexeu a cabeça.

Sim.

Naquele instante, alguma coisa dentro dele despencou.

  • “Ela está no hospital?”
  • O pai balançou a cabeça.
  • Não.
  • “Ela está em casa, né?”
  • Sim.
  • Ele nem tomou o café.
  • Já sabia.
  • Pediu ao pai:
  • “Me leva lá.”

Quando entrou na casa, viu o corpo da madrinha estatelado no chão.

Maria tinha morrido.

Pobrezinha.

A primeira coisa que ele pensou foi:

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“Será que ela sofreu?”

Mas o corpo estava diante do fogão. Então ele imaginou que ela havia acordado, levantado da cama e ido preparar o próprio café, como fazia todas as manhãs.

Mas o corpo estava diante do fogão.

Então ele imaginou que ela havia acordado, levantado da cama e ido preparar o próprio café, como fazia todas as manhãs.

  • Ele conhecia a rotina dela.
  • Maria morreu do coração.
  • Talvez tenha morrido de tanto amar.

Não somente aquele afilhado, que até hoje sofre com a sua morte, mas todos aqueles que passaram pela vida dela.

E, naquele mesmo dia, Maria foi enterrada.

Maria nasceu para ajudar. Não para ter filhos, mas para ter afilhados. Para cuidar. Para não dar trabalho a ninguém.

Nem a própria morte ela deu.

Tudo estava pago. Era só enterrar.

Depois do enterro, o afilhado quis apenas uma coisa: o radinho que Maria costumava escutar.

Sentou-se à mesa da cozinha, abraçou o rádio e chorou.

Seu pai não sabia o que dizer.

Já se passaram oito anos.

E aquele menino ainda não esqueceu Maria.

Mas ele está bem.

E, se Maria pudesse ver hoje o menino que conheceu naquela época, ficaria feliz.

Muito feliz.

E, se existe algum lugar desconhecido, alguma coisa sobrenatural no céu de onde ela possa vê-lo, eu gosto de imaginar que ela está lá, pulando de alegria e mexendo os dedinhos, exatamente como fazia quando estava feliz.

Porque talvez algumas pessoas morram.

Mas aquilo que elas fizeram alguém sentir não morre junto.

Maria continua viva toda vez que aquele afilhado se lembra dela.

E talvez seja essa a forma mais bonita que alguém pode encontrar de continuar existindo.

Jorge Lannes Júnior

AANGÚSTIA QUE PERMANECE

Entre o sofrimento e a escrita

Como o próprio eterno amante da escrita, Jorge Lannes Júnior, costuma expressar em seus textos, a angústia também pode participar de sua produção literária. Em sua trajetória, a aproximação com a psicanálise aconteceu a partir da própria experiência de análise, iniciada em 2021, em um percurso que se desenvolveu paralelamente ao acompanhamento psiquiátrico. Foi nesse encontro consigo mesmo, atravessado pela escuta e pela experiência do sofrimento psíquico, que passou a compreender aspectos importantes de sua história, entre eles o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar.

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Com o passar do tempo, percebeu mudanças em sua experiência subjetiva. Alguns sintomas deixaram de ocupar o mesmo lugar, enquanto a angústia continuou presente, insistindo como uma questão que nem sempre encontra respostas definitivas. Em vez de tratá-la como uma explicação para tudo o que vive ou escreve, Jorge passou a reconhecer a necessidade de estabelecer com ela uma relação que não se reduzisse à tentativa de eliminá-la ou de lhe atribuir um sentido único. Em diferentes escritos e livros, essa relação aparece em uma formulação que lhe é particular: “Minha angústia me ajuda.” A frase não pretende romantizar o sofrimento, tampouco sugerir que adoecer seja necessário para criar. Ela aponta para outra possibilidade: a de reconhecer que, mesmo diante de experiências difíceis, o sujeito pode encontrar maneiras de elaborar o que vive, construir sentidos e produzir algo que não se limite à dor.

Com o passar do tempo, percebeu mudanças em sua experiência subjetiva. Alguns sintomas deixaram de ocupar o mesmo lugar, enquanto a angústia continuou presente, insistindo como uma questão que nem sempre encontra respostas definitivas. Em vez de tratá-la como uma explicação para tudo o que vive ou escreve, Jorge passou a reconhecer a necessidade de estabelecer com ela uma relação que não se reduzisse à tentativa de eliminá-la ou de lhe atribuir um sentido único.

Em diferentes escritos e livros, essa relação aparece em uma formulação que lhe é particular: “Minha angústia me ajuda.” A frase não pretende romantizar o sofrimento, tampouco sugerir que adoecer seja necessário para criar. Ela aponta para outra possibilidade: a de reconhecer que, mesmo diante de experiências difíceis, o sujeito pode encontrar maneiras de elaborar o que vive, construir sentidos e produzir algo que não se limite à dor.

A angústia, nesse contexto, não é apresentada como uma virtude nem como uma condição indispensável à literatura. É uma experiência que, em determinados momentos, participa de seu processo de escrita e o convoca a investigar aquilo que permanece sem nome. Quando afirma que suas angústias são produtivas em sua vida, Jorge não transforma o sofrimento em ideal. Reconhece, antes, que a relação com aquilo que o atravessa pode produzir perguntas, reflexões e palavras.

Essa perspectiva também se aproxima de sua relação com a psicanálise. A análise não lhe ofereceu uma identidade pronta nem uma resposta definitiva sobre quem é. Abriu um percurso de investigação, no qual a experiência subjetiva pôde ser escutada para além de explicações imediatas. O diagnóstico passou a integrar sua história, mas não a esgotar. Existe uma diferença entre reconhecer uma condição clínica e permitir que ela ocupe todos os lugares de uma vida.

Sua produção literária acompanha parte desse percurso. O primeiro livro, Sentimentos em Palavras: À Luz das Minhas Angústias, levou seis anos até chegar à publicação. A obra reúne sentimentos, experiências e inquietações que encontraram na escrita uma forma de expressão. Posteriormente, publicou Antes do Diagnóstico, Existe Você, livro que propõe um olhar para a pessoa para além das classificações diagnósticas, e Eu Vi a Morte de Perto, Depois Eu Andei, obra dedicada à história de sua mãe e à experiência de acompanhar uma trajetória de enfrentamento e recuperação.

Entre os títulos associados à sua produção está também Antes a Dose, Hoje Eu Escrevo, conforme informado pelo próprio escritor. Em conjunto, essas obras permitem observar o interesse recorrente pela relação entre a palavra, a experiência humana e aquilo que não se deixa compreender de imediato.

Jorge não reivindica o sofrimento como credencial literária. Sua escrita não precisa ser legitimada pelo diagnóstico, assim como sua relação com a psicanálise não se resume à própria história clínica. O que se destaca é o movimento de transformar experiências em perguntas, sem exigir que cada uma delas resulte em uma conclusão.

Talvez seja nesse ponto que sua frase adquira maior profundidade. Dizer que a angústia ajuda não significa agradecer pela dor, desejar sua permanência ou negar a necessidade de cuidado. Significa admitir que a experiência humana não é composta apenas por aquilo que conseguimos resolver. Há questões que continuam conosco, e a maneira como nos relacionamos com elas pode mudar ao longo do tempo.

Entre a análise, o acompanhamento psiquiátrico e a escrita, Jorge Lannes Júnior segue construindo seu percurso sem reduzir a própria existência a um diagnóstico ou a uma obra publicada. Prefere reconhecer-se como eterno amante da escrita, alguém que encontra na palavra uma possibilidade de investigação e expressão.

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A angústia permanece, mas não precisa definir o horizonte inteiro. Pode ser matéria de reflexão sem se tornar destino; pode atravessar a escrita sem ser convertida em ideal; pode ser reconhecida sem que o sujeito seja reduzido a ela. Porque uma pessoa é sempre maior do que a explicação que se tenta construir sobre ela. E talvez escrever seja também isso: não encontrar uma definição final de si, mas continuar abrindo espaço para aquilo que ainda pode ser pensado, sentido e dito.

A angústia permanece, mas não precisa definir o horizonte inteiro. Pode ser matéria de reflexão sem se tornar destino; pode atravessar a escrita sem ser convertida em ideal; pode ser reconhecida sem que o sujeito seja reduzido a ela.

Porque uma pessoa é sempre maior do que a explicação que se tenta construir sobre ela. E talvez escrever seja também isso: não encontrar uma definição final de si, mas continuar abrindo espaço para aquilo que ainda pode ser pensado, sentido e dito.

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O ESTRANHO QUE HABITA

EM NÓS Há momentos em que o sujeito se torna estrangeiro de si mesmo. Continua habitando o próprio corpo, reconhece os objetos de sua casa, responde quando chamado pelo nome e cumpre, ainda que mecanicamente, as exigências da vida cotidiana. Por fora, quase nada parece ter mudado. Entretanto, alguma coisa se deslocou. Aquilo que antes parecia familiar adquire uma estranheza difícil de explicar, como se a pessoa continuasse sendo quem sempre foi, mas já não conseguisse reconhecer-se inteiramente naquilo que faz, sente ou deseja.

EM NÓS

Há momentos em que o sujeito se torna estrangeiro de si mesmo. Continua habitando o próprio corpo, reconhece os objetos de sua casa, responde quando chamado pelo nome e cumpre, ainda que mecanicamente, as exigências da vida cotidiana. Por fora, quase nada parece ter mudado. Entretanto, alguma coisa se deslocou. Aquilo que antes parecia familiar adquire uma estranheza difícil de explicar, como se a pessoa continuasse sendo quem sempre foi, mas já não conseguisse reconhecer-se inteiramente naquilo que faz, sente ou deseja.

Talvez uma das experiências mais inquietantes da existência seja descobrir que não possuímos um conhecimento absoluto de nós mesmos. Costumamos construir narrativas sobre quem somos, reunimos lembranças, atribuímos sentidos às nossas escolhas e procuramos estabelecer alguma continuidade entre aquilo que fomos e aquilo que nos tornamos. Precisamos, de certo modo, acreditar que existe uma unidade capaz de sustentar nosso nome, nossa história e nossa presença no mundo. Mas há acontecimentos que perturbam essa organização. Uma palavra pronunciada sem pensar, um sonho que insiste em retornar, uma reação desproporcional a determinada situação ou um desejo que contradiz tudo aquilo que afirmávamos querer podem abrir uma fissura nessa imagem que construímos de nós.

É nesse intervalo que a psicanálise encontra uma de suas questões fundamentais: nem tudo aquilo que nos constitui está imediatamente disponível à consciência. Existe uma dimensão da experiência psíquica que não se apresenta de maneira transparente, que se manifesta por caminhos indiretos e que, por vezes, aparece justamente onde acreditávamos exercer o maior controle. O sujeito fala, mas nem sempre sabe inteiramente o que diz. Recorda, mas também esquece. Escolhe, embora nem sempre consiga reconhecer as forças que participam de suas escolhas. Não se trata de afirmar que somos incapazes de compreender nossas próprias ações, mas de admitir que a compreensão de si exige um trabalho que raramente se conclui de uma vez por todas.

A angústia pode surgir nesse território de incerteza. Nem sempre conseguimos atribuir-lhe uma causa precisa. Às vezes, ela se apresenta antes que encontremos palavras para descrevê-la; em outras ocasiões, aparece disfarçada de irritação, inquietude, silêncio ou necessidade de afastamento. O sujeito procura uma explicação, deseja localizar o ponto exato em que tudo começou, como se encontrar uma origem pudesse devolver imediatamente a tranquilidade perdida. Entretanto, compreender não significa necessariamente eliminar o que sentimos. Há experiências cuja elaboração exige tempo, escuta e a possibilidade de permanecer diante de perguntas que ainda não encontraram resposta.

Vivemos numa época que frequentemente transforma o sofrimento em uma tarefa a ser resolvida com urgência. É preciso superar, reorganizar, produzir, reagir e voltar a funcionar. Até a dor parece precisar justificar sua duração. Quando alguém não consegue retomar o ritmo esperado, corre o risco de interpretar a própria dificuldade como fracasso, como se sofrer fosse uma deficiência de caráter ou uma incapacidade de administrar a própria existência. Mas o sofrimento psíquico não obedece sempre aos prazos que estabelecemos. Há perdas que não desaparecem porque o calendário avançou, conflitos que não se dissolvem mediante uma decisão racional e perguntas que continuam presentes mesmo depois de todas as tentativas de silenciá-las.

A escuta psicanalítica oferece outra possibilidade de relação com aquilo que nos acontece. Em vez de exigir que o sujeito apresente imediatamente uma versão organizada de si, permite que sua fala encontre desvios, repetições, contradições e hesitações. O que parece insignificante pode adquirir importância; aquilo que se repete pode revelar uma questão ainda não elaborada; uma pausa pode dizer algo diferente da frase que a antecedeu. Não porque exista uma interpretação pronta para cada gesto, mas porque a experiência singular de alguém não pode ser reduzida a um conjunto de respostas universais.

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Escutar não é preencher todos os silêncios. Tampouco é oferecer conselhos para cada impasse. Às vezes, escutar significa sustentar a presença diante daquilo que ainda não pode ser dito, sem apressar o outro a produzir um sentido que não encontrou. É reconhecer que uma pessoa não se resume ao diagnóstico que recebeu, à perda que sofreu, ao erro que cometeu ou àquilo que os outros aprenderam a esperar dela. Existe uma história em movimento, atravessada por desejos, identificações, vínculos e conflitos que não cabem inteiramente em uma definição. Talvez também precisemos aprender a escutar a nós mesmos sem transformar cada descoberta em uma sentença. Reconhecer uma contradição não nos torna falsos. Perceber que desejamos algo diferente do que defendíamos ontem não significa que toda a nossa história tenha sido uma mentira. O sujeito se modifica, encontra limites, abandona certezas e, por vezes, precisa rever a imagem que construiu para conseguir continuar vivendo. Há uma diferença entre responsabilizar-se pela própria existência e exigir de si uma coerência impossível.

Escutar não é preencher todos os silêncios. Tampouco é oferecer conselhos para cada impasse. Às vezes, escutar significa sustentar a presença diante daquilo que ainda não pode ser dito, sem apressar o outro a produzir um sentido que não encontrou. É reconhecer que uma pessoa não se resume ao diagnóstico que recebeu, à perda que sofreu, ao erro que cometeu ou àquilo que os outros aprenderam a esperar dela. Existe uma história em movimento, atravessada por desejos, identificações, vínculos e conflitos que não cabem inteiramente em uma definição.

Talvez também precisemos aprender a escutar a nós mesmos sem transformar cada descoberta em uma sentença. Reconhecer uma contradição não nos torna falsos. Perceber que desejamos algo diferente do que defendíamos ontem não significa que toda a nossa história tenha sido uma mentira. O sujeito se modifica, encontra limites, abandona certezas e, por vezes, precisa rever a imagem que construiu para conseguir continuar vivendo. Há uma diferença entre responsabilizar-se pela própria existência e exigir de si uma coerência impossível.

Não somos obrigados a gostar de tudo aquilo que descobrimos em nós. Tampouco precisamos converter cada sofrimento em aprendizado, cada perda em superação ou cada ferida em uma história edificante. Algumas experiências deixam marcas sem oferecer uma lição evidente. Outras só encontram algum sentido muito tempo depois, quando já não estamos exatamente no mesmo lugar de onde tentávamos compreendê-las. Elaborar não é apagar o acontecido; é construir uma relação possível com aquilo que aconteceu, sem permitir que um único fragmento da história ocupe todo o espaço da existência.

Talvez o estranho que habita em nós não seja apenas aquilo que tememos descobrir. Pode ser também a possibilidade de não permanecermos aprisionados à versão que construímos de nós mesmos. Quando admitimos que não sabemos tudo sobre quem somos, abrimos espaço para a pergunta, para a escuta e para a transformação. O desconhecido deixa de ser somente uma ameaça e passa a indicar que nossa história não está inteiramente encerrada.

Não se trata de encontrar uma identidade definitiva, livre de conflitos e contradições. Trata-se de reconhecer que existir também implica conviver com aquilo que não dominamos, sem abandonar a responsabilidade por nossas escolhas e sem confundir nossas dificuldades com a totalidade de quem somos.

Talvez a pergunta mais importante não seja quem sou, como se houvesse uma resposta única à espera de ser descoberta, mas o que faço com aquilo que me constitui, com o que recebi, com o que perdi, com o que desejo e com aquilo que ainda não consigo nomear.

Porque há coisas em nós que não pedem uma resposta imediata. Pedem escuta.

E, às vezes, o começo de uma transformação não acontece quando finalmente descobrimos quem somos, mas quando deixamos de exigir que o desconhecido desapareça para que possamos continuar vivendo.

QUEM ESCREVE

Jorge Lannes Júnior é psicanalista e eterno amante da escrita. Sua trajetória reúne a literatura, a psicanálise e a experiência hospitalar, onde atua como técnico de enfermagem intensivista, entre os corredores da vida e da morte. Residente em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, concilia sua produção literária com o atendimento psicanalítico on-line.

Sua aproximação com a psicanálise nasceu do próprio encontro com o sofrimento psíquico. Ao encontrar uma analista, iniciou um percurso que transformou sua maneira de escutar, pensar e se aproximar da experiência humana. Posteriormente, associou-se à Sociedade Fluminense de Psicanálise e aprofundou seus estudos, incluindo uma especialização livre em suicidologia.

Sua escrita percorre os territórios das relações humanas, do sofrimento psíquico, da angústia, do amor, do desejo, da desilusão e de tudo aquilo que atravessa a existência. Entre crônicas, poemas e

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reflexões psicanalíticas, interessa-se pelo que permanece nas entrelinhas, pelos silêncios que acompanham as palavras e pelas contradições que constituem cada sujeito. Publica seus textos no Recanto das Letras e, às quartas-feiras, no site Crônicas Cariocas. Também utiliza o Instagram como espaço de expressão literária e reflexão, por meio do perfil @revolucaodapsicanalise.

reflexões psicanalíticas, interessa-se pelo que permanece nas entrelinhas, pelos silêncios que acompanham as palavras e pelas contradições que constituem cada sujeito.

Publica seus textos no Recanto das Letras e, às quartas-feiras, no site Crônicas Cariocas. Também utiliza o Instagram como espaço de expressão literária e reflexão, por meio do perfil @revolucaodapsicanalise.

Embora não faça questão de se intitular escritor, prefere reconhecer-se como aquilo que sente ser: um eterno amante da escrita. Para ele, escrever não se resume à publicação de livros ou ao reconhecimento de um nome, mas constitui uma maneira particular de se relacionar com a linguagem, elaborar experiências e investigar aquilo que, por vezes, não encontra outra forma de existir. Redes sociais

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REVOLUÇÃO Revista literária e de reflexão psicanalítica.

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Responsável pela publicação, editor e responsável pelos conteúdos: Jorge Lannes Júnior

Criada em 2017, a Revolução da Psicanálise nasceu como um espaço de expressão e compartilhamento de textos relacionados à psicanálise, à literatura e à experiência humana. Ao longo de sua trajetória, o nome permaneceu o mesmo, acompanhando as transformações de seu idealizador e a continuidade de seu compromisso com a palavra.

Esta edição inaugural amplia esse espaço para reunir crônicas, poemas, contos e reflexões que atravessam a subjetividade, o sofrimento psíquico, a angústia, os vínculos humanos e as diferentes maneiras de existir.

A concepção editorial, a seleção dos textos e a responsabilidade pela publicação pertencem a Jorge Lannes Júnior, que reúne, neste projeto, sua trajetória na escrita e sua relação com a psicanálise.

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