Data da leitura: Junho e Julho de 2025
Você tinha dito que ia embora quando ficasse bom da perna.
E eu tenho culpa de ouvir essas coisas?
Tem mais mulher falando?
Samuel encostou o ouvido lá no topo da cabeça, por dentro.
· Tem só uma cantando, mas é baixo. Canta lindo, essa aqui. Preciso nem de radinho de pilha.
- São quantas?
Muitas. Mas com a voz alta que dê pra ouvir só umas cinco, seis. Preciso de um carvão pra marcar, parece que o lugar das vozes é o mesmo todo dia.
- Só tem essa que canta?
- Só. Devem ter parado de rezar pra colocar a janta. Por falar nisso, cadê minha comida?
Até o dia da consulta, Francisco e Samuel permaneceram na cabeça estudando o fenômeno das orações que reverberavam no crânio gigantesco e oco do santo Antônio. Com um pedaço de carvão, Samuel marcou as áreas das vozes e chegou à conclusão de que só conseguia ouvir bem quatro mulheres, as outras vozes eram muito fracas, falhavam como rádio de antena quebrada. Foi nessa inspeção mais detalhada que ele notou uma letra M, pintada de branco, com um círculo ao redor. Alguém deixara sua marca ali antes dele, mas não indicava nenhuma relação com as vozes. Só um M, nada mais.
Francisco, que conhecia a todos da cidade, descobriu de quem era cada voz. Por mais desconfiado que estivesse a princípio, entendeu que não seria possível o forasteiro conhecer tanto assim a vida daquelas pessoas, nomes, detalhes da rotina. Elas abriam o coração para o santo.
O fato é que Samuel tinha o poder inexplicável de ouvir os segredos que só santo Antônio poderia conhecer. Se era por falha do santo, ou engenho do demônio, não se sabe. Aquele era o segundo acontecimento mais bombástico da história de Candeia. O primeiro foi no dia em que o engenheiro do Rio de Janeiro disse à população que o crânio gigante jamais seria posto sobre o corpo no alto do morro. Ele estava certo. A cabeça de santo Antônio permanecera no chão, para sempre, como prova e testemunha do erro irreversível que fez a desgraça do povo de Candeia.