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A Cabeça do Santo (Socorro Acioli)

By BC Sao Pedro da Serra

Data da leitura: Junho e Julho de 2025

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Published
Mar 21, 2026
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  • A CABEÇA DO SANTOSOCORRO ACIOLI COMPANHIA DAS LETRAS
  • SOCORRO ACIOLIA cabeça do santo COMPANHIA DAS LETRAS
  • Para Gabriel García Márquez, María Julia TadeoAlquimia Peña, e por aquele dezembro que mudou tudo.
  • SumárioCapa Rosto
  • CaxiasCasablanca Cordel
  • Page 7PRIMEIRA PARTE
  • Page 8Traigo los ojos con que ella miró estas cosas, porque me dio sus ojos para ver. Juan Rulfo
  • CaminhoEle não tinha mais sapatos e seus pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes. Dois animais dentados e imundos. Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante, conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol. Nos primeiros dias o sangue e a água que minavam das bolhas arrebentadas nos seus pés chiavam em contato com o asfalto em brasa, inclemente. De tão secos, fizeram silêncio. Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobra, esturricado, admirável engenho da natureza para os que não podem contar com nenhum lapso de piedade do inimigo. As pernas, gêmeos paradoxos: quanto mais magras, mais fortes. Os músculos cresceram, até nas canelas sujas que sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desenterrado, andando sempre em linha reta.
  • Page 10Samuel também tinha o ventre quase colado nas costas e oxalá ainda fosse possível desgrudar quando chegasse a hora. Alguém ajudaria? Alguém daria comida a um desenterrado? Pensava na galinha cozida, nas bananas, nas mãos da mãe enchendo o seu prato de louça branco leitoso, com as bordas quebradas e a pinturinha de flores descascada. Das mãos da mãe ele tentava não lembrar. Era uma dor sem nome. Sapatos, as pernas da calça, mangas da camisa, o parco dinheiro: tudo ficou pelo caminho. (Existe quem compre mangas de camisa, isso é espantoso.) Seu torso mal protegido tinha duas cores. Os braços queimados de sol não serviam para nada além de sustentar as mãos. Das coisas que um corpo exige, ele não tinha quase nenhuma, o corpo pede e pune, na mesma medida. A mala que levava quando deixou a casa ficou pelo caminho logo no quinto dia. Ou isso, ou a fome. Trocou por um prato de carne cozida e baião de dois. A dona de uma pensão aceitou, de má vontade, só porque precisava de uma mala para guardar as toalhas das mesas.
  • CandeiaOito pessoas feitas de fé: três homens, duas mulheres, três crianças. Todos usando a túnica marrom de pano grosso exatamente igual à que são Francisco usava eles tinham o direito de acreditar nisso. Surrão amarrado na cintura, algumas provisões. Poucas: eram sacos murchos no fim da jornada, pois dali já se enxergava a imagem de são Francisco de Canindé, marrom, gigantesco, de mãos espalmadas. Andavam devagar. O homem mais jovem de joelhos, os outros ao redor, por perto. As crianças menores iam nos braços, a maior ia a pé e aceitava a penitência, talvez sem saber que ainda não devia nada a santo algum. Balbuciavam o tempo todo, não deixavam de rezar, o santo estava ouvindo. Caminhavam para que os visse, olhasse para o seu sacrifício e fosse benevolente com os pedidos que carregavam.
  • Page 12responde daquela maneira à caridade de quem tenta diminuir seu flagelo. Era uma mulher que partia, em segundos, de um extremo a outro da sua escala particular de análise do caráter alheio. Jogou o pão seco no chão e atravessou a pista de volta para os seus. O romeiro que ia com ela ainda ficou, sabia um pouco mais da vida e sobre a paciência com as fraquezas humanas. Já vira muita gente de bem enlouquecer na Estrada das Chagas, isso sempre foi comum. Naqueles anos de romaria vira de tudo no caminho e teve piedade, porque às vezes nem Deus livra o homem de enlouquecer. O demônio é artista. Poucos escapam dos enganos do Satanás. Apontou a estátua de são Francisco e mostrou para Samuel o quanto já estava perto de chegar aos pés do santo.
  • Page 13Café Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.
  • Page 14tapioca com café. Essas lembranças de Mariinha eram assim, chegavam o tempo todo, sem palavras, eram fotos da memória, cenas apressadas. Às vezes, com cheiro. Sempre o cheiro da mãe. Helenice entrou com a vassoura e a moça foi para a lateral da casa. Ele foi atrás, sem imaginar o quanto a sua presença era mais assustadora na penumbra.
  • Page 15Estava em Candeia, enfim, onde ninguém o conhecia, onde mal chegou e já foi expulso a vassouradas, onde só conseguiu um saco de pão seco com água suja, onde era difícil acreditar que alguém vivesse, de onde o sol se despedia. Dois ou três meninos barrigudos, quase nus, corriam pelas ruas daquele sábado à tarde. A poeira, os gatos magros, tudo sofrendo de falta de vida.
  • Page 16ele, sorrindo, mostrava isso e aquilo, como se ignorasse a debilidade. Chamou um gato amarelo pelo nome, Jerimum, que atendeu e pulou no colo do homem. Talvez fosse um hábito antigo, gatos são dados ao método e à rotina, mas o velho não deu conta da sua presença. Foram amigos um dia? Seria o gato, também, um velho vivente perto da morte? Samuel assistia a tudo parado, do meio da rua, até ser notado pela velha, já acomodada em sua cadeira. Sua figura horrenda não foi suficiente para assustá-la e tamanha bondade correspondia exatamente à descrição que Mariinha fizera de sua avó Niceia, uma mulher de bom coração. De mãos dadas com o apoplético, sorriu e desejou bom dia ao desconhecido. Sem saber o que dizer exatamente o sorriso o deixara mais confuso que a vassourada Samuel tirou do bolso o endereço e perguntou se ela era Niceia. Ele queria que fosse, mas não, seu nome era Rosa. Depois perguntou onde ficava a rua da Matriz.
  • Page 17Casa Não tinha nem uma hora que chegara a Candeia e Samuel já estava na rua da Matriz, segundo a referência da velha. Tudo rápido demais. Achou que levaria mais algum tempo para, enfim, estar diante de sua avó e de seu pai. O que diria? Não pensou em palavras para dizer, mas lembrava da voz de Mariinha, letra por letra, pedindo que fosse encontrá-los.
  • Page 18A senhora é d. Nicela? E você é Samuel.
  • Page 19Não houve resposta. Ela olhava para Samuel, somente. Então ele mora aqui?
  • CachorroA primeira da família a saber o dia da própria morte foi a tataravó, Mafalda. Pendurou os brincos no rasgo da orelha, passou perfume e batom, vestiu roupa de domingo na hora de dormir e foi despedir-se da filha: - Olhe, Toinha, é hoje que eu fico por lá. Minha mãe disse que vem me buscar com tia Amália. gado é seu e de Francisco, repartido. Se vender, reparte, se matar, reparte. A casa é sua, que ele já tem a dele. E o que tá aqui é seu. Mesa, cadeira, cama, filtro, pote, tudo.
  • Page 21pecado, castigo de Deus por se deitar com homem sem casar. Pois, se era verdade, foi marca de Manoel, o único. Foi-se embora quando Mariinha estava grávida, a mãe dele chamou. Mandou que fosse a Candeia para um trabalho importante, não disse detalhes, telefonar era caro. Ia ganhar dinheiro, depois voltava pra buscar Mariinha e Samuel para morarem com eles numa casa avarandada, a melhor de Candeia. Ela sempre soube que seria um menino. Sabia, simplesmente, sem precisar de exames. Escolheu o nome que achava o mais bonito do mundo, aprendido na missa. Manoel gostou, falava com a barriga chamando o filho pelo nome e prometia voltar. Era coisa de seis meses, ele disse. "Volto logo, Mariinha." Nunca. Voltou nunca mais. No primeiro mês mandou dinheiro por um portador e um bilhete com o endereço da mãe. Foi logo quando a barriga já aparecia. Mariinha saiu de Tauá e foi pro Juazeiro. Só tinha pai e uma irmã mais velha, que não queriam mulher da vida dentro de casa. Deixou recado com toda a cidade avisando o seu rumo. E nada. Nem notícias, nunca mais. Mariinha esperou a vida inteira, todos os dias. Samuel esperava junto, até quando tinha uns seis anos e os amigos da escola disseram que ele era filho de vadia. Mãe solteira e prostituta eram a mesma coisa. A sombra do pai era sua infelicidade.
  • Page 22voltou, é porque não podia. Quero que você leve o meu rosário da Mãe de Deus pra ela. Samuel tentou, mas não conseguiu disfarçar o ódio. Não via motivos para procurar aquela gente que nunca deu a menor importância para a sua existência. O homem deveria ter outra família, filhos, netos, e certamente nem lembraria dele.
  • Page 23Partiu para Candeia. Não por obediência, mas porque não houve tempo de dizer que não iria. Mariinha morreu acreditando. Anoiteceu e ele obedeceu a indicação de Niceia, porque de fato começou a chover e não havia nada a fazer além de abrigar-se. Ele agora não sabia se a falsa bondade da avó era uma mentira inocente ou um engano da pureza quase míope de Mariinha, que não sabia enxergar maldade. A velha nem sequer abriu a porta. Um copo de água, um prato de comida, uma dormida... nada.
  • CabeçaEram exatamente cinco horas da manhã quando Samuel começou a acordar, atormentado, confuso. Ouvia vozes de mulheres, várias, falando ao mesmo tempo. Falando, falando, falando. Parecia reza, briga, conversa, tudo ao mesmo tempo. Talvez fosse pesadelo, pareciam as mulheres do Horto. Sentou-se, assustado, acordado, mas as vozes não paravam. Mais alto, mais forte e, sim, era reza. Parecia a voz das carpideiras amigas de Mariinha, tirando o terço quando morria gente. Samuel saiu correndo daquela gruta maldita sem lembrar que a perna estava ferida com a mordida do cão, que estava fraco, faminto, cansado, e caiu no chão poucos metros depois. Não tinha mulher nenhuma rezando ali, não havia ninguém por perto, nem os cachorros da noite. Do lado de fora, só mato, chuva fina e silêncio, não se ouvia nenhuma voz, nem o sol fazia nenhum barulho para acordar. Quando se virou para observar o lugar onde estava, com a ajuda da pouca luz do sol encoberto, Samuel percebeu que a gruta onde passou a noite era, na verdade, uma cabeça gigante, oca e assustadora. Uma cabeça de santo. Mesmo coberta de plantas, via-se que o nariz era grotesco, dois buracos enormes, boca pra cima, lábios grossos, fechados, olhos esbugalhados, expressão séria. O globo ocular era o mais assustador: um par de bolas de concreto presas por fios de aço nos olhos vazados. Não era uma cabeça maciça, mas feita de peças simétricas e numeradas com tinta branca. Samuel levantou-se com dificuldade e chegou mais perto.
  • Page 25A ferida da perna doía cada vez mais e a pele esquentava pouco a pouco. Tinha um resto de água na garrafa, tinha um resto de pão mole por ali. Não conseguia andar. Da cabeça avistou a goiabeira e viu frutos verdes em galho baixo. Achou que talvez conseguisse ir até lá e foi. Viu de novo a cabeça, aterrorizante, mas dessa vez subiu a vista para o alto do morro e descobriu, espantado, que o resto do corpo do santo estava lá em cima. Talvez um gigante tenha degolado o santo, ele pensou. Passou uma espada pelo pescoço e a cabeça rolou morro abaixo. Não havia outra possibilidade para aquela aberração: a cabeça desceu como bola e parou lá embaixo. Cinza, sem pintura. Nem o branco do padre Cícero, nem as cores de são Francisco. Samuel riu por dentro, riu do santo degolado, pegou as goiabas verdes e voltou pra dentro da cabeça. Riu de medo.
  • Page 26Um pacote caíra através do nariz do santo, depois vários sacos plásticos, com algo dentro deles. Quando Samuel tentava arrastar-se do fundo da cabeça para alcançar o embrulho, um garoto invadiu a gruta, pegou imediatamente o pacote e abriu, apontando uma lanterna. Depois de desamarrar vários e vários sacos, apontou a luz fraca da lanterninha para as páginas que segurava com uma das mãos. Eram revistas pornográficas. Que esculhambação é essa?
  • Page 27-Não, só posto. E tem médico? Só dia de sexta. Que dia é hoje? Sábado.
  • Page 28Francisco era melhor correr o risco do que ser denunciado, se o sujeito fosse louco e contasse para alguém, ele estava perdido. Além do mais, a companhia do forasteiro começou a ficar engraçada. Samuel gostava de conversar.
  • CarvãoVocê também escuta? O quê?
  • Page 30baixo da cama se o dr. Adriano casar comigo, juro que tiro na hora e faço um altar bem bonito na minha casa. Escute, meu santo, eu quero ir lá no posto sexta-feira, mas não sei o que eu invento, não tenho doença nenhuma, minha mãe bem que tá cismada. Se souber que eu vou no posto, ela fecha a bodega e vai comigo. Já roubei uma meia dele, meu santo, já fiz simpatia, e nada. Mande uma luz, meu santo Antônio, mande logo pra eu lhe desamarrar, viu? Mande esse homem almoçar aqui, dê um jeito de atrasar as consultas para ele não ir embora cedo, faça alguma coisa! Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém! Samuel estava controlando o riso, tanto pela conversa da menina, como pela cara de Francisco, de ouvido colado na cabeça, indignado: - Não ouvi nada.
  • Page 31· Eu não caio nessa, não. Tu é bem bandido, já investigou a vida do povo e vem com essa pro meu lado. Tantos anos essa cabeça tá aqui e ninguém escuta nada. Eu não tô ouvindo zoada nenhuma. Mas você disse que ninguém vem aqui, como é que vai saber?
  • Page 32Você tinha dito que ia embora quando ficasse bom da perna. E eu tenho culpa de ouvir essas coisas?
  • CíceroMariinha tinha vinte e cinco anos quando conheceu Manoel, que viera para Tauá a trabalho e tinha data certa para ir embora. Era a caçula, condenada pela tradição do sertão a não casar e tomar conta do pai, viúvo, enquanto ele vivesse. Manoel estava lá para dois meses de serviço na construção de um prédio da prefeitura. Foi tempo suficiente para ver Mariinha passando pela obra todos os dias e conquistar seu coração com flores e bilhetes. Seus galanteios eram cheios de caprichos, os buquês improvisados tinham flores dos quatro cantos de Tauá. Dizia palavras bonitas, falava de amor com olhos doces, beijos doces, e não dava nenhum motivo para que Mariinha resistisse às suas investidas.
  • Page 34Mariinha contou com um rasgo de piedade de sua irmã, que lhe deu algum dinheiro e uma mala velha de couro para que pudesse partir. Parou na igrejinha de Tauá antes de ir embora, pediu perdão a Deus pelo seu pecado e pediu por seu filho, que tivesse saúde, que fosse forte, que fosse seu amigo.
  • Page 35Era forte a presença do padre, a roupa preta, os olhos azuis. Glorinha obedeceu, contra todos, e muitos viraram as costas para ela. Teve um parto difícil, quase morreu. O menino nasceu doente, mãe e filho viviam em hospitais e nada na vida dos dois se parecia com a previsão do padre. Diziam que o menino não viveria, era um documento do pecado, a lembrança de um crime. Só Glorinha, no fundo, nunca duvidou. E só lá pelos seus trinta anos as coisas começaram a mudar. O menino estudou, cresceu, virou doutor advogado, foi morar na capital e passou no concurso para juiz. Glorinha nunca quis sair de Juazeiro e com o passar dos anos sua presença era a testemunha de um milagre. Seu filho, dr. Marcelo, não botava os pés lá, mas mandava dinheiro pro sustento da casa de cinco quartos que comprara para a mãe. Cinco quartos. Nessa casa ela acolhia mães solteiras e recebeu Mariinha grávida com um abraço silencioso, mas cheio de todas as palavras que ela precisava ouvir. Fez o seu parto, ensinou o trançado dos chapéus, e Mariinha cuidou dela até o dia de sua morte. Glorinha, a abençoada.
  • Page 36de dor no peito quando saiu de lá, correndo sobre as pedras onde os frágeis pés de Mariinha não pisariam mais. Houve um momento, na estrada, em que ele olhou para trás e percebeu que não enxergava mais o homem branco e gigantesco que não foi forte o suficiente para salvar a sua mãe de uma vida de desgostos e uma morte miserável.
  • ConversaOs primeiros dias em Candeia foram tempo de algum conforto, comparados à miséria da travessia. Tinha onde dormir, qualquer coisa pra comer, por obra e graça de Francisco e da chantagem envolvendo o segredo tolo das revistas pornográficas. Os cachorros não voltaram mais. A chuva só choveu mesmo por ordens de Niceia, depois disso as nuvens pareciam felizes, não choravam mais, eram secas como algodão, raras, quase fumaça. Samuel estava um pouco mais limpo, mas ainda vestido de trapos, cabelo crescido. Francisco mostrou uma lagoa grande ali por perto onde ele poderia tomar banho de vez em quando. Seria bom, se a lagoa não fosse o bebedouro dos cachorros. Viu os bichos na outra margem um dia e tratou de sair sem ser notado. Em vão. Os cães também o viram, mas não fizeram nada, dessa vez. Talvez por ser dia, talvez porque o trabalho de guardar o morro fosse só durante a noite. Não se late em horário de folga. Morava na cabeça, virou sua casa, e tudo já estava mais ou menos arranjado como um lar. Um colchão velho com travesseiro, cobertor de lã, velas, uma mesinha de três pernas, algumas garrafas, dois copos, um prato, talheres. Presentes de Francisco que não comprou, nem roubou.
  • Page 38de Francisco, assumiu o atrevimento de mexer na sepultura alheia. Conhecia o marido de d. Sara, foi quem arrumou seu emprego e lhe deu casa. Haveria de sofrer vendo a esposa, sua linda Sara, enterrada em cova rasa depois de morte tão desgraçada. Foi da casa verde que Francisco tirou o colchão, os talheres, o travesseiro. Tudo estava lá porque ninguém entrava na casa, diziam que lá estava o hálito da primeira morta pela desgraça da cabeça do santo e dali só poderia sair maldição. Falavam que ela ainda andava pela cozinha, assistia televisão às seis horas e tirava o terço na janela em dia de missa. E se alguém entrasse lá, diziam que ela soprava um prenúncio de morte. Diziam muito sobre o fantasma de Sara, no tempo que ainda tinha gente suficiente para espalhar boato em Candeia.
  • ConsultaCinco da manhã em ponto. Samuel acordou de um pulo na sua casa de cabeça e colou o ouvido no círculo onde estava marcado o nome de Madeinusa. Era no lado direito, logo acima da orelha. Francisco também tentou, pois isso do santo preferir Samuel o deixava muito aborrecido. Foi em vão. Madeinusa pedia ao santo força e coragem para ir ver o dr. Adriano, pedia a santo Antônio casamenteiro que desse um jeito de sua mãe não desconfiar de nada, disse amém e acabou-se. O plano era dizer que ia à casa da amiga cobrar um dinheiro fiado, pois soube que a menina ganhou no jogo do bicho em Fortaleza. Helenice era cega por dinheiro e, por isso, o plano era perfeito.
  • Page 40ao santo em segredo, roubara a meia em segredo, e agora se este homem destampava tudo assim, haveria de ser por algum motivo importante. Passamento no coração? Como é esse negócio de passamento no coração?
  • Page 41ao doutor para curar a ferida da perna e ajudar Madeinusa, teria a privacidade da cabeça oca de volta. Anotando qualquer coisa, o médico perguntou qual era o problema. Dr. Adriano olhou a ferida de longe, sem disfarçar o susto. Era uma ferida grave. O que foi isso?
  • Page 42O santo me disse. Ninguém sabia da meia. Sumiu do carro do doutor. Na sexta-feira anterior ele deixara uma das portas abertas e um pé de meia sumiu. Só um pé, coisa mais estranha. Se fosse ladrão, haveria de roubar um envelope com dinheiro no porta-luvas, um casaco, o som do carro, relógio, bolsa. Candeia nunca foi de ter bandido. Roubar um pé de meia era coisa de nunca se esquecer.
  • Page 43acordada, e escutou quando ela disse: O que eu tenho... é... um passamento no coração falando ao mesmo tempo em que mostrava a meia. A senha funcionou para os dois, e não foi preciso palavra nenhuma para que ali já começasse um romance abençoado por santo Antônio. Os tímidos, na hora em que atacam, são das feras piores, e dr. Adriano beijou Madeinusa sem pedir licença. Não precisava.
  • CasamentoA amiga de Madeinusa - que lhe devia dinheiro mas nunca ganhou no jogo do bicho era namorada de "Aécio Diniz, o homem que sabe o que diz", como anunciava o seu slogan. Era locutor da rádio 89.1 Canindé AM e ficou muito interessado em saber mais sobre a história do recado de santo Antônio. Marcaram a entrevista para o quadro "A noiva da semana", sucesso de público na região e muitas vezes cancelado por falta de noivas. Eram tempos difíceis para os românticos. Canindé estava em plena romaria, cheia de devotos de são Francisco, como os que Samuel encontrara na estrada. Eram muitos, milhares. Madeinusa usou o melhor vestido emprestado e se perfumou para falar no microfone pela primeira vez.
  • Page 45tão lindo que nem coube nos seus pequenos sonhos. Ela precisou aprender a sonhar mais. O dr. Adriano não estava menos feliz. Raspou a poupança e pagou a festa, com gosto. O maior gasto foi para reformar a igrejinha de santo Antônio de Candeia, os dois faziam questão de que o casamento fosse lá, naquele resto de cidade que lhes valia tanto.
  • Page 46O povo que sobrou em Candeia ainda nutria ódio pelo santo traidor, que não teve forças sequer de evitar que a própria cabeça permanecesse caída no chão, longe do corpo, como um decapitado qualquer. Doía especialmente em quem estava lá no dia da chegada do engenheiro. Se santo Antônio era tão poderoso, por que não tornara possível o impossível? Por que permitira que as coisas avançassem até a conformação da desgraça? Adriano saiu da igreja carregando a noiva nos braços. Ali mesmo ela jogou o buquê de flores de plástico, que foi destruído e transformado em várias relíquias do primeiro novo milagre de santo Antônio de Candeia, por intermédio de Samuel, o mensageiro de recados do Céu.
  • Page 47SEGUNDA PARTE
  • Page 48Se soubesses as coisas em que acredito, olharias para mim como se eu fosse, sozinha, um grande circo de monstros. José Eduardo Agualusa
  • ComércioA notícia espalhou-se pouco a pouco. As mulheres que estavam no casamento contaram às outras de Canindé que, de fato, houve um milagre. Madeinusa e Adriano eram quase um casal de ex-votos vivos, em estado de paixão. A confirmação foi divulgada com detalhes: a cabeça do santo, o mensageiro, a consulta, o casamento, a lua de mel. As moças imaginavam os noivos num hotel na praia de Fortaleza, brincando de correr no mar, que Madeinusa via pela primeira vez, e fazendo juras eternas de amor. Apostavam umas com as outras que, depois do almoço, talvez estivessem concluindo repetidas vezes o que começaram quando o dr. Adriano encostou o estetoscópio gelado na pele em brasas de Madeinusa. Exclamavam que nada foi forte o suficiente para impedir: nem a ira da mãe da noiva, tampouco a oposição da família do noivo, um médico formado casando com uma moça quase sem instrução. Era a força do santo.
  • Page 50que tinham amarrado o santo debaixo da cama, enterrado no quintal, enfiado num balde de água e que só o libertariam do castigo depois que conseguissem o homem amado. O hábito de Samuel, ao despertar, era mover-se com preguiça até o topo da cabeça, onde a Voz cantava. Ali ele ficava, todo dia, ouvindo os minutos daquela voz que nunca rezava, nunca pedia nada. Só cantava, às vezes em horários diferentes. Samuel não percebia, ainda, o quanto aquele canto se tornou um vício, um alento, a única alegria daquela vida de pouca esperança. Mas exatamente quando mais precisava, quando queria passar o dia ali dentro pensando no que acabara de acontecer, ouvindo a Voz, decidindo a hora de partir, as coisas mudaram na cabeça do santo.
  • Page 51beijavam as mãos do mensageiro do santo-cada vez mais assustado com o tremor nunca dantes sentido na sua casa. O padre Zacarias chegou na hora certa e, percebendo o susto do pobre homem, expulsou as mulheres daquele lugar onde ele ainda não tinha entrado. Obedeceram ao padre. Eram todas católicas e temiam as autoridades religiosas. Mandou que ficassem do lado de fora, rezando um terço para santo Antônio, aguardando um pouco.
  • Page 52A cabeça do santo não parava de tremer. Uma das mulheres era curandeira, fazia o lambedor mais eficaz dos Inhamuns. Dizem que já curou até câncer de um ministro de Brasília. Pediram a ela que ajudasse o santo a melhorar. Se tivesse um foguinho pra fazer um chá pra ele, coitado...
  • Page 53os bichos e plantas que invadiam o lugar, abandonado até então. Buscaram lenha, arrumaram o que foi possível, o mínimo para preparar uma refeição. Ressurreição - dizia o padre.
  • Page 54Foi o pai de Francisco quem teve a ideia de pedir a um dos santeiros de Canindé que voltasse a fazer estátuas de santo Antônio para vender lá mesmo. Estavam proibidas, mas isso foi antes. Agora todo mundo queria. O santeiro Expedito foi conhecer a cabeça de perto para desenhar os detalhes e fazer igual. Foi quando reparou, num canto escondido, uma letra M com um círculo ao redor.
  • CobiçaCandeia renasceu. Voltou à vida pelas mãos das mulheres com sua fé, fazendo novena ao redor da cabeça do santo, acendendo velas, rezando dia e noite e esperando uma oportunidade de falar com o mensageiro. Queriam casar. Quase todas guardavam no peito um amor escondido, secreto, por vezes até proibido, mas sempre amor. Outras, nem isso. Nem sequer tinham um destinatário para as orações, uma dica para a ação do santo, mas queriam casar porque, no sertão, mulher que não casa é mandacaru sem flor. Depois, vieram os homens, atraídos pela curiosidade. Aécio Diniz conseguiu mais horários na rádio de Canindé e por lá não se falava de outra coisa. Quanto mais gente ia a Candeia, mais lucro para Samuel, Aécio e Francisco, sócios de improviso naquela empreitada.
  • Page 56Com a bênção do padre Zacarias, foram sepultados, chamados pelo nome, e uma missa foi celebrada em memória de todos sete dias depois do enterro. Além do padre e de Chico Coveiro, ninguém mais estava interessado nesses cadáveres descobertos. Queriam invadir as casas, refazer a cidade.
  • Page 57Disso ele estava cansado. Sua vida até ali fora ganhar dinheiro às custas da fé dos romeiros do Juazeiro, ganhar dinheiro cantando benditos, guiando no caminho do Santo Sepulcro, vendendo chapéus, pulseiras dos pedidos, tirando fotos de turistas. Até pouco antes, muito perto dali, o seu maior sonho era viver o máximo de tempo ao lado de Mariinha, rir com os amigos do Juazeiro, namorar as mocinhas do Horto, vender chapéus, cantar benditos. Esse sonho morreu com sua mãe.
  • Page 58É só explicar que o santo ajuda mas não garante. Inventa aí uma reza para elas, um sinal da cruz na testa, qualquer coisa. - Acho que a saída é dar um prazo, dizer que só funciona depois de quarenta dias. Daqui pra lá eu já vou ter saído daqui.
  • Caxias do SulO plano de Samuel era simples: receberia as mulheres dentro da cabeça, mandaria que dissessem o nome do pretendente, se fosse o caso, que escrevessem o nome num pedaço de papel e ele esfregaria no lado direito da cabeça do santo. Se não tivesse pretendente, bastaria o nome da moça, mas a esfregada seria no lado esquerdo. Essa escolha dos lados era para que a prática denotasse algum tipo de método, mas não passava de enrolação. Depois de esfregar o papel, anunciaria que o resultado poderia demorar até quarenta dias para fazer efeito. Em menos de dois minutos estaria encerrada a consulta. Ganhavam de trinta a quarenta reais por hora e isso não era nada, nada mau. Samuel estava animado: — Melhor que o salário de muito doutor por aí! Decidiram que não explicariam o procedimento ao padre Zacarias, ele poderia fazer perguntas e isso complicaria tudo. A única coisa que avisaram foi que o santo pediu que todos os casamentos fossem realizados na igrejinha de Candeia as moças também eram avisadas. Assim o padre ficou feliz e fez de conta que não estava vendo nada do que acontecia, o mensageiro que se entendesse com o santo.
  • Page 60para a limpeza dos pecados e que precisava andar diariamente de Candeia a Canindé para acender uma vela pra cada santo, Antônio e Francisco, que em vida foram amigos. Aos poucos Samuel foi incrementando os conselhos. Francisco cuidava de organizar a fila e recolher o dinheiro. Aécio Diniz coordenava as vendas de santos, medalhas, camisetas e outros apetrechos, além de dedicar quase toda a programação da rádio aos novos acontecimentos em Candeia. O lucro era dividido pelos sócios, sob a supervisão de Chico Coveiro, que não sabia somar dois mais dois mas era homem de muita honestidade.
  • Page 61Então você veio cheio da grana para Candeia? - perguntou o locutor. -Nada. Gastei tudo nas passagens. A noiva tomou o microfone: - Veio rico de amor e de beleza, isso é que é importante na vida.
  • Page 62para chegar a qualquer momento, assustado com as notícias sobre o que acontecera em sua ausência em tão pouco tempo. O segundo casamento chegou. E o terceiro, o quarto, o quinto. Mulheres que se consultaram com o mensageiro do santo e, inexplicavelmente, encontraram o amor das suas vidas. Samuel era convidado para ser padrinho de todos, até que Francisco explicou às noivas que isso não seria possível. Aconteciam três, quatro casamentos por dia. Os convidados dos noivos ajudavam a lotar a cidade.
  • Page 63A casa ficava relativamente perto da cabeça e, quando o dia amanheceu, muita gente veio de lá para tentar ler o que seria escrito ali. Como eram só duas palavras bem curtas, o mistério da casa preta foi descoberto antes que o casal de Baturité fosse linchado. No letreiro estava escrito: "Cine Rex".
  • CasablancaUm cinema em Candeia. Nada de macumba ou rituais macabros. A sala estava pintada de preto para garantir a boa visibilidade da tela. Marcaram a inauguração para dali a uma semana. Ainda precisavam arrumar as cadeiras, testar o projetor e esperar que os filmes chegassem. No dia da inauguração, as sessões seriam gratuitas para atrair a clientela, muita gente ali nem sabia direito o que era um cinema.
  • Page 65do padre Zacarias não deixava tempo para respirar. Ricos e pobres, gente de outros estados e até do estrangeiro vinham casar em Candeia. Enfim, chegaram os filmes novos e o Cine Rex ficou pequeno para tanta gente. Mesmo com a nova oferta de estreias, o público pediu que fosse mantida ao menos uma sessão de Casablanca, dia sim, dia não. O sr. Ary cuidava da programação. Passara a vida inteira esperando o dia de se aposentar da repartição para dedicar-se somente ao cinema, a segunda grande paixão da sua vida. A primeira era Thelma, sua esposa e única namorada. Os dois dividiram bem os trabalhos com o cinema. Ary cuidava da programação e da bilheteria. Thelma ajudava na escolha de alguns filmes e cuidava da lanchonete Thelma's. Suas comidas eram um espetáculo à parte, e por sua causa Candeia conheceu um prato italiano que virou febre na cidade: a lasanha da Thelminha.
  • Page 66O faro de Túlio nunca falhava: havia algo de muito podre no passado de Candeia. E o povo precisava saber disso.
  • CordelQuando o padre Zacarias recebeu o folheto de cordel com a história de Candeia, era tarde demais para impedir que aquilo se espalhasse. Nem eram nove horas da manhã e todos os habitantes da cidade já andavam com um folheto na mão. O título era A cabeça do santo e o folheto contava toda a história do lugar, desde que era vila, depois, quando virou cidade, até o dia em que fora condenada à morte e mais tarde voltara à vida com a chegada de Samuel, o profeta enviado por santo Antônio para morar dentro da sua cabeça.
  • Page 68passava de calúnia. Mas o velho padre era experiente e intuitivo o suficiente para saber que o cordel não contava nenhuma mentira. Osório, o prefeito, sugou o sangue de Candeia até a última gota. Os carros da imprensa não paravam de chegar. Várias cidades mandaram correspondentes, porque tudo naquele texto e naquele município era prato cheio para jornalistas. Aécio Diniz contratou um substituto para sua rádio e passou a trabalhar somente como assessor de imprensa da cidade. Quanto mais promoção, melhor para os seus negócios. Ele agora era sócio nas consultas na cabeça, na venda de santos e velas, no Cine Rex e até na venda de lasanha do Thelma's.
  • Page 69Vou ver como estão as condições e aviso daqui a pouco pra todo mundo entrar. Os outros jornalistas arrumaram suas câmeras e microfones e se aproximaram do portão de ferro, atentos à janela. Uns esperavam a ordem do paulista, mas outros já estavam no jardim quando ouviram um grito, um berro. O homem pulou a janela e saiu correndo da casa, seguido de uma matilha de mais de vinte cachorros enlouquecidos, latindo, rosnando, prontos para arrancar um pedaço de quem estivesse por perto. Os curiosos que cercavam a casa correram, apavorados. Subiam no telhado das casas, alguns atiravam, jogavam pedras, mas nada fazia com que os cães parassem de latir. Era um circo de monstros.
  • CuidadoA vida mudou muito para Samuel desde que chegou a Candeia como um morto-vivo. Ele agora não tinha mais a liberdade de sair para onde quisesse, quando quisesse, sem ser seguido por um monte de mulheres desesperadas. Para ir à casa da sua avó, precisou de um plano. Decretou que, naquele dia, o santo pedira que ele não falasse com ninguém, não consultasse, não conversasse e que ninguém ficasse perto da cabeça. Aproveitou e inventou também que santo Antônio pedira que ninguém rezasse para ele até seis da tarde do dia seguinte. Samuel queria silêncio para ouvir a Voz que Canta, havia tempos não conseguia escutá-la como gostava, com calma, com nitidez. Segundo o recado inventado do santo, seria um dia de limpeza de energias negativas da área. Quem ficasse por lá poderia ser prejudicado. Foi Francisco quem deu o recado ao povo que estava perto da cabeça, enquanto Aécio divulgava na programação da rádio. Deu certo. Samuel não contou aos amigos o que faria, só disse que precisava de um descanso e de silêncio. Eram quatro da manhã quando ele foi até a casa da avó, exatamente como na primeira vez. Assim que bateu palmas, com a barriga no portão, Niceia abriu a porta de dentro e apareceu. Samuel reparou na janela quebrada, tentou ver alguma coisa do interior da casa, mas era impossível. A câmera ainda estava lá, no chão. Ninguém teve coragem de ir buscá-la. Vai embora! Niceia foi firme.
  • Page 71Tá vendo essa cidade? Tá vendo esse mundaréu de gente, essa confusão, esse povo da televisão? É tudo por sua causa. A culpa é toda sua. · Minha, não! Eu não mandei o santo deixar o rádio ligado, eu não queria ir pra lá, foi a senhora que mandou...
  • CançãoNada o impediria de ir embora de Candeia naquele mesmo dia, se desejasse. Tinha dinheiro suficiente para ir a qualquer lugar até de avião. Não era mais o pobre estropiado que chegou ali sujo, descalço e mendigando água suja e pão seco. Agora tinha prestígio, dinheiro, usava roupas boas, ia ao cinema, comia lasanha todos os dias e dormia num colchão de molas, dentro da cabeça de santo Antônio. Ele também poderia ter saído de lá, construído uma casa ao lado. Dinheiro não era problema. Se não o fez, foi por causa da Voz que Canta. Se não saiu de Candeia desde que começou a ficar aborrecido com aquela rotina de consultas, mentiras e barulho, foi por causa da Voz que Canta.
  • Page 73Ele gostava quando a Voz falava do mar azul. "Vida de mar", ela dizia, isso ele entendia bem. Pensava no oceano, nos desejos de antes, nos tempos de criança em que as esperanças eram vivas. A Voz falava de saudade e ele pensava em Mariinha — mas sem tristeza, porque nem toda saudade é triste. Conseguia imaginar sua mãe junto com a família de mulheres que adivinhavam a morte como quem fala de uma viagem qualquer.
  • Page 74Capuz Quando sentiu que alguém mexia no pano da cortina, Samuel achou que fosse a dona da Voz, mas era um ataque violento de um sujeito encapuzado, que lhe trazia um recado.
  • Page 75Apertou a corda mais um pouco, até Samuel gemer. ― Já falei o que tinha pra falar. Fique quietinho até eu ir embora, não acorde ninguém, se gritar vai ser pior, porque eu não tô sozinho.
  • Page 76TERCEIRA PARTE
  • Page 77- História de antigamente é assim que já foram há muito tempo? - Sim, filho.
  • CachaçaAntes da grande desgraça acontecer, Candeia era viva. A igrejinha, lotada de fiéis, rezava ao padroeiro no seu dia. Pediam a santo Antônio as bênçãos para a cidade. No muro do cemitério, branco e limpo, praticavam-se as simpatias para arrumar marido e descobrir a cara do candidato. As moças jogavam ovos com fúria contra a parede e corriam para observar o possível desenho que a gema formava ao escorrer. Via-se de tudo, porque esperança e desejo obram o impossível. A fama daquele muro corria pelas cidades vizinhas e atraía o desespero das mocinhas, loucas para casar.
  • Page 79longa pausa. Tremeu o lábio inferior. O prefeito aprendeu isso num filme americano e achou bonito. ... o amor cristão e cristalino. Mas acredito que santo Antônio não está feliz conosco. Na verdade, tenho certeza de que o pobre santo deve até estar aborrecido com cada um de vocês, povo de Candeia. Entreolhares apavorados na plateia. O prefeito continuou, impávido: Como é que uma cidade que tem santo Antônio como padroeiro prossegue com a vergonha de não possuir nenhuma grande estátua em homenagem a ele? Pois hoje eu venho, povo de Candeia, anunciar que assinei um contrato com a empresa M. J. Engenharia, responsável pela construção de belíssimas estátuas sagradas pelo Brasil, para construir no morro uma estátua de santo Antônio com vinte metros de altura. O povo vibrou!
  • Page 80quanto Fernando, um comerciante português que andava de passagem pelo sertão e sentiu cheiro de prosperidade por ali. Fernando vendia tecidos e andava pelo mundo todo. Lidava com pequenas peças de pano e grandes vendas. Intermediava negócios entre São Paulo e o Senegal, trocava rendas cearenses por seda chinesa. Consignava a importação de sáris indianos para lojas do Rio de Janeiro. Falava várias línguas, o Fernando. Conversava embriagando, era o que diziam. Não havia como entrar numa negociação sem que o resultado fosse favorável para ele, sempre sorridente, sempre com o par de olhos amendoados envolvidos na transação.
  • Page 81Meticuloso, um operário local que se destacou por sua inteligência no desenvolvimento do trabalho. A alcunha de Meticuloso lhe fora dada pelo engenheiro, embasbacado com sua natural inclinação para a perfeição, concentração e cuidado com os detalhes. Ficaram amigos, e o engenheiro admitiu que aprendeu com ele muitas coisas que ninguém sabia na faculdade de engenharia. O pobre homem chorou diante do prefeito. Quanta honra. O engenheiro viajou e Meticuloso não pôde evitar uma breve comemoração com os amigos. Tinha cachaça e churrasquinho. Muita cachaça. No dia seguinte, os oito homens encarregados de montar a cabeça do santo foram à casa de Meticuloso às sete horas da manhã e ele ainda estava bêbado. Perguntaram, então, o que fazer para começar a montagem da cabeça, se aguardavam ordens ou se montavam logo.
  • Cristo RedentorDemorou para que ele conseguisse conter a fúria e fosse controlado pelo povo. O polido e educadíssimo engenheiro descabelou-se todo e queria bater no Meticuloso. Queria matar o homem e só depois ele conseguiu explicar por quê: a cabeça teria que ser montada no alto, já sobre o pescoço da estátua, com a ajuda de uma estrutura de andaimes que estava a caminho. Ele tinha quase certeza de que aquela cabeça, montada no chão, jamais poderia ser levada para o corpo do santo. Sua suspeita foi confirmada por um técnico trazido do Rio de Janeiro para avaliar o caso. A prefeitura não tinha sequer o dinheiro para a passagem, mas o engenheiro pagou do próprio bolso. Era o preço de salvar a obra que o levaria à prosperidade ou ao fracasso.
  • Chico CoveiroFoi difícil conter o povo que acompanhava Francisco levando Samuel para a casa dos seus pais, Chico e Gerusa. A casinha ficava nos fundos do cemitério e era preciso atravessá-lo para chegar até lá. Foi o jeito fechar o portão principal, com cadeado. Só destrancaria quando o povo se acalmasse, o que estava demorando a acontecer. A descrição do pescoço ferido, do olho fechado e do sangue saindo pelo nariz de Samuel espalhou- se muito rapidamente entre os romeiros da cidade e entre todos que chegavam ali. Já estava perto da romaria para são Francisco de Canindé, e muita gente aproveitou para passar em Candeia e pedir um casamento ao mensageiro de santo Antônio. A eficiência na difusão da notícia fez com que o dr. Adriano chegasse lá rapidamente, mesmo não sendo seu dia de consulta. Levou material para curativo, remédios e, especialmente, a sua amizade.
  • Page 84fazer do momento o mais leve possível. Tratavam-se com um carinho natural, amor de gente simples, no olhar, no gesto, sem disfarces. Eram uma família. Samuel observava do sofá e tinha o coração dividido entre a gratidão pela acolhida e a profunda tristeza de não fazer parte daquela vida, por não ter família. Nem mãe, nem pai, nem irmãos. Ninguém que soubesse de seu passado, que O amasse incondicionalmente, a quem ele pudesse confiar seu amor.
  • Page 85Chico Coveiro via a tristeza nos olhos do rapaz e pousou a mão no seu ombro. - Acho que ele foi o único que não gostou da sua chegada, você trouxe muita alegria pra gente.
  • Cabo VerdeAntes de completar seis meses de casado, Fernando anunciou a Helenice que precisava fazer uma viagem de negócios e que talvez fosse longa. -Mas por que logo pra África? Isso é uma desgraça! - Chorava como se fosse sufocar.
  • Page 87dependia de vento batendo no rosto. Por tudo isso não pensou duas vezes: Fernando foi sentir o vento na África. Não era mentira, ele ia mesmo comprar os panos para o Carnaval do Rio de Janeiro. Logo que chegou a Cabo Verde, sua primeira providência foi tirar a aliança e esconder muito bem. O plano inicial era ficar mais ou menos um mês na ilha de Santiago, aguardando a chegada de uma remessa de tecidos do Senegal, e depois voltar para casa. Nos primeiros dias fez amizade com o dono de uma lojinha no Sucupira, o gigantesco mercado a céu aberto onde se vende de tudo.
  • Page 88pele do português, ele sentiu que seria capaz de tudo, de qualquer coisa na vida, para que aquela mulher fosse sua e cantasse só pra ele. Ela sentia o mesmo desde que o viu. Não demorou para que Fernando alugasse uma casa ali perto do Sucupira e fosse morar com Maria. Ampliaram um pouco a lojinha e vendiam sibitchi e tecidos Senegal e as sedas indianas que lhe restavam.
  • Page 89Você casou com ela no padre, isso é coisa séria. Mande uma carta de vez em quando. - Mas eu não quero voltar nunca mais pra lá. Em Candeia não tem vento. E eu gosto é de você, da minha Rosário, do meu Cabo Verde.
  • Page 90Fernando apresentou Rosário como uma criança perdida que encontrou na África e resolveu adotar. Helenice acreditou, louvou a bondade do marido e aceitou acolher a menina como sua filha. As duas crianças ficaram muito amigas. Tinham quase a mesma idade e gostavam de brincar juntas, apesar de alguma diferença de língua e de hábitos. Fernando providenciou, de imediato, o registro e batizado da filha legítima. Batizou-a de Madeinusa.
  • Page 91do pai, os mesmos olhos ele disse. Só muda a cor da pele, no resto são iguaizinhas. Deus abençoe essas irmãs, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Desde que começou a notar as semelhanças entre Rosário e Madeinusa, Helenice tentou afastar esse pensamento. Não poderia ser. Uma mãe não entregaria a filha assim, a não ser que ali se tratasse de um sequestro. Por mais que ela tenha tentado não dar ouvidos às suas desconfianças, o clima entre os dois ficou tenso demais para que ela pudesse dormir mais uma noite sem ter certeza da verdade.
  • Page 92que nunca mais, que sua mãe não estava naquela luz, que Helenice pretendia matá-la e só não o fez por falta de coragem. Sorriu, com olhos de sono, surpresa e a inocente alegria da expectativa do reencontro. Corre, Rosarinho! Corre pra ver tua mamãe!
  • Page 93livrar-se novamente da criança antes de Madeinusa acordar.
  • CativeiroFrancisco contou para Aécio, que contou para a namorada, que contou para Madeinusa, que pediu a Adriano que a levasse urgente até a casa dos pais de Francisco. Precisava falar com Samuel. Entrou sem pedir licença na casa de Chico Coveiro, interrompendo a conversa, de supetão: — É verdade que você escuta uma voz cantar às cinco da manhã, todo dia? Samuel estava atordoado.
  • Page 95ela e com meu pai esses anos todos, e foi assim que eu soube que ela era minha irmã. - Soube como?
  • CadeiaQuando Madeinusa saiu, Samuel, Chico, Francisco e Gerusa retomaram a conversa do ponto onde tinham parado. Voltaram a puxar o fio da desgraça. Só quem viveu o ano da desgraça em Candeia sabia o nome verdadeiro do Meticuloso, o homem que arruinou a vida daquela gente. Chico Coveiro o conhecia muito bem, brincavam juntos na praça. Perderam o contato desde que Manoel começou a trabalhar viajando para outras cidades.
  • Page 97Samuel não conseguia pensar. Já era tarde e a única coisa que ele queria naquele momento era passar a última noite na cabeça do santo, ouvir a Voz como despedida e ir embora, para sempre. - É arriscado, mas eu tenho um plano - disse Francisco.
  • Page 98lugar, certamente sem resistência. Os poucos velhos que sobravam estavam para morrer. Era questão de pouco tempo. A ideia era vender o terreno de Candeia para uma empresa que construiria uma fábrica ali, mas Osório só poderia fazer isso quando todas as casas estivessem - ilegalmente - em seu nome.
  • Page 99QUARTA PARTE
  • Page 100... había necesitado muchos años de sufrimiento y miseria para conquistar los privilegios de la soledad. Gabriel García Márquez
  • ConselhoVocê é tão forte quanto eu. Não nega que é meu neto. Samuel estava com fome, com sede, perturbado, e não conseguia ver nenhum sinal de força na sua condição. Seus sentimentos pela velha louca eram confusos. Tinha medo, raiva, mas ainda pesava o fato de que ela restava como a única ligação viva com seu passado e com a prova de que Mariinha um dia existiu na face da Terra. Sorriu, um pouco, tentando agradecer sua presença.
  • Page 102Porque era boa demais. Minha mãe nasceu e morreu sem ver maldade no mundo, pobre, miserável, enterrada numa rede. Samuel chorou. Detestava chorar, mas chorou na frente da avó, daquela velha decrépita que, mais uma vez, era incapaz de ajudar.
  • Page 103Eu não quero ver isso. Também acho que não deve.
  • Page 104Corpo Foi a primeira vez que Samuel viu Osório. Até então só conhecia os seus capangas e sua fama de desonesto. O antigo prefeito entrou na delegacia acompanhado de Helenice e do padre Zacarias. Um dos capangas abriu a cela de Samuel e ordenou que ele permanecesse sentado. Nem precisava: mal tinha forças para abrir os olhos. Helenice disparou imediatamente os seus insultos: -Eu não sei de que inferno você saiu, mas é pra lá que vai voltar. Gente ruim não pode gerar coisa que preste. Quando a gente pensava que estava livre da desgraça, aparece o filho do Meticuloso pra desgraçar tudo de novo.
  • Page 105Samuel recuperou-se rápido, e levantou para ir embora e cumprir o prazo. Deveria partir antes das cinco da tarde do dia seguinte. De fato, havia muita gente na porta da velha delegacia. Fiéis, amigos, emissoras de televisão, jornalistas, um mar de gente vestida de roupa marrom. Francisco correu para abraçar o amigo, comovido. Lembrou-se do dia em que o viu pela primeira vez. A cidade inteira já sabia da ordem de Osório, os explosivos estavam instalados, ninguém poderia mais chegar perto da cabeça do santo.
  • Page 106Chico Coveiro entregou a caixa de fósforos e a vela para Samuel. Os cães ficaram inquietos nesse momento, latindo, como se quisessem falar, andando em direção aos pés do santo. Samuel lembrou-se de que a vela precisava ser acesa nos pés. Lembrou-se de Niceia pedindo que ele contasse ao santo sobre sua raiva por aquilo tudo, e pediu aos amigos que descessem um pouco para que ele pudesse rezar pela primeira e última vez na vida. -Eu não sei rezar, seu santo. Só sei que minha vida hoje é uma desgraça e a culpa é sua. Tá vendo aquilo lá embaixo? Tá vendo essas marcas no meu braço, de arranhão, de murro? Tudo culpa sua.
  • Page 107· Eu endoidei. Ô minha mãe, eu endoidei! Não quero mais ouvir voz nenhuma. Samuel ajoelhou-se no chão, com as mãos nos ouvidos. Pelo amor de Deus, me perdoe. Eu precisava tanto te pedir perdão, Samuel.
  • Page 108Vamos embora daqui. — Madeinusa teve medo. O mato ao lado do pé do santo moveu-se de repente, afastado por um pé humano de unhas crescidas que surgiu de um buraco no corpo da estátua. O diâmetro era a medida certa para a passagem de um homem muito magro, com uma calça velha amarrada na cintura por um fio elétrico que fazia as vezes de cinto.
  • ContasChico Coveiro abraçou Manoel, mas Samuel não chegou perto dele. Não o reconhecia como pai. Não era um reencontro, não poderiam falar de amor ou de saudades. Seus dezesseis dias de caminhada tinham o objetivo de matar o homem que estava na sua frente, que deu à sua mãe um filho e uma doença. Manoel, o Meticuloso, responsável pela maldição de Candeia. O ciclo estava completo, Samuel encontrara o seu pai. O plano inicial estava cancelado, não se mata alguém já tão abandonado pela vida. Talvez Manoel só tivesse persistido como um quase vivo por obra do santo. Não que Samuel, agora, fosse um homem de fé, mas não poderia mais negar que santo Antônio tem suas artes. Enquanto Adriano, muito assustado, sentava o homem no chão para examiná-lo, Samuel foi até o buraco de onde o pai saíra poucos segundos antes. Eram da mesma altura e tinham quase o mesmo peso, e por isso conseguiu passar e entrar na parte interna da estátua.
  • Page 110pensava. Era aqui que ele estava. Era bonito olhar para cima e ver as nuvens passando, com calma, pelo buraco da degola. Samuel sentiu paz ao ver as nuvens, distraiu-se tentando adivinhar suas formas. Será que fora de seu pai que ele herdara aquele gosto por ver as horas passando no céu? Elas continuavam andando em marcha lenta, na mesma brancura de sua infância, sem alterar o seu curso, sem dar a menor importância ao que acontecia lá embaixo.
  • Page 111habitada por ratos, tomada pelo mato, mas surpreenderam-se, encontrando uma sala arrumada e limpa, como se ali o fluxo da vida nunca tivesse parado. A avó não estava em casa. Chamou por ela, sem sucesso. No primeiro quarto que encontraram, uma colcha vermelha de crochê cobria a cama de solteiro onde Manoel foi colocado. Chico pediu a Samuel que ficasse com o pai enquanto ele buscava água em algum lugar.
  • Page 112Nem pode. A Justiça está te procurando, você tem que fugir. Inventaram muita coisa, disseram que a gente roubou dinheiro dos ignorantes. Eu tentei dizer que foi tudo culpa minha, mas ninguém acredita explicou Francisco. Tu mente tanto que nem adianta mais querer ser honesto.
  • Page 113Chico Coveiro levantou-se para dar o abraço de que Samuel precisava. Agradeceram por tudo, um ao outro. Chico disse que dr. Adriano prometera cuidar do seu pai, até que ele recobrasse a vitalidade normal. Aliás, dr. Adriano não sabia como ele sobrevivera. Seu corpo guardava sinais de picadas de cobra, desnutrição, doenças de pele e um possível comprometimento do pulmão. Madeinusa sabia de sua partida, e também deixou um abraço e um recado: não tinha nenhum sinal de Rosário. Não desistiria da busca e esperava que um dia pudesse encontrá-la. Agora, sem o acesso à cabeça, perdera a última pista da irmã. Talvez fosse impossível. Existia o risco de Helenice ter acabado com a vida da moça algo que poderia ter acontecido muitos anos antes.
  • Page 114Manoel. Não havia ninguém na casa. Procurou na sala, na cozinha, por todos os cômodos. Quase todos. Samuel notou, à esquerda, uma porta trancada. De início pensou que fosse um armário de parede, onde se guarda qualquer coisa, mas depois teve vontade de abrir. Precisou forçar a porta e encontrou um quarto, uma cama grande de casal, coberta com uma colcha de crochê preta, e um mosquiteiro de filó por cima. No mais perto que conseguiu chegar, viu o corpo mumificado de uma mulher idosa, com o vestido que Niceia usava todas as vezes que encontrou com ele. Era uma morte de muitos anos. Os raros cabelos brancos espalhavam-se sobre o crânio, coberto com pele seca como carne de charque. As mãos, entrelaçadas, seguravam um rosário da Mãe de Deus que hipnotizou Samuel: no meio das contas azuis, viu a conta verde do rosário de Mariinha.
  • Page 115A velha estava certa. Eram quase quatro horas da manhã e Aécio estava a postos com seu fusca ligado, esperando para levá-lo embora de Candeia. Só deu tempo de Samuel pegar as velas e a caixa de fósforos, antes de sair daquela casa, entrar no carro e partir.
  • CanindéPor quê? Eu preciso passar em Canindé antes de fugir.
  • Page 117Tinha uns esconderijos lá dentro, por debaixo da terra. Ele tinha os cachorros, tinha a mãe dele. Estava protegido esperando a morte. Você não quer ficar com ele?
  • Page 118Antes vinha da minha mãe. Desde que ela morreu, acabou-se. Mas dentro da cabeça, às vezes, eu sentia. - Por causa do santo?
  • CoragemAlgumas músicas de Roberto Carlos depois, eles chegaram a Canindé. O plano de Aécio era entregar-lhe o dinheiro que Francisco mandara e em seguida levá-lo para algum lugar, mas Samuel disse que ficaria ali mesmo. Homem, tenha cuidado. Osório tá dizendo que você anda com dinheiro roubado dos pobres, eles podem te pegar.
  • Page 120embora. A bênção, minha mãe. Agora é por minha conta. Lá do alto Samuel avistava a CE-020, para onde ele pretendia descer e pedir carona para Fortaleza. Voltar pelo espelho d'água com o chapéu na cabeça foi um pouco mais fácil, o problema era que o menino roubara suas roupas. Estava parado, longe, com tudo nas mãos e rindo de Samuel. O problema maior era a caderneta de telefones, seu único vínculo com os amigos de Candeia, a única possibilidade de saber notícias de Rosário, caso ainda estivesse viva.
  • Page 121- Precisa não. -Chica, traga uma muda de roupa pro rapaz.
  • Page 122Rosário e tirei-a daquele lugar horrível. Helenice não sabe, nunca soube. Nem Madeinusa. Rosário tem muito medo de ser morta como o pai. Nós todos temos medo. Rosário tem medo? Ela está viva? O senhor sabe onde ela mora? Na casinha dos fundos.
  • Page 123Dizendo o quê? "Coragem", "perdão", "amor", uma palavra para cada vela. "Coragem", "perdão", "amor". Você entende o que é isso?
  • AgradecimentosAs primeiras ideias deste romance foram escritas em 2006 para a oficina de criação e roteiro "Como contar um conto", ministrada por Gabriel García Márquez na Escuela de Cine y TV de San Antonio de Los Baños, em Cuba, entre 2 e 5 de dezembro. A aprovação, o entusiasmo e o incentivo de García Márquez diante deste projeto foram fundamentais para que eu seguisse com o trabalho até o fim, e é por ele que começo os meus agradecimentos. Mais que isso: o livro é para ele. Também sou grata à EICTV, a María Julia e Alquimia, pela oportunidade de fazer parte da última turma dessa prestigiada oficina.
  • Page 125luz necessária para o amadurecimento do texto e das questões que o envolvem. A Dauna Vale, que me levou para conhecer a cabeça do santo verdadeira, em Caridade.
  • RENATO PARADASOCORRO ACIOLI nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna de Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em San Antonio de Los Baños, Cuba, e publicou livros de diversos gêneros, como os ensaios biográficos Frei Tito e Rachel de Queiroz (ambos Edições Demócrito Rocha), e obras infantojuvenis, entre elas A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013.
  • Copyright © 2014 by Socorro AcioliCapa Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
  • Elisa von RandowImagem de capa Márcio Vasconcelos
  • Jane PessoaValquiria Della Pozza ISBN 978-85-8086-935-4
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Você tinha dito que ia embora quando ficasse bom da perna.

E eu tenho culpa de ouvir essas coisas?

Tem mais mulher falando?

Samuel encostou o ouvido lá no topo da cabeça, por dentro.

· Tem só uma cantando, mas é baixo. Canta lindo, essa aqui. Preciso nem de radinho de pilha.

- São quantas?

Muitas. Mas com a voz alta que dê pra ouvir só umas cinco, seis. Preciso de um carvão pra marcar, parece que o lugar das vozes é o mesmo todo dia.

- Só tem essa que canta?

- Só. Devem ter parado de rezar pra colocar a janta. Por falar nisso, cadê minha comida?

Até o dia da consulta, Francisco e Samuel permaneceram na cabeça estudando o fenômeno das orações que reverberavam no crânio gigantesco e oco do santo Antônio. Com um pedaço de carvão, Samuel marcou as áreas das vozes e chegou à conclusão de que só conseguia ouvir bem quatro mulheres, as outras vozes eram muito fracas, falhavam como rádio de antena quebrada. Foi nessa inspeção mais detalhada que ele notou uma letra M, pintada de branco, com um círculo ao redor. Alguém deixara sua marca ali antes dele, mas não indicava nenhuma relação com as vozes. Só um M, nada mais.

Francisco, que conhecia a todos da cidade, descobriu de quem era cada voz. Por mais desconfiado que estivesse a princípio, entendeu que não seria possível o forasteiro conhecer tanto assim a vida daquelas pessoas, nomes, detalhes da rotina. Elas abriam o coração para o santo.

O fato é que Samuel tinha o poder inexplicável de ouvir os segredos que só santo Antônio poderia conhecer. Se era por falha do santo, ou engenho do demônio, não se sabe. Aquele era o segundo acontecimento mais bombástico da história de Candeia. O primeiro foi no dia em que o engenheiro do Rio de Janeiro disse à população que o crânio gigante jamais seria posto sobre o corpo no alto do morro. Ele estava certo. A cabeça de santo Antônio permanecera no chão, para sempre, como prova e testemunha do erro irreversível que fez a desgraça do povo de Candeia.